Bastante desagradável
- Está bastante desagradável.
- Você também.
- Eu referia-me ao tempo.
- Eu não.
quarta-feira, 30 de setembro de 2026
Quem vê caras não vê orações
Branco mais branco
Deu o braço a torcer. E depois pô-lo a corar. Era uma pessoa muito limpa.
Um daqueles famosos restaurantes de peixe na brasa aqui ao lado, na Rua Heróis de França, Matosinhos à beira-mar, estais a ver, já vos chegou o cheiro? Ainda é cedo. Pouco passa das oito da manhã, uma velhinha varre cerimoniosamente a esplanada que por acaso é passeio ocupado com ordem municipal, os peões têm de andar pela estrada, toureando carros felizmente em sentido único. Asseada como se fosse domingo, como se fosse Natal, a velhinha, corpo franzino, cabelos brancos de neve, ajeitados à moda da televisão, da telenovela, uma carinha doce, redonda como um minúsculo sol resplandecendo bondade, olhos apontados ao chão, espertos, criteriosos, os olhos, a velhinha varre varre, vagarosa e competente. Varre varre vassourinha, se varreres bem dou-te um vintém, se varreres mal dou-te um real. Se os anjos varressem e fossem velhinhas, e competentes, eram ela certamente e varreriam assim mais ou menos. Lembro-me de velhinhas tais quais no meu tempo de criança, em Fafe, as saudades doem-me na zona do fígado, estou também a ficar velho. A rua naquele sítio àquela hora éramos a velhinha e eu. Eu, que venho de mercar sardinhas madrugadoras e vivas, eventualmente clandestinas, estremeço de comoção. Trauteio distraidamente a lengalenga mansa e antiga, brincada à rodinha no Santo Velho, de mãos estendidas, mãos dadas, meninas e meninos sem distinção, recordo-os a todos e a todas, componho-lhes as caras, dou-lhes os nomes, turva-se-me a vista de repente e, carago, são lágrimas...
Varre varre a velhinha doce e cerimoniosa, olhos espertos e belos. Olhos que não enganam. Bondosos. Cara de sol, de anjo. E, eu a passar-lhe pelas costas em pezinhos de lã, para não incomodar, para não estragar cena tão encantadora, diz a velhinha, completamente distraída de mim, como se fosse um mantra ou, vá lá, a recitação atabalhoada do terço, à tardinha, na nossa Igreja Matriz, antes da bênção do Santíssimo: - Filhos da puta! Era mas é fodê-los! Mandá-los a todos prò caralho! À puta que os pariu!...
É. Ninguém diga que está livre, amém!
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terça-feira, 29 de setembro de 2026
Bacalhau com natas (à moda de Fafe)
Pastelaria e ordem unida
Comeu três brigadeiros de enfiada. Disse-lhes após, enquanto limpava a boca: - Informem o general que eu para a semana não venho.
Ou por outra. Um bom minhoto, um fafense como deve ser, sabe muito bem que bacalhau recheado não é bacalhau recheado. Ou seja, o bacalhau não tem recheio nenhum. É bacalhau frito de cebolada, bacalhau delgado, as badanas ou aparas, rabos ou laterais, e nem é realmente frito, mas admitamos que frito quase refogado, com umas voltinhas que são próprias cá de cima. É o bacalhau recheado à nossa moda, recomendadíssimo sobretudo para o tempo de calor e férias, comido se possível com família e amigos à sombra de uma ramada, e o vinho a refrescar no poço. E também concordo que a coisa ficaria muito melhor rematada com dois ou três dos também nossos doces de gema, de Arões ou Fornelos, mas, quer-se dizer, assim já não seria bacalhau com natas...
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Tomates aux gésiers de lapin
Honestidade a toda a prova
Era um "chef" de uma franqueza que só vista. Tinha um aclamado programa de televisão, e não raras vezes, após confeccionar e provar os seus requintados pratos de assinatura, sentenciava, de colher a meia haste, olhos revirados e boca em biquinho de deleite e aprovação: - Hummm! Que merda!...
segunda-feira, 28 de setembro de 2026
Anthony Bourdain sem espinhas
Dia da Restauração
Cá em casa, celebramos o Dia da Restauração como deve ser. Todos os anos, a 1 de Dezembro, honrando a velha tradição, vamos comer fora. É preciso ajudar o sector. E similares.
O que eu gostava do estilo e dos programas de televisão de Anthony Bourdain! Sou fã número um, guardo, aliás, o cartão de sócio, ainda com as cotas em dia. E um faqueiro de colecção. E um avental assinado. Por mim. Fiz-lhe uma propaganda que só vista, apaixonada e gratuita, apresentei-o aos meus três amigos, recomendei-o nos meus blogues praticamente secretos. E gostava tanto dele, do Tony, que, em Junho de 2012, ao princípio de uma indigesta noite de sábado, enquanto quase quatro milhões de portugueses normais sofriam com a segunda parte de um Alemanha-Portugal da RTP para o Campeonato Europeu de Futebol, eu entretinha-me a ver na SIC Radical dois episódios do "No Reservations", um dos quais dedicado a Macau. E por acaso fiz mal, tive um desgosto muito grande. E Portugal também perdeu por 1-0.
Não era a primeira vez que o grande Anthony Bourdain (1956-2018) me desiludia, verdade seja dita. Acompanhei-lhe toda a carreira televisiva, até ao premiado e infelizmente definitivo "Parts Unknown", da CNN, e portanto estava sujeito. Conhecia-o de ginjeira, desde os tempos de "A Cook's Tour", ele ainda à procura da fórmula de sucesso que veio a afinar mais tarde, receita simples, uma mistura bem temperada de viagem e gastronomia, um jeito de apresentação irreverente e politicamente incorrecto que cativava e, por estranho que hoje pareça, ensinava. Bourdain já tinha andado por cá, Lisboa, Açores e Porto, creio que em 2001, um grande maluco de argola na orelha e keffiyeh à volta do pescoço. Comeu castanhas assadas na Rua de Santa Catarina, foi ao Majestic, passeou pela Ribeira e pelo Mercado do Bolhão, visitou a Mercearia do Bolhão e almoçou no Rogério do Redondo: sardinha pequena frita, cabeça de pescada cozida com todos e as sacramentais tripas. Depois levaram-no ao Aleixo, em Campanhã. Provou a salada de polvo e os bolinhos de bacalhau com feijão-fradinho, para ganhar embalo até aos filetes de polvo com arroz do mesmo que davam fama e proveito à velha casa. Mas, já o denunciei, não foi às bifanas da Conga, e isso é indesculpável. Nem passou por Fafe, e era só um saltinho, para provar a nossa vitela assada, e essa desfeita levei-a eu a peito, como afronta pessoal.
Mas não estava preparado para o pior. No tal episódio de Macau, que é o que aqui interessa, a certo passo Bourdain quer saber da herança lá deixada pelos portugueses, nomeadamente na gastronomia, e levam-no ao Restaurante Fernando. É casa de açoriano e é ali que o chef mais famoso do mundo vai provar os dois mais notáveis paradigmas da cozinha tradicional açoriana: as tripas à moda do Porto e a carne de porco à alentejana. Não estou a brincar. Eu nunca mais tenha apetite se não foi assim que Anthony Bourdain referiu estes dois pratos no seu programa: a dobrada e o porco com amêijoas, como invenções dos Açores.
Confundiram-no ou confundiu-se. Em qualquer dos casos, o bom do Tony não ficou bem no retrato. Se calhar não se preparou, fiou-se nos informadores locais, talvez na "pesquisa" da sua própria equipa, facilitou, assinou por baixo e estendeu-se ao comprido. Percebi então porque é que comeu bifanas em Lisboa - e perdoei-lhe.
Curiosamente, já agora, até há quem defenda que a carne de porco à alentejana é um prato de origem algarvia, confeccionado, isso sim, com carne de animais alimentados no Alentejo, mas deslocalizá-lo para os Açores é ir longe demais. É meter muita água pelo meio. Já quanto às famigeradas tripas, é ainda mais lamentável a argolada, uma vez que elas já lhe tinham sido apresentadas e explicadas dez anos antes, exactamente no Porto, local certo e de nascença, era só consultar os seus arquivos ou ver os seus próprios programas.
Salvou-se, em todo o caso, a alcatra, que também saltou para a mesa do restaurante macaense. A alcatra, concedo, pode ser entronizada como o grande contributo da cozinha açoriana para o património gastronómico da humanidade. A alcatra honesta, feita por mão sábia e em alguidar experiente, a alcatra do aroma que chama, do gosto como nenhum outro, da carne a desfazer-se na boca. A alcatra de Vitorino Nemésio, da festa e da fartura. Da partilha, em nome do Pai, do Filho e sobretudo do Espírito Santo.
Melhor do que a alcatra, só a alcatra de peixe. Isso mesmo, alcatra de peixe, com e sem espinhas, não vos admireis. Melhor ainda: a alcatra de peixe de um certo sítio em Porto Judeu, não muito longe de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira. Que mais quereis saber? O Zé do Boca Negra trata os clientes todos por tu? Trata. Dá raspanetes à freguesia? Dá, mas é a única borla. É sportinguista? É, coitado, ninguém é perfeito. Fala pelos cotovelos? Fala, fala. Tem quatro. Quatro em cada braço. E a alcatra de peixe? É um fenómeno ainda maior.
Melhor do que a alcatra, só a alcatra de peixe. Isso mesmo, alcatra de peixe, com e sem espinhas, não vos admireis. Melhor ainda: a alcatra de peixe de um certo sítio em Porto Judeu, não muito longe de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira. Que mais quereis saber? O Zé do Boca Negra trata os clientes todos por tu? Trata. Dá raspanetes à freguesia? Dá, mas é a única borla. É sportinguista? É, coitado, ninguém é perfeito. Fala pelos cotovelos? Fala, fala. Tem quatro. Quatro em cada braço. E a alcatra de peixe? É um fenómeno ainda maior.
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domingo, 27 de setembro de 2026
O mar começa em Fafe, devagarinho
O leitorEle era um leitor compulsivo. De contadores de água, luz e gás.
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O aeroporto é nosso!
Do monólogo ao solilóquio
Tomou a palavra logo a seguir a si próprio, desvanecido com tamanha facúndia. Falou, falou, falou, até que a voz lhe doeu. Então sentou-se e aplaudiu-se entusiasticamente.
E o que é que Fafe tem? Pois, para além da igreja e do palacete levados ao engano, Fafe tem a Casa do Penedo e a Casa do Santo Velho, na minha rua, e "um enorme parque aquático ao ar livre", embora os indígenas prefiram refrescar-se "no reservatório local chamado Barragem de Queimadela". Para além disso, garante o indesmentível The Sun, Fafe tem "comida e bebida baratas", "restaurantes baratos e hotéis económicos". É pouquinho? Mas é de boa vontade.
Isto aqui vai ser outra vez o fim do mundo, vamos ficar a nadar de camones. E convém que parem imediatamente os estudos uns atrás dos outros que só dão despesa e não vão a lado nenhum. Nem Portela, nem Portela + 1, nem Portela + 2, nem Montijo, nem Alcochete, nem Santarém, nem Pegões, nem Rio Frio, nem Poceirão, nem Beja, nem Monte Real, nem Alverca. Nada disso. O novo aeroporto de Lisboa só pode ser em Fafe! Em Fafe, mais exactamente na freguesia de Golães, cumprindo-se enfim a viperina profecia da maledicência de outros tempos - assunto que metia emigração, maridos fora, mulheres sozinhas, desejo, amantes, adultério, "cornos", portanto "aviões", portanto "campo de aviação", falatório desmoderado, boatos, calúnias pela calada, onzenices, muito veneno e ruindade por parte de quem falava só por falar, e talvez também inveja.
Aliás, Fafe tem uma história muito rica no que diz respeito a aviões, inclusive de papel, helicópteros, cestinhas, papagaios, bolinhas de sabão e produtos afins, uma longa e bonita tradição. Uma vez até caiu um avioneta na Cumieira, que saiu nos jornais e foi o nosso orgulho até hoje. E agora, finalmente, temos o aeroporto, o jackpot, a sorte grande. O novo aeroporto de Lisboa é como o Leites. "O Leites é nosso!" e o aeroporto também.
Ó gente da minha terra, abaixaide-vos! Vai vir charters...
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