segunda-feira, 1 de junho de 2026

De pequenino é que

Os dias sem futuro
Chega-se a uma idade em que os dias são todos iguais. Ou quase todos os dias são quase todos iguais. Quer-se dizer: Poirot de segunda a sexta e Columbo ao sábado e domingo. É a vida.
 
O admirável Quim Barreiros cantava, agarrado ao seu acordeão. Era a história simples, exemplar, da mulher que entrou no comboio sem bilhete nem dinheiro e que teve de ir "dar ao apito" com o revisor para se safar da multa. Enquanto o Quim cantava, e como não havia universitários bêbados nas redondezas, alguém pôs um grupo de crianças a fazer um comboiinho que passava e repassava em fundo. Eram crianças de infantário, de creche, de jardim-de-infância, de pré-primária, não sei como é que se diz agora. Pequeninas, isso eram. E serviam de cenário e figurantes à cantiga do Quim, "pó, pó, pó, o cumboio vai andar, pó, pó, pó, e vai sempre a apitar, pó, pó, pó, eu já lhe tinha dito que para andar no cumboio tinha que dar ao apito".
Foi há quase quinze anos, lembro-me bem, na Curia. Deu na televisão em directo, para o País e mundo inteiro. Foi no programa Verão Total, da manhã da RTP1, com os competentes e estimáveis Sónia Araújo e Jorge Gabriel. Foi há quase quinze anos e até hoje nada. Parece que só eu é que vi. Se calhar as audiências andavam certas.

Juventude em delírio

Foto Tarrenego!

Tinha sonhos mas comeu-os
Ele tinha muitos sonhos. Comei-os todos de enfiada, ocorrendo-lhe uma caganeira das antigas. É para aprender a não ser lambão.

Éramos os seminaristas de Fafe naquele ano não sei qual, algures pela primeira metade da década de setenta do século passado, se não me engano. De Fafe, vila. Éramos os padrecas. Não me lembrava do retrato, que me chegou às mãos aqui atrasado através do meu cunhado Álvaro, o homem que fazia as melhores punhetas de bacalhau do mundo, e eu tenho muitas saudades dele. Soube então que foi o cónego Leite de Araújo - senhor abade, senhor arcipreste ou senhor cónego, consoante a época - quem nos juntou e levou ao fotógrafo para a posteridade. O nosso padre tinha muita vaidade em nós, embora talvez nem lhe fornecêssemos consistentes razões para tanto, e acabámos por ficar todos pelo caminho. Por outro lado, também não sei o que é feito daquela juventude ali sem ponta de sorriso, numa compostura ou talvez tristeza de meter dó. Tínhamos decerto sonhos, mas, se os tínhamos, realmente não os mostrávamos. Nem os sonhos, nem os dentes. Já agora: na fotografia, eu sou o. Esse, exactamente.

Diálogos fafenses

Quem sai aos seus
Deixe de ser parvo, disse o palerma. E você deixe de ser palerma, disse o parvo. Palerma é melhor que parvo, disse o palerma. Parvo é que é melhor que palerma, disse o parvo. Quem disse, perguntou o palerma. O meu pai, respondeu o parvo. O seu pai é parvo, disse o palerma. E o seu é palerma, disse o parvo. Mas o meu pai é mais palerma que o seu, disse o palerma. E o meu é mais parvo que o seu, disse o parvo. Mas não é palerma, disse o palerma. Nem o seu é parvo, disse o parvo. Dah!, disse o palerma. Dah!, disse o parvo.