sábado, 13 de junho de 2026

Está nas nossas mãos

É de homem
Homem que é homem não joga à malha. Faz.

Há que tempos que eu não via uma coisa assim: uma mulher, ainda nova, a fazer malha num transporte público. Descontraída, com um sorriso nos lábios e manuseando habilmente o frenético par de agulhas, como num duelo, ia dando forma ao novelo de lã que, aos arranques, se lhe esvaía do colo. Era uma camisola, pareceu-me. E, a cena, um delicioso anacronismo. O metro do Porto é sítio para tudo, já vos digo, principalmente para tudo o que meta navalhas, apalpanços, telemóveis, bisnagas amaciadoras e calhamaços do José Rodrigues dos Santos ou do Stephen King. Mas fazer tricô é que eu nunca tinha visto. E gostei.
Passaram-se dois dias. Num jardim fronteiro à praia de Matosinhos, um jovem casal gozava o sol de fim de Verão e aproveitava para ensinar a filhita a andar de bicicleta. O pai acompanhava a menina em correrias, dando-lhe as instruções elementares, mas a mãe sentou-se. Sentou-se, abriu a bolsa, rapou de um pequeno embrulho que eu primeiro não distingui e, com a agilidade de uma experimentada bonecreira, começou a bater-se com quatro-agulhas-quatro, tantas quantas são precisas para tricotar meias de lã. Era o que ela fazia, uma meia. E percebi.
Percebi que isto agora não é só gosto, moda ou revivalismo, terapia ocupacional. É sobretudo precisão, que neste caso quer dizer necessidade. Isso. Voltámos ao melhor do pior de antigamente. O Portugal democrático, da Europa, dos milhões, das auto-estradas, das universidades, dos satélites, da inteligência artificial e do século XXI é afinal igual ao Portugal fascista e "orgulhosamente só", poeirento, obscurantista e pobre do tempo em que a minha mãe, por imposta carência e esperta poupança, fazia todas as minhas camisolas e as camisolas dos meus irmãos, e que categoria que elas eram, tenho uma comigo vai para cima de quarenta anos...
Por outro lado, lembrei-me, pode estar exactamente aqui a salvação do País. Permiti-me que lance o desafio: porque não transformar o tricô num desígnio nacional? Porque não começarmos todos a fazer malha para fora? Ou entrançados de palha de Fafe? Porque não pôr este país de desempregados e falidos a dar ao dedo de norte a sul e ilhas, elas e eles, e apostar na internacionalização e exportação em barda das nossas ricas peças, tão procuradas por turistas e similares? Sim, porque não? Afinal, o que é que as natas, os pastéis de Belém e o pudim da TV são mais do que os camisolões, os coturnos ou os chapéus e seiras genuinamente made in Portugal? E quem diz Portugal, diz Golães, Paços ou Travassós.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

A mania da praia

Uma questão de tempo
"Agora, infelizmente, é apenas uma questão de tempo", disse o médico. E continuou: "Para amanhã prevêem-se aguaceiros, em especial nas regiões Norte e Centro, vento forte nas terras altas, pequena descida de temperatura e agitação marítima forte na costa ocidental."

A praia, é preciso que se note, não é obrigatória. Podem ser férias e não ir à praia. Pode ser Verão e não ir à praia. Pode ser feriado e não ir à praia. Pode ser domingo e não ir à praia. Pode ser sol e não ir à praia. Pode ser calor e não ir à praia. Pelo contrário: se for sol, se for calor, muito calor, o mais sensato até será ficar em casa, à sombra, ou procurar uma fresquinha no quintal mais próximo. Acreditai no que vos digo, há quarenta anos que moro à beira-praia e sei muito bem do que falo. E palavra de honra: não ir à praia não parece mal, não é crime e tampouco desmazelo ou falta de educação.

Brincando com o trabalho infantil

Cresce e aparece
A verdade é esta: se quer ser levado a sério, o trabalho infantil precisa de crescer.

O trabalho infantil é uma tragédia, uma vergonha, sobretudo se a criança ajudar no campo os pais pobres e lerdos para haver alguma comidinha à mesa. Pão, por exemplo. E era assim em Fafe antigamente, as crianças trabalhavam como gente grande.
O trabalho infantil é muito bem, um orgulho, principalmente se a criança entrar numa telenovela ou se for modelo de moda ou se for imitador de cantores adultos e der na televisão, enriquecendo os pais remediados e vaidosos. E a parte da televisão é aqui importantíssima.
Depois há ainda as crianças, estas são do piorio, que, órfãs de tudo e até de tecto, fazem sapatilhas de marca para os pés das entrevistadoras e dos entrevistadores da televisão que entrevistam as crianças que entram nas telenovelas e nas passarelas e nas cantigas e para os babados progenitores, que no fim pedem recibo de viagem e presença para descontar no IRS.
Parece que a diferença está nisto, segundo percebi uma vez no programa Sociedade Recreativa da RTP: os miúdos das telenovelas e da moda e do cançonetismo têm "agente". Os moncosos do campo, das fábricas, da rua, não.

E sabeis que mais? Portugal aprovou o primeiro regulamento do trabalho de menores em estabelecimentos fabris no dia 14 de Abril de 1891. Sim, do trabalho de crianças nas fábricas. E acredito que tenha sido um grande avanço civilizacional.

A minha rua era um largo

Foto Hernâni Von Doellinger

Memória
Ele era um notável decorador de interiores. Para exteriores é que já não tinha muita cabeça.

A minha rua era um largo. Santo Velho, como lhe chamavam os antigos, ou apenas Santo, o Santo, como lhe chamávamos nós os íntimos, os da rua propriamente ditos, ali nados e criados, os que já sabíamos do britânico Roger Moore, que fazia de Simon Templar na televisão do Peludo, a preto e branco, isto antes de atravessar a rua e fazer de 007 no nosso Teatro-Cinema, já a cores. Evidentemente que, para os devidos e legais efeitos, a minha rua tinha nome de data: Largo 9 de Abril, curiosamente à moda do Porto, onde 9 de Abril costuma dizer-se Arca d'Água. Eu, que até sabia da Batalha de La Lys, nunca consegui perceber o que é que a guerra de catorze a dezoito tinha a ver tão especialmente com a minha rua, e pelos vistos os doutores da Câmara também não, uma vez que de repente, não sei precisar quando, resolveram mudar-lhe o nome para Rua dos Bombeiros Voluntários. E fará um pouco mais de sentido chamar-lhe assim, embora não tenha sido por isso: na minha rua havia realmente bombeiros em quase todas as portas, e nalgumas casas eram a família inteira.

O Santo Velho era Velho por causa do Santo Novo, uns campos de milho ao lado, onde se estabeleciam o Colégio dos ricos e a Escola Industrial dos remediados, que é hoje a Casa da Cultura. Os pobres, que aguentavam a pirâmide, iam trabalhar para a Fábrica se tivessem sorte. Em Fafe, a Fábrica assim com maiúscula, fábrica por antonomásia, era a Fábrica do Ferro, que por acaso era de fiação e tecidos.

A minha rua era um terreiro onde jogávamos ao espeto, ao pião e à bola, o que, neste último caso, arreliava sobremaneira a Milinha Parola, que ameaçava estraçalhar-nos o esférico à tesourada, bastava que lhe fizéssemos alguma tangente aos vidros sempre limpos. A Milinha era Parola (ou Modista, como eu gostava mais) para se distinguir da Milinha Vaqueiro, quatro números acima. As Milinhas não se davam e a minha mãe é que intermediava. Porque o Santo, ou não se chamasse assim, era sobretudo um território de paz, de famílias, de família. Os miúdos éramos todos uma irmandade, os pais e principalmente as mães às vezes é que não, mas muito raramente. Na minha rua éramos vizinhos. Éramos comunidade.

A minha rua era um largo com vista para o mundo. O mundo era então cientificamente plano, a descair para o Picotalho e para a Granja e delimitado em cima pelos tascos do Paredes e do Zé Manco, com as Grilas de um lado e as Turicas do outro, e em baixo pela Quelha, pela Poça e pela casa brasonada com capela do Senhor Doutor, onde o Senhor Abade ia dizer missa com esmolas. Pela Páscoa, era na Casa do Santo Velho que se reuniam todas as cruzes no fim tardeiro do compasso, seguindo depois para a Igreja Nova, em galhofeira procissão de sinetas exaustas e descompassadas, nas últimas. Tínhamos o poeta Zé de Castro, duas tílias e um cilindro. Tínhamos velhotas excêntricas. Tínhamos bebedolas residentes e bêbados de visita. Tínhamos casas de lavradores, esfolhadas nocturnas e matança do porco. O Santo cheirava a eido, a estrume, a engaço, a vinho purinho e a pão. A minha rua cheirava a vida. Tínhamos o Maló cantando Frei Hermano da Câmara na esquina do velho Lermas, tínhamos o ceguinho das quartas-feiras e a Mocha e a Senhora Filomena com sardinhas, fanecas e chucharros, indesmentíveis chucharros.
Tínhamos as castanhas assadas da Maria Barraca e os tremoços na Marrequinha da Recta. Tínhamos o funileiro Barnabé que era músico mas não tocava tangos, um sapateiro, um carpinteiro que foi para França, duas ou três loucas mansas e o Professor Luís, que, esse sim, tocava na guitarra eléctrica o "Apache" dos Shadows muito melhor do que os próprios, e no entanto já era careca o bom Professor, o que me confundia um bocadinho. Eu plantava-me no meio da rua a ouvi-lo, deliciado. Eu era a terceira tília, cresciam-me raízes nos pés. Tínhamos carros de bois gemendo pelas manhãs e rebanhos de cabritos nas vésperas da Senhora de Antime e da morte. Tínhamos o Chiquinho Varandas, que uma ocasião andou à luta com o macaco do Homem Mais Forte do Mundo. Tínhamos padeira, azeiteiro e mendigos ao domicílio. Os mendigos chamavam-se pobrezinhos. Tínhamos tojo estalando ao sol no passeio. Corríamos à coiada os moços das outras ruas, queimávamos o Pai das Orelheiras pelo Entrudo, cantávamos as Janeiras e os Reis, celebrávamos o Dia dos Enganos, desajudávamos nas vindimas do Sr. José e do Sr. António e nas lavras do Tónio Quim Calçada, os três bombeiros e mestres de vida, íamos de borla ao cinema, que era praticamente nas traseiras da rua, festejávamos o Santo António de Lisboa e de Pádua, vede lá o cosmopolitismo, encostando a cascata ao cilindro abandonado, se calhar por empreiteiro falido, do lado de lá das casas do Sr. Agostinho Cachada e do Sr. José Sacristão, gente também de primeira e bombeiros obviamente. A procissão da Senhora passava-nos à porta e tocava a sirene da Bomba. O nosso Santo António era de arromba. Botávamos altifalantes a sério, "Tango dos Barbudos", "Fado das Trincheiras", o "Je T'Aime Moi Non Plus", que me incomodava o andar e eu ainda não sabia porquê. Fogueteávamos a bom foguetear: eram foguetes de três-croas, foguetes envergonhados, quase peidos, se me dais licença, géu, géu, trás, trás, adeus e até ao próximo. E tínhamos girândolas e diabos-encaixados. Tudo comprado no Rates, que era mais ou menos no local onde esteve escondido o monumento à Justiça de Fafe, anos a fio, e que agora é uma praça como muito uso e sítio de peregrinação. Quase tudo comprado no Rates, devo corrigir-me, em abono da verdade. O Rates era o proprietário mas também o sítio, lojinha de uma porta só, minúscula, escura, esconsa, tipo vão de escada, e nós íamos em bando para nos aproveitarmos das distracções do homem, a antipatia enfiada numa larga bata de sarja cinzenta e com manguitos negros, e metíamos ao bolso tudo o que lá coubesse. Levávamos muitos bolsos e o mais certo é que o Senhor Rates até fosse boa pessoa.

Estávamos portanto no Santo Velho, quando a minha rua era um largo de terra e tílias e nem desconfiava que um dia havia de ser uma estrada com dois cruzamentos, semáforos e tudo. Hoje a nossa cascata seria multada por estacionamento proibido. E nós morremos ignorantes e breves, desmemoriados pedra a pedra.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Cruzes, canhoto!

Sismando
Ao contrário do que o próprio nome indica, o Happy Centro é um sítio deveras perigoso.

O canhoto é o diabo. O demónio. Satanás. O que escreve com a mão esquerda. O que chuta com o pé esquerdo. O canhestro. Ou o desajeitado. Ou o talão que não se destaca no livro de recibos, guias ou cheques. Ou o pedaço de lenha para a fogueira, o pau torto, grosso ou nodoso. Em Fafe, é também o arrocho, o toro, o tronco, o toco, a pernada decepada, o cepo. E a mulher do canhoto é a canhota. Que é uma variedade de amêndoa algarvia, de fruto arredondado, com casca dura e miolo elíptico alargado de tonalidade clara. Ou um moinho de água, uma azenha. Ou a espingarda, na tropa. É. A língua portuguesa pela-se por uma boa brincadeira.

O meu cinema paraíso

Foto Hernâni Von Doellinger

A subtil diferença entre espetador e espetador
Qual é a diferença entre um espetador e um espetador? Numa tourada, por exemplo, o que é que distingue os espetadores dos espetadores? Uns pagam bilhete e os outros recebem cachê, será? E espetadores de gelo: são adereço de filme de "suspense" ou audiência que não reage, por melhor ou pior que a fita seja? O que devo pensar quando leio um título de jornal que me diz que "Acidente em rali francês provoca a morte a dois espetadores"? Como morre um espetador? O que faziam dois espetadores num rali francês? E, já agora, no "voyeurismo", quem é o verdadeiro espetador: o que fica a ver ou o outro, o propriamente dito?

Eu era miúdo. Éramos todos miúdos, como nos convinha. E íamos em bando até à porta da Dona Laura Summavielle, filha, que morava à beira da Igreja Nova. Os Summavielles (Sumaviéisss, se lido e dito à nossa moda) eram os donos do Teatro-Cinema de Fafe, do Cinema, assim explicado sem outros salamaleques. E nós íamos pedir à Dona Laura, que devia ser o melhor coração da família e para mim era o melhor coração do mundo, que nos levasse a ver o filme. De graça. E a boa senhora levava.
A coisa tinha o seu ritual. Esperar à porta do cinema não valia, tínhamos de ir mesmo a casa da Dona Laura, que também não era longe. Éramos para aí uns seis ou sete, às vezes menos, consoante o lado para que tinham acordado os pais de cada qual, e devíamos lá chegar pelo menos com uma boa meia hora de avanço em relação à hora de saída prevista da senhora. Chegávamos e esperávamos. Não se batia à porta, não se tocava na campainha, esperávamos apenas, calados como ratos, porque o mais pequeno ruído podia deitar tudo a perder. Como se fosse a morte do artista.
A senhora saía, encarava-nos sempre com um grande sorriso e nós continuávamos sem dizer nada, nem era preciso. Púnhamo-nos atrás dela, em fila, como pintainhos seguindo a mãe galinha, e, agora que penso nisto, acho que devia ter sido uma coisa bonita de se ver, aquele extravagante grupo a atravessar o Largo da Igreja e a descer até ao Cinema, na máxima compostura e no mais religioso silêncio.
A Dona Laura entrava e nós ficávamos cá fora, bem guardados pelo Senhor Leitão porteiro, que era mau como as cobras e vestia um capote castanho, com botões dourados e gola vermelha, que até parecia um general soviético, embora na bilheteira é que estivesse o Senhor Castro, comunista, alfaiate e bom amigo. Também por lá passou o estimado Sérgio Lopes.
Perdíamos os desenhos animados, perdíamos os "documentários", mas na horinha do arranque do filme a sério vinha a ordem da Dona Laura e imediatamente desatávamos a correr Cinema acima, dois andares a bater chancas em chão de soalho com escarradores, numa trovoada que quase deitava a casa abaixo, até chegarmos ao nosso sítio. Só ali voltávamos a portar-nos bem, sempre perante o olhar bondoso e compreensivo da nossa protectora, que, do seu camarote ao lado da cabina de projecção do Senhor Reinaldo Pires, nos lançava mais um sorriso, com o dedo de chiu sobre os lábios finos.
O nosso sítio era uma frisa e cheirava a veludo velho e tabaco. Quase que pertencíamos ao filme! O som dos altifalantes entrava-nos pelo corpo dentro, estremecia-nos, eu era do tamanho dum buraco do nariz do Maciste e tinha de me afastar para não desaparecer na caverna. Foi ali que eu conheci pessoalmente o Ursus, o Spartacus, o Ben-Hur e o Hércules e podeis crer que aqueles cenários de papelão só pareciam de papelão, de resto eram mesmo a sério, e eu acreditava que era por causa do papelão que os filmes eram peplum. Eu sei, porque estive nos filmes. Fui eu que ajudei o Sansão a dizer "morra Sansão e todos os que aqui estão", para eu e ele nos vingarmos da traidora da Dalila e acabarmos com o filme logo ali, porque aquilo não se faz, e não me venham dizer que ele não disse nada disto. Dissemos!
Perguntassem ao "Sandim". Ele é que ia à estação de comboios "buscar os artistas", num carrinho com rodas de madeira. Mas não trazia os beijos todos. Não cabiam nas bobinas, decerto. As cópias dos filmes eram velhas, cheias de cortes, no melhor e mais quentinho passavam sempre à frente. Como o Jornal da Igreja Nova trazia uma sinopse das películas do fim-de-semana, nós achávamos que o Senhor Arcipreste fazia um visionamento prévio e culpávamo-lo por aquele imperdoável acto de censura. Mal eu sabia que ainda havia de ser feito um filme sobre esta minha história, mas em italiano.
No meu Cinema moravam cobóis, e nem sei como é que nunca morri com um tiro. No tempo em que o que eu queria era crescer para ver filmes "para maiores de 17", havia também umas senhoras da Rua de Baixo e de Santo Ovídio que faziam de arrumadoras e tomavam conta do buffet, onde serviam gasosas, laranjadas, café de cafeteira e rebuçados mulatos. Ao intervalo, enquanto o ardina entrava plateia dentro com a edição do Norte Desportivo de domingo à noite, já com os resultados e relatos dos jogos todos, os espectadores recebiam umas senhas para irem lá fora tomar café em condições.
No meu Cinema liam-se as legendas em voz alta para os analfabetos que não eram poucos. O meu Cinema era coisa fina. Em miúdo, nos intervales, perdendo-me na contemplação dos tectos, ali mesmo à mão, eu imaginava o belíssimo Teatro-Cinema de Fafe como uma pequena sala de ópera, um São Carlos à nossa moda e medida. E, se quereis saber, ainda imagino. Se fosse hoje, após a merda do chamado acordo ortográfico, perder-me-ia nos tetos, o que, apesar de tudo, também poderia ser bom. Chegada a época, jogava-se ao Carnaval com muita estupidez, serpentinas, pimenta e peidos-engarrafados, e constava que, após o filme, havia baile no salão nobre para meninas e meninos bem. O respeito e a, como hoje se diria, segurança eram zelados pelo Senhor Barroco, pelos Senhor José e Senhor António do Santo, irmãos, e pelo Tónio Quim Calçada, o Senhor António Quim, ou Tónio Quim, que, derivado ao nome e por trabalhar no mesmo ramo, eu sempre confundi com o outro, o de "Zorba, o Grego", o mexicano-americano Anthony Quinn, que, por sua vez, eu confundia com o outro outro, o de "Um Violino no Telhado", isto é, o israelita Topol. Foi na companhia desta gente que eu cresci. Mal comecei a ganhar, larguei a frisa e passei a ter bilhete reservado para todas as sessões. O meu primeiro dinheiro foi sempre para o cinema. Durante anos, mantive lugar no camarote do outro lado da cabina de projecção do Senhor Reinaldo Pires. Simétrico à Senhora Dona Laura Summavielle, minha querida benfeitora, aquilo é que foi subir na vida. Melhor era impossível.

Quer-se dizer. Sou do cinema desde pequenino. Sou do cinema por causa do meu Cinema. Deixei Fafe no início da década de 1980 e o meu Cinema entrou em ruína. Pensei que outros tivessem ficado a tomar conta, mas enganei-me. Depois de 25 anos de inactividade, muita politiquice e um impressionante trabalho de recuperação, o Teatro-Cinema de Fafe reabriu portas em 2009, sem Maciste, sem Sansão nem Dalila, sem o Senhor José do Santo e sem a Dona Laura Summavielle. Já lá não estão, já cá não estão. Os cobóis também foram despejados. O novo Teatro-Cinema de Fafe, que só conheço por fora, funciona agora, sem hífen, como entreposto cultural camarário. O que é certamente aplaudível e tem muito mais cagança - mas não é a mesma coisa.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Todos à sacristia!

Os santos impopulares
O dia 12 de Junho é de Santo Onofre, considerado, por exclusão de partes, um dos mais de vinte mil santos impopulares da Igreja Católica. Por tradição, na noite de Santo Onofre desfilam as marchas em Lisboa e comem-se sardinhas assadas, mas isso é já derivado ao santo do dia seguinte, o nosso Santo António, um dos três únicos santos da corda - Santo António, São João e São Pedro, os santos populares, virais, com milhões de seguidores e, há quem acredite, algumas visualizações.

Fafe das aldeias, no tempo das romarias. Do alto do campanário, os altifalantes falaram como se fossem Deus. Estavam zangados e só lhes faltava a sarça ardente: "Atenção, muita atenção! No final da procissão há reunião da comissão deste ano para ver se se arranja comissão para o ano. Todos à sacristia! Se não se arranjar comissão, para o ano não há procissão". E mais nada.
Eu ainda não tinha sido apresentado à palavra pragmatismo. Quando, bastante mais tarde, tomei conhecimento, percebi logo que pragmatismo era aquilo da comissão e da procissão.