domingo, 12 de julho de 2026

Diálogos fafenses 58

As duas senhoras
- Bom dia, Senhora da Misericórdia!...
- Olá, Maria das Dores, há um ano que não nos víamos...
- Saio pouco, enjoo na viagem...
- E eu também, são estes solavancos, estes salamaleques, estas lengalengas, estes tambores, este sol...
- Os foguetes...
- As pombas...
- Este povo...
- O nosso povo, não é?
- No dia do anho parece que sim, de resto nunca sei dele...
- Mas a senhora está muito bem.
- E a senhora também.
- Porém os anos...
- A quem o diz...
- Por falar nisso, tinha qualquer coisa para lhe dizer...
- E eu também, mas não me lembro...
- Bem, vou-me lá, que são que horas...
- Vá do seu vagar, vá. Vá indo, que eu vou lá ter...

Sempre alerta

Bombos da festa
Eles não gostavam que lhes chamassem bombos da festa. Mas eram.

Nas desbragadas palavras do humorista brasileiro Juca Chaves (1938-2023), os escuteiros são "um bando de garotos vestidos de idiotas, comandados por um idiota vestido de garoto". E consta que o famoso menestrel teve de pedir desculpas pela piada.
E o que é que eu acho? Eu gosto de ver os pequenos e grandes escuteiros, a toque de caixa, ribombantes e razoavelmente descompassados, abrindo a procissão da Senhora de Antime. E penso no velho Juca e rio-me um bocadinho, Deus me perdoe...

Igreja Nova, pecados velhos

Incesto
Ele andava um farrapo. Deprimido, angustiado, pesaroso, cabisbaixo em todos os sentidos. Atormentava-o o terrível pensamento, a dúvida atroz: será incesto manter relações sexuais com a própria mulher?

Fafe. Na Igreja Matriz, a igreja velha, os homens ficavam à frente, junto ao altar, e as mulheres ficavam atrás, separadas dos homens por umas pequenas grades. Na Igreja Nova os homens ficavam do lado direito para quem olha para o altar e as mulheres ficavam do lado esquerdo para quem olha para o altar. É. A Igreja Nova representou um indiscutível avanço civilizacional. Um avanço para o lado, amém.

Tocavam os sinos da torre da igreja

Advérbios
Há oras felizes e aliás também.

Naquele tempo, Fafe dispunha de dois razoáveis tocadores de sinos: o Zé Sacristão, na Igreja Nova, e o Mudo, na Igreja Matriz. Ambos autodidactas, biscateiros, rabugentos, mas artistas de mão cheia. O Sr. José era sacristão, como o próprio nome indica, e importante autoridade eclesiástica local, logo a seguir ao Sr. Arcipreste e à Irmã do Sr. Arcipreste, só depois é que vinham os outros padres e a comissão fabriqueira. Para além disso, era também muito amigo e principal vítima das anedotas e partidas do meu avô da Bomba e do Sr. Ferreira do Hospital, que lhe davam cabo da cabeça por uma questão de princípio. O Mudo era engraxador e sportinguista de alto gabarito, irredutível fiscal antiborlas e segurança atrás das balizas, primeiro no Campo da Granja e depois no Estádio, hoje, com a mania dos eufemismos sem sentido, chamar-lhe-iam steward e talvez Infonador ou Insonoro. Mantinha ponto no cruzamento da Rua Montenegro com a Rua António Cândido, do lado do Asilo, em frente ao Cândido Mota.
A torre da Igreja Nova dava as horas a prestações, automaticamente, comandando a toque de caixa a vida na vila antiga. Para músicas mais elaboradas, em ocasiões especiais, os sinos eram tocados a partir da sacristia. Imediatamente após as escadas e a porta, quem entrava por fora, logo à mão esquerda, antes do armário que guardava casulas e estolas, capas e outras alfaias litúrgicas mais pesadas, havia uma espécie de cofre cravado na parede e sempre fechado à chave. O interior continha um teclado de meia dúzia de notas, eventualmente as sete básicas mais um ou outro sustenido ou bemol, não tenho a certeza, e era ali, carregando nas teclas com um pauzinho tipo régua, uma de cada vez, na ordem certa, de ouvido, como quem escreve à máquina só com um dedo, que o Sr. Zé Sacristão, ou Zé Fogata, executava as duas ou três modinhas religiosas que sabia, regra geral sem enganos de maior nem improvisações dignas de registo, naturalmente dependendo da hora a que decorria o recital. Entre o toque seco na tecla e a resposta do sino respectivo demorava sempre um bocadinho, um quase nada, mas eu, menino de ajudar à missa, percebia aquilo muito bem, era o tempo que a nota levava a chegar lá acima, porque a electricidade naquela altura não era tão rápida e instantânea como é agora a dos computadores.
Estes concertos eram dados principalmente em dias de festa religiosa, antes e no final de missa solene, nas saídas ou chegadas de compassos e procissões - e lembram-me sol, manhãs límpidas e alegres. Estavam previstos, pertenciam à liturgia oficial. Pela parte que lhe tocava, e muito, o Sr. José também aceitava encomendas particulares, para assinalar condignamente casamentos e baptizados mais faustosos, por assim dizer, mas isso já era pago por fora - se é que me faço entender.
Na Igreja Matriz, o Mudo fazia igualmente pela vida, aproveitando sobretudo os funerais. Estou em crer que o seu serviço constava na folha de pagamentos dos dois cangalheiros fafenses originais, fora as sempre bem-vindas gorjetas dadas pelos familiares do defunto, que assim cuidavam de marcar lugar no céu. Na Matriz exigia-se ao sineiro um desempenho mais atlético e menos melodioso, os sinos eram da geração anterior, tocados à mão, directamente, puxando cordas e badalos, nos velhos compassos, plangentes, com alma, do dobrar de finados. Lá em cima, na torre, ser surdo deveria revelar-se de uma extrema comodidade.

Era o que tínhamos. E dávamos-lhe muito bom uso, não é para nos gabar. Agora. Diz-se que Portugal tem desde 2005 o segundo maior carrilhão da Europa. Em Alverca, com 72 sinos, alguns dos quais pesam várias toneladas, e todos geralmente calados. É o terceiro carrilhão construído em Portugal, depois dos famosos carrilhões instalados, no século XVIII, no Convento de Mafra e na Torre dos Clérigos, no Porto. Os Carrilhões de Mafra são considerados, aliás, o maior conjunto de carrilhão fixo do mundo, com 120 sinos em duas torres. E o maior e mais pesado carrilhão itinerante do mundo é também português, o Lvsitanvs, com 63 sinos e cerca de 12 toneladas, sediado em Constância mas a poder viajar por todo o país em cima de um semi-reboque, segundo leio.
De carrilhões realmente até nem estamos mal servidos. Há quem diga que é preciso tê-los, e nós temos. E quem diz carrilhões, diz órgãos. Órgãos de tubos. Como, por exemplo, o avantajado órgão de tubos da portuense Igreja da Lapa, que é considerado "o maior órgão de tubos da Península Ibérica", e olé!, e o poderoso órgão de tubos da Basílica da Nossa Senhora do Rosário, em Fátima, que é considerado "o maior órgão de tubos de Portugal". Há qualquer coisa aqui que não bate certo, é verdade, mas eu não sei o que é. Os medidores de instrumentos não se entendem e desconhecem os contornos da geografia, mas o livro da antiga 4.ª classe, contas simples de somar e uma fita métrica bastariam para acabar de vez com a confusão, se o assunto fosse em Fafe. Isto com os órgãos para o Guinness não é questão de opinião ou desempenho. O tamanho importa, mesmo!

sábado, 11 de julho de 2026

Fulanos, sopranos e beltranos

Compensações
Quem disse que o crime não compensa, decerto não sabia fazer contas...

Os sopranos têm, por definição, o tom de voz mais agudo e com mais alcance de mulher ou de rapaz muito novo. Se os sopranos forem homens, os puristas preferem chamar-lhes contratenores, que há quem confunda com contentores. Os sopranos dividem-se essencialmente em sete partes: soprano ligeiro, soprano lírico-ligeiro, soprano lírico, soprano lírico-spinto, soprano lírico-dramático, soprano dramático e soprano ultraligeiro. Também podem ser saxofones ou clarinetes. Nos Estados Unidos, os Sopranos ainda piam mais fino: falam com sotaque e gestos italianos, são mais que as mães, maus como as cobras e convictos frequentadores de meretrizes. São extremamente mafiosos e profundos conhecedores, estes sim, de contentores, blocos de cimento, peixes e rios, para além de cabeças de cavalo, que há quem confunda com cabeças de cavala. De escabeche. Quando inadvertidamente apanhados por famílias de outros naipes, liquidados e desmembrados como manda a lei, os Sopranos são chamados, por divertimento, meios-sopranos. Os Sopranos americanos fizeram uma excelente série de televisão e posteriormente derem em filme, o que se lamenta. O melhor Soprano do mundo (portanto, o pior) chamava-se Tony e padecia de ansiedade.
O meu pai era músico e tocava saxofone, tenor, na Banda de Revelhe, de Fafe. Isto antes de ir para França. O meu irmão Orlando também. Também foi músico e também tocou saxofone, alto, na Banda de Revelhe. Isto antes de se dedicar a outros consertos. O meu irmão José Manuel foi músico toda a a vida na Banda de Revelhe, mas tocava trompete ou, vá lá, fliscorne. Isto antes de se cansar. Eu cheguei a aprender música para a Banda de Revelhe, porém o máximo que sei tocar é campainhas de porta. Mas canto como um trombone.

Era fresca e doce

O génio da água destilada
Tinha um comportamento aparentemente excêntrico em dias de invernada: saía à rua com o guarda-chuva aberto mas virado ao contrário. As pessoas riam-se. Não sabiam que ele era recarregador de baterias...

No Verão da minha terra, no Verão antigo, umas abençoadas senhoras andavam pela caloraça das feiras e romarias vendendo copos de água de mina adoçada com açúcar amarelo e um remoto gosto a limão. Não era limonada, atenção, era exactamente o que eu digo: água fresca com duas ou três colheres de açúcar e talvez uma casca ou somítica rodela de limão. E não havia gelo. Na vila de Fafe, às quartas-feiras, dia de mercado semanal, pelos 16 de Maio ou pela Senhora de Antime, a "mina" era a bica da poça do Santo, do meu Santo Velho, que ficava ali à beira e era só comodidade. Em cima da cabeça, as despachadas senhoras, equilibristas que remédio, levavam uma rodilha e por cima da rodilha, consoante o uso dos sítios, uma bilha de barro ou um cântaro de lata revestido a cortiça, para conservar a frescura natural. Anunciavam "Fresca e doce!", a água, e desatavam a fugir, de socos na mão e pés descalços, mal se precatavam da presença, ainda que distante e distraída, do perigosíssimo fiscal da Câmara. E o povo, coitadinho, morria ali à sede. Ou então metia-se no vinho, que era o mais certo.
Fafe funcionava assim. Eu, que nunca provei pirolito, por falta de dinheiro e de coragem para assaltar o Banco, que era apenas um e por isso se dizia com letra maiúscula e ficava entalado entre o Martins Relojoeiro e o Nelo da Electra, eu, que só sabia dos gelados nas mãos dos outros, bebi uma ou duas vezes um daqueles copinhos, evidentemente mais em conta e decerto prenda extraordinária já não sei de quem nem porquê. E quereis saber? Era realmente fresca e doce, a água, como dizia a publicidade popular, e, palavra de honra, soube-me pela vida!

Já quentes e boas eram as castanhas, assim chamadas derivado à própria cor. No último Inverno por acaso até só foram quentes, às vezes nem isso, de resto apresentaram-se geralmente uma boa merda - secas, bichosas, bolorentas até. Mas ao que interessa: o pregão era, e ainda é, "Quentes e boas!", ou, como também se dizia em Fafe, "Castanhas assadas a vapor, ó que boas, ó que boas!..."
Quereis saber mais? Quem as vendia, às castanhas, ali no Santo Velho à beira do tasco do Zé Manco, era a Maria Barraca, que morava com as Ferreira Leite, na casa de rés-do-chão e primeiro andar quase em frente, isto antes de juntar dinheiro para abrir uma lojinha de plásticos e outras utilidades caseiras, uma portinha apenas, um bocado mais abaixo na Rua Monsenhor Vieira de Castro, um pouco antes do Ponto Final, mas do outro lado da estrada, depois das Turicas, encostada ao casarão do ricaço e benemérito encartado Zé de Freitas que desapareceu não sei para onde e hoje em dia parece que é o supermercado do Aldi. O casarão. Quanto à Maria Barraca, casou-se. Tarde, era o que constava, mas decerto muito a tempo.

Naquele mesmo correr, no terreiro do Santo face à estrada para o Picotalho, aproveitando a passagem obrigatória do povo em barda que trabalhava na Fábrica do Ferro, montavam banca também a Mocha e a D. Filomena, sardinheiras de categoria, e a Marrequinha da Recta, que curtia e vendia tremoços. Os tremoços da Marrequinha gozavam de muita fama e tinham um segredo. Dizia-se que eram a especialidade que eram porque a boa senhora lhes mijava regularmente durante a demolha.

O homem mais forte do mundo

Desenho Nestinho

Hidráulico e exótico
Ele andava com um macaco no carro. Hidráulico, para mudança de pneus. Mas foi apanhado pela GNR numa operação stop à entrada de Fafe, quem vem de Felgueiras. A autoridade procedeu à competente identificação, tendo sido elaborado o respectivo auto de contraordenação por violação da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção, também conhecida como Convenção de Washington ou CITES.

E daquela vez em que o Chico Varandas andou à pancada com o macaco do Homem Mais Forte do Mundo e a coisa só não acabou aos tiros porque o macaco não quis? Assim, palavra de honra. O desagradável episódio não veio nas notícias, porque ainda não havia CMTV, mas passou-se sem sombra de dúvida, porque eu estava lá, e podia ter sido realmente uma tragédia, como dizem agora os jornalistas todos por tudo e por nada.

Sucedeu assim, tal e qual como vou contar. Eram as Festas da Vila, e as Festas da Vila, em Fafe, naquele tempo, eram festas de rebimba o malho. Acima de tudo a procissão, sim senhora, que ainda hoje é a alma da festa toda, mas à roda da procissão, um pouco mais abaixo, estava montada uma criteriosa programação cultural e artística que nos enchia de orgulho, só do bom e do melhor, bife de primeira, embora nós os do pé-descalço não víssemos nada porque as entradas eram a pagar e, posto que as festividades fossem realmente muito ricas, os fafenses eram geralmente muito pobres. E bife, mesmo de terceira, era raro.
E naquele ano trouxeram-nos O Homem Mais Forte do Mundo. Não o Segundo ou o Terceiro Homem Mais Forte do Mundo, mas "O" Homem Mais Forte do Mundo, é preciso que se note. E era "O" não porque o nosso Homem tivesse ganho o título num campeonato contra esses mostrengos gordos que andam agora por aí a empurrar pneus de camião e a levantar tonéis, mas apenas porque sim. O Homem Mais Forte do Mundo levava muitos anos daquilo, era-o por usucapião. Louis Cyr, aliás já então bastante falecido, que tivesse paciência...
O Homem Mais Forte do Mundo teria participado, porventura como figurante ou duplo, no filme "O Colosso de Rodes", um peplum de 1961 de Sergio Leone que por acaso eu vi no nosso Cinema. Nas montras da vila havia cartazes daqueles como os do circo que atestavam o desempenho digno de Óscar, e contra isso nada. Nos reclames, O Homem Mais Forte do Mundo era O Colosso de Rodes. E que se segue? Ao Homem Mais Forte de Mundo, o povo foi, não resistiu. Era no estádio, só podia ser no estádio para tamanha empreitada, e a bancada encheu. Mais meio ano sem bife, que se foda...
Estais a ver Hércules? Estais a ver Dwayne Johnson? Era exactamente assim O Homem Mais Forte do Mundo quando entrou em campo, mas em baixinho. Um gigante de roda-baixa. Ou por outra, O Colosso de Rodes apresentou-se em Fafe bem constituído, musculado e seco, bronzeado, quem sou eu para afirmar o contrário, mas confesso que defraudou as minhas acho que justificadas expectativas no que diz respeito a colosso. E também me pareceu um bocadinho fora de prazo aquele senhor de barbas bíblicas, grisalhas e crespas, como se O Homem Mais Forte do Mundo fosse mesmo Sansão, mas reformado e apenas das orelhas para baixo.
E deslumbrou. Apareceu vestido, ou despido, como um gladiador romano, quiçá herói ateniense ou troiano. A publicidade dizia que O Homem Mais Forte do Mundo era grego. E ele trazia as bandeiras de Portugal e da Grécia. E dirigiu-se ao público em delírio numa língua estranha, para mim era grego, referindo "Portogalía" a uma certa altura, o que só demonstra que fez os trabalho de casa, sabia muito bem onde estava, em Fafe, ali a dois passos do Picotalho e de Portugal, que era do que ele certamente falava, do nosso Largo de Portugal, ou Platýs de Portogalía, como eles dizem lá na terra deles. Ficou-lhe bem, mostrou educação e conhecimento, e o público em delírio adorou.
O resto da tarde foi O Homem Mais Forte do Mundo a ser O Homem Mais Forte do Mundo. Isto é, a levantar uma dúzia de pessoas penduradas numa barra de ferro, a vergar a barra de ferro propriamente dita, a içar pesos com os dentes, a segurar duas camionetas, uma de cada lado e ele no meio, inteiriço e como o aço, e as rodas dos veículos comprovadamente pesados sem sequer saírem do sítio, acelerando em seco no saibro do campo de futebol, levantando pó, gravilha e aplausos. O público, eu já disse e repeti, era público em delírio. E que mais? Ah!, e a pedir que lhe partissem um bloco de granito, à marretada, em cima da barriga. E partiram. Para mim, esta parte foi a cereja no topo do bolo. A pedra era realmente enorme e verdadeira, contrastada, confirmou-mo o meu tio Zé de Basto, pedreiro de mão cheia, que foi quem me levou ao espectáculo que, aviso já, esteve quase a não acontecer. E as marretas também eram a sério, pesadas e maciças, via-se à vista desarmada e o meu tio disse que sim. Para terem uma ideia do perigo implicado neste número, basta referir que foi preciso colocar um pano de cozinha entre o pedregulho e a barriga estreme do artista, não fosse o artista esfolar-se um bocadinho numa lasca ou algo assim, uma chatice de todo o tamanho para as grandes seguradoras internacionais certamente envolvidas no negócio.

Ora bem. O Homem Mais Forte do Mundo deslocava-se numa carrinha de caixa aberta por acaso bastante velha. Não vou dizer que foi nestes preparos que O Colosso de Rodes veio da Grécia, ou de Rio Tinto ou de Vila Franca de Xira, que é de onde vêm geralmente os artistas de circo estrangeiros, não estou informado a esse propósito nem quero levantar falsos testemunhos, posso é garantir que nessa precisa data, uma ou duas horas antes da função, que aliás foi um sucesso, como se viu ali atrás, o referido veículo estacionou no Santo Velho, ao lado do Zé Manco, no sítio exacto onde, nos dias de cotio, costumava estabelecer-se a Mocha mailas suas sardinhas amestradas, mas admito que O Homem Mais Forte do Mundo tenha ida em frente, ao Paredes, comer uma posta de bacalhau frito pelas mãos abençoadas da Dolorzinhas, seria mais razoável. E acrescento: a carrinha tinha matrícula portuguesa e na caixa aberta viajava um macaco, um macaco pequeno e irrequieto como os macacos, preso por uma corrente ao pescoço.
Estava tudo a correr bem, isto é, não se estava a passar nada, quando chegou o nosso Chico Varandas, ou Chico Silva, meu querido vizinho, grande artista carpinteiro, uma jóia de pessoa, um homem bem-posto, bonito, e, como acontecia regularmente, vinha contentico, digo bem, contentico, com a sua pinguinha. E, boa alma que era, foi fazer festas ao macaco.
Aqui, a verdade é só uma. O macaco do Homem Mais Forte do Mundo podia ser, por sua vez, o Macaco Mais Forte do Mundo, mas não se sabia, não estava escrito em lado nenhum, e, se se sabia, o Chiquinho não fez caso dessa mais que prudente suposição. E quilhou-se bem quilhado. Quer-se dizer. Fez festas ao macaco e o macaco fez-lhe festas a ele, isto é, rabunhou-lhe a cara e, pior do que isso, rasgou-lhe o bolso da camisa praticamente nova e salpicada de sangue.
Quando estava contentico, o Chiquinho era o homem mais forte da nossa rua. E portanto começou a discutir com o macaco, que eventualmente só percebia grego, foi preciso vir o chofer da carrinha, que fazia a tradução e era também manager do Homem Mais Forte do Mundo. Palavra vai, palavra vem, o Chiquinho jurou matar o macaco ali mesmo, foi a casa buscar a Kalashnikov, apareceu com a pressão de ar de ir aos pardais, "Ai que te mato! Ai que te mato, meu macaco!", palavras não eram ditas, ainda estava o Chico a arrematar o pontinho do último ponto de exclamação e já O Homem Mais Forte do Mundo saía do Paredes a escabichar os dentes, que fariam parte do programa, fortíssimos, como se relatou acima, "Ai que te desgraças, Chico, ai que te desgraças, deixa-te de macacadas, vai mas é embora que o gajo é O Homem Mais Forte do Mundo e ainda te enfia a espingarda pelo cu acima!", disse não sei quem da nossa rua, e disse muito bem, e o Chiquinho deixou-se e foi-se, não por medo, que não tinha, pelo menos aos fins-de-semana e dias de festa, mas porque era, eu já o referi, uma jóia de pessoa, uma boa alma e, por norma, muito bem mandado.
E foi a nossa sorte. Que podíamos ter morrido todos ali.