quinta-feira, 6 de agosto de 2026

A moda ou a modinha

A moda pode ser fatal
Os andarilhos para velhos estão na moda. E as bicicletas, para outro tipo de clientela. Os andarilhos, as bicicletas e as trotinetas. As cenas de pancadaria, facadas, tiros e mortes entre jovens bandidos, por nada ou por quase nada, também. Sobretudo facadas. A malta nova anda agora toda por aí com naifas, como quem usa boné ou sapatilhas de marca. É. As televisões de faca e alguidar tratam da propaganda, montam o espectáculo, ensinam como se faz. A moda tem muito que se lhe diga. E pode ser fatal.

Aquele restinho de caldo que se deixava no fundo da malga, a que se juntava broa migada e, amiúde, uma pinga de vinho tinto, e que sabia tão bem no fim da refeição, como se fosse um acrescento de fartura no tempo da fome, era a "moda" ou a "modinha". E se o caldo fosse de nabos, então é que era em cheio. Dicionários e enciclopédias chamam-lhe "moado", substantivo masculino apresentado como regionalismo de origem incerta. Acredito que sim, mas em Fafe não. Em Fafe, era a "moda". Ou "modinha", como melhor se dizia no nosso carinhoso falar antigo.

Querem é sexo

Raros prazeres da velhice
Acordou com uma magnífica erecção. Magnífica não porque exuberante, mas apenas porque erecção.

Sou muito procurado por causa de sexo. É verdade: centenas de visitantes dos meu blogues - Tarrenego!, Fafismos e Mistérios de Fafe - entram aqui pela primeira vez porque pesquisam na Net palavras-chave tão atesoadas e cheias de segundas intenções como "belas e perigosas", "foder no parque", "a bela foda", "o bitó tinha uma gaita", "mamas", "amantes", "portuguesas malucas", "portuguesas perigosas", "comendo a tia safadinha", palavra de honra, "putas", "prostitutas", "sexo" ou... "padres de Viana do Castelo". Ou então esgotam-me os 69 de todas a minhas séries: Vida de cão 69, Estou mesmo a ver o filme 69, Também faço isto muito bem 69, I want to ride my bicycle 69 e assim sucessivamente. Ou então procuram "de puta madre", como se, pequeninos e freudianos, se tivessem perdido da progenitora bêbada na Senhora das Neves da Lagoa. Depois, perante o que encontram, levam com um balde de água fria no focinho, vão-se abaixo e certamente nunca mais cá voltam. Compreendo-os.

Há outros leitores, igualmente solitários e amantes dos trabalhos manuais, porém de hábitos um pouco mais arejados e produtivos (a jardinagem ou a culinária, por exemplo), que contactam comigo através de senhas como "Alberto João", "o seringador", "arroz de polvo carolino ou agulha", "esquerda caviar", "onde comer sardinhas", "Anthony Bourdain", "ah faneca!", "tomates" e "moelas de coelho". Sobretudo "moelas de coelho". Percebo também que fiquem desconsolados com o que tenho para lhes dar e não posso levar a mal o raspanete que achem por bem, embora eu não lhes faça caso. Já agora: para o polvo, arroz carolino. Foda é o cordeiro assado no forno em Monção. E é claro que os coelhos não têm moelas, mas o meu amigo Peixoto, em Fafe, cozinhava-as muito bem.
Quase que só sobram então os americanos, os russos e os alemães, que são sempre os primeiros a chegar e, honra lhes seja, não me largam. E é muito fácil mantê-los interessados. Basta-me meter um texto qualquer com uma ou mais destas inocentes palavras: "terrorismo", "EUA", "Putin", "Trump", outro que o que quer é sexo, "Obama", "Biden", "Saddam Hussein", "Al-Qaeda", "Estado Islâmico", "Israel", "Afeganistão", "Irão", ainda que do verbo ir, "Merkel", "Papa", "armas" ou "Bomba", ainda que seja o nome da nossa família, o meu ou o do meu avô, e meia dúzia de segundos depois já cá estão eles a bater-me à porta. É automático.
O que eles querem, sei eu. No fundo, anda tudo ao mesmo: querem sexo, como os das "mamas" e das "prostitutas". Querem ver se me fodem, com licença da palavra. Mas também vêm ao engano.

(E depois há os casos que podem ser sérios. Como ainda aqui atrasado, quando alguém cai no Tarrenego! com a terrível conjugação de palavras-chave "quero denunciar o meu pai que me maltrata". Peço desculpa pela inadvertida pista falsa e espero sinceramente que quem estava aflito, se assim era, tenha encontrado noutro sítio, nos sítios certos, que os há, a ajuda de que precisava.)

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Por una cabeza

Cavalinho da chuva
Mandaram-no tirar o cavalinho da chuva, e ele tirou. E no entanto estava um rico dia de sol.

"Por una cabeza" é talvez o velho tango mais conhecido dos tempos modernos. A sua versão instrumental é tocada a torto e a direito nas séries de televisão e no cinema, não só pela sua indiscutível beleza e porque entretanto caducaram os respectivos direitos autorais, mas sobretudo depois de ter sido utilizada com o sucesso que se viu no filme "Perfume de Mulher", de 1992, que valeu a Al Pacino o Óscar de melhor actor. Eu trago-o no ouvido desde o tempo do Belinho e do seu acordeão, no palco do salão dos Bombeiros de Fafe, lá pelas décadas de 60 e 70 do século passado. A autoria deste tango é muitas vezes erradamente atribuída a Astor Piazzolla, o mestre do bandoneon. Na verdade, o tango "Por una cabeza" foi composto em 1935 com música de Carlos Gardel, o mais famoso dos cantores de tango da história, e letra de Aldredo Le Pera.

Perfume de mulher

E foi lavar-se
A velha prostituta, muito limpa e organizada, consultou a agenda, meia dúzia de linhas encriptadas em gatafunhos analfabetos, e leu baixinho, como que soletrando, acariciando as impossíveis sílabas uma a uma: - O do talho às onze, o taxista ao meio-dia, o padre às três e o senhorio às cinco. Desarriscou-os a todos, um atrás do outro, meticulosamente, com gosto, sorriu para o espelho do toucador, provocando-se, e resolveu tirar o dia. Guardou a agenda e pegou no telemóvel, vagarosamente, com requebros e biquinhos, imitando um gesto coquete que vira uma vez na televisão. Marcou encontro com a Amélia Calçuda. O espelho corou. E ela foi lavar-se.

Na minha infância e princípios da juventude lidei muito com padres. E os padres cheiravam. Isto é, tinham ou emanavam um certo e determinado cheiro. Não como o extraordinário Padre Clementino ou o Secónego, casos particulares, que cheiravam naturalmente a mofo, mas outro cheiro, doce, aperfumado, que também não era incenso nem ares de santidade ou sacristia. Cheiravam não sabia bem a quê. Aquilo intrigava-me, ainda por cima porque eu nem fazia ideia de que havia perfumes para homens, quanto mais para padres!
Que se segue. Na vasta sabedoria dos meus dez-onze anos, resolvi então que aquilo de os padres cheirarem a perfume era para disfarçar o cheiro a tabaco, como, por exemplo, o nosso senhor abade. Os padres não queriam que o povo soubesse do cigarrito às escondidas. Bem visto! Porque, naquele tempo, fumar era um pecado muito grande, praticamente ao nível do pecado da sagrada masturbação.
E nisso fui acreditando, bem-aventurados os néscios, até que um dia, espigadote e epifanado, finalmente percebi: aquilo do perfume dos padres era mas é cheiro a mulher, cheiro de convívio íntimo com mulher. E, nesse caso, Deus os abençoe...

Os convencidos da vida

Espelho meu
Ele era careca, completamente careca. Careca e vaidoso. Aliás, penteava-se de risca ao meio.

O problema dos ex-colegas. Sim, a chatice dos ex-colegas. Para um gajo a caminho dos setenta, embora em estado de praticamente novo, a questão dos ex-colegas é um aborrecimento quase tão grande como os calhamaços do José Rodrigues dos Santos se por acaso eu os lesse. Uma aflição. Os ex-colegas são uma pedra no sapato, e é por isso que há muitos anos só calço botas ou sapatilhas. Imaginai-me: com ex-colegas da minha rua e da escola primária, os melhores de todos, com ex-colegas do seminário, já lá irei, com ex-colegas do liceu que foram para doutores e foi um ar que se lhes deu, com ex-colegas dos Comandos que acham que são muito audazes e eu realmente não sou, com ex-colegas da fábrica de quem tenho tantas saudades, com ex-colegas dos jornais e da rádio que têm lá as suas vidas, vejo-me à rasca para os aturar a todos, mesmo quando eles não querem saber de mim, o que é regra geral. E quando querem saber de mim, então ainda é pior. O caso do seminário, e eu disse que vinha cá, é absolutamente paradigmático. Para quê? Digmático. Ninguém me mandou para o seminário, fui porque quis, porque queria ser padre, e às vezes ainda quero. A minha mulher sabe disso, desta minha impenitente inclinação, e, mais, somos felizes. No ano em que lá cheguei, ao seminário, éramos 136 crianças, eu tinha 11 anos e havia um documento de acção psicológica (isto anda tudo ligado) que rezava assim: "Começar é fácil. Recomeçar é de muitos. Chegar ao fim é de heróis. Nesta marcha ascensional é nosso dever caminhar! A empresa é difícil, mas fascinante O Ideal!"...
E há criaturas que acreditam nisto, os supra-sumos que chegaram ao "O Ideal!" e que, portanto, só podem imaginar que são os maiores, os "heróis". Se tivessem ido para os Comandos, esses supra-sumos, sumos sacerdotes, andariam agora por aí de boina vermelha e crachá, eventualmente de G3 a tiracolo se os deixassem, e, em vez de melancólicos ego te absolvo, diriam esfuziantes mama sumae! Estes rapazes tiveram os melhores mestres do mundo, o padre Fonseca e o padre João Aguiar, para não irmos mais longe, e afinal não aprenderam nada com eles, não perceberam nada da vida. Não percebem nada da vida.
Eu explico. Reencontrei-me ultimamente com ex-colegas do seminário que deram em padres. E até gostei, a princípio. Há aquela festa propedêutica, "ó pá, há que tempos, és mesmo tu, estás mais gordo, estás mais magro, está igualzinho, dá aí um abraço...", como pessoas normais, e depois os meus ex-colegas enfiam no cu um daqueles feijõezinhos milagrosos que lhes dão aquela voz sacrista e falseta, e, magníficos, condescendentes e compassivos, com a superioridade moral dos eleitos, dos exclusivos de Deus, perguntam sempre lá do alto, como se estivessem secretamente combinados uns com os outros, "e então, o que é que tens feito?"...
Fico atrapalhado. O que é que eu tenho feito? Começo a suar, a gaguejar, não sei o que hei-de dizer em minha defesa. Afinal estou perante um dos que chegaram ao topo do Kilimanjaro e eu nem sequer passei do sopé do Bom Jesus do Monte, onde o Secónego tinha uma casa. Conto o melhor que consigo: "ó pá, tenho sido sobretudo jornalista mas também trabalhei numa fábrica, sou casado há mais de quarenta anos, sempre com a mesma mulher, o que é censurável no meu ofício, porém continuo apaixonado, tenho um filho que é uma jóia e o meu maior orgulho, temos a casa e o carro pagos, damos umas voltinhas para arejar, eu não sei conduzir mas cozinho muito bem, tenho quatro amigos, pendurei a carreira profissional para tomar conta primeiro do meu sogro e depois da minha sogra, e não me lembro se já disse que sou jornalista"...
Mas não chega. Eu sei que não chega! E continuo aflito, gago e suado, mortinho por desaparecer por mim abaixo. Eu até acho que a classe dos ex-colegas está muito sobrevalorizada. Parece-me que a maioria das pessoas passa distraidamente ao lado do negativismo, da carga pejorativa que a própria expressão em si encerra. Ex-colega, ex-colegas. Se, por analogia, as pessoas pensarem no que pensam quando pensam em ex-amigo, em ex-amigos, em ex-mulher ou ex-mulheres, certamente compreenderão o que eu quero dizer. Mas não adianta. Isso não me salva. Os ex-colegas aparecem-me, realizadíssimos da vida, e eu, que sei que sou a desgraça que sou, a mediocridade em pessoa, encho-me de vergonha, só me apetece fugir...
Que raiva! Porque é que os nossos ex-colegas, mesmo os que não conhecemos de lado nenhum, estão todos melhor de vida do que nós? Tenho um desgosto muito grande.

Ou por outra, tinha. Porque aqui atrasado fui a Fafe a um funeral e mudei de táctica. Fui a Fafe, dizia, e esbarrei com um dos meus que deu em padre e que, ainda por cima, estava encarregado do serviço fúnebre. Conversámos na sacristia da Igreja Matriz, intermediados pelo meu sobrinho Geno, que me saiu um tipo bem porreiro. Como de costume, inquirido sacramentalmente, pelo ex-colega, "e então, o que é que tens feito?", confessei na mesma o "ó pá..." do parágrafo ali de cima, o "ó pá..." completo, porque tenho este defeito de informar, deformação decerto profissional, mas depois acrescentei, perguntando-lhe também, para livração da minha alma:
- E tu? Não fazes nada, não é? Quer-se dizer, nunca fizeste nada, pois não? És padre...

P.S. - Em todo o caso e nos tempos que correm, com o que vai aí de pedofilia e outros abusos eclesiásticos: como diria a minha mãe, que é sábia mas também queria um filho padre, "mais vale não fazer nada do que fazer asneiras"...

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Os Bítalas

Cabeças brilhantes
Ele tinha ideias. Abriu um cabeleireiro para carecas. Lavava, encerava e puxava o lustro.

Os Bítalas eram um conjunto musical e cantavam obladi obladá. Eram quatro, sendo que o do bombo tinha cara de morcão, e chamavam-se Bítalas exactamente por terem cabelo grande, mas que afinal não era assim tão grande, como os hippies vieram posteriormente a demonstrar - era apenas um cabelinho amaricado, aparadinho, muito anos vinte, muito tipo Beatriz Costa. Bítalas em português diz-se Guedelhudos. Os Bítalas eram ingleses de Liverpool e do mundo. Em Fafe, no tempo em que imperava o corte à tigela (ou malga, se fosse mesmo à nossa moda), como actualmente outra vez, quem tivesse o cabelo a roçar as orelhas era Bítala e malvisto. Nas mãos do barbeiro Pimenta do seminário menor de Braga, os Bítalas depressa deixavam de sê-lo. Eu fui, mas cantava num orfeão de manifesto pendor sacrista e por isso passei ao lado de uma grande carreira.

Ao menino e ao bolacho

O predestinado
O seu aniversário calhava todos os anos no mesmo dia do mesmo mês. Ele achava que era um bom augúrio.

A bolacha maria, torrada ou não, apareceu tarde na minha vida. Bolacha era luxo que não entrava lá em casa, e o mais parecido que a nossa mãe nos dava em pequenos era broa ou biju, e o biju já era um mimo. O caso só mudou de figura quando nasceu o nosso Lando. O Orlando é o mais novo de quatro irmãos, decerto por isso teve direito a mordomias de cuja existência os três anteriores nem sequer suspeitávamos, e as bolachas vieram com ele.
Entre outras alcavalas, o Landinho até fazia anos, coisa extraordinária, enquanto a nós só nos era permitido ficarmos mais velhos, somarmos dias, que remédio e a seco. Ao menino, a nossa mãe organizava-lhe uma festinha de aniversário, havia convidadozinhos, e do pequeno lanche constavam, só me lembro disso, umas curiosas sandes de bolacha maria com marmelada dentro, tipo oreos mas melhores e de fabrico caseiro. Eu, já espigadote, metia a mão sorrateira e rápida à passagem pela mesa, e foi assim que ficámos a conhecer-nos pessoalmente, eu e elas. As bolachas. Que estavam contadas, para mal dos meus pecados...
Mas não era de bolachas que eu queria aqui falar. É de bolachos. E o bolacho, faço deste já notar, é pitéu absolutamente indispensável, muito mais do que mero ornamento, nuns rojões à moda do Minho que se pretendam com todos os matadores. O bolacho é, versão curta e grossa, uma espécie de pão cilíndrico feito com farinhas de trigo, milho e centeio, a que se junta sangue de porco, fermento, caldo de carne, pimenta e cominhos. Depois de levedada, a massa é cozida em água temperada com sal, salsa, folha de laranjeira e louro. Cumprida a cozedura, o bolacho é cortado em rodelas e frito em pingue. O bolacho pode também chamar-se farinhato, pilouco, bica e, principalmente, beloura.
Mas também não era deste bolacho que eu queria aqui falar. É do bolacho de trigo. Do pão de cantos. Do pão de quatro cantos. Do trigo de Ovelhinha. Do pão de Padronelo. Desse. Esse fantástico pão, duro como cornos, que era vendido porta a porta em Fafe por umas senhoras que, dizia-se, vinham de Amarante. As abençoadas senhoras traziam enormes cestas à cabeça e dentro das cestas, carinhosamente envolto em toalhas de linho, o precioso pão. No dia da feira, às quartas, por Cima da Arcada, diversos tipos de pão regional, incluindo o infalível bolacho, eram vendidos também por um senhor que vestia um avental de peito, comprido até aos pés, impecável de branco e de limpeza. O bolacho, um pão de longa duração que a minha querida avó de Basto guardava com todos os cuidados e também toalhas de linho na caixa de madeira que era o cofre e o frigorífico das coisas valiosas e boas numa terra por onde Jesus Cristo ainda não tinha passado e portanto não havia electricidade. Assim acondicionado, o pão aguentava-se bem uma semana ou mais e só era comido com o matinal café, que era cevada, aos domingos, feriados e dias santos. De resto, broa, que era o pãozinho do Senhor.
Leio agora que o bolacho é de Ovelhinha porque teve a sua origem no lugar com aquele nome, Ovelhinha, na freguesia de Gondar, Amarante. E de Padronelo porque decerto será sobretudo nesta outra freguesia amarantina, Padronelo, que hoje em dia ele é produzido e comercializado. Quanto a bolacho, assim dito, é-o não sei porquê.