segunda-feira, 25 de maio de 2026

Não te escames!

Às vezes dava-lhe na cabeça
Às vezes dava-lhe na cabeça e levava tudo a eito. Geralmente não era assim tão organizado.
Às vezes dava-lhe na cabeça e varria tudo o que tivesse à frente. A casa ficava um brinco.
Às vezes dava-lhe na cabeça e limpava até a casa dos outros. Cleptomanias...
Às vezes dava-lhe na cabeça. Até que ela o deixou.

Escamar. Quer-se dizer, tirar as escamas ou, pelo contrário, cobrir de escamas. No Brasil significa também fugir. Mas, em Fafe do meu tempo, como noutros terras portuguesas que não sei e pelo menos aqui ao lado na Galiza, escamar era e é sobretudo irritar, zangar, ofender ou ficar ofendido ou sentido, é escarmentar, outra palavra que tal. Mas escamar. As pessoas escamavam-se umas com as outras, e às vezes era para toda a vida. Pedia-se calma - não te escames! Avisava-se para o perigo - ui, não o queiras ver escamado! Justificava-se o amuo, a separação - estou escamado com ele. E eu gostava desse falar antigo.

Também acontece aos melhores

Os favoritos
E diz o comentador, no final do jogo do campeonato inglês: "Vitória mais que justa da equipa que não reunia qualquer tipo de favoritismo". Sim, é verdade, ele há favoritismos das mais variadas espécies. Mas quase nunca reúnem.

Abril passava para Maio no ano de 2012. O FC Porto sagrou-se campeão nacional. O grande jornalista Ferreira Fernandes escrevia então no DN. E escreveu. Eu, armado em carapau de corrida, "respondi-lhe" no meu blogue Tarrenego!, metendo-lhe o título acima e a foto de uma caixa de Kompensam-S, medicamento indicado para o alívio dos sintomas de azia, enfartamento e acumulação de gases. O textinho era assim:
"Ferreira Fernandes é um dos mais brilhantes cronistas do jornalismo português. E é o meu preferido. Todos os dias procuro o cantinho que lhe dão no Diário de Notícias e todos os dias me delicio e aprendo alguma coisa com ele. Ferreira Fernandes é informado, é culto, é estiloso, é escorreito, é claro, é corajoso, é honesto, é sensato, é sucinto, é simples, é assertivo. E também é benfiquista.
Ferreira Fernandes escreve de tudo, não por armanço idiota, mas porque verdadeiramente sabe de quase tudo. Escreve, por exemplo, de futebol, sem que lhe caiam as medalhas ao chão, e continua a ser um prazer lê-lo. O Barcelona e o Real Madrid, Messi e Cristiano Ronaldo, Guardiola e Mourinho devem-lhe, se calhar, os mais perfeitos textos que sobre eles foram escritos a nível mundial.
Ferreira Fernandes tornou ao tema do pontapé na bola na edição de ontem do DN, mas inesperadamente com uma cirúrgica preocupação doméstica. Na noite em que Rio Ave e Benfica entregaram ao FC Porto mais um título de campeão que, desta vez, parece que mais ninguém queria, o meu cronista favorito esqueceu-se do facto e resolveu escrever sobre os desarranjos intestinais do futebol português. É. Realmente, ninguém está livre."

Ferreira Fernandes, de quem sinto uma saudade imensa na chamada "imprensa nacional", mas provavelmente ele não, teve a bondade de dar-me troco, com a ironia, a sabedoria e a elegância do costume. Escreveu:
Caro Hernâni Von Doellinger,
leu mal, não quis fugir à vitória do FCP. Mais um campeonato do FCP não é notícia. Não escrevi sobre ela pela razão idêntica à dada por Liz Taylor por não ter ido ao funeral de Richard Burton: "Se eu fosse a todos enterros dos meus ex-maridos não fazia outra coisa."
Abraço, Ferreira Fernandes."

Eu, evidentemente, fiquei num sino por Ferreira Fernandes me ter lido, ainda por cima agraciando-me com um comentário, uma medalha. E rematei, dono da bola, até parecia que estava a adivinhar os festejos extraordinários deste ano:
"Muito obrigado, caro Ferreira Fernandes, pela gentileza da visita e do comentário. Que vou encaixilhar. Mas voltou a descair-lhe o pé na metáfora, meu amigo: os títulos do FC Porto não são funerais. Ou, pelo menos, não são um funeral para toda a gente. São uma festa, não viu?
Abraço,
h."

Isto é. O cronista Ferreira Fernandes, à mão, todos os dias, faz-me falta. Faz-nos falta. O País, se tivesse salvação, deveria reclamá-lo. E eu tinha alguma urgência de dizer isto outra vez.

domingo, 24 de maio de 2026

O mordomo do Papa e os filhos da púrpura

Sagrada alcovitice
Em Outubro de 2012, o mordomo do papa Bento XVI, Paolo Gabriele, foi julgado por "roubo agravado" de documentos confidenciais e condenado pelo Tribunal do Vaticano a 18 meses de prisão.

Já não bastava a indecência por si só de o Papa ter mordomo. Também saíram em fascículos as histórias do mordomo, que foi julgado e condenado por ter posto ao léu as poucas-vergonhas da Igreja de púrpura. Algumas. O mordomo, manda o protocolo caduco, é o homem que tem por "funções vestir o Papa e viajar à sua frente no papamóvel". Coça-lhe as costas, chega-lhe os chinelos, conta-lhes as últimas, faz-lhe a cabeça, dá-lhe uns palpites e saca ao velho informações a bem dizer de confessionário, tudo exactamente como Jesus Cristo recomendou a São Pedro quando lhe entregou as chaves do Vaticano. Está na Bíblia.
Isto de o Papa ter mordomo e de o mordomo vestir o Papa e passear no papamóvel com o Papa e de tomar o pequeno-almoço com o Papa e de intrigalhar com o Papa e de o Papa intrigalhar com o mordomo, eles os dois no serrote, de xícara na mão e mindinho espetado, filhos da púrpura acima, filhos da púrpura abaixo, fez-me lembrar o nosso José Castelo Branco, as suas vestimentas e os seus hábitos, Deus me perdoe. O "Conde" também tinha mordomo e também acabaram mal. Por amor da santa: comportem-se, meninos!

Os rapazes do Vaticano

Modéstia à parte
Presunção e água benta, cada um toma a que quer. Ele era mais presunção.

Cada vez que há eleições para papa, sai sempre um velhinho na rifa. Um cardeal velhinho. Tem sido assim nos tempos modernos. E compreende-se: é preciso pôr na cúpula da Igreja Católica alguém com experiência, com a sabedoria da longa vida que carrega sobre os ombros, não vá repetir-se a triste história do inconsciente Jesus Cristo, que tinha apenas 33 anos e resolveu morrer por nós todos, dando origem a isto tudo. E o cardeal velhinho tem de ter muitos doutoramentos em muitas universidades gregorianas, que é só uma, mas podia ser pelo menos três, como a Santíssima Trindade, não vá sentar-se lá, na praticamente infalível cadeira, um pescador como Pedro ou um funcionário das Finanças como Mateus, dois burgessos que certamente escangalhariam isto tudo.
E já muito facilita o Vaticano, quedando-se pelos simpáticos septuagenários ou octogenários. Basta pensar que, biblicamente, Moisés viveu até aos 120 anos, Jacob até aos 147, Abraão até aos 175, Adão até aos 930, Noé até aos 950, e Matusalém, filho de Enoque, pai de Lameque e avô de Noé, faleceu inesperadamente aos 969 anos.
(Evidentemente também há João XII, que chegou a papa aos 18 anos, dormia com as prostitutas do pai, teve relações sexuais com a própria mãe, castrou um dos seus cardeais, cegou outro, torturou quem lhe desprazia e acabou por morrer com uma valente marretada na cabeça, gentilmente oferecida pelo marido cornudo de uma das suas incontáveis amantes. Mas isso não é desculpa.)
Não sei se sabeis: todos os católicos são teoricamente elegíveis para papa. Basta-lhes serem, obviamente, baptizados, maiores de idade e homens, embora depois devam vestir saias. Isto é, eu posso ser papa, um sétimo de toda a população mundial pode ser papa, depois, na questão das saias, cada um é como cada qual.
Só que as eleições no Vaticano não são directas e universais. Ninguém pede a opinião ou sequer imagina o voto do mundo católico de pé descalço, nem são admitidas candidaturas espontâneas e bem intencionadas. Não há cá abébias para paisanas ou pessoal menor. Votam apenas os cardeais, lacrados no chamado conclave, onde, nas horas mortas, contam anedotas picantes uns aos outros, fazem malha e jogam às damas. E se votam apenas os cardeais, isto é, 133 eleitores "representando" cerca de 1272 milhões de almas mudas e ignoradas, porque é que os velhinhos haveriam de escolher para patrão o Silva dos Plásticos, que, sendo embora uma pessoa estimável e comerciante respeitado da nossa praça, não lhes pertence de lado nenhum?
Não. Aquilo é lá uma coisa só entre eles e para um deles, os da sala, os da seita, os rapazes do Vaticano, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, mas em nosso nome é que não.

A culpa é do Espírito Santo

Uns pontos
Diz o ponto cardeal ao ponto de rebuçado: não te armes em papa!

O Papa morre, longe vá o agoiro, e a Igreja sotainada apressa-se a reunir em conclave para escolher o novo Papa. Velho. Um novo Papa velho, não vá o diabo tecê-las. A Capela Sistina é preparada a todo o vapor e duas salamandras. Metidos lá dentro, fechados à chave, todos muito cardeais uns com os outros, pelo menos da boca para fora, o lóbi italiano, o lóbi canadiano, o lóbi americano, o lóbi alemão, o lóbi austríaco, o lóbi francês, o lóbi-da-alsácia, o lóbi brasileiro, o lóbi sul-americano, o lóbi africano, o lóbi africanista, o lóbi banqueiro, o lóbi antunes, o lóbi dos velhos, o lóbi dos "novos", o lóbi "conservador", o lóbi "renovador", o lóbi do silêncio, o lóbi "garganta funda", o lóbi zomem, o lóbi gay e outros insondáveis lóbis vão negociar o nome do sucessor do falecido. A feira do costume. Andam de carrinhos de choque, mandam uns tirinhos, organizam rifas, fazem apostas e jogam ao pilas, orientados pelo Serafim Lamelas lá deles. Tiram um nome à sorte, mandam-no acenar à janela e dizem que a culpa foi do Espírito Santo.

sábado, 23 de maio de 2026

Carapaus, só de corrida

De cor e salteado
E finalmente conseguiu decorar o bolo. É um bolo complicado, com milhões de ingredientes e passos, mas já está na ponta da língua.

Era um anúncio radiofónico a não sei quê. Mais ou menos isto: o filho com jeito para a piada chega a casa e diz ao pai que tem uma má e uma boa notícia para lhe dar - bateu com o carro do velhote e, como foi contra a porta do mercado, aproveitou para trazer os carapaus para o jantar. "Carapaus, não", corrige o sapiente progenitor, "chicharros, como se diz nos Açores". Exactamente. Como se diz nos Açores. Sobretudo naquele belíssimo naco açoriano a norte do rio Douro e Minho acima, Galiza adentro...

Em Fafe, carapaus, que me lembre, só de corrida. Ou por outra: em Fafe diz-se chicharros, evidentemente, e chicharros dizia-se chucharros, e até havia uma família, gente boa, com esse nome posto. Os Chucharros, do Lombo, vizinhos do eterno Armando Zegolina. Em fafense correcto, quer-se dizer, em fafês, como eu lhe chamo, os "ches" de chucharro devem ser lidos como os "ches" de cachicha. E evidentemente deve ler-se e dizer-se evidénteménte.

Ah, fanecas!

O sedutor
Ele era um sedutor de mão cheia. Adorava apalpar rabos.

Bem boas que elas andam, as fanecas. Gosto delas fritas. Temperadas só com sal e passadas por farinha milha, à tasco, isto é, à Fafe, ou então mais à minha moda, tratadas também com um pouco de pimenta e bastante limão e depois envolvidas com farinha triga e ovo. Sem outros truques ou invenções. Há derivas que aceito e consumo, mas estão longe de me satisfazer. Insisto: a faneca só me enche as medidas quando na sua pureza original. Frita.
Peixe, em Fafe, era uma trilogia, uma santíssima trindade: sardinha, faneca e chicharro, que se dizia chucharro, carregando generosamente nos "ches" como se fossem tempero, azeite do bom. Era o peixe que se podia, peixinho de pobres. Às vezes lá apareciam também uns verdinhos, umas marmotinhas para enfiar o rabo na boca, e claro que ouvíamos falar de pescada, sabíamos que a pescada existia, que antes de ser já o era, mas que era só para os ricos, ou para os pobres oferecerem aos ricos, como peita, os tolos. O peixinho andadeiro, o nosso, comprava-se à Mocha e à D. Filomena, marralhando com todo o afinco, à face da estrada, no Santo Velho, sítio estratégico por onde passava o povo das fábricas. A pescada, quem lhe pudesse chegar, amiúde para acudir à aflição de uma doença e satisfazer a recomendação médica, só vinha por encomenda, de um dia para o outro. E era como se fosse à farmácia.
Uma vez há muitos anos, pela madrugada, eu já no Porto, deixei que me metessem num barco nevoento e fui à pesca da faneca com o bando do saudoso Adélio Santos, velho repórter-fotográfico com quem acamaradei no Janeiro e noutras lides mais ou menos profissionais. Quer-se dizer: eles foram à pesca, à linha, e eu fui lançar ao mar os restos de uma noitada sem passagem pela cama. Não sei se servi de engodo, mas o certo é que apanhámos peixe até dar com um pau. Seríamos uns seis ou sete naquela companha de ocasião, e toda a gente teve direito a um ou dois baldes cheios de fanecas e cavalas, até eu, que, pelos vistos, também tinha feito a minha parte e não sabia. Estava na idade da toléria e tão tolo era que desprezei então as cavalas, hoje em dia com lugar cativo, ainda que bissexto, na minha exigente lista de pitéus.
Mas voltemos às fanecas. O meu amigo Lopes, que é tão fanequeiro como eu, afirma, no seu mar de sabedoria, que "a faneca é um peixe muito honesto". E é. Em diversos sentidos e apesar de já ter andado por aí na boca da malandragem armada em carapau de corrida. A este respeito (ou a respeito da falta dele), torno a Fafe, à década de setenta do século vinte: quem é desse tempo e não se lembra dos rapazolas ou velhos tarados que, aproveitando a barafunda das quartas-feiras, passavam por elas, pelas moças, em Cima da Arcada, roçando-lhes o cotovelo pelas mamas, como quem não quer a coisa, atirando-lhes, entredentes, "Ah, faneca, comia-te toda!", broeiros, e levando de resposta um lampeiro estalo na cara, que acabava logo ali com todos os tesões? Realmente, quem não se lembra?...
Entretanto o piropo foi criminalizado em Portugal, e até poder dar cadeia. E os apalpões, já se sabe, dão artigos de jornal, o que ainda é pior. A mim, por acaso, não me faz diferença. Gosto muito de fanecas e de mamas, confesso, mas seduzo apenas por telepatia.
O Lopes tem razão: a faneca é um peixe honesto. Depois, evidentemente, como em tudo na vida, há fanecas mais honestas do que outras. Na minha cozinha, por exemplo, só entram fanecas do alvor, pescadas já dentro da manhãzinha, como daquela vez extraordinária com o Adélio, mas agora sacadas do mar por mãos que sabem. Um luxo. Mordomia matosinhense, reservada a quem mora ao pé da doca e conhece um bocadinho. São fanecas do mar que eu vejo da minha varanda, "do nosso mar". Madrugo também, compro-as vivinhas da silva, ainda sem terem passado pelo castigo do gelo e isentas de outras burocracias normalizadoras e estragativas, trago-as íntegras para casa, amanho-as eu, eu é que sei como é que as quero. Não menos importante: comemo-las no próprio dia. Exactamente. Elas andam bem boas, isso nem se discute, mas é preciso saber dar-lhes as voltas...