terça-feira, 9 de junho de 2026

O incrível Zé Manel Carriço

O ovo de Colombo
Quando Colombo pôs o ovo, foi o assombro geral. O respeitável público ainda esperou que lhe saísse também um coelho da cartola ou, vá lá, um par de pombas brancas esvoaçando do lenço de falsa seda multicor. Mas nada. O ovo era número único e foi assim que ficou na História.
Anos mais tarde, aproveitando a fama, Colombo construiu um centro comercial e duas torres de escritórios na zona de Benfica, em Lisboa.

O Zé Manel Carriço era um exagerado e provavelmente a pessoa mais extraordinária que conheci em toda a minha vida. O Zé Manel não comprava maços de tabaco, comprava volumes de tabaco, caixotes, camiões inteiros de tabaco, navios cheios da proa à popa, aviões bombardeiros prenhes de vício. Tradicionalista, conservador, teimoso, megalómano, melómano, músico - filho de maestro, tocava seis ou sete instrumentos, incluindo piano, contrabaixo ou harmónica com pistão, dizendo-se, neste caso, que teria sido o primeiro português a fazê-lo, antes até dos do Trio Harmonia -, polemista, projectista, designer, desenhador, pintor, artista, coleccionador, adorador de carros clássicos, excêntrico, reaccionariozinho apesar de inventor patenteado, mas também inteligente, polímata, empreendedor, visionário, elegante, disponível, paradoxal e controverso, verdade ou mentira de si próprio, melhor, verdade e mentira de si próprio, maior talvez do que a própria lenda, o Zé Manel até comprou um jornal falido que depois publicava uma vez por ano só para manter o título, até teve um campo de futebol, até comprou um teatro-cinema por pura vaidade, vede lá, e manteve-o fechado só para ele. O Zé Manel comprava tudo, e a dinheiro, não acreditava no valor dos cartões de plástico e desconfiava da honestidade dos cheques. Por isso ele andava sempre com a carteira grotescamente gorda e amarrecada por um enorme molho de notas de conto como se todos os dias tivesse de ir à feira mercar uma junta de bois. Ou duas. Ou três. Ou mais. As notas chegavam e sobravam para começar de raiz uma manada completa, e seria então o rei do gado. O Zé Manel fazia questão que fosse pública e notória a sua fartura. Ah!, e o Zé Manel Carriço era um homem amiúde generoso, mesmo muito generoso, mas essa parte da história ele preferia que não se soubesse, e por isso não vou contar.
Andei pelo mundo, dei as minhas voltas, e nunca mais encontrei ninguém como ele. Não descansei, aliás, enquanto não o apresentei aos meus novos amigos, do Porto, primeiro contando-lhes a lenda, dando-lhes uma ideia, e depois ao vivo e a cores, em encontros geralmente à mesa que se prolongavam muito para além do normal horário de expediente.
Às vezes, na minha juventude, o José Manuel, que de baptismo era Rodrigues, levava-me a umas noitadas privadas e filosóficas (ele, o Pimenta e eu) no Peludo antigo, mesmo em frente ao seu atafulhado ateliê, era só atravessar a rua, o que nos resultava de uma extrema comodidade. As noitadas entravam pela madrugada dentro, porque o Zé Manel tinha muito que contar e nós gostávamos muito de o ouvir. As estórias do Zé Manel eram como as rodadas de cerveja, umas atrás das outras. O Sr. Avelino fechava para nós. Comia-se um marisquito, que àquelas altas horas estava já nas últimas, e sobretudo bebiam-se finos, com tremoços, para fazer boca. Mais do que uma vez esgotámos o stock de copos, enchendo de vasilhame babujado sete ou oito mesas à nossa volta, o café inteiro, porque o Sr. Avelino gostava muito de fazer a conta no fim. Partiam-se alguns copos, por descuido ou malandrice, o Sr. Avelino afinava, engolia em seco e tomava nota para acrescentar ao rol. Mas o pior era o desbaste dado nos tremoços, que pedíamos repetidamente por uma questão de princípio.
Uma noite o Sr. Avelino não aguentou e queixou-se: - Sr. Zé Manel, assim não pode ser, já comeram mais de dez pires de tremoços. É um prejuízo muito grande. Os tremoços custam-me dinheiro, valha-me Deus!...
O Zé Manel foi ao bolso do casaco, sacou da carteira marreca, tirou uma mancheia de notas e disse, séria, calma e secamente: - Ó Avelino, traz-me cinco contos de tremoços! - e pousou o dinheiro como mão de póquer em cima da única mesa de vago, sem copos sujos, que por acaso era a nossa...

Os pegantes ao andor

Os santos populares, o início
Fez-se um concurso na televisão. Uma espécie de concurso do vestido de chita para santos, organizado e transmitido pela CMTV, com apresentação da astróloga Maya. Ganhou São Sebastião. Mas na votação do público, isto é, de Portugal, os mais populares foram Santo António, São João e São Pedro, "ex aequo", porque a coisa tinha de meter latim senão não valia. E foi assim que começou a tradição.

- Atenção, muita atenção! Pede-se a comparação dos pegantes ao andor da Senhora do Alípio junto ao clipe onde estão os antifalantes.
Aos anos que isto vai, ali para os lados de Amares, ainda as romarias não eram abrilhantadas com Fernando Rocha e rulotes de fast-food, mas por lá andaria a nossa Banda de Revelhe. E que saudades que eu tenho desse tempo visionário e vanguardeiro em que o acordo ortofónico não havia sido inventado mas já era galhardamente roufenhado por altifalantes elevados às mais eucaliptais cruchas, para que a coisa cá em baixo não passasse despercebida lá em cima a Deus Nosso Senhor, que é praticamente tão brasileiro como português.
Decerto que a procissão saiu e o andor da Senhora do Alívio também. Já não sei como é que correu a "comparação". Nem me lembro em que estado terá chegado ao "clipe" o grupo de "pegantes" retardatários. Mas devia ser líquido.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

O autógrafo do Tino

Foto Tarrenego!

Artista de eleição
Para além de calceteiro e candidato a Presidente da República, Tino de Rans é também artista de variedades. Aqui atrasado veio a Fafe abrilhantar o Carnaval de Antime. Ele e Maria Leal. Faltou o Zé Cabra, evidentemente.

O Tino, o imprescindível Tino, estava de partida para a "Quinta das Celebridades" da TVI, com a missão mais que esperada de fazer figura de urso, isto lá pelo ano de 2005, se não estou em erro. O meu jornal, que só tratava de assuntos assim importantes, mandou-me a Rans cobrir a festa de despedida do herói local, que meteu comes e bebes, família, vizinhos, amigos, os dois penetras do 24horas, isto é, eu e o repórter-fotográfico, muitos abraços e algumas lágrimas. Um exclusivo à moda antiga. O Tino, que é um cromo mas não é tolo, teve a gentileza de oferecer-me o seu livro "De Palanque em Palanque", inesperadamente prefaciado por D. Manuel Martins (1927-2017), famoso bispo de Setúbal, e acrescentou-lhe uma profética dedicatória, sarrabiscada mesmo antes de entrar para o carro rumo à capital. Escreveu: "Hernâni, espero-te quando sair da Quinta em ombros. Rans sairá em ombros também." E assinou: "Tino de Rans".
Eu não sei se o Tino saiu em ombros, decerto não, mas sei que não fez figura de urso enquanto esteve na Quinta. Fez com que outros fizessem por ele, e já não foi pouco. Repito: o Tino não é lerdo, apenas se esforça por parecer. E goza o prato...
De resto, para mim, o Tino de Rans é praticamente presidente da república. Por isso guardo com tanta vaidade o livro e o autógrafo com que ele me agraciou.

As marchas populares

Ó solo mio
Dizia o famoso guitarrista: - Mais vale solo do que mal acompanhado...

Agora, fora de brincadeiras. De entre as marchas mais populares, creio que será justo destacar a Grande Marcha, a Marcha Luminosa das Festas de Fafe, a Marcha Fúnebre, A Longa Marcha dos Grilos Canibais, a marcha lenta, a marcha-atrás ou marcha à ré, a marcha forçada, a Marcha da Fome, a marcha atlética, a Marcha Nupcial, a Marcha Turca, a marcha tudo, a Marcha dos Pinguins, a Marcha Triunfal, a Marcha do FC Porto, a Marcha do MFA, a extraordinária marcha Pela Lei e Pela Grei tocada pela Banda de Revelhe antiga, a Marcha Ingénua do Vitorino, a Marcha do Sal, a Marcha Radetzky, a marcha do orgulho gay e, evidentemente, The Stars and Stripes Forever.

domingo, 7 de junho de 2026

Gomitava-se e escupia-se

Volte-face
Volte-face! Volte, que está perdoada... 

Gosto do falar da minha terra - do falar antigo, quero dizer. No meu tempo de Fafe, escupia-se muito, com vossa licença, mas sobretudo gomitava-se, fazei o favor de desculpar. Gomitava-se com assinalável categoria, como nunca mais vi gomitar por este mundo fora. E, tomai nota, em Fafe gomitava-se a tinto e branco, às vezes misturado, e não para fazer rosé ou por qualquer intenção de afronta à gramática, que nem seria. Nada disso. Na minha terra gomitava-se, naturalmente, porque nos davam gómitos - e que é que se havia de fazer?

Já não há mulheres com bigode

Um bigode em forma de talvez
Tinha um belo bigode. Elegante, ralo, fino, um bigodinho talvez à Errol Flynn. Nada de assombroso, realmente, mas para mulher não estava mal.

Sempre gostei de ir a Ponte de Lima por causa do arroz de sarrabulho e dos bigodes das mulheres. Mulheres feias é ali. Feias e bigodudas. Basta um raio de sol espreitar por entre as nuvens tão bem desenhadas e elas saltam todas não se sabe donde para as bordas do rio a arejar as carantonhas e respectivas piaçabas. Palavra de honra, é um espectáculo digno de ser visto. Comprar um cartucho de jornal cheio de castanhas assadas e comê-las, ainda quentes, enquanto observamos o mulherio, picadeiro acima, picadeiro abaixo, como num desfile de moda mas para bigodes fêmeos, nove pontos para aquela, treze para a das suíças, há lá melhor maneira de passar um pedaço de tarde! Não sei o que a bela vila alto-minhota tem, mas é assim que as coisas são.
Cuidado. Antes que me soltem os cães, fazei o favor de perceber que eu não disse que as mulheres limianas são bigodadas e feias. Não. O que eu digo é que, sobretudo aos fins-de-semana e feriados, férias de Verão, da Páscoa, de Natal ou de Carnaval, nas Feiras Novas, no Corpo de Deus ou num dia qualquer, elas, as bigodadas e feias, concentram-se todas ali, à beira-Lima, como se fosse um congresso de camafeus ou um concurso de feieza. Numa dessas ocasiões, eu próprio fui confundido com a cantadeira de um rancho folclórico derivado às minhas barbas. De resto, não sei de onde elas vêm, as mulheres abigodadas, nunca perguntei.

Vou a Ponte de Lima desde pequenino, desde o tempo das excursões ao Alto Minho organizadas pelo meu avô da Bomba, videirinho da silva e sobrevivente dos sete ofícios. Aqui atrasado tornei lá todo contente e tive um desgosto muito grande. A vila mais antiga de Portugal, Ponte de Lima monumental e histórica, bela, tradicional, está mais pobre. As mulheres continuam particularmente feias, honra lhes seja, mas deitaram abaixo os bigodes. Sentei-me no banco do costume, junto à vendedeira de castanhas, queimei os dedos a comê-las, mas bigodes de mulheres, que era ao que eu ia, nem um para amostra. É lamentável. Os cremes depilatórios estão a dar cabo do nosso património.
Não sei se volto a Ponte de Lima. Ainda por cima, o arroz de sarrabulho também não estava grande coisa. Mas as castanhas eram bem boas.

sábado, 6 de junho de 2026

Pernas até ao cu

O Estreito de Ormuz
Havia o Grosso da Coluna e o Maciço Central, robustos e tonificados. Agora temos o Estreito de Ormuz, esse lingrinhas.

No tempo em que os animais falavam. Falava-se de mulheres longas ou extralongas - mulherões, avionas, tranconas a perder de vista - e dizia-se que elas tinham pernas até ao cu. Pelo menos na minha terra dizia-se. Como se as mulheres eventualmente mais manejáveis - perrotas, batoques, torneirinhas como a faneca - tivessem pernas apenas até ao joelho, vá lá.