O tempo
- Isto é que tem estado!...
- Realmente...
- E então hoje!...
- Lá isso...
- O que é que eles dão para amanhã?
- Eu...
- Pois. Então até logo, vizinho.
- Vá pela sombra, vizinha.
É, o elevador aproxima muito as pessoas. O elevador e o boletim meteorológico.
sexta-feira, 29 de maio de 2026
Mataram os vizinhos
Chamem a polícia!
Chegou a casa e, como de costume, bateu à porta. Desta vez, a porta da vizinha chamou a polícia.
É. Cavamos as nossas próprias trincheiras, os nosso túmulos. As pessoas vivem fechadas em caixotes. Em caixinhas dentro de caixotes. E cada caixinha tem um respiradouro chamado varanda - ou sacada, se for na nossa terra. E as pessoas fazem marquises!
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quinta-feira, 28 de maio de 2026
O homem e o cão (e vice-versa)
Todas as manhãs o homem e o cão passeiam pela praia, naquela incerta linha de sobe e desce onde o mar enrola na areia e acaba Portugal. Par pândego, havíeis de ver. O homem atira a velha bola de ténis e o cão, dez-réis de cão, rasteirinho e de raça incerta, corre e salta, como uma bala, como uma mola, abocanhando-a, à bola gasta e sebenta, ainda no ar. Cão danado para a brincadeira. E habilidoso. "Bem, muito bem, espectáculo!", diz o homem. E o cão regressa e larga a bola, e corre e salta à volta do homem, e ladra no verdadeiro ladrar que não morde, e abana o rabo, abana, que quer dizer "Obrigado, estou muito contente, mais, quero mais!...", e põe a língua de fora, que quer dizer "Ainda havemos de fazer isto mas ao contrário".O melhor amigo do cão
Havia um cão que tinha um dono muito bem mandado. Um dono obediente, brincalhão, carinhoso, esperto - só lhe faltava ladrar.
Um quadro enternecedor. Homem e cão, numa simbiose perfeita. O amigo dos animais e o melhor amigo do homem. Fossem eles polícias, o homem e o cão da bola de ténis, matinais frequentadores de oceanos, e estaríamos na presença de um binómio exemplar e definitivo. Decerto já vistes nas notícias: binómio é um polícia e um cão que são colegas de trabalho. Já um carteiro e um cão, se coincidirem, são um perónio. Um perónio partido e o fundilho das calças esgaçado.
(Lembro-me agora. Aquilo de passear o canídeo à beira-mar, eu bem o tentara em Fafe, nos meus vinte anos, com o Buck, o nosso cão na Rua do Assento. A beira-mar que tínhamos mesmo à mão, e por acaso bem jeitosa, se não fossem as silvas e outro restolho jurássico, eram as bordas do rio de Pardelhas quando levava água, mas o Buck nunca me deu hipótese. O cão era quase do meu tamanho, muito mais forte do que eu e completamente dono do seu nariz. Saímos apenas uma vez. No seu habitat natural, o Buck era manso para as pessoas de dentro e sobretudo para as crianças. Sim, era lerdinho, porém destrambelhado. Gostava muito de brincar com gatos e galinhas, às vezes matava dois ou três frangos, mas era sem querer, coitado, fruto da loucura do momento, no descontrolo e afã da brincadeira. Íamos então passear, eu e o cão. A coleira do Buck parecia a soga de um boi. Coloquei-lhe a poderosíssima trela, feita por encomenda e medida, própria para bisontes e elefantes, custou uma fortuna, dei-lhe calmamente a primazia, pus o pé fora de porta, todo lampeiro, e, como um raio ou talvez uma enorme marretada, num safanão sem preliminares nem precedentes, fui imediatamente arrastado de cangalhas para o empedrado da rua, levantei-me como e quando pude, sempre de zorra, o Buck galopava a seu bel-prazer, sem parar sequer para cheirar ou alçar a perna, e eu atrás, agarrado à trela como quem se agarra à vida, aos solavancos, aos repelões, aos trambolhões, contra esquinas, árvores de pequeno e médio porte, tabuletas de trânsito e demais mobiliário urbano, o caralho do cão andou a exibir-me e a enxovalhar-me por onde lhe apeteceu, a vila inteira à janela a rir-se de mim, a fazer pouco do moço tolo, o filho da viúva da Bomba, tornei a casa feito num oito, num cristo, quando sua excelência achou que já chegava, e portanto nunca mais.)
Todas as manhãs, dizia, tornando à praia atlântica. Eu também por ali ando comigo pela trela e por isso é que sei o que estava a contar, mas ninguém me atira a bola, e antes assim. Ontem desatei a rir com o raio do cão, que realmente tem jeito, parece do circo o lingrinhas, um autêntico brinca-na-areia. Entre uma acrobacia e outra, o cão tendia a enfiar-se na água, coisa de cão certamente, e o homem dizia "Sai daí, Rex, anda cá, Rex, já vais levar, Rex!...", nem de propósito Rex, eu seja cão se estou a inventar. O cão chamava-se mesmo Rex, como o cão actor, o cão artista da televisão, e, sem terem nada a ver um como o outro, por acaso até vinha a propósito. O homem, que tomara nota do meu riso, decidiu pôr-me ao corrente, quisesse eu ou não: "É todos os dias isto, a mesma merda, ele gosta, o filhadaputa do cão mete-se no mar e eu depois é que me fodo a dar-lhe banho, secar e escovar, olha, lá vai ele outra vez, ó corno!, ó boi!, não adianta, fode-me sempre..."
O cão resolveu apanhar a última, mas sem boca. Estava-se a armar para mim, eu dei fé, creio que lhe percebi até um certo piscar de olho. Dominou a bola com o peito e, sem deixar cair, rematou em grande estilo e foi golo, palavra de honra que foi golo. Depois colocou o açaime ao homem e levou-o para casa.
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O homem que sabia de codornizes
Eram quatro e formavam um excelente trio
Eram quatro pessoas em palco: um senhor à viola, uma senhora no clarinete, um senhor ao piano e outro senhor virando-lhe as páginas da partitura. Procurei-lhes os nomes enquanto tocavam Brahms e Mozart com assinalável competência. Os quatro formavam o famoso Trio Tomter, Kam & Ihle Hadland. Isto é: são o senhor Lars Anders Tomter, a senhora Sharon Kam e o senhor Christian Ihle Hadland, por ordem de instrumentos. O mudador de páginas, posto que exímio executante, era provavelmente "o rapaz", como "o moço" das obras que vai ao tasco buscar as minis para os artistas, os pedreiros e trolhas propriamente ditos, e portanto não tem direito a nome...
José Mário Branco (1942-2019) faria agora 84 anos. Quando morreu, teve muitos elogios e, naturalmente, algumas críticas fascistas. Televisões, rádios e jornais tentaram fazer-lhe justiça, dentro do possível. Ouviram-se cantigas, falaram especialistas, arejaram-se memórias. A jornalista Catarina Carvalho contou, no DN, que José Mário Branco lhe dissera uma vez, durante a produção de um disco para uma fadista famosa, que aquilo que ele estava a fazer naquele momento era trabalho de rigor, de filigrana. "É chupar os ossinhos da codorniz", explicava o mestre, numa frase lapidar.
Fiquei contente. José Mário Branco sabia de quase tudo e, tomai lá, até sabia de codornizes. E eu não sei de nada, mas desunho-me satisfatoriamente com as codornizes. Ficámos então com isso em comum, as codornizes e a suprema arte dos esbichadores. A minha platónica relação com José Mário Branco vem de longe, de muito longe, do tempo da minha primeira juventude, ainda em Fafe, de o ouvir a cantar palavras belas e poderosas no rádio da mesinha de cabeceira da nossa mãe, eu arrepiado e comovido, mal sabia que ainda viria a ser amigo de quem andou com ele na estrada, mal sabia que ainda haveria de saber meia dúzia de pequenas histórias com ele dentro e que mais ninguém sabe. Pequenas históricas revolucionárias, musicais e gagas. Eu nunca falei com o Zé Mário e o Zé Mário nunca me conheceu de lado nenhum. A minha amizade com ele, por interposta pessoa e de ouvir dizer, era de admiração e reverência. Sobretudo respeito: silêncio, que se vai ouvir José Mário Branco. Mas a partir daquele momento, quando eu soube das codornizes, a nossa relação passou a ser de camaradas, velhos parceiros da vigairada, acho que tenho esse direito. Que ninguém separe o que a codorniz uniu. E era mais duas bifanas e dois fininhos, se faz favor!
No mesmo DN, naquele dia, escrevia-se sobre "tetos" para os sem-abrigo em Lisboa. Tetos, pois. Registei. Quando forem horas de mamar, chamai-me.
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quarta-feira, 27 de maio de 2026
A arte dos esbichadores
Comida substantiva
Ele gostava de comida substantiva. E enchia-a de adjectivos.
Ora bem. Eu já andava esquecido destas habilidades antigas, da velha arte dos grandes esbichadores, com o Bô da Bomba logo à cabeça, quando outro dia vi, e nem queria acreditar, um jovenzinho de onze/doze anos exactamente nos mesmos preparos, à mesa do restaurante, aviando costelinha atrás de costelinha com soberana categoria, impávido e sereno, deliciado, delicado, devagar, indiferente, enquanto pôde, às mansas reprimendas da mãe, envergonhada sem razão, porque o menino estava a fazer tudo bem. As belas costelinhas na brasa comidas à mão, uma primeira vez, os ossos colocadas numa pilha muito organizada, autêntica obra de arte, engenharia pura, aqui na borda do prato, e depois uma segunda passagem, definitiva, osso a osso, o rapazinho sempre silencioso e composto, compenetrado, sem se sujar, atento a todos os pormenores, a todos os bocadinhos, até ao sumo dos ossos, mas tudo feito com uma elegância e um requinte que só vistos. Carago, de repente era o meu avô que estava ali, mas em pequeno e com classe! Se quereis que vos diga: quase me levantei do nosso canto para ir lá dar um abraço ao rapaz e talvez um sermão à mãe. Por acaso não fui, e obviamente fiz bem.
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terça-feira, 26 de maio de 2026
Uma palavra à esquina
Leporídeos
- Colhões ou coelhões?
- Testículos.
- E era preciso ser malcriado?...
Agora, soube outro dia pelo jornal Público que existe por aí um podcast suponho que de cultura e comédia que se chama "Livros da Piça". Olha, pensei eu, antes assim, porque, lá está, voltando à minha, "Livros da Pissa" não me pareceria tão bem.
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segunda-feira, 25 de maio de 2026
Não te escames!
Às vezes dava-lhe na cabeçaÀs vezes dava-lhe na cabeça e levava tudo a eito. Geralmente não era assim tão organizado.
Às vezes dava-lhe na cabeça e varria tudo o que tivesse à frente. A casa ficava um brinco.
Às vezes dava-lhe na cabeça e limpava até a casa dos outros. Cleptomanias...
Às vezes dava-lhe na cabeça. Até que ela o deixou.
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