sábado, 17 de outubro de 2026

A badalhoca e o malcriado

Realezas
Dagoberto I foi coroado rei dos Francos no dia 18 de Outubro de 629 e instalou-se em Paris. Por cá, o Rei dos Frangos abriu portas no dia 12 de Agosto de 1989, em Leiria.

Badalhoca e Malcriado são dois restaurantes que quase se enfrentam na parte da Avenida de Serpa Pinto que atraca ao Porto de Leixões, em Matosinhos. A Badalhoca do Fredo e O Malcriado da Casa da Boa Gente, para sermos mais precisos, mas que nomes bem pensados. E nem precisávamos de ir tão longe, verdade seja dita: nós em Fafe - entre tascos, pensões, casas de pasto, restaurantes e cafés - também não estamos mal servidos de nomes arrevesados, alguns deles amiúde raiando a brejeirice, mas lancemos ferro por ora nas docas matosinhenses, no Malcriado e na Badalhoca. A zona é boa a este respeito. Ali ao largo há ainda, por exemplo, o Rei da Sardinha Assada e a Marisqueira dos Pobres, denominações igualmente sugestivas, posto que mais asseadas, e portanto não entram para o que aqui interessa. Que é o seguinte: imagino o dilema de quem anda na zona, povo de fora, à procura de um sítio decente para almoçar: Badalhoca ou Malcriado? Malcriado ou Badalhoca? Badalhoca?! Malcriado?! Estais a ver a dificuldade? A minha sorte é que moro perto e venho comer a casa.

Diálogos fafenses 41

O sem-abrigo e o com-abrigo
O com-abrigo abeirou-se misericordioso do pobre sem-abrigo, coitadinho, levantou-lhe o cobertor que lhe defendia a cara e a dignidade e disse "Bom dia". O sem-abrigo respondeu estremunhado "Boa noite", passava um pouco do meio-dia e, pensei eu, teria sido melhor princípio de conversa se se tivessem entendido acerca de "Boa tarde".
Via-se que o com-abrigo tinha tarimba, tirei-lhe logo a pinta, era um bom-samaritano nas horas vagas e por conta própria.
- Então, companheiro, como é que vai isso? - encarrilou o com-abrigo.
- Ia bem, obrigado, mas esteja quieto no cobertor... - resmungou o sem-abrigo, agarrando-se com unhas e dentes ao calorzinho que lhe roubavam.
- É assim mesmo, companheiro, positivismo acima de tudo, nada de pensamentos suicidas - acrescentou o com-abrigo.
- Pensamentos quê? - interrogou o sem-abrigo.
- Suicidas, companheiro, pensamentos suicidas, vontade de se matar... - explicou o com-abrigo.
- Eu conheço-o de algum lado? - inquiriu o sem-abrigo.
- Não nos conhecemos de lado nenhum, companheiro, mas estou aqui para o ajudar, limpe a cabeça de pensamentos suicidas... - disse o com-abrigo.
- Deixe então aí um ou dois euros, para um copinho de vinho - pediu o sem-abrigo.
- O importante é afastar os pensamentos suicidas, companheiro, não se deixe levar por eles... - disse o com-abrigo.
- E o eurito?... - quis saber o sem-abrigo.
- Os pensamentos suicidas podem ser-lhe fatais, companheiro, é preciso resistir... - disse o com-abrigo.
- Ouve lá - rebentou o sem-abrigo -, porque é que só falas dessa merda? Eu não quero morrer, quero dormir, caralho! Morre tu, se gostas tanto! E, já agora, vai chamar companheiro à puta que te pariu...

E foi assim. Palavra de honra se não foi exactamente assim, ou pelo menos podia ter sido.

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

A importância dos rijões no equilíbrio do planeta

Comida, carros e gajas
Acusam-nos de estarmos sempre a falar de comida. Nada de mais mentiroso e injusto. Na verdade, nós, os do Norte, somos tão capazes de manter conversas interessantes e profundas sobre gajas e carros como o resto da população portuguesa. Para além disso, se formos de Fafe, ninguém nos bate numa boa discussão sobre motorizadas.

Vou directo ao assunto, pelo menos uma vez: o redenho não é ingrediente indispensável para a confecção de uns rojões honestos e com outros matadores. Porém, se marcar presença, confere ao prato um não sei quê que por acaso sei e que tem a ver com o seu aspecto inusitado, com o sabor rústico mas colaborante, sabendo-se dar-lhe as voltas certas, e sobretudo com o crocante da textura.
Ora bem. Outro dia precisei de aviar uns rojõezinhos para uma gente que andava aí com desejos e fui ao talho, que eu sou de talhos e peixarias desde pequenino. Escolhi a carne, da febra e da barriga, o sangue e as tripas enfarinhadas. Quando pedi o fígado de porco, que na verdade até era e foi para organizar uma entrada de iscas de cebolada, o talhante, sem que eu dissesse mais nada, avisa-me: "Olhe que não temos redenho, não há". E depois, olhando para um lado e para o outro, chegando-se à frente do balcão à procura do meu ouvido e da minha cumplicidade para revelar-me o quarto segredo de Fátima, diz-me, num sussurro: "Quer-se dizer, haver há, mas é congelado". E, congelado, realmente "Não é a mesma coisa", concordámos eu e ele ao mesmo tempo, como se estivéssemos combinados.
Repito: o redenho não é indispensável aos rijões, sim, rijões, como se diz, e bem, na nossa terra. Mas a gentileza e a honestidade sim. Sobretudo nestes tempos de desrespeito pelos valores e de aviltamento das pessoas, tempos portugueses de antagonismos sociais, de pobreza imposta, de novos fascismos e de tristeza e azedume generalizados. Soube do redenho e senti a Terra a tremer debaixo dos meus pés. Algo mexeu com o equilíbrio estabelecido do Globo. A franqueza espontânea do talhante apanhou-me desprevenido, mas desanuviou-me a alma. Sou franco. Continuo a acreditar que anda meio mundo a enganar o outro meio, mas naquele momento, à frente dos meus olhos, um homem passou para o lado bom, que eu bem vi.
As coisas não são tão simples assim, é o que estais a pensar? São, são. E Dalila.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

A minha mãe foi à Lua

Mãe há só uma
Chamavam-lhe filho desta e filho daquela, chamavam-lhe filho de muitas mães. Ele defendia-se, num suspiro: - Mãe há só uma...

Quase a cumprir os 92 anos, a minha mãe foi pela primeira vez ao Planetário do Porto. Visitara, uns meses antes, o aquário do Sea Life no Castelo do Queijo, mas o Planetário é que lhe encheu as medidas. Viu estrelas, mesmo no meio delas, viajou pelo sistema solar até às galáxias mais distantes, esteve na superfície de Marte, orbitou um buraco negro, saiu de lá nas nuvens, deslumbrada, com um empolgamento a que é pouco dada e que eu já não lhe via há que séculos.
Contou-me tudo, maravilhada, fez questão. Isto é, contou-me o aqui e ali de que se lembrava, logo no dia seguinte, falou-me das estrelas que estamos a ver agora, no nosso agora, mas que não é o agora delas, o agora das estrelas, tantas e tão longínquas que nem fazemos ideia, não temos contas que cheguem para as estrelas todas, é um agora que já foi há muitos anos, anos-luz, e o universo é tão bonito, tão grandioso, que eu havia de ter visto para perceber, para dar valor, disse-me a minha mãe.
Tão entusiasmada e tão desgostosa, naquele inusitado transbordar de alma. Porque, lamentou-se, não me sabia "desplicar" a beleza completa do que vira na véspera, do que realmente sentira e pensara, as palavras necessárias não lhe acudiam à boca. Se fosse em nova! Mas agora "a cabeça já não ajuda". Esclareço. "Desplicar" quer dizer "explicar", evidentemente, e é um dos inúmeros atalhos linguísticos da minha mãe, que só me enternecem. São, regra geral, erros de pronúncia, facilitações ou adaptações orais, lógicas e compreensíveis, uma espécie de galaico-português tardio e rural, pontual, muletas de vida para quem nunca foi à escola e não lê nem escreve.
Eu nunca fui ao Sea Life nem ao Planetário do Porto. Prefiro que a mãe me conte. Adoro ouvi-la a "desplicar".

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

De cama em cama

Comidinha a sério
Felizmente também há em Portugal quem saiba, pratique, ensine e divulgue a cozinha tradicional portuguesa. Cozinha a sério (à séria, se lido em Lisboa), rica, recompensadora, essa, sim, assunto cultural. Já não temos a Senhora Dona Filipa Vacondeus ou o Chefe Silva, mas ainda se arranja qualquer coisa...

Adoro ver na televisão o trabalho dos jovens e famosos chefs da nouvelle cuisine portuguesa. Adoro!
Adoro ver aquele modo de confecção improvável, os ingredientes inovadores, variados e mínimos, o requinte e a cerimónia, o circo com a faca, a delicadeza no gesto, a anorexia na dose, a obra de arte final, aquela espécie de ilha cubista no meio do prato em branco, adornada com bagas, com ervas inventadas, com sucos e espumas, com salpicos e rabiscos de geleias coloridas. Salpicos e rabiscos aparentemente displicentes, ao calhas, porém profundamente cultos, sábios, cosmopolitas, científicos. Adoro!
Adoro ouvir aquelas palavrinhas francesas, parecem palavras mágicas, nominhos de perlimpimpim. Adoro!
Tudo muito confitado, muito braseado, muito abisnagado, muito resumido, muito em cama de. Adoro!
E a frescura?, ui, sobretudo muita frescura! Adoro!
Mal termina o programa, e enquanto não me esqueço, salto para a cozinha, enfio dois bolinhos de bacalhau da véspera dentro de meio biju ressesso, beberico um copo de verde branco, atiro-me à galinha de arroba que a minha mãe me mandou de Fafe e faço a boa e ancestral arrozada de cabidela. A cabidela monumental e histórica. E vai para a mesa no panelão, fumegante como velha locomotiva a vapor. Ei, rapazes, então é que eu me consolo...

Acampado no multibanco

Duzentos e vinte e quatro
Foi julgado e condenado por ter ligado a pedir o 224. O 112 achou que era gozo, chamada falsa. A verdade é que foram mesmo necessárias duas ambulâncias.

Sabeis aquele senhor que vai à vossa frente ao multibanco e paga a água e paga a luz e paga o gás e paga o telefone e paga a tv cabo e paga a prestação do colchão ortopédico e paga a consulta do cardiologista e paga o IUC e paga o IMI e paga o IRS e paga o seguro do carro e paga as quotas da AD Fafe e da funerária e paga o lar da sogra e paga o infantário dos netos, que são seis, todos em infantários diferentes, e paga o condomínio dos filhos, que são quatro, todos em condomínios diferentes, e procura nos bolsos e mete nos bolsos e não tem bolsos que cheguem e está sempre a enganar-se e a anular e a recomeçar as operações, e, no fim, consulta o saldo, três vezes - sabeis? Calhou-me hoje um desses e não aguentei a espera. Deu-me a fraqueza, desacordei e teve de vir o INEM. Para a próxima, vou prevenido: levo cadeira, saco-cama, toldo e merendeiro.

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Sei de sítios

Povo que apetece abraçar
Depois do almoço, perfeito, sento-me à porta do cafezinho ao lado, fumando a velha cachimbada e bebendo o meu CRF "em balão previamente aquecido", mas só de memória, porque há muito me deixei de tabaco e aguardentes. Entretenho-me a catalogar o "dégradé" de azuis das serranias à volta e tento dar sentido aos desenhos atabalhoados das nuvens. Ali estamos, eu e a Mi, felizes, em paz, abençoados. As pessoas da terra passam, reconhecem-nos, de nos verem amiúde, saúdam-nos, fazem-nos festa. - Já cá não vêm há muito! Têm de aparecer mais vezes! Gostamos de os ter cá! -, dizem-nos. É, há povo assim, povo que apetece abraçar.

Sou devoto dos prazeres da mesa, da santa trincadeira, como lhe chamava mestre Aquilino. Gosto da liturgia de uma boa refeição, em família ou com amigos, gosto de comer, gosto do que é bom, e sei o que é bom. Também sei fazer, e até bastante bem, tenho essa vantagem. Todos os dias há missinha em casa, ao almoço e ao jantar. Sou um apaixonado pela boa e honesta cozinha portuguesa. Gosto da cozinha portuguesa tal qual ela é, na sua pureza original: tradicional, apurada, robusta, variada, generosa. Um bom prato, uma especialidade daquelas de trás da orelha, é capaz de me fazer andar duzentos ou trezentos quilómetros pelo prazer de o degustar. Sei de sítios como quem sabe de ninhos. Sei de sítios que não conto a ninguém, nem sob tortura, e se a tortura não for a da fome. Sei de sítios que vão morrendo pouco a pouco, uns atrás dos outros, abandonados por quem não sabe. Uma desgraça.
Vim habituado ao bom desde Fafe. Enquanto posso (e posso cada vez menos, como a maioria dos portugueses), vou a esses sítios onde já há muito eu e a Mi somos tratados como amigos ou família, com direito a mimos especiais, mas tenho de admitir que é sobretudo a comida que lá me leva. Vou pelo gosto, pelo paladar, é este o meu parâmetro de aferição e escolha fundamental.
Mas respeito quem se deixa seduzir por outras variáveis gastronómicas ou paragastronómicas, como, por exemplo, essa coisa tão vaga ou talvez não como é "o serviço" ou "o atendimento". Sim, aprecio a boa educação, e pratico, gosto que me tratem nas palminhas, não entro em filas, nunca aguardo por vez, nunca, e detesto esperar à mesa. Mas interessa-me principalmente a qualidade da comida. O asseio, a limpeza e, lá em cima da escala, sempre, a rica comidinha.
Ah!, dizem-me, em tal restaurante o serviço é excelente, está-se muito bem. Acredito. Mas isso também nos spas, segundo suponho, e nem por isso vou lá comer.