domingo, 1 de março de 2026

Diálogos fafenses 75

Está dito!
- Só digo isto uma vez!
- O quê?...
- Só digo isto uma vez.

O Velho Lau e o Lausperene

Baralhar e dar de novo
Era um baralho com cinco ases. Ás de espadas, ás de paus, ás de copas, ás de ouros e ás do pedal.

Que fique assente de uma vez por todas: o Velho Lau e o Lausperene não são uma única e mesma pessoa, como muito boa gente cuida, e, aliás, Lausperene nem sequer é pessoa. O Lausperene, ou Sagrado Lausperene, é a exposição e adoração permanente do Santíssimo Sacramento nas igrejas ou capelas. O Velho Lau é Venceslau Fernandes, ex-ciclista realmente de longeva carreira e pai da triatleta Vanessa Fernandes, Velho porque ganhou a Volta a Portugal de 1984, tinha então 39 anos, e correu até aos 46, derivando talvez daí, de tanta perenidade, a compreensível confusão...

Claro que vi Venceslau Fernandes em acção. Tantas vezes em Fafe, mas não só. Com as camisolas da Ambar, do Sangalhos, do Benfica, do FC Porto, da Ajacto e outras de que menos reza a história. E lembro-me até do Cedemi, embora a minha memória não consiga fazer a ligação ao Velho Lau. Evidentemente também frequentei Sagrados Lausperenes no meu tempo, mas isso, se fosse a contar, já seriam outros quinhentos...

Motorista em teletrabalho

A pegada
Deixou de andar a pé e passou a andar de carro. Para diminuir a pegada. 

Entreguei a carteira profissional de jornalista e agora sou motorista de TVDE. Não tenho carro, não tenho carta, não sei conduzir e vejo-me à rasca com as novas tecnologias, mas motorista de TVDE é o que está a dar. Liberdade, autonomia, independência e flexibilidade no emprego. Regalo-me de passear. E nem preciso de sair de casa. Sou motorista de TVDE em regime de teletrabalho.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Diálogos fafenses 74

Meia de leite e um pãozinho com manteiga
- Bom dia!
- Faz favor de dizer...
- Bom dia!
- Diga, diga...
- Bom dia!
- Sim, sim, e o que vai ser?...
- Bom dia!
- E era só?...
- Para começar...
- Bom dia?
- Exactamente.
- Então bom dia...
- Muitíssimo obrigadíssimo.
- E que mais?...
- Meia de leite e um pãozinho com manteiga, se faz favor.

Filósofos à moda de Fafe

"Souvenir"
Ainda hoje guardo religiosamente a mão com que uma vez, há mais de trinta anos, cumprimentei mestre Agostinho da Silva.

Eu ouvia-os. Ouvia-os atentamente. E aprendia. O Sr. Ferreira do Hospital, o Sr. José do Santo, o Lininho Leite, o David Alves, o Zé Manel Carriço, o Mola, o Sr. Lem, o Landinho Bacalhau, o Sr. Aristeu da Loja Nova, o Aristides Carteiro, o Tónio da Legião, o Sr. Saldanha, o Cunha da Fazenda, o Zé de Castro, o Manel da Pinta, Nélson Fafe, o Guia, o Júlio Barbeiro, o Zé do Registo, o Quinzinho da Farmácia, Nelinho Barros, o professor Alberto Alves, o Carlos Alberto, o Pimenta, o Toninho da Luísa, o Varinho Dantas, Serafim d'Eiteiro. Era. Eu ouvia-os. Atenta e reverentemente. E aprendia vida. Mas ainda não sabia que eles eram filósofos.

Vinho para Saddam Hussein

Foto Hernâni Von Doellinger

Aos pares é mais barato
- Sou incapaz de matar uma mosca! - disse ele.
- E duas? - perguntei eu.

Isto foi para aí em 2002, portanto um ano antes da invasão do Iraque, e aconteceu quando chegou a Portugal a inesperada porém impactante notícia de que Saddam Hussein se perdia de amores pelo nosso Mateus Rosé. O meu jornal mandou-me logo escrever uma artigalhada sobre o momentoso assunto e comprar uma caixa do mais famoso vinho português para oferecer, "com um cartãozinho simpático", ao ditador de Bagdade. Era só telefonar à junta de freguesia local para saber o endereço certo e expedir de avião desarmado lá para o palácio das mil e uma noites. Perante a minha perplexidade telefónica a propósito da segunda parte do serviço, Lisboa explicou-me o jornalístico intuito da genial ideia, sufocando-me à nascença todas as minhas potenciais reticências: "Se o gajo nos responder depois a agradecer, é o máximo, dá uma capa fantástica. Mas se não disser nada, também dá uma coisa gira. Então vá!"
E eu fui. Comprei o vinho e escrevi o texto. Não o cartão. Desunhar um texto pequeno que andava à volta disto: o Saddam gosta de Mateus Rosé. Era capaz de ter também alguma graça, já não me lembro, mas quando digo andar à volta é mesmo andar à volta, fazer chouriço, meter palha, usar e abusar da técnica de composição musical da variação (e fuga), porque a "notícia" não tinha mais nada para dizer, era oca por dentro. E foi manchete no dia seguinte.

(Permiti-me abrir aqui um parêntese pedagógico, para proteger os caros leitores da tentação de tirarem conclusões precipitadas e injustas acerca do meu jornal. Deixai-me esclarecer o seguinte: num certo sentido, o 24horas foi o precursor do jornalismo que hoje se faz em Portugal - um jornalismo de títulos, colorido e imaginativo, a que, para ser perfeito, só falta o pequeno pormenor da informação, isto é, as noticiazinhas propriamente ditas, a substância. Hoje os jornais portugueses são todos iguais ao 24horas. Uma diferença apenas os separa: o 24horas era, nos seus bons tempos, o melhor pior jornal do País, era um mau jornal muito bem feito. E ficava barato ao dono. Depois veio a rapaziada, tomou conta e escangalhou tudo.)

Meti a caixa de vinho num armário da redacção. Eu já tinha aprendido que as geniais ideias vindas de Lisboa padeciam de tesão breve e alzheimer. Eu também era da chefia, mas no Porto, sabia muito bem como é que a coisa funcionava. Regra geral, no dia seguinte os nossos criativos e bem-intencionados chefes já não se lembravam das figuras tristes que nos tinham mandado fazer no dia anterior. E mandavam-nos fazer outras. Assim foi. Nunca mais se falou no assunto.
Em Dezembro de 2003 apanharam Saddam e eu pensei: "Agora é que era de lhe mandar o Rosé, para lhe animar o Natal na prisão". Pensei, e deixei-me estar. O ex-presidente iraquiano foi executado três anos depois, como se viu abjectamente no YouTube, e as garrafas lá continuaram no armário, até ao dia em que Lisboa veio ao Porto anunciar que o Porto ia fechar para salvar o jornal. Isto é, para salvar Lisboa. Começava o ano de 2009 e desfizeram-se de nós. Eu trouxe para casa duas garrafas do Mateus Rosé de Saddam Hussein.

(Se fosse hoje, os gostos líquidos de Saddam andariam talvez mais pelo vinho azul da Casal Mendes, mas também não se poderia esperar melhor critério de quem certamente nunca pôs os pés no Nacor e às tantas nem estaria informado a respeito da rota dos tascos de Fafe.)

Enofilias e folclore à parte, o 24horas acabou por não se safar, mas "Lisboa" sim, e é o que eu lhes estimo. Os alegados responsáveis do ex-jornal estão agora a enganar noutro lugar. As duas garrafas de Mateus Rosé ainda cá estão em casa, a fazerem de pai e mãe a uma outra, de aguardente do Salazar, parece que engarrafada pelo próprio, como me garantiu, no acto da oferta em Santa Comba Dão, o sobrinho-neto do nosso estimado ditador. Estão bem umas para as outras, as garrafas. E os outros também.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Diálogos fafenses 73

Mormente
- Então, vizinho, o que me diz?
- Digo, sobre quê?
- Sobre tudo...
- Sobretudo? Ah! Acho que nomeadamente.