sábado, 18 de janeiro de 2025

À Justiça o que é da Justiça

Foto Tarrenego!

O bom, o mau e o sermão
"Não oponhais resistência ao mau; se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra", ensinou Jesus no Sermão da Montanha (Mt 5, 39). Ora isto de querer fazer de nós bonzinhos à força parece-me um perigoso incitamento à violência. À violência do outro, do mau. Que ainda por cima vai ser mais mau, pela segunda vez, e por nossa culpa, nossa tão grande culpa.

Um querido amigo pediu-me ajuda para um trabalho que estava a fazer: se eu lhe conseguia "resumir em duas linhas o porquê" da expressão "Com Fafe ninguém fanfe". Ele merecia resposta, porque acamaradou comigo em tantos e tantos dos meus fugitivos regressos à terra, tornando-se, por via disso, um extraordinário fafense amador. E eu resumi assim: "Com Fafe ninguém fanfe" quer dizer, tão-só, com Fafe ninguém se meta. Porque, quem se meter, leva! E tem a sua origem nas lendas da Justiça de Fafe, que muito boa gente confunde, hoje em dia, com fazer justiça pelas próprias mãos. Não é nada disso. A Justiça de Fafe deve ligar-se, antes, à defesa da honra.
Ou por outra. A Justiça de Fafe é a metáfora folclórica de uma gente de paz que não gosta de levar desaforo para casa, ou que costumava não gostar. Gente de paz, mas tesa. Nós, os fafenses. Quem se meter com os de Fafe, quem nos ofender de graça, recebe o troco, e que mal tem isso? O resto é treta, mais ou menos erudita. Geralmente menos. Muito boa gente confunde, hoje em dia, este velho sentido de verticalidade com fazer justiça pelas próprias mãos, mas é um engano redondo. A Justiça de Fafe deve ligar-se, antes, à defesa da honra. A coça é semântica.
Isto e mais nada. Nem luta de classes, nem bullying, como se diz agora, nem administração de justiça privada, nem apologia da justiça popular, nem jogo do pau, nem fanfarronice, nem sacholadas, nem pistolas e navalhadas, nem bordoada por dá cá aquele copo, nem ciganos, nem Felizardos, nem Ardegões, nem outros Ardos ou Ões. Tudo equívocos. As lendas têm costas largas, de toda a conveniência para o caso em apreço, mas saber ler antes de escrever e pensar antes de falar também nunca fez mal a ninguém.

E não. O jogo do pau não é "uma das maiores tradições do concelho" de Fafe, como equivocamente se escreve na propaganda autárquica, a mesma que, talvez por anedota, considera "controverso" o nosso verdadeiro ex-líbris, a Justiça de Fafe. O jogo do pau é tão tradição em Fafe como em Lisboa, na Terceira, em Trás-os-Montes, no Ribatejo, na Estremadura, no Algarve ou na Galiza. Sabíeis que o "Jogo do Pau de Cabeceiras de Basto" é património cultural imaterial desde 2023? Isso, o jogo do pau de Cabeceiras de Basto. O jogo do pau é tão tradição em Fafe como a sueca, o futebol ou a malha, o esconde-esconde, o dominó ou a petanca, que se jogam em todo o lado. E que não se pense o contrário: eu gosto do nosso jogo do pau, e conheci e aprendi, sobretudo vida, com grandes "puxadores", veneráveis mestres como o Sr. José do Santo ou o Moleiro do Lombo, mas a verdade é para ser dita.
Não. O jogo do pau não foi inventado em Fafe, não deriva da Justiça de Fafe. Nem a Justiça de Fafe deriva do jogo do pau. A Justiça de Fafe é outra coisa, é lenda, lenda nossa, exclusiva, de honra, insisto, e, bem vistas as coisas, uma das poucas tradições genuínas do concelho de Fafe, que as há, como o nosso falar antigo, inimitável e pitoresco.

Não vamos mais longe. Podíamos ir à Porca de Murça ou às pedras parideiras da serra da Freita, podíamos até ir aos caralhos das Caldas, mas não vamos mais longe: deitemos os olhos aqui ao lado a Guimarães, que após Arões é sempre ao baixo e sem portagens. A vaidade que os nossos vizinhos fidalgos têm na estátua de D. Afonso Henriques, esse gandulo que usava saias e batia na mãe! Ainda por cima, existiu mesmo, e a nossa Justiça de Fafe é só bazófia, invenção - mas é a coisa mais bonita a que nos podemos agarrar, para além da forca de Moreira do Rei, que também não consta da História a sério (ou à séria, se lido em Lisboa).
Os reis de Espanha vieram de visita a Portugal e o nosso presidente Marcelo levou-os a Guimarães e à estátua do tratante, do Afonsinho: a Letizia e o Felipe puseram-lhe flores. E eu gostava de ver o mesmo com a nossa Justiça de Fafe. O mesmo, quero dizer, flores, que de reis e presidentes-reis, embora façam um figuraço nas montras da especialidade, passamos muito bem sem eles.
Mas não. Durante anos o monumento à Justiça de Fafe, pelo contrário, foi mantido longe dos olhares forasteiros, escondido, como se tivesse sido feito por engano, como se tivesse nascido com defeito, como se fosse um erro, um aborto, como se nos envergonhasse. A injustiça foi finalmente remediada, com a nova praça, a aproximação do monumento às pessoas e o sucesso que se sabe. Esbarram-se umas nas outras as iniciativas, apresentações e romarias que ali têm lugar, é ali a nova sala de visitas da cidade, não há viageiro que por lá não passe. De mota, bicicleta, trotinete, patins, carro, camião ou carrinho de rolamentos. Toda a gente tira fotografias com a "estátua" e mete nos facebooks, espero que a autarquia não se lembre de cobrar bilhete. E flores, há-as?
E há mais. As Caldas da Rainha orgulham-se dos seus fradinhos arrebitados, erguem bem alto os seus avantajados membros cerâmicos, e disso fazem negócio, turismo, riqueza. Não estará na altura de Fafe fazer o mesmo com a sua Justiça?

A Justiça de Fafe foi sempre importante para mim. Tenho muito orgulho nela. Desde a época dos postais, das quadras do Zé de Castro, que ainda por cima era meu vizinho, dos calendários, das t-shirts estampadas, do cartaz das Festas da Vila, da idade da razão. Gosto da lenda, percebo-a, conto-a, explico-a, contextualizo-a, acompanha-me desde que eu nasci, passou comigo pelo seminário, pelos Comandos, pelo jornalismo, identifica-me pelo mundo fora, e até aprecio o monumento, embora sempre o tivesse desejado mais central.
E, por minha culpa, a Justiça de Fafe também é importante para a minha família. Nunca a abandonámos, mesmo quando parecia que ninguém a queria. Ali em cima está o Kiko, meu filho, fotografado pela Mi, a mãe, minha mulher, ainda o mundo acabara de ser inventado. Olhai para ele. O Kiko, que é fafense nascido no Porto, fará 41 anos em Abril, coitadinho, vede ao tempo que aquilo vai, e leva-me à "estátua" de vez em quando para matarmos saudades e comermos uma vitelinha como só na nossa terra. Eu e a patroa também lá costumamos ir de visita ao monumento como quem vai a Fátima ou a São Bentinho, três ou quatro vezes por ano, não sei se da próxima será preciso fazer marcação...

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Está tudo nos livros

Foto Hernâni Von Doellinger

O Lopes ofereceu-me pelo aniversário os "Mistérios de Fafe", de Camilo Castelo Branco. Uma "edição popular" de 1969 da Parceria A. M. Pereira Ld.ª, "8.ª edição, conforme a 2.ª, última revista pelo autor", Camilo, que avisa desde logo: "Esta novela contém adultérios, homicídios, missionários e outros cirros sociais", portanto Fafe no seu melhor. Prendinha bem catita, que nisto de livros o Lopes nunca dá ponto sem nó, e foi apenas a cereja em cima do bolo, um mimo, porque a prenda principal foi outra - outro livro, evidentemente. Os meus melhores livros, aliás, são-me regularmente dados pelo Lopes e pelo meu irmão Orlando, honra lhes seja.
Mas o Lopes. O Lopes é um bom caralho! Aqui atrasado ofereceu-me "O Seminarista", de Rubem Fonseca. "O Seminarista", para mim, estais a ver a malandrice? Porque o Lopes parece que está sempre no gozo. O Lopes chama-se Luís Lopes, é jornalista, escritor, argumentista e fafense amador, tantas as vezes que me acompanhou nos meus periódicos e mais ou menos nocturnos regressos à terra. O seu primeiro livro, publicado pela Vega em 1997, tem por título "Que Puta de Vida!", e quem ainda não leu, não sabe o que anda a perder. É coisa que se lê num lampo ou, melhor dizendo, no tempo de uma gargalhada. Ou de um espirro. Alguns raros exemplares poderão ainda ser encontrados, creio, nas melhores casas da especialidade.

Já agora, o seguinte. À medida que nos formos conhecendo melhor, ides perceber que eu levo os telemóveis muito a sério (à séria, se lido em Lisboa). Se o meu telemóvel toca, e é raro, eu atendo. Sempre. Ainda ontem: eu estava aqui nas traseiras, a escrevinhar qualquer coisa, por acaso sem o telemóvel à mão, e ouvi-o tocar na cozinha, virada para a rua. Fui lá a correr: não era o telemóvel, era a máquina de lavar roupa, que as máquinas de lavar roupa agora também tocam. O que é que eu fiz? Atendi a máquina de lavar roupa, evidentemente. E era o Lopes...

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Mistérios de Fafe

Vou repetir-me, mas a vida é isto. A vida é feita de repetições. Ao contrário do que se pensa, quando as repetições acabam é que é uma chatice: fecham-nos os olhos à força, ajeitam-nos a boca com cola de colar cientistas ao tecto, vestem-nos um velho fato comido pela traça, põem-nos um terço nas mãos, acendem quatro velas, dizem que fomos muito boa pessoa, e realmente nunca mais. Portanto, vou repetir-me.

Arranco o ano de 2025 com um novo blogue - Mistérios de Fafe, título que pedi emprestado à obra de Camilo Castelo Branco, quando se assinala o bicentenário do nascimento do escritor. Anunciam o abandono e morte dos blogues, e eu, como de costume em contramão, regenero-os e multiplico-os. Não prometo grandes novidades, é certo, mas ofereço mais do que baralhar e dar de novo. Mistérios de Fafe conterá, para começar, todos os meus textos já publicados sobre vidas, pessoas e acontecimentos do meu tempo de Fafe, isto é, sobre o modo como o recordo ou quero recordar. Todos os textos serão revistos e geralmente aumentados, passados a limpo, por assim dizer, à espera talvez de uso futuro, mas, de momento, sem um objectivo concreto no horizonte. Por outro lado, e sempre que possível, os textos serão expurgados das notas de actualidade a que amiúde estão conectados nos meus outros dois blogues - Tarrenego! e Fafismos (De Fafe, com muito gosto). Nenhum texto será igual à sua versão anterior, isso é garantido.
Mistérios de Fafe será o meu arquivo privilegiado, o meu caderno de apontamentos favoritos,  provavelmente para nada. Memórias pessoais, juvenis e profissionais, velhas amizades, cromos e admirações, cenas gagas ou desgraçadas, "adultérios, homicídios, missionários e outros cirros sociais", como dira Camilo, tudo será aqui contado, portanto cuidado, muito cuidado! O ritmo de publicação em Mistérios de Fafe será vagarento, a seu-meu bel-prazer, sem agenda nem calendário, porque esta vida são dois dias e estamos praticamente no Carnaval, que são três.
É esta a ideia. Pelo menos, em princípio...