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sexta-feira, 3 de julho de 2026

Há palavras com piada fina

Questões entre parênteses
Quando os parênteses lhe caíram na lama, ele substituiu-os por vírgulas.

Gosto de nomes, gosto do falar antigo, gosto das palavras. Gosto de palavras com piada fina, palavras como parreca, como esbraguilhado, como caguinchas, como cachicha, como peneirento, como pinante. Palavras à moda de Fafe. Mas ainda gosto mais de palavras desalinhadas, subversivas, fora-da-lei. Palavras universais, matreiras e despudoradas. Gosto de palavras que não são o que parecem. Aprecio especialmente as palavras que violam a ordem estabelecida, provocadoras, palavras que viram a norma de pernas para o ar e a abusam, como por exemplo, sem ofensa para os presentes, solhão, cordão, pontão, estradão, picão, mosquetão, cartão ou calção.
Cá está. Cá estão: solhão, cordão, pontão, estradão, picão, mosquetão, cartão e calção, palavras rematadas com o famoso sufixo "ão", unanimemente considerado pelos mais reputados gramáticos como um dos sufixos por excelência para a formação de aumentativos. E, no entanto, para quem sabe das coisas, solhão é uma espécie de solha mais pequena, cordão é uma corda de bolso, pontão é uma pontinha sobre um ribeiro, estradão é uma estrada estreita e geralmente em terra esburacada, aliás conveniente para ralis, picão é uma picareta diminuta, ferramenta de mineiros, mosquetão é mais curto que mosquete, cartão é menor que carta e calção é cueca ou calça curta. São excepções que, como se diz, confirmam a regra? Não, pelo contrário: são palavras que querem que as regras vão dar uma volta.
Evidentemente a palavra pilão levar-nos-ia muito mais longe. Mas fica para a próxima.

domingo, 28 de junho de 2026

Impiedosos esparrinhadores

O fiel jardineiro
Diziam que ele regava muito bem. Era, de facto, um excelente mentiroso.

Em Fafe esparrinhava-se muito, essa é que é a verdade. Noutras localidades igualmente antigas mas porventura já mais apetrechadas e comedidas, talvez se espargisse, talvez se borrifasse, talvez se aspergisse, talvez se salpicasse, talvez se esparramasse, talvez se espalhasse, talvez se derramasse, talvez se entornasse, talvez se respingasse, talvez se chuviscasse, talvez, vá lá, se irrigasse, mas em Fafe não, nós em Fafe, por uma questão de princípio, esparrinhávamos e mais nada. Esparrinhávamos forte e feito, ui o que a gente gostava de esparrinhar, e que ninguém nos viesse dizer o contrário.
Claro que não éramos todos iguais. Cada qual esparrinhava à sua maneira, uns mais, outros menos, uns melhor, outros pior. Como tudo na vida. E havia, evidentemente, quem se destacasse entre o geral, apareciam craques, campeões, mestres do esparrinhanço, lendas para o futuro, esparrinhadores imortais. Lembro-me agora. Deu-se até o extraordinário caso de termos um talentoso jogador de futebol, fafense nado e criado, que ostentava o admirável nome de Esparrinhento, isso mesmo, Mário Esparrinhento, assim ficou registado nos anais da História o nosso herói. O Sr. Mário, que já só conheci reformado da bola, sempre de fato, gravata e sapatos de verniz, se não me engano, roda-baixa, gingão, voz de bagaço e sentença pronta, era frequentador habitual da esplanada do café Peludo, onde eu o venerava até mais não. Jogou, primeiro, pelo Sporting Clube de Fafe e, após "a fusão", em 1958, pela Associação Desportiva de Fafe, fazendo parte da nossa primeira equipa e da exclusivíssima caderneta dos meus ídolos.
Aqui só entre nós, faço ideia do que seria o Sr. Mário a esparrinhar, que eu nunca vi, para ficar assim conhecido, acima de todos, como Esparrinhento. "O" Esparrinhento. Devia ser um assombre! E isto, meus ricos meninos, nunca poderia acontecer noutra terra qualquer.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Cruzes, canhoto!

Sismando
Ao contrário do que o próprio nome indica, o Happy Centro é um sítio deveras perigoso.

O canhoto é o diabo. O demónio. Satanás. O que escreve com a mão esquerda. O que chuta com o pé esquerdo. O canhestro. Ou o desajeitado. Ou o talão que não se destaca no livro de recibos, guias ou cheques. Ou o pedaço de lenha para a fogueira, o pau torto, grosso ou nodoso. Em Fafe, é também o arrocho, o toro, o tronco, o toco, a pernada decepada, o cepo. E a mulher do canhoto é a canhota. Que é uma variedade de amêndoa algarvia, de fruto arredondado, com casca dura e miolo elíptico alargado de tonalidade clara. Ou um moinho de água, uma azenha. Ou a espingarda, na tropa. É. A língua portuguesa pela-se por uma boa brincadeira.

terça-feira, 26 de maio de 2026

Uma palavra à esquina

Leporídeos
- Colhões ou coelhões?
- Testículos.
- E era preciso ser malcriado?...

A palavra apareceu-me à esquina pela pena do cronista Ferreira Fernandes, que eu tando respeito e admiro, embora lastime que ele tenha amouchado perante o, por assim dizer, novo acordo ortográfico - mas nem é aqui o caso. A palavra é "pissada" e foi há coisa de onze anos. Fiquei surpreendido, não a conhecia com aquele aspecto. Mas, escrita por quem foi, tive de a levar a sério (à séria, se lido em Lisboa). Andei então à procura dela e não a vi em sítio de respeito, em local de idoneidade gramatical que me obrigasse a pensar: sim, "pissada" é mesmo assim. Mas, pronto, que seja "pissada", porque, na verdade, encontrei duas ou três "pissas" em dicionários alternativos. Eu, porém, não vou por aí. Pela parte que me toca, continuarei a piçar com toda a potência, sem medo de que me achem malcriado ou tarado da cedilha. Piçarei, aliás, até que a vós vos doa. Dar uma piçada, levar uma piçada, deixemo-nos de hipocrisias, bem sabemos de onde é que a coisa vem. De resto, confundir "pissada" com piçada pode, consoante as circunstâncias, ser até caso de extrema gravidez.

Agora, soube outro dia pelo jornal Público que existe por aí um podcast suponho que de cultura e comédia que se chama "Livros da Piça". Olha, pensei eu, antes assim, porque, lá está, voltando à minha, "Livros da Pissa" não me pareceria tão bem.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Estava-se bem ao lume

Pensamento
- Gosto muito de pensar.
- O mundo?
- O gado.

Vêm-me à cabeça palavras assim, antigas, palavras que cheiram a terra, a chuva, a fumo, a pão, a infância. Engaço, ancinho, mangual, malho, arado, grade, enxada, sachola, forquilha, alvião, picareta, sacho, foice, gadanha, gadanho, padiola, rodo, espadela, roca, dobadoira, pipa, dorna, lagar, eira, eido, meda, braseira, lareira, cântaro, infusa, malga, pote, forno. Sem mais nem menos, não sei o que me dá, lembro-me delas, deleito-me, sou um rústico e pronto. Vêm-me palavras como roçada, vessada, monda, debulha, esfolhada, segada, pisada, merenda, presigo, penso, estrume, lavadura, sulfato.
Acordo de mim bruscamente, estremunhado, meio tolo, estão a atirar-me palavras como streaming, bullying, mainstream e primetime, empoderamento, visualizar, experienciar, vivenciar, recepcionar, percepcionar, metaverso, impactante, resiliência ou ecoansiedade - e escangalham-me tudo. Estafermos! Que bem que eu estava ao lume...

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Mais valia

Um questão de feitios
Silvestre recusou trabalhar com Urbano. Estava habituado ao Campos...
 
Ele era o Mais-valia da empresa. Puseram-lhe o nome. Chamavam pelo Mais-valia e o Mais-valia vinha. E ia. E ia e vinha. E vinha e ia. E tornava a ir e tornava a vir. Chamavam-no a toda a hora e momento, por tudo e por nada, era Mais-valia para aqui, Mais-valia para ali, e ele, que acreditava no valor das palavras, no poder dos hífens, andava vaidoso e feliz. O trabalho do Mais-valia era ir e vir, vir e ir, o que lhe ocupava sobremaneira o dia. Sentia-se tão necessário! Ele não sabia que a alcunha lhe ficara porque toda a gente do emprego dizia que mais valia despedi-lo.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Que é feito do chi-coração?

Cuidado: frágil!
Éramos de abraço apertado, em Fafe, naquele tempo. Éramos rijos, feros e valentes, como então se dizia, mas de chi-coração. Agora querem-nos de abraço apartado, por confusão ou ignorância, parolice ou paronímia, têm talvez medo que a gente se escangalhe.

Dizem-me que as palavras já não valem nada. Mentira. As palavras são cada vez mais poderosas, as palavras dominam as nossas vidas. As palavras até tomaram o lugar dos factos, dos afectos, dos carinhos. Reparai. Antigamente davam-se beijos, davam-se abraços. Os beijos e os abraços faziam-se, realizavam-se, levavam-se a cabo, cumpriam-se. E éramos de abraço fácil. Agora dizem-se beijos, dizem-se abraços. Prometem-se, ficam no ar. O gesto ancestral e puro, carnal, verdadeiro e consequente, foi substituído pela retórica etiquetada, o contacto físico acabou vergado ao esboço da intenção - ao simulacro, à simulação. À dissimulação?
Dizemos "Beijinhos", muha!, dizemos "Abraço", dizemos olá de boca, empiscamos, e assim ficamos. Pelas palavras. Beijos e abraços são só vocábulos, paleio. Mantemos uma distância alegadamente higiénica entre nós, os alegados amigos uns dos outros. Amigos por computador. Dizemos. Enviamos. Remetemos. Aproveitamos a oportunidade para. Ao telefone, por escrito, ao vivo na pressa da rua, cara a cara, na patetice dos emojis. Dar a sério (à séria, se lido em Lisboa) é que não. Ninguém dá nada a ninguém - nem sequer beijos, nem sequer abraços. Fazemos votos de. "O que lhe estimo é um magnífico beijo", "Desejo-lhe um excelentíssimo abraço". E nisto estamos.
É. Olhai bem à vossa volta: as palavras estão em alta, navegam de vento em popa. As palavras. O falatório. Nunca tanto se palavrou. Nunca se falou tanto, nunca se mentiu tanto. Isso. Fala-se demais. O que verdadeiramente está em crise, por abuso, é a palavra, a palavra singular e definitiva, essa vaga memória de uma honra démodée que se arrasta pelas ruas da amargura - abandonada, pobre, cega e nua. Mas isto, claro, sou eu a dizer, e são apenas... palavras, palavras, palavras.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Era apenas um copo de água

O leitmotiv
O "leitmotiv", por exemplo. Tenho dúvidas. É gordo, magro, meio-gordo, achocolatado, integral, dourado, desnatado, em pó, condensado, vegetal, enriquecido, de soja, de burra, de barata, de camelo, de tigre, de aveia, de amêndoa, de coco, desmaquilhante, adelgaçante, reafirmante, derramado, leite-creme, leite-de-cal, leite-de-galinha, leite-de-pato ou de colónia? E quanto a calorias?

Entrou, sentou-se e pediu um copo de água. Trouxeram-lhe dois croquetes, dois rissóis de camarão, dois rissóis de carne, dois bolinhos de bacalhau, uma empada de vitela, um pratinho de salada russa, um pratinho de salada de feijão fradinho, um pratinho de polvo em molho-verde, um pratinho de moelas de coelho, um pratinho de massa à lavrador, um pires de tremoços, cem gramas de camarão, duas navalheiras, quatro mexilhões em vinagreta, três asas de frango frito, meia cabeça de leitão, quatro fatias de lombo de porco assado, meia dose de rojões com arroz de sarrabulho, uma canja, uma fatia de bolo, meia dúzia de amendoins, um par de noivos, uma intoxicação alimentar, um café e um bagaço. "Ó faxavor, eu só pedi um copo de água - copo de água", disse ele, atrapalhado. "Ai desculpe, eu percebi um copo-d'água - copo-d'água", assumiu o diligente funcionário, por certo doutorado em semântica, arrumando imediatamente o hífen e o apóstrofe e dirigindo-se à torneira.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Apois, se não for antes

Era uma vez
Ela viu um sapo e levou o sapo para casa. Beijou o sapo, beijou o sapo, beijou o sapo, mas o sapo continuou sapo. Então ela deitou o sapo fora e comprou um grilo.

No português do Brasil, a palavra apois quer dizer pois, já que, pois que, visto que, como se fosse, me conte. No português de Fafe, isto é, no fafês, apois era corruptela, sinónimo e substituto popular de depois, portanto querendo também dizer após, mais tarde, posteriormente, a seguir. "Vai indo, que eu vou apois". E era assim que se contavam as histórias antigamente: - Apois, disse o rei à sua princesa...

sexta-feira, 20 de março de 2026

Pagar o patau

Do piorio!
A vingança serve-se fria. E, se possível, salgada. E em pratos esbotenados e sebentos...

Patau existe mesmo como palavra, é adjectivo e substantivo, nome. É pessoa que mostra muita ingenuidade ou ignorância, é parvo, simplório, tolo, estúpido, pateta, ignorante. Há quem diga que patau vem de pato, talvez sim, ou talvez não, digo eu, que, no entanto, confesso desconhecer a sua verdadeira origem. Hoje em dia, patau usa-se sobretudo, ou quase só, na expressão popular, coloquial, pagar o patau, que significa sofrer as más consequências de algum acto, as mais das vezes praticado por outrem. Pagar o patau é geralmente, por outras palavras, servir de pião das nicas, ser o bode expiatório, a vítima inocente, e quem se lixa é o mexilhão.

sexta-feira, 13 de março de 2026

Os monos

Mulher amiga...
Com aquela caloraça, a mulher comprou-lhe um pijama de Verão, levezinho, de calça curta, 
por acaso bem jeitoso. Chamou-o ao quarto, abriu o gavetão e disse-lhe: - Estás a ver? Gostas? Fica aqui guardado para quando fores para o hospital...

Mono. Macaco, bugio. Mono. Pessoa pouco activa e sem iniciativa, pastelão. Mono. Tipo macambúzio, bisonho, trombudo. Mono. Indivíduo considerado feio, camafeu. Mono. Objecto sem valor a que não se sabe o que fazer, empechilho. Mono. Artefacto, móvel ou aparelho fora de uso que, pelo seu peso e/ou volume, tem de ser apanhado no ecoponto por outros meios que não os normalmente utilizados pelos serviços de recolha do lixo, monstro. Mono. Agente da polícia, do ponto de vista do bandido. Mono. Alcunha de fafense ilustre, antigo, suponho que sem carga pejorativa demasiado específica, Mono apenas porque sim, já viria de trás. Mono. Mercadoria que não tem venda ou que ninguém procura.
Em Fafe havia um excelente conjunto de lojas de monos, sobretudo no sector do vestuário, a mais interessante das quais seria, se não me engano, o Martins da Avenida nos seus últimos anos. O Martins da Avenida tinha, para além do mais, uma máquina registadora que valia a pena visitar. Era ela própria um mono, ou talvez uma relíquia, uma preciosidade, mas eu preferia vê-la - enorme, prateada, desnecessária, toda cheia de arabescos - como se fosse a verdadeira máquina do tempo de H. G. Wells, se por acaso funcionasse. Fui freguês dessa época do Martins da Avenida, já só lá estava o Quim, o grande Sousa, meu querido amigo. Era a minha fase tardo-hippie, pós-seminário, e alguns daqueles monos, ainda por cima ao preço da uva mijona, serviram-me às mil maravilhas para compor aquele ar tão coisa e tal, criteriosamente desalinhado, desprendido e cheio de "paz e amor", aquele arzinho que eu tanto queria parecer e, segundo consta, pareci...

quarta-feira, 11 de março de 2026

As begueiras

Dia da Mulher
No Dia da Mulher, a minha leva-me a almoçar fora, para eu não ter de cozinhar. À noite volto para o fogão.

Conheceis aquelas mulheres que andam sempre na rua e passam a vida no café a dizer mal dos homens que andam sempre na rua e passam a vida no café? Sim, essas. São as begueiras. É certo que o termo original é masculino e minhoto, begueiro, referindo-se preferencialmente a um jumento novo, pequeno, ou a uma qualquer besta de carga, e pode também servir para descrever um mulo ou, pejorativamente, uma pessoa de pouca inteligência e/ou com qualidades negativas ou malandra, mas em Fafe o conceito afeminou-se, não sei em que altura do século passado, e mudou completamente de sentido. Temos então a begueira, as begueiras, linguarudas, opinativas, independentes, soalheiras, as que "não têm que fazer em casa". As begueiras funcionam em grupo, em vários grupos, assíduos, independentes e fechados, às vezes inimigos uns dos outros, células militantes de escrutínio alheio e maledicência, municiadas estatutariamente a chá e torradas, amiúde um panachê. No seu conjunto, elas, as begueiras, os diversos núcleos de begueiras, formam o chamado begueirame.

segunda-feira, 9 de março de 2026

Lapsus linguae

A palavra apartir é como a palavra porcausa
Há muita gente que não sabe como é que se escreve a palavra apartir. E é fácil. A palavra apartir escreve-se da mesma forma que as palavras asseguir e afeder. Tal como porcausa. A palavra porcausa escreve-se da mesma forma que as palavras porexemplo, poracaso e porfavor. Todas estas palavras obedecem ao mesmo princípio - o da ignorância.

Entrei de rompante e gritei: mãos ao ar, isto é um assalto! Fiquei admirado. O que eu queria dizer era: alto e pára o baile! Eu andava desesperado e insone com aquele forrobodó todas as noites no apartamento de cima, bailarico até às tantas, cantoria sem norma nem excepção. E na hora agá, com tanto maldormir, a minha boca baralhou-se, fez confusão. Mas estava dito, estava dito: desci com um LCD de 100 polegadas, uma mesa de DJ, seis colunas de som surround, um globo espelhado, oito CD do Quim Barreiros, dois tablets, quatro telemóveis, sete relógios - um de sala -, seis pulseiras, cinco colares, doze pares de brincos, dois pacotes de batatas fritas, meia piza familiar de cogumelos e fiambre com extra queijo, um pacote de Sugus morango e framboesa, nove gramas de haxixe, garrafa e meia de vodka, duas canecas de sangria, vazias, três garrafas de Casal Garcia, treze cartões de crédito, um vale de reforma, 837 euros em numerário, um porquinho-mealheiro com a Justiça de Fafe por fora e 350 escudos em imprestáveis moedinhas de 1 escudo por dentro, um santinho da Senhora de Antime, uma bengala de Gestaçô, um par de canadianas praticamente novas - uma professora de Toronto e uma enfermeira de Otava - e a empregada doméstica, que também quis vir comigo.

Diálogos fafenses 83

Como é que se escreve a palavra porcausa?
A jovem profissional precisava de trocar uma folga e procurou ajuda junto da colega da secretaria. Uma de cada lado do balcão. Giras. A colega da secretaria passou o papel e a esferográfica à jovem profissional, e começou a ditar:
- Solicito, so-li-ci-to, troca de folga, de fol-ga, do dia 15 para o dia 23, por causa...
- Porcausa? Que palavra é essa? Como é que se escreve? - interrompeu a jovem profissional, descontraidamente ignorante e escandalizada, e, tipo, com toda a razão.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Diálogos fafenses 79

Promessas
- Prometes-me uma coisa?
- Prometo.
- Juras?
- Juro.
- Ok, era só para saber.

Um dia com os dias contados

Ao contrário
Conheço uma senhora que todas as manhãs faz exercício no Parque da Cidade. Entre outras habilidades atléticas, a senhora sobretudo caminha de costas, arrecua, ou seja, anda ao contrário. E isto há anos. Resultado: em vez de emagrecer, a senhora está cada vez mais gorda.

O Dia do Gordo, a 10 de Setembro, é um dia com os dias contados. Porque hoje em dia não se pode dizer gordo de ninguém. Nem obeso, porque obeso quer dizer gordo, e gordo não se diz, que agora é proibido. A palavra gordo, aliás, está a ser tirada dos filmes e dos livros e até das letras das cantigas e dos iogurtes, da manteiga, do queijo, das natas e do leite. Meio gordo e gordo. E quem não diz gordo, não diz forte, cheio, pesado, corpulento, encorpado, robusto, parrudo, nutrido, fornido, gorducho, balofo, anafado, roliço, redondo, rechonchudo, arredondado, barrigudo, banhudo, gordalhão, gordalhaço, gordalhufo, rolho, rotundo, cevado, adiposo, inchado, repolhudo, trambolho, amatronado, grande, volumoso, Manel do Campo, se for de Fafe e antigo, farto, grosso, graúdo, avantajado, vultoso, avultado, alentado, abundante, generoso, considerável, rico, polpudo, enorme, imenso, vasto, excessivo, copioso, profuso, basto, lauto, gorduroso, gordurento, oleoso, engordurado, besuntado, untuoso, gordureiro, sebento, graxento, graxo, fértil, fecundo, produtivo, rico, humoso, úbere e uberoso - são palavras que vão ser apagadas como se nunca tivessem existido, porque, lá está, vai tudo dar ao gordo. E gordo foi cancelado. Diremos então, como deve ser, "indivíduo ou indivídua ou indivídue denotando cubicagem corporal talvez digna de registo". Isto é, para abreviar, gordo ou gorda ou gorde.

quarta-feira, 4 de março de 2026

Diálogos fafenses 78

O tipo do mito urbano e o mito do tipo rústico
- Faz favor de desculpar, o senhor é o tipo do mito urbano, não é?
- Mito quê?
- Mito urbano. Urbano. Citadino, civilizado, cortês, polido, gafonha, urbanita, urbícola, correcto, afável, aprazível, fruitivo, lisonjeiro, mavioso, amorável, charmoso, peralta, lhano, tirone, refinado, esticadinho, delicioso, educado...
- O que são as palavras, veja lá o senhor. Não, não sou o tipo do mito urbano. Na verdade fiz-me homem em Pedraído, Fafe, sou portanto e pelo contrário, se me está a acompanhar, o mito do tipo rústico.
- Tipo quê?
- Tipo rústico. Rústico. Rusticano, rural, aldeão, camponês, campino, campesino, campesinho, campestre, campónio, agrário, simples, simplório, casca-grossa, labrego, parolo, lavrador, grosseiro, bruto, boçal, besta, bronco, grunho, labrego, malcriado...
- Realmente o que são as palavras. Mas é tão parecido com ele...
- Com quem?
- Com o tipo.
- Mas sou o mito.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Papando uns e outros

Fruta da época
Perguntaram-lhe sobre frutas da época, e ela respondeu ferrero rocher e mon chéri.

Chegava o Natal e ele, entre bombons e bumbuns, levava tudo a eito e sem destrinça. Padecia de uma espécie muito avançada de paronímia, segundo atestado médico, e a mulher, que era das antigas, desculpava-o, coitadinha...

terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

O ânus da prova

Concelhos de mãe
Cátia Soraia entrou na universidade e, mal se instalou, mandou uma mensagem à mãe a pedir um concelho. A mãe, que é rica e boa alma, enviou-lhe Freixo de Espada à Cinta.

Eu, por exemplo, digo doénte em vez de doênte. Digo concelho e conselho em vez de conçalho e consalho. Digo mãe em vez de máim. Digo meio quando é meio e não maio. Digo têlha quando é telha e não talha. Digo coêlho quando é coelho e não coalho. Digo cóio em vez de côio. Digo câno em fez de cáno. Digo frónha em vez de frônha. Digo cachicha em vez de caxixa. Digo ferraménta em vez de pénis. Quer-se dizer: digo como era costume dizer-se na terrinha. Sou de Fafe, com muito gosto. Falo à Fafe como se nunca tivesse saído definitivamente de lá, e foi há mais de quarenta anos. Sempre que posso, falo a língua a que gosto de chamar fafês. Resultado: chamam-me parolo, labrego, matarruano, riem-se de mim.
Já o outro, urbanita de grande metrópole, frequentador de mundo e telejornais, ajeita delicadamente os botões de punho de dezoito quilates, afaga a gravata hermès sofisticada e cara, faz biquinho com os lábios suspeitos e diz, finíssimo porém acutilante, ânus da prova. Ânus da prova, é o que ele diz! Ânus da prova para aqui, ânus da prova para ali, enche a boca de ânus da prova! E chamam-lhe ó-doutor, jurista, comentador, especialista em molduras penais. E ninguém se ri.