Os dias sem futuro
Chega-se a uma idade em que os dias são todos iguais. Ou quase todos os dias são quase todos iguais. Quer-se dizer: Poirot de segunda a sexta e Columbo ao sábado e domingo. É a vida.
O admirável Quim Barreiros cantava, agarrado ao seu acordeão. Era a história simples, exemplar, da mulher que entrou no comboio sem bilhete nem dinheiro e que teve de ir "dar ao apito" com o revisor para se safar da multa. Enquanto o Quim cantava, e como não havia universitários bêbados nas redondezas, alguém pôs um grupo de crianças a fazer um comboiinho que passava e repassava em fundo. Eram crianças de infantário, de creche, de jardim-de-infância, de pré-primária, não sei como é que se diz agora. Pequeninas, isso eram. E serviam de cenário e figurantes à cantiga do Quim, "pó, pó, pó, o cumboio vai andar, pó, pó, pó, e vai sempre a apitar, pó, pó, pó, eu já lhe tinha dito que para andar no cumboio tinha que dar ao apito".
Foi há quase quinze anos, lembro-me bem, na Curia. Deu na televisão em directo, para o País e mundo inteiro. Foi no programa Verão Total, da manhã da RTP1, com os competentes e estimáveis Sónia Araújo e Jorge Gabriel. Foi há quase quinze anos e até hoje nada. Parece que só eu é que vi. Se calhar as audiências andavam certas.