Cinco Quinas mais duas
Carlota Joaquina, Teolinda Joaquina de Sousa Lança (aliás, Linda de Suza), Joaquina de Vedruna, Mariana Joaquina Apolónia da Costa Pereira de Vilhena Coutinho, Joaquina Lapinha, Joaquininha, a minha sogra, e a Quininha "Varandas", de Fafe. Sete Quinas, como dizia o outro.
quinta-feira, 30 de julho de 2026
A esfera armilense
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As Turicas e um par de mamas
Poema
Seios
sei-os
ceio-os.
Mas as Turicas, que foi ao que eu vim. As Turicas também eram irmãs e também eram duas, tanto quanto me lembro. Pequeninas e idosas, talvez surdas, beatas, resmungonas e prendadas para os mais delicados lavores, faziam renda de bilros sentadas num banquinho junto às imponentes portadas que davam para a rua. Rendas de bilros em Fafe, isso mesmo. No rés-do-chão do ancestral casarão, as Turicas entretinham-se com uma loja mais antiga do que elas e que cheirava a um mofo muito bom. Subornada e ensaiada pela Maria Barraca, a moçarada do Santo costumava ir lá espreitar à porta e gritar "Quatro tostões de turicas e o resto de catarruchas!", fugindo depois a sete pés, às vezes catorze.
As Turicas vendiam botões e tafetás, fitas de nastro, fechos, colchetes, linhas, lãs, chitas, agulhas e flanelas, sobretudo monos, tudo armazenado há que séculos numas prateleiras altas, enegrecidas e carunchosas. E davam conselhos. Sorrateiramente, vendiam também vinho ao garrafão nas traseiras do estabelecimento, com vistas para um exuberante quintal sem fundo. Era um vinho muito fraquinho, aguado, "fisga" mas "purinho", como se dizia no nosso falar, e devia ficar em conta. As boas senhoras, certamente latifundiárias não sei onde, mantinham uma criadita que abria a porta a quem ia comprar vinho. E a miúda tinha umas mamas. Uma vez a minha mãe mandou-me ao vinho com dinheiro certo e tempo contado, e eu pedi à rapariga se me deixava apalpar-lhe as mamas numa pressinha. Ela não deixou e eu apalpei. As mamas eram de papel e foi-me um desgosto muito grande. Até hoje.
quarta-feira, 29 de julho de 2026
Era uma vez em Fafe
Marcos históricos
Marco Polo, Marco Aurélio, Marco António, Marco de Canaveses, Marco do Big Brother, Marco dos Apeninos aos Andes, Marco Caneira, Marco Chagas, Marco Pantani, Marco Rubio, marco miliário, marco quilométrico, marco geodésico, marco temporal, Marco do Correio, Marco ni, Marco Bellini e João Simão da Silva, aliás, Marco Paulo.
Se me dais licença, eu creio que não está devidamente estudado o papel de Fafe e dos fafenses ou protofafenses na fundação da nacionalidade. E esta é uma lacuna particularmente repreensível numa terra que exabunda de historiadores e simpatizantes, amiúde galardoados.
Entendamo-nos. A mim nem me passa pela cabeça que Portugal tenha nascido em Guimarães, aqui a menos de três léguas ou, vá lá, digamos a quatrocentos tiros de besta, em qualquer caso perto e bom caminho, e quase sempre a descer depois de Paçô Vieira, nem me passa pela cabeça, dizia, que Portugal tenha nascido em Guimarães, que é do que eles se gabam, e que em Fafe, ao mesmo tempo, não tenha acontecido nada, eles lá em baixo à batatada, à grandessíssima trolha, um vasqueiro desgraçado, e nós aqui como se nada fosse, a vermos a Gabriela na televisão a preto e branco. É impossível. Portugal de certeza que nasceu também em Fafe, nem que tenha sido só um bocadinho, mas os historiadores - são, infelizmente, os historiadores que temos - ainda não deram fé. Esta é a minha ideia.
Eu lembro-me muito bem, e posso testemunhar, em tribunal se for preciso, que, enquanto jovens e antes do futebol e outras vigairadas, os manos Pimenta Machado, ilustres fidalgos vimaranenses, passavam a vida em Fafe. Ora, se os Pimenta Machado, que eram quem eram, uma ínclita geração praticamente, e, para além de outros cabedais, possuíam um considerável estabelecimento em frente às camionetas do João Carlos Soares, cujo escritório ficava praticamente ao lado do Café do Franklin que é o Café Vitória, na parte de fora do mercado de Guimarães, se os Pimenta Machado, enfatizo, não nos desamparavam a loja, o mais certo é que, antes deles, o próprio Afonso Henriques desse também as suas voltas pelos nossos lados, nem que fosse só para desenfastiar ou beber um copo no Nacor, nada mais natural.
Afonso Henriques, esse gabiru de estilo motoqueiro que gostava de vestir saias e há quem diga que batia na mãe, tinha uma espada que pesava toneladas e não cabia no guarda-vestidos e, em rigor, nem sequer existiu. O espadalhão, quero eu dizer. Já o jovem Afonso ficou na história da moda por ter sido o criador da maxissaia. Morava geralmente no austero Castelo de Guimarães e tinha um anexo charmoso chamado Paço dos Duques onde dava as suas festas que eram sobremaneira constadas. No dia 24 de Junho de 1128, tomai nota, depois de uma dessas iglantónicas farras, noitada de São João ainda por cima, Afonsinho do Condado acordou digamos maldisposto, bebeu um copo de água da mina com bicarbonato, mandou chamar o pessoal e os cavalos e derrotou a progenitora, Dona Teresa de Leão, mailo seu amante galego, Fernão Peres de Trava, na Batalha de São Mamede, levada a efeito ali mesmo nos arredores, para evitar deslocações e despesas, que o País ainda estava a começar.
Acontece que a Batalha de São Mamede, aviso já, nunca me convenceu. Custa-me a aceitar que sítios como Creixomil ou Cano (Cáno, como dizem os locais) possam ser mais importantes no que nos é contado como sendo a História de Portugal do que, por exemplo, e não vamos mais longe, Arões ou Cepães, ali mesmo ao pé, mas do lado de Fafe, do nosso lado. Duvido, de resto, que Guimarães tivesse naquele tempo equipamentos, nomeadamente hoteleiros, para acomodar aquela espanholada toda e ainda por cima recinto preparado e certificado para a pancadaria. É que, parecendo que não, um evento desta natureza, uma batalha com cavalos e tudo, implica muita logística. Olhai só a confusão que são hoje em dia as chamadas feiras medievais! Por outro lado, o Multiusos vimaranense funciona apenas desde 2001 e o Estádio, embora chamado D. Afonso Henriques, só ficou uma coisa em condições para o Euro 2004.
Eu cuido que Fafe teria recebido muito mais condignamente a Batalha de São Mamede. Não é por acaso que chamamos a nós próprios, embora sem razão que se perceba, Sala de Visitas do Minho. Olho para a zona de Rilhadas, vamos um supor, e vejo a batalha ali. Vejo claramente vista. Uma zona devidamente infra-estruturada e onde sobejam as condições e comodidades para a organização de uma batalha com todos os matadores e que certamente não envergonharia ninguém.
As pistas estão aí. Há que repor a verdade dos factos. Fafe não pode continuar à porta, nas bordas da História. De uma vez por todas, Fafe deve ocupar o lugar a que tem direito. Se São Mamede foi em Rilhadas, isto é, se a Batalha de São Mamede foi de facto levada a efeito em Rilhadas? Não sei. Esse é o desafio que eu deixo de borla aos historiadores encartados, particularmente aos intrépidos historiadores fafenses, se a tanto os ajudar o engenho e arte. E não me venham dizer que, a esse respeito, a História é omissa. Omissa? Homessa!
P.S. - Em nome do rigor histórico, refira-se que, regra geral, os vimaranenses de bom beber e satisfatório comer vinham muito a Fafe e, lá com aquelas manias deles, chamavam Toninho dos Canários ao tasco do Nacor.
Entendamo-nos. A mim nem me passa pela cabeça que Portugal tenha nascido em Guimarães, aqui a menos de três léguas ou, vá lá, digamos a quatrocentos tiros de besta, em qualquer caso perto e bom caminho, e quase sempre a descer depois de Paçô Vieira, nem me passa pela cabeça, dizia, que Portugal tenha nascido em Guimarães, que é do que eles se gabam, e que em Fafe, ao mesmo tempo, não tenha acontecido nada, eles lá em baixo à batatada, à grandessíssima trolha, um vasqueiro desgraçado, e nós aqui como se nada fosse, a vermos a Gabriela na televisão a preto e branco. É impossível. Portugal de certeza que nasceu também em Fafe, nem que tenha sido só um bocadinho, mas os historiadores - são, infelizmente, os historiadores que temos - ainda não deram fé. Esta é a minha ideia.
Eu lembro-me muito bem, e posso testemunhar, em tribunal se for preciso, que, enquanto jovens e antes do futebol e outras vigairadas, os manos Pimenta Machado, ilustres fidalgos vimaranenses, passavam a vida em Fafe. Ora, se os Pimenta Machado, que eram quem eram, uma ínclita geração praticamente, e, para além de outros cabedais, possuíam um considerável estabelecimento em frente às camionetas do João Carlos Soares, cujo escritório ficava praticamente ao lado do Café do Franklin que é o Café Vitória, na parte de fora do mercado de Guimarães, se os Pimenta Machado, enfatizo, não nos desamparavam a loja, o mais certo é que, antes deles, o próprio Afonso Henriques desse também as suas voltas pelos nossos lados, nem que fosse só para desenfastiar ou beber um copo no Nacor, nada mais natural.
Afonso Henriques, esse gabiru de estilo motoqueiro que gostava de vestir saias e há quem diga que batia na mãe, tinha uma espada que pesava toneladas e não cabia no guarda-vestidos e, em rigor, nem sequer existiu. O espadalhão, quero eu dizer. Já o jovem Afonso ficou na história da moda por ter sido o criador da maxissaia. Morava geralmente no austero Castelo de Guimarães e tinha um anexo charmoso chamado Paço dos Duques onde dava as suas festas que eram sobremaneira constadas. No dia 24 de Junho de 1128, tomai nota, depois de uma dessas iglantónicas farras, noitada de São João ainda por cima, Afonsinho do Condado acordou digamos maldisposto, bebeu um copo de água da mina com bicarbonato, mandou chamar o pessoal e os cavalos e derrotou a progenitora, Dona Teresa de Leão, mailo seu amante galego, Fernão Peres de Trava, na Batalha de São Mamede, levada a efeito ali mesmo nos arredores, para evitar deslocações e despesas, que o País ainda estava a começar.
Acontece que a Batalha de São Mamede, aviso já, nunca me convenceu. Custa-me a aceitar que sítios como Creixomil ou Cano (Cáno, como dizem os locais) possam ser mais importantes no que nos é contado como sendo a História de Portugal do que, por exemplo, e não vamos mais longe, Arões ou Cepães, ali mesmo ao pé, mas do lado de Fafe, do nosso lado. Duvido, de resto, que Guimarães tivesse naquele tempo equipamentos, nomeadamente hoteleiros, para acomodar aquela espanholada toda e ainda por cima recinto preparado e certificado para a pancadaria. É que, parecendo que não, um evento desta natureza, uma batalha com cavalos e tudo, implica muita logística. Olhai só a confusão que são hoje em dia as chamadas feiras medievais! Por outro lado, o Multiusos vimaranense funciona apenas desde 2001 e o Estádio, embora chamado D. Afonso Henriques, só ficou uma coisa em condições para o Euro 2004.
Eu cuido que Fafe teria recebido muito mais condignamente a Batalha de São Mamede. Não é por acaso que chamamos a nós próprios, embora sem razão que se perceba, Sala de Visitas do Minho. Olho para a zona de Rilhadas, vamos um supor, e vejo a batalha ali. Vejo claramente vista. Uma zona devidamente infra-estruturada e onde sobejam as condições e comodidades para a organização de uma batalha com todos os matadores e que certamente não envergonharia ninguém.
As pistas estão aí. Há que repor a verdade dos factos. Fafe não pode continuar à porta, nas bordas da História. De uma vez por todas, Fafe deve ocupar o lugar a que tem direito. Se São Mamede foi em Rilhadas, isto é, se a Batalha de São Mamede foi de facto levada a efeito em Rilhadas? Não sei. Esse é o desafio que eu deixo de borla aos historiadores encartados, particularmente aos intrépidos historiadores fafenses, se a tanto os ajudar o engenho e arte. E não me venham dizer que, a esse respeito, a História é omissa. Omissa? Homessa!
P.S. - Em nome do rigor histórico, refira-se que, regra geral, os vimaranenses de bom beber e satisfatório comer vinham muito a Fafe e, lá com aquelas manias deles, chamavam Toninho dos Canários ao tasco do Nacor.
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Não coma, fotografe! (e verá que emagrece)
As melhores intençõesDe boas intenções está o frigorífico cheio. Depois, evidentemente, é preciso saber cozinhar.
O jornal Público ensinou-nos o que se deve fazer quando "um prato absolutamente fenomenal (ou não tão fenomenal assim) chega à mesa". Foi aqui atrasado, mas vale a pena relembrar. E então como é que é dado fazer? O que fica bem, hoje em dia? "Come-se? Não, primeiro fotografa-se". E coloca-se no Instagram. Isso. Foi o que o jornal mandou. Depois, suponho, mas isto já sou eu a dizer, pede-se a continha, paga-se sem comer, porque a comida entretanto ficou fria, sai-se de casa ou do restaurante chique, enfia-se o boné até às orelhas e vai-se à Esquiça enfardar duas ou três doses de tripas, bem quentinhas, tão em conta, tão comidinha simples, de confiança, previsível, maravilhosamente monótona e humilde, dispensando, por isso, retratos, emojis e outras peneirices. Eu não sei o que é o Instagram (aliás cuidava que se chamava Instragam e só mudei de ideias ainda agora, depois do computador me corrigir cinco vezes), e nem me aquece nem me arrefece que penseis que estou a mangar. Sei é de cozinha, de comida, e de jornalismo também dou uns toques, modéstia à parte.
Quem escreve sobre gastronómicas matérias no excelente jornal da Sonae vê-se que tem inúmeros mestrados e consideráveis doutoramentos em Técnicas de Titulagem, mas também se percebe que é gente que só entra na cozinha para perguntar à mãezinha "o que é o comer". Não nego à partida que estas senhoras e estes senhores jornalistas sejam experts em lasanha pré-cozinhada do Lidl ou em rissóis e bolinhos de bacalhau congelados do Pingo Doce, posto que o patrão, também dono do Continente, não saiba. Falta-lhes é o resto, a basezinha, como diria o nosso Eça, que, esse sim, sabia de mesa.
Vamos supor: um prato realmente "absolutamente fenomenal" como, para não irmos mais longe, um arrozinho de grelos com fanequinhas fritas, à moda do que se fazia em Fafe e eu faço cá em casa. Chega à mesa e tira-se-lhe fotografias - deste e daquele lado, do direito e do avesso, de ângulo aberto ou fechado, visto de cima ou de baixo, de luz acesa ou com flache, esperando que o vapor se evapore, que só embacia - em vez de se lhe garfar com toda a galhardia? Então vou explicar o que se passa neste ínterim: o malandro do arroz coalha, fica arroz de hospital, como lhe chamávamos, argamassa de atirar às paredes, e as fanecas, esse peixinho tão honesto e merecedor, esfriam, perdem a graça, afeiam-se, desapetitam-nos. Uma calamidade!
E atenção que as fanequinhas frias ainda vá lá, mas no tasco e no Verão. E vereis que tenho razão, quando um dia perderdes a cabeça e experimentardes, o Verão e o tasco. Já o arroz segue directamente para o balde do lixo, tamanha dor de alma ainda por cima nestes tempos agrestes de cotão nos bolsos e tanta fome na rua.
Também é verdade: há pratos que são como a vingança, devem ser servidos frios, e por isso até se chamam pratos frios. E estes podem ser fotografados à vontade, à moda das sessões de casamento, quero dizer, entre as oito da manhã e as seis da madrugada do dia seguinte, sempre a dar-lhe. Quanto ao resto, se for possível, ficai quietos! Creio que posso dizer melhor: respeitosamente, comei fotografias à vontade se, tipo, vos souber bem, se vos fizer bem, ele há dietas para todos os gostos e de todos os feitios, mas, e este é o limite, a famosa linha vermelha, não me instagreis a comidinha a sério (à séria, se por azar lido em Lisboa).
Já agora, para os mesmos: um tasco é um tasco. Uma tasca ou uma tasquinha são outra coisa...
Vamos supor: um prato realmente "absolutamente fenomenal" como, para não irmos mais longe, um arrozinho de grelos com fanequinhas fritas, à moda do que se fazia em Fafe e eu faço cá em casa. Chega à mesa e tira-se-lhe fotografias - deste e daquele lado, do direito e do avesso, de ângulo aberto ou fechado, visto de cima ou de baixo, de luz acesa ou com flache, esperando que o vapor se evapore, que só embacia - em vez de se lhe garfar com toda a galhardia? Então vou explicar o que se passa neste ínterim: o malandro do arroz coalha, fica arroz de hospital, como lhe chamávamos, argamassa de atirar às paredes, e as fanecas, esse peixinho tão honesto e merecedor, esfriam, perdem a graça, afeiam-se, desapetitam-nos. Uma calamidade!
E atenção que as fanequinhas frias ainda vá lá, mas no tasco e no Verão. E vereis que tenho razão, quando um dia perderdes a cabeça e experimentardes, o Verão e o tasco. Já o arroz segue directamente para o balde do lixo, tamanha dor de alma ainda por cima nestes tempos agrestes de cotão nos bolsos e tanta fome na rua.
Também é verdade: há pratos que são como a vingança, devem ser servidos frios, e por isso até se chamam pratos frios. E estes podem ser fotografados à vontade, à moda das sessões de casamento, quero dizer, entre as oito da manhã e as seis da madrugada do dia seguinte, sempre a dar-lhe. Quanto ao resto, se for possível, ficai quietos! Creio que posso dizer melhor: respeitosamente, comei fotografias à vontade se, tipo, vos souber bem, se vos fizer bem, ele há dietas para todos os gostos e de todos os feitios, mas, e este é o limite, a famosa linha vermelha, não me instagreis a comidinha a sério (à séria, se por azar lido em Lisboa).
Já agora, para os mesmos: um tasco é um tasco. Uma tasca ou uma tasquinha são outra coisa...
A este respeito e outros. Gosto muito do seguinte poema de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa), que faço questão de partilhar:
Dobrada à moda do Porto
Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.
Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.
Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...
(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).
Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.
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terça-feira, 28 de julho de 2026
Era um artista português
Alma de poetaTenho dentes sensíveis, disse-me o dentista. É a minha alma de poeta.
Eu, que sou dos tempos áureos do Restaurador Olex, também usei a Couto durante mais de um quarto de século, julgo que inicialmente "receitada" pelo extraordinário Quinzinho da Farmácia, o "médico" dos pobres de Fafe, o melhor médico de família que Deus ao mundo botou, ainda os médicos de família não tinham sido inventados. Aquela coisa de ser "Medicinal" no nome do meio também me convencia, tenho de confessar, e só a larguei após sucessivas tentativas falhadas para fazer sequer mexer uma cadeira de plástico com os dentes e depois de ir ao dentista pela primeira vez na vida, aos 45 anos.
A Couto nasceu no Porto há 94 anos, quando não era natural um preto de cabeleira loira e um branco de carapinha. A primeira fórmula da "Pasta Medicinal" foi registada a 13 de Junho de 1932, por Alberto Ferreira Couto e um amigo dentista. O novo produto prometia não só lavar os dentes, mas também, tomai nota, protegê-los dos malefícios da sífilis, reduzir os casos de infeção gengival e limitar o fenómeno crescente da retração das gengivas. Em 2001, por imposição das normas comunitárias relativas a este tipo de artigos, a marca foi obrigada a deixar cair a tão sedutora quanto conveniente designação de "Medicinal", passando a chamar-se simplesmente Pasta Dentífrica Couto. Até hoje.
Em 2012, o então principal accionista da empresa Couto, em Vila Nova de Gaia, anunciou que tinha dois pretendentes à compra da marca. Um da área da cosmética e outro do sector farmacêutico, ambos com intenções de "aumentar mais as vendas". O negócio deveria ser fechado até 2017. Não sei se foi, desinteressei-me do assunto. Mas também, hoje em dia, as cadeiras são muito mais leves...
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Com tomates até às orelhas
O grande reclamador
Reclamava Camões, reclamava Pessoa, reclamava Sophia, reclamava Eugénio, reclamava Drummond, reclamava Vinicius, reclamava Baudelaire, reclamava Lorca e reclamava Neruda. Reclamava até Eliot e Shakespeare. Era, enfim, um grande reclamador.
Portanto, o que é que eu fiz? Resolvi contactar o Sr. Guloso ele próprio, perguntando-lhe, preocupado e mais respeitosamente era impossível, se por acaso não estaria o Excelentíssimo passando por alguma crise de escrotal decoro (há que chamar as coisas, neste caso os coisos, pelo nome), e aproveitei para me queixar do cada vez maior verdor e da cada vez maior acidez do produto em questão. O tomate pelado, não esqueçamos.
O meu e-mail teve resposta em quinze dias. Uma resposta profissional, simpática e, pareceu-me descortiná-la, com uma pitada de ironia no estrugido, que foi o que melhor me soube. Fui informado de que os tomates reclamados tinham sido produzidos "na campanha de 2017, que, por condições extremas do tempo (chuvas em final de Abril e Maio), se traduziu em tomate mais ácido, com menos cor e que se separa da pele com mais dificuldade."
Como forma de "atenuar a imagem menos positiva" que em mim lamentavelmente provocara, o Sr. Guloso revelou a intenção de enviar-me "um cabaz de produtos da marca, incluindo pelado da campanha de 2018, na expetativa de me "fazer chegar um tomate pelado mais condizente com o nome". E cá está a piadinha...
Obviamente, agradeci e recusei a generosa oferta, não gosto de almoços grátis, hábito antigo do velho ofício.
Agora. Estamos no ano de 2026. A Guloso celebrou no ano passado o seu octogésimo aniversário e o tomate pelado continua a chegar-me a casa com pele, verde e ácido, rigorosamente como o da famigerada e defeituosa colheita de 2017. Conclusão, das duas uma: em Portugal os anos são todos de "condições extremas do tempo (chuvas em final de Abril e Maio)", pelo menos para os tomates, ou então há quase uma década que todos os anos são 2017. O que seria extraordinário, embora eu já tenha visto algo do género num filme com Bill Murray e Andie MacDowell.
Por outro lado, fui ao calendário e descobri o uso que hei-de dar à montanha de embalagens cheias de tomate pelado Guloso que realmente não o é e que acumulei ao longo dos últimos anos na despensa por não me servirem para nada na cozinha. O Dia da Tomatina, ou Dia de La Tomatina, na cidade valenciana de Buñol, está aí à porta, na última quarta-feira de Agosto, como manda a tradição, e não perde pela demora. Estou a caminho, hermanos míos, com tomates até às orelhas. E olé!
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segunda-feira, 27 de julho de 2026
Uma mulher de barba rija
Idade Média
A Idade Média, ao contrário do que o próprio nome parece indicar, foram duas: a Baixa Idade Média e a Alta Idade Média. Diferenciam-se, evidentemente, pela altura.
Esta padeira realmente nunca existiu. Ainda assim, a lenda liga-a à Batalha de Aljubarrota e ao massacre que se lhe teria seguido, mas que também nunca aconteceu. Brites seria a líder de um grupo de populares, tipo claque de futebol, que perseguiu os castelhanos em fuga. Brites emboscou-se, fez-lhes espera, aos desgraçados dos espanhóis, e matou com as próprias mãos uns tantos, se por acaso fosse verdade e o Benfica tivesse claques.
Nessa noite de 14 de Agosto de 1385, a padeira chegou a casa tarde e a más horas, talvez com os copos, como de costume, ou pelo menos maldisposta, e descobriu sete espanhóis escondidos no forno onde cozia o pão às sextas-feiras. Ela percebeu logo que eles eram espanhóis porque diziam muito "qué rico!", "vale, vale!", "qué tal, qué tal?" e outros nomeadamentes. Sem pestanejar, ou ainda que pestanejando derivado à farinha que andava pelo ar, Brites pegou na pá e bateu-lhes até os matar bem mortos, um atrás do outro, à medida que os infelizes iam saindo do forno gritando "olés" e tocando castanholas. Foi muito bem feito, dizem os nacionalistas, e desde esse dia glorioso e imaginário nunca mais ninguém viu a padeira em Portugal.
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