quarta-feira, 8 de julho de 2026

Salvemos a chita!

E os coelhos?
Os coelhos são uma praga, como leio e ouço, ou, completamente pelo contrário, estão em risco de extinção, como também leio e ouço? Resolvam-se, porra!

Convidaram a supermodelo, famosa, a participar no concurso do vestido de chita. "De chita? Jamais! Sou o mais possível contra a roupa feita com pele de animais!", declinou a supermodelo, famosa e irritada, com o mais possível de veemência e dois pontos de exclamação, como deve declinar uma supermodelo, famosa, irritada e activista que se preze. "Preferia desfilar nua!", atirou, altiva, e era o terceiro ponto de exclamação que gastava, para acabar de vez com a conversa. "Também está bem", concordaram os organizadores.

O palito e os amorfos

Coração de ouro
Tinha um coração de ouro. Pô-lo no prego e comprou um carro em segunda mão.

O palito faz falta. Faz falta e faz parte. O palito faz parte de um português bem vestido, muito mais do que, por exemplo, o próprio chapéu, que já quase não se usa, ou a bengala, que foi praticamente abolida, e o palito lá está, malabarista, a bailar entre os dentes, de um lado ao outro da boca, para cima e para baixo, sem mãos, só à força de lábios e de língua, fazendo justiça à cabritada que o antecedeu, ainda que sejam apenas sete da manhã. O palito é, por assim dizer, indumentária, adereço de luxo, roupa de domingo metida a cotio. Sapatinho dirópito, meiinha branca, fatinho com colete, raminho de alfádega na orelha, gravata ou não, mas palito, o palito dançarino, rapioqueiro, às vezes palito e cigarro sem filtro, mais difícil ainda, porque são precisos dois para dançar o tango, assim se apresenta o português que se preza, o tuga à moda antiga, em dia de coisa e tal. E o palito realmente presta-se.
Basta ver. Temos a Olívia Palito, que é a namorada do Popeye. Temos a Manuel Palito, que matou duas mulheres e andou 34 dias a monte. Temos A Vaca Que Ri Palitos. Temos os palitos la reine, mais conhecidos como biscoitos de champanhe. E temos Valery Gergiev, amigo do peito de Vladimir Putin e renomado maestro russo que dirige orquestras com um palito a fazer de batuta. Opalito também pode ser pedra sintética translúcida, espécie de opala de imitação muito usada na joalharia e em terapias de cristal, segundo leio.
O palito guarda-se no paliteiro. Ou no bolso do peito do casaco ou do colete ou da camisa. Ou atrás da orelha, junto ao cigarro meio fumado ou à alfádega, sempre a postos para usos futuros. Os paliteiros do Miranda, em Fafe, são provavelmente os mais famosos paliteiros do mundo, mas hoje em dia só existem de memória e não é geral.
Aqui por estes lados, nas nossas aldeias, tínhamos também o palhite, que não era palito para escarafunchar os dentes ou fazer figura, mas mais propriamente fósforo para acender a candeia, que era "a luz". Os palhites ou palitos de fósforo podem chamar-se amorfos ou fósforos vermelhos. Amorfos, dizem os entendidos, porque só se inflamam a alta temperatura. Aos fósforos ou palhites, os nossos antigos chamavam-lhes também "lumes".
O palito, quando aos pares, incomoda um bocadinho o entrar em casa. Isto é, tem de se entrar de lado. Neste tão popular contexto, os palitos chamam-se cornos.

O melhor dia do anho

É preciso ter lata
O confinamento da pandemia fez dele um verdadeiro especialista em atum, preparando-o para toda a espécie de apagões. Bom Petisco à segunda, Ramirez à terça, Tenório à quarta, Minerva à quinta, Pitéu à sexta e Inês ao sábado. Ao domingo, sardinha em tomate, evidentemente.

Quatro ou cinco dias antes do domingo da Senhora de Antime, que é o segundo domingo de Julho, um pastor mailo seu rebanho davam entrada no largo do Santo Velho, mesmo em frente a nossa casa, e ali se estabeleciam, montando pasto, posto de venda e açougue, até que o último anho fosse despachado, isto é, até ao extermínio total. O pastor tinha cajado de pastor e cão de pastor, mas não era um verdadeiro pastor, era um senhor creio que da Rua de Baixo ou Santo Ovídio com faro para o negócio e habilidade para matar cabritos. Só era pastor, quer dizer, cabriteiro, naquela época do ano. E o rebanho também era um falso rebanho, os animais não se conheciam de lado nenhum, juntavam-se apenas para aquilo, naquela ocasião, mal eles sabiam com que fim, eram recrutados nos lavradores das redondezas e levados ao engano e ao altar do sacrifício, quer-se dizer, ao forno do fogão a lenha, de preferência, com batatinha dourada e arroz seco e solto, tudo muito bem comido e regado, na mesa grande e em família alargada, logo a seguir à procissão mas sem pressas. O fogão era amiúde na vizinha, por favor, bastava ir lá às horas certas para dar as devidas voltas à pingadeira.
Antes que me esqueça, para os de fora: o cabrito, generalizemos assim por bondade, era e suponho que ainda é o prato oficial das Festas de Fafe, isto é, da Senhora de Antime. O que não deixa de ser irónico, na terra da vitela assada. Naquele tempo, o cabrito entrava em nossa casa apenas uma vez por anho, e, é preciso que se note, em anhos bons...
No Santo Velho acontecia tudo, o Santo era um largo multiusos. Portanto também servia de matadouro e talho, escancarado e a céu aberto. O Santo era o centro do mundo. Os clientes vinham de toda a parte, da Feira Velha, da Fábrica do Ferro, do Retiro, da Ponte do Ranha, da Fonte da Cana, de onde calhasse. As pessoas escolhiam o animal que queriam levar para casa, maior ou mais pequeno, vivo ou morto, como os bandidos procurados no Velho Oeste americano. O peso e o preço eram combinados a olho, entre vendedor e comprador, e mais tarde eventualmente ajustados, coisa de nada, após pesagem da carcaça numa balança de mola propriedade do magarefe e viciada com toda a certeza.
Se era para seguir cadáver, o bicho morria logo ali, encostado ao muro do quintal da Senhora Carolina, avó do Naninho. O matador tinha um tenebroso conjunto de facas ou navalhas de diversos tamanhos e feitios, mas todas muito bem afiadas. E tinha também um pequeno tubo de cana que usava para, soprando-lhe do fundo da alma, com a cara a passar perigosamente pelas três cores dos semáforos, amarela, verde e vermelha, por esta ordem, inflar grotescamente a pele do animal, separando-a da carne e dobrando-lhe o tamanho, aquilo tudo quase a rebentar, o homem e o odre, cuidava eu, e era realmente uma coisa extraordinária de se ver, para depois proceder à esfola, facilmente, com uma perna às costas, como quem limpa o cu a meninos. E antes assim.
Era uma mortandade que só vista, caíam uns atrás dos outros. O chão do Santo enchia-se de vísceras e tripas e peles vazias e varejas grandes, feias e verdes. O Santo era uma poça de sangue, uma vala comum, uma estrumeira. O ar do Santo tornava-se irrespirável, cheirava a erva, a merda, a palha, a sebo, a azedo, a peste, e até as tílias se afligiam. O Santo fedia. Mas era por uma boa causa...
Por pobreza ou conveniência, havia quem comprasse o cabritinho a meias, ou até em quartos, mas quanto a isso os clientes é que se entendiam. Quem tivesse um galinheiro de vago ou um bocadinho de quintal, aproveitava para comprar o anho mais cedo, quando a possibilidade de escolha era maior, e levava o anho vivinho da silva para dois ou três dias de engorda. Na sexta-feira e não sei se ainda no sábado, o matador ia a casa e acabava de vez com a conversa.
Cá fora, o refugo aguardava pelos retardatários do costume.
Quem tinha de aparecer, por aqueles dias, era o Landinho, o Nosso Menino. E aparecia, porque o Landinho aparecia sempre. O Landinho andava de porta em porta e navalha na mão oferecendo os seus préstimos como matador de cabritos. Isso. O nosso Landinho, que era, entre outros afazeres delirantemente encartados, fiscal da câmara, polícia de trânsito, passador de multas e até padre, também matava muito bem cabritos, embora nunca o tivesse feito nem chegou a fazer, para sorte dele, dos cabritos e de nós todos.

Portanto, meus amigos fafenses, o segundo domingo de Julho, dia da Senhora de Antime, é agnus day, quer-se dizer, dia do anho. Mas também da vitela. E, se calhar, das tripas, aquele meio tachinho que sobra estrategicamente do almoço de sábado. E atenção: onde escrevi "tripas" e "vitela assada", deve falar-se "tripasss" e "bitela assada", com os ésses muito bem condimentados. Vitela e falar à moda de Fafe, sempre! Isto é, "sémpre"! A vitela assada à moda de Fafe, minhas senhoras e meus senhores, é provavelmente a melhor vitela assada do mundo. E isso nem tem discussão.

terça-feira, 7 de julho de 2026

Bem prega frei Tomás

À capela
Cantava muito bem à capela. Pediram-lhe que cantasse à igreja. Disse que ainda não estava preparado...

Tomás era o faz-tudo do convento. Agricultor, apicultor, sacristão, chef de cozinha, porteiro, parteiro, telefonista, copista, contorcionista, iluminador, vendedor de imóveis, disc jockey, picheleiro, Pai Natal, guarda-redes, mas sobretudo era um carpinteiro de mão cheia. Fosse o soalho do refeitório ou empreitada mais modesta, de martelo em riste, pregador como ele não havia.

O do Órfo e o do Tininho

Mal passado
A questão é muito simples: será insulto chamar bife ao camone?

Não sei quantos talhos há actualmente em Fafe, mas devem ser muitos e certamente vendem de tudo, ovos, azeite, queijo, vinho, peixe congelado, feijão, ananás enlatado, bebidas frescas, carros em segunda mão, raspadinhas e talvez carne. Os talhos são todos assim, hoje em dia, lojas de conveniência, parecem padarias. Tempos modernos. Antigamente os talhos eram apenas talhos, mas instituições de referência, barómetro e reflexo do nível de vida local, raros e valiosos como ourivesarias. Tínhamos dois.
O Talho tem lugar cativo, especial, nas minhas memórias fafenses cheias de antonomásias. O talho era o Talho, o largo era o Largo e a avenida era a Avenida, assim, sem mais nada, não havia que enganar, toda a gente sabia que aqueles nomes bastavam, eram intransmissíveis e também geografia, e para mim ainda são. O centro do mundo era exactamente ali, construído a partir de nós.
Em Fafe, Órfão era nome próprio e dizia-se Órfo. O Órfo trabalhava no Talho, isto é, o Órfo era o Órfo do Talho, do Talho do Órfo, que realmente não se chamava desta maneira mas Talho Novo, um talho à moda antiga mas assim denominado decerto para se distinguir do Talho Avenida, do Tininho, ou dos do Souto, como então se dizia, e nem tenho a certeza se este se chamava mesmo assim, Talho Avenida, mas era na Avenida, logo no princípio, quem saía do Largo em direcção à Estação, com o Monumento pelas costas, do lado e antes do Café Avenida e quase em frente ao Martins da Avenida, portanto, estais a ver, o mais certo é que também fosse da Avenida, e se calhar nem era. 
Os do Souto eram os Barros, essa distinta família que também deu futebolistas extraordinários - Nelo, Armando, Nelito, Zeca e Fernando, irmãos, nomes grandes que digo de cor, apenas de ler e ouvir dizer, porque já cheguei tarde para os ver jogar. Mas conheci-os. E o Souto, então ainda marcado por alguns velhos castanheiros, ficava à face da estrada que desce para a Fábrica de Ferro, quem deriva para o Lombo. Era ali a casa-mãe do clã, no Souto, e eles eram os do Souto, uma das ínclitas gerações fafenses. 
O nosso Talho, isto é, o Talho Novo, era, como o deles, no centro da vila e do mundo, no Largo, mas mais puxado ao lado do Mário da Louça e do Café Império, ali no enfiamento do Fernando da Sede, do Foto Jóia, do Romeu e outros que tais, tudo gente porreira, excelentíssima, o Órfo incluído. Para a mim, que era mocico e tinha medo à mão lampeira da minha mãe, o Órfo só podia ser Senhor Órfo, por respeito obrigatório, mas a expressão assim composta parecia-me um bocado parva apenas de a pensar da cabeça para dentro, e portanto eu nunca a disse da boca para fora. Quer-se dizer. A vida em Fafe era muito simples naquele tempo, mas às vezes fazia-me confusão...
Quando a minha mãe me mandava à fressura, "um quarto", eu tinha de escalar a parede de quatro metros e meio de altura do balcão para pendurar-me na borda e ser visto lá em cima. E é curioso: quase sessenta anos passados, ainda guardo bem vivas as caras daquela boa gente, que me atendia tão bem, como se eu fosse grande, como se eu fosse rico, como se eu fosse ao bife, respeitando com reserva e elegância a nossa pobreza. Caras a que, tenho pena, não sei agora dar nomes, com excepção do Senhor Abreu, que morava em frente aos Bombeiros, do bom Senhor Beijo - Beijo de Benjamim, isto é, "Beijamim", suponho -, que era um gigante também de gentileza, e, evidentemente, do Senhor Órfo, o Talho em pessoa.

A guardar-se para a vitela

À moda de Fafe
Podem-lhe pôr rodela de laranja. Podem. Podem pôr-lhe, até, rodela de ananás ou rodela de quivi ou fatia de abacate ou, se calhar, morangos com chantili, picles, frutas cristalizadas, farofa, "ketchup" ou mostarda de Dijon, claro que podem. Ponham! Mas, se é vitela assada à moda de Fafe, melhor fariam se não pusessem. Como diziam os antigos: não é dado...

Os domingos tinham esse pequeno problema, e quem for de Fafe e antigo sabe do que falo: tripas ou vitela assada? Era a verdadeira questão, o dilema do almoço dominical. Os fafenses de antanho, gente de bom comer e satisfatório beber, resolveram facilmente o assunto: isto é, em vez de tripas "ou" vitela assada, o almocinho de domingo passou a ser tripas "e" vitela assada. Até hoje. Nem o bíblico Salomão, nos seus melhores tempos, tomaria decisão mais acertada.
A vitelinha guiava-se em casa, com vagar e carinho, com as voltinhas todas, se possível em forno ou fogão de lenha, pingadeira de barro, velhinha, bem tarimbada, e as tripas, regra geral, iam-se buscar num tachinho à Esquiça ou à Pacata, consoante a ideia que cada um tinha acerca da sua própria posição social - o que agora até dá para rir, sabendo-se da história completa e vendo-se assim a coisa à distância...
Começava-se, portanto, pelas tripas, e a seguir vinha a vitela. O apetite era gerido ao milímetro, mais ou menos um bocadinho daquelas, mais ou menos um bocadinho desta - porque, como determina o princípio da impenetrabilidade da matéria, dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo, e as vacas é que têm quatro estômagos, melhor para nós. Ora bem: a malta nova, pouco dada à tripalhada, reservava-se para a chicha com batatinha de ouro e arroz seco e solto. Mas, de quando em quando, reservava-se mal. Como daquela vez em que o nosso Zé não tocou no feijão. Perguntaram-lhe se estava doente, se tinha fastio, se queria um caldinho branco, se queria meter o termómetro. Que não, que não, que não e que não, respondeu respectivamente, e explicou todo gaiteiro: - Estou a guardar-me para a vitela!
Naquele domingo não havia vitela. E as tripas já tinham saído da mesa...

Agora, muita atenção: onde escrevi "tripas" e "vitela assada", deve falar-se "tripasss" e "bitela assada". À moda de Fafe. E, repito, mais atenção ainda: a vitela assada à moda de Fafe, quando bem trabalhada, é provavelmente a melhor vitela assada do mundo.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

O pregador

Stultorum infinitus est numerus
Depois de gastar o seu latim, gastou também o seu grego e as luzinhas que sabia de aramaico. E nem assim...

O pregador subiu ao púlpito, e os seus passos seguros, pesados, degrau a degrau, ecoaram em stereo litúrgico na igreja confortavelmente vazia. Estranhamente vazia. Constava que ele era o melhor pregador da região...
O pregador não iria, porém, deixar os seus créditos por mãos alheias. Compenetrado mas decidido, agarrou nas três tachas que levava na ponta da língua, sacou do martelo que trazia à cintura, e em menos de um padre-nosso já tinha consertado a estante que o sacristão escangalhara sem querer nas arrumações da missa das sete.