segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Fafenses excelentíssimos

Foto Hernâni Von Doellinger

E eu, bico calado
A minha sorte, hoje em dia, é que só encontro pessoas que têm certezas absolutas sobre tudo. Sabem tudo de tudo. Eu nem abro a boca. Tenho a vida muito facilitada.

O Canivete que vendia jornais, o Palhaço que fazia autópsias, o Cesteiro que esteve nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, o Paredes que também era Neiva de mãos enormes e falso susto para crianças, o Landinho eterno Menino, o Landinho do Club que tinha uns testículos muito compridos e era primo de quem fosse importante mesmo que fosse estrangeiro, o Piu, o Chico Cereja, o Sandim que levava os filmes de carrinho, o Tónio da Legião, o Dr. Antunes, o Antunes Chapeleiro, o Felinhos, o Zé Carlos Estantio.
A Rosa do Piroco (Senhora Rosa do Mato!, corrigia-me a minha mãe), o Zé de Castro poeta e cauteleiro, o Chupiu, o Manel do Campo, o Luisinho com o "criado" atrás, o Zé Cão, o Roda Forte cauteleiro, o Pai Zé cauteleiro e gasolineiro, o Meireles de Antime, o Malhado decilitrador premiado e competente arranjador de guarda-chuvas, o Clemente que construía pipas e escadas e era tão pequenino que eu nunca percebi onde cabia tanto tabaco e aguardente, o gigante Barnabé e o mano, o Rates artista da bola, o poeta Augusto Fera, o Álvaro da Dinâmica, o carteiro Aristides, o Zé Sacristão, o Sr. Ferreira do Hospital, o 17 da Bomba, meu avô.
O Sr. Arcipreste, o Maló que era de Fafe em dias certos e cantava fanhosa e desalmadamente o "despedi-me e fui para longe" na esquina da minha rua, o Quinzinho da Farmácia que era o melhor médico do mundo, o Rui que era irmão do Renato e ardinava o Comércio do Porto, o Pedro e o Norte Desportivo, o Guia e a língua portuguesa, o Zegolina e a má-língua, o Peixoto e as moelas de coelho, o Batata, o Miguel Chichilim, o Fiu, o Chichirini, o Albino Rapelho, o Neca do Hotel, o Zé Manco, o Zé Manquinho, o Sibino, o Sr. Augusto Paredes, o Jerónimo Barbeiro, o Zé Bastos, o Tronchuda, o Fala-Barato, o Vida-Alegre, o Chester faz-tudo, o Nélson Fafe e a alma do teatro, o Sr. Saldanha e a Bandeira Nacional.

(Isso. António Saldanha, que dá nome à rua por Cima da Arcada. Foi dono do Café Avenida, um homem decente, democrata e habilidoso protector dos antifascistas fafenses durante o anterior regime. Após o 25 de Abril, o Sr. Saldanha era disputado por todos os partidos para marcar presença, em lugar de convidado de honra, nos respectivos comícios. Já cego, em datas certas ou avulsas, o Sr. Saldanha fazia içar a Bandeira Nacional na mansarda da casa onde morava, ao lado da Igreja Nova, quase em frente à actual entrada para a Urgência do Hospital de Fafe. Era a sua celebração da liberdade e da República.)

Na música: os Bacalhaus, os Custódio, os Gandarelas, os Betas, os Silvas, os Maciéis. Nos bombeiros: o comandante Luís Mário, os Costas do Assento, os Feira Velha, os Quintos, os Ferreiras e os Nogueiras, os Moleiros e os dos Santo, mestres também de filosofias de carne e osso e do jogo do pau.
O Joãozinho da Loja Nova que era um partidão e nem assim, o Joãozinho Summavielle e o meio fininho ao balcão do Peludo de costas voltadas para a televisão, o engenheiro Mário Valente doente da bola e fazedor do que Fafe é, o Albano das Águas esperto que eu sei lá, o Armindo Alves que era a Banda de Revelhe, o Mário Chanato, o Zé do Registo, o Américo das Bicicletas, o Fernando da Sede, o Sr. Avelino do Café, o Flórido engraxador, o Belinho, o Baptista do Asilo, o Nelinho da SIF, o Guarda-Fios, o Miguel do Zé da Menina, o Miguel Cantoneiro, o Chaparrinho, o Nelo Chapeleiro, o Manel da Pinta, o Nelinho Barros, o Hugo Alfaiate, o Chico da Libânia, o Toninho Nacor e a Dona Isabel, o padre Barros, o padre Zé, o Bilinho e o Bergiga meus companheiros de infância, o inesquecível Berto Dantas.
E, ainda por cima, o grande Zé Manel Carriço, provavelmente o homem mais extraordinário que conheci em toda a minha vida.
A todos e outros que tais, os meus respeitos. Muito agradecido por serem a minha memória.

Aqui há uns anos soube que foi feito um "Dicionário dos Fafenses" ilustres. A lista oficial, estou quase certo, não será exactamente esta, a minha, posto que incompletíssima. Mas lá está. A ilustreza é um conceito deveras relativo. Como certos e determinados pronomes.

domingo, 4 de outubro de 2026

Animais de tiro... e queda

O peito às balas
Um dia ele resolveu dar o peito às balas. Que descanse em paz.

Animal ou besta de tiro: animal que puxa um carro, na definição simplificadora do dicionário. Ou, desenvolvendo um bocadinho, animal utilizado como tracção para o transporte de pessoas e mercadorias, aparelhos agrícolas como, por exemplo, o arado, ou como motor de noras e moinhos. Chamam-se em Espanha moinhos de sangue.
Os principais animais de tiro são os cavalos, as mulas e os burros, os bois e as vacas, os ónagros, os camelos e dromedários, os iaques, os búfalos de água, os lamas, os alces e as renas do Pai Natal, os elefantes, as avestruzes e... os cães. Os cães: que antigamente tiravam só praticamente no Alasca e para o cinema, e agora, no Parque da Cidade, também puxam por jovens ciclistas e skaters radicais e manifestamente preguiçosos.

Outros animais de tiro, mas por diversa razão, são, aqui que ninguém nos ouve: o coelho-bravo, a lebre, a raposa e o saca-rabos; a perdiz-vermelha, o faisão, o pombo-da-rocha, o gaio, a pega-rabuda e a gralha-preta; o pato-real, a frisada, a marrequinha, o pato-trombeteiro, o marreco, o arrabio, a piadeira, o zarro-comum, a negrinha, a galinha-d'água, o galeirão, a tarambola-dourada, a galinhola, a rola-comum, a rola-turca, a codorniz, o pombo-bravo, o pombo torcaz, o tordo-zornal, o tordo-comum, o tordo-ruivo, a tordeia, o estorninho-malhado, a narceja-comum e a narceja-galega; o javali, o gamo, o veado, o corço e o muflão. Em Fafe, também, por princípio ou mera distracção, sinais de trânsito e placas indicativas de localidades.
Para não saberem que vão morrer, a estes animais de tiro chamam-lhes espécies cinegéticas. É preciso que se note que o melro saiu da lista dos abatíveis em 2011, por ordem de Daniel Campelo, o do queijo, então secretário de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural. Uma medida que seguramente marcou um extraordinário mandato, posto que breve.

Já os caracóis são obviamente animais de tiro porque puxam pela própria casa, andam com a rulote às costas (o que não acontece com as primas lesmas, essas viscosas sem-abrigo e nudistas descaradas), mas, pelos vistos, gostavam de ser ainda mais. Em 2015, uma campanha em nome destes simpáticos moluscos gastrópodes terrestres foi lançada pelos seus representantes legais, uma rapaziada bem disposta que sobretudo não quer que eles, os caracóis, sejam cozidos vivos. Seria, portanto, de lhes enfiar um balázio na cabeça, aos caracóis como aos garranos que invadem estradas, e, então sim, metê-los na panela. Aos caracóis.
Com a coitada da lagosta é que ninguém se importa. Se calhar por ela ser podre de rica e pelar-se por uma sauna bem suada. Invejosos de merda...

Rabichas, foguetes e foguetões

Cheira a Natal
Já cheira a Natal - alguém disse. Ele, atrapalhado, explicou - Não fui eu.

Não sei se vos lembrais: Eurico da Fonseca (1921-2000) foi o principal especialista português em astronáutica, e creio que ainda é, embora já não exerça por razão de força maior. Praticamente autodidacta, nomeado investigador por decreto-lei e oficialmente equiparado a professor catedrático, colaborou com a NASA e conheceu os principais responsáveis pelo Programa Apollo. Notabilizou-se entre nós como divulgador de assuntos científicos. Na rádio, acompanhou em directo, na então Emissora Nacional, a chegada do homem à Lua e comentou os voos espaciais norte-americanos e soviéticos. Mas era na RTP que eu gostava de o ouver. Ouver, escrevi bem. O primeiro passo de Neil Armstrong também deu na televisão e, eu bem vi, a Lua era em câmara lenta.
Pois foi com Eurico da Fonseca na televisão - na televisão evidentemente a preto e branco do café Peludo - que eu aprendi que, quando se fala de um lançador espacial, deve dizer-se foguete e não foguetão. Foguete. Tal como na meia de vidro com fio puxado. Foguete. Tal como o velho comboio Porto-Lisboa que era praticamente um luxo e chegava aos cem à hora. Foguete. Tal como no Santo António da minha rua em Fafe, com girândolas, diabos-encaixados, bombinhas, estalinhos e bichas-de-rabear, ou rabichas, como por cá se chamavam. Foguete. E outro especialista em foguetes e apetrechos correlativos era o nosso Rates, raríssimo cromo de almanaque. Foguete. Eurico da Fonseca explicava, apenas insinuando, que foguetão é outra coisa: por exemplo, coisa gasosa, eventualmente sonora e, por norma, fedorenta. Quer-se dizer: um peido, uma bufa, um traque, um flato, uma farpa, um pum, com vossa repetida licença, e isso já seria matéria da alçada do nosso Moisés...

sábado, 3 de outubro de 2026

Soba! Soba! Soba!

Sete cães a um osso
"Os cães passam e a caravana ladra", dizia sempre que os via. Realmente, estava farto de políticos e de campanhas eleitorais

Nunca se deve fazer isso: assobar os cães. Para além de estúpido, é perigoso. Mas fazia-se, e muito. Sou testemunha. Em Fafe, portanto no Baixo Minho interior, e pelo menos também em Trás-os-Montes, segundo li e faz sentido, as pessoas tinham essa mania tola de assobarem os cães. Em Fafe, aliás, assobava-se bastante. - Olha que eu assobo-te o cão! Era um aviso, uma ameaça. Uma burrice. Assobar, verbo regional, oralizado, rústico, antigo e actual, queria e quer dizer provocar uma briga, uma bulha, uma luta, um ataque entre cães, ou então lançá-los contra humanos, eventuais invasores de propriedade, dissidentes de café ou apenas vizinhos de quem não se gosta.
Assobar é, evidentemente, o mesmo que açular, isto é, estimular, instigar, provocar, acirrar, incitar, irritar, atiçar, estimular, excitar, enraivar, mandar morder ou atacar. E como é que isso se fazia? Como é que isso, se calhar, ainda se faz? Colocando os cães frente a frente, focinho contra focinho, ou ao pé das pernas do homem-alvo, empurrando os animais, chibatando-os, apontando ao "inimigo" e gritando a palava de ordem "Soba! Soba! Soba!", que havia de significar "Ataca! Ataca! Ataca!", e terá sido assim que a coisa começou, de soba para assobar ou vice-versa, sei lá, estabelecendo-se enfim na gramática do povo.
E é curioso, isto do falar dos velhos. Os cães, eu já os tinha metido no "Torna! Torna! Torna!", não sei se vos lembrais, e agora, por maioria de razão e direito próprio, entram neste "Soba! Soba! Soba!". Pois é. Como dizia o saudoso Eduardo Guerra Carneiro e eu não me canso de repetir à minha mulher: isto anda tudo ligado.

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

O sorriso do Zé Carlos Estantio

Com o riso não se brinca
Tomem-se todas as precauções. O riso é altamente contagioso. Recomenda-se o uso de máscara.

Consultei o catálogo. Há dezanove tipos de sorriso, dizem os entendidos, mas apenas seis são considerados sinal de felicidade ou alegria e somente um é avaliado como genuíno ou verdadeiro - o famoso sorriso de Duchenne, conhecido como "sorriso com os olhos", embora também envolva a boca. Vêm depois, por exemplo, o sorriso social, o sorriso de satisfação, o sorriso sorrateiro ou talvez malicioso, o sorriso de desprezo, o sorriso falso, o sorriso forçado, o sorriso sedutor, o sorriso triste, o sorriso de medo, o sorriso de resignação, o sorriso coquete e o sorriso amarelo. Dois sorrisos amarelos correspondem, evidentemente, a um sorriso vermelho. Junto-lhes eu, de borla, e não tendes nada que agradecer, o sorriso Pepsodent, o sorriso da Mona Lisa e, dentro do género, o sorriso do Zé Carlos Estantio. 
O nosso Zé Carlos Estantio. Em Fafe, perguntai por ele aos mais velhos, que vos contem, e descobrireis, prometo-vos, uma figura estimável e singular. Um cromo da vila antiga, um mouro de trabalho, sempre a alombar de um lado para o outro, envolto numa nuvem de farinha, uma jóia de moço, desde que não se metessem com ele, uma cara personalizada, inesquecível. Não era por acaso que o Estantio se chamava Estantio.
O adjectivo estantio é um regionalismo baixo-minhoto, portanto nosso, que quer dizer estacado, pasmado, assarapantado. E o Zé Carlos era isso permanentemente, ao natural, a cara chapada do sorriso Duchenne, o tal que envolve os olhos e a boca, quer dizer, o músculo zigomático maior e o músculo orbicular do olho, para que melhor nos entendamos.
Os especialistas assinalam que um sorriso genuíno, a sério, ou à séria, se o sorriso for em Lisboa, pode implicar a contracção de dezassete músculos faciais. Postulado não aplicável, evidentemente, ao Zé Carlos Estantio, que exibia o sorriso Duchenne em todo o seu esplendor, de manhã à noite, e suponho que também durante o sono, sem esforço nenhum, isto é, sem mexer uma palha, quanto mais um músculo. A cara do Estantio estava formatada de nascença, predeterminada num sorriso quiçá difícil de entender, mas honesto e eterno. Livre. Hoje em dia, aliás, o sorriso de Duchenne poderia chamar-se, mais propriamente, sorriso do Zé Carlos Estantio, o que seria uma honra para Fafe e para todos os fafenses, termos o nosso sorriso na cara das outras pessoas, inclusivamente estrangeiras e até americanas, para não irmos mais longe.
Para todos os efeitos, a cara do Estantio, com o seu sorriso estampado, indelével, irrevogável, podia, por outro lado, ser considerada uma cara de gozo, de desafio. Podia e era perigoso. Lembrais-vos, aqui atrasado, quando o Sr. Sérgio Conceição estava de treinador do FC Porto e foi castigado com 30 dias de suspensão e mais de dez mil euros de multa por causa do seu "sorriso jocoso". E da outra vez em que foi expulso de um jogo derivado ao seu "olhar fulminante"? Um sorriso deslocado ou mal interpretado, em quantas tragédias já descambou? Pois é: a sorte do Zé Carlos é que nunca foi treinador do FC Porto e era de Fafe, uma terra de mansos costumes e bastante respeito, pelo menos às vezes.
O Estantio partiu e foi um sorriso que se perdeu, uma estrela que se apagou no firmamento local. Fafe ficou mais pobre. E nem vou falar do Chico Cereja, porque isso já é outro assunto, mais profundo, fica para outra maré. Isto, às tantas, cheirará a conversa de velho, e será, mas eu digo que Fafe tinha mais piada antigamente, no tempo dos fafenses excelentíssimos, e o Zé Carlos, parecendo que não, fazia parte dessa extraordinária elite. Havia sorrisos.
Agora há risos, a verdade também tem de ser dita. Chovem comediantes no Teatro-Cinema, à ordem dos dois ou três por mês, e são sempre um sucesso. Porreiro, porque rir faz bem à saúde, faz bem ao fígado, faz bem à pele, faz bem ao coração, faz bem à pituitária, faz bem à próstata, faz bem à alma, faz bem na gravidez, enfim, rir é o melhor remédio. Ainda bem que Fafe ri.
No fafês de antanho havia, se não estou em erro, expressões idiomáticas, ou idiotismos, como também se diz, que pressagiavam os tempos artificialmente alegres que hoje vivemos. Usavam-se nos cumprimentos à distância, nas saudações para o outro lado da rua, ou passando de carro, ditas entredentes a acompanhar o sorriso hipócrita e o aceno de mão automático, como se fosse "bom dia!" ou "boa tarde!", "olá, viva, como é que está!?", algo do género. Lembro-me daquela, muito batida - E se te fosses rir prò caralho? Ou da outra, utilizada regularmente pelo meu tio Américo e igualmente assertiva - Vai-te rir pra quem te monta!
Era. Os antigos sabiam muito! E havia educação.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Eu e Ação e também Agina

Foto Hernâni Von Doellinger

Desnecessidade
A frase diz: é preciso ter azar! E eu acho que não. Pelo contrário, passávamos bem sem ele.

Eu e Ação, mas não só Ação, isto é, Ação que me desculpe. Também Aju, Azé, Agui e Ami, Alu, Abé, Adi e Adé, Abia, Alena, Alina e Atina, Ananda, Atita, Axana e Abela, Aquina, Alela, Aberta e Aminda, Amila, Alaide, Amira e Amina, Anilde, Adora, Amela e Alice, Abecas, Alisa, Amicas e Aguida, Amilu, Amizé, Amicá e Arora, Agusta, Anela, Anô e Anor, Ané, Alinda, Adina, Azeza, Agina e assim sucessivamente...

Os Choupilos

Epitáfio 
Quando Epitáfio morreu, ninguém sabia o que dizer...
Choupilo. Termo regional, antigo, do Norte de Portugal, usado particularmente aqui no nosso Minho, e que quererá dizer sapo pequeno ou sapo vagaroso. Que se segue. Eu não sei se é daí que a coisa vem, mas a verdade tem de ser dita: em Fafe, nos velhos tempos, choupilos eram os músicos da Banda de Golães, os seus sócios e simpatizantes ou seguidores, isto é, os seus apaixonantes. Os Choupilos, porventura assim com maiúscula, com o devido respeito e toda a consideração. Choupilos ou Choupos, neste caso já com um suave toque botânico, tudo isto dito, bem entendido, sempre do ponto de vista dos músicos e apaixonantes da banda rival, arqui-inimiga, a Banda de Revelhe. Quer-se dizer: os da Banda de Revelhe é que chamavam Choupilos ou Choupos aos da Banda de Golães, que, por sua vez, certamente também chamariam nomes do piorio aos da Banda de Revelhe, nomes feios e manhosos, mas juro que não sei quais, nunca foram do meu conhecimento.
Havia uma ronha tremenda entre as nossas duas bandas de música. Fafe tinha um feitio desgraçado, tolo, só se dava bem na confrontação, gostava de dividir-se ao meio e andar à pancada entre si. Estou farto de o dizer, tudo servia para nos separar e opor, para discutirmos e teimarmos: as duas filarmónicas, os dois velhos clubes de futebol, os dois fotógrafos da vila, os dois cangalheiros, a Escola Industrial e o Colégio, a Fábrica do Ferro e o Bugio, o Fredinho Bastos e o Tangerina, a Zundapp e a Sachs, a Juditinha e o Zé da Menina, a Rua de Baixo e a Ponte do Ranha, o Peludo e o Snack-Bar, o Dr. Antunes e o Dr. Amadeu. Uns éramos por uns, outros éramos pelos outros, sempre à bulha, como cão e gato, e ninguém nos aturava. Lembrais-vos do filme "Kramer Contra Kramer", com Dustin Hoffman e Meryl Streep? Pois nós aqui, não tendo nada a ver, era exactamente o mesmo, Fafe contra Fafe, mas sem filmes de jeito nem actores de categoria, tínhamos apenas a mania das facções, o espírito de contradição era o nosso modo de vida. 

A Banda de Revelhe era o meu ambiente. Dos quatro homens da nossa casa, a começar pelo meu pai, só eu é que não fui músico. Sou, em todo o caso, revelhista desde pequenino. E éramos revelhistas ferrenhos. O que agora me parece um pouco estranho, porque, por outro lado, a Banda de Golães é que chegou a ser, a partir dos finais do século XIX, a banda oficial dos Bombeiros Voluntários de Fafe. E nós éramos "os da Bomba", que diabo. Já bem na segunda metade dos anos de mil e novecentos, portanto um século mais tarde e deslaçada formalmente aquela histórica ligação, a Banda de Golães ainda honrava a tradição, formava em frente ao quartel da Rua José Cardoso Vieira de Castro, no dia da Festa da Bomba, e tocava o Hino dos Bombeiros. Lembro-me muito bem de ver e de ouvir. Sei de cor e salteado a melodia do hino, integral e afinada, trauteio-a ou assobio-a amiúde, só porque me dá na cabeça ou se calhar são saudades, e foi daquela maneira que a aprendi. 
Curiosamente, havia outros ramos da família, não directamente ligados aos Bombeiros como nós, que, eles sim, aderiram à Banda de Golães, o que me enchia de escândalo naquela altura, teria eu para aí sete ou oito anos. Recordo-me do Tio Rochinha, da Recta, e do Tio Albino Grande, tios-avôs, mais um ou dois primos em segundo grau, se não me engano. O bom Tio Rochinha, pequenino, tão frágil e trágico, sempre com um sorriso engatilhado e, enquanto pôde, palavras amáveis e reconfortantes para distribuir por toda a gente. E o Tio Albino Grande, um homem imponente, elegante, gentil, com uma voz mansa e bem timbrada, de locutor nocturno da Emissora Nacional, uma voz que eu gostava muito de ouvir, parecia que fazia bem às pessoas. O Tio Albino era casado com a Tia da Rua do Maia e pai do famoso Fernando Massagista, querido primo, "primaço". A Tia da Rua do Maia era irmã do Bô da Bomba e passámos a chamar-lhe Tia Rottenmeier, isto é, Tia Rotmaia, quando os bonequinhos japoneses da "Heidi" chegaram à RTP, na parte final da década de 1970.
O Tio Albino era o garboso porta-estandarte da Banda de Golães. Dava gosto vê-lo, palavra de honra. E nós dizíamos, invejosos e talvez malandros, que ele tocava muito bem bandeira.