O aferidor de pesos e medidas
- Esta noite choveu a cântaros!
- A almudes, se faz favor...
quinta-feira, 13 de agosto de 2026
A bisculeta (e o Chico Americano)
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Vou-te cascar!
À Lagardère
Contava fábulas de La Palice e dizia verdades de La Fontaine. Com ele, era tudo à Lagardère...
Cascar, ou por outra, malhar. Cascar significa descascar ou perder a casca, pode também querer dizer desprezar, descompor, censurar, criticar, mas em Fafe, no Minho de antanho, com ecos galegos na língua, cascar era bater, dar pancadas, dar tareia, ir ao focinho, afinfar, espancar, sovar, surrar, fustigar, açoitar, enchousar, zupar. Isso, zupar. "Vou-te cascar!", prometia-se antigamente. Aliás, o cascudo era, e creio que ainda é, entre outros menos interessantes significados, pancada dada na cabeça com os nós dos dedos, carolo, coque ou croque, como muito bem se dizia na nossa terra.
Malhar significa bater com malho, debulhar nas eiras com o mangual ou com a malhadeira, fazer troça, escarnecer, gozar, mangar, zombar, ridicularizar, falar mal de alguém ou de alguma coisa, cair de repente e desamparado, mas, naquele tempo, para nós, também queria dizer, exactamente como em cascar, dar pancadas, bater, contundir, isto é, dar tareia, ir ao focinho, afinfar, espancar, sovar, surrar, fustigar, açoitar, enchousar, zupar. Isso, zupar. Levar uma malha era apanhar uma coça.
Malhar significa bater com malho, debulhar nas eiras com o mangual ou com a malhadeira, fazer troça, escarnecer, gozar, mangar, zombar, ridicularizar, falar mal de alguém ou de alguma coisa, cair de repente e desamparado, mas, naquele tempo, para nós, também queria dizer, exactamente como em cascar, dar pancadas, bater, contundir, isto é, dar tareia, ir ao focinho, afinfar, espancar, sovar, surrar, fustigar, açoitar, enchousar, zupar. Isso, zupar. Levar uma malha era apanhar uma coça.
quarta-feira, 12 de agosto de 2026
O Velho Lau e o Lausperene
Baralhar e dar de novoEra um baralho com cinco ases. Ás de espadas, ás de paus, ás de copas, ás de ouros e ás do pedal.
Claro que vi Venceslau Fernandes em acção. Tantas vezes em Fafe, mas não só. Com as camisolas da Ambar, do Sangalhos, do Benfica, do FC Porto, da Ajacto e outras de que menos reza a história. E lembro-me até do Cedemi, embora a minha memória não consiga fazer a ligação ao Velho Lau. Evidentemente também frequentei Sagrados Lausperenes no meu tempo, mas isso, se fosse a contar, já seriam outros quinhentos...
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Os meus óculos de sol
Onde é que eu vou?
A minha mulher vestiu o meu roupão, vi-a sair mansamente do quarto, e pensei: - Porra!, onde é que eu vou, assim pequenino, que estava tão bem aqui na cama?...
Não sei quem sou por dentro de mim. Olho-me no espelho do quarto de banho, ali não tenho por onde fugir, e vejo-me apenas por fora. O espelho do quarto de banho é o meu espelho único, há que anos. Tento ser sincero com ele, justo comigo mesmo, olho-me olhos nos olhos mas só vejo os olhos que olham para mim. Vejo que os olhos que me olham vêem um velho turvo, baço, perplexo, talvez tonto, talvez zorro, eventualmente aiô Silver, tudo negro à minha volta. É esta mania de andar de óculos de sol dentro de casa...
Diálogos fafenses 34
Serei o próprio?
O entregador de encomendas toca à porta, abro, bom-dia!, passa-me a caixa para as mãos e pergunta: - É o próprio?
- Da última vez que me vi, sou! - respondo, com uma segurança já bem ensaiada e fingida.
Mas fico à rasca, na dúvida, e, depois de, obrigado!, com licença..., fecho a porta delicadamente e corro como um tolo para a casa de banho, exigindo mais provas ao espelho.
O entregador de encomendas toca à porta, abro, bom-dia!, passa-me a caixa para as mãos e pergunta: - É o próprio?
- Da última vez que me vi, sou! - respondo, com uma segurança já bem ensaiada e fingida.
Mas fico à rasca, na dúvida, e, depois de, obrigado!, com licença..., fecho a porta delicadamente e corro como um tolo para a casa de banho, exigindo mais provas ao espelho.
Mas onde é que eu já me vi?
Devo andar a ficar parecido com alguém. São cada vez mais as pessoas que olham para mim na rua, e eu não estava habituado a ser visto. Sempre achei que tinha cara de ninguém, tão incógnito e invisível fui durante toda a minha vida, e não me estou a queixar, constato apenas, porque senstato ainda podia ser pior, se não me engano. Por exemplo: chovesse a cântaros e corresse eu em coiro a subir e a descer desalmada e inutilmente as escadas da Arcada, no centríssimo de Fafe, intervalando cada subida e respectiva descida com três litúrgicas cabeçadas na porta principal do Club, e a verdade é que nem o Alfredo Sapateiro me ligava nem a polícia municipal tomava conta da ocorrência. Era como se eu não existisse, como se não passasse de uma corrente de ar, mesmo com o pirilau ao léu, e lá por o Sr. Alfredo ser meu parente e a polícia municipal ainda não ter sido inventada, isso também não é justificação. De acordo com as detalhadas notas da minha agenda de 1911, que agora mesmo compulso e sentornozelo, pratiquei esta patusca habilidade duas ou três vezes, talvez quatro ou cinco, os apontamentos estão um bocado esborratados, e só abandonei a modalidade após indicação médica. O médico da caixa sempre me chamou Sr. Bonifácio porque nunca tomou razoável sentido a quem eu sou realmente. Mas as pessoas não têm culpa. Eu próprio passei por mim um ror de vezes e não me conheci de lado nenhum, tenho essa impressão, portanto que não contem comigo para atirar a primeira pedra seja a quem for. Nem a primeira nem a última. Em todo o caso, atirarei, com prazer, a pedra do meio.Ex-citações
Diz o roto ao nu: - Excitas-me, pá!...
Que mais posso dizer? Eu era o homem invisível, e sentia-me muito confortável dessa maneira, mas de repente desapareci e aparentemente passei a ser uma pessoa normal, à vista de toda a gente, a ocupar espaço, o que me acabrunha sobremaneira. Quer-se dizer, apareci desaparecendo. É desagradável. E um bocado estranho.
Mas ao que interessa: agora, na rua, espreitam-me de cima a baixo. Faço imediatamente o teste da braguilha, porque a braguilha não engana, mas há muito que eu retirei a braguilha de cotio, só a uso ao fim-de-semana com hífenes, e eu, confesso, ao fim-de-semana com hífenes não saio. Ando por conseguinte intrigado, diria até assaz incomodado, mas estaria a mentir se o dissesse, e eu só minto às quintas-feiras dos anos bissextos, e por isso hoje não digo. Por outro lado, a palavra assaz é particularmente parva.
Resumindo e concluindo. Fui ao espelho ver se via o que se passava. Há coisa de dez minutos, fui ao espelho. E faço questão de informar que não me via ao espelho desde 1879, mais ou menos no dia do São Francisco de Regadas, ou talvez desde 1901, por alturas da Senhora das Neves da Lagoa, não tenho bem presente a efeméride. Fui ao espelho (sei que é a terceira vez que digo que fui ao espelho, e com esta já é a quarta) e aconteceu o seguinte: encontrei-me realmente com um tipo parecido comigo e saiu-me, fatal, aquela frase batida: já vi esta cara em algum lado. Deve ser isso.
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