quinta-feira, 19 de março de 2026

Em Cima da Arcada, à coca

Macaquinhos no sótão
Ele tinha macaquinhos no sótão. Denunciado pela vizinha bisbilhoteira, foi detido e investigado. Os animais, após vistoria veterinária, seguiram para o jardim zoológico. Ele, para o manicómio.

Levava um banquinho de madeira e sentava-se em Cima da Arcada, de guarda-sol aberto, em dias assim-assim, geralmente pouco nublados, e um caderninho de folhas quadriculadas, todos os dias. Se por acaso invernasse, o guarda-sol chamava-se guarda-chuva. Mas ele. Ele espertava os olhos cansados, via sair, e tomava nota. Saíam do Mário da Louça, do Damião Monteiro, do Império, do Fernando da Sede, do Foto Jóia, do Talho Novo, do Romeu, da Caixa, do Martins da Avenida, do Rabeca, da Câmara, do Café Avenida, da Peninsular, do Moniz Rebelo, das camionetas do João Carlos Soares, da Juditinha, do Sanica, do Casinhas, da Senhora Eufémia, do Américo das Bicicletas, do Alfredo Sapateiro, das Lobas, do Club, da Pacata, da Loja Nova, da Casa da Cera, dos Armazéns Cunha, do Banco, do Martins Relojoeiro, da Electra, do Manel do Campo, até saíam do Escondidinho. Saíam, e ele registava a lápis lambido, mão trémula porém infalível.
Analfabeto de nascença, utilizava a técnica estatística do Miguel Cantoneiro, ecumenicamente adaptada. O nosso extraordinário Miguel, fardado e de pistolo à cinta, anotava o trânsito com uma rodinha, um círculo pequeno, para cada carro ligeiro que passava na estrada nacional, e uma rodela, um círculo grande, para cada camião, não sei como era para as furgonetas e motorizadas, já não me lembro, mas devia haver uma escala qualquer, círculos intermédios, uma tabuada de rodinhas, rodas e rodelas que topava a tudo e batia sempre certo. Uma espécie de Excel mais de vinte anos antes de ser inventado. No Largo, o guardador de saídas, por seu turno, botava uma cruzinha pequenina para os fregueses pobres e desiludidos como ele, uma cruzinha maior para os menos mal da vida e um cruzeiro para a dúzia e meia de cagões locais. Como costumava dizer, cada um tinha a sua cruz. E era eficaz o processo. À noite, em casa, depois da sopa e antes da reza do terço, solitária e apressada, fazia a soma das cruzes, por escalões, comparava com os dias anteriores, os períodos homólogos, as contas todas certinhas, noves fora nada, particularizava as variáveis, indexava à inflação, descontava o algoritmo e arquivava tudo no saco de serapilheira debaixo da cama. Aos domingos de manhã, em vez de ir à missa, fazia uma pequena fogueira e queimava a papelada enquanto assobiava vigorosamente o hino de Fafe, "Fafe querido", mas de trás para a frente. Chamavam-lhe o Toma-Conta, o Vigilante. Talvez vigilante da natureza. Da natureza humana. Chamavam-lhe também outros nomes. Diziam que ele tinha um parafuso a menos, que era doudo, para o que lhe havia de dar, ser contador de pessoas. Ele dizia, porém, que era contador de anedotas...

quarta-feira, 18 de março de 2026

A vidinha a andar para trás

Em dois sítios
Ele era um tipo manifestamente azarado. Caiu e partiu o braço em dois sítios: mais precisamente em Mirandela, há coisa de dez anos, e no Sabugal, fará amanhã quinze dias.

Eu andava com grandes esperanças. O velho Dickens que me desculpe o abuso, mas sobravam-me razões para tamanho optimismo: num dia achei um cêntimo e no dia seguinte dei de caras com dez cêntimos, assim sem mais nem menos, naquele bocado de Cima da Arcada entre a memória dos Armazéns Cunha e as saudades do Américo das Bicicletas, aquele sítio é realmente uma mina. Não havia dúvidas, as caminhadas matinais estavam a fazer-me bem, pelo menos ao porta-moedas, e então pus-me à tabela, armado em garimpeiro, permanentemente a olhar para o chão mal colocava o pé no passeio e com a cabeça a fazer contas de multiplicar. Sempre por dez. Portanto, um cêntimo, dez cêntimos, a seguir seria um euro, depois dez euros, cem euros, mil euros, dez mil euros, cem mil euros e assim sucessivamente. Contava ficar rico em menos de uma semana. Mas durante uns dias, nada, nem um tostão para amostra, e eu já estava a desmoralizar, confesso. Até que ontem achei cinco cêntimos à beira da praça de táxis e hoje encontrei um cêntimo em frente ao Club Fafense. Quer-se dizer. Ainda fiquei pior, porque, assim inesperadamente a desmultiplicar, suponho que mais dia menos dia sou eu a perder dinheiro. E, que se segue, pelo sim e pelo não, vou deixar terminantemente de ir ao Largo. Para além disso, estou farto de me esbarrar nas pessoas, sobretudo às quartas-feiras...

terça-feira, 17 de março de 2026

Flores ao solheiro

A invenção da sogra
Consta que os muçulmanos introduziram a nora em Portugal. Gostaria de saber: e quem terão sido os espertinhos que nos introduziram a sogra?

Um restinho de sol e lá se sentavam elas comparando doenças e façanhas de netos havidos ou inventados. Rosa, Violeta, Hortênsia, Camélia, Margarida, Dália, Açucena - evidentemente no jardim imaginário, ao entardecer da vida.

O passeio do jovem ciclista em cuecas

O ciclista isolado
Era um ciclista que se isolava com frequência. E também com fita preta Advance desde 1,44 sem IVA.

Palavra de honra, em cuecas. Os famosos slipes ou trusses, como dizia, com todos os erres e mais um, o nosso saudoso Zé Manquinho. Em cuecas, portanto. O jovem ciclista atravessou com a maior das descontracções a praça principal da nobre vila de Caminha, perante o espanto e a reprovação compungida da distintíssima esplanada do Café Central que rebentava pelas costuras de senhorecas e senhorecos, sobretudo portuenses da Foz chique em gozo de segunda casa ou terceira, e eu ali a aproveitar o sol e a contar à Mi as esplêndidas excursões do Bô da Bomba ao Alto Minho para fafenses remediados e pobres, amiúde simplórios e bebedolas. Primeiro para cima, depois para baixo, pedalando em preparos tão resumidos, o ciclista em cima da bicicleta, parece impossível num centro histórico conformemente homologado e registado para os devidos efeitos! A indignação foi praticamente geral, até as arcas dos gelados Olá coraram, um pouco mais. E perceba-se o escândalo: era domingo e hora da missa para os indígenas, valha-me Deus...

segunda-feira, 16 de março de 2026

Rabichas, foguetes e foguetões

Cheira a Natal
Já cheira a Natal - alguém disse. Ele, atrapalhado, explicou - Não fui eu.

Não sei se vos lembrais: Eurico da Fonseca (1921-2000) foi o principal especialista português em astronáutica, e creio que ainda é, embora já não exerça por razão de força maior. Praticamente autodidacta, nomeado investigador por decreto-lei e oficialmente equiparado a professor catedrático, colaborou com a NASA e conheceu os principais responsáveis pelo Programa Apollo. Notabilizou-se entre nós como divulgador de assuntos científicos. Na rádio, acompanhou em directo, na então Emissora Nacional, a chegada do homem à Lua e comentou os voos espaciais norte-americanos e soviéticos. Mas era na RTP que eu gostava de o ouver. Ouver, escrevi bem. O primeiro passo de Neil Armstrong também deu na televisão e, eu bem vi, a Lua era em câmara lenta.
Pois foi com Eurico da Fonseca na televisão - na televisão evidentemente a preto e branco do café Peludo - que eu aprendi que, quando se fala de um lançador espacial, deve dizer-se foguete e não foguetão. Foguete. Tal como na meia de vidro com fio puxado. Foguete. Tal como o velho comboio Porto-Lisboa que era praticamente um luxo e chegava aos cem à hora. Foguete. Tal como no Santo António da minha rua em Fafe, com girândolas, diabos-encaixados, bombinhas, estalinhos e bichas-de-rabear, ou rabichas, como por cá se chamavam. Foguete. E outro especialista em foguetes e apetrechos correlativos era o nosso Rates, raríssimo cromo de almanaque. Foguete. Eurico da Fonseca explicava, apenas insinuando, que foguetão é outra coisa: por exemplo, coisa gasosa, eventualmente sonora e, por norma, fedorenta. Quer-se dizer: um peido, uma bufa, um traque, um flato, uma farpa, um pum, com vossa repetida licença, e isso já seria matéria da alçada do nosso Moisés...

O enchousado

Advérbios
- Sobretudo ou principalmente?
- Com este frio, sobretudo!

O indivíduo de triste figura, enfezado, talvez torto, talvez sujo, talvez faminto, acabrunhado, macambúzio, encolhido, atafulhado de roupa desaparelhada, quatro pares de calças, três casacos, dois sobretudos e uma gabardina, como se fosse um guarda-vestidos ambulante, como se tivesse acabado de assaltar uma loja de vestimentas velhas e invernosas - esse, assim nestes preparos, estava enchousado, era enchousado. Enchousar, o verbo, pode também querer dizer espancar, sovar, bater em. E confere. Para isso servem os pobres enchousados, para sacos de pancada.

domingo, 15 de março de 2026

O pinto-calçudo e o caga-na-saquinha

Haja decoro!
A gente chama a casa um técnico da tv cabo, um electricista, um picheleiro, um trolha, e o que é que nos aparece? Um homem que se aninha, que se estica, que se dobra, que se deita e que nos mostra o rego do cu. Insistentemente o rego do cu. Indecentemente o rego do cu. Havia necessidade? Porque é que as respectivas entidades patronais não lhes dão fardas recatadas, por medida, com calças de cinta alta e camisas de fralda comprida? Ou então mandem-me raparigas do sexo feminino, valha-me Deus!...

São dois conceitos completamente diferentes, embora não falte por aí quem os confunda, por distracção ou evidente ignorância: pinto-calçudo e caga-na-saquinha. Vejamos: o pinto-calçudo é o rapazinho que começou a usar calças compridas e as calças colam-se-lhe às pernas, mas também pode ser o indivíduo mal-ajambrado que, por exemplo, veste calças estreitas e ridículas, nomeadamente zangadas com os sapatos - como por caso agora é moda; quanto ao caga-na-saquinha, é uma criatura medrosa, triste, insignificante, e ponto final.
Portanto, pinto-calçudo e caga-na-saquinha, duas filosofias de vida essencialmente diversas: o pinto-calçudo é uma coisa, questão de aspecto, e o caga-na-saquinha é outra coisa, questão de carácter. Evidentemente há quem acumule. Isto é: quem seja, por um lado e por outro, pinto-calçudo e caga-na-saquinha. Em Fafe tínhamos desses.