domingo, 18 de outubro de 2026

Hoje é muito fácil falar

O defeito do 25 de Abril
O mal do 25 de Abril é ser só um dia. Uma efeméride.

Na mesa ao lado, eram três homens, dois na casa dos cinquenta, se tanto, e o outro bem mais velho, decerto pelos setenta e muitos. Iam já no uísque pós-café e a conversa vagueava às revoadas como se não tivesse pressa e quisesse ser ouvida, é o que têm os restaurantes, devia-se ser despejado mal se acabasse de comer. Falava-se do antigamente. Isto é, os mais novos falavam do antigamente de que ouviram dizer. Calado o ancião, que viveu o antigamente, que remédio, mas tanto lhe fazia. Dizia-se: - Muito atraso, muita ignorância, muita pobreza, e depois a guerra, felizmente Salazar salvou Portugal, endireitou a economia e meteu o país nos eixos, fez o país crescer, desenvolver-se, as pessoas não fazem ideia, dizem agora mal dele mas não fazem ideia. Salazar fez um trabalho extraordinário, porque aqueles é que foram tempos difíceis. As pessoas não fazem ideia de como era antigamente e de como seria se não fosse Salazar. Hoje é muito fácil falar...
Chega, pensei. Pedi a continha e pus-me a andar, já eram muitas repetições, as pessoas não fazem ideia, parecia coisa para o TikTok. Mas sou forçado a admitir: realmente, hoje é muito fácil falar. No tempo de Salazar é que não. Ia-se preso. E até se morria por abrir a boca. Fafenses morreram.

Com cem mil coiotes!

Branca e radiante
Branca de Neve brincava às casinhas com a casa dos sete anões. Com os anões ela brincava aos médicos. Mas não sei se, hoje em dia, isto se pode dizer.

Conheci muito bem Walt Disney. Ele falava brasileiro e dava aos sábados ou domingos à tarde no televisor a preto e branco do café Peludo, em Fafe. O Sr. Walt Disney, que tinha um bigodinho à Peter Sellers com bigode, isto é, à inspector Clouseau, não só falava muito bem brasileiro como, para mim, era mesmo brasileiro, por isso é que se chamava Walt Disney, nome próprio de jogador de futebol, talvez centroavante, e podia muito bem ter vindo jogar para Portugal, mas parece que não veio. Uma coisa é certa: foi ele quem me apresentou a figuras extraordinárias e tão importantes para a minha vida como o Zé Carioca, o Professor Pardal e o Lampadinha, os Irmãos Metralha, o Tio Patinhas, o Pato Donald e os sobrinhos trigémeos Huguinho, Zezinho e Luisinho, todos também a falarem muito bem a língua portuguesa, quero dizer, o brasileiro, o que me enchia realmente de orgulho.
Tive bons mestres. O Sr. Walt Disney e o nosso Marreca, é esse o nome que trago na memória, esperto alfarrabista das mil e uma coboiadas estabelecido naquele "coté" encravado debaixo das escadas da Arcada, do lado do Club Fafense, minúsculo quiosque de um janelo só que era porta aberta para o mundo. "Mundo de Aventuras", "Condor Popular", "Ciclone", "O Falcão". Luís Euripo, Mandrake e Lotário, Tarzan, Kalar, Cisco Kid, Texas Kid, Kit Carson, Jim Canadá, Fantasma, Buck Jones, Major Alvega, Matt Dillon e Chester, velhos companheiros de jornada, heróis de trazer para casa. Os livrinhos, depois de lidos e relidos, levávamo-los de volta, para a troca, em perfeito estado de conservação, o que só os valorizava, num sistema que funcionava muito bem, entregávamos, por exemplo, seis e trazíamos, por exemplo, três, o negócio era feito a olho, mas mesmo assim valia a pena, principalmente para o quiosqueiro, isso também era fácil de ver.
Aprendi bastante. Foi por estas e por outras que eu fiquei a saber que forasteiros são pessoas que vêm de fora, no faroeste, e portanto deviam era ser faroesteiros, deve ter havido engano, fiz a proposta de alteração aos dicionários, em devido tempo, mas, como sempre, ninguém me ligou. Foi nestas leituras que eu me enriqueci com expressões tão magníficas e úteis ao nosso dia-a-dia como, para não irmos mais longe, "Por Manitu!", "Saca, cão!" ou "Com cem mil coiotes!", e esta é a minha preferida. Nos livros aos quadradinhos, Walt Disney já era a cores e ensinou-me, por outro lado, palavras bem portuguesas e bonitas como cadê, sgrunf!, pilantra e sobretudo carona, de que eu gostava muito, quase tanto como gosto ainda hoje da palavra parreca, que eu já conhecia de ginjeira das nossas feiras e romarias, desde pequenino, parece impossível...

sábado, 17 de outubro de 2026

A badalhoca e o malcriado

Realezas
Dagoberto I foi coroado rei dos Francos no dia 18 de Outubro de 629 e instalou-se em Paris. Por cá, o Rei dos Frangos abriu portas no dia 12 de Agosto de 1989, em Leiria.

Badalhoca e Malcriado são dois restaurantes que quase se enfrentam na parte da Avenida de Serpa Pinto que atraca ao Porto de Leixões, em Matosinhos. A Badalhoca do Fredo e O Malcriado da Casa da Boa Gente, para sermos mais precisos, mas que nomes bem pensados. E nem precisávamos de ir tão longe, verdade seja dita: nós em Fafe - entre tascos, pensões, casas de pasto, restaurantes e cafés - também não estamos mal servidos de nomes arrevesados, alguns deles amiúde raiando a brejeirice, mas lancemos ferro por ora nas docas matosinhenses, no Malcriado e na Badalhoca. A zona é boa a este respeito. Ali ao largo há ainda, por exemplo, o Rei da Sardinha Assada e a Marisqueira dos Pobres, denominações igualmente sugestivas, posto que mais asseadas, e portanto não entram para o que aqui interessa. Que é o seguinte: imagino o dilema de quem anda na zona, povo de fora, à procura de um sítio decente para almoçar: Badalhoca ou Malcriado? Malcriado ou Badalhoca? Badalhoca?! Malcriado?! Estais a ver a dificuldade? A minha sorte é que moro perto e venho comer a casa.

Diálogos fafenses 41

O sem-abrigo e o com-abrigo
O com-abrigo abeirou-se misericordioso do pobre sem-abrigo, coitadinho, levantou-lhe o cobertor que lhe defendia a cara e a dignidade e disse "Bom dia". O sem-abrigo respondeu estremunhado "Boa noite", passava um pouco do meio-dia e, pensei eu, teria sido melhor princípio de conversa se se tivessem entendido acerca de "Boa tarde".
Via-se que o com-abrigo tinha tarimba, tirei-lhe logo a pinta, era um bom-samaritano nas horas vagas e por conta própria.
- Então, companheiro, como é que vai isso? - encarrilou o com-abrigo.
- Ia bem, obrigado, mas esteja quieto no cobertor... - resmungou o sem-abrigo, agarrando-se com unhas e dentes ao calorzinho que lhe roubavam.
- É assim mesmo, companheiro, positivismo acima de tudo, nada de pensamentos suicidas - acrescentou o com-abrigo.
- Pensamentos quê? - interrogou o sem-abrigo.
- Suicidas, companheiro, pensamentos suicidas, vontade de se matar... - explicou o com-abrigo.
- Eu conheço-o de algum lado? - inquiriu o sem-abrigo.
- Não nos conhecemos de lado nenhum, companheiro, mas estou aqui para o ajudar, limpe a cabeça de pensamentos suicidas... - disse o com-abrigo.
- Deixe então aí um ou dois euros, para um copinho de vinho - pediu o sem-abrigo.
- O importante é afastar os pensamentos suicidas, companheiro, não se deixe levar por eles... - disse o com-abrigo.
- E o eurito?... - quis saber o sem-abrigo.
- Os pensamentos suicidas podem ser-lhe fatais, companheiro, é preciso resistir... - disse o com-abrigo.
- Ouve lá - rebentou o sem-abrigo -, porque é que só falas dessa merda? Eu não quero morrer, quero dormir, caralho! Morre tu, se gostas tanto! E, já agora, vai chamar companheiro à puta que te pariu...

E foi assim. Palavra de honra se não foi exactamente assim, ou pelo menos podia ter sido.

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

A importância dos rijões no equilíbrio do planeta

Comida, carros e gajas
Acusam-nos de estarmos sempre a falar de comida. Nada de mais mentiroso e injusto. Na verdade, nós, os do Norte, somos tão capazes de manter conversas interessantes e profundas sobre gajas e carros como o resto da população portuguesa. Para além disso, se formos de Fafe, ninguém nos bate numa boa discussão sobre motorizadas.

Vou directo ao assunto, pelo menos uma vez: o redenho não é ingrediente indispensável para a confecção de uns rojões honestos e com outros matadores. Porém, se marcar presença, confere ao prato um não sei quê que por acaso sei e que tem a ver com o seu aspecto inusitado, com o sabor rústico mas colaborante, sabendo-se dar-lhe as voltas certas, e sobretudo com o crocante da textura.
Ora bem. Outro dia precisei de aviar uns rojõezinhos para uma gente que andava aí com desejos e fui ao talho, que eu sou de talhos e peixarias desde pequenino. Escolhi a carne, da febra e da barriga, o sangue e as tripas enfarinhadas. Quando pedi o fígado de porco, que na verdade até era e foi para organizar uma entrada de iscas de cebolada, o talhante, sem que eu dissesse mais nada, avisa-me: "Olhe que não temos redenho, não há". E depois, olhando para um lado e para o outro, chegando-se à frente do balcão à procura do meu ouvido e da minha cumplicidade para revelar-me o quarto segredo de Fátima, diz-me, num sussurro: "Quer-se dizer, haver há, mas é congelado". E, congelado, realmente "Não é a mesma coisa", concordámos eu e ele ao mesmo tempo, como se estivéssemos combinados.
Repito: o redenho não é indispensável aos rijões, sim, rijões, como se diz, e bem, na nossa terra. Mas a gentileza e a honestidade sim. Sobretudo nestes tempos de desrespeito pelos valores e de aviltamento das pessoas, tempos portugueses de antagonismos sociais, de pobreza imposta, de novos fascismos e de tristeza e azedume generalizados. Soube do redenho e senti a Terra a tremer debaixo dos meus pés. Algo mexeu com o equilíbrio estabelecido do Globo. A franqueza espontânea do talhante apanhou-me desprevenido, mas desanuviou-me a alma. Sou franco. Continuo a acreditar que anda meio mundo a enganar o outro meio, mas naquele momento, à frente dos meus olhos, um homem passou para o lado bom, que eu bem vi.
As coisas não são tão simples assim, é o que estais a pensar? São, são. E Dalila.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

A minha mãe foi à Lua

Mãe há só uma
Chamavam-lhe filho desta e filho daquela, chamavam-lhe filho de muitas mães. Ele defendia-se, num suspiro: - Mãe há só uma...

Quase a cumprir os 92 anos, a minha mãe foi pela primeira vez ao Planetário do Porto. Visitara, uns meses antes, o aquário do Sea Life no Castelo do Queijo, mas o Planetário é que lhe encheu as medidas. Viu estrelas, mesmo no meio delas, viajou pelo sistema solar até às galáxias mais distantes, esteve na superfície de Marte, orbitou um buraco negro, saiu de lá nas nuvens, deslumbrada, com um empolgamento a que é pouco dada e que eu já não lhe via há que séculos.
Contou-me tudo, maravilhada, fez questão. Isto é, contou-me o aqui e ali de que se lembrava, logo no dia seguinte, falou-me das estrelas que estamos a ver agora, no nosso agora, mas que não é o agora delas, o agora das estrelas, tantas e tão longínquas que nem fazemos ideia, não temos contas que cheguem para as estrelas todas, é um agora que já foi há muitos anos, anos-luz, e o universo é tão bonito, tão grandioso, que eu havia de ter visto para perceber, para dar valor, disse-me a minha mãe.
Tão entusiasmada e tão desgostosa, naquele inusitado transbordar de alma. Porque, lamentou-se, não me sabia "desplicar" a beleza completa do que vira na véspera, do que realmente sentira e pensara, as palavras necessárias não lhe acudiam à boca. Se fosse em nova! Mas agora "a cabeça já não ajuda". Esclareço. "Desplicar" quer dizer "explicar", evidentemente, e é um dos inúmeros atalhos linguísticos da minha mãe, que só me enternecem. São, regra geral, erros de pronúncia, facilitações ou adaptações orais, lógicas e compreensíveis, uma espécie de galaico-português tardio e rural, pontual, muletas de vida para quem nunca foi à escola e não lê nem escreve.
Eu nunca fui ao Sea Life nem ao Planetário do Porto. Prefiro que a mãe me conte. Adoro ouvi-la a "desplicar".

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

De cama em cama

Comidinha a sério
Felizmente também há em Portugal quem saiba, pratique, ensine e divulgue a cozinha tradicional portuguesa. Cozinha a sério (à séria, se lido em Lisboa), rica, recompensadora, essa, sim, assunto cultural. Já não temos a Senhora Dona Filipa Vacondeus ou o Chefe Silva, mas ainda se arranja qualquer coisa...

Adoro ver na televisão o trabalho dos jovens e famosos chefs da nouvelle cuisine portuguesa. Adoro!
Adoro ver aquele modo de confecção improvável, os ingredientes inovadores, variados e mínimos, o requinte e a cerimónia, o circo com a faca, a delicadeza no gesto, a anorexia na dose, a obra de arte final, aquela espécie de ilha cubista no meio do prato em branco, adornada com bagas, com ervas inventadas, com sucos e espumas, com salpicos e rabiscos de geleias coloridas. Salpicos e rabiscos aparentemente displicentes, ao calhas, porém profundamente cultos, sábios, cosmopolitas, científicos. Adoro!
Adoro ouvir aquelas palavrinhas francesas, parecem palavras mágicas, nominhos de perlimpimpim. Adoro!
Tudo muito confitado, muito braseado, muito abisnagado, muito resumido, muito em cama de. Adoro!
E a frescura?, ui, sobretudo muita frescura! Adoro!
Mal termina o programa, e enquanto não me esqueço, salto para a cozinha, enfio dois bolinhos de bacalhau da véspera dentro de meio biju ressesso, beberico um copo de verde branco, atiro-me à galinha de arroba que a minha mãe me mandou de Fafe e faço a boa e ancestral arrozada de cabidela. A cabidela monumental e histórica. E vai para a mesa no panelão, fumegante como velha locomotiva a vapor. Ei, rapazes, então é que eu me consolo...