segunda-feira, 9 de março de 2026

Lapsus linguae

A palavra apartir é como a palavra porcausa
Há muita gente que não sabe como é que se escreve a palavra apartir. E é fácil. A palavra apartir escreve-se da mesma forma que as palavras asseguir e afeder. Tal como porcausa. A palavra porcausa escreve-se da mesma forma que as palavras porexemplo, poracaso e porfavor. Todas estas palavras obedecem ao mesmo princípio - o da ignorância.

Entrei de rompante e gritei: mãos ao ar, isto é um assalto! Fiquei admirado. O que eu queria dizer era: alto e pára o baile! Eu andava desesperado e insone com aquele forrobodó todas as noites no apartamento de cima, bailarico até às tantas, cantoria sem norma nem excepção. E na hora agá, com tanto maldormir, a minha boca baralhou-se, fez confusão. Mas estava dito, estava dito: desci com um LCD de 100 polegadas, uma mesa de DJ, seis colunas de som surround, um globo espelhado, oito CD do Quim Barreiros, dois tablets, quatro telemóveis, sete relógios - um de sala -, seis pulseiras, cinco colares, doze pares de brincos, dois pacotes de batatas fritas, meia piza familiar de cogumelos e fiambre com extra queijo, um pacote de Sugus morango e framboesa, nove gramas de haxixe, garrafa e meia de vodka, duas canecas de sangria, vazias, três garrafas de Casal Garcia, treze cartões de crédito, um vale de reforma, 837 euros em numerário, um porquinho-mealheiro com a Justiça de Fafe por fora e 350 escudos em imprestáveis moedinhas de 1 escudo por dentro, um santinho da Senhora de Antime, uma bengala de Gestaçô, um par de canadianas praticamente novas - uma professora de Toronto e uma enfermeira de Otava - e a empregada doméstica, que também quis vir comigo.

A pintura do Mané

Artista compulsivo
Pintou a manta. A manta, as fronhas e os lençóis. Quando lhe vinha a musa, não tinha mão no pincel.

A pintura do Mané não lhe dizia grande coisa. Isto é. Asseguravam-lhe que o Mané era um grande artista, falavam-lhe do impressionismo francês, até do realismo, dos jogos de luz e de sombra, dos nus, mas ele não se deixava convencer. O Mané era um gajo porreiro, isso nem se discute, pagava umas cervejolas bem bebidas e desenrascava satisfatoriamente o lugar de defesa-esquerdo aos domingos de manhã, mas, quer-se dizer, era apenas um trolha regular e à beira da reforma. Como ele...

Diálogos fafenses 83

Como é que se escreve a palavra porcausa?
A jovem profissional precisava de trocar uma folga e procurou ajuda junto da colega da secretaria. Uma de cada lado do balcão. Giras. A colega da secretaria passou o papel e a esferográfica à jovem profissional, e começou a ditar:
- Solicito, so-li-ci-to, troca de folga, de fol-ga, do dia 15 para o dia 23, por causa...
- Porcausa? Que palavra é essa? Como é que se escreve? - interrompeu a jovem profissional, descontraidamente ignorante e escandalizada, e, tipo, com toda a razão.

domingo, 8 de março de 2026

Desconstrução civil

O problema da habitação
As rendas estão cada vez mais caras. Quanto aos bordados, já ninguém lhes liga.

Perguntavam-lhe pela profissão e ele respondia, orgulhoso, "operário da desconstrução civil". Era um especialista, com efeito. Ele e mais dois camaradas chegavam, de marreta e pé-de-cabra, picareta pneumática e um ror de sonoras caralhadas, e num mês, mês e meio, escavacavam completamente uma casa, esvaziando-a de pavimentos, divisórias, tectos, portas, janelas, memórias e telhados. Só ficavam os alicerces ao baixo e as paredes exteriores ao alto. Depois vinham os outros, os da construção civil, e faziam mais um alojamento local.

Diálogos fafenses 82

O office-boy
No tempo em que havia trolhas em Portugal, os trolhas eram "artistas" e tinham um moço. Para além de levarem umas valentes e educativas chapadas para aprenderem nunca se soube bem o quê, os moços faziam recados:
- Moço, traz a massa!
- Moço, vai ao tasco!
- Moço, cata-me os chatos!
- Moço, toma conta se o mestre vem!
- Moço, anda cá que já vais treinar!
- Moço, agarra-me este peido e põe-mo a corar!
Era assim naquele tempo, pelo menos em Fafe. Hoje os trolhas chamam-se pintores de construção civil, como se trolha fosse defeito. Não sei.

Fafe e o garibaldismo

Patriotismo
O patriotismo é coisa para ser levada a peito, há quem diga.

Garibaldi foi um general italiano que ficou muito famoso por usar blusão vermelho. Mais tarde o ilustre mercenário, guerrilheiro, revolucionário e patriota, alcunhado Herói de Dois Mundos por certas e determinadas razões, transformou-se em camisola de fora ou casaco curto de mulher e numa espécie de guindaste geralmente improvisado e ainda hoje muito usado na construção civil, sobretudo em obras assim mais artesanais ou domésticas, basta ir por essas belas aldeias de Fafe fora, que só o passeio já vale a pena.

sábado, 7 de março de 2026

Um ano negro para os artistas

Choque em cadeia
Choque em cadeia envolve 16 visitas, 8 reclusos e 4 guardas prisionais. Foi humidade na instalação...

O mundo estremeceu de comoção. E, se o mundo estremece, Portugal abana e cai. Que tragédia, que cataclismo, que ano negro! Morreram, entre outros famosos certificados, Prince, David Bowie, Leonard Cohen, George Michael, a Princesa Leia, e Bob Dylan ganhou o Prémio Nobel da Literatura. Foi em 2016.
A comunicação social portuguesa ficou em choque: um annus horribilis para os artistas, sim os artistas, uma desgraça para a arte, sim a arte. Deus nos abençoe, proteja e guarde! E escreveu-se, e escreveu-se, e escreveu-se. Os nossos jornalistas iam falecendo também, esparramados de desgosto.
Ora, artistas - em bom e antigo português - são igualmente e por maioria de razão os nossos trolhas, os nossos pedreiros e os nossos carpinteiros, por exemplo. Artistas, assim se dizia em Fafe e eu continuo a dizer. Quanto mais não seja, em memória do meu querido avô de Basto, mestre pedreiro de categoria, e em homenagem ao meu querido tio Zé de Basto, filho do bô do Basto, irmão mais novo da minha mãe e competente fazedor de casas e anexos. Artistas, os dois, como os admiro! Conversei na ocasião com Albano Ribeiro, o eterno presidente do Sindicato da Construção de Portugal, que me contou o seguinte:
Trinta e nove (39) operários da construção civil morreram a trabalhar, em Portugal, naquele ano. E, em quatro meses, morreram seis (6) trabalhadores portugueses em obras por essa Europa fora, número grande em tempo de drástica redução de empreitadas e ainda sem estádios para construir no Catar.
Albano Ribeiro queria falar com os senhores jornalistas acerca deste e de outros assuntos relativos aos nossos artistas. Convidou a comunicação social portuguesa para uma conferência de imprensa que deveria realizar-se numa sexta-feira a uma hora cómoda. Ninguém apareceu. Os senhores jornalistas tinham mais que fazer.