quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Ele não podia ver sangue

As encomendas como as bombas
Começou com a pandemia e veio para ficar. As encomendas agora chegam-nos a casa sozinhas no elevador. Como as bombas. Nos filmes.

Há homens realmente assim, hematofóbicos por natureza ou acidente, ainda que não o saibam e nem sequer conheçam a palavra. Por exemplo, Avelino Ferreira Torres (1945-2019). Personalidade polémica, com coutadas no futebol e na política, pelo menos, mais que provável introdutor do "populismo" em Portugal e eminente prometedor de lamparinas, foi presidente da Câmara do Marco de Canaveses durante mais de duas décadas. Teve nome em estádio e em vida, participou no reality show Quinta das Celebridades, da TVI, por onde também passou o nosso grande Tino de Rans, e esteve envolvido no processo Apito Dourado.
Paradigma rústico do quero, posso e mando, irascível, provocador, feitio rufião, sempre com uma ameaça na ponta da língua e disponível para resolver todas as questões à estalada, suspeito de ligação à rede bombista de extrema-direita (MDLP) no pós-Abril de 1974, Ferreira Torres passava a vida nos tribunais, acusado de tudo e de mais alguma coisa. De incitar à violência num jogo de futebol, de peculato e peculato de uso, com condenação, de falsificação de assinatura, de abuso de poder, de gestão danosa, de enriquecimento ilícito, de corrupção, de extorsão e até de ter ordenado a morte, não concretizada, de um ex-colaborador.
Conheci Avelino Ferreira Torres. Entrevistei-o, se não me engano, pelo menos três vezes. "O senhor é mesmo capaz de mandar matar pessoas?", perguntei-lhe uma ocasião para o jornal 24horas, que gostava muito destas coisas. Indignadíssimo, mas via-se que era a fingir, Avelino respondeu-me aos berros, ditando-me cuidadosamente as palavras, sílaba a sílaba, e apontando com o dedo autoritário para o meu bloco de notas, a ver se eu estava a escrever bem:
- Que me mostrem onde é que eu mandei matar alguém. Mostrem! A partir de certa altura, eu deixei de poder ver sangue, valha-me Deus. Quando era criança, via e até ajudava a matar as galinhas e os porcos lá em casa, mas agora, se vejo sangue, viro logo a cara para o lado. É logo! Eu sou incapaz de matar uma mosca..." - disse ele.
- E duas? - insisti eu.

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