segunda-feira, 13 de abril de 2026

Ó prima, ó rica prima!

Consanguinidade
Os números primos, há que admiti-lo, podem ser um bocado tolos.

Eu tenho uma prima de que não sabia. Desconheci-a durante quase toda a minha vida, foi-me apresentada talvez há quinze anos por um amigo comum, e passámos a conviver regularmente, nos últimos tempos cada vez menos. Às vezes dão-me saudades, digo que preciso de ir à prima, há logo quem leve a coisa para a malandrice, mas nada disso. A prima é a Erdinger, a excelentíssima cerveja alemã, que, como o próprio nome indica, só pode ser da família. E eu estou farto de dizer à minha mulher: a família devia dar-se mais.

Por encabação

Matematicamente
Eram números primos. Direitos. Por parte das mães.

Por encabação. A expressão é bondosamente maliciosa e antiga, muito fafense, e dizia respeito à pessoa que entrava na família por casamento. Por exemplo, alguém que passava a ser nossa tia porque casou com o nosso tio natural, irmão do nosso pai ou da nossa mãe. Era então nossa tia, por encabação - assim o afirmávamos, sem ofensa. Porém. Aprendi outro dia no jornal Público, numa crónica de Pedro Garcias, sábio de vinhos e de outras vidas, que lá para os seus lados, Trás-os-Montes e Douro, suponho, "as gentes do campo" dirão "por encabadouro", querendo significar a mesma coisa. Também está bem. Mas nós, os do fafês, que não haja dúvidas, era mesmo por encabação!

Doentinhos, graças a Deus!

O Homem-Prazol
Os super-heróis. Fui apreciador, confesso. Em miúdo, à pala da televisão do Peludo, das borlas no Cinema ou dos livrinhos de cobóis levados à troca no quiosque do postigo por Baixo da Arcada, já disse. O homem-aranha, o homem-formiga, o homem elefante, o homem que é homem, o homem-rã, o homem de gelo, o homem de ferro, o homem de lata, o homem-bala, o homem-estátua, o homem invisível, o homem que veio de longe, o homem-sanduíche, o homem-crocodilo, o homem-tocha, o homem-máquina, o homem dos sete instrumentos e até o homem-bata, que quase existia. Apreciava, é verdade. Mas. Derivado a pecados velhos e por indicação médica, hoje em dia sou mais dado ao homem-prazol.

Há uma longa e honrosa tradição familiar no nosso lado Von Doellinger: somos umas pessoas muito doentes, que foi a única herança que o meu avô da Bomba nos deixou, aos de nossa casa. De resto, nem um tostão, nem um penico partido e colado com adesivo, tampouco uma corrente de ar. A minha mãe costuma dizer que, em questão de doenças, nós, os Bombas, "não damos vez uns aos outros". A minha mãe, é preciso que se note, é do lado Pereira, que lamentavelmente não me chegou ao nome, Pereira do meu avô de Basto, decilitrador pertinaz que, porém, nunca aceitou copo dado e levava tudo à frente na hora da pancadaria. Este meu querido avô, antigo mineiro e mestre pedreiro de primeira água, era, pelo contrário, um mãos-largas. Tudo o que tinha, dava. E se o que tinha à mão era o varapau de lódão, então era de esgaça-pessegueiro, sem olhar a quem. A mim, deu-me o meu primeiro relógio de pulso e, numa noite de Natal, ofereceu-me inesperadamente o seu próprio relógio de bolso, um magnífico e infalível Omega talvez centenário que me escangalhou em lágrimas e que há coisa de vinte anos passei ao meu filho, que bem o merece e não lhe liga nenhuma nem sequer lhe dá corda. Eu? Fiquei-me com as memórias. Do choro também.
Já agora. O meu rijo avô de Basto esteve doente uma única vez, se não me engano. E morreu. Com os pulmões vagarosamente estraçalhados pelos anos longínquos do trabalho nas minas e uma vida no aparelho da pedra.

Mas o lado Bomba. As doenças. Neste campo, como em mais um ou dois, ou três, sou a ovelha negra da família. Doentemente falando, sou uma treta, uma nódoa, um ignorante, uma vergonha para a classe dos doentes em geral e da minha família em particular. Nunca me queixo, estou sempre bem, não dou uma para a caixa. Às vezes até penso que devia ser expulso. Da classe e da família.
Os Bombas, por definição, são entusiásticos consumidores de medicamentos e canjas de galinha. Só estão bem quando estão doentes. Conhecem todas as doenças e os dois volumosos tomos da Farmacopeia Portuguesa por ordem alfabética, de cor e salteado, da frente para trás e de trás para a frente, índices e apêndices incluídos, automedicam-se e só precisavam da consulta e da assinatura do médico - "especialista!", sempre "especialista!", e "do Porto!" - para autenticar o internamento a troco de um bom quilinho da melhor vitela de Fafe, traço seleccionado e cortada pelas sábias mãos do Senhor Abreu do Talho Novo, embrulhado em imaculado papel costaneira e impecavelmente atado e laçada com fio norte de qualidade superior. Justificava-se a despesa dos unhas-de-fome: o internamento em hospital era a sorte grande, a realização de um sonho. Recorrente. Para que o povo soubesse que!
Os meus queridos avós da Bomba, ninguém me tira da ideia, não morreram da doença. Faleceram da mania. Deus os tenha.

domingo, 12 de abril de 2026

Sejamos então pacientes

Hipocondríaco e metódico
Era um autarca hipocondríaco e metódico. Seguindo indicação médica, tomava quatro medidas por dia - uma ao levantar, uma depois de almoço, uma antes de jantar e uma ao deitar. Rigorosamente.

Como um alho era o famoso indivíduo, não sei quem nem de que sexo ou género, mas político certamente, que inventou a palavra "paciente" para substituir a palavra "doente". O finório, ou a finória, ou finórie, vá lá, sabia tudo sobre listas e tempos de espera, greves epidémicas ou cirúrgicas, operações adiadas, consultas anuladas, funerais e missas de sétimo dia, demissões de directores e outras pandemias. Porque a verdade é esta: o doente, regra geral, queixa-se, esperneia, mas o paciente, por definição, aguenta.

Cautelas e caldos de galinha

Ó da guarda!
- Ó da Guarda!, pediu ele. Apareceu um de Celorico da Beira, e foi o que se pôde arranjar.

O meu avô da Bomba era um homem prevenido e talvez desconfiado. Pelo sim e pelo não, segurava as calças com cinto e suspensórios.

O avô sabia duas anedotas

Rio-me por tudo e por nada
Gosto das escorregadelas em casca de banana. É humor de casca-grossa. Mas prefiro os trambolhões em pele de cereja - piada fina. A vida é uma comédia, e há quem não saiba...

O meu avô da Bomba tinha a mania de contar anedotas e contava-as muito bem - pelo menos era o que ele achava. Eram duas. Contava-as sempre. Nem que não lhe pedissem que as contasse, nem que lhe pedissem que não as contasse. Ele contava-as, contra tudo e contra todos, abrilhantando casamentos, comunhões e baptizados de família - pelo menos era o que ele achava. Eram a anedota do cu português que, apesar do negrume da noite, acabou identificado pelos Carabineros na passagem a salto para Espanha, passemos à frente, e a anedota dos Bombeiros da Póvoa. Da Póvoa de Lanhoso, desta vez, para que nos situemos.
Contava o meu empolgado avô da Bomba que, em dia de festa de aniversário da prestimosa corporação lanhosense, o respectivo comandante fez o discurso que se segue: "Minhas senhoras e meus senhores, os Bombeiros da Póvoa são os melhores do mundo. Digo mais, os Bombeiros da Póvoa são os melhores da Europa. Os Bombeiros da Póvoa são os melhores da Península Ibéria. Os Bombeiros da Póvoa são até os melhores de Portugal. Os Bombeiros da Póvoa, minhas senhoras e meus senhores, excelência reverendíssima, são os melhores do Minho, os melhores do distrito de Braga. Que não haja dúvidas: os Bombeiros da Póvoa são aos melhores da Póvoa. Vivam os Bombeiros da Póvoa! Vivam e bem hajam! Tenho dito."
E pronto, era isto a anedota. Uma das duas anedotas do meu avô, a principal. Portanto, estais a ver o sucesso...

sábado, 11 de abril de 2026

O consumidor

O típico caso de transtorno bipular
Ele padecia de evidente transtorno bipular. Diziam-lhe, às vezes, fosse a respeito do que fosse, mas sobretudo em caso de necessidade, porém sem urgência, "quando puderes, dá cá um salto" - e ele dava dois.

Foi toda a vida um grande consumidor. Desde que nasceu. Consumiu a mãe e consumiu o pai, consumiu os avós, maternos e paternos, consumiu os irmãos e as irmãs, os tios e as tias, os sobrinhos e as sobrinhas, os primos e as primas, consumiu os filhos, consumiu os netos e os bisnetos, consumiu as meninas do lar até morrer. Era realmente a consumição da família, um verdadeiro consumidor de almas, como se falava em Fafe. Quer-se dizer, há feitios assim.