sexta-feira, 3 de abril de 2026

Os amantes

Foi comprar cigarros e não voltou
Era uma esposa exemplar, uma esposa à moda antiga, amantíssima. Todos os dias de manhã ia comprar tabaco para o marido. Um dia ela foi e não voltou.

Sempre gostei da palavra "amantes". Desde pequeno. Mesmo antes de ter noção do valor estremecido que a palavra "amantes" tem no cinema, nos romances, na poesia. Aprendi-a de cor, sem a saber direito. Claro que nesse tempo os amantes eram um senhor numa Florett que se encontrava às escondidas com uma senhora, já fora da vila, e depois iam os dois para uma quelha fazer o que tinha de ser feito, de preferência na furtiva Quelha do Santo Velho, que agora é uma quase avenida, uma muito bem frequentada rua de cafés e escolas. O senhor e a senhora eram casados, mas não reciprocamente. Naquele antigamente não era recomendado e muito menos obrigatório o uso do capacete. Derivado a isso, a senhora às vezes tinha filhos que não eram parecidos com o pai, quero dizer, com o marido ajuramentado.
O senhor da Florett e a senhora malsatisfeita eram "amantes", estavam amantizados, amigados. Andavam metidos um com o outro, isto é, com a outra. Tinham um caso, dir-se-ia hoje, e era um segredo muito mal guardado. Toda a gente da terra sabia. Fafe ainda hoje é uma terra pequena. Cochichava-se, mexericava-se, emprenhava-se também pelos ouvidos. Num misto de recriminação e inveja, os amantizados eram olhados de esguelha, havia quem mudasse de passeio, quem baixasse os olhos, quem deixasse de os salvar. Isto era com as mulheres. Às amantes, a sacristia chamava-lhes pecadoras, adúlteras. Com eles, parecia que havia uma espécie de respeito, de admiração: aos homens, o povo chamava-lhes pinantes, verrumadores, homes do caralho.
Mas o que havia sobretudo era muita dor de... cotovelo.
As mulheres falavam com orgulho no "meu amante" e batiam no peito, nos peitos, com toda a força do corpo, sem vergonha e sem vergonhas, reclamando o que lhes pertencia de direito a troco do que davam com todo o gosto. Os homens faziam de conta. Os cornos não eram os últimos a saber. Se calhar eram os primeiros. Só podia dar para o torto. E dava.

Lembro-me muito bem, de uma vez, exactamente no meu Santo Velho: houve uma espera, pancadaria de rebimba o malho entre mulher legítima e a outra, na disputa por um lingrinhas que se ria como um perdido e era feio como um calhau - outras competências teria. Parecia as festas da vila, eram girândolas de sapatos, brincos e cabelos pelo ar, orelhas esgaçadas, saias arregaçadas, blusas esventradas, recíprocas recomendações de higiene íntima guinchadas, até parecia nos altifalantes do Baptista, com indicações precisas sobre os locais do corpo que careceriam de arejo, mais arranhões e bofetadas, encontrões e apalpões, tropeções e tudo ao molho, tudo a aproveitar, tudo a aplaudir.
Foi mesmo assim, palavra de honra. A amásia deu parte de fraca e deixou-se ficar no chão. Espumava por todos os lados. O rosto passava-lhe do vermelho ao verde, que até parecia um semáforo. Nós em Fafe ainda não sabíamos o que era um semáforo, mas era aquilo. A ofendida batia no ar e falava ao mesmo tempo - "A badalhoca enche-o de gemadas para ele não lhe sair de cima". E, perante a robustez do argumento, à outra deu-lhe o fanico, cheia de vergonha e ranho, esparrando-se ao comprido...
Acorreu o senhor Zé Manco, que tinha um tasco-mercearia, A Primorosa, e era muito jeitoso para dar injecções. Para além disso, o molageiro gostava também de pôr a mãozinha no sopeirame local. "É afastar, faz favor, é dar espaço, para ela respirar", dizia o senhor Zé Manco nos seus domínios, abrindo de vez a blusa da amantizada, baixando-lhe um quase nada o sutiã e expondo um quase tudo de uns seios brancos como a neve, coisa linda de se ver. Depois, uma caneca de água fresca cabeça abaixo da desmaiada, "para a mulher espertar". E a mulher espertou.
E eu fiquei ali a gostar ainda mais da palavra "amantes".

Por essa altura, a extraordinária e breve Janis Joplin berrava desalmadamente por um Mercedes Benz. Eu, na minha equívoca inocência, só pedia muito baixinho a Deus Nosso Senhor que me desse uma Florett. Uma Florett! E, se não fosse abuso, se não fosse pedir demais, que me desse também muitas gemadas, amém.

Anjo da guarda, minha companhia

Para os dois lados
Entre os pupilos do exército e as pupilas do senhor reitor, ele não sabia bem...

Todas as noites. A nossa mãe pegava em nós - na Nanda, no Nelo e em mim - e colocava-nos de joelhos e mãos postas, virados para a parede. Não era castigo, era amor. Na parede do quarto da nossa mãe, por cima da cama de casal, estava pendurada uma daquelas gravuras do anjo da guarda à la menino da lágrima. Rezávamos: "Anjo da guarda, minha companhia, guardai a minha alma de noite e de dia."

(Morávamos na casinha amarela do Santo Velho. O quarto da nossa mãe, logo à entrada, era também a sala, a urgência, o consultório das aflições e desgraças da rua inteira. A minha mãe curava. Eu era então o mais novo e os mimos eram todos para mim. Os mimos que a pobreza honrada permitia. Éramos remediadamente felizes, mas ríamo-nos muito, graças a Deus. Umas senhoras da Granja que trabalhavam no Posto Médico e passavam pelo nosso largo diziam que eu "até a chorar era bonito" - contava-me a minha mãe, cheia de vaidade, fazendo-me festinhas nos caracóis, e eu gostava. Quando a minha mãe se zangava comigo - e eu às vezes, realmente, mijava fora do penico -, dizia-me que eu tinha sido deixado lá em casa pelos ciganos...
Depois nasceu o Lando e acabaram-se-me as mordomias.)

Todas as noites. Após a oração ao anjo da guarda e o sinal da cruz feito "sem aldrabices" por ordem expressa e vigilante da nossa mãe, íamos para o nosso quartinho de duas camas, uma cama para a Nanda e a cama maior para o Nelo e para mim. A nossa mãe deitava-se enfim, exausta e nós não sabíamos, e ligava o rádio na Emissora Nacional. Dava teatro. Dramalhão. Mas tudo dentro dos conformes, pela moral e pelos bons costumes, tudo muito a bem da Nação. Do lado de cá do tabique, eu, o Nelo e a Nanda pedíamos "mais alto". Também queríamos. (Ou)víamos silentes e na maior das comoções, porque aquelas histórias não eram para brincadeiras. Interrompíamos apenas para um que outro pedido de esclarecimento acerca da senhora má e ciumosa que fazia a vida negra ao senhor viúvo e bom que gostava da menina tísica e bela que tomava conta dos quatro filhinhos dele, senhor viúvo e bom, a qual senhora má e ciumosa, todos concordávamos com a nossa mãe, era realmente "uma grande cabra", embora eu não visse nisso grande defeito. Na escola já tinha feito algumas redacções sobre "A cabra" e por isso sabia que a cabra é um animal doméstico e serve, nomeadamente, para a nossa alimentação, que era assim que a coisa se rematava.

O teatro terminava, vinha a ficha técnica - porventura autoria ou adaptação de Alice Ogando ou Odette de Saint-Maurice, certamente as vozes de Jorge Alves, Manuel Lereno, Carmen Dolores, Rui de Carvalho, Eunice Muñoz ou Canto e Castro... nos papéis de -, mas a nossa mãe só desligava depois do "Samuel Dinis ensaiou", que era mesmo o fim, e o rádio dizia "Denis", que ainda era mais mágico. Trocávamos boas-noites dum lado para o outro do tabique. "Agora vamos dormir", mandava a nossa mãe, e nós apertávamo-nos aos cobertores, contentes pela soirée e mortinhos por obedecer, que de manhã havia escola.

Todas as noites. Cinco ou dez minutos passados, a minha mãe dava um toquezinho na parede e perguntava, numa voz de embalar:
- Estais a dormir?
- Eu estou - respondia sempre eu.
- Lindo menino - dizia a minha mãe. E eu adormecia feliz.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Antes que seja crime

Domingo Inteiro
Está em cima da mesa. Passar a chamar Domingo Inteiro ao velho Domingo Gordo, para evitar melindres. Como com o leite.

Reuniram-se em segredo - disfarçados, desconfiados, culpados e urgentes. Uma candeia sigilosa e tremelicante alumiava resumidamente o silêncio. Clandestinos no fim do tempo, sentaram-se à volta de uma generosa vitela assada à moda de Fafe. Antes que seja crime.

Jesus Cristo morreu em Fafe

A última ceia
Português, desempregado, 45 anos de idade. Quando finalmente conseguiu um "part-time" como homem-sanduíche, chegou a casa e deu-se de comer aos filhos.

As coisas em que a gente acredita quando é miúdo! Eu, por exemplo, acreditava piamente que o Menino Jesus era português, nosso - morra já aqui se estou a mentir. Eu ia à missa, ajudava à missa, ouvia com gosto aqueles bocadinhos de Bíblia cheios de aventuras e fazia a conexão que se impunha: se Nossa Senhora é de Antime, se São José é no Lombo, se os pastorinhos são de Fátima e a Samaritana é de Coimbra, se o Moisés é de Fafe e o Abraão também, se o João Baptista tem altifalantes e faz funerais, se os apóstolos são todos portugueses, sobretudo pescadores da Póvoa e Matosinhos, é só ver os nomes - João e Tiago, filhos de Zebedeu, Pedro, André, Filipe, Mateus, Tomé, Bartolomeu e por aí fora, nomes assim podiam ter jogado no Varzim ou no Leixões -, se o Jordão é em Guimarães e o Calvário é à beira do posto da Polícia de Viação e Trânsito e do Hotel, se a Avenida de Roma é em Lisboa, se Nazaré e Belém são obviamente em Portugal, se Damasco é alperce, se até o Espírito Santo somos nós que o pagamos, então o Menino Jesus também é daqui, aqui nasceu e cresceu, por aqui andou, faleceu e ressuscitou, também é português, um de nós. Deus é nosso. Se Deus quiser, até joga pela Selecção. Era o que eu pensava. Já grande, e após alguns anos de desengano e reeducação religiosa no seminário, passei a olhar com um certo carinho e determinada melancolia para esta minha crença infantil e patriótica. Depois veio Cavaco Silva, em 2006, e eu, após profunda reflexão, deixei finalmente de acreditar, regra geral. Dediquei-me à exegese, à hermenêutica, à toponímia, à topogígia, à geografia e à natação sincronizada sob chuveiro, sem ofensa para os presentes e apenas aos terceiros sábados de cada mês, de três em três meses, dez minutos antes de me deitar. E felizmente não é hoje.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Quando Ben-Hur foi impedido de entrar no presépio

A conversão do penálti
Foi uma conversão muito difícil, um processo doloroso e demorado. Perceba-se: era um penálti ateu desde pequenino, e burro velho não toma andadura. Mas, pronto, vai ser baptizado no próximo domingo, logo após a missa das sete.

Ben-Hur queria entrar no presépio. Chamou o grupinho do costume - Spartacus, Maximus, Maciste, Hércules, Sansão, Demétrio, Ursus, Nuno Salvação Barreto, o Homem Mais Forte do Mundo e o Custódio Ardegão, que isto era em Fafe, e não fosse a coisa dar para o torto. E lá foram. O Pescador do Laguinho, que sabia kung fu e era segurança de discoteca em part-time, para além de fazer de figurante na cascata de São Pedo do Bairro da Granja, impediu-lhes terminantemente o acesso: - Noite temática, meus senhores, hoje é só anjos, pastores e reis magos. Ordens de cima. Apareçam pela Páscoa...

Era o dia dos enganos

Sinceramente
"Mente-me, que eu gosto", disse ela. "Por isso é que te amo tanto", disse ele.

Quase que passa despercebido, mas 1 de Abril ainda é Dia dos Enganos, como antigamente se chamava em Fafe ao Dia das Mentiras. Com isto da política e da guerra, das redes sociais, do jornalismo de telemóvel, a mentira foi sorrateiramente metida a cotio, normalizada, e agora todos os dias são dia das mentiras, embora se chamem fake news, para não darem muito nas vistas. Resultado: com tanta mentira e tanto mentiroso, quase nem damos fé da velhinha efeméride residente do primeiro de Abril. Mas quereis saber?
Fafe daquele tempo celebrava entusiasticamente datas assim importantes para a sociedade em geral, como, por exemplo, o Dia dos Enganos. Datas patrióticas e etnográficas, civilizacionais. Havia respeito pela História e pela tradição. Brincavam-se brincadeiras educativas, nacionalistas e saudáveis, muito bem aprendidas, éramos a mocidade que passa.
Pregavam-se partidas tão engraçadas! No Dia dos Enganos saíamos para a rua, ali no nosso Santo Velho, estrategicamente colocados entre os tascos do Paredes e do Zé Manco, e dizíamos a quem passava:
- Ó senhor, olhe o que lhe caiu!...
E o senhor, que podia muito bem ser uma senhora, mas geralmente era um moço ou uma rapariga mais ou menos da nossa idade, o senhor respondia, rimando:
- Foi um peido que me fugiu...
Quer-se dizer: olhe o que lhe caiu - foi um peido que me fugiu. Estais a ver a piada? Estais a ver o sainete? Aquilo é que era, antigamente! Era assim todos os anos, à esquina, que bem que passávamos o Dia dos Enganos! Era de rir. Ríamo-nos muito com divertimentos assim jeitosos ali no nosso cantinho, para que é que precisávamos de brinquedos a sério e de mundo?
Para além disso, tínhamos a velha nota de vinte escudos largada no passeio como que perdida e presa por uma invisível sediela que, escondidos, puxávamos repentinamente e às prestações mal algum transeunte ensaiava o gesto para apanhá-la, em frente à porta envidraçada do novíssimo Café Chinês. Ele a baixar-se e a nota a fugir-lhe à frente dos pés, parava a nota, e ele a baixar-se outra vez e ela a fugir-lhe outra vez, aos saltinhos, como se fosse viva, e outra vez, e outra vez, como num filme do Charlot ou do Pamplinas mas ao vivo e a cores. Ai, era realmente uma risota! Claro que também era um risco: os vinte paus deviam ser devolvidos a casa, de onde alguém os desencaminhara sorrateiramente, e às vezes nunca se sabe. Era a nota mais pequena, vinte escudos, muito dinheiro para quem não tinha nada. Vinte escudos desaparecidos, perdidos, era como hoje um desfalque de milhões. Vinte escudos davam para muito pão, e o pão era importante. Havia fome e a pobreza morava com a gente.
Ah, o Dia dos Enganos! Era tão bonito! Agora é todos os dias, e já ninguém liga.

terça-feira, 31 de março de 2026

O sexo e outras modernices

Uma questão de compasso
- "Une valse à mille temps..." - disse ela, prometedora e coquete, fazendo rodar a saia plissada. - Eu não! - disse ele, apressado e javardo, arriando calças e cuecas...

"Isto agora é só sexo! Que vergonha! Que nojo!", resmungou a velha senhora, sem mais nem menos, ou como quem simplesmente dá os bons-dias. Era deveras uma senhora vetusta, recatadamente vestida e calçada, mas com aprumo, assim a modos de irmã da caridade à paisana. O cabelo curto, arcaico, pretíssimo como só ao alcance do Restaurador Olex, as mãos cansadas e a voz decidida. "Isto agora é só sexo! Que vergonha! Que nojo!", foi o que ela disse e redisse, num veemente protesto saído do nada, acrescentando em tom menor, enquanto tentava abrir o porta-moedas: - Quanto é?...
Estávamos na padaria, com efeito. Ao balcão. Para além do desabafo, bem ensaiado, a velha senhora também queria pagar os dois bijus que já guardara na saca de pano com bordados de Viana. Atrás, na fila para a máquina registadora, uma senhora um bocado menos idosa e aparentemente mais arejada deu ideia de não ter gostado muito daquilo do "Isto agora" e retrucou, numa censura mansa:
- É por isso que no tempo da senhora as raparigas solteiras não apareciam grávidas sem se saber de quem...
- Mas eu nunca! Sabe quantos anos tenho? No-ven-ta! Noventa anos, e eu nunca!... - explodiu teatralmente a velha senhora, que encontrara enfim o que de facto viera buscar: uma discussão. Para isso saíra de casa.
- A senhora não, mas outras sim... - devolveu-lhe a senhora um bocado menos idosa.
- Não se compara! - atirou a velha senhora. - Agora não querem outra coisa, ainda ontem, ali na esquina do Cinema, um rapaz e uma rapariga naquilo, aos beijos e abraços, sempre naquilo, a fazerem sexo, pareciam cães, e a televisão é só sexo, sexo, sexo, de manhã à noite e pela noite dentro, sexo, sexo, sexo, que eu bem vejo... - e de repente ia-lhe faltando o ar, coitadinha, ou então o chilique também fazia parte.
Acudiu-lhe a senhora um bocado menos idosa:
- Olhe, minha senhora, faça como eu, não veja televisão. Na verdade, algumas notícias metem mesmo nojo. E com isto da pedofilia, dos abusos dos padres, dos bispos que esconderam tudo, até já nem sei se meta a minha netinha na catequese...
- Meta, meta! - mandou a velha senhora, voz da vida e da experiência, saudosa do respeito de antanho. - Isso não faz mal nenhum... - explicou. - Isso dos padres é uma coisa muito antiga. Eu era pequena, ao tempo que isso vai, e o nosso padre já andava metido com a minha catequista. Com ela e com outras, que ele levava tudo a eito. Mas não faz mal...