sábado, 7 de março de 2026

Era Rio mas podia ser Tarzan

Os putativos
"Era hipócrita se dissesse que não penso nas presidenciais", disse Rui Rio uma vez há muitos anose compreendo-o perfeitamente. Eu próprio seria hipócrita se dissesse que não penso nas presidenciais.

Passou-se assim, que eu não sou de intrigas. Durante a chatíssima presidência de Rui Rio na Câmara do Porto, certa vez os jornalistas foram chamados a acompanhar Sua Excelência numa visita à piscina municipal da Pasteleira. Decerto houvera melhoramentos, e Florbela Guedes, a assessora de comunicação, digamos assim, do futuro líder do PSD, lá estava a tomar conta. Das obras, do presidente e de nós. No decorrer da desinteressante conversa que tivemos de aturar, e não me lembro a propósito de quê, Rio fez a extraordinária revelação de que não sabia nadar. Para mim, que ia pelo 24horas, já chegava. Na verdade, o meu jornal tinha-me mandado lá para conferir se o cinzentão autarca portuense calçava meias da mesma cor, ambas, e de que cor, mas aquilo de não saber nadar, no pico de carreira dos Black Company e da campanha contra o afogamento das gravuras rupestres de Vila Nova de Foz Côa, saíra-me melhor do que a encomenda. Satisfeitos, pedimos a continha e pusemo-nos a andar sem pagar, eu mais o meu camarada da fotografia.
Ainda não tínhamos chegado à Junta de Lordelo do Ouro e já tocava o telemóvel do meu camarada da fotografia, por acaso amigo de infância de Rui Rio. Era a Florbela a dar-lhe o recado que me desse o recado que aquilo de Sua Excelência não saber nadar era a brincar, que o Senhor Presidente nadava como um torpedo, que ele uma vez até esteve quase a ser Tarzan num filme, que aquilo não era notícia, que não valia a pena, que não tinha jeito nenhum, que valha-me Deus! Eu, que também pensava que aquilo não era notícia, e confesso que ia dar o meu melhor para deitar os apontamentos ao lixo, resolvi então oferecer à Dra. Florbela Guedes, ex-jornalista, o mesmo tratamento que ela nos dispensava sistematicamente a nós, jornalistas em geral, não nos atendendo sequer o telefone e fechando-nos todas as portas e janelas do presidente e da autarquia, deixadas no trinco para alguns. Mandei-a, por isso, dar uma curva com os quatro piscas ligados e, em dois ou três históricos parágrafos, antológicos e imortais, denunciei ao mundo e arredores o escândalo do século - Rui Rio não sabe nadar, yo! -, que eu também não sou para brincadeiras. E ia-me saindo o Pulitzer daquele ano...

Alguns anos depois, creio que em 2020, a meio do consulado de Rio como presidente do PSD, o Expresso publicou um interessante retrato, ou perfil, de Florbela Guedes. Ali se dizia que ela era "a mulher mais poderosa" do partido, que ela era "a sombra e a extensão do próprio líder", que era ela quem decidia "quem fala em nome do PSD - e quando". Quer-se dizer, pensei eu: Florbela Guedes é que era a verdadeira patroa do PSD, portanto a patroa de Rui Rio.

Sem comentários:

Enviar um comentário