sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Eu sarapinto, tu sarapintas, ele sarapinta

Não terebintinarás
O verbo terebintinar, esse mesmo, miseravelmente ignorado por quem hoje escreve, lê e fala na ainda chamada língua portuguesa. O verbo terebintinar que, como toda a gente sabe, conjuga-se como o verbo pirilamparar. Evidentemente.

Ele era um extraordinário ciclista e não fazia caso à gramática. Dizia que gostava de correr "isolado, sozinho, sem mais ninguém", porque depois, na chegada à meta, "cada cal é cada cal e cada um sarapinta como pode". Não fazer caso da gramática fazia parte de ser ciclista antigamente. Ele venceu uma Volta a Portugal e era do meu FC Porto e das memórias da minha infância. Carlos Carvalho. Tive o privilégio de conhecê-lo pessoalmente anos mais tarde, eu moço, ele já reformado do pelotão mas não das bicicletas. E então o meu gigante das estradas era aquele homenzinho? Aquilo é que era o colosso de rodas? Era. E fiquei a admirá-lo ainda mais, como quem admira um fazedor de impossíveis.

Em 1976 a AD Fafe resolveu de repente montar de raiz uma equipa de ciclismo e apresentar-se à Volta a Portugal. Não terá sido bem a AD Fafe, mas algumas pessoas ligadas à AD Fafe e amantes das bicicletas, e tudo foi feito em cima do joelho, como convém às grandes empreitadas. Foi-se ao refugo do pelotão nacional e arranjaram-se dois ciclistas e mais dois ou três acompanhantes e desistentes garantidos. Os ciclistas eram o jovem António Alves, que posteriormente brilharia ao serviço do FC Porto, do Coimbrões de mestre Emídio Pinto, se não me engano, e do Boavista, entre outros clubes, e Manuel Martins, fafense de Golães e irmão mais novo do campeão José Martins. Dos outros, infelizmente, não reza a história. Foi-se praticamente à sucata e arranjou-se um velho Mercedes que seria, por assim dizer, recuperado e "preparado" para carro de apoio na garagem do Zé Bastos, ao lado dos antigos Bombeiros. O veículo, que avariava muito bem e parou vezes sem conta nas voltas da Volta, sobretudo quando fazia mais falta aos corredores, era o único acrescento logístico da equipa e seria guiado pelo Fredinho Bastos, condutor experimentadíssimo em corridas mas de automóveis. E foi-se a Pousada de Saramagos, Famalicão, tentar contratar um "treinador".
Uma embaixada fafense deslocou-se à loja-oficina de Carlos Carvalho, que ficava ali à face da estrada nacional, quem depois vira para o campo de futebol do Riopele de má memória pelo menos para nós. Iam talvez o grande Chico Marinho, de quem um dia falarei à parte, o despachado e palavrento Machadinho, que também já era cobrador da AD Fafe, sucedendo na pasta ao Sr. Túbal, desse tenho a certeza, não sei se o Fredinho, o David Alves e o seu irmão Gabriel, eventualmente, e por certo alguém da direcção. O David era uma espécie de consultor para todos os assuntos desportivos em Fafe. E o Gabriel foi ciclista na Coelima. Posso garantir é que eu fazia parte daquela delegação de alto nível, como modesto observador e porque, tratando-se de Fafe, naquele tempo da minha juventude eu ia com toda a gente para todo o lado. Em Fafe, não sei porquê, estive no meio de tudo ou tudo passou por mim. Fui portanto um espectador privilegiado da história da nossa terra naqueles anos imediatamente antes e após o 25 de Abril de 1974. Ou então, também admito estoutro ponto de vista, fui apenas um considerável emplastro, mas quase sempre a convite, é preciso que se note.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

A moda ou a modinha

A moda pode ser fatal
Os andarilhos para velhos estão na moda. E as bicicletas, para outro tipo de clientela. Os andarilhos, as bicicletas e as trotinetas. As cenas de pancadaria, facadas, tiros e mortes entre jovens bandidos, por nada ou por quase nada, também. Sobretudo facadas. A malta nova anda agora toda por aí com naifas, como quem usa boné ou sapatilhas de marca. É. As televisões de faca e alguidar tratam da propaganda, montam o espectáculo, ensinam como se faz. A moda tem muito que se lhe diga. E pode ser fatal.

Aquele restinho de caldo que se deixava no fundo da malga, a que se juntava broa migada e, amiúde, uma pinga de vinho tinto, e que sabia tão bem no fim da refeição, como se fosse um acrescento de fartura no tempo da fome, era a "moda" ou a "modinha". E se o caldo fosse de nabos, então é que era em cheio. Dicionários e enciclopédias chamam-lhe "moado", substantivo masculino apresentado como regionalismo de origem incerta. Acredito que sim, mas em Fafe não. Em Fafe, era a "moda". Ou "modinha", como melhor se dizia no nosso carinhoso falar antigo.

Querem é sexo

Raros prazeres da velhice
Acordou com uma magnífica erecção. Magnífica não porque exuberante, mas apenas porque erecção.

Sou muito procurado por causa de sexo. É verdade: centenas de visitantes dos meu blogues - Tarrenego!, Fafismos e Mistérios de Fafe - entram aqui pela primeira vez porque pesquisam na Net palavras-chave tão atesoadas e cheias de segundas intenções como "belas e perigosas", "foder no parque", "a bela foda", "o bitó tinha uma gaita", "mamas", "amantes", "portuguesas malucas", "portuguesas perigosas", "comendo a tia safadinha", palavra de honra, "putas", "prostitutas", "sexo" ou... "padres de Viana do Castelo". Ou então esgotam-me os 69 de todas a minhas séries: Vida de cão 69, Estou mesmo a ver o filme 69, Também faço isto muito bem 69, I want to ride my bicycle 69 e assim sucessivamente. Ou então procuram "de puta madre", como se, pequeninos e freudianos, se tivessem perdido da progenitora bêbada na Senhora das Neves da Lagoa. Depois, perante o que encontram, levam com um balde de água fria no focinho, vão-se abaixo e certamente nunca mais cá voltam. Compreendo-os.

Há outros leitores, igualmente solitários e amantes dos trabalhos manuais, porém de hábitos um pouco mais arejados e produtivos (a jardinagem ou a culinária, por exemplo), que contactam comigo através de senhas como "Alberto João", "o seringador", "arroz de polvo carolino ou agulha", "esquerda caviar", "onde comer sardinhas", "Anthony Bourdain", "ah faneca!", "tomates" e "moelas de coelho". Sobretudo "moelas de coelho". Percebo também que fiquem desconsolados com o que tenho para lhes dar e não posso levar a mal o raspanete que achem por bem, embora eu não lhes faça caso. Já agora: para o polvo, arroz carolino. Foda é o cordeiro assado no forno em Monção. E é claro que os coelhos não têm moelas, mas o meu amigo Peixoto, em Fafe, cozinhava-as muito bem.
Quase que só sobram então os americanos, os russos e os alemães, que são sempre os primeiros a chegar e, honra lhes seja, não me largam. E é muito fácil mantê-los interessados. Basta-me meter um texto qualquer com uma ou mais destas inocentes palavras: "terrorismo", "EUA", "Putin", "Trump", outro que o que quer é sexo, "Obama", "Biden", "Saddam Hussein", "Al-Qaeda", "Estado Islâmico", "Israel", "Afeganistão", "Irão", ainda que do verbo ir, "Merkel", "Papa", "armas" ou "Bomba", ainda que seja o nome da nossa família, o meu ou o do meu avô, e meia dúzia de segundos depois já cá estão eles a bater-me à porta. É automático.
O que eles querem, sei eu. No fundo, anda tudo ao mesmo: querem sexo, como os das "mamas" e das "prostitutas". Querem ver se me fodem, com licença da palavra. Mas também vêm ao engano.

(E depois há os casos que podem ser sérios. Como ainda aqui atrasado, quando alguém cai no Tarrenego! com a terrível conjugação de palavras-chave "quero denunciar o meu pai que me maltrata". Peço desculpa pela inadvertida pista falsa e espero sinceramente que quem estava aflito, se assim era, tenha encontrado noutro sítio, nos sítios certos, que os há, a ajuda de que precisava.)

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Por una cabeza

Cavalinho da chuva
Mandaram-no tirar o cavalinho da chuva, e ele tirou. E no entanto estava um rico dia de sol.

"Por una cabeza" é talvez o velho tango mais conhecido dos tempos modernos. A sua versão instrumental é tocada a torto e a direito nas séries de televisão e no cinema, não só pela sua indiscutível beleza e porque entretanto caducaram os respectivos direitos autorais, mas sobretudo depois de ter sido utilizada com o sucesso que se viu no filme "Perfume de Mulher", de 1992, que valeu a Al Pacino o Óscar de melhor actor. Eu trago-o no ouvido desde o tempo do Belinho e do seu acordeão, no palco do salão dos Bombeiros de Fafe, lá pelas décadas de 60 e 70 do século passado. A autoria deste tango é muitas vezes erradamente atribuída a Astor Piazzolla, o mestre do bandoneon. Na verdade, o tango "Por una cabeza" foi composto em 1935 com música de Carlos Gardel, o mais famoso dos cantores de tango da história, e letra de Aldredo Le Pera.

Perfume de mulher

E foi lavar-se
A velha prostituta, muito limpa e organizada, consultou a agenda, meia dúzia de linhas encriptadas em gatafunhos analfabetos, e leu baixinho, como que soletrando, acariciando as impossíveis sílabas uma a uma: - O do talho às onze, o taxista ao meio-dia, o padre às três e o senhorio às cinco. Desarriscou-os a todos, um atrás do outro, meticulosamente, com gosto, sorriu para o espelho do toucador, provocando-se, e resolveu tirar o dia. Guardou a agenda e pegou no telemóvel, vagarosamente, com requebros e biquinhos, imitando um gesto coquete que vira uma vez na televisão. Marcou encontro com a Amélia Calçuda. O espelho corou. E ela foi lavar-se.

Na minha infância e princípios da juventude lidei muito com padres. E os padres cheiravam. Isto é, tinham ou emanavam um certo e determinado cheiro. Não como o extraordinário Padre Clementino ou o Secónego, casos particulares, que cheiravam naturalmente a mofo, mas outro cheiro, doce, aperfumado, que também não era incenso nem ares de santidade ou sacristia. Cheiravam não sabia bem a quê. Aquilo intrigava-me, ainda por cima porque eu nem fazia ideia de que havia perfumes para homens, quanto mais para padres!
Que se segue. Na vasta sabedoria dos meus dez-onze anos, resolvi então que aquilo de os padres cheirarem a perfume era para disfarçar o cheiro a tabaco, como, por exemplo, o nosso senhor abade. Os padres não queriam que o povo soubesse do cigarrito às escondidas. Bem visto! Porque, naquele tempo, fumar era um pecado muito grande, praticamente ao nível do pecado da sagrada masturbação.
E nisso fui acreditando, bem-aventurados os néscios, até que um dia, espigadote e epifanado, finalmente percebi: aquilo do perfume dos padres era mas é cheiro a mulher, cheiro de convívio íntimo com mulher. E, nesse caso, Deus os abençoe...

Os convencidos da vida

Espelho meu
Ele era careca, completamente careca. Careca e vaidoso. Aliás, penteava-se de risca ao meio.

O problema dos ex-colegas. Sim, a chatice dos ex-colegas. Para um gajo a caminho dos setenta, embora em estado de praticamente novo, a questão dos ex-colegas é um aborrecimento quase tão grande como os calhamaços do José Rodrigues dos Santos se por acaso eu os lesse. Uma aflição. Os ex-colegas são uma pedra no sapato, e é por isso que há muitos anos só calço botas ou sapatilhas. Imaginai-me: com ex-colegas da minha rua e da escola primária, os melhores de todos, com ex-colegas do seminário, já lá irei, com ex-colegas do liceu que foram para doutores e foi um ar que se lhes deu, com ex-colegas dos Comandos que acham que são muito audazes e eu realmente não sou, com ex-colegas da fábrica de quem tenho tantas saudades, com ex-colegas dos jornais e da rádio que têm lá as suas vidas, vejo-me à rasca para os aturar a todos, mesmo quando eles não querem saber de mim, o que é regra geral. E quando querem saber de mim, então ainda é pior. O caso do seminário, e eu disse que vinha cá, é absolutamente paradigmático. Para quê? Digmático. Ninguém me mandou para o seminário, fui porque quis, porque queria ser padre, e às vezes ainda quero. A minha mulher sabe disso, desta minha impenitente inclinação, e, mais, somos felizes. No ano em que lá cheguei, ao seminário, éramos 136 crianças, eu tinha 11 anos e havia um documento de acção psicológica (isto anda tudo ligado) que rezava assim: "Começar é fácil. Recomeçar é de muitos. Chegar ao fim é de heróis. Nesta marcha ascensional é nosso dever caminhar! A empresa é difícil, mas fascinante O Ideal!"...
E há criaturas que acreditam nisto, os supra-sumos que chegaram ao "O Ideal!" e que, portanto, só podem imaginar que são os maiores, os "heróis". Se tivessem ido para os Comandos, esses supra-sumos, sumos sacerdotes, andariam agora por aí de boina vermelha e crachá, eventualmente de G3 a tiracolo se os deixassem, e, em vez de melancólicos ego te absolvo, diriam esfuziantes mama sumae! Estes rapazes tiveram os melhores mestres do mundo, o padre Fonseca e o padre João Aguiar, para não irmos mais longe, e afinal não aprenderam nada com eles, não perceberam nada da vida. Não percebem nada da vida.
Eu explico. Reencontrei-me ultimamente com ex-colegas do seminário que deram em padres. E até gostei, a princípio. Há aquela festa propedêutica, "ó pá, há que tempos, és mesmo tu, estás mais gordo, estás mais magro, está igualzinho, dá aí um abraço...", como pessoas normais, e depois os meus ex-colegas enfiam no cu um daqueles feijõezinhos milagrosos que lhes dão aquela voz sacrista e falseta, e, magníficos, condescendentes e compassivos, com a superioridade moral dos eleitos, dos exclusivos de Deus, perguntam sempre lá do alto, como se estivessem secretamente combinados uns com os outros, "e então, o que é que tens feito?"...
Fico atrapalhado. O que é que eu tenho feito? Começo a suar, a gaguejar, não sei o que hei-de dizer em minha defesa. Afinal estou perante um dos que chegaram ao topo do Kilimanjaro e eu nem sequer passei do sopé do Bom Jesus do Monte, onde o Secónego tinha uma casa. Conto o melhor que consigo: "ó pá, tenho sido sobretudo jornalista mas também trabalhei numa fábrica, sou casado há mais de quarenta anos, sempre com a mesma mulher, o que é censurável no meu ofício, porém continuo apaixonado, tenho um filho que é uma jóia e o meu maior orgulho, temos a casa e o carro pagos, damos umas voltinhas para arejar, eu não sei conduzir mas cozinho muito bem, tenho quatro amigos, pendurei a carreira profissional para tomar conta primeiro do meu sogro e depois da minha sogra, e não me lembro se já disse que sou jornalista"...
Mas não chega. Eu sei que não chega! E continuo aflito, gago e suado, mortinho por desaparecer por mim abaixo. Eu até acho que a classe dos ex-colegas está muito sobrevalorizada. Parece-me que a maioria das pessoas passa distraidamente ao lado do negativismo, da carga pejorativa que a própria expressão em si encerra. Ex-colega, ex-colegas. Se, por analogia, as pessoas pensarem no que pensam quando pensam em ex-amigo, em ex-amigos, em ex-mulher ou ex-mulheres, certamente compreenderão o que eu quero dizer. Mas não adianta. Isso não me salva. Os ex-colegas aparecem-me, realizadíssimos da vida, e eu, que sei que sou a desgraça que sou, a mediocridade em pessoa, encho-me de vergonha, só me apetece fugir...
Que raiva! Porque é que os nossos ex-colegas, mesmo os que não conhecemos de lado nenhum, estão todos melhor de vida do que nós? Tenho um desgosto muito grande.

Ou por outra, tinha. Porque aqui atrasado fui a Fafe a um funeral e mudei de táctica. Fui a Fafe, dizia, e esbarrei com um dos meus que deu em padre e que, ainda por cima, estava encarregado do serviço fúnebre. Conversámos na sacristia da Igreja Matriz, intermediados pelo meu sobrinho Geno, que me saiu um tipo bem porreiro. Como de costume, inquirido sacramentalmente, pelo ex-colega, "e então, o que é que tens feito?", confessei na mesma o "ó pá..." do parágrafo ali de cima, o "ó pá..." completo, porque tenho este defeito de informar, deformação decerto profissional, mas depois acrescentei, perguntando-lhe também, para livração da minha alma:
- E tu? Não fazes nada, não é? Quer-se dizer, nunca fizeste nada, pois não? És padre...

P.S. - Em todo o caso e nos tempos que correm, com o que vai aí de pedofilia e outros abusos eclesiásticos: como diria a minha mãe, que é sábia mas também queria um filho padre, "mais vale não fazer nada do que fazer asneiras"...

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Os Bítalas

Cabeças brilhantes
Ele tinha ideias. Abriu um cabeleireiro para carecas. Lavava, encerava e puxava o lustro.

Os Bítalas eram um conjunto musical e cantavam obladi obladá. Eram quatro, sendo que o do bombo tinha cara de morcão, e chamavam-se Bítalas exactamente por terem cabelo grande, mas que afinal não era assim tão grande, como os hippies vieram posteriormente a demonstrar - era apenas um cabelinho amaricado, aparadinho, muito anos vinte, muito tipo Beatriz Costa. Bítalas em português diz-se Guedelhudos. Os Bítalas eram ingleses de Liverpool e do mundo. Em Fafe, no tempo em que imperava o corte à tigela (ou malga, se fosse mesmo à nossa moda), como actualmente outra vez, quem tivesse o cabelo a roçar as orelhas era Bítala e malvisto. Nas mãos do barbeiro Pimenta do seminário menor de Braga, os Bítalas depressa deixavam de sê-lo. Eu fui, mas cantava num orfeão de manifesto pendor sacrista e por isso passei ao lado de uma grande carreira.