quarta-feira, 6 de maio de 2026

Bourdain não passou por aqui

O que é que eles dão?
- Para a semana eles dão chuva.
- E que se coma, nada?...

Numa das suas visitas oficiais ao Porto e Norte de Portugal, o saudoso Anthony Bourdain (1956-2018) andou pela Invicta, deu um salto aos vales do Douro e do Tâmega, comeu por lá umas especialidades de carregar pela boca e teve o duvidoso privilégio e manifesto incómodo de assistir a uma matança de porco e às litúrgicas operações de desmancho e salga, acabando o dia a jogar à bola com a bexiga do bicho, como mandava a tradição.
E depois foi-se embora. Atenção: foi-se embora sem antes ir à Conga comer uma bifana. Mas, desta ou doutra vez, comeu bifanas em Lisboa. Isto cabe na cabeça de alguém? As bifanas da capital sempre me mereceram as maiores reservas e, francamente, a equipa do No Reservations deveria estar na posse desta importante informação. Perguntassem-me, porra!
Bourdain, mestre de culinária e estrela de televisão, disse que gostou muito das lisboetas "sanduíches gordurosas de porco", com carne "imunda e cortada em fatias finas". É uma definição elegante e que se aceita, acho eu. Mas havia de ter provado as bifanas à moda do Porto, na Rua do Bonjardim! E não me venham dizer que as bifanas são iguais em todo o lado. Porque não são. E não me venham dizer que é tudo uma questão de picante - mais ou menos. Porque não é. E não me venham dizer que é só temperar com vinho branco e mais não sei quê (o resto fica cá comigo, que também as faço uma categoria). Porque não é. É com o vinho (e com o resto), mas também com cerveja, ou para onde é que vós cuidais que vão as sobras dos barris e a espuma que esborda dos finos (ou imperiais) mal tirados? Vai tudo lá para dentro, para o caldeirão da molhanga, e aqui é que bate o ponto. Aqui é que a porca torce o rabo. É que as bifanas do Porto chafurdam em Super Bock. E a Super Bock, que não reste a mínima dúvida, faz toda a diferença.

Por outro lado, Anthony Bourdain não passou por Fafe. O que é absolutamente lamentável. E indesculpável, por maioria de razão. Se o famoso chef americano queria falar de sandes com conhecimento de causa, primeiro haveria de informar-se acerca da posta de bacalhau frito dentro de biju, no Paredes, a acompanhar um sino de verde branco só para abrir apetite para o almoço. Haveria de perguntar pela sandes de pescada frita e fria no Lameiras da Rua de Baixo. Haveria de pedir que lhe contassem das sandes de vitela assada no Zé da Menina ou no Nacor, aqui também com batata para fazer fartura. Não poderia deixar Portugal sem antes provar a francesinha e o prego do Peixoto, e as moelas de coelho e os ovos de galo. Em pão. Haveria de tomar conhecimento da incontornável sandes de pastelão e da sandes de chicharro de cebolada retrasado. Haveria de querer saber das pataniscas do Miranda. Haveria de exigir que lhe apresentassem a minha côdea de broa com açúcar amarelo, que, sendo dobrada ao meio, sobe também à categoria das sandes certamente, apesar da sonsa oposição dos puristas e outros alegados diabéticos, e talvez até lhe ensinassem a sandes de bolacha maria com marmelada. Mas Bourdain não passou por Fafe. E portanto nunca soube nada disto. Foi o que perdeu. Foi o que se perdeu.

terça-feira, 5 de maio de 2026

O moncoso, o ranhoso... e o piolhoso

Moncoso e ranhoso. Conceitos sinónimos, porém idiossincráticos. O moncoso é o tipo dos moncos ao dependuro, sujo, imundo, badalhoco, ranhoso - cá está -, asqueroso, desprezível, desprezável, baixo, sórdido, vil. Um bandalho, um pulha, um bardamerda.
Por outro lado, o ranhoso é o tipo que tem ranho, ranhento, ranhenta, moncoso - cá está -, teimoso, astuto, foleiro, reles. O verdadeiro filhodaputa.
Moncoso e ranhoso são nomes que se chamavam antigamente. Em Fafe chamavam-se muito. Eram nomes feios, ofensivíssimos, do piorio, ao nível, por exemplo, de... piolhoso. Mas isso já é outro assunto.

O ferrencho e a folheta

Entendamo-nos. Folheta é pequena folha, folha muito delgada que se põe debaixo do engaste das pedras preciosas, palheta, folha-de-flandres, folha de latão, lata, chapa. Se a folheta for velha, muito velha, ferrugenta, escangalhada e mínima, então também é ferrencho. Porque ferrencho é ferro pequeno e ordinário, qualquer ferro, pedaço de metal ou lata estragado e imprestável. Isto é: ferrencho, com o "é" bem aberto e o "ch" reforçado, é ferrancho se pensado e dito em Fafe. Ferrencho velho.

Bonda!

Perguntam-me: mas afinal o que quer dizer bonda? E eu respondo: bonda quer dizer avonda, chega, basta, e diz-se, por exemplo, quando alguém nos está a deitar vinho no copo e, a meio, nós achamos que já é suficiente. Isto é: "bonda!" quer dizer "pára!", se pensado e dito em Fafe. Evidentemente.

A crucha

Perguntam-me: mas afinal o que é a crucha? E eu respondo: a crucha é o coruto, o cocoruto, a cruta, o cimo, o cume, o pináculo. Em moços, íamos aos ninhos ou às maçãs e subíamos à crucha das árvores. Quer-se dizer: a crucha é a corucha se observada e dita em Fafe. Evidentemente.

A tona

Perguntam-me: mas afinal o que quer dizer tona? E eu respondo: tona quer dizer pele ou casca de fruto, sobretudo laranja se for em Fafe. Tona é uma camada fina, película, é rolha tipo batoque, ave do Brasil e embarcação de transporte goense. É a superfície, mergulha-se e vem-se à tona, é o sítio da verdade que se descobre como azeite sobre a água. É presente do indicativo ou imperativo do verbo tonar, que quer dizer trovejar ou falar muito alto. Em fafês correcto, antigo, tona diz-se "tóna", e não "tôna". Tona é também a mulher do Tono.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Ray Charles, sem mais nem menos

A vida sem internet
Os jovens criativos da Rádio Renascença, e devem ser mesmo muito novinhos, perguntam, num anúncio de promoção a um programa: - Já imaginou a vida sem internet? E quer-se dizer: eu já, isto é, sou desse tempo, lembro-me muito bem, e por acaso até nem se estava mal...

É a minha vida. Divido-me aqui entre o computador e o fogão. Ainda há pouco, bateu-me a lembrança e larguei de repente o teclado para ir a correr lá ao outro lado da casa ver o ponto de um caldo de nabos que por acaso tenha em andamento. Trouxe de Fafe mais esta mania, o caldo de nabos. O rádio da cozinha estava a dar, sem mais nem menos, a esta hora, Ray Charles. Era, como sempre, a rádio nacional, oficial, a Antena 1, Ray Charles cantava "Hit the road Jack" e eu pensei, fazendo coro com o aparelho, "ó carago, morreu o Ray Charles, coitadinho..."
Mas não morreu, foi impressão minha. Embora me pareça que Ray Charles (1930-2004) precise de morrer todos os dias para dar na rádio. Mesmo na rádio nacional, oficial, a da necrologia e das efemérides.