A morte do maneta
Mãos ao ar!, disseram ao maneta. E o maneta deixou-se ficar. Mataram-no por causa disso.
sábado, 31 de outubro de 2026
Nem mais um minuto
O Dia do Bruxo
O ocultismo
Sabe-se muito pouco sobre o ocultismo. Por isso é que se chama assim.
Para além disso, o Sr. Fernando Nogueira é uma figura nacional, é procurado por gente da alta, do futebol, da finança, do poder, até do estrangeiro, trata o diabo por tu, fala aos jornais, aparece nas televisões, é entrevistado pelo Manuel Luís Goucha na TVI, é assunto da Joana Marques na Rádio Renascença, faz-se fotografar em férias com Lucília Gago, procuradora-geral da República, acerta amiúde no euromilhões, tem sítio oficial na internet e, sendo de Guimarães, porque ninguém é perfeito, podia muito bem escolher o nome que lhe apetecesse, com mais ou menos molho e lantejoulas, mas não, preferiu-nos, faz questão de ser o Bruxo de Fafe, sorte a nossa. Simplesmente Bruxo de Fafe, insistentemente Bruxo de Fafe, e, orgulhoso, dá a esta marca que também nos envolve o indesmentível cunho de garantia: "Eu sou o Bruxo de Fafe, não sou charlatão!", costuma declarar quando interpelado por desconfiados ou incréus, honrando-nos a todos, e eventualmente nem todos o merecemos.
Portanto, não me canso de repetir: mas qual Dia das Bruxas, mas qual Halloween, ó meu Deus, ainda por cima Halloween! Em Fafe, não! Estamos servidos. Em vez de encher a Biblioteca, o Teatro-Cinema e as ruas, se não chover, com bichas cabeçudas, pragas de conserva, abóboras de plástico, esqueletos desengonçados, teias de aranha a fingir, morcegos em cartolina, rolos de papel higiénico e bruxas desencartadas, tudo à americana, tudo copiado de lá de fora, tudo tão longe das nossas verdadeiras tradições, melhor faria o Município se olhasse para o que tem à mão e declarasse oficialmente o dia 31 de Outubro, já este ano e doravante, Dia do Bruxo. Do Bruxo de Fafe. Era de justiça.
sexta-feira, 30 de outubro de 2026
É preciso dizer alguma coisa
Paronimando
Ó Elvis, ó Elvis, Bijagós à vista...
Como exemplarmente fica demonstrado, creio, no parágrafo anterior.
Tântalo, filho de Plota
Temperaturas
Diz o Fahrenheit ao Celsius, quero dizer, diz o físico alemão Daniel Gabriel Fahrenheit ao astrónomo sueco Anders Celsius: - Andas a ferver em pouca água, pá!...
quinta-feira, 29 de outubro de 2026
O controlador, o operário e carapaus de cebolada
Gémeos afastados
Eram gémeos mas não pareciam. E compreende-se: nasceram com três anos de diferença.
À noite, em casa, varejando os títulos das notícias, é que eu dei fé que o líder comunista tinha andado de facto pela Invicta, o tipo parecido com o Paulo Raimundo era mesmo o Paulo Raimundo e os outros dois indivíduos afinal não eram indivíduos mas camaradas, evidentemente. E fiquei deveras aborrecido, porque faria muito gosto em ter-lhe dado uma mãozada, ao bom do Raimundo, até porque acho que o homem merece.
Merece, mas! Aquela aspecto de pessoa normal não o recomenda. Aquele ar mancebo, aquela cara de boa gente, bô rapaz, aquele sorriso tímido e verdadeiro, aquela presença asseada, limpinha, aquela estampada honestidade, aquele porte de 16.º na lista de candidatos à assembleia de freguesia, aquele terra-a-terrismo, aquela normalidade toda, diria eu, só o desabonam. Invisibilizam-no. Apagam-no aos olhos e à memória dos demais. Na rua, Paulo Raimundo passa ao lado de si próprio, como se nada fosse. E, se for distraído, às tantas nem se reconhece. Paulo Raimundo devia ser parecido com outra pessoa qualquer, por exemplo Jerónimo de Sousa, para se saber imediatamente que aquele que ali está é o Paulo Raimundo em pessoa.
Ou então o secretário-geral do PCP devia ir muito mais às televisões e aos jornais e às chamadas redes sociais, montar lá banca, dizer uns tremendismos quaisquer, chamar nomes às pessoas, como os líderes do Chega e da Iniciativa Liberal, que esses dois, assim, toda a gente sabe quem são, embora também não falte quem confunda Mariana Leitão com a terceira Mortágua do Bloco de Esquerda, mas quanto a isso não há volta a dar.
quarta-feira, 28 de outubro de 2026
O retrovisor na luta contra a pandemia
Mantendo a distância
Ele levava muito a sério as recomendações das autoridades sanitárias a propósito do afastamento físico. Mantinha a própria sombra a pelo menos metro e meio de distância.
Ora bem: eu não tenho carta de condução, não sei conduzir e não tenho carro. E faço questão de elencar mais uma vez estas três fundamentais asserções, porque elas, as asserções, parecendo sinónimas e redundantes, não o são, não o são. Não o são. Na verdade, há quem não tenha carta de condução, saiba conduzir e não tenha carro; há quem não tenha carta de condução, saiba conduzir e tenha carro; há quem tenha carta de condução, não saiba conduzir e não tenha carro; há quem tenha carta de condução, saiba conduzir e não tenha carro; e até há quem tenha carta de condução, saiba conduzir e tenha carro - o que é uma raríssima coincidência. O mais certo é eu não ter esgotado todas as variáveis possíveis, mas desconfio que já percebestes o meu ponto de vista: não tenho carta de condução, não sei conduzir e não tenho carro. Portanto, não tenho retrovisor.
Chegados aqui - de transporte público, evidentemente -, a grande dúvida que me sobra é esta: em caso de nova calamidade, Deus nos livre, onde é que eu penduro a máscara? Na cara com certeza que não, porque me corta o ar, impede-me a respiração, confunde-me até o raciocínio, e na testa ou na barbela, como fazem as outras pessoas, já me vi ao espelho e acho que me fica um bocadinho mal. Mas em caso de nova pandemia, insisto, e Deus nos livre, será que poderei substituir a máscara sufocante digamos que por um disco de vinil, um velho single de 7 polegadas, vá lá, com o nariz enfiado no buraco do meio, para ter algum arejo? Poderei? Alguém sabe dizer-me?...
No tempo das recularias
Exagerações
Quando ouvia dizer que "não cabia um alfinete", ele ficava sempre a pensar que talvez houvesse ali um bocadinho de exagero...
Ia-se às compras, por exemplo. Encontrava-se uma inesperada pechincha, coisa escandalosamente barata, e dizia-se que custava uma recularia. Era-se chamado a casa de alguém para ajeitar o telhado, levava-se preço de amigo, de vizinho, só para beber um copo, o arranjo ficava, então, por uma recularia. Isso, recularia. Pouco, poucochinho, coisa de nada, sem importância, quantia ou coisa mínima, de pouco valor, insignificância, ninharia, quer-se dizer, ridicularia. Sim, ridicularia. Talvez a nossa recularia não passasse, não passe, de facto, de uma habilidosa corruptela e simplificação de ridicularia, para evitar vergonhas com espaventosas acrobacias vocais. Talvez. Na Madeira, segundo julgo saber, há quem diga ricularia. Mas recularia soa-me bem. E servia igualmente para substantivar aqueles pequenos objectos de tostão também conhecidos como bugigangas, quinquilharias ou bagatelas, isto é, recularias. O povo pode ser linguisticamente preguiçoso, mas não é tolo: e, em Fafe e arredores, recularia ficou.