sábado, 21 de fevereiro de 2026

Diálogos fafenses 68

Gaiolas
- Boa tarde. Faz gaiolas?
- Por medida.
- Faz-me uma?
Fez.
- E para pássaros?...

O heroísmo ia-me matando

A última a morrer
Era uma família convencional. Morreram, naturalmente por esta ordem, o Acúrsio, a Adelaide, o Tibério, a Catarina, a Rosa, o Celestino e finalmente a Esperança. É daí que vem.

Vamos supor que era o Grand Central Terminal de Nova Iorque, ou talvez a Escadaria Richelieu em Odessa, e estávamos no quentinho do cinema. Víamos "Os Intocáveis", de 1987, de Brian De Palma e David Mamet, com Kevin Costner, Robert De Niro e Sean Connery, ou talvez "O Couraçado Potemkine", de 1925, obra maior de Sergei Eisenstein. Mas na verdade estávamos em Vila do Conde à chuva e era um tanque público no quarteirão da Santa Casa da Misericórdia. Eu passando. A pé, como me é comum. Houve um tempo em que fiz aquele caminho todos os dias da semana, durante meses. Gostava do sítio, lembrava-me Fafe, a minha mãe, as lavadeiras caralheiras da minha infância. Mas então: eu passando. Um carrinho de bebé sem condutor sai de súbito do lavadouro, primeiro em câmara lenta, como nos filmes, e depois, rapidamente embalado pela força da realidade, ultrapassa o passeio e desembesta para o meio da estrada a ferver de trânsito.
Naquele preciso momento sinto o primeiro e único impulso de heroísmo de toda a minha vida, largo atabalhoadamente o guarda-chuva aberto, que nunca mais vi, voo para o carrinho a pensar na CMTV, na TVI, na CNN, no YouTube, no TikTok, no tuk-tuk, em Marcelo Rebelo de Sousa, na medalha do 10 de Junho, na reforma vitalícia (pensa-se em muita merda numa fracção de segundos), rezo a Nosso Senhor Jesus Cristo, a São Cristóvão e a Santiago de Compostela, meu padrinho e protector, peço tapas e mais uma caña, faço promessa à Senhora de Antime, falta-me o ar de repente, é o coração que me entope cobardemente a garganta, as pernas tremem-me como varas verdes mas desta vez não falham, voo para o carrinho, dizia, e agarro-o e arranco-o já no milagroso resvés com um Toyota Yaris que passa nas horas e me enche de nomes, inclusive "Ó voi!", mas é o menos. Estamos salvos, graças a Deus. Tornamos ao passeio, respiro de alívio, doem-me os músculos todos, os ossos, manco dos dois pés, e por isso não se nota. A mãe grita, finalmente, de mãos espetadas na cabeça desgrenhada, "Ai o carrinho!", e o pai berra, "Olha o carrinho!", e dá mais uma puxa no paivante.
"O carrinho?", interpelo eu e repito, mais fodido do que outra coisa, "O carrinho? E a criança, caralho!?...", "A criança!?...", as palavras saem-me aos soluços e eu preciso urgentemente de uma cadeira para me sentar uma última vez antes de morrer. "Mas qual criança?", dizem-me os dois, com caras combinadas de quem me manda à merda com a senha número um e portanto sem direito a cadeira, e desconfio que me ficaram com o guarda-chuva. "Qual criança?", e riem-se afinadíssimos da minha agonia. Tinham praticamente razão: olhei para o carrinho que mantinha nas minhas mãos cerradas e aflitas, roxas e brancas, o bebé eram quatro passadeiras lavadas, enroladas e ainda pingantes - as quatro filhas da puta pelas quais eu só não faleci prematuramente e por engano porque sou um gajo cheio de sorte.

Maior e vacinado

Foto Hernâni Von Doellinger

Sem açúcar
Disseram-lhe que era Dia Mundial da Sépsis. Ele achou bem e mandou vir. Pensava que era um bebida.

Acreditais que ainda tenho comigo e em plenas funções o meu primeiro, e único, boletim de vacinas? As vacinas, naquele tempo, em Fafe, apanhavam-se no velho casarão em frente à Escola Conde Ferreira, na Rua Montenegro, com a escadaria mesmo ao lado da caixa do Mudo, engraxador e sportinguista de alto gabarito, irredutível fiscal no Campo da Granja e depois no Estádio, hoje chamar-lhe-iam steward, palermas, e era também exímio tocador dos sinos da Igreja Matriz, especializado em concertos para casamentos, baptizados e sobretudo funerais, pago à peça, portanto por fora. Era um extra. O Mudo. Quanto ao histórico casarão, ali funcionavam ou funcionaram, não sei se coincidindo, o Centro de Saúde, os Serviços Municipalizados de Água e Electricidade, também não estou certo de que se chamassem exactamente assim, e a "cantina" ou o sítio da sopa para os meninos mais pobres da escola. Aquele tempo era porreiro porque podia-se dizer "vácina" sem que nos ralhassem pessoas que, relativamente a gramática e língua portuguesa em geral, só fazem ideia de emojis. Eu rio-me dos que se riem de eu dizer "vácina". Continuo a dizer "vácina" e "vácinas", e graças a Deus tenho-me dado muito bem.
O Centro de Saúde era de certeza um sítio maravilhoso porque trabalhavam lá o Aníbal Carriço, que sobreviveu à guerra cheio de balázios e escrevia nos jornais, tinha tudo para ser meu herói, e a Getinha, que era minha vizinha no Santo e gostava muito de mim e eu gostava muito dela. Quando andou na Escola de Condução Fafense para tirar carta, e não sei se concluiu, eu acompanhava a vanguardeira Getinha nas aulas, sentado no banco de trás do então inevitável Carocha amarelo e preto, às voltas sem sentido pelo centro da vila só para a má-língua ver, a contorcer-me por todos os lados, enjoadíssimo, porque eu enjoava abundantemente a andar de carro, mas era por uma boa causa e com autorização da minha mãe, depois de fazer os deveres: uma menina de bem, uma donzela, nunca entraria sozinha na viatura de um cavalheiro, por mais cavalheiro que o cavalheiro fosse, e ainda que o cavalheiro fosse o instrutor e a viatura fosse de instrução, olha o respeito! Quer-se dizer, eu, inocente guardador de virgindades, era ali uma espécie de pau-de-cabeleira, mas de uma espécie muito rara certamente, uma espécie talvez descontextualizada, abstrusa, porque a vida depois dá muitas voltas e até é de rir, às vezes, e de chorar, outras, o que acontece às pessoas e com as pessoas, mas isso já não é para aqui chamado. A querida Getinha era uma mulher extraordinária - isso é que é certo.
Tornando, então, às vacinas e ao velho boletim. A minha primeira vacina registada, perpetrada evidentemente em Fafe, foi uma "Anti-Poliomielítica Morta ou Viva", até parece dos filmes de cobóis, tem a data de 15 de Dezembro de 1965, lembro-me muito bem dela, e a mais recente foi-me aplicada ainda no outro dia, 23 de Maio de 2024, em Matosinhos, onde moro, porque, embora possa não parecer, eu levo isto das vacinas muito a sério. Covid e gripe à parte, a próxima, se não for antes, está já agendada para 2034, isto é, o Serviço Nacional de Saúde, que eu tanto estimo, atribuiu-me pelo menos mais dez anos de vida, só tenho de apresentar-me no dia certo. Eu por acaso já não contava com semelhante bónus, nem sei sequer se o mereço ou justifico, mas, cá está, é a prova de que as vacinas realmente funcionam.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Diálogos fafenses 67

Facebookando
- Comporte-se. Baixe lá essas MAIÚSCULAS, que eu não sou surdo...

Em nome do Pai, do Filho e de Mim

Foto Tarrenego!

O auto-suficiente
Beijo-me e desejo-me - dizia.
 
Entram em campo. Jogadores, treinadores, árbitros, dirigentes, apanha-bolas, tratadores da relva, stewards, polícias fardados e à paisana, navalhistas, maqueiros, carregadores de bandeiras, repórteres de pista, vendedores de pirolitos, e até o presidente da Câmara, com uma grandessíssima lata, para dar o pontapé de saída. Todos se benzem como se entrassem em sítio santo, circunspectos, cândidos e amorosos, e no entanto vão passar quase duas horas a, pelo menos, chamarem-se "filho da puta!" uns aos outros, como o Senhor nos ensinou. Fazem o sinal da cruz antes da função, para que dê sorte, para esconjurar azares ou, sei lá eu, talvez porque não fazem ideia nenhuma do que aquilo quer dizer. Pelo sim e pelo não, sinal da cruz em versão resumida, "Em nome do Pai", mão direita na testa, "do Filho", mão no peito ou barriga, "e do Espírito", mão no ombro esquerdo, "Santo. Amém", mão no ombro direito. Tudo mais ou menos como se aprendia na catequese. Exactamente, benzem-se. Mas depois acrescentam-lhe um beijinho na mão propriamente dita, no pulso, no dedo, fazem coraçõezinhos para a televisão, apontam para o céu, metem a bola na barriga, espetam bandarilhas, fazem mil e uma macaquices, benzem-se e beijam-se em seu nome pessoal, autobeijam-se, uma vez, duas, três, que desperdício mas foi a conta que Deus fez, num narcisismo sem jeito, numa espécie de egolatria canonicamente desautorizada, onanista, para não lhe chamar outra coisa.
Todos. Não passam sem a chupadelazinha no dedo, que - perdoai-me que vos diga - vale tanto no Céu como a entrada em campo com o pé direito. Deus está realmente à coca, tudo vê e tudo sabe, mas vê pouco futebol e também é Pai do pé esquerdo.
E não é só no futebol. Mesmo nas igrejas, onde o rigor deveria imperar, esta entorse litúrgica vem passando de geração em geração, e os frequentadores de hoje em dia até acreditam que foi sempre assim, que é assim. Mas não é: o beijo em mão própria está a mais, não faz parte do sinal da cruz.
Eu acho que sei como é que isto tudo começou. No tempo em que a missa era em latim e o povo, que já se via à rasca para perceber o português, aproveitava para ir rezando terços atrás de terços enquanto o padre, de costas voltadas para os fiéis e para o mundo, se ocupava naqueles Dominus vobiscum que eram lá um assunto entre ele e o pobre do sacristão, que ajudava o melhor que sabia sem saber muito bem a quê, entregava a galheta, tocava a sineta e segurava a patena.
Parece que ainda ouço. As igrejas ecoam, sabeis? O terço era sonoramente ciciado por mulheres enfiadas em bigodes e lenços pretos, bzzz, bzzz, bzzz, num cochicho ao despique remetido directamente a Deus Nosso Senhor, embora devesse levar Nossa Senhora no endereço - lá em cima que se entendessem. O comendador Santos da Cunha, que era governador civil de Braga e vinha a Fafe às inaugurações e aos casamentos e funerais dos ricos do regime, também fazia bzzz, bzzz, bzzz, mas com voz de trombone, de terço na mão ostensiva e papuda, durante a missa inteira, e já ela era praticamente toda em português, tirando o Agnus Dei. E se o senhor comendador fazia, e fazia que se soubesse, é porque era a Bem da Nação - naquele tempo não havia dúvidas a esse respeito.
Ora bem. No fim da reza, e independentemente do que o padre estivesse a fazer lá à frente e do ponto em que a missa fosse, as pessoas benziam-se e beijavam respeitosamente o crucifixo do terço, que levavam aos lábios entre o dedo polegar e o indicador. Beijavam a cruz, não a mão, mas estais a ver a confusão que dali saiu? Agora beijam a mão, batem no peito, soltam um ou dois palavrões e assoam-se à camisola, amém.

Quer-se dizer. António Maria Santos da Cunha (1911-1972) foi presidente da Câmara de Braga durante doze anos, governador civil do distrito e deputado à Assembleia Nacional. Vinha realmente muito a Fafe e era amigo do Mendes Ribeiro da Fábrica do Ferro e de outros figurões locais da situação fascista. Santos da Cunha tem um monumento na Cidade dos Arcebispos e é o imponente cidadão mais à esquerda, salvo seja, lá em cima no retrato, acompanhando de olhos revirados uma das visitas do ministro Baltazar Rebelo de Sousa aos Bombeiros da nossa terra. O pai do Presidente Marcelo é o segundo a contar da direita, o de óculos. Atrás, há por ali algumas caras da minha meninice que me trazem imensas saudades.
E já agora: a reforma da missa católica aprovada no âmbito do Concílio Vaticano II (1962-1965) foi publicada no dia 5 de Novembro de 1970 e virou o padre para o povo. Hoje em dia não se nota muito, mas foi assim que as coisas se passaram.

Quando eu morrer

Escândalo
Estava muito zangada e enchei-o de nomes, isso é verdade. Chamou-lhe António, José, Fernando, Roberto, Atílio, Alfredo, Tavares, Antunes, Celestino e assim sucessivamente. Toda a gente ouviu.

Quando eu morrer, se for notícia, preocupa-me o que é que o Correio da Manhã me vai chamar. Quer-se dizer. Monstro de Santa Comba, Grávida da Murtosa, Bombeiro de Braga ou Bombeiro Dudu, Rei dos Catalisadores, Predador das Caldas, Violador de Telheiras, Triplo Homicida de Aguiar da Beira, Triplo Homicida de Lisboa, Padre de Ferro, Padre DJ da Póvoa de Varzim, Padre Sexy, Padre Motard, Estripador de Lisboa, Surfista Português, Mata Sete, Mãe Coragem, Pai Herói, Praxista Boémio, Capitão Roby do Minho, Patrão dos Livros, Alegado Espião da Rússia, Pequena Maddie, são tudo nomes porreiros, bem sacados, ninguém diz o contrário. Mas infelizmente já estão tomados.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026