sexta-feira, 10 de julho de 2026

Posso pedir um disco?

O último pedido
Vinham o padre, o presidente da câmara, o chefe da polícia e o doutor juiz. O carcereiro, que vinha também, desatarraxou a porta da cela e o director da prisão, na boa, informou o condenado: - Tens direito a um último pedido. O condenado pensou um bocadinho e disse: - Pode ser "A mula da cooperativa", do Max?...

A primeira jukebox de todos os tempos entrou em funcionamento no "saloon" Palais Royale, de São Francisco, EUA, no dia 23 de Novembro de 1889. A Fafe, as primeiras jukeboxes deverão ter chegado no final da década de sessenta do século passado, com as barracas de matraquilhos que se instalavam por baixo da Arcada, mais central era impossível, pelos 16 de Maio e pelas Festas da Vila. Havia um brilhantíssimo grupo de jovens fafenses,  bem mais velhos do que eu, que dava excelente uso à novidade. Dessa malta porreira fariam parte, se não me engano, o Berto Dantas, tio, o Eduardo do Retiro, Eduardinho, o Mesquita, creio que o Mané, Dr. Mané, o Jorge Lem, se era assim que se chamava, o Jorge Barros, filho do Nelinho, bissextamente o Ginho Cardoso e não tenho a certeza se o Bi Valente, gente assim desta categoria, e estou decerto a esquecer alguém ou alguéns e talvez a confundir nomes. Eram a vanguarda de Fafe. Eu admirava muito estes tipos cheios de classe, seguia-os sempre que podia, distâncias à parte, uma vez até me levaram com eles para um jogo de futebol que foram fazer a Felgueiras, não sei a que propósito, e no fim ainda tiveram a bondade de convidar-me para a almoçarada no primeiro-andar da Juditinha, evidentemente depois do Bertinho ter pedido por mim à minha mãe.
Mas tornando à maquineta dos discos, que mais tarde haveria de exibir também videoclipes, aliás de muito duvidosa qualidade, artística e técnica. Aquela rapaziada, já com algum mundo, tinha fino gosto musical e conhecia o que, regra geral, em Fafe ainda não se sabia. Acredito que me educaram o ouvido, entre alguns outros a quem o devo. A escolha na jukebox era muito limitada, pindérica, a ementa ao dispor consistia quase só naquilo a que hoje costumamos chamar música pimba. "O autocarro do amor" - de Os Taras e Montenegro, por onde andava um moço chamado Quim Barreiros - tocava de manhã até à noite, num despique fratricida e interminável com "Eu te amo, meu Brasil", de Os Incríveis. Uma xaropada insuportável, um atentado às orelhas de qualquer um, nem que não as tivesse ou por mais moucas que elas fossem. A minha sorte é que os rapazes do bando do Bertinho, chamemos-lhes assim, faziam questão de destoar da ignorância geral e caprichavam na evangelização, pondo a tocar, de forma paciente e cirúrgica, Beatles, obrigatoriamente, um cheirinho de Rolling Stones, Sheiks, Nat King Cole, que eu desconhecia, Sinatra, Joan Baez, Bob Dylan, Neil Young, Beach Boys, Mungo Jerry e "In the summertime", Scott McKenzie e "San Francisco", Los Bravos e "Black is black", lembro-me também da poderosa versão de "I'm free", da ópera rock Tommy, dos The Who, com a London Symphony Orchestra, e sobretudo, e estou-lhes tão grato por isso, ensinaram-me a inestimável "Eloise", de Barry Ryan, que ainda hoje ouço com prazer e nostalgia. Não sei porquê, apetece-me creditar-lhes talvez a minha descoberta de "Sebastian", dos Cockney Rebel de Steve Harley, e de "Changes", dos Black Sabbath, mas isto já devo ser eu a inventar, porque há aqui uma diferençazinha de quatro anos, de 1969 para 1973, quem sabe, porém, se não estarei certo.

Assim que tal, as festas acabavam, as barracas eram desfeitas, as jukeboxes iam-se embora e a minha vida entristecia. Sobrava-me o rádio e Quando o Telefone Toca, do Matos Maia, e era preciso dizer a frase.
Os 16 de Maio agora são Feiras Francas e as Festas da Vila, graduada em cidade, chamam-se Festas do Concelho ou Festas de Fafe, já não sei bem, as barracas dizem-se "pavilhões", muita água passou entretanto por baixo das pontes e carros por cima então nem se fala. É tudo muito sofisticado e cosmopolita, mas os discos de vinil estão outra vez na moda e a música pimba parece que também.
Por outro lado. Os matraquilhos foram inventados pelo galego Alexandre Campos Ramires ou Alexandre de Fisterra, que também era editor e escritor. O nome mais bonito dos matraquilhos é, digo eu, pseberico. Assim se falava pelo menos em Fafe.

Os Choupilos

Epitáfio 
Quando Epitáfio morreu, ninguém sabia o que dizer...
Choupilo. Termo regional, antigo, do Norte de Portugal, usado particularmente aqui no nosso Minho, e que quererá dizer sapo pequeno ou sapo vagaroso. Que se segue. Eu não sei se é daí que a coisa vem, mas a verdade tem de ser dita: em Fafe, nos velhos tempos, choupilos eram os músicos da Banda de Golães, os seus sócios e simpatizantes ou seguidores, isto é, os seus apaixonantes. Os Choupilos, porventura assim com maiúscula, com o devido respeito e toda a consideração. Choupilos ou Choupos, neste caso já com um suave toque botânico, tudo isto dito, bem entendido, sempre do ponto de vista dos músicos e apaixonantes da banda rival, arqui-inimiga, a Banda de Revelhe. Quer-se dizer: os da Banda de Revelhe é que chamavam Choupilos ou Choupos aos da Banda de Golães, que, por sua vez, certamente também chamariam nomes do piorio aos da Banda de Revelhe, nomes feios e manhosos, mas juro que não sei quais, nunca foram do meu conhecimento.
Havia uma ronha tremenda entre as nossas duas bandas de música. Fafe tinha um feitio desgraçado, tolo, só se dava bem na confrontação, gostava de dividir-se ao meio e andar à pancada entre si. Estou farto de o dizer, tudo servia para nos separar e opor, para discutirmos e teimarmos: as duas filarmónicas, os dois velhos clubes de futebol, os dois fotógrafos da vila, os dois cangalheiros, a Escola Industrial e o Colégio, a Fábrica do Ferro e o Bugio, o Fredinho Bastos e o Tangerina, a Zundapp e a Sachs, a Juditinha e o Zé da Menina, a Rua de Baixo e a Ponte do Ranha, o Peludo e o Snack-Bar, o Dr. Antunes e o Dr. Amadeu. Uns éramos por uns, outros éramos pelos outros, sempre à bulha, como cão e gato, e ninguém nos aturava. Lembrais-vos do filme "Kramer Contra Kramer", com Dustin Hoffman e Meryl Streep? Pois nós aqui, não tendo nada a ver, era exactamente o mesmo, Fafe contra Fafe, mas sem filmes de jeito nem actores de categoria, tínhamos apenas a mania das facções, o espírito de contradição era o nosso modo de vida. 

A Banda de Revelhe era o meu ambiente. Dos quatro homens da nossa casa, a começar pelo meu pai, só eu é que não fui músico. Sou, em todo o caso, revelhista desde pequenino. E éramos revelhistas ferrenhos. O que agora me parece um pouco estranho, porque, por outro lado, a Banda de Golães é que chegou a ser, a partir dos finais do século XIX, a banda oficial dos Bombeiros Voluntários de Fafe. E nós éramos "os da Bomba", que diabo. Já bem na segunda metade dos anos de mil e novecentos, portanto um século mais tarde e deslaçada formalmente aquela histórica ligação, a Banda de Golães ainda honrava a tradição, formava em frente ao quartel da Rua José Cardoso Vieira de Castro, no dia da Festa da Bomba, e tocava o Hino dos Bombeiros. Lembro-me muito bem de ver e de ouvir. Sei de cor e salteado a melodia do hino, integral e afinada, trauteio-a ou assobio-a amiúde, só porque me dá na cabeça ou se calhar são saudades, e foi daquela maneira que a aprendi. 
Curiosamente, havia outros ramos da família, não directamente ligados aos Bombeiros como nós, que, eles sim, aderiram à Banda de Golães, o que me enchia de escândalo naquela altura, teria eu para aí sete ou oito anos. Recordo-me do Tio Rochinha, da Recta, e do Tio Albino Grande, tios-avôs, mais um ou dois primos em segundo grau, se não me engano. O bom Tio Rochinha, pequenino, tão frágil e trágico, sempre com um sorriso engatilhado e, enquanto pôde, palavras amáveis e reconfortantes para distribuir por toda a gente. E o Tio Albino Grande, um homem imponente, elegante, gentil, com uma voz mansa e bem timbrada, de locutor nocturno da Emissora Nacional, uma voz que eu gostava muito de ouvir, parecia que fazia bem às pessoas. O Tio Albino era casado com a Tia da Rua do Maia e pai do famoso Fernando Massagista, querido primo, "primaço". A Tia da Rua do Maia era irmã do Bô da Bomba e passámos a chamar-lhe Tia Rottenmeier, isto é, Tia Rotmaia, quando os bonequinhos japoneses da "Heidi" chegaram à RTP, na parte final da década de 1970.
O Tio Albino era o garboso porta-estandarte da Banda de Golães. Dava gosto vê-lo, palavra de honra. E nós dizíamos, invejosos e talvez malandros, que ele tocava muito bem bandeira.

Firme e hirto como uma barra de ferro

O grande prestidigitador
Era um mágico extraordinário: em vez de coelhos da cartola, tirava macacos do nariz.

Não sei se foi pelos 16 de Maio ou pela Senhora de Antime, talvez fosse pelo Natal ou então ocorreu num dia qualquer, anónimo, um dia sem atributos que o destaquem ou recomendem. Mas aconteceu. Uma vez, um artista hipnotizador, quiçá mentalista e certamente ilusionista veio dar um espectáculo ao nosso Cinema e eu, que era mocico e pobre, não entrei, não vi, porque era preciso pagar bilhete para entrar. E era uma bonita tarde de sol. Para chamar povo como no Poço da Morte dos 16 de Maio e da Senhora de Antime, o artista hipnotizador, quiçá mentalista e certamente ilusionista fez cá fora, na Rua Monsenhor Vieira de Castro, o famoso número de conduzir um carro com os olhos vendados, naquele bocado de estrada entre a esquina do Santo Velho e o ateliê do Zé Manel Carriço, exactamente nesse sentido, que era permitido na altura, nem cem metros sempre em linha recta, assim também eu, foi o que então pensei, e no entanto ainda hoje não sei conduzir nem tenho carta de condução, com os olhos abertos ou fechados. O mirabolante número da condução em braille terá sido feito cá fora de mais a mais porque lá dentro decerto não daria jeito, cheguei também a essa importante conclusão aqui atrasado, quando finalmente percebi que o bonito Teatro-Cinema de Fafe, apesar de realmente glorioso e frequentemente "icónico", é muito mais pequeno do que eu o supunha no meu tempo.
Esperei pelas horas à sombra, no passeio em frente, fazendo malha com o cotão dos bolsos, discretamente, encostado à histórica casa-mãe dos Summavielles, como já lhe chamei, e que era habitual sítio de estar, antes e após o cinema, e nos intervalos também. No final da função, os ilustres que pagaram para entrar e ver disseram-me que aquilo lá dentro não prestou, que não valera o dinheiro. Felizmente para eles, a saída era de graça...
O artista talvez fosse o Professor Karma, esse extraordinário e irrefutável hipnotizador de galinhas, lembrei-me agora, mas de momento não estou em condições de o afiançar sem correr risco de levar com um par de desmentidos no focinho. Era, em todo o caso, um Professor Karma qualquer, ainda que vestisse outro nome mais ou menos estrambólico. O grande Zandinga não foi, esse haveria eu de conhecê-lo pessoalmente, alguns anos mais tarde, numa noitada para lá de estranha, no Porto, à mesa do antigo Big Ben. E Alexandrino, o cromo do "firme e hirto como uma barra de ferro" a quem Herman José deu fama, é muito mais recente, ainda nem sequer tinha sido inventado.
Em Fafe apareciam de vez em quando uns fenómenos assim, vendedores de sonhos e de retroescavadoras com luzinhas, empresários de carregar pela boca e artistas a bem dizer, micro e pequenos vigaristas em tournée pelo país que era paisagem e gostava bastante de ser levado de conversa. De preferência, a preço módico. Uma ocasião até nos quiserem impingir uns sensacionais espectáculos de luta livre, nos antigos Bombeiros, era só tirar os carros todos cá para fora e montar lá dentro o ringue e assentos à volta, realmente uma trabalheira, e o meu avô, que era o quarteleiro, torceu logo o nariz. Prometiam-nos um festival de pancadaria a fingir, mas eu não sabia, com os assombrosos Tarzan Taborda, José Luís e Carlos Rocha, eram os nomes dos cartazes, vindos directamente do Coliseu dos Recreios, do Parque Mayer e do Pavilhão dos Desportos de Lisboa, pelo menos os retratos colossais, e para mim era como se viessem do Coliseu de Roma. A coisa ficou sem efeito, nunca soube porquê, ninguém me consultou nem explicou, o meu avô foi dormir a sesta, todo contente, e eu fiquei-me com um desgosto que até hoje. Carago, nos Bombeiros eu tinha borla garantida...

quinta-feira, 9 de julho de 2026

E depois dos foguetes?

A ressaca
A ressaca é uma saca repetida.

Passa das sete e meia da manhã e a Queima das Fitas ainda está a desfazer a tenda. Na Praia de Matosinhos e na Praia Internacional do Porto, dorme-se, mergulha-se, fuma-se, bebe-se, vomita-se e fornica-se. As esplanadas do Edifício Transparente, pejadas de garrafas em cacos e cadeiras partidas, parecem um campo de batalha sem cadáveres nem sobreviventes. Na Rotunda da Anémona, uma pequena multidão de ressacados espera de orelha caída pelo autocarro. Têm tratamento de claque de futebol, de gado: estão enjaulados e vigiados à distância de um bastão pela polícia de choque.
Três miúdas cambaleiam pela Avenida de Montevideu, aparentemente em direcção à Foz. Vão vestidas. Nos intervalos entre cabeçadas contra painéis publicitários e tropeções nos mecos de delimitação do passeio, pedem boleia aos carros que passam. São mesmo miúdas, caloiras da vida, naquela idade e naqueles corpinhos que o sacana do arguido aproveita sempre para se defender, dizendo: "Senhor Doutor Juiz, ponha-se no meu lugar".
Uma das raparigas salta para a estrada, faz sinais ostensivos, quase desesperados, para que os carros parem e as levem dali. Só as buzinas lhe dão troco. E os trolhas que vão para as obras em carrinhas cheias de pressa e juízo mandam-lhe a boca da ordem, "Ó filha, és toda boa", mas boleia é que nada. Um crime. Quero dizer, o piropo bronco. "Foda-se! Ninguém tem compaixão", lamenta-se a miúda, mais para si mesma do que para as outras, num desgosto que só visto.
Ela é nova e não sabe. Às vezes há quem tenha "compaixão", "compaixão" até demais. E é aí que o tribunal entra na história...

O Paraíso foi em Fafe

O Neves foi ver a neve
O Neves pegou na família e foi ver a neve. Não viu. A estrada estava cortada. Por causa da neve.

Eu ouvia falar, via os desenhos e depois aprendi a ler, Jardim do Éden, Jardim de Deleite, Jardim das Delícias, Jardim de Deus, Jardim do Paraíso, Paraíso Terrestre, Paraíso Terreal, ou simplesmente Paraíso. E nunca tive dúvidas: o Jardim era o nosso, não havia outro. O Jardim, toda a gente sabia. O Mundo assim com maiúscula começou em Fafe, no Jardim do Calvário, foi aqui que Deus pôs Adão e Eva em coiro, mais a maçã e a serpente e, claro, os dinossauros, crocodilos e tudo, os famosos crocodilos do Jardim do Calvário. Se se cantava "Cai neve, cai neve, cai neve no jardim", era evidentemente no nosso Jardim que nevava, aliás cheguei a ver uma vez. Se se brincava "Fui ao jardim da Celeste, griroflé, giroflá", era do nosso Jardim que se falava, obviamente, embora naquele tempo fosse preciso pagar para brincar, manias lá do fascismo. Eu tinha estas ideias muito bem esclarecidas na minha cabeça, e que ninguém me viesse dizer o contrário. Essa é, aliás, a principal vantagem da infância, a sabedoria.

Crocodilos no Jardim do Calvário

Um grande nome
A comissão de festas tinha prometido "um grande nome" e cumpriu satisfatoriamente. Quando as luzes do palco se acenderam e foi pomposamente anunciado, o cantor chamava-se, com efeito, José Manuel-António Ferreira Rocha Vieira da Silva Pereira Gonçalves Ribeiro e Castro Melo Antunes Bastos Monteiro Neves Brochado Macedo Nogueira Santos Oliveira Costa Rodrigues Martins Carvalho Marques Almeida Cunha Pires Lopes de Perestrelo e Lencastre-Maldonado. E tinha bailarinas...

Uma vez, o Jardim do Calvário recebeu uma exposição de dinossauros, coisa realmente imponente, mastodôntica, quinze dinossauros completos e em tamanho natural, instalados em Fafe durante um mês e picos, certamente uma considerável despesa pelo menos em penso e água, porque isto os dinossauros, já se sabe, comem como alarves e bebem como camelos, dinheiro bem empregue e que, estou convicto, redundou num enorme sucesso, porque todas as iniciativas do Município redundam em enormes sucessos, pelo menos de acordo com a avaliação insuspeita do próprio Município.
Portanto, foi porreiro para Fafe. E foi também, de alguma maneira, um regresso às origens. Porque aquele bucólico espaço, cujo lago de bolso, para além de cisnes ou pelo menos patos, já teve barcos ou pelo menos barco, houve uma altura, e não vai assim há tanto tempo, em que tinha também crocodilos. E deviam ser uns crocodilos enormes.
Os crocodilos, que são do tempo dos dinossauros, faziam um barulho medonho à noite e não deixavam descansar o Mecas, que morava habitualmente ali ao lado, em casa do padrinho, o Dr. Zé, na Travessa do Calvário, se estou a dizer bem, mas não tenho a certeza, que isto, a certa altura, já entra na onda do mito. O Mecas ia depois para a fábrica (a Fábrica do Ferro, é claro) e, embora fosse por natureza um trabalhador exemplar, isto é, a ronha em pessoa, passava o dia inteiro a dormir lá em cima dos fardos de algodão exactamente por causa dos estupores dos crocodilos - conforme ele próprio explicava aos chefes, mestres, encarregados, afinadores e até patrões quando o apanhavam na sorna, que era todos os dias.
Sei quase tudo o que verdadeiramente interessa saber sobre o Jardim do Calvário, porque eu e o Jardim somos uma história muito antiga. Foi ali que eu me iniciei no mundo do espectáculo, evidentemente como espectador, com lugar cativo no serão das inesquecíveis Festas da Vila. Ano após ano, antes da marcha e do fogo, passaram-me pelas mãos a Senhora Dona Amália, a Hermínia Silva - que, para além do indispensável Pacheco, trazia atrás o filho, o tenor Mário Silva -, o Rodrigo, a Tonicha, o José Cid, o Paco Bandeira, a Dina, os putos do Mini Pop que tinham ido ao Festival da Canção e depois viriam a ser os Jafumega, o Hugo Maia de Loureiro que era cinturão negro e campeão de judo e ofereceu no focinho aos assobios de uns tantos por causa de um playback mal explicado, o Nicolau Breyner e o Herman José que andavam a passear pelo País a rábula do "Senhor Contente, Senhor Feliz", eventualmente a Lenita Gentil, a Florência, o Armando Gama e o Marco Paulo, e o mais certo é ter levado também com o Nelo Silva e com os Broa de Mel, com o Manuel Morais e com o "Cantinflas Português" que era uma coisa que só vista...
Estais a ver, portanto, o meu currículo. O nosso currículo. Eu e o Jardim do Calvário. Eu entrava à sorrelfa, todos os anos variando de expediente, porque os espectáculos eram a pagar, tinham plateia para a burguesia local, comerciantes e pequenos industriais, respectivas matronas e extremosa prole, que se acadeiravam no espaço de cimento rachado, aparentemente afectado por um cataclismo de filme e pomposamente chamado de "rinque de patinagem", os mais ricos dos mais ricos nas filas da frente, e à volta da vedação, de pé, apertadinhos e aos apalpões, era a geral, éramos nós, pessoal do rés-do-chão mas os que batíamos mais palmas quando tínhamos as mãos de vago.
Se não estou em erro, terá sido ali mesmo que começou essa tradição tão festiva e tão fafense do "cuelho", também chamado de empernanço ou, cientificamente falando, "estou a ver passar os ciclistas"...

No Jardim do Calvário iniciei-me também nos concursos do vestido de chita e, confesso, nos fumos. Pelos nove-dez anos, ia fumar para as escadas do inamovível portão das traseiras, o sítio de Fafe onde se faziam as coisas feias. O Bílio - sim, esse Bilinho, meu querido companheiro de infância - aparecia com meio maço de Definitivos, que ali queimávamos num instante, antes que alguém nos visse e fosse contar à minha mãe. Depois eu ia-me confessar. Porque Deus vê tudo e fumar, naquele tempo, era um pecado muito grande, um dos maiores pecados logo a seguir à masturbação. Não fiquei com o vício. Do cigarro, quero dizer.
Pelos dezoito-dezanove, já nas escadas da frente, lá no alto, fui apresentado à liamba, que tinha vindo de Angola com uma mão à frente e outra atrás e era muito fixe. Nunca percebi a moca dos outros, sempre pensei que estavam apenas a armar-se, porque comigo a coisa não funcionava. Quer-se dizer: engasgava-me, isso sim, não vou mentir, mas mais nada. E também não fiquei freguês.
Ao longo dos últimos anos, sempre que pude e posso, voltei e volto ao Jardim, para mostrar aos amigos, para ouvir os concertos da Banda de Revelhe (era ali o sítio certo, valha-me Deus!), ou apenas, e dizer aqui apenas é uma rematada tolice, para, sozinho, envergonhadamente comovido, apaziguar as saudades.

Mas aos dinossauros é que eu não fui. Achei muito bem que os dinossauros viessem pastar a Fafe, as  residências artísticas servem para isso mesmo, disse-o sinceramente na altura, e estimei-lhes os maiores sucessos. Porém, era no Jardim e a pagar, e eu não dou para esse peditório. Por uma questão de princípio. Não sabia como é que as coisas iam ser organizadas, se os fafenses poderiam desfrutar do seu Jardim do Calvário durante o tempo da exposição, parece que não, se poderiam levar os seus filhos aos baloiços, parece que não, se poderiam passear livremente com a família por aqueles caminhinhos de brincar, parece que não, se poderiam procurar e descobrir sem encargos os nomes das plantas, arbustos e árvores, parece que não, se poderiam ocupar um banco sem serem presos, parece que não. Isto é: seria obrigatório comprar bilhete para simplesmente entrar no Jardim? Parece que sim.
O próprio Município cataloga o Calvário como o "mais importante jardim público da cidade". Público. E no entanto o Jardim do Calvário parece às vezes privatizado por pessoas que pensam que o jardim é só delas, e não é, o jardim é de todos, e eu não percebo nada disto. Sempre me incomodou a visão merceeira do serviço público mas pouco, a ausência de bom senso, o quero, posso e mando de quem está de passagem e não respeita o povo nem cuida dos mais pobres. Sempre me fez espécie a esperteza saloia de convidarmos visitas para nossa casa e cobrarmos bilhete à entrada da sala de estar.
Pagar para entrar no Jardim do Calvário, jardim público? Nunca! Quando eu era pequeno e me diziam que estávamos no fascismo, eu suspeitava que fascismo era exactamente aquilo: pagar para entrar no Jardim do Calvário ou para ir ao escorrega. Portanto não fui aos dinossauros. Por uma questão de princípio, repito. E também já não tenho idade para saltar muros...

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Salvemos a chita!

E os coelhos?
Os coelhos são uma praga, como leio e ouço, ou, completamente pelo contrário, estão em risco de extinção, como também leio e ouço? Resolvam-se, porra!

Convidaram a supermodelo, famosa, a participar no concurso do vestido de chita. "De chita? Jamais! Sou o mais possível contra a roupa feita com pele de animais!", declinou a supermodelo, famosa e irritada, com o mais possível de veemência e dois pontos de exclamação, como deve declinar uma supermodelo, famosa, irritada e activista que se preze. "Preferia desfilar nua!", atirou, altiva, e era o terceiro ponto de exclamação que gastava, para acabar de vez com a conversa. "Também está bem", concordaram os organizadores.