domingo, 15 de fevereiro de 2026

Metia-se a cotio

As grandes decisões tomam-se em cuecas
No dia em que decidiu finalmente atirar-se de cabeça na piscina vazia, a piscina estava cheia, azar do caraças. Ficou como um pito! Mudou de roupa e resolveu dali para a frente: as grandes decisões, as decisões definitivas, devem ser tomadas em cuecas.

Antigamente metia-se a cotio. Cotio, para além de nome de uma casta de figos algarvios ou de uma variedade de grão-de-bico, quer também dizer, como adjectivo, que coze facilmente. Cotio era coisa de todos os dias, de uso quotidiano. Cotiar é trazer a cotio ou quotidianamente, gastar com o uso ou, até, regionalmente, motejar. É usar-se muito a miúdo, repetir-se. Havia a roupa de domingo e a roupa da semana, quer-se dizer, a roupa de cotio, do dia-a-dia, assim nos organizávamos em Fafe. Com o tempo e a missa e a traça, a roupa de domingo ia ficando desbotada, coçada, puída, picada, então metia-se também a cotio, servia para o trabalho, para a vida de casa ou para a labuta no campo. Era. Antigamente metia-se a cotio.

Grande momento de televisão

Pedimos desculpa por esta interrupção
Às vezes pergunto-me como seria o mundo sem televisão. E acho que provavelmente seria um bocadinho melhor.

Uma vez à noite, na TVI, Janeiro de 2012, como se fosse ontem. Marcelo Rebelo de Sousa pregava aos peixes, na sua habitual homilia dominical. Ele era ainda apenas comentador ou, vá lá, pitoniso oficial do regime. Falava da troika e de Cavaco Silva, que lhe estava a aquecer o lugar, de Pedro Passos Coelho e de António José Seguro, que então existiam, da UGT e da CGTP, da Grécia e da Alemanha, do Benfica e do Sporting, de carecas e de cabeludos, da fome e da fartura, de tudo e de nada. O costume. Como hoje em dia. De repente, lá atrás no cenário da redacção vazia, passa a dona Alice das limpezas, de aspirador pela trela, logo seguida pela dona Amélia, com um caixote de lixo na mão, e da dona Matilde, que não resiste e acaricia com o pano do pó o tampo de uma das mesas de trabalho por assim dizer. Grande momento de televisão! Esqueci-me da arenga do Professor (na verdade os seus comentários nunca me interessaram realmente), e concentrei-me no desfile em fundo. Fiquei cliente do programa de variedades, mas infelizmente elas nunca mais apareceram...

Marcelo, o que tudo sabe

O feitiço e o feiticeiro
Quando o Feitiço se virou contra o Feiticeiro, o Feiticeiro resmungou: - Mal agradecido...

Sou fã de Marcelo Rebelo de Sousa, acho-lhe piada. Embora fosse mais fã e achasse mais piada no tempo em que ele era "apenas" comentador. Gostava mais dele nessa altura. Gostava daquele ar cartomante com que o Professor nos revelava tudo aquilo que nós já sabíamos. Parecia bruxo. Parecia O Astro, mas sem turbante. Gostava daquele sorrisinho matreiro, sorrisinho marca já-te-fodi. Gostava da forma como o Professor ia à televisão vender pedaços de nada como se fossem o mundo inteiro. O truque estava no poder de concentração e nos embrulhos. Marcelo usava papel de embrulho do melhor: papel de lustro, manobrista e recadeiro. E os fregueses adoravam. Marcelo sabia mais que o Papa. Sabia mais que a Irmã Lúcia, que está quase a ser santa. Sabia o passado e o futuro. Marcelo era o nosso presente. E agora é o nosso Presidente.
A omnisciência sempre me seduziu. Desde miúdo, quando, ainda em Fafe, eu ia a casa do Bertinho Dantas, meu rico menino, jogar O Sabichão. Depois, ao longo da vida, tive a sorte de encontrar sábios a sério em velhos lavradores, em professores, em camaradas de profissão, em três ou quatro amigos, gente que muito respeito e continuo a admirar. Nunca acreditei nas sinas lidas pelas nossas ciganas, às quartas-feiras, em Cima da Arcada, com um olho na mão e o outro na polícia, mas dava algum valor ao cartãozinho com o horóscopo que saía na balança colocada à porta do escritório das camionetas do João Carlos Soares, em frente ao Café Avenida, quanto mais não fosse a moeda de 50 centavos que aquilo custava.

Era uma vez 2005, ano de eleições legislativas em Portugal. Luís Filipe Menezes chefiava a lista do PSD por Braga e foi em pré-campanha a Celorico de Basto. O cabeça de cartaz do jantar-comício era Marcelo Rebelo de Sousa, o figurão. O meu jornal mandou-me atrás dele. PSD à parte, eu sentia-me ali particularmente à vontade, era a minha zona, a bem dizer. Na ementa, lombo assado evidentemente.
Não sei se sabeis, o lombo de porco assado, que por acaso é quase sempre apenas estufado, é a comida oficial da política em Portugal, e também é, regra geral, uma boa merda. Canja, lombo e musse de chocolate. Assim. Quem já passou por campanhas eleitorais e comeu todos os dias lombo, ao almoço e ao jantar, sabe muito bem do que é que eu estou a falar. Um suplício.
Mas adiante. Dos discursos, lembro-me apenas que Menezes "lançou" a candidatura de Marcelo à Presidência da República, oferecendo-lhe um quadro já não sei com que motivos. No final das intervenções, Marcelo andou de mesa em mesa, como noivo em dia de casamento, distribuindo bacalhauzada àquela gente toda a quem fazia questão de fazer de conta que conhecia cara a cara.
Eu aproveitei a confusão para dizer ao que ia:
- Sr. Professor, eu sou o...
- Eu sei - cortou simpaticamente Marcelo, estendendo-me a mão e um sorriso de orelha a orelha.
- ... o Hernâni Doellinger, do...
- Sei muito bem quem é - insistiu Marcelo, retirando a mão e reduzindo o sorriso.
- ... jornal 24horas - consegui informar, enfim.
- Exactamente, eu sei, sei muito bem, Hernâni, 24horas, eu sabia - concluiu Marcelo, metendo o resto de sorriso no bolso das calças e pedindo licença para continuar com os cumprimentos, que ainda havia muitas mesas para bacalhauzar no salão de cima e que falávamos no fim.
Claro que não falámos. Marcelo Rebelo de Sousa foi-se embora como quem não quer a coisa, fugiu pela porta dos fundos sem me dar uma segunda oportunidade, e se calhar até fez bem, o 24horas não se recomendava. Também não interessa. O importante é isto: o Professor não me conhecia de lado nenhum, nunca me tinha visto mais gordo nem mais magro, mas apareci-lhe à frente e ele "soube" logo quem eu era. Não é extraordinário? Agora que penso nisso, devia ter-lhe pedido que me deitasse as cartas. E que me desse os números do Euromilhões.

Ainda hoje guardo religiosamente a mão com que cumprimentei Marcelo Rebelo de Sousa naquele encontro histórico de Celorico de Basto. Os nossos contactos seguintes, tal como os anteriores, resumiram-se ao telefone. Ligava eu, por dever de ofício. E o Professor atendeu-me quase sempre. E foi sempre amável e útil. Depois mudou-se para Belém, e nunca mais falámos.

E para terminar. Sobre O Astro - "Pensar, Professor, pensar..." -, quem tiver idade para se lembrar da telenovela de Janete Clair e do desempenho do actor Francisco Cuoco percebe a história do cartomante, quem for mais novo que se informe. E reparai: em 2005, portanto há vinte anos, ainda as selfies em Portugal eram geralmente outra coisa, Luís Filipe Menezes também lia a sina, adivinhava a candidatura do Professor, exactamente em Celorico, mas não era assim tão difícil. Marcelo, estava-lhe nas linhas das mãos, trabalhava no assunto desde que nasceu. Com efeito, Marcelo Rebelo de Sousa é Presidente da República desde pequeninho. Pequeninho, que é como se diz pequenino lá para os nossos lados galegos de Fafe e Basto. Ou pequerricho. Como o nosso Luisinho, que, haveis de ver, também é homem para chegar lá.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Valia-nos São Valentim

Foto Tarrenego!

A torto e a direito
Ele não era para brincadeiras. Com um coelho, matava logo duas cajadadas.
 
Os meus dias de São Valentim eram porreiros. Sempre. Recebesse ele quem recebesse, Presidente da República, primeiro-ministro, ministros disto ou daquilo, fossem quiçá o Papa, Trump, Cicciolina ou até a rainha de Inglaterra ou o sultão do Brunei, ele, Valentim Loureiro, em funções de presidente da Câmara de Gondomar ou da Metro do Porto, ultrapassava tudo e todos, tomava conta do protocolo e das operações, comandava as tropas e... armava barraca. Sempre. Era um regalo para mim e para o meu jornal de então, o 24horas, que me mandava atrás do Major à procura das partes gagas, que eram umas atrás das outras, estrambólicas até dar com um pau. Eu era o enviado-especial, o especialista em Valentim Loureiro, e o homem nunca me deixou ficar mal. Ele era, como eu então lhe chamava, o meu cromo da sorte. Trabalhávamos a meias, tipo parelha de palhaços. O meu papel consistia em ver, ouvir, perguntar e transformar depois a notícia em anedota, e creio que também não me saía nada mal.
Desconfio que isto não me elogia, talvez até me desclassifique, mas Valentim Loureiro gostava de mim. E ria-se do que eu escrevia sobre ele. Quero dizer, ria-se dele próprio, das suas pantominices, o que só lhe enaltece a inteligência. Não éramos amigos, nada disso, mas desaguisámo-nos apenas uma vez, se bem me lembro, numa desconversa em privado, e por causa da Fábrica do Ferro, de que ele entretanto destomara conta em Fafe...
Quando os putos de Lisboa que rebentaram com o 24horas resolveram começar por fechar a redacção do Porto, a ver se salvavam as suas próprias pessoas, Valentim Loureiro disse-me logo que fosse ter com ele, que me arranjava emprego. Agradeci, naturalmente, mas nunca mais lhe apareci. Prezo inegociavelmente a minha liberdade e a minha independência pessoal e profissional, ou vice-versa, mas registei. E continuo grato. Ele foi um dos poucos que quiseram saber de mim.
Valentim Loureiro, o nosso Valentim, não era santo nenhum, antes pelo contrário. Tinha um feitio lixado, e espero que ainda tenha, que é bom sinal. Teimoso, virulento, desbocado, vendedor de banha de cobra e de retroescavadoras com luzinhas, de pares de sapatos só direitos ou só esquerdos, oferecedor de varinhas mágicas e outros electrodomésticos, desinformado, populista, voluntarista e amiúde irresponsável e talvez trafulha, nem sei como não foi ele o inventor do Chega, o Major trocava sistematicamente as voltas aos seus desgraçados e bem pagos assessores, que não conseguiam ter mão nele e escondiam-se pelos cantos (já que não conseguiam esconder o patrão), chorando baba e ranho e arrepelando os cabelos de incompetência. Estes, sim, é que tinham paciência de santo, mais ordenado chorudo e garantido no fim do mês, fora as mordomias e as abébias e os segredos que iriam acabar em livros patetas, mais reforma de político, instantânea e garantida, coitadinhos, tenho tanta pena deles...
Dirigente desportivo carismático e afável trampolineiro, visionário construtor do Boavista moderno, para o bem e para o mal, Valentim presidiu aos destinos do clube do Bessa durante 19 anos. Oficialmente. Não oficialmente, foram, são, muitos mais. O treinador Manuel José, que orientou os axadrezados durante a primeira metade da década de noventa do século passado, teve talvez a melhor tirada acerca de Valentim Loureiro. Disse um dia o míster, na televisão, resumindo tudo: - Às vezes, aturar o Major é pior do que ir a pé a Fátima...
E decerto era, mas eu nunca fui a Fátima a pé, e na única vez que tentei ir a São Bentinho, sem promessa ou compromisso, desisti parece-me que por alturas das Cerdeirinhas, para grande desgosto do saudoso Agostinho Cachada, que era o nosso guia. Mas Valentim Loureiro, o cromo, faz falta. Faz-me falta. Que isto Portugal está uma tristeza, um desconsolo. Uma perigosa pasmaceira. E o Boavista, afinal, escangalhou-se...

O meu primeiro casamento

Com princípios
Ele era um tipo com princípios e valores, sabia das suas obrigações. Casou. Casou pelo civil e casou pela Igreja. Por amor é que não!

O meu primeiro casamento foi o casamento do meu padrinho e tio Américo com a minha querida tia Laura. Vieram convidados do Porto e eu andei de "pão de forma" em forma de Volkswagen, numa épica viagem entre a Igreja Nova e os Bombeiros antigos, logo ali no meio dos palacetes, talvez nem 100 metros sempre em linha recta, e ainda assim enjoei. A fotografia "de conjunto" foi tirada a preto e branco nas escadas do Hospital, talvez esteja a inventar, e o banquete teve lugar no velho salão da Bomba, eu metido numa mesinha à parte para as crianças, logo depois da grande porta dupla de entrada, e portanto não gostei. O meu segundo casamento, eu já rapaz, foi o casamento do meu tio Zé da Bomba com a minha querida tia Lena. Vieram convidados do Porto, evidentemente, comeu-se no famoso Restaurante Jordão, em Guimarães, fui apresentado aos agriões em salada, houve discursos e não me lembro de como é que fomos para lá, se calhar a minha mãe teve de alugar um carro, serviço que decerto ainda hoje, mais de 50 anos depois, andará a pagar a prestações. O meu terceiro casamento foi o casamento da minha irmã Nanda com o meu cunhado Álvaro. Não tenho ideia se veio alguém do Porto, mas provavelmente veio, porque fazia parte ou então era mania, tara de família, isso de vir alguém do Porto, e aquilo fazia-me espécie. "Os do Porto" não era por acaso que eram "os do Porto". Ser-se "do Porto" era um merecimento, uma espécie de doutoramento ou condecoração, estatuto, posição, em todo o caso. Eu ia para o Porto de comboio, automotora, vá lá, de cu tremido e geralmente a dormir, só para namorar, essa é que é a verdade, nunca fiz nada na vida, mas eles não, tinham ido para o Porto a pulso, mais difícil ainda do que ir para a França a salto, "estavam muito bem", regressavam para as festividades da terra, de fato e prendas, magnatas e um bagaço, ninguém sabia o que é que eles realmente faziam no Porto, se é que faziam alguma coisa, e se eventualmente não seria em São Mamede de Infesta ou em Rito Tinto, para não ir mais longe, mas, para todos os efeitos, eram "os do Porto", parentes desconhecidos e habitualmente desnecessários, porém com direito a vénias e mordomias sempre que se apresentassem, e eu, quer-se dizer, afinava com tanto fingimento. Tornando à Nanda e ao Álvaro, que é o que mais importa, a cerimónia religiosa creio que se passou na Capela de Santo Ovídio, que era moda naquele tempo, e o almoço lembro-me que foi muito bem servido no restaurante do Café Académico, tudo em Fafe. Depois dos meus três primeiros casamentos, tive evidentemente outros casamentos, inclusive o meu, que ainda hoje vigora, não é para me gabar. O meu casamento realizou-se por acaso no Porto e vieram convidados de Fafe. Muitos. A maioria qualificada. Não foi vingança, mas soube bem.

Amor era coisa de todos os dias

Ou por outra
O amor é muito lindo. O "jackpot" do Euromilhões é muito mais.

Casámo-nos no Dia dos Namorados, mas não sabíamos. Era um dia luminoso por si só. Naquele tempo não se sabia que havia Dia dos Namorados e não fazia falta nenhuma: ainda não tinham sido inventadas as lojas de inutilidades fofinhas nem as ementas de "jantar de namorados" em restaurantes fatelas e oportunistas. Havia o amor. E o amor não precisava de dias marcados no calendário, datas certas. O amor era coisa de todos os dias. Namorava-se a cotio e pronto, e namorar era bom. Namorar é bom! Casámo-nos no Dia dos Namorados, faz hoje exactamente um número considerável de anos. E é como se tivesse sido ontem, como se fosse amanhã.
Mas o que eu queria realmente dizer, antes que me esqueça: o Dia dos Namorados é uma treta; o aniversário do nosso casamento, não. E o sol brilha outra vez!

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

No princípio era o rádio

O campeão
O melhor relatador de jogos de futebol na rádio portuguesa é de Fafe e chama-se Carlos Rui Abreu. Ouve-se na Antena 1.

O rádio, diz a Wikipédia, é um elemento químico de símbolo Ra, número atómico 88 e massa atómica 226, pertencendo à família dos metais alcalino-terrosos, grupo 2 ou IIA da classificação periódica dos elementos. À temperatura ambiente, o rádio encontra-se no estado sólido. É um metal altamente radioactivo encontrado em minerais de urânio como, por exemplo, na pechblenda, que, coitadinha, não tem culpa do nome que lhe puseram. As suas aplicações são derivadas do seu carácter radioactivo. O rádio foi usado em medicina, nomeadamente no nosso famoso roxis, e depois substituído por radioisótopos mais eficientes, segundo dizem os entendidos. Foi descoberto por Marie Curie e seu marido Pierre, em 1898. O rádio era um sucesso absoluto, até que apareceu a televisão, isto ainda antes da internet e das chamadas redes sociais. Mas cá se vai safando...