Certidão de óbvio
As autoridades compareceram no local e confirmaram o óbvio: o morto já se encontrava cadáver. É daí que vem.
sexta-feira, 23 de outubro de 2026
Os desburocratas
Bai-me à benda!
Leve 5 e pague 6!
Ele era um consumidor compulsivo, adorador de promoções. Se lhe aparecesse à frente "Leve 5 e pague 6!", aproveitava logo.
Fafe é uma grande superfície de grandes superfícies. Não sei se já cá estão todas e se cabem cá todas, porque há sempre lugar para mais uma, mas a verdade é que, tirante elas, sobra cada vez menos Fafe à vista. Atenção: eu não critico a invasão, admito até que esta fartura sem peso nem medida possa ser muito boa para Fafe e para os fafenses em geral, quero dizer, para os fafenses consumidores e/ou à procura de emprego, decerto não faltarão argumentos e talvez razões que a justifiquem ou tentem justificar. E também não sei se podia ser de outra maneira. Digo apenas o que vejo. E, chegados a Dezembro, sorrio ao ver o Município anunciar, candidamente, ou então como remedeio ou descargo de consciência, que... "Natal é no comércio local!"
Etiquetas:
Câmara de Fafe,
comércio,
comércio local,
compras,
consumidores,
Fafe,
fafês,
grandes superfícies,
hipermercados,
Natal,
promoções,
supermercados
quinta-feira, 22 de outubro de 2026
As "repostas" eram para levar
Os senhores do tempo
A meteorologia é muito importante porque a meteorologia é que nos dá o tempo. Se não fosse a meteorologia não teríamos tempo e morríamos todos mais cedo, regra geral, ou nem sequer houvéramos nascido, que ainda podia ser pior.
Havia as respostas e havia, evidentemente, as "repostas", que eram respostas sem ésse no meio e queriam dizer outra coisa. As "repostas" eram um veículo de comunicação específico, personalizado, comunitário e geralmente eficaz. Funcionava boca a boca, como a respiração de emergência e os beijos como devem ser. Isto pelo menos em Fafe, mas suspeito que seria o mesmo por todo este baixo Minho interior aqui à roda, zona tão atreita à boa influência do velho dizer galego. Naquele tempo não existiam telemóveis e os telefones eram poucos. As respostas pediam-se, davam-se. As "repostas" mandavam-se, levavam-se. Isso mesmo, as "repostas" eram para levar. Iam de bicicleta, se fosse longe, e as mais prementes voavam de motorizada, a mil à hora e sem capacete. Era uma rede social, vamos dizer, que ia num pé e vinha no outro, às vezes já com a resposta à "reposta".
As respostas eram respostas. Davam-se sobretudo às perguntas. Respondia-se. Na escola, ao professor ou à professora, no exame de código, para a carta de condução, no médico da Caixa, para a baixa, à polícia fardada ou à paisana, por tudo e por nada, à mãe e ao pai, em casa, a toda a hora, respeitinho e bola baixa, às vezes os filhos eram um bocadinho "respondões", davam "má resposta" aos velhotes e, na passada, levavam um par de estalos, talvez dois ou três, o que, naquelas circunstâncias, não desfazendo, até seria a coisa mais natural do mundo. Para aprenderem a não "responder torto"...
As "repostas" eram recados, mensagens, avisos, urgências que se mandavam por alguém. Ia-se a casa das pessoas, aos empregos, à fábrica, à loja, à feira, à poça. Dizer-lhes que, dizer-lhes para. "Fulano mandou dizer que", "Sicrana mandou dizer para". Eram telegramas falados, e-mails entregues de viva voz, ordens para todos os efeitos. Avisava-se de vinho novo ou de funeral, convidava-se para a desfolhada ou para o casamento, informava-se da consulta do Porto e do preço do frete do carro de praça, enviava-se conta ou orçamento de obras feitas ou pensadas, entregava-se dinheiro vivo ou molhos de couves, pedia-se a assadeira emprestada para a vitela de domingo, mandava-se vir ao telefone a tal hora, que o filho ia ligar de França. Ou da guerra.
Tínhamos, graças a Deus, especialistas em levar "repostas", mensageiros de confiança, muito procurados e adequadamente gratificados. Porque às vezes o Diabo tecia-as. Às vezes o recado era mal dado ou mal compreendido, armavam-se terríveis confusões, metiam-se pessoas ao barulho, inventavam-se tragédias desnecessárias por causa de um nome trocado, de uma palavra errada, de uma falha de compreensão, felizmente depois tudo se esclarecia e voltava à paz do Senhor, beba mais um copo e não se fala mais nisso. Tanta dor, tanta alegria, tantas lágrimas, tantos gritos, tantas graças, tantas ameaças, amiúde até alguns tiros, e afinal era tudo para deitar fora. Foi engano.
Não tivemos essa sorte naquela manhã fria de Dezembro, há quase sessenta anos. A "reposta" foi mandada pelo Bô da Bomba à nossa casinha amarela, no Santo Velho, era só descer a rua. Que o nosso pai tinha morrido, assim nos disseram. E nunca mais veio o desmentido.
Etiquetas:
fafês,
língua portuguesa,
meteorologia,
morte,
reposta,
resposta,
série Memórias de Fafe,
série O meu avô da Bomba,
série O meu pai,
telefones,
telemóveis,
tempo
quarta-feira, 21 de outubro de 2026
Quando íamos aonde elas
Trocado por miúdos
O divórcio aos cinquenta anos foi-lhe um desgosto muito grande. Ainda por cima, trocado por dois rapazes de vinte e cinco.
Coisa muito diferente, porventura mais impetuosa, e envolvendo pelo menos outras responsabilidades e consequências sociais, era ir para onde elas. Isso, ir para onde elas, porque também se verificava, a verdade é para ser dita. Ir para onde ela ou ir para onde ele correspondia a ir para casa dela ou ir para casa dele, creio que me faço entender, e usava-se frequentemente em casos da adultério, casamentos infelizmente escangalhados ou evidentes amantizações finalmente assumidas, divórcios é que não, porque em Fafe não havia.
Etiquetas:
adultério,
amantes,
amor,
aonde,
divórcio,
fafês,
habitação,
língua portuguesa,
onde,
série A minha mãe,
série Memórias de Fafe,
sexo
Todas no mesmo cesto
Um problema
Ele adorava nêsperas. Mas detestava magnórios. E tinha ali um problema.
Reuniram-se todas. A Golden Delicious, a Gala, as Red Delicious, Starking, Starkrimson, Jonagold e Jonagored, a Bravo de Esmolfe, a John Golden Red, a Spur, a Verde Doncella, a Fuji, a Riscadinha de Palmela, a Casa Nova, a Granny Smith, a Pink Lady e até a Reineta, que não é nada destas coisas, como o próprio nome indica, mas veio. Vieram de todos os lados, de Alcobaça, da Beira Alta, da Cova da Beira e até de Portalegre. Era 21 de Outubro, Dia Internacional da Maçã, e o que é que elas haviam de fazer?...
Etiquetas:
confraternização,
confraternizações,
Consoada,
convívio,
convívios,
Dia Internacional da Maçã,
encontros,
fafês,
fruta,
língua portuguesa,
maçãs,
magnórios,
nêsperas
terça-feira, 20 de outubro de 2026
Os "aitens" da Senhora Presidenta
Artista que é artista
Ia tocar à Casa da Música, no Porto, e destinaram-lhe a Sala Suggia. Sentiu-se desconsiderado, insultado, chamou de urgência o "manager" e mandou dizer: ou Sala Limppia ou nada...
"Aitens"? Mas quais "aitens"? "Aitens"? A sério? A palavra item era um advérbio latino. Latino, não germânico ocidental ou anglo-frísio. E assim ficou em português. A forma correcta de pronunciar a palavra item é "íteme", à maneira latina, ou, parece-me melhor, "ítem", na forma aportuguesada. O plural de item é itens, dizendo-se "ítens".
A Senhora Presidenta disse "aitens" e eu, claro, lembrei-me de Salazar, da velha anedota de quando o ditador foi de visita a Inglaterra, segundo me contaram em Fafe, era eu mocico. Resumindo, e sem ofensa para os novos fascistas, do Chega ou não: Salazar, que usava vaso de noite e viajou acompanhado pelo seu mordomo Francisco, não sabia falar inglês, mas disseram-lhe que era fácil, o português era igualzinho ao inglês, bastava trocar o "i" por "ai". A meio da noite, apertadinho, o presidente do Conselho chamou, com o mais perfeito sotaque londrino - Ó Chaico, traz-me o penaico!
Era apenas uma anedota, um bocado ingénua, talvez oposicionista, se calhar Salazar até sabia falar muito bem inglês, basta ouvir António Guterres hoje em dia, mas foi dela, da anedota, e dele, Salazar, que eu me lembrei ao ouvir os "aitens" da Senhora Presidenta.
Eu sei que Luísa Salgueiro não está sozinha quando assim manifesta esta espécie de analfabetismo chique (aliás, "chaique"). Os "aitens" andam por aí de boca em boca, na boca de toda a gente, repetidos, normalizados, modernos, na moda, como se a patacoada já fosse regra gramatical. Não é. E, confesso, incomodou-me, doeu-me, envergonhou-me particularmente ouvir a Senhora Presidenta a asnear ali na rádio nacional, à vista do país inteiro. Fiquei sentido por ser ela. Tocou-me como se fosse comigo. Porque, a verdade é só uma, moro em Matosinhos, a Senhora é a minha Presidenta, passa-me uma vez por ano por baixo da varanda, a acenar, na procissão, e eu, ainda por cima, faço-lhe muito gosto.
(Agora outra coisa, que não tem nada a ver. As velhas anedotas de Salazar, que certamente ele também terá herdado de outro figurão que eu não sei, passaram depois para Samora Machel, primeiro presidente de Moçambique independente. E assim sucessivamente.)
Etiquetas:
anedotas,
ANMP,
Antena 1,
Câmara de Matosinhos,
Casa da Música,
fascismo,
língua portuguesa,
Luísa Salgueiro,
Matosinhos,
municípios,
Orçamento de Estado,
rádio,
Salazar,
Samora Machel,
série Memórias de Fafe
segunda-feira, 19 de outubro de 2026
Os missionários era como se fossem cobóis
Jesus bem fala, mas ninguém liga
Num dos seus inusitados momentos de imodéstia, Jesus Cristo disse: - A minha vida dava um filme! E deu. Deu até vários filmes. Quer-se dizer, deu centenas de filmes, alguns deles musicais. Jesus tinha dito "um filme". Mas, cá está, ninguém faz o que Ele manda...
Pedindo meia dúzia de palavras emprestadas a Emmanuel Carrère, do seu livro "O Reino", os missionários, quando começaram e durante séculos, foram, por outro lado, umas criaturas que a Igreja mandou por esse mundo fora para baptizar os selvagens sem lhes pedir opinião.
Subscrever:
Mensagens (Atom)