terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Chama o Gregório!

O da porta
Ele sabia que o último copo é que lhe fazia mal. Por isso pedia sempre mais um.
 
O dia 1 de Janeiro foi inventado no dia 24 de Fevereiro de 1582 pelo papa Gregório XIII. Daí é que vem, em homenagem, a mais famosa expressão da noite de passagem de ano - Com licença, vou só ali chamar o Gregório...

Simplesmente Simplício

Foto Tarrenego!

Alentejo profundo
O Ti Odoro, o Ti Noco, o Ti Móteo, a Ti Betana, o Ti Morato, o Ti Ófilo, o Ti Jolo, a Ti Ara, o Ti Pógrafo, o Ti Mor, o Ti Juca, a Ti Midez, o Ti Quetaque, o Ti Quetoque, o Ti Búrcio, a Ti Biotársica. Enfim, era a típica aldeia alentejana.

Sou Bomba, Dezassete e Perna-de-Pau, por parte do meu pai, e sou Neques, por parte da minha mãe, com muito gosto. Já me chamaram Américo, Mérico, Pobre, Seminarista, Padreca, Sacerdote, Profeta, Bítala, Cabeludo, Guedelhudo, Hippie, Mancebo, Careca, 05613478, Amélia, Fafe, Fafense, Filósofo, Palerma, Parolo, Palhaço, Drogado, Comunista, Socialista, Anarquista, Violoncelista (é a brincar - nunca ninguém teve a coragem de me chamar Violoncelista, pelo menos na cara!), Caixa-de-Óculos, Ó Tio Ó Tio, Ó Jovem, Gramático, Chefe, Doutor, Professor, Andrade, Pau de Virar Tripas, Gordo, Ex-Gordo, Hernano, Hermano, Herlânder, Hermo, Irrenane, Renane, Ranano, Renamo, Ernesto, Erménio, Nenuco, Aquele Senhor, O Senhor das Barbas, O Senhor dos Calções, O Senhor do Rodovalho, O Senhor da Mochila, O Senhor do Cachimbo, O Senhor é Parvo?, Você, Doente da Cama 2, Utente, Paciente, Beneficiário, Cliente, Contribuinte, Eleitor, Utilizador, Passageiro, Ouvinte, Telespectador, Participante, Visitante, Sexagenário, Indivíduo, Velho, Próximo!, Nanes, Se'Nane, Belingue, Berlingue, Bilingue, Berlindes, Boelingue, Bolingue, Galinhas, Dillinger, Dilingue, Volkswagen.
Eu, sinceramente, prefiro que me chamem Simplício. Ou então, vá lá, Agá Ramos - já disse.

Basta fazer-me um sinal

Meio-dia e meio?
"Meio-dia e meio", ainda ouço dizer na rádio, e era escusado. Meio-dia e meio, que raio de hora é isso? Das duas, uma: ou são 24 horas (isto é: meio-dia mais outro meio-dia) ou são 18 horas (isto é: meio-dia mais meio meio-dia), mas não serão, nunca, 12h30. Falando de horas, ninguém diz onze e meio, nem duas e meio, ou diz? O que se diz é: onze e meia e duas e meia. Pois com o meio-dia é exactamente a mesma coisa: meio-dia e meia. Isto é, meio-dia (12 horas) mais meia hora. Isto é, 12h30. Estamos entendidos? Meio-dia e meia! E meia, porra!

Não sei em que ponto exacto da moderna história do desporto e do jornalismo nacionais o sinal foi substituído pela sinalética. Mas sei que, como todas as asneiras e a Toyota, a sinalética veio para ficar, pegou de estaca e hoje em dia até parece mal dizer outra coisa. Sinal dos tempos. Agora, segundo os nossos doutos comentadores e relatadores desportivos, os árbitros e os jogadores de futebol, por exemplo, já não fazem sinais uns aos outros ou uns para os outros - fazem ou dão sinalética.
Ouvi na Antena 1: "Rui Patrício levanta os dois braços, dando sinalética aos seus companheiros". Dando sinalética? A rádio é para imaginar, e portanto eu imaginei o então jovem guarda-redes do Sporting a desembrulhar-se com brilhantismo no uso da complexa mas bonita linguagem gestual, fazendo manguitos atrás de manguitos, piretes atrás de piretes, toques esdrúxulos nos cotovelos, no nariz e nas orelhas, no coração e mais abaixo, mãos atrás das costas, pedra-papel-tesoura, e muitas caras feias, até ser completamente compreendido pelos colegas.
E mais à frente ouvi: "O árbitro auxiliar a ter que dar sinalética". E veio-me à cabeça a imagem de um homenzinho em calções, munido não com uma mas com duas bandeirinhas, uma em cada mão, a fazer sinais ao navio-almirante, anunciando a iminente invasão das Berlengas.
Ora bem. Se formos a um dicionário, qualquer um, por mais modesto ou vanguardista que seja, em papel ou digital, veremos evidentemente que um sinal continua a ser um sinal: uma indicação, um aviso, um meio de transmitir, à distância mas à vista, ordens, avisos ou pedidos. E que a sinalética, quando muito e neste contexto, é um conjunto de sinais, o uso de sinais. Não percebo, por isso, a alteração, a substituição, a complicação.
Tomai sentido, ademais, à maravilhosa Lena d'Água, à Leninha da voz doce, poderosa e pura, fresca como no início, cantora que, ainda por cima, é filha do mítico José Águas e irmã do famoso Rui Águas, figuras grandes do Benfica e do mundo da bola em geral. E o que diz a nossa Helena, logo nos primeiros versos da canção antiga e lendária? Sempre que o amor me quiser, basta fazer-me um sinal. Isso, "um sinal". Agora tirai o "sinal" e metei lá a "sinalética". Sempre que o amor me quiser, basta fazer-me uma sinalética. Estais a ver? Tem algum jeito? Sinalética? Assim dito, "faz-me uma sinalética", até parece javardice, valha-me Deus...

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Diálogos fafenses 70

Logo ou imediatamente?
- Alô? Fala o Costa, da Silva & Silva.
- Viva! É Silva, da Costa & Costa.
- Era mesmo consigo. É pá, precisamos que nos enviem o vosso logo imediatamente.
- Enviarmos o quê?
- O vosso logo.
- Logo?
- Imediatamente.
- Logo ou imediatamente?
- Agora. Já temos a máquina a andar.
- Mandarei então imediatamente.
- Logo!

Agá Ramos, ao dispor

Foto Tarrenego!

O mal dos nomes vulgares
"Opíparo!", gritou ela esfuziante no meio da esplanada. Píparo, que passava por acaso, voltou a cabeça desinteressado, confirmou que não era consigo, desvoltou e seguiu caminho insignificante.

Gosto de palavras, gosto do falar antigo a que amiúde gosto de chamar fafês, gosto do restinho de língua que nos sobrou do galego, a nossa fala original, gosto de nomes, gosto de brincar com nomes. E às vezes rio-me com os nomes que me vêm à cabeça, nomes pataratas, por exemplo Al Mirante, Bill Tre, Sam Dwich, Sara Pinto, Rick Ardo, Poly Ban, Bica Bornato, Bee Tock, Herr Nesto, Sade Miranda, Bob Adela, Rui Barbo, Bib Alves, Ono Mástico, Ray Naldo, Ca Trel, Pio Nés, Kris Talino, Dick São, Tony Truante, Sal Amandra, Mick Ose, Lee Moens, Rita Lina, Aury Cular, Ted Io, Nick Utina, Otto Mano, Su Papo, Tuli Creme, Pan Ike, Gal Déria, Philip Inas, Ary Ston, Jerry Kan, Karl Inga, Bruce Li, Bruce Lose, Andy Capp, Car Burant, Lu Na Park e Buzz U-Lak. Rio-me também do meu apelido, Von Doellinger, que não levo a sério e só me arranja confusões. Silva servia-me muito bem. E sabeis que mais? Quem se leva a sério é tolo. Eu sou o principal motivo do meu riso, e, podeis crer, farto-me de rir. Rio-me de mim até na desgraça, e a desgraça é o meu dia-a-dia, portanto já vedes...
Eu assino agá. Exactamente agá pequenino ponto, h., sei muito bem o meu lugar e o meu tamanho no mundo. É: agá, de hernâni, e pronto.

O meu sonho, um dos meus mais de mil inconsoláveis sonhos, era, porém, chamar-me e poder assinar Ramos. Isso. H. Ramos. Quero dizer, agá ramos.

Salazar via tudo

Foto Tarrenego!

Canadairs e engolidores de fogo
Com os Kamov parados, os Canadairs avariados, os Fire Boss atrasados e os "operacionais" no terreno esgotados, o Governo chamou ao teatro de operações todos os engolidores de fogo disponíveis e os ilusionistas do costume. Enfim, assunto resolvido. São os tempos modernos.

Sessão solene na Sala da Direcção dos Bombeiros Voluntários de Fafe, quartel antigo, Rua José Cardoso Vieira da Castro, entre os dois palacetes e ao lado da garagem do Zé Bastos, como quem vai para o Hospital, algures pelas décadas de cinquenta ou sessenta do século passado. Uma sala que eu frequentei e conheci muito bem. Da esquerda, Deus me perdoe, para a direita: o eterno presidente da corporação, Albino Fernandes; o então presidente da Câmara, Manoel Cardoso, no uso da palavra; o cónego Leite de Araújo, que ainda não era cónego e estava a gostar muito, com dá para perceber; e, fumegante e condecorado, condescendente, João Mendes Ribeiro, discreto comandante da Legião Portuguesa, deputado à Assembleia Nacional e procurador à Câmara Corporativa, dois anos presidente da Câmara Municipal de Guimarães, golfista amador, benfeitor à la carte, senhor da Fábrica do Ferro e dono daquilo tudo. Pregado à parede como Nosso Senhor Jesus Cristo na cruz, pairando sobre presentes e ausentes, tomando conta da Nação - Salazar.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Diálogos fafenses 69

Tive lá e prontos...
- Você esteve lá?
- Tive.
- Teve o quê?
- Tive o quê?... Tive lá.
- Mas teve o quê?
- Mas tive o quê o quê?
- O que é que você teve lá?
- Tive lá e prontos...