quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Diálogos fafenses 71

De maneira que
- Por forma ou de modo?
- De maneira que...

Relativamente
- Em termos ou ao nível?
- Relativamente...

Como um sino
- Teimoso ou obstinado?
- Burro como um sino...

Porém
- Todavia ou não obstante?
- Contudo.

Tem a mania
- Exuberante ou extravagante?
- Tem a mania.

Com efeito
- Efectivamente ou evidentemente?
- Com efeito.

Vivervenciar
- Viver ou vivenciar?
- Vivervenciar.

Básico
- Principal ou primacial?
- Básico.

Indispensável
- Fundamental ou crucial?
- Indispensável.

O Grosso da Coluna e o Maciço Central

O complexo
Era evidentemente um complexo, com todos os seus sintomas. Estádio, pavilhão, piscina e quatro campos de ténis. Complexo desportivo, como lhe chamam em Psiquiatria.

A diferença entre o Grosso da Coluna e o Maciço Central pode resumir-se assim: o primeiro é corredor de bicicletas e o segundo joga no eixo da defesa, como agora se diz. E o que têm em comum o Grosso da Coluna e o Maciço Central? Fisicamente falando, pertencem ambos à família dos Armários.
Não era evidentemente o caso de Herculano Oliveira, ciclista do tempo antigo, um poderosíssimo lingrinhas a quem chamavam "Andorinha das Penhas", uma levandisca com pedais, peso-pluma voador, digo eu, capaz até de bater Joaquim Agostinho na subida à serra da Estrela, quer-se dizer, às Penhas da Saúde, e é daí que lhe vem o cognome, o qual, dito assim a quem é, tem tanto de ornitológico como de justo.
Naquele tempo, os ciclistas eram-nos contados pela rádio, com muito emoção e, às vezes, algum atraso. Ouvia-se o relato da Volta, em magotes à roda do transístor em alta-voz, enquanto víamos os treinos ou os jogos de futebol do Fafe. Ouvidos, os ciclistas eram o fim do mundo em cuecas, eram trinta por uma linha, eram tudo e mais alguma coisa e também "ases do pedal", "bravos do pelotão" ou "gigantes da estrada", nome que lhes assentava tão bem e que agora parece que está reservado aos SUV e aos camiões TIR, para além da Brisa e outras mais modestas correntes de ar mensais.
Herculano Oliveira era do Sangalhos, é património do grande Sangalhos - uma potência velocipédica de que decerto os mais novos nem fazem ideia -, mas também passou, entre outras equipas, pela Coelima e fez carreira internacional. Nas décadas de sessenta e setenta, foi 4.º na Volta a Portugal, 22.º na Volta a Espanha e 45.º na Volta a França. Posso dizer, só para me gabar, que, em mocico, estive às vezes à beira dele?

Como se O'Neill fosse de Fafe

Os livros, nossos amigos
Gosto de afagar os livros que leio. Aliso-os. Cheiro-os. Protejo-os. Guardo-os com mil cuidados. E deixei de emprestá-los!

A senhora sentada à minha frente faz croché - que raro! Eu leio um livro. O resto do metro espreita o telemóvel, fala para o telemóvel, escreve no telemóvel, joga no telemóvel, tira selfies com o telemóvel, põe o telemóvel entre pernas, aconchegadíssimo às intimidades, em alarmante modo de vibração. O metro inteiro é um telemóvel amarelo de duas carruagens, dois refractários e razoáveis orgasmos. Como quem não quer a coisa, a senhora sentada ao lado da senhora sentada à minha frente que faz croché desvia um olho do telemóvel e procura-me a capa do livro. Chega lá. Abana a cabeça, sentenciosa, faz cara de caso, deita-me uns olhos, ambos, num misto de decepção e de censura. Percebo-a: não leio José Rodrigues dos Santos. Leio "Poesias Completas & Dispersos", de Alexandre O'Neill, calhamaço como os do outro, mas calhamaço sem culpa de autor, calhamaço que dá gosto. Folheio-o com o respeito e o cuidado de quem folheia uma bíblia. E é. Vou naquela parte em que O'Neill me diz "A estouvaca": deitada atravessada / na estrada / a malhada / vai ser atropelada / foi. Palavra do senhor.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Chama o Gregório!

O da porta
Ele sabia que o último copo é que lhe fazia mal. Por isso pedia sempre mais um.
 
O dia 1 de Janeiro foi inventado no dia 24 de Fevereiro de 1582 pelo papa Gregório XIII. Daí é que vem, em homenagem, a mais famosa expressão da noite de passagem de ano - Com licença, vou só ali chamar o Gregório...

Simplesmente Simplício

Foto Tarrenego!

Alentejo profundo
O Ti Odoro, o Ti Noco, o Ti Móteo, a Ti Betana, o Ti Morato, o Ti Ófilo, o Ti Jolo, a Ti Ara, o Ti Pógrafo, o Ti Mor, o Ti Juca, a Ti Midez, o Ti Quetaque, o Ti Quetoque, o Ti Búrcio, a Ti Biotársica. Enfim, era a típica aldeia alentejana.

Sou Bomba, Dezassete e Perna-de-Pau, por parte do meu pai, e sou Neques, por parte da minha mãe, com muito gosto. Já me chamaram Américo, Mérico, Pobre, Seminarista, Padreca, Sacerdote, Profeta, Bítala, Cabeludo, Guedelhudo, Hippie, Mancebo, Careca, 05613478, Amélia, Fafe, Fafense, Filósofo, Palerma, Parolo, Palhaço, Drogado, Comunista, Socialista, Anarquista, Violoncelista (é a brincar - nunca ninguém teve a coragem de me chamar Violoncelista, pelo menos na cara!), Caixa-de-Óculos, Ó Tio Ó Tio, Ó Jovem, Gramático, Chefe, Doutor, Professor, Andrade, Pau de Virar Tripas, Gordo, Ex-Gordo, Hernano, Hermano, Herlânder, Hermo, Irrenane, Renane, Ranano, Renamo, Ernesto, Erménio, Nenuco, Aquele Senhor, O Senhor das Barbas, O Senhor dos Calções, O Senhor do Rodovalho, O Senhor da Mochila, O Senhor do Cachimbo, O Senhor é Parvo?, Você, Doente da Cama 2, Utente, Paciente, Beneficiário, Cliente, Contribuinte, Eleitor, Utilizador, Passageiro, Ouvinte, Telespectador, Participante, Visitante, Sexagenário, Indivíduo, Velho, Próximo!, Nanes, Se'Nane, Belingue, Berlingue, Bilingue, Berlindes, Boelingue, Bolingue, Galinhas, Dillinger, Dilingue, Volkswagen.
Eu, sinceramente, prefiro que me chamem Simplício. Ou então, vá lá, Agá Ramos - já disse.

Basta fazer-me um sinal

Meio-dia e meio?
"Meio-dia e meio", ainda ouço dizer na rádio, e era escusado. Meio-dia e meio, que raio de hora é isso? Das duas, uma: ou são 24 horas (isto é: meio-dia mais outro meio-dia) ou são 18 horas (isto é: meio-dia mais meio meio-dia), mas não serão, nunca, 12h30. Falando de horas, ninguém diz onze e meio, nem duas e meio, ou diz? O que se diz é: onze e meia e duas e meia. Pois com o meio-dia é exactamente a mesma coisa: meio-dia e meia. Isto é, meio-dia (12 horas) mais meia hora. Isto é, 12h30. Estamos entendidos? Meio-dia e meia! E meia, porra!

Não sei em que ponto exacto da moderna história do desporto e do jornalismo nacionais o sinal foi substituído pela sinalética. Mas sei que, como todas as asneiras e a Toyota, a sinalética veio para ficar, pegou de estaca e hoje em dia até parece mal dizer outra coisa. Sinal dos tempos. Agora, segundo os nossos doutos comentadores e relatadores desportivos, os árbitros e os jogadores de futebol, por exemplo, já não fazem sinais uns aos outros ou uns para os outros - fazem ou dão sinalética.
Ouvi na Antena 1: "Rui Patrício levanta os dois braços, dando sinalética aos seus companheiros". Dando sinalética? A rádio é para imaginar, e portanto eu imaginei o então jovem guarda-redes do Sporting a desembrulhar-se com brilhantismo no uso da complexa mas bonita linguagem gestual, fazendo manguitos atrás de manguitos, piretes atrás de piretes, toques esdrúxulos nos cotovelos, no nariz e nas orelhas, no coração e mais abaixo, mãos atrás das costas, pedra-papel-tesoura, e muitas caras feias, até ser completamente compreendido pelos colegas.
E mais à frente ouvi: "O árbitro auxiliar a ter que dar sinalética". E veio-me à cabeça a imagem de um homenzinho em calções, munido não com uma mas com duas bandeirinhas, uma em cada mão, a fazer sinais ao navio-almirante, anunciando a iminente invasão das Berlengas.
Ora bem. Se formos a um dicionário, qualquer um, por mais modesto ou vanguardista que seja, em papel ou digital, veremos evidentemente que um sinal continua a ser um sinal: uma indicação, um aviso, um meio de transmitir, à distância mas à vista, ordens, avisos ou pedidos. E que a sinalética, quando muito e neste contexto, é um conjunto de sinais, o uso de sinais. Não percebo, por isso, a alteração, a substituição, a complicação.
Tomai sentido, ademais, à maravilhosa Lena d'Água, à Leninha da voz doce, poderosa e pura, fresca como no início, cantora que, ainda por cima, é filha do mítico José Águas e irmã do famoso Rui Águas, figuras grandes do Benfica e do mundo da bola em geral. E o que diz a nossa Helena, logo nos primeiros versos da canção antiga e lendária? Sempre que o amor me quiser, basta fazer-me um sinal. Isso, "um sinal". Agora tirai o "sinal" e metei lá a "sinalética". Sempre que o amor me quiser, basta fazer-me uma sinalética. Estais a ver? Tem algum jeito? Sinalética? Assim dito, "faz-me uma sinalética", até parece javardice, valha-me Deus...

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Diálogos fafenses 70

Logo ou imediatamente?
- Alô? Fala o Costa, da Silva & Silva.
- Viva! É Silva, da Costa & Costa.
- Era mesmo consigo. É pá, precisamos que nos enviem o vosso logo imediatamente.
- Enviarmos o quê?
- O vosso logo.
- Logo?
- Imediatamente.
- Logo ou imediatamente?
- Agora. Já temos a máquina a andar.
- Mandarei então imediatamente.
- Logo!