domingo, 7 de junho de 2026

Gomitava-se e escupia-se

Volte-face
Volte-face! Volte, que está perdoada... 

Gosto do falar da minha terra - do falar antigo, quero dizer. No meu tempo de Fafe, escupia-se muito, com vossa licença, mas sobretudo gomitava-se, fazei o favor de desculpar. Gomitava-se com assinalável categoria, como nunca mais vi gomitar por este mundo fora. E, tomai nota, em Fafe gomitava-se a tinto e branco, às vezes misturado, e não para fazer rosé ou por qualquer intenção de afronta à gramática, que nem seria. Nada disso. Na minha terra gomitava-se, naturalmente, porque nos davam gómitos - e que é que se havia de fazer?

Já não há mulheres com bigode

Um bigode em forma de talvez
Tinha um belo bigode. Elegante, ralo, fino, um bigodinho talvez à Errol Flynn. Nada de assombroso, realmente, mas para mulher não estava mal.

Sempre gostei de ir a Ponte de Lima por causa do arroz de sarrabulho e dos bigodes das mulheres. Mulheres feias é ali. Feias e bigodudas. Basta um raio de sol espreitar por entre as nuvens tão bem desenhadas e elas saltam todas não se sabe donde para as bordas do rio a arejar as carantonhas e respectivas piaçabas. Palavra de honra, é um espectáculo digno de ser visto. Comprar um cartucho de jornal cheio de castanhas assadas e comê-las, ainda quentes, enquanto observamos o mulherio, picadeiro acima, picadeiro abaixo, como num desfile de moda mas para bigodes fêmeos, nove pontos para aquela, treze para a das suíças, há lá melhor maneira de passar um pedaço de tarde! Não sei o que a bela vila alto-minhota tem, mas é assim que as coisas são.
Cuidado. Antes que me soltem os cães, fazei o favor de perceber que eu não disse que as mulheres limianas são bigodadas e feias. Não. O que eu digo é que, sobretudo aos fins-de-semana e feriados, férias de Verão, da Páscoa, de Natal ou de Carnaval, nas Feiras Novas, no Corpo de Deus ou num dia qualquer, elas, as bigodadas e feias, concentram-se todas ali, à beira-Lima, como se fosse um congresso de camafeus ou um concurso de feieza. Numa dessas ocasiões, eu próprio fui confundido com a cantadeira de um rancho folclórico derivado às minhas barbas. De resto, não sei de onde elas vêm, as mulheres abigodadas, nunca perguntei.

Vou a Ponte de Lima desde pequenino, desde o tempo das excursões ao Alto Minho organizadas pelo meu avô da Bomba, videirinho da silva e sobrevivente dos sete ofícios. Aqui atrasado tornei lá todo contente e tive um desgosto muito grande. A vila mais antiga de Portugal, Ponte de Lima monumental e histórica, bela, tradicional, está mais pobre. As mulheres continuam particularmente feias, honra lhes seja, mas deitaram abaixo os bigodes. Sentei-me no banco do costume, junto à vendedeira de castanhas, queimei os dedos a comê-las, mas bigodes de mulheres, que era ao que eu ia, nem um para amostra. É lamentável. Os cremes depilatórios estão a dar cabo do nosso património.
Não sei se volto a Ponte de Lima. Ainda por cima, o arroz de sarrabulho também não estava grande coisa. Mas as castanhas eram bem boas.

sábado, 6 de junho de 2026

Pernas até ao cu

O Estreito de Ormuz
Havia o Grosso da Coluna e o Maciço Central, robustos e tonificados. Agora temos o Estreito de Ormuz, esse lingrinhas.

No tempo em que os animais falavam. Falava-se de mulheres longas ou extralongas - mulherões, avionas, tranconas a perder de vista - e dizia-se que elas tinham pernas até ao cu. Pelo menos na minha terra dizia-se. Como se as mulheres eventualmente mais manejáveis - perrotas, batoques, torneirinhas como a faneca - tivessem pernas apenas até ao joelho, vá lá.

As lágrimas do adepto

Sou muito forte mentalmente e jogo muito bem sem bola
Sou muito forte mentalmente, tenho uma grande cultura táctica e razoável visão periférica. Jogo muito bem sem bola. Mas sobretudo sou muito forte mentalmente, que é o que faz a diferença em campo. Não me levam ao Mundial, e eu não percebo. Tenho um centro de gravidade que tomaram muitos. É certo que me falta alguma margem de progressão e realmente nunca fui aquilo a que se possa chamar "jogador de futebol", embora jogue muito bem com os dois pés, mas com ambos ao mesmo tempo. Em todo o caso, sou - creio que me repito - muito forte mentalmente e jogo muito bem sem bola.

O adepto. O adepto anda quatro anos a poupar para acompanhar a selecção no Mundial. Ou então assalta um banco. Acompanhar a selecção no Mundial implica, às vezes, atravessar meio mundo e morar fora durante um mês - coisa para custar um dinheirão. O pão e água para toda a família, que fica em casa, justifica-se portanto como regime de emergência, e o assalto a bancos também. É o amor, é o país, é a selecção. Está certo.
Depois a selecção não joga nada, está a levar três secos a dois minutos do fim e já tem guia de marcha para o regresso a casa. E o adepto entra numa depressão desgraçada, mãos esgadanhando a cabeça incrédula, lágrimas esborratando as pinturas de guerra, dei cabo da minha vida por esta merda, ai os meus ricos filhinhos, mais me valia morrer, uma tristeza que só vista. Exactamente. A televisão vê a tristeza do adepto - profunda, incrédula, esgadanhada e esborratada - e passa-a no ecrã gigante do estádio. Em câmara lenta, HD e 4K. As lágrimas do adepto, momento televisivo de rara beleza. O adepto vê que está a ser visto na televisão, e salta, e ri, e manda beijinhos, e faz caretas, e tira macacos do nariz, e fica tão feliz, tão feliz, tão feliz da vida, que se lixe o desespero, que se lixe a selecção, que se lixem os filhos, valeu bem a pena a fome que passaram durante quatro anos. Ou o assalto ao banco. Que está certo e também dá na televisão.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Bombistas de secretaria

A última palavra
- Senhor deputado, tem vosselência direito à última palavra.
- Muito obrigado, senhor presidente. Senhor presidente, senhoras e senhores deputados: zus!

"... o MDLP estava compartimentado. Havia uma parte política, o gabinete político que fazia análise política diária para o general Spínola. Havia as FAE [Forças de Acção Externa] que estavam preparadas para o caso de as coisas correrem mal e haver uma tomada de poder por parte do Partido Comunista ou da extrema-esquerda ou de ambos, então era uma reserva de intervenção. E havia a RAI (Rede de Acção Interna) que cobria o território a nível distrital, recolhia informações e aquelas que interessavam à parte militar mandavam para a parte militar e aquelas que interessavam à parte política mandavam para o gabinete político e depois, digamos, era encaminhado para o general Spínola."
Ninguém diria que o bando de bombistas sacristas de 1975-1976, que também andou aqui por Fafe a rebentar, era uma organização assim tão excel, tão parcimoniosa e higiénica, após 566 acções violentas e mais de uma dezena de mortes, 123 assaltos a sedes de partidos de esquerda, 116 ataques bombistas, 31 incêndios, 8 atentados a tiro, 8 espancamentos e 6 apedrejamentos, de acordo sobretudo com a Wikipédia, mas foi daquela maneira singela que Diogo Pacheco de Amorim apresentou a coisa, em Dezembro de 2024, numa aprazível entrevista concedida à rádio TSF.
Diogo Pacheco de Amorim é o ideólogo do partido Chega, deputado da Nação e vice-presidente da Assembleia da República. Foi, no MDLP, do tal "gabinete político" e não admite que digam que sabia das bombas. Estava na secretaria.
Lembro-me do Pacheco de Amorim, jovem jornalista e todo menino-bem, naquele seu andar armante mas decidido, vigoroso, passeando ou talvez marchando pelos corredores de O Primeiro de Janeiro, em Santa Catarina, e eu a pensar, fino como um alho e se calhar invejoso, "este tipo, se não o agarram, ainda vai longe", e meu dito meu feito. Diz que lhe deram um carro no Parlamento e até tem motorista.

No extinto O Primeiro de Janeiro, é curioso, coincidi, em momentos e circunstâncias diferentes, com outros três jornalistas que deram em deputados. Outros três, pelo menos, porque não me apetece puxar pela cabeça à procura de mais. Em todo o caso, que bela escola o velho jornal! Ainda por aí anda, eleito pelo PCP, o activíssimo Alfredo Maia, com quem acamaradei também, anos mais tarde, no grupo do JN. Recordo-me, como se fosse hoje, da chegada do Maia à profissão, da sua entrada triunfal no nobre edifício que hoje alberga o shopping ViaCatarina. Corria o ano de 1981, se não me engano. O Maia era tudo, menos comunista.
O grande Costa Carvalho, "meu caro", "caríssimo", vinha de deputado do PRD de Ramalho Eanes, entre 1985 e 1987, tinha um feitio desgraçado e, jornalisticamente falando, foi meu mestre e mentor. Eu era-lhe uma espécie de projecto pessoal, ele ensinou-me tudo o que naquela altura havia para aprender sobre edição e direcção de redacção, agenda, titulagem e primeiras páginas, isto é, o ABC de um chefe em construção. Também me ensinou Juca Chaves e Enrico Caruso. José Rodrigo Carneiro da Costa Carvalho faleceu há meia dúzia de meses, aos 91 anos. Passaram-se quatro longas décadas, já não vou a tempo de devolver-lhe as "Nuevas odas elementales", de Pablo Neruda, que guardo agora finalmente sem culpa e como se fossem uma relíquia do Santo Lenho.
Mas o mais pândego e inesperado de todos os meus ex-colegas do Janeiro que "chegaram" a deputados terá sido, certamente, o obscuro porém famoso "deputado Batman", António Coimbra, eleito pelo PSD, pelo círculo Fora da Europa, igualmente lá pelos finais da década de 1980, e que ganhou escusada notoriedade devido às viagens que não fez, umas atrás das outras, sem tempo sequer para parar em casa. Quer-se dizer. Tantas foram as viagens, pelas contas que apresentou no Parlamento para reembolso, que podia ter dado uma volta ao mundo. Mas não deu. Digamos que o pobre Coimbra, bode expiatório do lastimável caso das "viagens-fantasma", não foi a lado nenhum. O dinheiro era para distribuir pela família, o que, na minha modesta opinião, só lhe diz bem a respeito.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Daniel, dos leões às causas sociais

Aliás e há leões
Homem que é homem não teme leão. Já se forem ratos...

Daniel foi mediano profeta e consta da Bíblia no, exactamente, Livro de Daniel. Também lhe chamaram Beltessazar, mas um nome assim era uma desgraça para o marketing e foi imediatamente esquecido. Daniel trabalhou na Babilónia como vidente e porventura cartomante, interpretando sonhos e visões, e tinha três amigos esquisitamente chamados Sadraque, Mesaque e Abednego. Foi também domador de leões, com um anjo como partenaire, dando início a essa lamentável e actualmente proibida tradição circense.
Daniel estabeleceu-se em Fafe, com loja de fazendas, malhas, pronto-a-vestir e moda em geral, mesmo ao lado da tipografia do Sr. Dias do Tribunal, e dedicou-se, discreta e afincadamente, às causas sociais. Se não estou em erro, foi um dos fundadores da Cercifaf e o seu primeiro presidente, e isto, creio, já é dizer alguma coisa acerca da sua bondade. A fama chegara-lhe em 1972, quando entrou numa canção de Elton John.

O Albino Carpinteiro e o Carpinteiro Albino

Carteira profissional
Chamado à pedra, protestou: - Eu sou carpinteiro, e vou fazer queixa ao sindicato...

Havia o Carpinteiro Albino. E havia o Albino Carpinteiro. Carpinteiro Albino era de Elvas, corria em automóveis e ganhou o primeiro Rali de Portugal, assim chamado, em 1967. Albino Carpinteiro era nosso, da Ponte do Ranha, se não me engano, de Fafe e do Fafe, artista de mão cheia, guardião bricoleiro do estádio e faz-tudo municipal.