segunda-feira, 13 de julho de 2026

Meu rico menino

Ai quem me dera
"Ai quem me dera ter outra vez vinte anos", cantava com sentimento o jovem fadista, estrela que haveria de ser. Tinha apenas sete aninhos, coitadinho, mas, quem o ouvisse, parecia que tinha oitenta...

Uma noite, altas horas, saíamos da casa de má fama ali para os lados da Estação e resolvemos passear descalços pelas ruas desertas e geladas da cidade. Não sei de quem foi a peregrina ideia, mas, de tão tola, decerto foi minha. Confesso que não me lembro do que pretendíamos exactamente provar, se é que queríamos provar alguma coisa, mas gosto de pensar naquele momento insólito como um ritual de fraternidade, a celebração de uma amizade antiga e inoxidável que nos ligava desde miúdos, apesar da evidente diferença de "estatuto social" entre as nossas duas famílias. Frequentara-lhe a casa - de rico, por assim dizer, e dizia-se assim naquele tempo. Eu levava-lhe de avanço um par de anos. Dava-me o lanche, apresentou-me ao pão com manteiga e ao café com leite. Guiou-me pelos caminhos do rock. Ensinou-me Queen, com as devidas reservas. Emprestou-me "A Night at the Opera", acabado de sair, novinho em folha. Eu e a minha mãe deliciávamo-nos a ouvir "Bohemian Rhapsody" uma e outra vez, mais de vinte ou trinta vezes ao dia, no pequeno gira-discos francês que nos sobrara do meu pai. E ficou Queen até hoje, posto que non troppo.
Ali íamos, portanto. O Bertinho e eu. E, sim, era realmente liturgia, era festa. Glorificávamos a camaradagem desinteresseira e fiel. Éramos irmãos. Irmãos para toda a vida e depois. Ali íamos afinal iguais, ambos de pés descalços, com as botas e as meias pela mão, trocando memórias e partilhando o riso. Ríamos muito! Passávamos em frente à Câmara e parámos - éramos, penso-o agora, uma procissão, os dois. Se naquele precioso instante soltassem revoadas de pombas brancas por sobre as nossas cabeças e lançassem estrondosas girândolas de foguetes, creio que não nos espantaríamos. Nós éramos a Senhora de Antime, a festa inteira, em pessoa.
Escandalosamente generoso e bom, leal e presente, o Bertinho chamava-me "meu rico menino", e eu gostava. Eu gostava, meu rico menino!

(Já agora: Bob Dylan, aprendi-o com o Best, madrugada dentro, em casa dos pais, no Lombo. Iniciei-me com "Hurricane" e sandes de fiambre, e talvez também cerveja.)

O sonho comanda a vida?

Cuidado com o que se deseja
Perseguir sonhos, às vezes, pode ser crime. Nesse caso chama-se "stalking".

Sonho. Bolinho muito fofo, de farinha e ovos, frito e depois geralmente passado por calda de açúcar ou polvilhado com açúcar e canela. Só isto. Agora: onde raio é que o poeta foi buscar a ideia de que "o sonho comanda a vida"? Se ainda fosse o pão-de-ló de Fornelos...

As lambanas

Atrás de um grande homem
Atrás de um grande homem às vezes vem a polícia.

As lambanas são pequenas fadas aladas, parece que vindas da mitologia filipina. Lambana é também, como acabo de descobrir, nome de um resort na Índia. Em Fafe, porém, lambana era o feminino acusativo de lambão, portanto queria dizer o mesmo que lambona ou lambareira, talvez com um significado mais abrangente e desdenhoso. Mas era lambana que dizíamos, é lambana que eu ainda digo. Lambana. Comilona, glutã, gulosa, tolinha por doces ou simplesmente açúcar, larpeira, alarve, egoísta, regalona, interesseira, invejosa, sovina, açambarcadora, lavajona, sebastião come, tudo, tudo, tudo, mas em sebastiana. "Fulana é uma lambana", "És muito lambana", "Naquela casa é só lambanas". A lambana, as lambanas. Mas cuidado, muita atenção: é preciso não confundir lambanas com begueiras. As begueiras, que também as há, são outro assunto.

domingo, 12 de julho de 2026

Diálogos fafenses 58

As duas senhoras
- Bom dia, Senhora da Misericórdia!...
- Olá, Maria das Dores, há um ano que não nos víamos...
- Saio pouco, enjoo na viagem...
- E eu também, são estes solavancos, estes salamaleques, estas lengalengas, estes tambores, este sol...
- Os foguetes...
- As pombas...
- Este povo...
- O nosso povo, não é?
- No dia do anho parece que sim, de resto nunca sei dele...
- Mas a senhora está muito bem.
- E a senhora também.
- Porém os anos...
- A quem o diz...
- Por falar nisso, tinha qualquer coisa para lhe dizer...
- E eu também, mas não me lembro...
- Bem, vou-me lá, que são que horas...
- Vá do seu vagar, vá. Vá indo, que eu vou lá ter...

Sempre alerta

Bombos da festa
Eles não gostavam que lhes chamassem bombos da festa. Mas eram.

Nas desbragadas palavras do humorista brasileiro Juca Chaves (1938-2023), os escuteiros são "um bando de garotos vestidos de idiotas, comandados por um idiota vestido de garoto". E consta que o famoso menestrel teve de pedir desculpas pela piada.
E o que é que eu acho? Eu gosto de ver os pequenos e grandes escuteiros, a toque de caixa, ribombantes e razoavelmente descompassados, abrindo a procissão da Senhora de Antime. E penso no velho Juca e rio-me um bocadinho, Deus me perdoe...

Igreja Nova, pecados velhos

Incesto
Ele andava um farrapo. Deprimido, angustiado, pesaroso, cabisbaixo em todos os sentidos. Atormentava-o o terrível pensamento, a dúvida atroz: será incesto manter relações sexuais com a própria mulher?

Fafe. Na Igreja Matriz, a igreja velha, os homens ficavam à frente, junto ao altar, e as mulheres ficavam atrás, separadas dos homens por umas pequenas grades. Na Igreja Nova os homens ficavam do lado direito para quem olha para o altar e as mulheres ficavam do lado esquerdo para quem olha para o altar. É. A Igreja Nova representou um indiscutível avanço civilizacional. Um avanço para o lado, amém.

Tocavam os sinos da torre da igreja

Advérbios
Há oras felizes e aliás também.

Naquele tempo, Fafe dispunha de dois razoáveis tocadores de sinos: o Zé Sacristão, na Igreja Nova, e o Mudo, na Igreja Matriz. Ambos autodidactas, biscateiros, rabugentos, mas artistas de mão cheia. O Sr. José era sacristão, como o próprio nome indica, e importante autoridade eclesiástica local, logo a seguir ao Sr. Arcipreste e à Irmã do Sr. Arcipreste, só depois é que vinham os outros padres e a comissão fabriqueira. Para além disso, era também muito amigo e principal vítima das anedotas e partidas do meu avô da Bomba e do Sr. Ferreira do Hospital, que lhe davam cabo da cabeça por uma questão de princípio. O Mudo era engraxador e sportinguista de alto gabarito, irredutível fiscal antiborlas e segurança atrás das balizas, primeiro no Campo da Granja e depois no Estádio, hoje, com a mania dos eufemismos sem sentido, chamar-lhe-iam steward e talvez Infonador ou Insonoro. Mantinha ponto no cruzamento da Rua Montenegro com a Rua António Cândido, do lado do Asilo, em frente ao Cândido Mota.
A torre da Igreja Nova dava as horas a prestações, automaticamente, comandando a toque de caixa a vida na vila antiga. Para músicas mais elaboradas, em ocasiões especiais, os sinos eram tocados a partir da sacristia. Imediatamente após as escadas e a porta, quem entrava por fora, logo à mão esquerda, antes do armário que guardava casulas e estolas, capas e outras alfaias litúrgicas mais pesadas, havia uma espécie de cofre cravado na parede e sempre fechado à chave. O interior continha um teclado de meia dúzia de notas, eventualmente as sete básicas mais um ou outro sustenido ou bemol, não tenho a certeza, e era ali, carregando nas teclas com um pauzinho tipo régua, uma de cada vez, na ordem certa, de ouvido, como quem escreve à máquina só com um dedo, que o Sr. Zé Sacristão, ou Zé Fogata, executava as duas ou três modinhas religiosas que sabia, regra geral sem enganos de maior nem improvisações dignas de registo, naturalmente dependendo da hora a que decorria o recital. Entre o toque seco na tecla e a resposta do sino respectivo demorava sempre um bocadinho, um quase nada, mas eu, menino de ajudar à missa, percebia aquilo muito bem, era o tempo que a nota levava a chegar lá acima, porque a electricidade naquela altura não era tão rápida e instantânea como é agora a dos computadores.
Estes concertos eram dados principalmente em dias de festa religiosa, antes e no final de missa solene, nas saídas ou chegadas de compassos e procissões - e lembram-me sol, manhãs límpidas e alegres. Estavam previstos, pertenciam à liturgia oficial. Pela parte que lhe tocava, e muito, o Sr. José também aceitava encomendas particulares, para assinalar condignamente casamentos e baptizados mais faustosos, por assim dizer, mas isso já era pago por fora - se é que me faço entender.
Na Igreja Matriz, o Mudo fazia igualmente pela vida, aproveitando sobretudo os funerais. Estou em crer que o seu serviço constava na folha de pagamentos dos dois cangalheiros fafenses originais, fora as sempre bem-vindas gorjetas dadas pelos familiares do defunto, que assim cuidavam de marcar lugar no céu. Na Matriz exigia-se ao sineiro um desempenho mais atlético e menos melodioso, os sinos eram da geração anterior, tocados à mão, directamente, puxando cordas e badalos, nos velhos compassos, plangentes, com alma, do dobrar de finados. Lá em cima, na torre, ser surdo deveria revelar-se de uma extrema comodidade.

Era o que tínhamos. E dávamos-lhe muito bom uso, não é para nos gabar. Agora. Diz-se que Portugal tem desde 2005 o segundo maior carrilhão da Europa. Em Alverca, com 72 sinos, alguns dos quais pesam várias toneladas, e todos geralmente calados. É o terceiro carrilhão construído em Portugal, depois dos famosos carrilhões instalados, no século XVIII, no Convento de Mafra e na Torre dos Clérigos, no Porto. Os Carrilhões de Mafra são considerados, aliás, o maior conjunto de carrilhão fixo do mundo, com 120 sinos em duas torres. E o maior e mais pesado carrilhão itinerante do mundo é também português, o Lvsitanvs, com 63 sinos e cerca de 12 toneladas, sediado em Constância mas a poder viajar por todo o país em cima de um semi-reboque, segundo leio.
De carrilhões realmente até nem estamos mal servidos. Há quem diga que é preciso tê-los, e nós temos. E quem diz carrilhões, diz órgãos. Órgãos de tubos. Como, por exemplo, o avantajado órgão de tubos da portuense Igreja da Lapa, que é considerado "o maior órgão de tubos da Península Ibérica", e olé!, e o poderoso órgão de tubos da Basílica da Nossa Senhora do Rosário, em Fátima, que é considerado "o maior órgão de tubos de Portugal". Há qualquer coisa aqui que não bate certo, é verdade, mas eu não sei o que é. Os medidores de instrumentos não se entendem e desconhecem os contornos da geografia, mas o livro da antiga 4.ª classe, contas simples de somar e uma fita métrica bastariam para acabar de vez com a confusão, se o assunto fosse em Fafe. Isto com os órgãos para o Guinness não é questão de opinião ou desempenho. O tamanho importa, mesmo!