As encomendas como as bombas
Começou com a pandemia e veio para ficar. As encomendas agora chegam-nos a casa sozinhas no elevador. Como as bombas. Nos filmes.
Paradigma rústico do quero, posso e mando, irascível, provocador, feitio rufião, sempre com uma ameaça na ponta da língua e disponível para resolver todas as questões à estalada, suspeito de ligação à rede bombista de extrema-direita (MDLP) no pós-Abril de 1974, Ferreira Torres passava a vida nos tribunais, acusado de tudo e de mais alguma coisa. De incitar à violência num jogo de futebol, de peculato e peculato de uso, com condenação, de falsificação de assinatura, de abuso de poder, de gestão danosa, de enriquecimento ilícito, de corrupção, de extorsão e até de ter ordenado a morte, não concretizada, de um ex-colaborador.
Conheci Avelino Ferreira Torres. Entrevistei-o, se não me engano, pelo menos três vezes. "O senhor é mesmo capaz de mandar matar pessoas?", perguntei-lhe uma ocasião para o jornal 24horas, que gostava muito destas coisas. Indignadíssimo, mas via-se que era a fingir, Avelino respondeu-me aos berros, ditando-me cuidadosamente as palavras, sílaba a sílaba, e apontando com o dedo autoritário para o meu bloco de notas, a ver se eu estava a escrever bem:
Conheci Avelino Ferreira Torres. Entrevistei-o, se não me engano, pelo menos três vezes. "O senhor é mesmo capaz de mandar matar pessoas?", perguntei-lhe uma ocasião para o jornal 24horas, que gostava muito destas coisas. Indignadíssimo, mas via-se que era a fingir, Avelino respondeu-me aos berros, ditando-me cuidadosamente as palavras, sílaba a sílaba, e apontando com o dedo autoritário para o meu bloco de notas, a ver se eu estava a escrever bem:
- Que me mostrem onde é que eu mandei matar alguém. Mostrem! A partir de certa altura, eu deixei de poder ver sangue, valha-me Deus. Quando era criança, via e até ajudava a matar as galinhas e os porcos lá em casa, mas agora, se vejo sangue, viro logo a cara para o lado. É logo! Eu sou incapaz de matar uma mosca..." - disse ele.
- E duas? - insisti eu.