sábado, 11 de abril de 2026

O consumidor

O típico caso de transtorno bipular
Ele padecia de evidente transtorno bipular. Diziam-lhe, às vezes, fosse a respeito do que fosse, mas sobretudo em caso de necessidade, porém sem urgência, "quando puderes, dá cá um salto" - e ele dava dois.

Foi toda a vida um grande consumidor. Desde que nasceu. Consumiu a mãe e consumiu o pai, consumiu os avós, maternos e paternos, consumiu os irmãos e as irmãs, os tios e as tias, os sobrinhos e as sobrinhas, os primos e as primas, consumiu os filhos, consumiu os netos e os bisnetos, consumiu as meninas do lar até morrer. Era realmente a consumição da família, um verdadeiro consumidor de almas, como se falava em Fafe. Quer-se dizer, há feitios assim.

Bristol era em Fafe, ao lado do ferrador

Centros históricos
Os centros históricos são como os chapéus: há muitos. Ljubinko Drulovic que o diga e Mário Jardel que agradeça. Mas calcanhar de Madjer só houve um. O resto são imitações.

Para quem não sabe, Bristol é uma habitadíssima cidade do sudoeste inglês e foi uma sapataria muito jeitosa em Fafe, a sapataria do Magalhães "Bristol". Certa ocasião, o Senhor Ferreira do Hospital mandou-me lá escolher um par de sapatos, que já estava tudo combinado e ele depois pagaria. E pagou. O Senhor Ferreira era homem de palavra. O nosso Bristol era ali a seguir ao Vale D'Estêvão, se não estou em erro, quem vai em direcção ao Largo, digamos que em pleno centro histórico da vila antiga. No sítio do Vale D'Estêvão, após um enorme portão de casa de lavrador ou talvez ancestral pensão, funcionava um ferrador, que eu ainda vi em acção - o que tem tudo a ver: eu, o calçado e o ferrador. Dizem que também por ali passou Camilo Castelo de Branco, mas disso não me lembro. O nosso ferrador atendia também na Feira Velha, às quartas-feiras. Quanto ao Senhor Ferreira do Hospital, foi meu mestre e amigo, e era um homem extraordinário.

Um pirolito pra mim, um pirulito pra ti

O bebé que era sedentário
Estacionaram o carro junto à praia. A mulher saiu, morena e roliça, num refrescante vestido branco comprido à mãe-de-santo. O homem foi ao banco de trás buscar o filho e pousou-o no chão. O miúdo não gostou. Era ainda um bebezinho dos primeiros passos que quase não se tinha em pé. Se calhar por isso, sentou-se no empedrado, abriu as goelas e chorou o seu protesto. A mãe procurou por quem passava, era eu, e ralhou pedagógica e mansamente ao petiz, naquele português doce do Brasil: - Rodinei Uaxinton, chega! Que sedentarismo, minino!...

O Brasil, que tem dias para tudo, também tem o seu Dia do Pirulito. E é justo. O Brasil é um país tropical, abençoado por Deus e muito dado a carnavais de todas as espécies. No lado de lá, pirulito com "u" é uma guloseima feita de rebuçado ou chocolate enfiada num palito e que se come chupando ou lambendo. Isto é, corresponde, no lado de cá, ao nosso chupa ou chupa-chupa. No brasileirês corrente, a palavra pirulito serve também para identificar uma pessoa muito magra, o chamado pau de virar tripas, ou o órgão sexual masculino, especialmente de criança, igualmente dito bilola, bilunga, bimba, bimbinha, pimba e pimbinha. O Dia do Pirulito, no Brasil, decorre a 20 de Julho. Já pirolito com "o" era um refrigerante gasoso muito popular antigamente, e de que os da minha idade decerto ainda se lembram, significando, além disso, nome de um estribilho, pessoa muito pequena ou gole de água bebido sem querer, quando se está, por exemplo, a nadar.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Troca-se neto por cão

Trunfo é paus
Quatro tigres-de-bengala. Jogam sueca e contam antigamentes, na fresquinha do jardim que nunca lhes puseram.

Três rapazes nos arrabaldes dos cinquenta anos, amigos de longa data, desde o tempo dos juniores, gente bem posta, certamente da melhor burguesia local, fazem o costumeiro passeio matinal pela fartura verde do Parque da Cidade. O rapaz da esquerda empurra um carrinho de bebé com uma vaidade que só vista, e é bonita de se ver. Os outros dois vão à rasca até às orelhas, envergonhadíssimos com "a situação", evitam ser reconhecidos por quem passa, mais desconforto era impossível. O da direita puxa o do meio pela manga e diz-lhe, tapando a boca com a mão, como fazem agora os treinadores e jogadores de futebol quando querem falar da mãe de alguém e sabem que há câmara de televisão por perto: - Se inda ao menos fosse um cão, um canito! Agora o caralho do neto...

Tem de ser, mas não é obrigatório

Levantadores de dorsais
Logo que nos aposentámos, a Mi e eu, resolvemos enfim dar um pouco mais de atenção à actividade física. Desde o princípio do ano que nos inscrevemos em todas as maratonas, meias-maratonas e outras corridas temáticas ou genéricas aqui da região, às vezes mais do que uma no mesmo dia, consoante a variedade dos horários. Vamos lá, cumprimentamos o pessoal, levantamos os dorsais e voltamos para casa. De carro.

A gente vai fazer a sua caminhada matinal ali para o Parque da Cidade, nos antigos campos de Sá, e encontra-se uma com a outra, ainda que somente de passagem. A gente cruza-se e, à força do hábito, ou talvez educação, cumprimenta-se - "Bom dia!", no primeiro avistamento, "Até amanhã!", no que se supõe seja o último. Ora acontece que as caminhadas matinais ali no Parque da Cidade, antigos campos de Sá, são geralmente feitas em círculo, repetindo o circuito, ida e volta, três ou quatro vezes de uma ponta à outra, o que propicia repetidos reencontros entre a mesma gente que diz uma à outra "Bom dia!" e "Até amanhã!". E a gente tem horror a ficar calada quando se vê, e se já disse "Bom dia!" e ainda não é hora de dizer "Até amanhã!", e como acha que tem obrigação de dizer alguma coisa, então nos entretantos a gente diz "Tem de ser", como se "Tem de ser" fosse uma saudação intermédia entre o olá e o adeus. "Tem de ser", uma boa merda para se dizer seja a quem for como cumprimento, é o que me parece, mas se calhar eu é que estou errado.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Coisas do género

Atenção!
O carregador de piano não se liga à electricidade.

Alice Cooper e Vieira da Silva, os nomes, bem me enganaram durante anos. Felizmente soube a verdade ainda em Fafe, muito a tempo de não fazer figuras tristes por esse mundo fora. E então ri-me.

O homem de licra e o boião perdido

Da frente para trás
Ao contrário de todos os outros atletas, ele gostava de correr da frente para trás. Tácticas. Provocava muita confusão e inúmeros acidentes, realmente, mas cada um é que sabe da sua vida.

Estais a ver esses maratonistas bissextos mas cheios de intenção que treinam a prestações aos domingos de manhã artilhados com todos os matadores, como por exemplo aquele cinto tipo canivete suíço onde acomodam boiãozinhos de várias cores e feitios, barras energéticas, géis, bananas, ananases, pepinos, couves-galegas, sandes de marmelada com tulicreme, tremoços, caldo de nabos, as chaves de casa, do carro, do totobola e do euromilhões, um par de algemas, um bastão extensível, lingerie de senhora e um spray de pimenta forte? Estais a ver? Pois era um desses com um daqueles.
O homenzarrão de calções de licra pelo joelho passou por mim no Parque da Cidade, junto à Torre do Relógio, e naquele exacto momento, mais minuto menos minuto, despencou-se-lhe do extraordinário cinto multifunções um dos frasquinhos de plástico. Caiu aos meus pés, como se fosse um dádiva e só me arranjou problemas. Eu, que me pelo por ajudar, gritei "Olhe, caiu-lhe um boião!", vergando-me para apanhar a garrafinha e levá-la ao dono, e bem me custou, que já não estou em idade para semelhantes acrobacias. O superatleta, talvez apenas cinco metros à minha frente, ouviu-me, sempre correndo, virou levemente a cabeça e sobretudo o braço direito num gesto redondo e grande, creio que metendo-nos no mesmo saco a mim e ao vasilhame perdido, para tonitruar, macho a cem por cento, desportista até mais não:
- Que se foda!...
E lá foi para casa, naquela roupinha de bailarina, coçando sobremaneira as partes, coisa de homens, cheio de pressa para bater o seu próprio "recor". Era dia de tripas e talvez vitela assada, perceba-se por isso a urgência.