domingo, 27 de setembro de 2026

O mar começa em Fafe, devagarinho

O leitor
Ele era um leitor compulsivo. De contadores de água, luz e gás.

O rio Vizela nasce em Fafe, exactamente no Alto de Morgair, antiga freguesia de Gontim. Depois de banhar Fafe, sobretudo na barragem de Queimadela, o rio Vizela passa também, por esta ordem, pelos concelhos de Felgueiras, Guimarães, Vizela, a que dá nome, e Santo Tirso. Neste seu interessante percurso, o rio Vizela acolhe diversos e variados influentes. O influente mais importante, isto é, o mais influente, é o nosso rio Ferro, mas não podemos esquecer o rio Bugio e, se não me engano, as ribeiras de Docim, de Moreira e de Ribeiros e o ribeiro de Costas Antas. São influentes porque eles é que abastecem de água o rio Vizela, que, por sua vez, é influente do rio Ave, que vem da serra da Cabreira, Vieira do Minho, e desagua no oceano Atlântico, em Vila do Conde. Creio portanto não ser exagero nenhum dizer que o mar começa em Fafe, pelo menos um bocadinho.

O aeroporto é nosso!

Do monólogo ao solilóquio
Tomou a palavra logo a seguir a si próprio, desvanecido com tamanha facúndia. Falou, falou, falou, até que a voz lhe doeu. Então sentou-se e aplaudiu-se entusiasticamente.

Foi no final de 2023. A notícia saiu no insuspeito tablóide britânico The Sun e portanto só podia ser verdade: Fafe era "a cidade mais barata de Portugal". Pelo menos, para inglês ver. Quem me alertou para a magnífica novidade foi o nosso Pedro Dantas, que está lá na Velha Albion e sempre atento a estas extraordinarices. De acordo com o bem informado artigo, que, nem de propósito, confunde o Palacete dos Dantas com a Igreja Românica de Arões, Fafe, "uma cidade pouco conhecida em Portugal", ficou em primeiro lugar num ranking de barateza turística elaborado por uma entidade alegadamente chamada Porto Travel Guide. Mais de cem cidades portuguesas terão sido "analisadas por especialistas", e Fafe ganhou, à frente de Oliveira de Azeméis, Famalicão, Ovar e Amarante, só para se ter uma ideia.
E o que é que Fafe tem? Pois, para além da igreja e do palacete levados ao engano, Fafe tem a Casa do Penedo e a Casa do Santo Velho, na minha rua, e "um enorme parque aquático ao ar livre", embora os indígenas prefiram refrescar-se "no reservatório local chamado Barragem de Queimadela". Para além disso, garante o indesmentível The Sun, Fafe tem "comida e bebida baratas", "restaurantes baratos e hotéis económicos". É pouquinho? Mas é de boa vontade.
Isto aqui vai ser outra vez o fim do mundo, vamos ficar a nadar de camones. E convém que parem imediatamente os estudos uns atrás dos outros que só dão despesa e não vão a lado nenhum. Nem Portela, nem Portela + 1, nem Portela + 2, nem Montijo, nem Alcochete, nem Santarém, nem Pegões, nem Rio Frio, nem Poceirão, nem Beja, nem Monte Real, nem Alverca. Nada disso. O novo aeroporto de Lisboa só pode ser em Fafe! Em Fafe, mais exactamente na freguesia de Golães, cumprindo-se enfim a viperina profecia da maledicência de outros tempos - assunto que metia emigração, maridos fora, mulheres sozinhas, desejo, amantes, adultério, "cornos", portanto "aviões", portanto "campo de aviação", falatório desmoderado, boatos, calúnias pela calada, onzenices, muito veneno e ruindade por parte de quem falava só por falar, e talvez também inveja.
Aliás, Fafe tem uma história muito rica no que diz respeito a aviões, inclusive de papel, helicópteros, cestinhas, papagaios, bolinhas de sabão e produtos afins, uma longa e bonita tradição. Uma vez até caiu um avioneta na Cumieira, que saiu nos jornais e foi o nosso orgulho até hoje. E agora, finalmente, temos o aeroporto, o jackpot, a sorte grande. O novo aeroporto de Lisboa é como o Leites. "O Leites é nosso!" e o aeroporto também.
Ó gente da minha terra, abaixaide-vos! Vai vir charters...

sábado, 26 de setembro de 2026

Diálogos fafenses 61

Resolução de ano novo
- Quem deixou de fumar foi o Tavares...
- Coitado. E o funeral é quando?

Os que deixaram de fumar

O respeito
O respeito é muito bonito. Mas escusava de ser tão vaidoso.

Bonifácio Terrafunda era coveiro profissional há mais de quarenta anos. Funcionário exemplar, respeitado pela clientela, querido pai de famílias, duas. Um dia, para o que lhe havia de dar, resolveu dividir o campo-santo em dois talhões devidamente assinalados, um para "Fumadores" e outro para "Não fumadores", como nas viagens de avião antigamente. A coisa veio nos jornais, quer-se dizer, no Correio da Manhã, e deu durante uma semana na televisão, quer-se dizer, na CMTV. Anacleto Boavida, jovem presidente da junta, recandidato, passou-se dos carretos derivado às notícias, instaurou inquérito e competente processo disciplinar, meteu advogado e testemunhas, anexou imagens do YouTube, e o velho coveiro foi inapelavelmente remetido para o olho da rua, por indecente e má figura, isto é, despedido com justa causa, mesmo às portas da reforma. - Com os mortos não se brinca! - justificava o fulgurante autarca, alto e bom som, para quem o quisesse ouvir, que era o espelho da casa de banho. E rematava, em memória dos falecidos: - Se eles já lá estão, é porque deixaram de fumar, todos, não há cá separações, Deus os tenha...

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

O sonho comanda a vida?

Cuidado com o que se deseja
Perseguir sonhos, às vezes, pode ser crime. Nesse caso chama-se "stalking".

Sonho. Bolinho muito fofo, de farinha e ovos, frito e depois geralmente passado por calda de açúcar ou polvilhado com açúcar e canela. Só isto. Agora: onde raio é que o poeta foi buscar a ideia de que "o sonho comanda a vida"? Se ainda fosse o pão-de-ló de Fornelos...

Os sonhos são como o algodão, hidrófilos

Prioridades
O amor é muito lindo. O "jackpot" do Euromilhões é muito mais.

Ultimamente dá-me para sonhar com pessoas que já morreram. Pessoas de quem gosto - familiares e amigos, vizinhos de infância, povo do meu antigamente, gente de Fafe. Sou um simples, acho que são saudades, velhice. Mas dizem-me que não, que o assunto é muito mais complicado, especialistas em correntes de ar, astrologia e afins garantem-me que os sonhos querem dizer coisas, significam, e que não enganam. Os sonhos são como o algodão, hidrófilos. Nos sonhos está lá tudo, e tudo acaba por bater certo. Limpinho.
Sonhar com pessoas amigas que já morreram, falar com elas no sonho, explicam-me que é o melhor que me podia acontecer. É o pré-aviso de que está aí a rebentar-me nas mãos uma fartura de boas notícias, um mar de felicidade e saúde como o aço para mim e para os meus. O que é preciso é estar atento aos recados que os defuntos da corda me querem segredar, às tantas até os números do Euromilhões da próxima sexta-feira. Isto é a regra geral, científica, embora possa parecer o horóscopo da Crónica Feminina, patrocinado pelo Sonasol.
Não sei se esta tão conveniente interpretação dos sonhos com mortos também vale para Portugal e para vivos chamados Hernâni Von Doellinger, naturais de Fafe e residentes em Matosinhos-sur-Mer. Suspeito que não, pelo que me tem calhado, mas cá fico à espera de melhores dias.
Tenho alguma pressa, confesso, porque se uma coisa sei de certeza é que os sonhos padecem de prazo de validade. Um gajo deita-se uma noite moço e convencido de que os sonhos molhados até são um acontecimento, vá lá, engraçaaaaado..., e acorda de manhã ancião e alagado em mijo derivado à incontinência. A vida é tão breve, não foi?
Sonhar com algodão, dizem que é muito bom para a saúde e que traz uma vida cheia de dinheiro e de felicidade. Bem empregue. Eu por acaso pensava que era com merda que a coisa funcionava. Quer-se dizer, ensinaram-me em pequeno que pisar merda é que dava sorte, é que era sinal de dinheiro e felicidade, se calhar porque naquela maré éramos tão pobres que não tínhamos acesso ao algodão. E merda, realmente, era uma fartura...
Quando morávamos no Santo Velho, o algodão, esse símbolo branco da escravatura negra, passava quase todos os dias por mim, em fardos, em camiões transbordantes, descendo a Rua Monsenhor Vieira de Castro a caminho da Fábrica do Ferro, Companhia de Fiação e Tecidos de Fafe, onde depois havia milhares de operários a trabalhar, entre os quais o meu pai e, mais tarde, a minha irmã e o meu cunhado Álvaro, e variados chefes a "roubar", como dizia o povo, e deu no que deu. Ia daqui de Matosinhos, o algodão, do Porto de Leixões, agora mesmo à beirinha de onde moro com vista para o mar se me puser de lado. Quer-se dizer: por mais voltas que a vida dê, estamos sempre no mesmo.
Agora vou dormir e passo à escuta.

Diálogos fafenses 29

Os médicos, as farmácias e o sistema
Fui à farmácia comprar o antibiótico. A senhora doutora farmacêutica perguntou-me:- Marca ou genérico?
- O mais barato, se faz favor. Pode ser de saldo, se tiver, ou mesmo em segunda mão, se for em conta - respondi.
Veio o antibiótico. Genérico.
- São seis euros e setenta e nove - informou-me a senhora doutora farmacêutica.
- Seis euros e setenta e nove?! - espantei-me. - Mas o senhor doutor médico escreveu aqui na receita que, e passo a citar, "esta prescrição custa-lhe, no máximo, 77 cêntimos, a não ser que opte por um medicamento mais caro", e eu manifestamente não optei...
- Pois, mas não ligue a isso. É o que eles têm lá no sistema. O preço muda ao fim de três meses - disse-me a senhora doutora farmacêutica.
- Mas a receita é de hoje, fresquíssima - atalhei.
- Pois, mas é o sistema - reiterou a senhora doutora farmacêutica.
- E o sistema não é o mesmo para as farmácias? Entre 77 cêntimos e seis euros e setenta e nove vai uma diferença de quase dez vezes mais, como é que isto é possível? - inquiri e tornei a inquirir.
- Faça o favor de ver aqui no computador. Na verdade há mais barato, este de três euros e quinze, mas que hoje, por acaso, até já custa cinco euros e trinta e sete, e não temos - explicou-me a senhora doutora farmacêutica.
- Mas a custar 77 cêntimos é que nada - insisti.
- Nem de perto nem de longe, é o sistema - insistiu, por seu lado, a senhora doutora farmacêutica.
- E os senhores doutores médicos sabem? - eu.
- Sabem, sabem - a senhora doutora farmacêutica.
- Desculpe voltar ao mesmo: mas então porque é que os senhores doutores médicos escrevem estes preços nas receitas, se sabem que estão a enganar os doentes?
- É para pressionar as farmácias - segredou-me a senhora doutora farmacêutica, chegando-se-me ao ouvido.
- E tem resultado, não tem? - devolvi-lhe eu, no mesmo tom confidencial...