quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

O caguinchas e o chupista

A explicação do cobarde
Mais vale sê-lo que estampilha.

Ora muito bem. O caguinchas é o cagarola, o não-se-astrebe, o medricas, o medroso, o merdoso, o maricas, o coninhas, o cobardolas, o caga-na-saquinha, o cagão, o varas-verdes, também o receoso, o temeroso, o fraco, o covarde ou o cobarde, mas esta parte já não tem piada nenhuma.
E o chupista? O chupista é o comedor, o parasita, o gosma, o chulo, o mamador, o mamão, o lambão, o sanguessuga, o rapador, o papa-jantares, o moina, o moinante, o chorinhas, o pedincha, o pedinchão, o videirinho, também o beberolas, o cachaceiro, o beberrão, o interesseiro, o extorsionário, o chantagista, o nosso banco, o fisco, o oportunista ou o aproveitador, mas esta parte já não tem piada nenhuma.
Caguinchas e chupista. Feitios. Se estes dois desgraçados traços de carácter coincidirem numa mesma e única pessoa, então, consoante o feitio dominante, estaremos na presença de um chupinchas ou de um caguista. E em Fafe havia-os e certamente ainda há-os.

Por outro lado. Em Fafe havia o tasco do Parasita, tinha de haver, claro, e o Chupiu. O Chupiu era um tasco do mais tasco que pudera existir naquele tempo, alapado entre o Estádio e o Belinho, no gaveto do início do Picotalho com a Rua José Ribeiro Vieira de Castro, e evidentemente não tem nada a ver com o assunto em apreço. Se fosse hoje, o Chupiu faria concorrência ao McDonald's, do outro lado da rua, e eu preferiria sempre o Chupiu. Curiosamente, o Belinho, para além de outras extraordinárias competências, tocava tangos no acordeão e cantava rockabilly, com "Rock around the clock" logo à cabeça, tinha um café lá para as traseiras do prédio ao lado da sede do PCP, após a oficina do marceneiro, um espaço aparentemente balançando entre o clube privado e a associação recreativa, e eu, para não dizer mais, acho que nunca percebi muito bem o que aquilo era realmente...

sábado, 18 de janeiro de 2025

À Justiça o que é da Justiça

Foto Tarrenego!

O bom, o mau e o sermão
"Não oponhais resistência ao mau; se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra", ensinou Jesus no Sermão da Montanha (Mt 5, 39). Ora isto de querer fazer de nós bonzinhos à força parece-me um perigoso incitamento à violência. À violência do outro, do mau. Que ainda por cima vai ser mais mau, pela segunda vez, e por nossa culpa, nossa tão grande culpa.

Um querido amigo pediu-me ajuda para um trabalho que estava a fazer: se eu lhe conseguia "resumir em duas linhas o porquê" da expressão "Com Fafe ninguém fanfe". Ele merecia resposta, porque acamaradou comigo em tantos e tantos dos meus fugitivos regressos à terra, tornando-se, por via disso, um extraordinário fafense amador. E eu resumi assim: "Com Fafe ninguém fanfe" quer dizer, tão-só, com Fafe ninguém se meta. Porque, quem se meter, leva! E tem a sua origem nas lendas da Justiça de Fafe, que muito boa gente confunde, hoje em dia, com fazer justiça pelas próprias mãos. Não é nada disso. A Justiça de Fafe deve ligar-se, antes, à defesa da honra.
Ou por outra. A Justiça de Fafe é a metáfora folclórica de uma gente de paz que não gosta de levar desaforo para casa, ou que costumava não gostar. Gente de paz, mas tesa. Nós, os fafenses. Quem se meter com os de Fafe, quem nos ofender de graça, recebe o troco, e que mal tem isso? O resto é treta, mais ou menos erudita. Geralmente menos. Muito boa gente confunde, hoje em dia, este velho sentido de verticalidade com fazer justiça pelas próprias mãos, mas é um engano redondo. A Justiça de Fafe deve ligar-se, antes, à defesa da honra. A coça é semântica.
Isto e mais nada. Nem luta de classes, nem bullying, como se diz agora, nem administração de justiça privada, nem apologia da justiça popular, nem jogo do pau, nem fanfarronice, nem sacholadas, nem pistolas e navalhadas, nem bordoada por dá cá aquele copo, nem ciganos, nem Felizardos, nem Ardegões, nem outros Ardos ou Ões. Tudo equívocos. As lendas têm costas largas, de toda a conveniência para o caso em apreço, mas saber ler antes de escrever e pensar antes de falar também nunca fez mal a ninguém.

E não. O jogo do pau não é "uma das maiores tradições do concelho" de Fafe, como equivocamente se escreve na propaganda autárquica, a mesma que, talvez por anedota, considera "controverso" o nosso verdadeiro ex-líbris, a Justiça de Fafe. O jogo do pau é tão tradição em Fafe como em Lisboa, na Terceira, em Trás-os-Montes, no Ribatejo, na Estremadura, no Algarve ou na Galiza. Sabíeis que o "Jogo do Pau de Cabeceiras de Basto" é património cultural imaterial desde 2023? Isso, o jogo do pau de Cabeceiras de Basto. O jogo do pau é tão tradição em Fafe como a sueca, o futebol ou a malha, o esconde-esconde, o dominó ou a petanca, que se jogam em todo o lado. E que não se pense o contrário: eu gosto do nosso jogo do pau, e conheci e aprendi, sobretudo vida, com grandes "puxadores", veneráveis mestres como o Sr. José do Santo ou o Moleiro do Lombo, mas a verdade é para ser dita.
Não. O jogo do pau não foi inventado em Fafe, não deriva da Justiça de Fafe. Nem a Justiça de Fafe deriva do jogo do pau. A Justiça de Fafe é outra coisa, é lenda, lenda nossa, exclusiva, de honra, insisto, e, bem vistas as coisas, uma das poucas tradições genuínas do concelho de Fafe, que as há, como o nosso falar antigo, inimitável e pitoresco.

Não vamos mais longe. Podíamos ir à Porca de Murça ou às pedras parideiras da serra da Freita, podíamos até ir aos caralhos das Caldas, mas não vamos mais longe: deitemos os olhos aqui ao lado a Guimarães, que após Arões é sempre ao baixo e sem portagens. A vaidade que os nossos vizinhos fidalgos têm na estátua de D. Afonso Henriques, esse gandulo que usava saias e batia na mãe! Ainda por cima, existiu mesmo, e a nossa Justiça de Fafe é só bazófia, invenção - mas é a coisa mais bonita a que nos podemos agarrar, para além da forca de Moreira do Rei, que também não consta da História a sério (ou à séria, se lido em Lisboa).
Os reis de Espanha vieram de visita a Portugal e o nosso presidente Marcelo levou-os a Guimarães e à estátua do tratante, do Afonsinho: a Letizia e o Felipe puseram-lhe flores. E eu gostava de ver o mesmo com a nossa Justiça de Fafe. O mesmo, quero dizer, flores, que de reis e presidentes-reis, embora façam um figuraço nas montras da especialidade, passamos muito bem sem eles.
Mas não. Durante anos o monumento à Justiça de Fafe, pelo contrário, foi mantido longe dos olhares forasteiros, escondido, como se tivesse sido feito por engano, como se tivesse nascido com defeito, como se fosse um erro, um aborto, como se nos envergonhasse. A injustiça foi finalmente remediada, com a nova praça, a aproximação do monumento às pessoas e o sucesso que se sabe. Esbarram-se umas nas outras as iniciativas, apresentações e romarias que ali têm lugar, é ali a nova sala de visitas da cidade, não há viageiro que por lá não passe. De mota, bicicleta, trotinete, patins, carro, camião ou carrinho de rolamentos. Toda a gente tira fotografias com a "estátua" e mete nos facebooks, espero que a autarquia não se lembre de cobrar bilhete. E flores, há-as?
E há mais. As Caldas da Rainha orgulham-se dos seus fradinhos arrebitados, erguem bem alto os seus avantajados membros cerâmicos, e disso fazem negócio, turismo, riqueza. Não estará na altura de Fafe fazer o mesmo com a sua Justiça?

A Justiça de Fafe foi sempre importante para mim. Tenho muito orgulho nela. Desde a época dos postais, das quadras do Zé de Castro, que ainda por cima era meu vizinho, dos calendários, das t-shirts estampadas, do cartaz das Festas da Vila, da idade da razão. Gosto da lenda, percebo-a, conto-a, explico-a, contextualizo-a, acompanha-me desde que eu nasci, passou comigo pelo seminário, pelos Comandos, pelo jornalismo, identifica-me pelo mundo fora, e até aprecio o monumento, embora sempre o tivesse desejado mais central.
E, por minha culpa, a Justiça de Fafe também é importante para a minha família. Nunca a abandonámos, mesmo quando parecia que ninguém a queria. Ali em cima está o Kiko, meu filho, fotografado pela Mi, a mãe, minha mulher, ainda o mundo acabara de ser inventado. Olhai para ele. O Kiko, que é fafense nascido no Porto, fará 41 anos em Abril, coitadinho, vede ao tempo que aquilo vai, e leva-me à "estátua" de vez em quando para matarmos saudades e comermos uma vitelinha como só na nossa terra. Eu e a patroa também lá costumamos ir de visita ao monumento como quem vai a Fátima ou a São Bentinho, três ou quatro vezes por ano, não sei se da próxima será preciso fazer marcação...

domingo, 12 de janeiro de 2025

Mulheres nuas no Vaticano

Jornalismo
Mas que grande desgraça! Que tragédia! O dia mais negro daquela terra! O ambiente só aliviou um bocadinho quando os jornalistas encontraram o cadáver do sobrevivente...

Madeleine McCann desapareceu. E o desaparecimento da "pequena Maddie" foi o melhor que aconteceu ao meu jornal naquele ano de 2007. As notícias saíam que nem pãezinhos quentes, para delícia de um público ávido de drama, coscuvilhice e sangue cor-de-rosa. E se não havia notícias, "inventavam-se" notícias. O monstro precisava de ser alimentado e as vendas iam de vento em popa.
Uma vez o chefe mandou-me ligar ao Presidente da República, a todos os antigos presidentes da República vivos, ao primeiro-ministro, a todos os ex-primeiros-ministros vivos, ao presidente da Federação Portuguesa de Futebol, ao seleccionador nacional, que era o Scolari, aos presidentes e treinadores de FC Porto, Benfica e Sporting, ao Freitas do Amaral (já não me lembro como é que este apareceu na lista, mas ele aparecia sempre), ao cardeal-patriarca de Lisboa e... ao Papa. "Ao Papa?", perguntei eu, só para ter a certeza. "Sim, pá! Liga ao Papa! Queremos um depoimento do Papa sobre o desaparecimento da Maddie". Foi assim, palavra de honra, que o chefe me respondeu.
Portanto tinha de ligar ao Papa, que era Bento XVI. O resto era fácil, era como se já estivesse feito. Pelo prestígio, pelo rigor e seriedade, pela sua inatacável ética editorial, pelo respeito e admiração que impunha na sociedade portuguesa, o jornal onde eu trabalhava, e que só fazia merda, tinha praticamente linha directa com aquela gente toda. Agora, falar com Sua Santidade, isso, sim, seria um desafio, e ainda por cima eu estava muito mal visto no Vaticano, pelo menos desde 1987, quando lá fui com Cavaco Silva, no seu tempo de primeiro-ministro. É claro que eu podia enfiar-me no bar o dia inteiro a "tentar ligar ao Papa" e à hora do fecho da edição avisava o chefe, em Lisboa, de que "Não consegui, pá, desculpa, o gajo armou-se em difícil, não fala, eu ainda disse que ia da tua parte, mas nem assim o tipo se descoseu, sabes como são os alemães, teimosos do caralho". Porém, apesar da fama que faço render, eu não frequentava o bar.
Pensei então: o que é que há de mais parecido com o Papa e a que eu possa realmente chegar? E lembrei-me: o cardeal português D. José Saraiva Martins, que também estava em Roma como o outro, o Ratzinger, e creio que ainda era prefeito da Congregação para as Causas dos Santos. Meti as mãos ao caminho, fiz chamada atrás de chamada e ao fim da tarde consegui enfim falar com ele. Atendeu-me cheio de bondade e essessss nassss palavrassss. Conhecia o caso, sim, e deu-me a sua opinião numa conversa de quase um quarto de hora. Falou-me da menina desaparecida, disse-me que rezava por ela, mas lembrou, com lucidez e sabedoria, que é fundamental que os pais não se ponham a jeito (a expressão é minha) para que semelhantes tragédias aconteçam. Vós também percebeis, tal como eu percebi, para quem é que o nosso cardeal enviava este recado. Sim, para os estranhíssimos paizinhos da "pequena Maddie". E estranhíssimos também sou eu que digo.
No fim, D. José Saraiva Martins fez-me um pedido: "Olhe, depois mande-me o jornal, se faz favor". E eu mandei. O meu jornal era o 24horas. Exactamente. O jornal com fotografias de raparigas todas boas e as mamas ao léu. Deve ter sido um sucesso no Vaticano.

O jornal 24horas nasceu em 1998, com dinheiro suíço, muito, e morreu oficialmente em 2010, um ano depois de os seus alegados responsáveis terem liquidado a redacção do Porto, a sangue frio e pelas costas. Podem limpar as mãos à parede. Mas tinha piada o pasquim, que até chegou a ser bem feito e é a bíblia do jornalismo que hoje se faz em Portugal. No meu tempo, em 2004, o 24horas atingiu uma circulação de 60 mil exemplares por dia.
Há vinte anos, quando por lá suava as estopinhas esgravatando lixo, e os jornalistas de referência, gravata e fato às riscas faziam pouco de nós, eu dizia-lhes que se rissem baixinho, porque um dia todos os jornais portugueses seriam como o 24horas. E são. Todos. E as televisões também. Embora feitos e feitas evidentemente por jornalistas de referência, gravata e fato às riscas que trabalham pouco e agora já não têm vergonha nenhuma, nem do prejuízo que dão. O bom jornal 24horas de Alexandre Pais, que uma certa e determinada rapaziada depois estragou e descarregou sanita abaixo, está hoje em dia muito bem representado na imprensa nacional. "Je suis 24horas", dizem eles todos os dias, sem saberem que dizem, porque eles também não sabem o que fazem. Mas o 24horas, o genuíno, faz falta, e então nesta época tão asinina seria um mimo. Não fazeis ideia do que eu me rio ao ler os momentosos assuntos que saem agora nos jornais e a pensar no que nós teríamos feito com eles. Seria um sucesso, diariamente a malhar e a chusma e pedir bis, coisa para anos. A desgraça que nos caiu em cima foi ter-se-nos acabado o folhetim da "pequena Maddie", que era o nosso abono de família.
A mirabolante CMTV e respectivo jornal andam agora a desenterrar o assunto e devem estar a facturar que se fartam. Recensões disparatadas, notícias a martelo, falsas maddies ou novas buscas, velhos novos suspeitos ou nem por isso, vale tudo, é sempre a bombar, e depois ainda há a "grávida da Murtosa". Porque o público merece...

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Está tudo nos livros

Foto Hernâni Von Doellinger

O Lopes ofereceu-me pelo aniversário os "Mistérios de Fafe", de Camilo Castelo Branco. Uma "edição popular" de 1969 da Parceria A. M. Pereira Ld.ª, "8.ª edição, conforme a 2.ª, última revista pelo autor", Camilo, que avisa desde logo: "Esta novela contém adultérios, homicídios, missionários e outros cirros sociais", portanto Fafe no seu melhor. Prendinha bem catita, que nisto de livros o Lopes nunca dá ponto sem nó, e foi apenas a cereja em cima do bolo, um mimo, porque a prenda principal foi outra - outro livro, evidentemente. Os meus melhores livros, aliás, são-me regularmente dados pelo Lopes e pelo meu irmão Orlando, honra lhes seja.
Mas o Lopes. O Lopes é um bom caralho! Aqui atrasado ofereceu-me "O Seminarista", de Rubem Fonseca. "O Seminarista", para mim, estais a ver a malandrice? Porque o Lopes parece que está sempre no gozo. O Lopes chama-se Luís Lopes, é jornalista, escritor, argumentista e fafense amador, tantas as vezes que me acompanhou nos meus periódicos e mais ou menos nocturnos regressos à terra. O seu primeiro livro, publicado pela Vega em 1997, tem por título "Que Puta de Vida!", e quem ainda não leu, não sabe o que anda a perder. É coisa que se lê num lampo ou, melhor dizendo, no tempo de uma gargalhada. Ou de um espirro. Alguns raros exemplares poderão ainda ser encontrados, creio, nas melhores casas da especialidade.

Já agora, o seguinte. À medida que nos formos conhecendo melhor, ides perceber que eu levo os telemóveis muito a sério (à séria, se lido em Lisboa). Se o meu telemóvel toca, e é raro, eu atendo. Sempre. Ainda ontem: eu estava aqui nas traseiras, a escrevinhar qualquer coisa, por acaso sem o telemóvel à mão, e ouvi-o tocar na cozinha, virada para a rua. Fui lá a correr: não era o telemóvel, era a máquina de lavar roupa, que as máquinas de lavar roupa agora também tocam. O que é que eu fiz? Atendi a máquina de lavar roupa, evidentemente. E era o Lopes...

Fafenses excelentíssimos

Foto Hernâni Von Doellinger

E eu, bico calado
A minha sorte, hoje em dia, é que só encontro pessoas que têm certezas absolutas sobre tudo. Sabem tudo de tudo. Eu nem abro a boca. Tenho a vida muito facilitada.

O Canivete que vendia jornais, o Palhaço que fazia autópsias, o Cesteiro que esteve nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, o Paredes que também era Neiva de mãos enormes e falso susto para crianças, o Landinho eterno Menino, o Landinho do Club que tinha uns testículos muito compridos e era primo de quem fosse importante mesmo que fosse estrangeiro, o Piu, o Chico Cereja, o Sandim que levava os filmes de carrinho, o Tónio da Legião, o Dr. Antunes, o Antunes Chapeleiro, o Felinhos, o Zé Carlos Estantio.
A Rosa do Piroco (Senhora Rosa do Mato!, corrigia-me a minha mãe), o Zé de Castro poeta e cauteleiro, o Chupiu, o Manel do Campo, o Luisinho com o "criado" atrás, o Zé Cão, o Roda Forte cauteleiro, o Pai Zé cauteleiro e gasolineiro, o Meireles de Antime, o Malhado decilitrador premiado e competente arranjador de guarda-chuvas, o Clemente que construía pipas e escadas e era tão pequenino que eu nunca percebi onde cabia tanto tabaco e aguardente, o gigante Barnabé e o mano, o Rates artista da bola, o poeta Augusto Fera, o Álvaro da Dinâmica, o carteiro Aristides, o Zé Sacristão, o Sr. Ferreira do Hospital, o 17 da Bomba, meu avô.
O Sr. Arcipreste, o Maló que era de Fafe em dias certos e cantava fanhosa e desalmadamente o "despedi-me e fui para longe" na esquina da minha rua, o Quinzinho da Farmácia que era o melhor médico do mundo, o Rui que era irmão do Renato e ardinava o Comércio do Porto, o Pedro e o Norte Desportivo, o Guia e a língua portuguesa, o Zegolina e a má-língua, o Batata, o Miguel Chichilim, o Fiu, o Chichirini, o Albino Rapelho, o Neca do Hotel, o Zé Manco, o Zé Manquinho, o Sibino, o Sr. Augusto Paredes, o Jerónimo Barbeiro, o Zé Bastos, o Tronchuda, o Fala-Barato, o Vida-Alegre, o Chester faz-tudo, o Nélson Fafe e a alma do teatro, o Sr. Saldanha e a Bandeira Nacional.

(Isso. António Saldanha, que dá nome à rua por Cima da Arcada. Foi dono do Café Avenida, um homem decente, democrata e habilidoso protector dos antifascistas fafenses durante o anterior regime. Após o 25 de Abril, o Sr. Saldanha era disputado por todos os partidos para marcar presença, em lugar de convidado de honra, nos respectivos comícios. Já cego, em datas certas ou avulsas, o Sr. Saldanha fazia içar a Bandeira Nacional na mansarda da casa onde morava, ao lado da Igreja Nova, quase em frente à actual entrada para a Urgência do Hospital de Fafe. Era a sua celebração da liberdade.)

Na música: os Bacalhaus, os Custódio, os Gandarelas, os Betas, os Silvas, os Maciéis. Nos bombeiros: o comandante Luís Mário, os Costas do Assento, os Feira Velha, os Quintos, os Ferreiras e os Nogueiras, os Moleiros e os dos Santo, mestres também de filosofias de carne e osso e do jogo do pau.
O Joãozinho da Loja Nova que era um partidão e nem assim, o Joãozinho Summavielle e o meio fininho ao balcão do Peludo de costas voltadas para a televisão, o engenheiro Mário Valente doente da bola e fazedor do que Fafe é, o Albano das Águas esperto que eu sei lá, o Armindo Alves que era a Banda de Revelhe, o Mário Chanato, o Zé do Registo, o Fernando da Sede, o Sr. Avelino do Café, o Flórido engraxador, o Belinho, o Baptista do Asilo, o Nelinho da SIF, o Guarda-Fios, o Miguel do Zé da Menina, o Miguel Cantoneiro, o Chaparrinho, o Nelo Chapeleiro, o Manel da Pinta, o Nelinho Barros, o Hugo Alfaiate, o Chico da Libânia, o Toninho Nacor e a Dona Isabel, o padre Barros, o padre Zé, o Bilinho e o Bergiga meus companheiros de infância, o inesquecível Berto Dantas.
E, ainda por cima, o grande Zé Manel Carriço, provavelmente o homem mais extraordinário que conheci em toda a minha vida.
A todos e outros que tais, os meus respeitos. Muito agradecido por serem a minha memória.

Aqui há uns anos soube que foi feito um "Dicionário dos Fafenses" ilustres. A lista oficial, estou quase certo, não será exactamente esta, a minha, posto que incompletíssima. Mas lá está. A ilustreza é um conceito deveras relativo. Como certos e determinados pronomes.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Mistérios de Fafe

Vou repetir-me, mas a vida é isto. A vida é feita de repetições. Ao contrário do que se pensa, quando as repetições acabam é que é uma chatice: fecham-nos os olhos à força, ajeitam-nos a boca com cola de colar cientistas ao tecto, vestem-nos um velho fato comido pela traça, põem-nos um terço nas mãos, acendem quatro velas, dizem que fomos muito boa pessoa, e realmente nunca mais. Portanto, vou repetir-me.

Arranco o ano de 2025 com um novo blogue - Mistérios de Fafe, título que pedi emprestado à obra de Camilo Castelo Branco, quando se assinala o bicentenário do nascimento do escritor. Anunciam o abandono e morte dos blogues, e eu, como de costume em contramão, regenero-os e multiplico-os. Não prometo grandes novidades, é certo, mas ofereço mais do que baralhar e dar de novo. Mistérios de Fafe conterá, para começar, todos os meus textos já publicados sobre vidas, pessoas e acontecimentos do meu tempo de Fafe, isto é, sobre o modo como o recordo ou quero recordar. Todos os textos serão revistos e geralmente aumentados, passados a limpo, por assim dizer, à espera talvez de uso futuro, mas, de momento, sem um objectivo concreto no horizonte. Por outro lado, e sempre que possível, os textos serão expurgados das notas de actualidade a que amiúde estão conectados nos meus outros dois blogues - Tarrenego! e Fafismos (De Fafe, com muito gosto). Nenhum texto será igual à sua versão anterior, isso é garantido.
Mistérios de Fafe será o meu arquivo privilegiado, o meu caderno de apontamentos favoritos,  provavelmente para nada. Memórias pessoais, juvenis e profissionais, velhas amizades, cromos e admirações, cenas gagas ou desgraçadas, "adultérios, homicídios, missionários e outros cirros sociais", como dira Camilo, tudo será aqui contado, portanto cuidado, muito cuidado! O ritmo de publicação em Mistérios de Fafe será vagarento, a seu-meu bel-prazer, sem agenda nem calendário, porque esta vida são dois dias e estamos praticamente no Carnaval, que são três.
É esta a ideia. Pelo menos, em princípio...