quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Diálogos fafenses 5

O dentolas
- Saíste-me cá um mentiroso!...
- Minto com quantos dentes tenho.
- E são assim tantos?...

A minha alegre Carrinha

Foto Tarrenego!
 
Parque natural
Era um parque natural. Um excelente parque natural, diga-se em abono da verdade. Descampado, chão de terra, pedra e erva, e nem precisou de obras. Cabiam ali, bem à vontade, para cima de cem carros. Era um parque natural.

O senhor de óculos e sem boné é Baltazar Rebelo de Sousa, ministro do outro tempo, destacado colaborador de Oliveira Salazar e Marcelo Caetano, pai de Marcelo Rebelo de Sousa e grande amigo de Fafe. Vinha à nossa terra muitas vezes e nunca de mãos vazias. A fotografia conta uma das suas visitas aos Bombeiros, e à direita, impecavelmente fardado de gala, está o carismático e severo comandante Luís Mário, pai do comandante Armindo, querido amigo que era pelo Vitória de Guimarães e fazia questão de explicar que "no andebol não há penáltis, são livres de 7 metros".
Nenhum deles, porém, interessa para o meu assunto. Eu quero é falar do carro que domina a cena. Uma velha Austin, refugo inglês da Segunda Guerra Mundial, tal qual os pesados capacetes pretos para incêndios, os cintos com machadinha, mosquetão, sarilho e tudo, um pesadelo, e os blusões e capotes de serviço, iguais aos dos soldados ingleses e americanos nos filmes. Foi material que deu jeito, que cumpriu por muitos e bons anos. Menos, se não me engano, as sinistras máscaras antigás, cirurgicamente adaptadas, isto é, pintadas de vermelho, e que só serviam para as minhas brincadeiras de miúdo e ficavam muito bem a ganhar pó em cima dos armários.
O carro tinha nome, chamava-se Carrinha e, de acordo com o "MG" da matrícula, ainda deverá ter passado pelas mãos do Exército português antes de chegar a Fafe, orgulhosamente de volante à direita e "piscas" de puxar por um cordel, como o coiso do fradinho das Caldas. Tinha também manias e birras, provavelmente derivado à idade, e constava que só o Casimiro das Caixas lhe conhecia as neuras e sabia fazer-lhe as vontades todas. O Casimirinho era, para além de intrépido praticante de palavras cruzadas, o nosso especialista em Carrinha.
A Carrinha apareceu na minha vida já completamente coberta por uma chapa ondulada em forma de U invertido e com uma grossa lona e correias de cabedal para fechar atrás. E foi o meu primeiro e único carro. Quer-se dizer: o carro não era meu, nunca foi meu, nunca o levei para casa nem dormi com ele, mas a verdade é que nunca conduzi mais nenhum. E conduzir talvez também não seja o verbo adequado ao caso, portanto passo a explicar:
Mal dei fé que chegava aos pedais, o que eu fazia era ligar o motor e solavancar as mudanças até que uma delas, uma qualquer, pusesse o carro a andar. Às vezes calhava para a frente, outras vezes calhava para trás. Viajava imensos dois, três metros, e invertia a operação, sem curvas, novamente com a alavanca à sorte, voltava ao exacto centímetro de partida e depois desaparecia dali a todo o gás, antes que alguém me descobrisse o sítio das orelhas e me enfiasse dois ou três bofardos à traição. Esta parte era muito importante.
Uma vez o quartel da Rua José Cardoso Vieira de Castro entrou em obras, crescendo para a frente, e os carros dos Bombeiros mudaram-se provisoriamente para uma garagem muito grande do "benfeitor" José Freitas Nogueira, bastava dobrar a esquina, no encontro da Rua Monsenhor Vieira de Castro com a Rua Dr. José Summavielle Soares, quase em frente ao campo de futebol. Seria mais ou menos por onde depois se estabeleceu a oficina do Evaristo e onde agora se resfatela a grande superfície do Aldi, paz à alma do comércio tradicional. Era um enorme portão verde e tinha lá dentro, assim que se entrava, uma rampa muito jeitosa para as minhas habilidades. Sobretudo ao baixo. Melhor ainda: ali o meu avô não ouvia as coças que eu dava na desgraçada caixa de velocidades da pobre Carrinha, gemente e ganinte por todos os lados. Bons tempos...
Dei também as minhas voltas no carro de bois do Sr. José do Santo e, com expressa licença da minha mãe, na carroça do Moniz Azeiteiro. "Os azeites do Moniz são os melhores do País", dizia na retaguarda do veículo, e nunca vi que fosse desmentido. A carroça do Moniz era puxada a cavalo, mas, francamente, nem o carro nem a carroça se comparavam à Carrinha. Não me enchiam as medidas. Nem sequer os carrinhos de choque, de que fui, não é para me gabar, prestigiado ainda que bissexto executante. Não. Nada. A Carrinha foi o meu primeiro e único carro. Como no amor. Nunca mais quis outro.

Resumindo e concluindo: eu não tenho carta de condução, não sei conduzir e não tenho carro. E faço questão de elencar estas três fundamentais asserções, porque elas, as asserções, parecendo sinónimas e redundantes, não o são, não o são. Não o são. Na verdade, há quem não tenha carta de condução, saiba conduzir e não tenha carro; há quem não tenha carta de condução, saiba conduzir e tenha carro; há quem tenha carta de condução, não saiba conduzir e não tenha carro; há quem tenha carta de condução, saiba conduzir e não tenha carro; e até há quem tenha carta de condução, saiba conduzir e tenha carro - o que é uma raríssima coincidência. O mais certo é eu não ter esgotado todas as variáveis possíveis, mas desconfio que já percebestes o meu ponto de vista. Portanto, resumindo e concluindo este resumindo e concluindo: não tenho carta de condução, não sei conduzir e não tenho carro. Tive a Carrinha.

Dá Deus dentes... e é uma chatice

Oh, my dicky ticker!
Eu tinha um cardiologista por acaso porreirinho e visitava-o de quatro em quatro meses. A pagar. Falávamos de jornais, de jornalistas, de política, de bons restaurantes secretos e fora de mão e sobretudo do FC Porto, que nos interessava a ambos. Acto médico é que nada, mas no intervalo medíamos a tensão, o que é extraordinário! Deixei. Deixei também o urologista, os toques rectais não me seduzem, e fiquei-me somente com o dentista, que me sevicia de meio em meio ano, fora os inopinados, como por exemplo agora mesmo que ando arreliado das gengivas e vou ao castigo de dois em dois meses, lá se me vai o pé-de-meia. É a crise, é a vida. Um destes dias morro de repente, do coração, mas com uma boca que é uma categoria, e ainda vão dizer que foi por por causa de eu ter deixado de falar de jornais, de jornalistas, de política, de bons restaurantes secretos e fora de mão e sobretudo do FC Porto com o meu ex-cardiologista.

Cheguei muito tarde ao dentista. Logo eu que tomo horas para tudo, cheguei tarde ao dentista. Quero dizer: já passava dos quarenta. Evidentemente não sou exemplo para ninguém, também neste departamento da vida, mas a verdade é que, apesar de tantos anos de aparente desmazelo odontológico, eu tinha uma cremalheira que era um mimo - foi o que me disse o doutor, muito admirado e elogioso, quando lhe arreganhei a tacha pela primeira vez. Palavras para quê? Eu usava Pasta Medicinal Couto. Os meus problemas com os dentes começaram, portanto, quando fui ao dentista.
E estreei-me em grande, numa célebre extracção de um siso, que, não é para me gabar, correu que foi uma desgraça. O dente estava muito apegado a mim, eram décadas de convívio e recusava-se a sair, compreendo-o. Anestesia atrás de anestesia, o dentista escarafunchava e escarafunchava, puxava e puxava, pedia desculpa, que nunca tinha acontecido, inventava alavancas que não alavancavam nada, fazia o pino, o quatro e o oito, trinta por uma linha, tentou o flique-flaque à retaguarda e o mergulho empranchado de braços abertos, escarafunchava e puxava, o homem suava copiosamente e eu sem guarda-chuva nem limpa pára-brisas, parava para se desfazer das cambras, ralhava com as afogueadas assistentes que pareciam baratas tontas, pedia outra vez desculpa, que nunca tinha acontecido, e elas, quase em lágrimas e em coro: nunca tinha acontecido, mandou vir um escadote, a escada Magirus dos Bombeiros, uma marreta da obra em frente, o fogueteiro de Arões, o grupo de zés-pereiras de Regadas e um velho bombista do Verão Quente de 1975, por esta exacta ordem, escarafunchava e escarafunchava, puxava e puxava, desculpe, nunca tinha acontecido, e nada. Que daqui não saio, daqui ninguém me tira, insistia o filho da puta do dente, agarrado à gengiva como uma lapa, e já me estava a meter nervos.
Eu era uma poça de sangue. A minha boca era já duas, derivado ao escarrapacho forçado. Tinha a boca pior que o chapéu de um pobre - e foi ali que eu percebi na carne o significado da infeliz expressão. Se eu pudesse falar, gritaria: "chama-me um carro!", como se dizia em Fafe, mas eu não podia falar, porque não sentia a boca e isso até era do mal o menos.

(Por outro lado, o dentista passa muito bem sem a nossa opinião. Já reparastes que o dentista só faz perguntas depois de nos atafulhar a boca com metade dos móveis do consultório e a mangueira do jardim? Respondemos como? Só se for pelo nariz, mas isso é número arriscado e praticável apenas em caso de profunda constipação. E já destes fé que a gente vai lá queixar-se do dente de baixo e o dentista trata do dente de cima? E que geralmente acerta?)

O dente cedeu, por implosão controlada, ao fim de uma manhã inteira de pancadaria. O dente era eu. E eu era um destroço, um sobrevivente inesperado de Alcácer Quibir. Vi-me ao espelho: tinha os lábios esgaçados de orelha a orelha, parecia o Joker do Jack Nicholson. Para me confortar, o dentista disse-me que ainda ia ficar pior. E ficou. No dia seguinte: os cantos da boca em ferida, a cara inteira feita num bolo, inchada e negra. É. Eu tinha uma cara nova, irreconhecível, parecia que tinha passado pelo programa de protecção de testemunhas do FBI. Ou pelo menos pelo Botched do canal E!...
Por causa da dose cavalar de anestesia, andei semana e meia a babar-me e com um falar esquisito. A minha mulher queria internar-me. Safei-me por uma unha negra à consulta externa do Hospital Magalhães Lemos.
Mas isso passou. A sintomatologia física desapareceu. A memória da carnificina é que não. Padeço de stress pós-traumático. Ainda hoje é uma tortura ir ao barbeiro. Sim, ao barbeiro. Entro em pânico. Estais a ver? A mesma espera, a mesma televisão ligada na Praça da Alegria, a mesma bata branca, a cadeira, a babete, os utensílios cromados, pontiagudos e cortantes, o zzzzzzzzz assobiado do secador que parece o zzzzzzzzz assobiado de uma broca, a televisão desviada para as inundações, estais a ver? Estais a ouvir? Estais a perceber a minha agonia?
Isto é: houve aqui uma transferência qualquer que eu não sei explicar. Porque com o meu dentista corre tudo muito bem, farto-me de o recomendar a toda a gente. Dou-o de conselho.  É, aliás, o meu conselho odontológico, como gosto de dizer. Na verdade, o sanguinolento episódio do dente do siso não passou disso e ganhei esta bonita história para contar aos netos de quem é avô. Na próxima sexta-feira vai lá a minha mulher por mim e portanto adeus até ao meu regresso.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Diálogos fafenses 65

Facebook
Perguntaram-lhe:
- Mas você não está no Facebook?!...
E ele respondeu:
- Eu não. Sou casado e razoavelmente monogâmico.

Entre o coçamos e o coça-mos

Batoques
Encomendou batoques, mandaram-lhe botox. Ficou com cara de parvo.

É erro comum e de palmatória: escrever entrega-mos, devolve-mos, envia-mos ou compra-mos, quando na verdade o que se quer escrever e dizer é entregamos, devolvemos, enviamos ou compramos. Erro comum porque o vejo por aí todos os dias, ainda hoje vi, e de palmatória porque é grave e aliás frequentemente pejorativo. "(Nós) entregamos", primeira pessoa do plural do presente do indicativo da forma regular do verbo entregar, não é o mesmo que "(tu) entrega-mos (a mim)", segunda pessoa do singular do imperativo do verbo entregar conjugado pronominalmente, ocorrendo neste caso a contracção de dois pronomes - "me" + "os", resultando em "mos".
As duas flexões coexistem, mas, apesar de próximas na grafia, não se equivalem. Por outro lado, distinguem-se claramente pela pronúncia, até porque, regra geral, nestes casos a sílaba tónica é diferente.
O problema é que as pessoas não sabem escrever sobretudo porque não sabem ler. Se soubessem ler, então também saberiam que, por exemplo, dizer ou escrever agarramos, chupamos, lambemos, mordemos, arregaçamos, aquecemos ou coçamos, vá lá, é uma coisa. Outra coisa bem diferente será dizer ou escrever, como tanto se usava em Fafe, agarra-mos, chupa-mos, lambe-mos, morde-mos, arregaça-mos, aquece-mos ou coça-mos, vá lá...

As cuecas da noiva

Viva a liberdade! Abaixo as cuecas!
Christina Aguilera informou que não usa cuecas. A cantora norte-americana fez saber que gosta de se sentir livre, e as cuecas não deixam. E eu ponho-me a cismar: às tantas, quando os nossos governantes nos mandam baixar as calças, só estão a pensar no nosso bem...

Entrava o mês de Março e o carnaval já tinha sido. Um bando de moças desce as escadas que levam até aos bares do Molhe, na Foz, Porto fino. São seis ou sete, modernas, todas meninas do sexo feminino, bem vestidas, galhofeiras. Topam o velho, quer-se dizer, a minha pessoa, e resolvem gozar o prato. Uma das raparigas, guapa sim senhora, despe a gabardina e exibe-se com um vestido de "espanhola". Vermelho e preto, por supuesto, e com um letreiro ao peito que sai ao pai. Penso: coitadinhas, chegaram atrasadas ao carnaval; ou então são palerminhas das praxes; ou então são palerminhas das praxes que chegaram atrasadinhas ao carnaval.
Com manias de jornalista de antigamente, aproximo-me para proceder à competente desambiguação. O letreiro, escrito à mão e colocado dentro de uma mica, diz: "Felicita-me ou não. Vou-me casar". Percebo logo tudo, oh juventude irreverente e criativa! É um novo ritual de despedida de solteira. Só pode ser. Ou publicidade ao viagra; ou uma partida para os apanhados.
Comovem-me a simpatia e a originalidade da ideia. Esta espécie de performance, teatro de rua, flash mob talvez, em vez do tradicional striptease masculino em recinto fechado. Que coisa bem sacada! A "espanhola" apercebe-se de que eu estou na onda, aproxima-se de mim, toda gaiteira, com umas cuequinhas verdes na mão direita e umas cuequinhas cor-de-rosa na mão esquerda. Que giro! Fala em castelhano, e eu preferia que fosse em galego, nosso, mas que se há-de fazer?...
- Olá. Vou casar amanhã. Podes dizer-me que cuecas devo usar? Estas ou estas?
- Amanhã? Nem umas nem outras, minha senhora. Sem cuecas é que vai bem - respondo eu, sumariamente ponderado o assunto em questão.
As "amigas" riem e tiram fotografias. Eu fico nos retratos, não sei se filme.
Vermelha-e-preta e radiante, la novia insiste:
Ningunas?
- É como lhe digo, minha senhora. Se o caso é casamento, primeiro noite e tudo, sem cuecas é que usted vai bem.
A moçoila parece-me ter ficado algo desconsolada com a minha resposta. Condoo-me. Eu, que, como sempre, só quero ajudar, dou-lhe então uma segunda oportunidade:
- Olhe, espere lá, vou ver se mudo de ideia: arregace aí as saias e experimente as duas cuecas, uma de cada vez, mas devagar, devagarinho, lentamente, posso pôr música?...
- ...
E desejei-lhe muitas felicidades e vivam as noivas.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Diálogos fafenses 64

O Evaristo e o Evereste
Diz o chinês: - Além disso, temos o Evereste, que é o maior monte do mundo!
E diz o português: - E nós temos o Evaristo, que, não desfazendo, também é uma jóia de pessoa...