terça-feira, 7 de abril de 2026

O roxis e o Sr. António Maneta

Fazendo pela vida
O médico deu-lhe dois anos. Ele pediu seis. O médico contrapôs três e que não podia dar mais. Ele exigiu cinco, senão nada feito. O médico disse quatro e não se fala mais nisso. Ele, negócio fechado.

O roxis, quereis saber o que é? Então cá vai. O roxis é da família do taco, mas muito mais antigo, e é sinónimo de chapa, porque ir fazer um roxis ou ir fazer uma chapa era exactamente a mesma coisa. O Hospital de Fafe, no tempo em que quem lá mandava era a "Mamer", tinha uma máquina de roxis muito velha, numa sala muito escura ao lado da urgência, que era o banco, e da escadaria interior que levava à capela, que era também salão nobre. Por baixo das escadas, porta com porta, num quartinho para anões muito arrumadinho, morava o Toninho, ou seja, o Sr. António do Hospital, a quem também chamavam Maneta, Sr. António Maneta ou Toninho Maneta, isto dito com mais burrice do que malícia, e que era, para além de telefonista e porteiro, fumador obstinado e habilidoso, havíeis de o ter visto a manusear a caixa de fósforos, e um dos maiores apaixonantes da Banda de Revelhe, honra lhe seja. Apesar da sua estratégica localização, ali entre a vida e a morte, e mesmo em frente ao Toninho, o aparelho de roxis tinha dia certo e horário de expediente para funcionar. A sua operacionalidade dependia, se não estou em erro, da indispensável presença ou pelo menos orientação do Dr. Mota Prego, que tinha um nome assim de categoria e vinha de propósito de Guimarães para tratar destes assuntos.
Quer-se dizer, o Dr. Mota Prego era o nosso especialista em roxis, e uma vez ele e o Dr. Antero, creio, trataram-me muito bem de uma clavícula partida que era a minha vaidade na escola primária e hoje em dia ainda me dói. E o Sr. António carregava no erre quando me chamava Herrenâni...

O Sr. Moura era de filme

Como um passarinho
Morreu como um passarinho. Abatido a tiro.

Chega o tempo das gripes, das constipações, da tosse, do nariz entupido, das febres e das dores de garganta, e eu lembro-me do Quinzinho da Farmácia, que tantas vezes me acudiu na minha infância e juventude. O Quinzinho da Farmácia Moura, em Fafe. É. Lembro-me logo do Quinzinho, sorrio, vejo-o como se fosse hoje, ouço-lhe a voz, perfeitamente, as recomendações, mas depois apanho-me a pensar: que estúpido, que injusto que sou, e então o Sr. Moura propriamente dito? Sim. O Sr. Moura da Farmácia Moura, em Fafe. O que pensar e dizer dele?
E então puxo a fita atrás. O Sr. Moura tinha mais de 200 anos e uns óculos muito pândegos e parecia uma figura dos filmes da Walt Disney para crianças. Eu gostava muito de o ver lá ao fundo, na mesa grande do laboratório, a inventar remédios e talvez perfumes, a tomar notas, a fazer contas, a conferir apontamentos em folhas manuscritas e desencontradas, amarelecidas, no meio de uma babilónia de balões, provetas, tubos de ensaio, pipetas, espátulas, pinças, lâminas, balanças, funis, almofarizes e pilões, serpentinas, condensadores, quem dera que também bicos de Bunsen, isso, porque estou a imaginá-los, rodeado por uns armários enormes e antigos, altos do chão até ao tecto, a toda a volta, cheios de frascos, frasquinhos e campânulas, garrafas, garrafões, caixas e caixinhas, sacos, sacas, saquinhos e saquetas que eu adivinhava abundantes de matérias-primas preciosas, fluidos insondáveis, pomadas da casa e a granel, bicarbonato, pós de perlimpimpim, pétalas delicadas de flores exóticas, especiarias do fim do mundo, sementes, raízes e plantas raras e milagrosas, aromas intensos e contraditórios, e ao canto, estou em crer, uma vassoura encantada, aprendiza e ajudante, trabalhadeira, à espera das ordens do velho mestre. A mesa e os armários, em madeira, escura, pesada, eram da idade do Sr. Moura. Aquilo dos óculos esquisitos seria decerto obrigatório para os farmacêuticos naquela época, porque o Quinzinho também tinha. O Sr. Moura, parecendo que não, ditava a moda.
Ainda para mais, o bom do Sr. Moura, que morava por cima do estabelecimento, na Rua Montenegro, atendia durante a madrugada, se lhe tocassem à campainha para acudir a uma aflição inopinada, no tempo em que não havia farmácias de turno nem intercomunicadores ou videoporteiro. Com aquele aspecto de velhinho precoce, sábio ancestral, feiticeiro, alquimista, eterno príncipe dos manipulados, o Sr. Moura assomava ao patiozinho do 1.º andar, informava-se do que era, descia as escadas em chinelos de quarto ou enfiado nos sapatos três números acima, com o pijama a espreitar por baixo das calças vestidas à pressa e às vezes embrulhado no roupão, só lhe faltavam a candeia na mão e o barrete de dormir, resmungava por todos os lados, mas, a verdade é só uma, salvava o povo. E essa é que é essa.

O Quinzinho da Farmácia

A azia
O grande problema do engolidor de espadas era a azia. Aliás, mudou de ofício, por indicação médica.

Antigamente, em Fafe, o Serviço Nacional de Saúde chamava-se Quinzinho da Farmácia e funcionava muito bem. O Quinzinho da Farmácia era evidentemente farmacêutico e sobremaneira autodidacta. No seu ofício de boticário, o Quinzinho era o melhor médico do mundo, o médico privativo e gratuito dos pobres da vila e arredores, o verdadeiro médico de família ainda os médicos de família nem sequer tinham sido inventados.
Em caso de fanico arrevesado ou maleita repentina, primeiro ia-se ao Quinzinho, que tratava toda a gente por tu e tinha uma voz arrastada e grossa por baixo de um bigode em forma de bigodinho e lá em cima, para o trabalho, uns óculos muito cómicos de tirar e pôr que me faziam rir. Ir ao Quinzinho era uma espécie de rastreio, uma primeira opinião, que até podia ser definitiva. O Quinzinho, que me apresentou à Pasta Medicinal Couto e mais do que uma vez salvou as minhas desgraçadas amígdalas de irem ao corte, observava cada caso minuciosamente e decidia. Se o assunto fosse da sua competência e não ultrapassasse os seus saberes, a questão ficava ali mesmo remediada sem outras alcavalas senão o preço geralmente módico dos medicamentos logo usados ou aviados para consumo doméstico, e apenas quando tal era necessário. Aos casos mais bicudos, que lhe chegavam frequentemente, às vezes em pressurosos carros de praça que se acotovelavam à porta da Farmácia Moura, impedindo o trânsito na Rua Montenegro, mesmo em frente aos Mercadinhos, o Quinzinho reencaminhava-os na hora para os médicos encartados ali das redondezas, não raramente sugerindo este ou aquele clínico, consoante as sintomatologias averiguadas, ou então despachava-os com urgência directamente para o hospital. E a engrenagem resultava. Eu estou em crer que o homem merecia um nobel! Da medicina, da química, da física, da economia, da literatura - o Quinzinho ensinava bulas a analfabetos -, da paz, da compaixão, não sei bem, mas um nobel de certeza, isso é que eu sei.
E sabeis que mais? Gosto de pensar que foi a partir do nosso Quinzinho que os ingleses inventaram, muitos anos mais tarde, em 1994, o Protocolo de Manchester. E essa é que é essa.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Apois, se não for antes

Era uma vez
Ela viu um sapo e levou o sapo para casa. Beijou o sapo, beijou o sapo, beijou o sapo, mas o sapo continuou sapo. Então ela deitou o sapo fora e comprou um grilo.

No português do Brasil, a palavra apois quer dizer pois, já que, pois que, visto que, como se fosse, me conte. No português de Fafe, isto é, no fafês, apois era corruptela, sinónimo e substituto popular de depois, portanto querendo também dizer após, mais tarde, posteriormente, a seguir. "Vai indo, que eu vou apois". E era assim que se contavam as histórias antigamente: - Apois, disse o rei à sua princesa...

O homem-rã

Água vou!
"Nado e criado, ao seu dispor", era o que ele dizia, apresentando-se como nadador-salvador e vigilante de piscinas. 
 
O homem-rã apareceu à tona em câmara lenta e saiu da água com toda a calma do mundo, perante o evidente embaraço do casal de patos-bravos que faz segurança ao local. Vestia um blusão cor-de-laranja que dizia nas costas "Bombeiros Voluntários de Fafe", "BVF", passou por um bando de turistas inesperadamente japoneses e acabadíssimos de descarregar no novo terminal de cruzeiros da Barragem de Queimadela, sorriu para os flaches e continuou naquele andar cómico até ao bar da praia fluvial. Entrou no bar, saltou para cima de um banco, depois saltou para cima do balcão e mandou vir, com uma nota de cinco euros na mãozinha verde e imperativa: - Coach!, coach!

Eu tive um sapo

Os engolidores
Engolidores, há-os. Como por exemplo engolidores de sapos, metaforicamente falando, engolidores de fogo, que na verdade não engolem mas borrifam, e engolidores de espadas. Engolidores de copas e engolidores de ouros não sei, mas engolidores de paus também há-os.

Tive uma infância feliz, em Fafe, rodeado de animais de estimação, ditos agora de companhia. Tínhamos um cão chamado Rin Tin Tin, tínhamos uma cadela chamada Lassie, tínhamos um canguru chamado Skippy e até tínhamos um cavalo chamado Mister Ed ao qual nem faltava falar. Eu ia vê-los ao café, porque em casa não tínhamos televisão.
Tínhamos também um sapo. Isto é, uma vez à noite tivemos um sapo, mesmo nosso, nem foi preciso ir ao café ver televisão, se o Sr. Avelino estivesse bem disposto e por acaso a ligasse, mas não lhe pusemos nome. Ao sapo. Ao Sr. Avelino pusemos, era o "Hoss", por causa do gordo do Bonanza. Mas eu conto a história do sapo.
A porta da nossa casa no Santo Velho tinha, em baixo, junto ao chão, um bocadinho de folheta levantada, e era ali que se deixava a chave, de uns para outros, éramos pelo menos seis, como, por exemplo, à noite, quando a nossa mãe já nos dava licença de saída até às 22 horas, ao Nelo e a mim, e depois no regresso a gente metia a mão no buraco, tirava a chave, que era enorme, digna de São Pedro, há que dizê-lo, abria a porta em câmara lenta, a monumental chave de bico calado, bem oleada, e entrávamos em casa com os pés debaixo dos braços para não fazermos barulho, a nossa mãe fazia de conta que estava a dormir e portanto só de manhã é que nos acertava o passo por termos chegado às 22h01.
Acontece que. Uma noite, findo o serão, estamos à porta, e o Nelo, que é mais velho e foi sempre mais medroso, manda-me apanhar a chave. Eu meto a mão no vazio da folheta e, em vez da chave, agarro um enorme sapo que lá se tinha enfiado, filho da puta, e apanhei um susto que me ia mijando todo, estremeci-me até hoje, argh!, enchi-me de nojo, cachicha!, arranquei a mão como se a tirasse do fogo e rasguei-me na chapa ferrugenta, gani, vomitei, cocei-me antecipando verrugas para toda a vida, palavra de honra, e o caralho do sapo, como se não fosse nada com ele, saiu nas calmas felizmente para o lado da rua, caso contrário eu nunca mais entraria em casa. Entrámos, a nossa mãe a pé, à nossa espera, e a hora de picar o ponto já não interessava para nada. Levámos logo ali, por causa do sapo, da ferida, do vomitado, do barulho, quer-se dizer, do "espectáculo", que a nossa mãe não tolerava, fosse em que circunstância fosse. Tudo por minha culpa. Ainda por cima eu tinha dito "argh!" e em nossa casa, que era muito pobre, estavam terminantemente proibidas as onomatopeias, sobremaneira as derivadas dos livros aos quadradinhos, um luxo...

Os sapos à porta realmente incomodam-me. E metem-me nojo sobretudo os sapos à porta dos restaurantes ou de outros estabelecimentos comerciais. É. Como sou um bocado cigano, recuso-me também a entrar.
Os sapos às vezes são de engolir, como aconteceu com Álvaro Cunhal e o PCP na segunda volta das eleições presidenciais de 1986, para derrotar Freitas do Amaral, candidato da direita, e, só por isso, eleger Mário Soares. "Vamos ter de engolir um sapo. Se for preciso, tapem a cara [de Soares] com uma mão e votem com a outra", recomendou Cunhal aos comunistas. Para se distinguirem dos faquires, que engolem facas, os engolidores de sapos chamam-se sapires.

No velho tasco do Toninho Nacor, em Fafe, havia um sapo que era um jogo, na zona cimentada do quintal logo depois da cozinha, por baixo do sombroso caramanchão, ao lado das famosas gaiolas dos pássaros e do forno de barro que assava vitela e cozia o bolo de milho para as sardinhas. O sapo era um jogo tradicional e de taberna, um jogo de mesa em forma de armário aberto com inúmeras ranhuras correspondentes a outras tantas gavetas. Jogava-se com pequenas patelas, que se lançavam para o "armário" e cada entrada correspondia a uma certa pontuação. A boca do sapo era o máximo, se não me engano. Servia para matar o tempo enquanto se esperava pela hora da merenda e dali poderia sair também "multa" aos perdedores para próximas quartilhadas.
Sobre este interessante assunto, os sapos, apraz-me finalmente registar que o Sapo, primeiro motor de busca português, foi criado por cinco estudantes da Universidade de Aveiro, em 1995. Antes disso, mas em Penafiel, o Sapo já era um famoso restaurante de enfarta-brutos e conceituado estabelecimento de compra e venda de árbitros de futebol. Outros tempos!

domingo, 5 de abril de 2026

Esta maneira fafense de sermos

A vespa asiática
A diferença entre as abelhas e as vespas. As abelhas são insectos himenópteros, da família dos Apídeos, que vivem em enxames e produzem mel e cera. As vespas são lambretas ou, vá lá, motorizadas para senhoras, desculpai-me a expressão...
E depois há as vespas asiáticas. As vespas asiáticas, diga-se em abono da verdade, são principalmente Honda, Yamaha e Suzuki. Mas também Zongshen, Lml, Lifan, Generic, Kinroad, Jincheng, Znen, Masaï, Keeway, Baotian, Sym, Pgo, Kymco e TNT. Isto apenas por exemplo. E são realmente uma praga.

Vou a Oliveira de Azeméis, por exemplo, e levo uma data de "Ó jovem!", geralmente debitada por pessoas de bandeja na mão e com idade para serem, vá lá, meus netos. Afino! Ai, se soubessem como eu afino! Vou ao Porto ou a Lisboa, por exemplo, e atiram-me "Ó chefe!" acima e "Ó chefe!" abaixo, pessoas que não me conhecem de lado nenhum e com idade, vá lá, para terem juízo. Fico escamado! Ai, se soubessem como eu fico escamado! Por outro lado: vou a Fafe, por exemplo, e as pessoas, algumas com idade para serem, vá lá, meus filhos, chamam-me "Meu rico menino!", e eu aprecio, gosto. Fico feliz da vida! O carinho interessa-me, faz-me jeito. Quer-se dizer: todas as terras são por exemplo, mas algumas são mais por exemplo do que outras. E neste particular, deixai-me que vos diga, Fafe é, modéstia à parte, uma terra por exemplíssimo.

É. Basta reparar no modo carinhoso como tratamos a comida, isto é, a comidinha. Esta maneira tão fafense e antiga, de indesmentíveis conexões galegas, que nos põe a falar mansamente da vitelinha, do pãozinho, das tripinhas, do cozidinho, do arrozinho, da massinha, do bacalhauzinho, das batatinhas, do azeitinho, da saladinha, do cabritinho. E como nós gostamos de falar de comida! E falamos de comida enquanto comemos, sem nos enganarmos, o que é extraordinário, e até nos criticam por isso. E no entanto, nós, os fafenses, pelos menos os já usados, somos tão capazes de manter conversas interessantes e profundas sobre gajas e carros como o resto dos portugueses, sejam de que terra forem. Creio até que ainda hoje ninguém nos bateria num debate sobre motorizadas, essa é que é essa. Zundapp vs. Sachs, o eterno dilema, o suprassumo dos assuntos, tendes dúvidas, quereis saber a verdade? Perguntai a um fafense de algibeira e moderadamente antigo, nem precisa de ser doutor, ele explica-vos tudo, ele, em três penadas, resolve de vez a questão.
É. A felicidade é coisa pouca e tudo. Digo melhor: a felicidade é questão de um gajo se habituar. E para os fafenses, nisto da felicidade e de bons hábitos, a mesa é sagrada. É o altar da família, da amizade, do carinho partilhado. Dos carinhos. Dos miminhos. Da liturgia de todos os inhos. Também do bifinho para o menino, que anda com fastio e faz 32 aninhos, coitadinho. Sim, bifinho, um bifinho em prato-travessa, palmo e meio de comprimento e dois dedos de altura, bifinho, porque se coubesse num prato normal seria apenas bife, mas isso toda a gente sabe. E vinhinho? Está bem, mas só uma pinguinha...