terça-feira, 16 de junho de 2026

Com o Zegolina, ninguém estava livre

Missais terra-ar
Portugal enviou missais para a Ucrânia. Pequenos missais de rito bracarense praticamente novos. As ordens eram para mandar mísseis, mas alguém da intendência fez confusão ao aviar a encomenda.

Armando Zegolina, isto é, o Zegolina, sobrenome conquistado na rua pelo cidadão Armando Sousa, era um fafense excelentíssimo e campeão mundial da maledicência. Campeão invicto e ininterrupto pelo menos enquanto foi vivo, e não sei se também depois, é preciso que se note. O Zegla dizia mal de tudo e de todos. Pelas costas, pela frente e pelos lados. Com razão, sem razão e antes pelo contrário, apenas por uma questão de princípio. Nasceu para aquilo. Dizia mal do futebol. De quem ia ao futebol e de quem não ia ao futebol. Dizia mal da religião. De quem ia à missa e de quem não ia à missa. Dizia mal da política. De quem era dos partidos e de quem não era dos partidos. Dizia mal da televisão. De quem via e de quem não via. "E tu também te podes ir foder!", dizia-me regularmente. Era. Com o Zegolina, ninguém estava livre.
E como é que lhe veio o nome fantástico? Assim. Em pequeno, ali para os lados de Portugal e do Lombo, de onde ele era, o Armando gostava muito de brincar esvaziando os pneus de todos os automóveis que lhe calhassem à mão de semear e longe da vista dos donos. Ele explicava que lhes estava a tirar a... zegolina. E daí o nome e a lenda.
O nosso Zegolina jogou futebol até aos juniores na AD Fafe e, entre 1968 e 1971, foi soldado pára-quedista e tratador-treinador de cães de guerra. Voluntário. Cumpriu oito meses de Guiné, durante os quais realizou 21 saltos, quase sempre em situações de combate. Foi operário têxtil evidentemente na Fábrica do Ferro, emigrante em França no ramo dos elevadores, e quando tornou a casa, em 1979, fez-se electricista por correspondência e montou negócio. Frequentávamos ambos o inevitável Peludo e acompanhámos depois a módica deslocalização do Peixoto, que foi só virar a esquina. Éramos amigos, eu e o Zegolina - mais o estimado Manel Zebras, velha glória da Desportiva, os três à mesa pária em que mais ninguém queria entrar. Éramos amigos, sem dúvida. O Zegolina ansiava pelas minhas férias e pelos meus bissextos retornos a Fafe, para pormos a conversa em dia, e tínhamos uma certa pressa nisso. Éramos amigos conversantes, confidentes, cúmplices e leais, como o aço. E o Zegla até nem era nada disso de amizades derivado à língua, embora por detrás da língua desgovernada estivesse um homem generoso, bom rapaz, talvez tímido, mas ele não queria que se soubesse. Ele era ruim só da boca para fora, e essa era a sua magnífica fraqueza.
O Zegolina morreu há anos e praticamente novo, muito antes do prazo, muito antes do que seria decente ou razoável, morreu devagar, quero dizer, foi morrendo a olhos vistos, com o corpo de atleta e militar de elite cobardemente escangalhado pela sorrateira doença dos pezinhos ou paramiloidose, que só não lhe atacou a língua. E isso, estou em crer, foi o seu derradeiro consolo.

Corino de Andrade, o génio imperfeito

O homenageado
Fizeram-lhe rasgados elogios. O homenageado não gostou. Apanhou humildemente os papelinhos desirmanados, reorganizou-os com fita-cola e foi para casa...

Uma vez saiu-me a sorte grande e pude falar com o Dr. Corino de Andrade. Mário Corino da Costa Andrade (1906-2005) foi médico, investigador e humanista, uma das figuras de proa da neurologia portuguesa do século XX. Um génio. Foi o cientista que descobriu a paramiloidose, ou doença dos pezinhos, identificada nos meios académicos e clínicos, a nível mundial, como doença de Andrade ou Corino-Andrade. E achava pouco. Fundou, com Nuno Grande, o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, da Universidade do Porto.
Contou-me: aliciaram-no para que escrevesse as suas memórias - recusou, era "uma chatice". A lisonja, a ele, batia-lhe com o nariz na porta. Pretenderam homenageá-lo. Disse-me: "Não quero homenagem nenhuma, Deus me livre! Eu tenho horror, uma espécie de alergia urticária contra as homenagens. É uma chatice. O excesso de homenagens em Portugal é um mau sintoma".
Entusiasmado pelo singularidade daquele encontro, não segurei em mim que não fizesse uma das perguntas mais estúpidas de toda a minha vida profissional: - Mas o senhor doutor deve estar orgulhoso por ter descoberto uma doença, por ver o seu nome ligado a essa doença, não é?...
"Não, meu caro senhor, não é", atalhou mansamente o Dr. Corino de Andrade, com a paciência dos sábios e a astúcia dos malandros, para imediatamente me martelar pelo chão abaixo, com toda a veemência: "Seria um orgulho muito grande ter o meu nome ligado a uma cura, isso é que era genial, mas tê-lo ligado a uma doença, essa é a maior das chatices"...
Corino de Andrade tinha então uns belíssimos 87 anos, em impecável estado de conservação e conversação. Recebeu-me em sua casa, depois de eu lhe ter andado a chagar a cabeça, via telefone, durante mais de quinze dias. Ele não queria nada com jornalistas, recusava-se a "aparecer", estava farto de "chatices". Incomodavam-no a paráfrase, a elaboração escusada, as repetições. "A gente deve reduzir ao mínimo o que tem para dizer, e dizer só as coisas fundamentais, ou que assim nos pareçam, e que possam ajuntar qualquer coisa ao já dito", explicou-me.
O Dr. Corino morreu seis dias depois de ter completado 99 anos. E era diferente, não era?

Entretanto. Estudos recentes confirmam que Portugal continua a ser o país do mundo com mais casos de paramiloidose, esmagadoramente no Norte do País, com o distrito do Porto à frente de Braga e Aveiro.

Os melhores anos da minha vida 2

Foto Tarrenego!

Faziam-se homens e pronto
No meu tempo era mais fácil fazer homens. Levavam-se os rapazes às putas, mandavam-se os rapazes para a tropa, e estava o assunto resolvido. Hoje em dia a coisa exige outros mimos, ciência...

Claro que crescíamos e éramos cada vez menos. As calças à boca de sino não ajudam muito à seriedade do acto e as guedelhas anticanónicas colocam-nos nos primeiros tempos pós-revolução do 25 de Abril de 1974. Por aí estávamos, de facto - o que me foi fatal. Já não éramos meninos. Procurávamos a abertura. Muitos escolheram sair, seduzidos pelos arejos da liberdade, a mim mandaram-me embora, vítima de uma espécie de saneamento fascista-sacrista, que hoje me dá para rir, mas na altura não. Eu era o líder da insurreição interna, que, assim cortada pela raiz, por ordem directa do bispo, faleceu ali mesmo, confortada com os sacramentos da Santa Madre Igreja. Livres das más influências da "maçã podre" que eu seria, alguns destes cromos desabrocharam, então, em padres, consta-me que já vão em cónegos, mas não sei de que categoria. Os cónegos, como já aqui expliquei, dividem-se em três partes.

Há três dias que olho para esta fotografia, e o que me vai realmente na alma não é para aqui chamado. Olho para a fotografia e parece-me (nunca me tinha apercebido) que, por um aviso qualquer, nos juntámos todos à volta do Miguel Carlos. Miguel Carlos Lobo Pinto de Oliveira, se não me engano. E nunca o esqueci.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

A munha e o munho

Recensão crítica
Resolveu fazer um estudo comparado. Mas comparado com quê? Optou então por fazer um ensaio. Ensaiou e desistiu. Estava cansado. Pediu mais uma cerveja e a conta, bebeu, pagou e foi-se embora.

Os colchões eram cheios com palha ou folhelho. E as almofadas enchiam-se com munha. Isso mesmo, munha, restos de palha moída depois de malhado ou debulhado o cereal, a que dicionários e vocabulários mais delicados talvez queiram chamar apenas moinha. Mas era munha que se dizia, pelo menos entre o povo rural naquela corda serrana de Fafe e Cabeceiras de Basto, e dizia-se muito bem. Isso. Dizia-se munha, em vez de moinha. E, tomai nota, dizia-se "munho", em vez de moinho. E essa é que essa!

O vogal que é consoante

Chiu!
Disseram-lhe que o silêncio é de ouro. Nunca mais abriu a boca e ficou rico.

É um homem muito dado, com uma vida inteira dedicada ao associativismo, às agremiações. Pertence aos corpos sociais há mais de quarenta anos, primeiro como suplente, na última década como membro efectivo da Direcção, e lá se vai aguentando, automaticamente reeleito, ano após ano. Mudam os outros, mas ele fica. É vogal. Um baluarte. E no entanto ninguém lhe conhece uma opinião própria, uma tomada de posição, um ponto de vista, um prisma, uma óptica, um ângulo de visão que se diga. Navega ao sabor do vento e sempre com a maioria, silencioso. Exigem-lhe uma decisão, e ele diz "depende". Quer-se dizer: é vogal, mas os colegas chamam-lhe consoante.

Os melhores anos da minha vida

Foto Fotografia Aliança

O futuro tem tempo
A vantagem do futuro é que está sempre dois passos à frente. Sempre.

Naquela altura eu não sabia que aqueles eram os melhores anos da minha vida. Dito com mais rigor, os primeiros melhores anos da minha vida. E que ninguém se iluda com o aspecto formal, cinzento, tão manhã submersa. Rapazinhos vestidos de homens, tão coninhas. Não éramos nada disso, pelo menos não éramos todos. Éramos, pelo menos alguns, rapazes espertos e gandulos, mas tínhamos mestres. Sorte a nossa. Sorte minha. Devo-lhes tudo. E mandaram-me embora...
Alguns destes inesquecíveis cromos deram mesmo em padres, consta-me que até já vão em cónegos, mas não sei de que categoria. Os cónegos, como me ensinaram e eu gosto de explicar, dividem-se em três partes. Lá iremos...

domingo, 14 de junho de 2026

O ouvidor de silêncios

Colhedor de sóis
Saiu para apanhar sol. Regressou de saco cheio.

Ele era um exímio ouvidor de silêncios. Ouvidor de silêncios e fafense dos antigos. Capaz de distinguir o silêncio da flor de madressilva do silêncio de uma Famel Zundapp XF17 Super.