sábado, 7 de março de 2026

Um ano negro para os artistas

Choque em cadeia
Choque em cadeia envolve 16 visitas, 8 reclusos e 4 guardas prisionais. Foi humidade na instalação...

O mundo estremeceu de comoção. E, se o mundo estremece, Portugal abana e cai. Que tragédia, que cataclismo, que ano negro! Morreram, entre outros famosos certificados, Prince, David Bowie, Leonard Cohen, George Michael, a Princesa Leia, e Bob Dylan ganhou o Prémio Nobel da Literatura. Foi em 2016.
A comunicação social portuguesa ficou em choque: um annus horribilis para os artistas, sim os artistas, uma desgraça para a arte, sim a arte. Deus nos abençoe, proteja e guarde! E escreveu-se, e escreveu-se, e escreveu-se. Os nossos jornalistas iam falecendo também, esparramados de desgosto.
Ora, artistas - em bom e antigo português - são igualmente e por maioria de razão os nossos trolhas, os nossos pedreiros e os nossos carpinteiros, por exemplo. Artistas, assim se dizia em Fafe e eu continuo a dizer. Quanto mais não seja, em memória do meu querido avô de Basto, mestre pedreiro de categoria, e em homenagem ao meu querido tio Zé de Basto, filho do bô do Basto, irmão mais novo da minha mãe e competente fazedor de casas e anexos. Artistas, os dois, como os admiro! Conversei na ocasião com Albano Ribeiro, o eterno presidente do Sindicato da Construção de Portugal, que me contou o seguinte:
Trinta e nove (39) operários da construção civil morreram a trabalhar, em Portugal, naquele ano. E, em quatro meses, morreram seis (6) trabalhadores portugueses em obras por essa Europa fora, número grande em tempo de drástica redução de empreitadas e ainda sem estádios para construir no Catar.
Albano Ribeiro queria falar com os senhores jornalistas acerca deste e de outros assuntos relativos aos nossos artistas. Convidou a comunicação social portuguesa para uma conferência de imprensa que deveria realizar-se numa sexta-feira a uma hora cómoda. Ninguém apareceu. Os senhores jornalistas tinham mais que fazer.

Diálogos fafenses 81

Banho de cultura, mas a seco
- E essa semanita em Roma?
- Fantástica! Um tremendo banho de cultura! Um mergulho na História! Sabes que a cultura para mim...
- E o velho Coliseu?
- Sem condições. As bancadas, em ruína, e já estão a substituir o relvado...

Era Rio mas podia ser Tarzan

Os putativos
"Era hipócrita se dissesse que não penso nas presidenciais", disse Rui Rio uma vez há muitos anose compreendo-o perfeitamente. Eu próprio seria hipócrita se dissesse que não penso nas presidenciais.

Passou-se assim, que eu não sou de intrigas. Durante a chatíssima presidência de Rui Rio na Câmara do Porto, certa vez os jornalistas foram chamados a acompanhar Sua Excelência numa visita à piscina municipal da Pasteleira. Decerto houvera melhoramentos, e Florbela Guedes, a assessora de comunicação, digamos assim, do então futuro e agora ex-líder do PSD, lá estava a tomar conta. Das obras, do presidente e de nós. No decorrer da desinteressante conversa que tivemos de aturar, e não me lembro a propósito de quê, Rio fez a extraordinária revelação de que não sabia nadar. Para mim, que ia pelo 24horas, já chegava. Na verdade, o meu jornal tinha-me mandado lá para conferir se o cinzentão autarca portuense calçava meias da mesma cor, ambas, e de que cor, mas aquilo de não saber nadar, no pico de carreira dos Black Company e da campanha contra o afogamento das gravuras rupestres de Vila Nova de Foz Côa, saíra-me melhor do que a encomenda. Satisfeitos, pedimos a continha e pusemo-nos a andar sem pagar, eu mais o meu camarada da fotografia.
Ainda não tínhamos chegado à Junta de Lordelo do Ouro e já tocava o telemóvel do meu camarada da fotografia, por acaso amigo de infância de Rui Rio. Era a Florbela a dar-lhe o recado que me desse o recado que aquilo de Sua Excelência não saber nadar era a brincar, que o Senhor Presidente nadava como um torpedo, que ele uma vez até esteve quase a ser Tarzan num filme, que aquilo não era notícia, que não valia a pena, que não tinha jeito nenhum, que valha-me Deus! Eu, que também pensava que aquilo não era notícia, e confesso que ia dar o meu melhor para deitar os apontamentos ao lixo, resolvi então oferecer à Dra. Florbela Guedes, ex-jornalista, o mesmo tratamento que ela nos dispensava sistematicamente a nós, jornalistas em geral, não nos atendendo sequer o telefone e fechando-nos todas as portas e janelas do presidente e da autarquia, deixadas no trinco só para alguns. Mandei-a, por isso, dar uma curva com os quatro piscas ligados e, em dois ou três históricos parágrafos, antológicos e imortais, denunciei ao mundo e arredores o escândalo do século - Rui Rio não sabe nadar, yo! -, que eu também não sou para brincadeiras. E ia-me saindo o Pulitzer daquele ano...

Alguns anos depois, creio que em 2020, a meio do consulado de Rio como presidente do PSD, o Expresso publicou um interessante retrato, ou perfil, de Florbela Guedes. Ali se dizia que ela era "a mulher mais poderosa" do partido, que ela era "a sombra e a extensão do próprio líder", que era ela quem decidia "quem fala em nome do PSD - e quando". Quer-se dizer, pensei eu: Florbela Guedes é que era a verdadeira patroa do PSD, portanto a patroa de Rui Rio.

sexta-feira, 6 de março de 2026

Mais valia

Um questão de feitios
Silvestre recusou trabalhar com Urbano. Estava habituado ao Campos...
 
Ele era o Mais-valia da empresa. Puseram-lhe o nome. Chamavam pelo Mais-valia e o Mais-valia vinha. E ia. E ia e vinha. E vinha e ia. E tornava a ir e tornava a vir. Chamavam-no a toda a hora e momento, por tudo e por nada, era Mais-valia para aqui, Mais-valia para ali, e ele, que acreditava no valor das palavras, no poder dos hífens, andava vaidoso e feliz. O trabalho do Mais-valia era ir e vir, vir e ir, o que lhe ocupava sobremaneira o dia. Sentia-se tão necessário! Ele não sabia que a alcunha lhe ficara porque toda a gente do emprego dizia que mais valia despedi-lo.

Diálogos fafense 80

Quando a ordem dos factores é preponderante
O pai: - E tem nome essa tua paixão?
A filha: - Tem. Chama-se Mónica.
O pai: - Mónica?
A filha: - Mónica.
O pai: - Mónica, do género José da Silva Mónica?
A filha: - Não. Mónica, tipo Mónica da Silva José.

Como uma pedra rolando

Armado aos cucos
Egas Moniz sempre gostou de fazer a cabeça dos outros. Começou com o pequeno Afonso Henriques e deu-se mal. Depois generalizou e deram-lhe um Nobel. Já quiseram tirar-lho, por causa do abuso.

Robert Allen Zimmerman nasceu na cidade americana de Duluth, Minnesota, em 1941, e gostava muito de cantar. Cantava, por exemplo, que os tempos estão a mudar. Mas cantava de uma maneira tão inesperadamente fanhosa que as pessoas começaram a chamar-lhe Bob Dylan. E foi assim que ele me foi apresentado em Fafe, pelo Best, lá pelos idos de 1975/1976. Ouvíamos "Hurricane".

Quer-se dizer. É um bocado estranho pensar que uma vez assisti a um concerto de um Prémio Nobel da Literatura. Um excelentíssimo concerto do velho Dylan, à pala do meu irmão Orlando, no Coliseu do Porto, na noite de 8 de Abril de 1999. Um concerto que talvez devesse ter sido uma conferência, um concerto de literatura, portanto. Se este ano o laureado for, por exemplo, Tony Carreira, fico em mãos com o mesmo problema, porque também já assisti a um concerto do inevitável Tony. O meu irmão, que até é um intelectual, é que nunca.

quinta-feira, 5 de março de 2026