sábado, 5 de setembro de 2026

O milagre das pombas

Foto Hernâni Von Doellinger

Evasão
- Mais vale só do que mal acompanhado - disse o recluso n.º 14.112. E fugiu.

Todas as manhãs, faça chuva ou faça sol, dias úteis ou dias inúteis. Todas as manhãs, de saquinho na mão, ele sai de Matosinhos atravessando o Passeio Atlântico de uma ponta à outra, em passo leve e decidido, e entra breve no Porto. No saquinho leva comida para os pássaros - milho para as pombas e pedaços de pão para os patos mas pouco, para os corvos-marinhos às vezes e para as vorazes e cagonas gaivotas. Sim. Para as gaivotas, raça tão desprestigiada hoje em dia, vítima de perseguição e tentativa de genocídio perpetradas por alguns autarcas aqui da beira-mar. Ele, o homem do passo leve e decidido, dá-lhes o almoço.
E todas as manhãs acontece o extraordinário: por alturas da Rotunda da Anémona, fronteira municipal, as pombas saem-lhe da cartola, materializam-se do nada, fazem-lhe bando por cima da cabeça e acompanham-no em revoadas dançarinas até à distribuição geral, no charco mais ocidental do Parque da Cidade, à porta da abandonada Kasa da Praia. As pombas reconhecem o seu benfeitor? Identificam o saquinho? Vão apenas ao cheiro? Serão, por assim dizer, o Espírito Santo em pessoa? Não sei - mas aquilo comove-me. Espanta-me. Fosse em Fátima, e seria certamente milagre.
Servido o festim, o cuidador de pássaros volta para casa pelo mesmo caminho, sempre com uma pequena reserva de pão e de milho no fundo do saco, prevenindo emergências, que as há. Pomba tresmalhada ou retardatária, gaivota de asa caída ou manca ou qualquer outra ave freelance também têm direito à sua dose individual, no respeito do espaço de cada qual. É. Os solitários entendem-se...

Pois durante a pandemia, pela menos, o gentil alimentador da passarada desapareceu-me da vista. E a mim, caramba, fez-me diferença, porque eu dava-lhe valor. Fui também, no meu tempo de miúdo, em Fafe, um razoável pensador de galinhas e coelhos, e portanto havia ali qualquer coisa que me dizia respeito, que me enternecia e, verdade seja dita, também me abria o apetite, e vinha-me à cabeça o franguinho guiado pela minha avó de Basto na panela de ferro apurando ao borralho.
Felizmente o senhor das pombas voltou, e em grande forma. Uma sorte para ele, para os pássaros e também para mim, que estou sempre a ligar umas coisas às outras e sou tão dado a nostalgias, e se for à mesa melhor...

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Olá, boneca!

Ah!, o amor moderno...
Jovem par de namorados. Abraçam-se, beijam-se, apalpam-se efusivamente nas intimidades, parece-me até que copulam. Sim, copulam. E vão consultando os respectivos telemóveis.

Factos reais como punhos. Manhã de sábado, A28, direcção Matosinhos-Viana do Castelo, um pouco antes da saída para Vila do Conde, por onde costumo atalhar para Fafe. À minha frente segue uma velha carrinha Renault 4L, de um cor-de-rosa altamente suspeito e vagaroso. Aproximo-me, com o fastio próprio dos condutores domingueiros que já não têm paciência para os condutores domingueiros, mas arrebita-se-me a atenção quando, mesmo em cima dela, leio os dizeres da viatura. São uns dizeres sugestivos e muitos, reclames açucarados a um loja de prazeres - sex-shop, como se diz e escreve em português moderno.
E vejo finalmente os ocupantes, ainda por trás: é o do volante e, ao lado, uma louraça de fazer parar o trânsito. Mas eu avanço. Avanço cuidadosamente para a ultrapassagem, olho para o condutor e o condutor sorri malandro. E eu continuo a olhar e o condutor continua a sorrir. Atenção: eu posso olhar e continuar a olhar, porque eu não conduzo, não sei conduzir, nem sequer tenho carta. Vou de pendura. Brincalhão, o condutor. A rapariga não sorri, não me liga nenhuma, segue impávida e serena, olha sempre em frente, tomando talvez sentido à estrada, ainda mais loura do que há bocado e, reparo agora, tem uns lábios vermelhos e escarrapachados, desafiadores.
A minha mulher desliga o pisca e então é que se me faz luz. A indivídua da catrel é uma boneca. Uma boneca mesmo, de plástico, com pipo, uma boneca insuflável, de carregar pela boca. O condutor olha para mim e sorri cada vez mais, no gozo, satisfeitíssimo, completo, não sei onde é que a moça levava as mãos.

Entre a bonomia e a canalhice

Já chega?
Mandaram-no abaixo de Braga e ele foi. Quando entrou em Celeirós, ligou a perguntar se já chegava...

Uma vez eu era chefe, como fui quase toda a minha vida, e um chefe mais chefe do que eu telefonou-me, de Lisboa evidentemente, dando-me ordens urgentes e precisas para "fazer a folha" a uma certa e determinada pessoa de quem eu era chefe, mas menos, no Porto. E eu disse que não. Que não "fazia a folha". Primeiro, porque não se "faz a folha" a pessoas, ainda que fossem incertas e indeterminadas. Segundo, porque eu não "faço a folha" a ninguém, por uma questão de princípio e, suspeito, de religião. Terceiro, porque eu resolveria facilmente o assunto sem "fazer a folha" a um camarada de trabalho, jornalista e pai de família como eu, embora talvez um bocadinho mais resmungão e preguiçoso do que eu. Quarto, porque eu não admitiria nem mais uma sugestão, insinuação sequer, daquele género.
O chefe que era mais chefe do que eu e estava evidentemente em Lisboa, comunista medalhado e, foi-se a ver depois, cúmplice envergonhado numa monumental leva de despedimentos colectivos, acusou-me de "bonomia", enquanto, por outro lado, baixava a crista e metia o rabinho entre as pernas, pelo menos tanto quanto me deu para ver no teclado nojento do velho telefone de serviço. "Bonomia", eu? Fiquei piurso com o gajo! Só me faltava essa agora, "bonomia". Ou por outra. Fui ao dicionário procurar a palavra e afinal achei muito bem.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

O meu avô era um artista

Foto Hernâni Von Doellinger
 
Estilo e santidade
Há dois santos chamados Simeão Estilista. Simeão Estilista, o Antigo, e Simeão Estilista, o Moço, também conhecido como São Simeão da Montanha Admirável. Estilista vem da palavra grega "stylos", que significa coluna. Era no topo de uma coluna que Simeão, o Antigo, vivia, pregando e jejuando, preso por uma corrente. Quer-se dizer, hoje em dia trabalharia numa discoteca da moda. E o outro também.

O Bô da Bomba, já vos contei, nunca se apartou completamente do velho e honrado ofício de sapateiro com que se iniciara na vida. Ele e José de Freitas Nogueira foram, digamos assim, colegas de carteira nesses primeiros passos dados na arte do bate-sola, o Zé de Freitas acabou depois em multimilionário sacrista e o meu avô foi quarteleiro dos Bombeiros de Fafe, não tenho, quanto a isso, razões de queixa. Enquanto pôde, num cantinho por baixo das escadas que subiam para "o salão" do quartel da Rua José Cardoso Vieira de Castro, onde os finalistas da Escola Industrial levavam à cena a sua récita anual, o Bô manteve banca privada e fez, com desenho próprio, as sandálias e sapatos que calçavam a família. A família lá de casa, quero dizer, mulher e filhos, porque o meu avô não era homem de dar, nem sequer para a família além-soleira, que éramos nós, o meu pai e a minha mãe, os meus irmãos e eu. O máximo que o avô dava aos netos de fora eram os bons-dias, não me lembro se também algum cachaço, talvez a bênção e variadas ordens, mas exigia o troco até ao último tostão e o recibo com número de contribuinte e todos os améns.
Em todo o caso, fui semanticamente injusto quando chamei sapateiro ao meu avô da Bomba. Sapateiro. Nestes tempos em que nem os cegos são cegos - são invisuais -, agora que já nem há mentirosos - mas inverdadeiros ou faltadores à verdade, como se sugere na política -, nos dias em que nem os bois são chamados pelos nomes - têm números -, chamar sapateiro ao Bô da Bomba é praticamente um insulto, e estou muito arrependido, que me desculpem os sapateiros propriamente ditos e os atamancadores em geral.
Se escrevesse hoje - e, nem de propósito, é o que faço agora -, eu diria que o meu avô da Bomba era um mestre do artesanato, um artífice do calfe, uma sumidade da sovela, uma Joana Vasconcelos por antecipação, e fazia-lhe um museu, se mo pagassem; diria que o meu avô era uma start-up em pessoa e metia-o na Bolsa de Nova Iorque, se me deixassem; diria que o meu avô era um criador de sapatos e enchia-o de massa do PRR, se ma dessem; diria que o meu avô era um caso exemplar do empreendedorismo nacional e pendurava-lhe mais uma medalha no 10 de Junho, se mandasse; diria que o meu avô era um estilista, um designer de calçado, e acompanhava-o à Feira de Milão, assim a agenda mo permitisse. Exactamente. Se escrevesse hoje, eu diria que, para todos os efeitos, o meu avô era um designer, um estilista, um artista - sobretudo um artista. Ai isso era.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Ele não podia ver sangue

As encomendas como as bombas
Começou com a pandemia e veio para ficar. As encomendas agora chegam-nos a casa sozinhas no elevador. Como as bombas. Nos filmes.

Há homens realmente assim, hematofóbicos por natureza ou acidente, ainda que não o saibam e nem sequer conheçam a palavra. Por exemplo, Avelino Ferreira Torres (1945-2019). Personalidade polémica, com coutadas no futebol e na política, pelo menos, mais que provável introdutor do "populismo" em Portugal e eminente prometedor de lamparinas, foi presidente da Câmara do Marco de Canaveses durante mais de duas décadas. Teve nome em estádio e em vida, participou no reality show Quinta das Celebridades, da TVI, por onde também passou o nosso grande Tino de Rans, e esteve envolvido no processo Apito Dourado.
Paradigma rústico do quero, posso e mando, irascível, provocador, feitio rufião, sempre com uma ameaça na ponta da língua e disponível para resolver todas as questões à estalada, suspeito de ligação à rede bombista de extrema-direita (MDLP) no pós-Abril de 1974, Ferreira Torres passava a vida nos tribunais, acusado de tudo e de mais alguma coisa. De incitar à violência num jogo de futebol, de peculato e peculato de uso, com condenação, de falsificação de assinatura, de abuso de poder, de gestão danosa, de enriquecimento ilícito, de corrupção, de extorsão e até de ter ordenado a morte, não concretizada, de um ex-colaborador.
Conheci Avelino Ferreira Torres. Entrevistei-o, se não me engano, pelo menos três vezes. "O senhor é mesmo capaz de mandar matar pessoas?", perguntei-lhe uma ocasião para o jornal 24horas, que gostava muito destas coisas. Indignadíssimo, mas via-se que era a fingir, Avelino respondeu-me aos berros, ditando-me cuidadosamente as palavras, sílaba a sílaba, e apontando com o dedo autoritário para o meu bloco de notas, a ver se eu estava a escrever bem:
- Que me mostrem onde é que eu mandei matar alguém. Mostrem! A partir de certa altura, eu deixei de poder ver sangue, valha-me Deus. Quando era criança, via e até ajudava a matar as galinhas e os porcos lá em casa, mas agora, se vejo sangue, viro logo a cara para o lado. É logo! Eu sou incapaz de matar uma mosca..." - disse ele.
- E duas? - insisti eu.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

O cu pelo nariz acima

Águas mil
Era um bêbedo que realmente sabia estar. Cada vez que se urinava pernas abaixo, ele dizia, sem perder a compostura: - Rebentaram-me as águas. Levem-me à maternidade, por favor!

A Bó de Basto contava. Já não lembro se era história verdadeira derivada a alguém da família antiga ou apenas diz-que-diz-que a respeito de vizinhos lá da aldeia, liornas, às tantas. Sei é que era um casal e que o casal se tratava reciprocamente por vossemecê - forma de tratamento muito mais rústica e ancestral do que cuidam as "tias" e os "tios" do então-vá e as "sobrinhas" ou "sobrinhos" do veja-bem.
Naquele tempo e pelo menos na nossa zona, beber vinho era, à falta de outros horizontes, um honrado modo de vida. E, quanto ao casal da nossa história, marido e mulher também bebiam a sua pinguinha, que era uma forma modesta de dizer que passavam todo o santo dia com a malga de americano caseiro enfiada nos queixos. Que se segue: de vez em quando, à noite, o caldo entornava-se. Fosse pelo vinho, fosse pela falta de petróleo na candeia, que se chamava "luz", e os fósforos para a acender chamavam-se "lumes", também ditos "palhites", fosse pelo empurrão traiçoeiro do fogo da lareira, o casal desavinha-se. Nada de grave ou físico, apenas desconversa. Ralhava um, ralhava o outro, cada qual ameaçava, "caralho que!...", mas nada. Até que uma maré, ele - só podia ter sido ele -, sacramentalmente dono da última palavra e mortinho por ir para a cama, arrumou a questã a seu favor da melhor maneira que soube e pôde, que foi, virando-se para ela, atirar súpeto: "Ora meta-me o cu pelo nariz acima". Para logo remendar, coçando as partes com um entusiasmo que só visto: "Ora vá bardamerda, que até me enganei", porque evidentemente o que ele queria dizer era "Ora meta-me o nariz pelo cu acima", como toda a gente diz. E depois foram fazer meninos um com o outro, que naquela terra era assim e muito.

Em Basto, no Inverno, no tempo em que havia estações do ano, o frio era muito, não existia electricidade nem televisão, era noite logo às cinco da tarde ou antes, mas ninguém se queixava e nasciam muitas crianças. Em Portugal era noite há mais de quarenta anos, e outros portugueses noutros sítios estariam ainda em pior situação, suspeitava-se de bico calado lá naquele fim do mundo alumiado a "pitroil". Por outro lado, nunca percebi como é que aquele povo não morreu inteiro vítima de uma epidemia de incêndios vínicos e domésticos. Já agora: se a "luz" fosse a pilhas, isto é, se fosse uma lanterna, ou "lenterna" ou "linterna", uma novidade que chegou a Passos com os anos de atraso do costume, então chamava-se "foxe", evidentemente por causa de ser um foco, um foco de luz, devendo dizer-se "focse". E, sim, escrevi mesmo questã, não lhe falta o ó final. Era assim que se falava, questã, respeitando o feminino.

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Os cinemas também se abatem

Fitas...
Não vá em fitas! Máscara de ferro é uma coisa, testa-de-ferro é outra.

O cinema foi sempre a coisa mais importante da minha vida, até deixar de ser. Creio que a última vez em que entrei numa sala de cinema convencional levava pela mão o meu filho, ou vice-versa, para vermos "O Rei Leão", portanto no Verão de 1994 e, lamentavelmente, era a versão portuguesa.
Comecei cedo, ainda de calças curtas e a dar uso nas legendas às primeiras letras que trazia aprendidas da escola. Era o tempo do cinema ao ar livre na parada das traseiras dos velhos Bombeiros, na Rua José Cardoso Vieira de Castro, entre os dois palacetes. Debaixo da escadaria do quartel foi montada uma espaçosa e saudabilíssima cabina de projecção toda ela construída em lusalite, e o terreiro enchia-se de cadeiras e bancos corridos com costas. O operador era o Porinhos, se não me engano, eu via os filmes da janela do quarto do meu padrinho e tio Américo, derivado à falta de idade, depois o cinema acabou sem mais nem menos, sem me avisarem ou explicarem, a parada lá ficou, como o próprio nome indica, e o barraco, de tão jeitoso, aproveitou-se para arrecadação das tralhas do meu avô.
Ainda em Fafe, mais tarde, tornei-me ferrinho do Teatro-Cinema, andei pelas aldeias com o Pimenta, de catrel e altifalantes, a anunciar os "ma-gní-fi-cos" filmes que, pelo Verão, passavam no campo de futebol e eram tão fraquinhos, frequentei bissextamente o salão inacabado do Martinho da Granja, se a memória não me atraiçoa, e fui uma ou duas vezes ao Estúdio Fénix. Entretanto, levado pela vida, tinha-me virado para Braga - São Geraldo e Teatro-Circo -, e para Guimarães - São Mamede e Jordão. Vi cinema, de forma avulsa e por exemplo, em Vila Real, Figueira da Foz, Amadora, Lisboa, Dublin, Roma, Manchester ou Bordéus, onde de momento estivesse e pudesse.
Instalei-me no Porto e não me escapou um: Águia D'Ouro, Batalha, Carlos Alberto, Charlot, Coliseu, Estúdio, Estúdio Foco, Estúdio 400, Júlio Dinis, Lumière, Nun'Álvares, Passos Manuel, Olímpia, Pedro Cem, Rivoli, Sá da Bandeira, Terço, Trindade, Vale Formoso, Chaplin, em Leça da Palmeira, e até o Vitória, na Circunvalação, mas tecnicamente do lado de Rio Tinto, Gondomar.
E agora, que é deles? Onde estão os velhos cinemas do Porto? Fecharam todos? A cadeado? Foram todos ao shopping e perderam-se? Eu sei que também não vou ao cinema há mais de um quarto de século, mas a culpa não é minha: é do meu filho, que cresceu, e isso realmente faz-me diferença.