sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Proibições que são convites

You motherfucker
E uma da faca, e duas da faca, e três da faca, e quatro da faca, e assim sucessivamente...

Embora já andassem de Mercedes e/ou BMW, aqui há uns anos os senhores empreiteiros viam-se à rasca para perceberem onde podiam despejar o lixo que faziam nas demolições ou esburacamentos de início de obra. Não havia sítios de lei, largavam-no onde calhava, à noite, e fugiam. Atentas à insustentável situação e superpreocupadas com a defesa do ambiente e o bem-estar das populações, as autarquias portuguesas correram a criar uma rede de locais apropriados para o efeito nos montes à roda das vilas e cidades, de norte a sul do País. E Fafe não foi excepção. Em cada um desses locais jeitosos, os nossos preclaros autarcas mandaram colocar uma placa que avisava mais ou menos assim: "Proibido lançar entulho neste local - Coima até duzentos contos". E pronto: os senhores empreiteiros ficaram a saber que era ali mesmo que podiam deitar o lixo.

O que é porreiro, porque, como se sabe, os senhores empreiteiros são muito amigos das autarquias e as autarquias são muito amigas dos senhores empreiteiros, e assim é que está bem, porque, já dizia o perspicaz inventor das orgias, com respeito da palavra, isto temos de ser uns para os outros.

Agora. Os meus amigos que batem umas cartas ali em baixo, naquela cantinho abrigado à beira-mar, têm uma preocupação naftalínica que eu compreendo. Arriscar bisca lambida com cheiro a mijo no focinho deve ser realmente uma merda. Por isso puseram um letreiro novo, melhoramento infelizmente sem inauguração por parte da senhora presidenta da Câmara de Matosinhos, mas "sinalética" em material nobre, upgrade como manda a sapatilha, passando do velho cartão canelado para a esferovite de cabaz de sardinha, e com uma mensagem indubitavelmente mais assertiva e acutilante, bastou acrescentar-lhe "Atenção". E no entanto, como na história dos senhores empreiteiros, "Atenção - Não urinar neste local - Obrigado", se formos a ver, só quer dizer, pelo contrário, WC.

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Na cozinha em cuecas

Pelo incrível preço que aparece no seu ecrã
E diz o Calcitrin ao Mangostão Mais: - O que é que se passa com a Baba de Caracol, que não a tenho visto?...

O senhor do peditório de Natal tocou-me à porta. Não abri, mas, respeitosamente, disse-lhe pelo buraco da fechadura que não o podia atender. A verdade é esta: eu estava em cuecas e de avental a cozinhar umas moelas por acaso de coelho, as quais, não é para me gabar, até me saíram uma especialidade, e um homem em cuecas e de avental não é homem que se apresente ao senhor do peditório de Natal, a não ser que o senhor do peditório de Natal também se apresente em cuecas e de avental. Passei decerto por má pessoa, um Ebenezer Scrooge de trazer por casa ou mesmo um Tio Patinhas sem polainitos, mas é o que têm as moelas de coelho, para ficarem realmente em condições, devem ser cozinhadas em cuecas.
Não sou forreta, atenção. Os meus fundamentos cristãos não mo permitem: a caridade e a compaixão, evidentemente, mas sobretudo a culpa e o arrependimento. Os velhos remorsos. O arrependimento que me persegue mesmo sem razão e este permanente sentimento de culpa nem sei de quê obrigam-me a ser bonzinho e às vezes até generoso, não tenho outro remédio. Prezo-me de ser um tipo educado e geralmente atencioso, respeito toda a gente, tal como a minha mãe me ensinou em pequeno. Não me julgo mais do que ninguém, muito pelo contrário, e, sempre que posso, tento ajudar quem precisa. Mas incomoda-me que os peditórios me batam à porta. Peditórios e vendedores, de telecomunicações, de electricidade, de gás, de água, de flores, de sonhos, de Céu e de apartamentos, incluindo o meu, que não está à venda e vêm perguntar-me por ele. Afino. Não gosto de ser incomodado quando estou em casa, pronto. Nem pelos vizinhos. Ainda por cima, tudo isto acontece exactamente quando estou à mesa ou a caminho da mesa, e a mesa, para mim, é sagrada.

Antigamente eram os ciganos que andavam de porta em porta a vender cobertores. Lembro-me muito bem, em Fafe. E dizia-se que não se devia abrir, porque eles, "os ciganos", traziam um líquido embebido num lenço que punham no nariz e na boca das pessoas para as desmaiar. As pessoas eram obviamente mulheres, sozinhas em casa. E depois de desmaiadas (nunca percebi como é que funcionava esta parte), as pessoas entregavam tudo aos falsos vendedores, dinheiro, ouro e talvez honra, era só eles quererem. A porta da nossa casa, no Santo Velho e depois no Assento, estava sempre aberta. Os ciganos eram bem-vindos. Os ciganos eram também nossas visitas e havia até uma família cigana, ainda mais necessitada do que nós, com a qual ocasionalmente partilhávamos a mesa e a comida. Comidinha de pobre, simples mas saborosa, feita render pela minha mãe. Sopa, massa de, batatas com, arroz disto ou daquilo. O básico. O que havia. Naquele tempo eu ainda não cozinhava moelas de coelho em cuecas.

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

A miúfa e a cagufa

Luta de classes
Na luta de classes, os da 4.ª ganhavam sempre.

Miúfa e cagufa são palavras antigas, sinónimas, gémeas, unha com carne desde os bancos da escola. Eram palavras corriqueiras, na ponta da língua, fáceis, mais fáceis do que a própria tabuada do 2, faziam parte do vocabulário essencial, do prontuário de sobrevivência infantil. Seriam talvez redundantes, uma funcionaria como reforço da outra e vice-versa, nunca lhes percebi diferença ou eventual gradação, porque realmente ambas significavam e significam o mesmo: medo, receio, susto, cobardia, cagaço. Miúfa também se dizia miaúfa, mas em Fafe não. Cagufa também se dizia cagunfa, inclusive em Fafe, mas só às vezes e por engano. Exprimindo sem dúvida a ideia de fraqueza, cagufa e miúfa eram, paradoxalmente, usadas como palavras de ataque, armas de arremesso, quase sempre dos maiores para os mais pequenos, era essa a lei - Tens mas é cagufa! Tens mas é miúfa! -, isto para desafiar ou humilhar publicamente, chamando medroso a alguém, ao lingrinhas. E estes poderosíssimos insultos eram geralmente acompanhados pelo respectivo gesto, universal e sem legendas, palma na mão direita voltada para cima e as pontas dos dedos juntando-se no alto, até formarem um olhinho do cu palpitante, bem apertadinho, isto é, onde não coubesse sequer um feijão. - Ó! Ó! Ó!...
Passadas ao plural, as palavras miúfa e cagufa ganhavam estatuto de adjectivo, força de nome feito. O cagufas, cagunfas ou miúfas, tanto fazia, era o cobarde, o cagarolas, o medricas, enfim, o caguinchas. - Olha o cagufas! És um miúfas! Hehehe! Ora isto não se chama impunemente a um homem, sobretudo se esse homem for um cavalheiro com sete ou oito anos de idade, com eles pequeninos mas no sítio e a honra praticamente por estrear. Exigia-se então a desagravo, impunha-se logo ali o duelo franco e regenerador ou pelo menos a promessa de espera, a coiada de mão escondida e pé ligeiro, ainda hoje não se sabe de onde é que a pedra apareceu. E foi desta maneira, em Fafe, que começaram as cabeças rachadas em Portugal.

terça-feira, 3 de novembro de 2026

O dr. Castro e o dr. Vinagre

Pecando por defeito
Ele pecava muito por defeito. E que queriam? Que pecasse por virtude?...

O dr. Castro resolveu desancar no dr. Vinagre. Já lá vão quatro anos, numa espécie de artigo de opinião, no DN, a propósito dos dois rapazes de Famalicão que, por ordem dos pais, faltavam às aulas de Cidadania. O texto tinha por título singelo "O dr. Vinagre". O dr. Castro, José Duarte de Almeida Ribeiro e Castro, é ex-secretário de Estado, ex-líder do CDS e antigo vice-presidente do Benfica. O dr. Vinagre, António José Vinagre de Sousa, era magistrado do Ministério Público e tomava conta em tribunal daquele tão famoso caso, que ainda dá que falar.
O dr. Castro não foi manso. Chamou de tudo ao dr. Vinagre, apenas sugerindo ou pintando a manta com as letras todas. Argumentação é que nada. Sustentaçãozinha é que viste-la! Palavras e só palavras umas atrás das outras, palavras verrinosas, incisivas, destratantes, numa linguagem jurídico-tasqueira raiando a onzenice e muito mais própria para ser utilizada por mim, que não sou dr. nem sou nada e percebo tanto de direito quanto o dr. Castro percebe de futebol - isto é: zero.
Ainda assim, tenho de admitir que no meio daquela tralha toda o dr. Castro possa ter acertado sem querer numa coisinha acerca do dr. Vinagre. Uma coisinha somente, mas é de justiça que aqui se diga. O tiro de sorte poderá ter acontecido quando o dr. Castro acusa o dr. Vinagre de ser "um comediante". Isso. Um comediante.
Ora bem. Eu não conheço o dr. Vinagre, e confesso que tal me causa um certo desgosto, mas conheci satisfatoriamente o Vinagre. Lembro-me muito bem, lembrei-me hoje, por acaso com saudades, e é por isso que o trago agora aqui. Também o trouxe a Fafe, pelo menos uma vez, éramos moços, para ouvir a Banda de Revelhe no Jardim do Calvário e merendarmos uns petisquinhos preparados pela minha mãe, no Assento. Posso portanto testemunhar, e a verdade é só uma: o Vinagre era realmente um pândego. Um brincalhão. Um cómico. Enfim, um indivíduo dado à pilhéria e à representação. Chegámos a partilhar o palco, eu evidentemente como protagonista. E quer-se dizer: sem saber ler nem escrever, o dr. Castro, que às tantas é uma criatura triste, até parece que bateu no ponto, e contra isso nada...

Crónica Feminina

A actriz
Ficou famosa por ser a primeira mulher a fazer de Super-Homem.

Vieram as calças, e ela nada. Os movimentos libertários, o divórcio, o voto, a canasta, os empregos, os carros, os cigarros, as gravatas, os cafés, os sapatos de salto baixo e os sapatões também vieram, e ela nada. Em casa, sempre em casa, de uma virgindade absoluta em relação ao amantíssimo esposo e demais, bordava, falava francês e tocava piano. Ouvia os discos pedidos e lia Corín Tellado, os "Caprichos". E dava alpista ao canário. E regava os vasinhos, ela própria uma flor de estufa, no larguinho da vila antiga. E compunha almofadinhas e peluches e corações por sobre o delicado leito conjugal. Muito cor-de-rosa, muita renda na roupa interior que só ela sabia, muito tafetá, muitos lacinhos e sabonetinhos. Tanto pó de talco e perfume! Tão mulherzinha! Queimou uma vez um sutiã, é verdade, mas foi sem querer, passando a ferro, quando a serviçal lhe faltou. Tirando isso, nada. Parecia doença. Crónica. As vizinhas, que nem lhe conheciam o nome, chamavam-lhe, por graça, Crónica Feminina.

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Casas que ninguém vê

Fino como um alho
Burro como um soco. Duro como um corno. Bêbado como um cacho. Quer-se dizer: o soco, o corno e o cacho, que culpa é que têm?...

O maior arranha-céus do mundo está localizado no Dubai, Emirados Árabes Unidos, e chama-se Burj Khalifa. Conta com 163 andares acima do solo e atinge uma altura de 828 metros. Foi inaugurado no dia 4 de Janeiro de 2010. Três anos depois, em Setembro de 2013, as notícias anunciavam que o primeiro arranha-céus invisível iria ser construído em Seul, capital da Coreia do Sul. O que é verdadeiramente extraordinário, porque podia muito bem ser em Lisboa, Portugal. Estamos no final de 2026, não sei se a obra foi mesmo feita e se o prédio já estará concluído, mas também ninguém sabe. E será bonito?

O Céu pode esperar

Para falar com Deus
Tomou horas, foi para a fila, tirou senha, esperou vez, chamaram-lhe o número, acostou finalmente ao balcão das informações e perguntou: - Para falar com Deus, falo com quem?...

Manhã cinzenta de Outono a ameaçar chuva. No chão de cimento do pequeno cemitério, bem varrido, jaz, abandonada e fria, uma senha de vez. Aos meus pés, o famigerado ticket, ou tiquê, como nos dá muito mais jeito dizer, e dá-nos sempre muito mais jeito dizer mal. Vergo-me e apanho. "Sua vez", avisa a senha número E29, como se soubesse alguma coisa da minha vida que eu não sei. Da minha vida ou da minha morte. E manda, "Puxe". Puxei, quero dizer, pensei: poderia dar-se o caso de ser esta a solução desenterrada por espertos sepultadores para organizar as dezenas ou centenas de defuntos que diariamente se acotovelam aos portões dos cemitérios sobrelotados, à espera de vez, à espera de vaga. (Os mortos portugueses têm geralmente medo de serem queimados vivos e, como resultado, num país com uns económicos 92 mil quilómetros quadrados, os nossos campos-santos rebentam pelas costuras, as campas não chegam para as encomendas.) Mas não: a coisa não é assim tão terrena, pensei melhor, isto vem, upa, upa, lá de cima. É assunto de almas e não de corpos. Gasoso e não sólido. É. O Céu está equipado com pelo menos um dispensador de senhas de vez, tive a certeza e tinha a prova na palma da mão. Percebi tudo. Queres a salvação eterna? Tira o número e vai para a fila, essa é que é essa! "Mas que bizarra epifania, mas que desgosto tão grande, lá se me foram os fundamentos" - lamuriei-me, rangendo os dentes. - "Até Tu, meu Deus?! Que tristeza! Onde o negócio e a burocracia já chegaram"...
O meu número é o E29, calhou-me, não sei em que número vai, mas, palavra de honra, estou sem pressa. Dou a vez.