sexta-feira, 5 de junho de 2026

Bombistas de secretaria

A última palavra
- Senhor deputado, tem vosselência direito à última palavra.
- Muito obrigado, senhor presidente. Senhor presidente, senhoras e senhores deputados: zus!

"... o MDLP estava compartimentado. Havia uma parte política, o gabinete político que fazia análise política diária para o general Spínola. Havia as FAE [Forças de Acção Externa] que estavam preparadas para o caso de as coisas correrem mal e haver uma tomada de poder por parte do Partido Comunista ou da extrema-esquerda ou de ambos, então era uma reserva de intervenção. E havia a RAI (Rede de Acção Interna) que cobria o território a nível distrital, recolhia informações e aquelas que interessavam à parte militar mandavam para a parte militar e aquelas que interessavam à parte política mandavam para o gabinete político e depois, digamos, era encaminhado para o general Spínola."
Ninguém diria que o bando de bombistas sacristas de 1975-1976, que também andou aqui por Fafe a rebentar, era uma organização assim tão excel, tão parcimoniosa e higiénica, após 566 acções violentas e mais de uma dezena de mortes, 123 assaltos a sedes de partidos de esquerda, 116 ataques bombistas, 31 incêndios, 8 atentados a tiro, 8 espancamentos e 6 apedrejamentos, de acordo sobretudo com a Wikipédia, mas foi daquela maneira singela que Diogo Pacheco de Amorim apresentou a coisa, em Dezembro de 2024, numa aprazível entrevista concedida à rádio TSF.
Diogo Pacheco de Amorim é o ideólogo do partido Chega, deputado da Nação e vice-presidente da Assembleia da República. Foi, no MDLP, do tal "gabinete político" e não admite que digam que sabia das bombas. Estava na secretaria.
Lembro-me do Pacheco de Amorim, jovem jornalista e todo menino-bem, naquele seu andar armante mas decidido, vigoroso, passeando ou talvez marchando pelos corredores de O Primeiro de Janeiro, em Santa Catarina, e eu a pensar, fino como um alho e se calhar invejoso, "este tipo, se não o agarram, ainda vai longe", e meu dito meu feito. Diz que lhe deram um carro no Parlamento e até tem motorista.

No extinto O Primeiro de Janeiro, é curioso, coincidi, em momentos e circunstâncias diferentes, com outros três jornalistas que deram em deputados. Outros três, pelo menos, porque não me apetece puxar pela cabeça à procura de mais. Em todo o caso, que bela escola o velho jornal! Ainda por aí anda, eleito pelo PCP, o activíssimo Alfredo Maia, com quem acamaradei também, anos mais tarde, no grupo do JN. Recordo-me, como se fosse hoje, da chegada do Maia à profissão, da sua entrada triunfal no nobre edifício que hoje alberga o shopping ViaCatarina. Corria o ano de 1981, se não me engano. O Maia era tudo, menos comunista.
O grande Costa Carvalho, "meu caro", "caríssimo", vinha de deputado do PRD de Ramalho Eanes, entre 1985 e 1987, tinha um feitio desgraçado e, jornalisticamente falando, foi meu mestre e mentor. Eu era-lhe uma espécie de projecto pessoal, ele ensinou-me tudo o que naquela altura havia para aprender sobre edição e direcção de redacção, agenda, titulagem e primeiras páginas, isto é, o ABC de um chefe em construção. Também me ensinou Juca Chaves e Enrico Caruso. José Rodrigo Carneiro da Costa Carvalho faleceu há meia dúzia de meses, aos 91 anos. Passaram-se quatro longas décadas, já não vou a tempo de devolver-lhe as "Nuevas odas elementales", de Pablo Neruda, que guardo agora finalmente sem culpa e como se fossem uma relíquia do Santo Lenho.
Mas o mais pândego e inesperado de todos os meus ex-colegas do Janeiro que "chegaram" a deputados terá sido, certamente, o obscuro porém famoso "deputado Batman", António Coimbra, eleito pelo PSD, pelo círculo Fora da Europa, igualmente lá pelos finais da década de 1980, e que ganhou escusada notoriedade devido às viagens que não fez, umas atrás das outras, sem tempo sequer para parar em casa. Quer-se dizer. Tantas foram as viagens, pelas contas que apresentou no Parlamento para reembolso, que podia ter dado uma volta ao mundo. Mas não deu. Digamos que o pobre Coimbra, bode expiatório do lastimável caso das "viagens-fantasma", não foi a lado nenhum. O dinheiro era para distribuir pela família, o que, na minha modesta opinião, só lhe diz bem a respeito.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Daniel, dos leões às causas sociais

Aliás e há leões
Homem que é homem não teme leão. Já se forem ratos...

Daniel foi mediano profeta e consta da Bíblia no, exactamente, Livro de Daniel. Também lhe chamaram Beltessazar, mas um nome assim era uma desgraça para o marketing e foi imediatamente esquecido. Daniel trabalhou na Babilónia como vidente e porventura cartomante, interpretando sonhos e visões, e tinha três amigos esquisitamente chamados Sadraque, Mesaque e Abednego. Foi também domador de leões, com um anjo como partenaire, dando início a essa lamentável e actualmente proibida tradição circense.
Daniel estabeleceu-se em Fafe, com loja de fazendas, malhas, pronto-a-vestir e moda em geral, mesmo ao lado da tipografia do Sr. Dias do Tribunal, e dedicou-se, discreta e afincadamente, às causas sociais. Se não estou em erro, foi um dos fundadores da Cercifaf e o seu primeiro presidente, e isto, creio, já é dizer alguma coisa acerca da sua bondade. A fama chegara-lhe em 1972, quando entrou numa canção de Elton John.

O Albino Carpinteiro e o Carpinteiro Albino

Carteira profissional
Chamado à pedra, protestou: - Eu sou carpinteiro, e vou fazer queixa ao sindicato...

Havia o Carpinteiro Albino. E havia o Albino Carpinteiro. Carpinteiro Albino era de Elvas, corria em automóveis e ganhou o primeiro Rali de Portugal, assim chamado, em 1967. Albino Carpinteiro era nosso, da Ponte do Ranha, se não me engano, de Fafe e do Fafe, artista de mão cheia, guardião bricoleiro do estádio e faz-tudo municipal.

O ouriço-cacheno

Sem espinhos
Não há rosas sem espinhos. Quer-se dizer, haver há, mas são mais caras.

Perguntam-me: mas afinal o que é um ouriço-cacheno? E eu respondo, com todo o gosto: um ouriço-cacheno é um ouriço-terrestre, cientificamente chamado Erinaceus europaeus e também conhecido como porco-espinho, ouriço-cacho ou simplesmente ouriço. Quer-se dizer: um ouriço-cacheno é um ouriço-cacheiro se visto e dito em Fafe. Evidentemente. A mulher do cacheno é a cachena, uma grande vaca, diga-se, carne de categoria, própria aqui da nossa zona, Minho, Trás-os-Montes e Galiza.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

A Associação, a Desportiva e o Fafe

Quando o Sporting deu 7-1 ao Benfica
Catorze de Dezembro de 1986. Em Alvalade o velho, num épico jogo de futebol: Sporting 7 - Benfica 1. Ainda hoje há quem diga que, a haver um vencedor, tinha de ser o Benfica.

Suspeito que seja caso único, talvez a nível mundial. Um importante clube de futebol que pode ter, e tem, quatro nomes autónomos e cada um deles suficiente e correcto, utilizando apenas as três palavras que lhe servem de identificação registada, portanto sem precisar de recorrer a alcunhas postiças, tipo águias, leões ou dragões, encarnados, verdes-e-brancos ou azuis-e-brancos, lampiões, lagartos ou andrades. E esse clube, tomai bem nota, é exactamente o nosso: a Associação Desportiva de Fafe, isto é, a Associação, aliás, a Desportiva, quer-se dizer, o Fafe. Um, dois, três, quatro.
Eu sou do tempo da Associação, era assim que dizíamos na minha geração - sou pela Associação, fui ver a Associação, golo da Associação! -, mas os mais velhos do que eu chamavam-lhe Desportiva - sou pela Desportiva, fui ver a Desportiva, golo da Desportiva! E, no entanto, ia tudo dar ao mesmo. Com a famosa "fusão" ainda fresca, creio que, em Fafe, havia um certo pudor em chamar Fafe ao Fafe, que era palavra comum aos dois históricos emblemas que se apagaram, o Sporting Clube de Fafe e o Futebol Clube de Fafe, para darem à luz a Associação Desportiva de Fafe, em 1958. Naqueles primórdios, terá sido certamente boa ideia não incendiar rivalidades antigas e violentas com o nome "Fafe" atirado logo à cabeça, para que ninguém pensasse que os adeptos e ex-jogadores de um eram mais Fafe do que os adeptos e ex-jogadores do outro, isto é, que a nova colectividade pertencia mais a uns do que aos outros ou que se estaria a prolongar a vida de uma das partes à custa da extinção da outra, o que então seria o fim do mundo. Chamando-lhe "Associação" ou "Desportiva", e o povo assim fez, fino como um alho, o novo clube era mesmo a estrear, de todos por igual, estava tacitamente aceite, universalmente subentendido, evitava-se ferir susceptibilidades, abanar o vespeiro. Lembro-me muito bem desse ambiente ainda extremado, escorregadio e frágil como camada de gelo, e que amiúde explodia em discussões infindáveis e perigosas nos nossos tascos e cafés.
Fafe foi entrando aos poucos, prudentemente, já na minha juventude, e aí está. Um clube masculino e feminino, com quatro nomes e um só amor. O Fafe, a Desportiva, a Associação, a Associação Desportiva de Fafe, consoante a idade, a memória e o comprimento da língua de quem o diz. Já quanto aos "justiceiros", essa novidade de carregar pela boca, vou ali e venho já...

A bisculeta (e o Chico Americano)

O aferidor de pesos e medidas
- Esta noite choveu a cântaros!
- A almudes, se faz favor...

A bisculeta é um utensílio doméstico com quatro rodas, no mínimo: a roda da frente, a roda de trás, a roda pedaleira e o pinhão. O Chico Americano, por exemplo, tinha uma bisculeta que estacionava à porta do velho tasco do Nacor às vezes em contramão mas sempre de vidros fechados, dizia ele, por causa da chuva que também podia aparecer sobretudo no tempo dela. O tempo da chuva antigamente chamava-se Inverno, pelo menos em Fafe, hoje é quando calha. Entre outras máximas filosóficas e mínimas musicais, o Chico costumava dizer, e muito bem, apresentando-se, "não subestimando o bom senso, sou uma pessoa concreta". A bisculeta do Chico era um aparelho de categoria, parece-me que até tinha mudanças e talvez farol. À bisculeta, vulgarmente conhecida como velocípede sem motor ou bicicleta, há também quem lhe chame automóvel derivado exactamente àquilo das quatro rodas. E é o que se me oferece dizer a este respeito.