quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Quem vê caras não vê orações

Branco mais branco
Deu o braço a torcer. E depois pô-lo a corar. Era uma pessoa muito limpa.

Um daqueles famosos restaurantes de peixe na brasa aqui ao lado, na Rua Heróis de França, Matosinhos à beira-mar, estais a ver, já vos chegou o cheiro? Ainda é cedo. Pouco passa das oito da manhã, uma velhinha varre cerimoniosamente a esplanada que por acaso é passeio ocupado com ordem municipal, os peões têm de andar pela estrada, toureando carros felizmente em sentido único. Asseada como se fosse domingo, como se fosse Natal, a velhinha, corpo franzino, cabelos brancos de neve, ajeitados à moda da televisão, da telenovela, uma carinha doce, redonda como um minúsculo sol resplandecendo bondade, olhos apontados ao chão, espertos, criteriosos, os olhos, a velhinha varre varre, vagarosa e competente. Varre varre vassourinha, se varreres bem dou-te um vintém, se varreres mal dou-te um real. Se os anjos varressem e fossem velhinhas, e competentes, eram ela certamente e varreriam assim mais ou menos. Lembro-me de velhinhas tais quais no meu tempo de criança, em Fafe, as saudades doem-me na zona do fígado, estou também a ficar velho. A rua naquele sítio àquela hora éramos a velhinha e eu. Eu, que venho de mercar sardinhas madrugadoras e vivas, eventualmente clandestinas, estremeço de comoção. Trauteio distraidamente a lengalenga mansa e antiga, brincada à rodinha no Santo Velho, de mãos estendidas, mãos dadas, meninas e meninos sem distinção, recordo-os a todos e a todas, componho-lhes as caras, dou-lhes os nomes, turva-se-me a vista de repente e, carago, são lágrimas...
Varre varre a velhinha doce e cerimoniosa, olhos espertos e belos. Olhos que não enganam. Bondosos. Cara de sol, de anjo. E, eu a passar-lhe pelas costas em pezinhos de lã, para não incomodar, para não estragar cena tão encantadora, diz a velhinha, completamente distraída de mim, como se fosse um mantra ou, vá lá, a recitação atabalhoada do terço, à tardinha, na nossa Igreja Matriz, antes da bênção do Santíssimo: - Filhos da puta! Era mas é fodê-los! Mandá-los a todos prò caralho! À puta que os pariu!...
É. Ninguém diga que está livre, amém!

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Bacalhau com natas (à moda de Fafe)

Pastelaria e ordem unida
Comeu três brigadeiros de enfiada. Disse-lhes após, enquanto limpava a boca: - Informem o general que eu para a semana não venho.

Gosto muito. Bacalhau com natas. Bacalhau recheado, da parte da asa, feito por quem sabe, isto é, por mim, conversado a par e passo com um verde branco honesto e fresco. E depois, antes do café por recomendação médica, uma natinha do Lidl, a 35 cêntimos cada, para escorropichar a garrafa. Foi o que eu disse. Bacalhau com natas.

Ou por outra. Um bom minhoto, um fafense como deve ser, sabe muito bem que bacalhau recheado não é bacalhau recheado. Ou seja, o bacalhau não tem recheio nenhum. É bacalhau frito de cebolada, bacalhau delgado, as badanas ou aparas, rabos ou laterais, e nem é realmente frito, mas admitamos que frito quase refogado, com umas voltinhas que são próprias cá de cima. É o bacalhau recheado à nossa moda, recomendadíssimo sobretudo para o tempo de calor e férias, comido se possível com família e amigos à sombra de uma ramada, e o vinho a refrescar no poço. E também concordo que a coisa ficaria muito melhor rematada com dois ou três dos também nossos doces de gema, de Arões ou Fornelos, mas, quer-se dizer, assim já não seria bacalhau com natas...

Tomates aux gésiers de lapin

Honestidade a toda a prova
Era um "chef" de uma franqueza que só vista. Tinha um aclamado programa de televisão, e não raras vezes, após confeccionar e provar os seus requintados pratos de assinatura, sentenciava, de colher a meia haste, olhos revirados e boca em biquinho de deleite e aprovação: - Hummm! Que merda!...

A pedido de várias famílias. A minha famosa receita de tomates aux gésiers de lapin é assim. Livre de gorduras e lave em duas águas as moelas de coelho. Uma da águas pode ser das Pedras, com rodela de limão e dois pacotes de açúcar, em caso de ressaca. Seguindo. Meta as moelas de coelho numa marinada feita com sumo de pepino nacional, vinagre balsâmico, azeite de trufa, mel de rosmaninho, gengibre, flor de anis, flor de sal, flor-de-lis, flor-de-lótus e flor-de-ferrari. Deixe a repousar esta marinada dentro de uma embalagem para ovos de codorniz enquanto conta de zero a 120 e depois de 120 a zero, sempre ao pé-coxinho. Os ovos de codorniz deviam ter sido previamente tirados da embalagem, agora, ao menos, desfaça-se das cascas. Lave muito bem os tomates, corte um chapeuzinho numa das extremidades dos ditos e limpe-os de todas as sementes e nervuras internas. Introduza as moelas de coelho nos tomates, misturando-as com uns pozinhos de queijo com o nome mais arrevesado que encontrar no supermercado. Pegue nos tomates e coloque o chapeuzinho, que vai adornar, de lado, com um pequeno cartão a dizer PRESS, como nos filmes antigos, a preto e branco. Leve os tomates ao forno durante 180 minutos a 15 graus ou menos, pode até estar desligado. Excelente. Está pronto. Retire do forno e deite tudo ao lixo. Descongele e aqueça bem a feijoada que sobrou do almoço de quarta-feira, regale-se com ela, porte-se bem e faça por ser feliz.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Anthony Bourdain sem espinhas

Dia da Restauração
Cá em casa, celebramos o Dia da Restauração como deve ser. Todos os anos, a 1 de Dezembro, honrando a velha tradição, vamos comer fora. É preciso ajudar o sector. E similares.

O que eu gostava do estilo e dos programas de televisão de Anthony Bourdain! Sou fã número um, guardo, aliás, o cartão de sócio, ainda com as cotas em dia. E um faqueiro de colecção. E um avental assinado. Por mim. Fiz-lhe uma propaganda que só vista, apaixonada e gratuita, apresentei-o aos meus três amigos, recomendei-o nos meus blogues praticamente secretos. E gostava tanto dele, do Tony, que, em Junho de 2012, ao princípio de uma indigesta noite de sábado, enquanto quase quatro milhões de portugueses normais sofriam com a segunda parte de um Alemanha-Portugal da RTP para o Campeonato Europeu de Futebol, eu entretinha-me a ver na SIC Radical dois episódios do "No Reservations", um dos quais dedicado a Macau. E por acaso fiz mal, tive um desgosto muito grande. E Portugal também perdeu por 1-0.
Não era a primeira vez que o grande Anthony Bourdain (1956-2018) me desiludia, verdade seja dita. Acompanhei-lhe toda a carreira televisiva, até ao premiado e infelizmente definitivo "Parts Unknown", da CNN, e portanto estava sujeito. Conhecia-o de ginjeira, desde os tempos de "A Cook's Tour", ele ainda à procura da fórmula de sucesso que veio a afinar mais tarde, receita simples, uma mistura bem temperada de viagem e gastronomia, um jeito de apresentação irreverente e politicamente incorrecto que cativava e, por estranho que hoje pareça, ensinava. Bourdain já tinha andado por cá, Lisboa, Açores e Porto, creio que em 2001, um grande maluco de argola na orelha e keffiyeh à volta do pescoço. Comeu castanhas assadas na Rua de Santa Catarina, foi ao Majestic, passeou pela Ribeira e pelo Mercado do Bolhão, visitou a Mercearia do Bolhão e almoçou no Rogério do Redondo: sardinha pequena frita, cabeça de pescada cozida com todos e as sacramentais tripas. Depois levaram-no ao Aleixo, em Campanhã. Provou a salada de polvo e os bolinhos de bacalhau com feijão-fradinho, para ganhar embalo até aos filetes de polvo com arroz do mesmo que davam fama e proveito à velha casa. Mas, já o denunciei, não foi às bifanas da Conga, e isso é indesculpável. Nem passou por Fafe, e era só um saltinho, para provar a nossa vitela assada, e essa desfeita levei-a eu a peito, como afronta pessoal.
Mas não estava preparado para o pior. No tal episódio de Macau, que é o que aqui interessa, a certo passo Bourdain quer saber da herança lá deixada pelos portugueses, nomeadamente na gastronomia, e levam-no ao Restaurante Fernando. É casa de açoriano e é ali que o chef mais famoso do mundo vai provar os dois mais notáveis paradigmas da cozinha tradicional açoriana: as tripas à moda do Porto e a carne de porco à alentejana. Não estou a brincar. Eu nunca mais tenha apetite se não foi assim que Anthony Bourdain referiu estes dois pratos no seu programa: a dobrada e o porco com amêijoas, como invenções dos Açores.
Confundiram-no ou confundiu-se. Em qualquer dos casos, o bom do Tony não ficou bem no retrato. Se calhar não se preparou, fiou-se nos informadores locais, talvez na "pesquisa" da sua própria equipa, facilitou, assinou por baixo e estendeu-se ao comprido. Percebi então porque é que comeu bifanas em Lisboa - e perdoei-lhe.
Curiosamente, já agora, até há quem defenda que a carne de porco à alentejana é um prato de origem algarvia, confeccionado, isso sim, com carne de animais alimentados no Alentejo, mas deslocalizá-lo para os Açores é ir longe demais. É meter muita água pelo meio. Já quanto às famigeradas tripas, é ainda mais lamentável a argolada, uma vez que elas já lhe tinham sido apresentadas e explicadas dez anos antes, exactamente no Porto, local certo e de nascença, era só consultar os seus arquivos ou ver os seus próprios programas. 
Salvou-se, em todo o caso, a alcatra, que também saltou para a mesa do restaurante macaense. A alcatra, concedo, pode ser entronizada como o grande contributo da cozinha açoriana para o património gastronómico da humanidade. A alcatra honesta, feita por mão sábia e em alguidar experiente, a alcatra do aroma que chama, do gosto como nenhum outro, da carne a desfazer-se na boca. A alcatra de Vitorino Nemésio, da festa e da fartura. Da partilha, em nome do Pai, do Filho e sobretudo do Espírito Santo.
Melhor do que a alcatra, só a alcatra de peixe. Isso mesmo, alcatra de peixe, com e sem espinhas, não vos admireis. Melhor ainda: a alcatra de peixe de um certo sítio em Porto Judeu, não muito longe de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira. Que mais quereis saber? O Zé do Boca Negra trata os clientes todos por tu? Trata. Dá raspanetes à freguesia? Dá, mas é a única borla. É sportinguista? É, coitado, ninguém é perfeito. Fala pelos cotovelos? Fala, fala. Tem quatro. Quatro em cada braço. E a alcatra de peixe? É um fenómeno ainda maior.

domingo, 27 de setembro de 2026

O mar começa em Fafe, devagarinho

O leitor
Ele era um leitor compulsivo. De contadores de água, luz e gás.

O rio Vizela nasce em Fafe, exactamente no Alto de Morgair, antiga freguesia de Gontim. Depois de banhar Fafe, sobretudo na barragem de Queimadela, o rio Vizela passa também, por esta ordem, pelos concelhos de Felgueiras, Guimarães, Vizela, a que dá nome, e Santo Tirso. Neste seu interessante percurso, o rio Vizela acolhe diversos e variados influentes. O influente mais importante, isto é, o mais influente, é o nosso rio Ferro, mas não podemos esquecer o rio Bugio e, se não me engano, as ribeiras de Docim, de Moreira e de Ribeiros e o ribeiro de Costas Antas. São influentes porque eles é que abastecem de água o rio Vizela, que, por sua vez, é influente do rio Ave, que vem da serra da Cabreira, Vieira do Minho, e desagua no oceano Atlântico, em Vila do Conde. Creio portanto não ser exagero nenhum dizer que o mar começa em Fafe, pelo menos um bocadinho.

O aeroporto é nosso!

Do monólogo ao solilóquio
Tomou a palavra logo a seguir a si próprio, desvanecido com tamanha facúndia. Falou, falou, falou, até que a voz lhe doeu. Então sentou-se e aplaudiu-se entusiasticamente.

Foi no final de 2023. A notícia saiu no insuspeito tablóide britânico The Sun e portanto só podia ser verdade: Fafe era "a cidade mais barata de Portugal". Pelo menos, para inglês ver. Quem me alertou para a magnífica novidade foi o nosso Pedro Dantas, que está lá na Velha Albion e sempre atento a estas extraordinarices. De acordo com o bem informado artigo, que, nem de propósito, confunde o Palacete dos Dantas com a Igreja Românica de Arões, Fafe, "uma cidade pouco conhecida em Portugal", ficou em primeiro lugar num ranking de barateza turística elaborado por uma entidade alegadamente chamada Porto Travel Guide. Mais de cem cidades portuguesas terão sido "analisadas por especialistas", e Fafe ganhou, à frente de Oliveira de Azeméis, Famalicão, Ovar e Amarante, só para se ter uma ideia.
E o que é que Fafe tem? Pois, para além da igreja e do palacete levados ao engano, Fafe tem a Casa do Penedo e a Casa do Santo Velho, na minha rua, e "um enorme parque aquático ao ar livre", embora os indígenas prefiram refrescar-se "no reservatório local chamado Barragem de Queimadela". Para além disso, garante o indesmentível The Sun, Fafe tem "comida e bebida baratas", "restaurantes baratos e hotéis económicos". É pouquinho? Mas é de boa vontade.
Isto aqui vai ser outra vez o fim do mundo, vamos ficar a nadar de camones. E convém que parem imediatamente os estudos uns atrás dos outros que só dão despesa e não vão a lado nenhum. Nem Portela, nem Portela + 1, nem Portela + 2, nem Montijo, nem Alcochete, nem Santarém, nem Pegões, nem Rio Frio, nem Poceirão, nem Beja, nem Monte Real, nem Alverca. Nada disso. O novo aeroporto de Lisboa só pode ser em Fafe! Em Fafe, mais exactamente na freguesia de Golães, cumprindo-se enfim a viperina profecia da maledicência de outros tempos - assunto que metia emigração, maridos fora, mulheres sozinhas, desejo, amantes, adultério, "cornos", portanto "aviões", portanto "campo de aviação", falatório desmoderado, boatos, calúnias pela calada, onzenices, muito veneno e ruindade por parte de quem falava só por falar, e talvez também inveja.
Aliás, Fafe tem uma história muito rica no que diz respeito a aviões, inclusive de papel, helicópteros, cestinhas, papagaios, bolinhas de sabão e produtos afins, uma longa e bonita tradição. Uma vez até caiu um avioneta na Cumieira, que saiu nos jornais e foi o nosso orgulho até hoje. E agora, finalmente, temos o aeroporto, o jackpot, a sorte grande. O novo aeroporto de Lisboa é como o Leites. "O Leites é nosso!" e o aeroporto também.
Ó gente da minha terra, abaixaide-vos! Vai vir charters...

sábado, 26 de setembro de 2026

Diálogos fafenses 61

Resolução de ano novo
- Quem deixou de fumar foi o Tavares...
- Coitado. E o funeral é quando?

Os que deixaram de fumar

O respeito
O respeito é muito bonito. Mas escusava de ser tão vaidoso.

Bonifácio Terrafunda era coveiro profissional há mais de quarenta anos. Funcionário exemplar, respeitado pela clientela, querido pai de famílias, duas. Um dia, para o que lhe havia de dar, resolveu dividir o campo-santo em dois talhões devidamente assinalados, um para "Fumadores" e outro para "Não fumadores", como nas viagens de avião antigamente. A coisa veio nos jornais, quer-se dizer, no Correio da Manhã, e deu durante uma semana na televisão, quer-se dizer, na CMTV. Anacleto Boavida, jovem presidente da junta, recandidato, passou-se dos carretos derivado às notícias, instaurou inquérito e competente processo disciplinar, meteu advogado e testemunhas, anexou imagens do YouTube, e o velho coveiro foi inapelavelmente remetido para o olho da rua, por indecente e má figura, isto é, despedido com justa causa, mesmo às portas da reforma. - Com os mortos não se brinca! - justificava o fulgurante autarca, alto e bom som, para quem o quisesse ouvir, que era o espelho da casa de banho. E rematava, em memória dos falecidos: - Se eles já lá estão, é porque deixaram de fumar, todos, não há cá separações, Deus os tenha...

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

O sonho comanda a vida?

Cuidado com o que se deseja
Perseguir sonhos, às vezes, pode ser crime. Nesse caso chama-se "stalking".

Sonho. Bolinho muito fofo, de farinha e ovos, frito e depois geralmente passado por calda de açúcar ou polvilhado com açúcar e canela. Só isto. Agora: onde raio é que o poeta foi buscar a ideia de que "o sonho comanda a vida"? Se ainda fosse o pão-de-ló de Fornelos...

Os sonhos são como o algodão, hidrófilos

Prioridades
O amor é muito lindo. O "jackpot" do Euromilhões é muito mais.

Ultimamente dá-me para sonhar com pessoas que já morreram. Pessoas de quem gosto - familiares e amigos, vizinhos de infância, povo do meu antigamente, gente de Fafe. Sou um simples, acho que são saudades, velhice. Mas dizem-me que não, que o assunto é muito mais complicado, especialistas em correntes de ar, astrologia e afins garantem-me que os sonhos querem dizer coisas, significam, e que não enganam. Os sonhos são como o algodão, hidrófilos. Nos sonhos está lá tudo, e tudo acaba por bater certo. Limpinho.
Sonhar com pessoas amigas que já morreram, falar com elas no sonho, explicam-me que é o melhor que me podia acontecer. É o pré-aviso de que está aí a rebentar-me nas mãos uma fartura de boas notícias, um mar de felicidade e saúde como o aço para mim e para os meus. O que é preciso é estar atento aos recados que os defuntos da corda me querem segredar, às tantas até os números do Euromilhões da próxima sexta-feira. Isto é a regra geral, científica, embora possa parecer o horóscopo da Crónica Feminina, patrocinado pelo Sonasol.
Não sei se esta tão conveniente interpretação dos sonhos com mortos também vale para Portugal e para vivos chamados Hernâni Von Doellinger, naturais de Fafe e residentes em Matosinhos-sur-Mer. Suspeito que não, pelo que me tem calhado, mas cá fico à espera de melhores dias.
Tenho alguma pressa, confesso, porque se uma coisa sei de certeza é que os sonhos padecem de prazo de validade. Um gajo deita-se uma noite moço e convencido de que os sonhos molhados até são um acontecimento, vá lá, engraçaaaaado..., e acorda de manhã ancião e alagado em mijo derivado à incontinência. A vida é tão breve, não foi?
Sonhar com algodão, dizem que é muito bom para a saúde e que traz uma vida cheia de dinheiro e de felicidade. Bem empregue. Eu por acaso pensava que era com merda que a coisa funcionava. Quer-se dizer, ensinaram-me em pequeno que pisar merda é que dava sorte, é que era sinal de dinheiro e felicidade, se calhar porque naquela maré éramos tão pobres que não tínhamos acesso ao algodão. E merda, realmente, era uma fartura...
Quando morávamos no Santo Velho, o algodão, esse símbolo branco da escravatura negra, passava quase todos os dias por mim, em fardos, em camiões transbordantes, descendo a Rua Monsenhor Vieira de Castro a caminho da Fábrica do Ferro, Companhia de Fiação e Tecidos de Fafe, onde depois havia milhares de operários a trabalhar, entre os quais o meu pai e, mais tarde, a minha irmã e o meu cunhado Álvaro, e variados chefes a "roubar", como dizia o povo, e deu no que deu. Ia daqui de Matosinhos, o algodão, do Porto de Leixões, agora mesmo à beirinha de onde moro com vista para o mar se me puser de lado. Quer-se dizer: por mais voltas que a vida dê, estamos sempre no mesmo.
Agora vou dormir e passo à escuta.

Diálogos fafenses 29

Os médicos, as farmácias e o sistema
Fui à farmácia comprar o antibiótico. A senhora doutora farmacêutica perguntou-me:- Marca ou genérico?
- O mais barato, se faz favor. Pode ser de saldo, se tiver, ou mesmo em segunda mão, se for em conta - respondi.
Veio o antibiótico. Genérico.
- São seis euros e setenta e nove - informou-me a senhora doutora farmacêutica.
- Seis euros e setenta e nove?! - espantei-me. - Mas o senhor doutor médico escreveu aqui na receita que, e passo a citar, "esta prescrição custa-lhe, no máximo, 77 cêntimos, a não ser que opte por um medicamento mais caro", e eu manifestamente não optei...
- Pois, mas não ligue a isso. É o que eles têm lá no sistema. O preço muda ao fim de três meses - disse-me a senhora doutora farmacêutica.
- Mas a receita é de hoje, fresquíssima - atalhei.
- Pois, mas é o sistema - reiterou a senhora doutora farmacêutica.
- E o sistema não é o mesmo para as farmácias? Entre 77 cêntimos e seis euros e setenta e nove vai uma diferença de quase dez vezes mais, como é que isto é possível? - inquiri e tornei a inquirir.
- Faça o favor de ver aqui no computador. Na verdade há mais barato, este de três euros e quinze, mas que hoje, por acaso, até já custa cinco euros e trinta e sete, e não temos - explicou-me a senhora doutora farmacêutica.
- Mas a custar 77 cêntimos é que nada - insisti.
- Nem de perto nem de longe, é o sistema - insistiu, por seu lado, a senhora doutora farmacêutica.
- E os senhores doutores médicos sabem? - eu.
- Sabem, sabem - a senhora doutora farmacêutica.
- Desculpe voltar ao mesmo: mas então porque é que os senhores doutores médicos escrevem estes preços nas receitas, se sabem que estão a enganar os doentes?
- É para pressionar as farmácias - segredou-me a senhora doutora farmacêutica, chegando-se-me ao ouvido.
- E tem resultado, não tem? - devolvi-lhe eu, no mesmo tom confidencial...

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

E os incêndios, em caso de chuva?

Marialvismo
O defeito dos incêndios dominados é que não gostam que lhes chamem isso: dominados. E então reacendem-se.

Os incêndios florestais, por exemplo, essa desafiante actividade ao ar livre. Em caso de chuva, o que é que acontece aos incêndios florestais já programados? A autarquia tratou do assunto, discutiu, deliberou e determinou: se chover, os incêndios florestais, é como tudo, passam para o pavilhão multiusos.

A hora de Serafim d'Eiteiro

O despertar do filósofo
- A vida é uma imensa linha recta cheia de curvas, e cada subida concomita-se numa irrefutável descida, vice-versando - disse o filósofo, ao pequeno-almoço.
- Chega-me o açúcar - disse a mulher do filósofo.

Serafim d'Eiteiro tinha uma sombria loja de fazendas em Cima da Arcada, por baixo do Club, e era homem de voz grave e piada fina, um figurão com o seu quê de filósofo. O apelido "d'Eiteiro" suponho que fosse natural corruptela de "do Outeiro". Lugar do Outeiro, Antime, donde creio que era este ilustríssimo fafense, ou seriam pelo menos os seus ancestrais. Serafim do Outeiro igual a Serafim d'Eiteiro, assim terá decidido o povo, na sua provecta e indesmentível sabedoria - mas estou apenas a deitar-me a adivinhar.
Alto, magricela, de fato todos os dias, Serafim d'Eiteiro frequentava a sala das traseiras do Peludo, onde, naquela horinha após almoço, se jogavam umas bilharadas iglantónicas. Aquilo era coisa constada, só para artistas diplomados e (aqui que ninguém nos ouve) até metia apostas a dinheiro, reunindo sempre uma pequena multidão de espectadores dados ao palpite e a gozar o parceiro. Era ali o fim do mundo, havíeis de ver! Em Fafe, naquele tempo, era tudo de arrebenta.
E uma vez foi demais. Eu era puto e estava lá. Um dos jogadores, desgraçadamente em dia não e alvo único e reiterado da chacota geral, perdeu de repente as estribeiras e, varando com os olhos a plateia ali à roda, atirou, cheio de raiva e perdigotos: - Ide todos para o caralho! Todos!
Mas nisto encarou o respeitável comerciante, pessoa de outra idade e estatuto, teve um rebate de consciência e resolveu abrir uma honrosa excepção: - Todos, não. Faz favor de desculpar, senhor Serafim, não é para si -, corrigiu o bilharista azarado e despeitado porém atencioso, botando giz no taco.
Sentado logo à entrada depois do degrau, lado esquerdo, no canto por baixo do velho rádio Philips dos relatos domingueiros, Serafim d'Eiteiro disfarçou um sorriso maroto atrás do fumo do ininterrupto cigarro sem filtro e respondeu naquela maneira vagarenta de falar que dava ares de sabedoria: - Muito obrigado pela deferência, mas aqui sozinho é que eu não fico. Se é para ir, eu também vou...
E era assim a vida.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

As adições

Contas certas
Dois e dois eram quatro. Hoje em dia, depende.

Houve um tempo, já não vos lembrais, em que adição era conta de somar, soma, contabilidade, pura matemática, acto ou efeito de adir ou juntar, operação aritmética que tinha por fim reunir num só número dois ou mais da mesma espécie, chamados parcelas. Hoje adição é vício, doença, droga, desgraça, realmente uma merda. E nem se pode dizer que, desta vez, a culpa seja do "acordo ortográfico"...

Cogumelos e outras alucinações

Regresso às raízes
Chegou à idade, meteu os papéis, reformou-se e resolveu voltar às raízes. Mandioca, cenoura, beterraba, batata-doce, inhame, gengibre, nabo, rabanete - à base disso.

Falava-se de cogumelos à porta do café. Os montes e bouças da zona são dados à fungaria, apanhada por quem quer e vendida por bom preço. Faz jeito o livre empreendedorismo: por falar em cogumelos, a rapaziada da terra fuma por ali a céu aberto umas coisas todas bem dispostas que também não devem ser baratas. Uma mão lava a outra, como se costuma dizer, e é a vida.

Dei-lhes valor. Saber de cogumelos não é para qualquer um, e aqueles jovens pareciam saber mesmo do que falavam, e quanto mais mágicos ou psicadélicos, certamente melhor. Lembro-me da Bó de Basto, que era uma especialista muito procurada, sabia muito bem distinguir os venenosos dos comestíveis, que trazia para casa na abada do velho avental e que depois aparava e assava, a meio da tarde, nas brasas preguiçosas da lareira, só com uma mancheia de sal grosso por cima. E uma malga de vinho, evidentemente.
Em Fafe, no tempo em que Fafe tinha montes, os mais antigos dos antigos, gente do campo, também conheciam cogumelos e sentieiros, mas só eles. E a minha sorte é que foi por aquelas cozinhas que eu me criei.

À porta do café, dizia, falava-se de cogumelos. Eram três entendidos. O dono de um daqueles extraordinários telemóveis que têm outro nome e são de esfregar com o dedo como quem acende um fósforo sem cabeça, dá-me lume faxavor?, mais dois compenetrados e doutos colegas. No ecrã do aparelho passavam-se decerto pequeninas imagens e pertinentes informações micológicas, eles de cabeças juntas - porque duas cabeças pensam sempre melhor do que uma, e então se forem três é como se fosse um cientista - e um explicava este é "mediúcre", mas tens a certeza que é "mediúcre" perguntava o outro, é "mediúcre" de certeza absoluta, diz aí em baixo "mediúcre," então não se vê logo que é "mediúcre", sentenciava o que estava para não entrar pessoalmente na história, mas resolvi dar-lhe esta oportunidade de carreira.
O meu telemóvel é um telefone e foi por causa disso que o comprei. Para fazer e receber chamadas. Portanto só quando cheguei a casa é que pude vir aqui ao ilustre computador procurar os cogumelos de raça "mediúcre". Ou da espécie "mediúcre". Ou marca "Mediúcre", com 25 por cento de desconto em cartão. Não encontrei. Mas fiquei a saber que, tecnicamente falando, haverá cogumelos mortais e cogumelos tóxicos, cogumelos aptos para consumo ou cogumelos não aptos para consumo, cogumelos excelentes ou cogumelos... medíocres. Medíocres! Então era isso que a moçarada queria dizer. Medíocre.
Os rapazes não têm culpa. Eles fumam umas coisas e até sabem de cogumelos, honra lhes seja! Mas ouvem na televisão os doutores e governantes a encherem a boca de "mediúcres" e "periúdos" e acreditam que é assim que se diz. Mas não é. Na verdade, nada é como os doutores e governantes dizem na televisão.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Ao final do dia

Na ponta da língua
"Puta que pariu", desabafou a visita. "Sala 5, cama 3", indicou a auxiliar hospitalar.

Costumava dizer-se ao fim e ao cabo, ao cabo e ao resto, no fim de contas, afinal de contas, no final das contas, no final de tudo, afinal, enfim, por fim, finalmente, vai-se a ver, em suma, em conclusão, à conclusão, para concluir, concluindo, para terminar, em última análise. Agora diz-se "ao final do dia", "no fim do dia". E eu sou franco: vejo-me à rasca para acompanhar os avanços da ciência.

A Bó de Basto e o pãozinho do Senhor

Os mórreres
Sim, os víveres, evidentemente os víveres. E os mórreres?...

Foi num programa de televisão, daqueles que temperam o turismo com gastronomia. Vi que na Turquia, esse lamentável lapso da União Europeia, há um respeito muito grande pelo pão. Um respeito tão grande que bocado que cai ao chão não vai para o lixo. É apanhado, guardado e comido na refeição seguinte. Não sei se é bem assim, mas assim me foi contado na TV, e eu gostei do que ouvi, falou-me à memória.
Desconheço que influências culturais trocaram entre si Portugal e o Império Otomano, e se essas permutas foram tão longe que chegaram à bucólica freguesia de Passos, logo a seguir a Várzea Cova, quem desce, mas já Cabeceiras de Basto, propriamente à casa da minha querida avó materna. Sei é que foi neste fim de mundo que eu também aprendi a reverência pelo pão.
Na Casa do Carreiro comia-se na cozinha, à volta da lareira. Os adultos sentavam-se em compridos preguiceiros, apetrechados com uma conveniente tábua-mesa de levantar e baixar, e as crianças ajeitávamo-nos em pequenos bancos de três pernas, os mochos, obra de carpintaria simples e doméstica. Os cães também tomavam posição, anorécticos involuntários, à espera dos ossos que não havia. Levavam troços de couves, cascas de batatas, espinhas de bacalhau de quarto e era um pau.
O chão da cozinha era mesmo chão, rupestre, uma terra negra do fumo e da fuligem, dos anos e vidas de uso e das águas entornadas que lhe davam uma consistência de betão. Sim, as águas dos potes ferventes ou da banca de lavar louça, quando já desnecessárias, eram ali mesmo esparramadas, voltando a reunir-se, acho que me estou a lembrar bem, numa espécie de rego que as levava finalmente até lá fora, até ao carreiro que dava o nome à casa. Como bilhar viciado, o chão da cozinha descaía para o lado do carreiro, e tudo ajudava à limpeza. Depois era só esperar que secasse um pouco e varrer com uma vassoura de giestas apanhadas no monte. A banca era feita em madeira, velha, de pernas trôpegas, pacientemente calafetada pela gordura acumulada ao longo de décadas de serventia.
Era naquele chão que eu às vezes deixava cair o meu megalítico naco de pão, quase sempre um bom pedaço de côdea, que era do que eu mais gostava. A minha avó, mansamente, para que o meu avô não se zangasse comigo, dizia apenas:
- Apanha o pão. É pãozinho do Senhor. Dá-lhe um beijinho e já o podes comer...
E eu acreditava. Apanhava o pão, beijava-o e comia-o, com todo o respeito, como se estivesse na igreja a comungar. Até parecia que me sabia melhor.
Curiosamente, o meu avô nunca se zangou comigo. Ele, que tinha um zangar tão fácil com toda a gente...
Na nossa casa, em Fafe, a minha mãe insistia nestes ensinamentos. Dizia-nos, a mim e aos meus irmãos, que o chão não suja, que o beijo purifica, que não se pode estragar pão, é pecado, porque há muita gente com fome, pessoas mais pobres do que nós. E se o pão ficava intragável e tinha mesmo de ir para a estrumeira, só depois de um beijinho de adeus, porque, exactamente, era pãozinho do Senhor.
Em minha casa também não se estraga pão, não se estraga nada. E, se se estraga, estragado fico eu.
Não sei de onde veio esta ideia antiga, se estará mesmo ligada à fé, à religiosidade popular, ao pão que é o corpo de Cristo. Acredito mais que era sobretudo a pobreza a defender-se, consciente da importância do pão na mesa, o pão que, ontem como hoje, era a única fartura, a última fronteira para a fome. O respeito pelo pão era o respeito pela fome. E ninguém respeita tanto a fome como os pobres.

Por causa do pão, fui muitas vezes à merda. E gostava. Ir à merda, naquele tempo e naquelas circunstâncias, era satisfatoriamente adequado. E necessário. A Bó mandava-me com uma telha à procura de poios de bosta fresca, que depois servia para vedar a tampa do forno onde se cozia a broa. Eu passava sempre uma temporada das férias grandes na aldeia e ir à merda era o meu modesto contributo para que tivéssemos pão à mesa. Isso e, às vezes, ir à fonte buscar água, coisa de "menina", só para se rirem de mim.
Para a aldeia ia-se na carreira da "Empresa", que saía de uma grande garagem à beira da Igreja Matriz, mesmo em frente à Rua do Assento. Nessa enorme garagem também se construíram carros para a Marcha Luminosa das Festas da Vila, "um espectáculo de luz, cor e som", mas isso é assunto que não vem ao caso. Era desengonçada e cinzenta a carreira. Cheirava mal, espevitava enjoos. Ia-se com o nariz enfiado em meio biju para não gomitar e mesmo assim gomitava-se - falo por mim. Ia-se na carreira até Várzea Cova, e ali terminava a estrada, acreditai no que eu digo: o mundo acabava mesmo em Fafe, basta pensar também na antiga linha do comboio. Dali, depois do cu tremido, violentamente tremido, já só faltavam mais cerca de cinco quilómetros a pé, em monte de sobe e desce, fizesse sol ou diluviasse, certa vez até passando a vau o ribeiro que a força de um inverno estoura-vergas desencaminhara e transformara em rio violador de margens. Chegávamos então à aldeia propriamente dita, como nunca na vida lhe chamámos. Era Basto. Freguesia de Passos, concelho de Cabeceiras de Basto, mas simplesmente Basto, para nós.

A minha avó Emília, que era pequerricha e bondosa com um anjo, e era um anjo, fazia uma broa escura, muito saborosa, que se mantinha fresca durante dias e dias. Naquela maré, o pão era o principal alimento dos portugueses. O pão e o vinho, como fazia questão de frisar, de forma propositadamente ambígua, a propaganda salazarista. Por ordem expressa de Salazar, beber vinho, naquela altura, era "dar de comer a um milhão de portugueses", e o patriótico e honrado povo de Passos podia não saber o que era bife nem tinha electricidade nem água nem estradas nem sequer caminhos decentes, sem pedras, mas sempre deu o litro para que o resto do País não passasse fome. E o resto do país já então era Lisboa.
Beber era um honesto modo de vida. Podia faltar tudo na casa da Bó de Basto, e às vezes faltava muito, mas havia sempre broa com fartura e umas imensas malgas de "amaricano" às quais eu gostava de mandar umas pescoçadas até dizer ahhhhhh!...
Em Basto, as visitas eram recebidas com malgas de vinho e aparas de bacalhau salgado e falava-se como se fôssemos galegos, e a querida Tia Margarida felizmente ainda fala. E sempre broa, sem outros mimos. O almoço era o "jentar", e o jantar era a ceia. E bebiam-se, a acompanhar, umas valentes pingoletas. Também se bebia durante a merenda, que era aquela meia dúzia de horas de sol que vai desde o "jentar" até à ceia. Bebia-se, portanto, apenas às refeições - quer-se dizer, o dia inteiro. E já agora: o almoço, assim dito, era o café da manhã. E a manhã era madrugada, com música de galos tenores e carros de bois vagarentos e deslubrificados, rabugentos. O café era cevada, feita ao borralho, numa velha chocolateira de barro e tampa tamborileira e dançarina. Que saudades tenho dessa vida e dessa idade, dessas ideias que graças a Deus me ficaram, ainda no outro dia o "dixe" outra vez ao meu tio Al Pacino, o meu querido tio "Jé".

Enciclopedista fortuita e inocente, involuntária, alma fora da geografia e do tempo, a querida Bó de Basto alimentava-nos também o espírito. Lendas, contava-as que era uma categoria. Eram lendas mansas, de embalar, metiam mouras encantadas, príncipes, penedos. Penedos de morar, lembro-me bem, e eu queria um. Eram contadas à lareira, depois da ceia, com o vermelho do fogo a bailar-nos nas caras espectrais, eu de olhos arregalados e boca aberta, uma e outra vez, como se fosse sempre a primeira. Os efeitos especiais das histórias da avó - esperta, santa sem diploma, realmente anjo sem asas à vista - foram muitos anos mais tarde copiados pelo cinema americano. Até aquele famoso jogo de sombras manipulado pela irrequieta chama da candeia, coisa extraordinária e assustadora - era das histórias da minha avó, foi aqui que Hitchcock o veio buscar. E o vinhinho aquecido ao borralho com uma maçã assada lá dentro, também, mas isso parece que os filmes não aproveitaram.
Na manhã seguinte, pela fresca, íamos à lenha ao monte. Eu e e minha avó, maravilhosa guardadora de lendas e tudo. E a Bó mostrava-me o penedo, o exacto penedo da moura encantada, a frincha de entrada, não havia dúvidas. Ainda por cima, até as lendas da minha avó eram verdade. Como poderia mentir-se acerca do pão?

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Ele tinha um ouvido gourmet

Finura
Era de uma educação requintada. Dizia: "Tem progenitor que é invisual". Dizia: "Em terra de invisuais, quem possui um olho é monarca". Dizia: "O pior invisual é aquele que se recusa a vislumbrar". Dizia: "A palavras loucas, pavilhões auriculares insonoros".

Ele tinha um ouvido gourmet. Um ouvido conhecedor, apreciador, sofisticado, apurado, selectivo, esquisito, delicado, requintado. Requinta, por falar nisso, é pequeno clarinete ou flauta transversal, como a galega, ou viola braguesa de reduzida dimensão, mas desculpai-me o devaneio. Fixemo-nos no fundamental: ele tinha um ouvido gourmet. Um ouvido famoso, aclamado, respeitado, procurado, absoluto, definitivo. O esquerdo. Do direito, era magnificamente surdo.

Ia-se a São Bentinho

Para cima e para baixo
Para baixo, todos os Santos ajudam. Para cima, costumam ser os Antunes.

Ir a São Bentinho, era assim que se dizia em Fafe. E queria dizer: ir a pé ao Santuário de São Bento da Porta Aberta, considerado o segundo maior santuário português. Ia-se geralmente em promessa, em pequenos ou grandes grupos, numa peregrinação de uma noite, por estrada, carreiros, atalhos e montes. Havia sempre um guia. O "xerpa" do grupo do Santo Velho, que acolhia alegremente povo doutros lados - da Fábrica do Ferro, do Retiro, da Ponte do Ranha, da Cumieira, da Pegadinha ou da Granja, de onde calhasse, sem discriminação -, era o imprescindível Agostinho Cachada, que conhecia o melhor caminho, ele e só ele, e levava pistola. Saía-se de Fafe ao fim da tarde e chegava-se lá acima, ao São Bentinho, ao amanhecer do dia seguinte. Acertavam-se contas, velas, esmolas, orações, às vezes de joelhos à roda da igreja, e tornava-se a casa, naquele tempo, de camioneta de carreira, com o corpo feito num oito. Em Fafe havia e creio que ainda há, folclore à parte, uma grande e genuína devoção a São Bento da Porta Aberta. Havia quem lá fosse uma vez por ano, todos os anos. Havia quem lá fosse várias vezes por ano, todos os anos. Consoante as necessidades, os percalços da vida, os remedeios e o tamanho da gratidão de cada qual. E havia quem lá fosse apenas por turismo ou simplesmente por namoro, que decerto o santo também não levaria a mal...

A minha avó de Basto tinha uma sociedade infalível com São Bento da Porta Aberta. Em questões de pele e outras coisas ruins, os dois juntos eram uma limpeza. E há acontecimentos espantosos que são fáceis de explicar. Por exemplo. Ali pelos meus vinte anos, eu tinha uma plantação de cravos no cotovelo do braço direito, que até nem me incomodava grande coisa, mas uma vez a minha avó viu, pediu-me licença e disse que ia falar com São Bentinho sobre o assunto. Quando queria falar com São Bentinho, a minha querida avó Emília ia pessoalmente, a pé, pequerricha e já velhinha, desde Passos, Cabeceiras de Basto, até Rio Caldo, em Terras de Bouro, onde o santo morava. Os cravos desapareceram.
Anos depois, o meu filho era criança e apareceu-lhe um cravo numa pálpebra. Uma vez a minha avó viu, pediu-me licença e disse que ia falar com São Bentinho sobre o assunto. Quando queria falar com São Bentinho, a minha doce avó Emília ia pessoalmente, a pé, ainda mais pequerricha e ainda mais velhinha, desde Passos, Cabeceiras de Basto, até Rio Caldo, em Terras de Bouro, onde o santo morava. O cravo desapareceu.
A minha avó era uma santa. Se eu puxasse pela cabeça, tenho a certeza de que me lembraria de um terceiro e definitivo milagre da minha avó em promessa com o "glorioso" São Bentinho, mas não quero arranjar problemas ao Vaticano.
O Vaticano tem muito mais que fazer do que ocupar-se com a comezinha história da Bó de Basto, que, cada vez mais velhinha e e cada vez mais pequerricha, continuava a ir a pé entender-se pessoalmente com São Bentinho sempre que era preciso - até morrer. O Vaticano tem coisas muito mais importantes a tratar, e mesmo assim não trata, que faria se tivesse de tomar conta do assunto da minha avó...

domingo, 20 de setembro de 2026

As beatas e os anões

Não há milagres
Abençoados os que não acreditam em milagres. Que sensação maravilhosa, que deslumbramento devem experimentar quando eles acontecem!

Li no jornal, com estupefacção e náusea, que "atirar beatas para o chão passa a custar entre 25 e 250 euros de multa". Eu não sabia disto, palavra de honra: mas quem é que anda para aí a atirar beatas ao chão? Desde a história do lançamento de anões que eu não via tamanha estupidez. Por amor de Deus, deixai as mulherzinhas em paz! A religião é coisa de cada um...

O nosso António-Pedro

Às moscas
As salas de cinema estão às moscas - dizem. Realmente a limpeza já não é o que era.

Uma vez, há uns bons catorze anos, manifestei a minha mais simplória estranheza derivada ao facto de o Município de Fafe, a minha terra, ter perfilhado o cineasta portuense Manoel de Oliveira (1908-2015) e até lhe ter dado de prenda uma bonita sala de cinema, isto é, ter dado o nome de Manoel de Oliveira à Sala Manoel de Oliveira do Teatro-Cinema de Fafe, ainda o homem era vivo. Não percebi de onde é que se desencravou a extraordinária ideia, a eventual razão da coisa, que relação haveria ali, e até escrevi na altura: "ainda me hei-de rir quando (e se) conseguir perceber porquê".
Mas ainda não percebi. Resultado: estou há catorze anos sem me rir, é preciso ter azar, e tanta seriedade já me faz diferença, começo a ficar com cara de pau, uma cara talvez como a do nosso bom Zé Carlos Estantio, mas ao contrário.
Por outro lado. O cineasta António-Pedro Vasconcelos (1939-2024) nasceu em Leiria e viveu geralmente em Lisboa, mas vinha amiúde e em miúdo a Fafe, "onde tinha e tem família", segundo li e ouvi na FafeTV. Em 2015, homenageado na quinta edição do Fafe Film Fest, o realizador de "O Lugar do Morto", o cineasta que acreditava no grande público e queria que as pessoas vissem cinema, o autor de muitos êxitos de bilheteira e de algumas obras-primas, fez questão de dizer esta coisa linda: "Nasci, acidentalmente, em Leiria, mas considero-me um homem do Norte e, em particular, de Fafe, terra onde vivi parte da minha infância".
Perante tamanho confessamento de fafismo, que eu, verdade seja dita, por acaso até desconhecia, a benemerente Câmara de Fafe, se deu ao outro uma sala, ao outro que não nos pertence, que não nos é nada, a este, ao António-Pedro, que se reclamava nosso, assim na boa, e por isso é efectivamente nosso, com todo o direito, tem de dar pelo menos um salão. Isso, um salão, nem que seja ao ar livre. Até estou a ver, com luzinhas e estrelinhas a acender e a apagar, no meio do Largo, música de John Williams, ou do Rodrigo Leão, tanto me faz, não sou esquisito, passadeira vermelha e enormes holofotes à Hollywood apontando ao céu, como se chamassem pelo Batman ou pelo Custódio Ardegão: "Salão António-Pedro Vasconcelos"...
Ou então que mandem o António-Pedro para a bicha, como fizeram com o escritor também nosso João Ubaldo Ribeiro.

E, já agora, com esta termino: a sala de cinema do Teatro-Cinema de Fafe devia chamar-se, por exemplo, Sala Dona Laura Summavielle. Mas, para saber disto, se calhar era preciso ser-se de Fafe desde pequenino...

sábado, 19 de setembro de 2026

Temeroso, temerário ou timorato?

Caixa do Evaristo
Quando abriram a caixa de Pandora, saiu de lá de dentro o Evaristo. Pandora ia morrendo de vergonha...

Não falta quem, infelizmente, chegue ao sítio da palavra e não saiba qual usar com precisão - temeroso, temerário ou timorato -, confundindo intenções e significados. E, no entanto, nada mais simples. Temeroso é cobarde, medroso, medricas, tímido, fraco, cagarolas, caguinchas. Temerário é, pelo contrário, arrojado, atrevido, audacioso, destemido, bravo, aventureiro, imprudente. E Ti Morato é alentejano, obviamente, como Ti Odoro, Ti Noco, Ti Móteo, Ti Betana, Ti Ófilo, Ti Jolo, Ti Ara, Ti Pógrafo, Ti Mor, Ti Juca, Ti Midez, Ti Quetaque, Ti Quetoque, Ti Búrcio e Ti Biotársica. Estais a ver que fácil?

Segurança do computador é comigo

Os cientistas, quem os inventou?
Quem é que inventou os cientistas? Esta parece-me fácil. Os cientistas só podem ter sido inventados por cientistas. Evidentemente. Mas quem é que inventou os cientistas? 

Eu levo muito a sério a segurança do computador. O meu, comprei-o há mais de 30 anos, está preso por quatro cabos de aço inoxidável 6x19, um de cada lado, profundamente cravados nas paredes de pedra maciça, e fixado à secretária com 32 parafusos classe 12.9 que me custaram os olhos da cara. Meti-lhe também dois bons calços de madeira, daqueles que estacam camiões, mais um tijolo à frente e outro atrás. De cimento, os tijolos, dentro de robustas almofadas de penas de ganso. Equipei-o com as apps universalmente consideradas essenciais ao fim em vista, isto é, capacete, botas de biqueira de aço, luvas anticorte, óculos de protecção, máscara cirúrgica, corta-unhas e colete reflector. E, pelo sim e pelo não, retirei-lhe a bateria e nunca o liguei à corrente eléctrica. Até à data, não tenho razão de queixa.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Era apenas um copo de água

O leitmotiv
O "leitmotiv", por exemplo. Tenho dúvidas. É gordo, magro, meio-gordo, achocolatado, integral, dourado, desnatado, em pó, condensado, vegetal, enriquecido, de soja, de burra, de barata, de camelo, de tigre, de aveia, de amêndoa, de coco, desmaquilhante, adelgaçante, reafirmante, derramado, leite-creme, leite-de-cal, leite-de-galinha, leite-de-pato ou de colónia? E quanto a calorias?

Entrou, sentou-se e pediu um copo de água. Trouxeram-lhe dois croquetes, dois rissóis de camarão, dois rissóis de carne, dois bolinhos de bacalhau, uma empada de vitela, um pratinho de salada russa, um pratinho de salada de feijão fradinho, um pratinho de polvo em molho-verde, um pratinho de moelas de coelho, um pratinho de massa à lavrador, um pires de tremoços, cem gramas de camarão, duas navalheiras, quatro mexilhões em vinagreta, três asas de frango frito, meia cabeça de leitão, quatro fatias de lombo de porco assado, meia dose de rojões com arroz de sarrabulho, uma canja, uma fatia de bolo, meia dúzia de amendoins, um par de noivos, uma intoxicação alimentar, um café e um bagaço. "Ó faxavor, eu só pedi um copo de água - copo de água", disse ele, atrapalhado. "Ai desculpe, eu percebi um copo-d'água - copo-d'água", assumiu o diligente funcionário, por certo doutorado em semântica, arrumando imediatamente o hífen e o apóstrofe e dirigindo-se à torneira.

Uma mão lava a outra

Outra limpeza
Água vai!, dizia-se antigamente. Mas vinho ainda ia melhor...

Uma mão lava a outra. E as duas lavam os pés. E lavam as pernas e os braços e os sovacos e a barriga e as costas e as partes e o pescoço e as orelhas e a cara e o cabelo ou a careca. É. Uma mão lava a outra.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Era uma música muito estranha

Apontamento musical
Era um pequeno apontamento musical. Estava escrito num "post-it". 

Uma vez, há muitos séculos, levaram-me a uma espécie de concerto no auditório do Conservatório de Música de Braga. Eu estava no seminário, teria no máximo os meus dezasseis anos e portanto que remédio. Fomos talvez para compor a sala, não faço ideia. E aquilo foi muito chato, não é para me gabar. Pela primeira vez na vida ouvi Béla Bartók, por interposta pessoa, e Cândido Lima, por ele próprio, creio que também com direito a comentários, ainda por cima. Saí de lá muito zangado com a padralhada e convencidíssimo de que o que acabara de ouvir não era música, até porque já tinha aprendido nas aulas que "música é um conjunto de sons agradáveis aos ouvidos", e na verdade eu vim cá para fora com as orelhas todas lixadas.
Que se segue? Descobri recentemente que existe o Dia Internacional da Música Estranha, festejado a 24 de Agosto, e lembrei-me deste lamentável episódio, que me marcou como ferro em brasa até aos dias de hoje. E então, quer-se dizer, talvez aquilo fosse isso: música estranha. Mas eu não sabia. Devo acrescentar, em minha defesa, que entretanto mudei de opinião a respeito daquela, digamos assim, especialidade musical. Mudei de opinião, mas apenas um bocadinho e, devo confessar, pelo devido respeito à carreira, obra e prestígio internacional do maestro Cândido Lima, que nasceu em Viana do Castelo, em 1939. Fundador do Grupo Música Nova, autor de "A Sétima Voz", "Madrigal Blue" e "Cartas", ele foi o primeiro compositor português a utilizar em simultâneo, entre outros meios, computador, electroacústica e orquestra.

E cá está. Cinquenta anos depois daquela experiência traumática, quase tolerei, no outro dia, a música de Martin Matalon sobreposta ao filme "Metropolis", de Fritz Lang, na Casa da Música, trabalho "para 16 instrumentistas e eletrónica" executado ao vivo pelo Remix Ensemble, sob a direcção de Bastien Stil. Quase tolerei, digo bem. O filme, mudo, centenário, interessou-me muito, nunca o tinha visto assim praticamente integral, reconstruído, é realmente uma obra-prima, isso nem se discute, mas a banda sonora, esgalhada ali mesmo à minha frente, incomodou-me sobremaneira. O som estava nos limites do insuportavelmente alto, parece que agora é assim no cinema, a música era irritante, estridente, agreste, agressiva, despropositada, um suplício para o meu ouvido sensível e requintado, um ouvido gourmet, não falta quem mo inveje. Mas ali me mantive, alapado, sofredor e inusitadamente culto, mesmo depois do intervalo, até ao fim, embora já soubesse que o artista ia ficar com a rapariga e que os trabalhadores estragam tudo quando levantam a cabeça e fazem revoluções, felizmente temos os ricos, os de cima, que nos perdoam e safam sempre. Para além disso, precisava de apanhar o metro e já era de noite. Sentada ao meu lado, a Mi, que nem é destas coisas, portou-se também como uma heroína.

A reinvenção das galochas

Quem vê caras
Quem vê caras também vê lux. E nova gente, vip, ana, maria, mariana e cristina, telenovelas, tv7dias, tv mais, tv guia e ¡hola, "por supuesto".

As mulheres do campo, as lavradeiras, sempre andaram de galochas. Era assim em Fafe, era assim o mundo. Antigamente, para os demais, uma mulher de galochas era de rir, era parola. Agora andar de galochas é moda, as mulheres vão de galochas para o escritório e para o café. Fico à espera do avental. Ainda hei-de ver as madamas a tomarem chá de mindinho esticado e com um molho de couves à cabeça.

Os Sexy Rannas

Conversing
- Estás com pressing?
- Não. Por acaso até tenho timing.

Outubro de 2015. Morreu Jim Diamond, o escocês que cantou I should have known better. A notícia, apresentada desta maneira, apanha-me completamente desprevenido. Não faço ideia de quem é o falecido, e o nome da cantiga, assim em estrangeiro, também não me diz grande coisa, porque sofro de disfunção relacionada com títulos e letras de canções, sejam as canções e os títulos e as letras em que língua forem. Só conheço as melodias, e apenas de vista. A minha ignorância é, realmente, formidável.
Mas quem procura sempre alcança, como dizia o sábio ginecologista polinésio. Procurei, portanto, e cheguei lá. Ao Jim Diamond - que continua a não me dizer nada, mas agora por razão de força maior, isto é, calou-se para sempre - e à cantiga em questão. À melodia. E aqui, sim, veio-me à memória um extraordinário grupo de rapazes que fizeram época em Fafe na década de oitenta do século passado e que, se não me engano, criaram no Café Chinês uma interessantíssima versão aportuguesada do tal sucesso de Diamond, versão essa injustamente ignorada pela Billboard. Paródia e paronímia, com todas as sílabas a baterem certo com o inglês original, seria, se bem me lembro, algo parecido com o que se segue a respeito do meu primo Zé, que por acaso também era da corda: "O Bomba não bebe. Não bebe, não bebe, não bebe, não bebe pouco. O Bomba não bebe. Não bebe, não bebe, não bebe pelo nariz"...
Creio que também não erro se disser que aquela rapaziada fez a mesma habilidade com a canção "Somebody", de Bryan Adams, mas a propósito do assassínio de Issam Sartawi, representante da OLP (Organização para a Libertação da Palestina) no XVI Congresso da Internacional Socialista, em Montechoro, Algarve, em 1983.
Lembrei-me dessa malta toda e deu-me vontade de rir, ri-me como um perdido e soube-me bem: eles eram - não sei se vou dizer correctamente - os Sexy Rannas, assim autoproclamados, eram a geração e o bando do meu irmão mais novo, o Orlando, meninos para o preciso, transgressores mansos, gente do melhor que Fafe tinha, e, se andarem por aí, o que lhes estimo é o que lhes desejo, a todos em geral e a cada um em particular, mais às respectivas e excelentíssimas famílias, se é que chegaram a tanto.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Até os mortos se salvaram

Os fiéis defuntos
A vantagem dos fiéis defuntos, com o devido respeito, é que não se armam em mortos-vivos. E isso, hoje em dia, já é um descanso.

Durante uma semana, um alguidar contendo um enorme galo sem cabeça e outras miudezas feiticeiras esteve em exposição no passeio junto ao portão de um dos cemitérios da cidade do Porto, zona chique. O bruxedo apareceu ali da noite para o dia, toda a gente se queixou, toda a gente se desviou e ninguém teve coragem de mexer na coisa, de a mandar para o lixo. Nem o padre da igreja ao lado nem os coveiros propriamente ditos. Trabalhar com almas e mortos está bem, desafiar maus-olhados é que não, faxavor de desculpar.
Passou-se um, passaram-se dois, três, quatro, cinco dias, e o galo ali, possivelmente já com o serviço feito e portanto sem mais poderes para gastar, mas nem assim alguém ousou sequer tocar-lhe. O pessoal da Junta de Freguesia, executivo e funcionários, reuniu extraordinariamente e foi unânime, cada um passou a encomenda para o que vinha atrás, ou abaixo, "Eu não, bruxedos comigo não", até que a vizinhança viva reclamou que já não aguentava com semelhante fedor, ciciando padres-nossos e ave-marias, de terço na mão e muitos sinais da cruz mas feitos ao contrário, não fosse o diabo tecê-las...
Ora, o fedor, como toda a gente sabe, é problemática que sobe a instância superior, à alçada camarária. Em conformidade, foram requisitados os serviços de limpeza da cidade, que chegaram ao local do sinistro tarde e a más horas e resolveram o assunto em três penadas. Isto é: não fizeram nada. "Eu também não, bruxedos comigo não", disseram os almeidas, que no Brasil são garis.
Perante o impasse, alguém tirou a mola de roupa do nariz e alvitrou que o Governo mobilizasse os Comandos da Amadora ou enviasse para o terreno o Grupo de Intervenção de Operações Especiais da GNR, outro pediu a presença da Brigada de Minas e Armadilhas da PSP, o espertalhão do costume recomendou o Putin ou o Netanyahu, se era para rebentar com aquilo tudo, um dos dois chegava e sobrava, e a Ermelindinha, catequista e sacristã derivado à escassez de mão-de-obra qualificada, ainda sugeriu que se mandasse chamar o Bruxo de Fafe para fazer a competente marcha-atrás à coisa, tornando seguro o seu manuseamento. Mas a Junta não dispunha de verba orçamentada para pagar a especialistas.
Foi quando um dos da Câmara se lembrou que o Canil Municipal tem um camião com um gancho hidráulico muito jeitoso, uma espécie de braço mandado que podia solucionar mecanicamente aquele problema bicudo, com os homens ao largo e, portanto, sem risco de contraírem agoiros, porque os agoiros, como é do conhecimento geral, têm um certo e determinado raio de acção, potente mas limitado. E assim foi. Ao sexto dia, o todo-poderoso veículo veio e levou a coisa, para sossego enfim de todos os moradores da zona, vivos e mortos, amém.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Diálogos fafenses 14

A tensão, muita a tensão!
- Temos tomado a nossa medicação? - pergunta-me ela.
- Temos, temos, senhora doutora - respondo eu, que sou uma pessoa educada e um exemplar tomador de medicações.
- Temos feito o nosso exerciciozinho diário?
- Todos os dias, senhora doutora.
- Temos moderado a nossa alimentação?
- Que remédio, senhora doutora. O dinheiro já só dá para cascas de batatas.
- Ora ainda bem. Vamos lá ver como que é temos a nossa tensão - diz-me ela.
- Vamos a isso, senhora doutora, nem é tarde nem é cedo - digo eu, tirando o casaco e arregaçando a manga da camisa.
Vimos a tensão.
- Temo-la um bocadinho alta - informa-me ela, sem esconder a preocupação.
- Um bocadinho pouco ou um bocadinho muito, senhora doutora? - pergunto eu, também já um bocadinho muito à rasca.
- Bastante, bastante. Vamos meter este comprimidozinho debaixo da língua e vamos deitar um bocadinho ali - diz-me ela.
- Vamos lá então, senhora doutora. A senhora doutora primeiro, que eu gosto de ficar por cima - digo eu, que, repito, sou uma pessoa educada e exemplar tomador de medicações.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

O homem que se esqueceu de dizer virilhas

Se um elefante...
- E tive assim tipo uma reacção pélvica, passei-me...
- Reacção quê?
- Pélvica. Tipo à flor da pele, tás a ver? Pélvica.
- Queres dizer epidérmica?
- Não, essa cena é dos elefantes. Pélvica. Diz-se pélvica. Dããããã!...

O homem que se esqueceu de dizer virilhas sou eu, passe a imodéstia, e desculpai-me o spoiler descarado. Por razões que não vêm agora ao caso, mas eram boas, quer-se dizer, eu cuidava de alguém, houve uma larga temporada nos últimos anos em que precisei de usar assiduamente a palavra virilhas. Ora acontece que, quando a queria dizer, ela - a palavra, essa mesma, virilhas - não havia maneira de me sair, geralmente varria-se-me da memória, e nem sequer posso alegar que a tinha na ponta da língua, porque isso também não é coisa que se diga. Nessas delicadas ocasiões, vinham-me à cabeça a palavra narinas, sempre gostava de saber porquê, a palavra testículos, evidentemente, e a palavra ínguas, sobretudo a palavra ínguas, que emergia do meu antigamente fafense e parecia-me que andava por lá perto. Mas virilhas é que nada. E eu ficava envergonhadíssimo.
Que se segue: contei aos meus três amigos a aflição deste estúpido bloqueio, e um deles diz-me, com grande lata: - É normal na tua idade, pá. Sou mais novo e tenho às vezes o mesmo problema, mas com a palavra pevides. Não é grave.
Não é grave, vírgula - isto já sou eu outra vez. Porque não se pode comparar virilhas com pevides. E pevides de quê? Pevides secas ou frescas? Nacionais ou importadas? Para aperitivo ou sementeira? Por outro lado, quando eu precisava da palavra virilhas era geralmente para a dizer a senhoras, enfermeiras ou auxiliares. E, na angustiante ausência da palavra, acabava por acudir-me das mãos, do gesto e do sítio para conseguir explicar-me. Estais a ver onde me agarrava? E achais isso bonito?...

domingo, 13 de setembro de 2026

A vida era uma fotonovela

Pimenta na língua 
Cuidado com a comida picante! Isto é, comida para maiores de 18 anos, servida apenas em restaurantes com bolinha vermelha, de preferência à ceia, após a meia-noite.

Recuemos. À década de oitenta do século passado e ao cimo da mui portuense Rua de 31 de Janeiro, onde havia uma casa de jogos de máquinas de flippers e afins que tinha uma cave com um altifalante fanhoso que, de uns quantos em quantos minutos, gritava cá para fora a curiosa frase "Mudança de modelo". Lá em baixo parece que havia umas raparigas muito jeitosas e nuas a fazerem não sei o quê e umas cabinas individuais e sebentas com ranhura para a clientela meter a moeda como nas velhas jukeboxes de feira e espreitar por um vidro e fazer também não sei o quê. Sei muito pouco do assunto porque, palavra de honra, nunca lá pus os pés. Ou se calhar pus, lembro-me vagamente da situação, não juraria em tribunal, mas isso também não vem ao caso.

Informei-me. "Mudança de modelo", logo a seguir ao ding-dong de uma campainha de aeroporto, queria dizer, por exemplo, que a morena mamuda passava a pasta à loura pernalta e ia para os bastidores ler a Corín Tellado, e assim sucessivamente e vice-versa, mas decerto queria dizer também que os clientes tinham de fechar a braguilha e limpar as mãos o mais rapidamente possível e dar a vez a outros, que eram mais que as mães, sobretudo no intervalo de almoço. O speaker de serviço dizia "Mudaaaança de modeloooo" com um garbo só comparável ao do mestre-de-cerimónias do Circo Merito quando anunciava na Feira Velha de Fafe a sensacional "Maribelaaaa no seu rrrrrola-rolaaaa". Eu gostava: "Mudaaaança de modeloooo"! Parava em frente para ouvir, uma e outra vez, até à hora de voltar ao trabalho, um pouco mais à frente, no velho Primeiro de Janeiro da Rua de Santa Catarina. E ria-me. Quarenta anos depois, leio e ouço a moderna lengalenga da "mudança de paradigma". "Mudança de paradigma" acima, "mudança de paradigma" abaixo. "Mudança de paradigma" para aqui, "mudança de paradigma" para ali. Para quê? Para digma! E também me faz rir, confesso, mas não me arrebita. Falta-lhe sustância, ao paradigma...

Já agora, sobre Corín Tellado, espanhola que se chamava Maria del Socorro Tellado Lopez e morreu no dia 11 de Abril de 2009, aos 82 anos. Escritora, autora mais lida na língua de Cervantes logo atrás do próprio, publicou mais de quatro mil romances cor-de-rosa ao longo de uma carreira de quase 56 anos, vendendo acima de 400 milhões de exemplares, o que lhe valeu a entrada no Guinness em 1994. Em Portugal, e pelo menos em Fafe, antes do 25 de Abril, a senhora Corín Tellado ficou famosa pela melosíssima revista de fotonovelas a que emprestava o nome. As revistas eram disputadas, partilhadas, emprestadas, trocadas, rompiam-se de mão em mão, iam de casa em casa como o oratório da Sagrada Família mas com outros interesses. A televisão era a RTP e o mais parecido com uma telenovela era o TV Rural do engenheiro Sousa Veloso (1926-2014), que eu conheci muito bem. Ambos frequentávamos o lendário café Peludo. Ele dentro do televisor pendurado logo à entrada, do lado esquerdo, por cima dos bolos-reis previamente encomendados pelos clientes, com peso certo, e comprados em Guimarães para o Natal, e eu sentado no canto contrário, atento à TV e aos bolos, que também só conhecia de vista, ouvindo uma e desejando os outros, nem que fosse só um bocadinho, uma migalha, uma tona. No final, o Senhor Engenheiro dizia, num largo sorriso, já em cima da música toda folclórica: "Despeço-me com amizade, até ao próximo programa". E era para mim. Noutras ondas, o "Simplesmente Maria", folhetim radiofónico, chegou à Renascença apenas em Março de 1973, e o país desfez-se em lágrimas, como se houvera inundações. Já disse: era assim em Portugal e pelo menos em Fafe. A parte de Fafe do rés-do-chão, da esfregona e da costura. A parte de Fafe de que sou. Era triste mas era isto: a vida era uma fotonovela.
E depois chegou a Gina.

sábado, 12 de setembro de 2026

Os fujões

O fim do mundo
Como diziam os antigos, e os antigos é que sabem: "Aos dois mil chegarás, dos dois mil não passarás". E que se segue? Há 26 anos que o mundo acabou, e eu, francamente, não me parece que isto tenha melhorado...

Os fujões fugiam. E até mais do que uma vez. Fugiam sempre que podiam. Por isso é que eram fujões, frequentemente apontados a dedo. Fugiam do seminário, que é o que eu sei, ou de colégios internos, rígidos, eram alunos do primeiro ano, crianças de dez ou onze anos em choque de desmame, longe de casa, cheios de saudades, inadaptados à severidade das regras, à disciplina apertada, musculada, ao silêncio, aos horários, à solidão, à exigência escolar, à comida, à cama, ao gozo e abuso dos mais velhos ou mais fortes, à mão lampeira e pesada de professores, prefeitos ou outros alegados guardiões ou superiores.
Aproveitavam geralmente a confusão do recreio para fugir, escalando o portão escondido atrás da esquina, sem vigilância, e até era um portão que metia respeito. Chegavam à rua e não sabiam o que fazer à vida. Não iam longe. Choravam baba e ranho, perdidos, atarantados, assustados, culpados, como se levassem ao peito um enorme letreiro a dizer "Fujão", os vizinhos já sabiam o que ali se passava, tantas vezes que viram, e corriam logo a tocar à sineta da portaria, a avisar quem de direito, geralmente não chegava a ser preciso organizar grandes operações de busca.
Imaginai: um puto de São Lourenço da Montaria, Viana do Castelo, entregue a si próprio em plena Rua de São Domingos, esconsa mas quase no centro da cidade de Braga, sem dinheiro nem mundo, e sem sentido de orientação, os pequenos olhos turvos, pisqueiros, rasos de água, como é que ele havia de saber o caminho para casa, para a serra?
Depois de apanhado, o fujão era exibido no salão de estudo e castigado em público para servir de exemplo. Um bom fujão, é preciso que se diga, normalmente insistia no dia seguinte, nos dias seguintes. E as cenas tristes repetiam-se, cada vez piores. Após a segunda ou terceira tentativa de fuga e consequentes sovas, os pais do fujão eram também chamados à pedra. Vinham de camioneta, fazia-lhes diferença. Chegavam envergonhados, num desgosto que só visto, e ouviam das que não queriam. Que resolvessem de vez o assunto, à pancada era o mais indicado! Às vezes, porém, os pais condoíam-se da evidente infelicidade do filho, daquela dor de alma, principalmente a mãe, pediam muitas desculpas aos senhores padres, tão bons educadores, pagavam "a conta" com língua de palmo e levavam a criança enfim para casa. Era mais uma "vocação" que se perdia.

Isto os fujões. Claro que também havia os mijões, que por acaso, não raras vezes, coincidiam, isto é, acumulavam. Os mijões eram mijões porque faziam chichi na cama, e também havia normas quanto a eles. Eram vários e cheiravam bastante. À noite, no enorme dormitório, quando, após as orações, as luzes se apagavam de vez e os fujões e candidatos a fujões se entregavam finalmente à liberdade, na paz dos sonhos, os meninos que faziam chichi na cama davam um nó à toalha na cabeceira de ferro e esse era o sinal para o senhor guarda-nocturno saber que ali estava mais um que necessitava de ser chamado, nas rondas habituais. O senhor guarda-nocturno nascera realmente para aquilo ou então alguém o ensinou muito bem, era meticuloso e eficiente, chegava-se à beira da cama marcada, abanava o desgraçado aos safanões e rosnava, palavra de honra: - Ó mijão, acorda!...

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O amoitado

Insondáveis são
Quando tirou a última pedra do caminho, enterrou-se em lama até aos tornozelos.

Amoitar quer dizer meter ou meter-se em moita, ocultar, esconder ou esconder-se. Isto é o geral, o que vem nos livros. Mas em Fafe, naquele tempo, amoitar era faltar à escola, fazer gazeta, gazetear, gazear, dar o tiro, matar as aulas, baldar-se. O rapazinho que saía de casa a tempo e horas para ir para a escola mas não chegava ao destino, desaparecendo algures a meio do caminho por vontade própria, era o amoitado. Isso, o amoitado. Talvez por medo ao professor, se calhar por causa de algum colega mais rufia ou simplesmente por preguiça ou toléria momentânea ou premeditada, o rapazinho escondia-se, não comparecia à lição. Nas aldeias e pequenas vilas do Minho antigo, rural, profundo, não havia transportes, cinemas, cafés, parques, jardins ou shoppings. Mas havia montes, bouças e campos. Havia caminhos de cabras, havia mato, havia moitas. E era aí que o rapazinho se enfiava, atrás dos arbustos, amoitava-se de tudo e de todos, calado como um rato, quieto como um retrato, deixando passar o tempo à sua livre vontade. Esta é a verdadeira origem da coisa, foi assim que começou a lenda. Dizia-se, por todo o lado, a esse respeito: - O estepor amoitou-se à escola!...
No fim do dia, à hora certa, o rapazinho voltava a casa como se nada fosse, apanhava a coça da ordem, de cinto, tivesse ele ido à escola ou não, portanto não lhe fazia diferença, e no dia seguinte, o tolo, se caía na asneira de apresentar-se arrependido ao professor, a pedir desculpa, "eu não fiz nada", e realmente não, levava com a segunda prestação no focinho, mas agora de régua e esquadro e talvez cana, diversos puxões de orelhas e múltiplos estaladões, que "era para aprender".
E assim foi. Quer-se dizer. Entre uma sova e outra, o rapazinho começou a perceber que, já agora, mais valia amoitar-se por uma boa causa, em vez de ficar ali aquelas horas todas encafuado, sentado no chão, tantas vezes húmido, de pernas cruzadas, sem fazer nada, como um rato, como um retrato, e em risco de constipar-se. Continuou a amoitar-se, evidentemente, mas daí em diante sempre com um propósito razoável, como, por exemplo, jogar à bola com outros que tais, ir para o rio dar banho à minhoca ou acompanhar a par e passo a instalação do circo. E deixou de ter problemas. Aquilo já não era amoitamento, eram faltas justificadas.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

O pior que se podia fazer a um filho

O filho do meio
O Dia do Filho do Meio existe e celebra-se a 12 de Agosto. Quer-se dizer. É um Dia De tão aceitável e tão palerma como a maioria do Dias De. Parece-me, em todo o caso, um Dia De algo injusto e até um desperdício para as famílias com número par de filhos.

Belos tempos. Em Fafe ninguém se divorciava. O divórcio pura e simplesmente não existia na nossa terra, embora 1910 já tivesse sido há um ror de anos. Já agora: o divórcio foi legalizado em Portugal no dia 3 de Novembro de 1910, logo após a implantação da República. Continuando. Apesar de legal, a palavra divórcio era como o palavra cancro - não fazia parte do léxico fafense, graças a Deus, éramos bastante monárquicos a esse respeito. Curiosamente, não me lembro que, entre nós, a palavra amor tivesse também grande uso por aquela altura. Divórcio não se dizia nem se pensava, era pecado. E, definitivamente, não se praticava. Quem ousasse, ficava marcado, nunca mais seria pessoa de bem, aceite pela sociedade local, mais valia pegar nos tarecos e ir para o mais longe possível, para o fim do mundo, lá para o Porto, onde havia noite e a moral já não era precisa. A mulher fugia de casa, desaparecia, o homem deixava a mulher, atravessava a rua, ia morar com outra, isso acontecia regularmente em Fafe, era aceitável, mas divórcio não, que parecia mal. Estava-se fora da mulher, estava-se fora do homem, como dizia o povo, tudo dentro dos conformes, mas sem papel. Marido e esposa encornavam-se entusiasticamente, odiavam-se com todo o zelo, mas não se divorciavam, porque, os antigos sabiam-no bem, o casamento é sagrado. Ele enchia-a de porrada todos os dias, quer-se dizer, todas as noites, quando se viam, e ela às vezes enchia-o de porrada a ele, mas que lindo que era festejar as bodas de prata e as bodas de ouro pelo menos, sempre na igreja, com a bênção e muitos elogios e conselhos do senhor padre, que não percebia nada de casamento e conjugalidade, por falta de comparência, mas achava que sim. Divórcio nunca, meu Deus! Isso não se fazia. Por causa das crianças, dos filhinhos, coitadinhos, marmanjos e marmanjas com quase 50 anos, casados, mal casados, divorciados e ajuntados, já com os seus próprios filhos, das mais diversas proveniências, mas que também gostavam muito de ver os velhotes juntinhos. E viviam no Porto.

O famoso psicólogo Eduardo Sá declarou uma vez no jornal Diário de Notícias que "divórcio" é a coisa mais violenta que se pode dizer a um filho. Eu, sem o saber e a experiência do Prof. Doutor Eduardo Sá, não concordo, embora ninguém me tenha perguntado nada. A mim parece-me que "sopa" é que é a coisa mais violenta que se pode dizer a um filho.
Aliás, para além de "sopa", há outras coisas mais violentas do que "divórcio" que se podem dizer a um filho. A saber: "cama, já!", "esse telemóvel serve muito bem!", "uma semana sem sair!", "um mês sem tablet!", "meio ano sem gomas!", "foste deixado cá em casa pelos ciganos", "come uma banana!", "peixe é bom", "não, ela não pode dormir cá!", "acabou-se a mesada!", "podes ajudar aqui?", "empresta à tua irmã!", "dá um beijinho à avó!",  "pergunta ao pai!", "pergunta à mãe!", "o pai morreu", "a mãe morreu".

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Um indivíduo decente

Foto Hernâni Von Doellinger

A superioridade moral
Admiro particularmente a "superioridade moral" dos que criticam a "superioridade moral" dos outros.

Gostava de Nuno Cardoso (1961-2026). Parecia-me um tipo porreiro, um indivíduo decente. Generoso, prático, simples, gentil, optimista, voluntarioso e às vezes ingénuo, eventualmente também convencido ou idealista, era a impressão que me dava. Tinha lá a sua mania de homem providencial para o Porto, apresentava-se a eleições por conta própria, porque "as pessoas" lhe pediam muito, via ondas de apoio onde nem sequer havia água, e depois apanhava banhadas a seco nas urnas, umas atrás das outras, recolhendo votações humilhantes, normalmente abaixo dos dois por cento, Dom Quixote se calhar também não faria melhor. Foi assim em 2013, foi assim em 2025.
Lembro-me muito bem da campanha de 2013, porque nos encontrámos por acaso na Praia Internacional, junto ao Edifício Transparente, onde o candidato montara o estaminé um certo dia. E mostrava-se em preparos elementares, aproveitando o Verão, de calções, descalço e um enorme sorriso, porque o que é preciso é descontracção. Achei-lhe piada à pose. Fiz-lhe um retrato.

Tirei a fotografia e desejei-lhe boa sorte. Nuno Cardoso ofereceu-me uma mãozada e os seus colaboradores acorreram, simpaticamente, prontos para me pegarem na máquina: - Quer tirar uma à beira do engenheiro?
- Não. Porquê? - disse eu.
- Podia querer... - disseram eles.
- Mas não. E o engenheiro quer o meu autógrafo? - perguntei.
- Não, obrigado... - respondeu-me o engenheiro.
E ficámos assim. Quites. Eu sem o retrato com o engenheiro e o engenheiro sem o meu autógrafo. Nenhum de nós perdeu grande coisa, foi o que pensei na altura. O Porto acaba de perder um dos seus melhores, é o que penso agora.

Millôr Fernandes dizia: "Morrer é uma coisa que se deve deixar sempre pra depois". E também: "A ocasião em que a inteligência do homem mais cresce, sua bondade alcança limites insuspeitados e seu carácter uma pureza inimaginável é nas primeiras 24 horas depois da sua morte". Eu tento alargar o prazo.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

O Amigo Bastos

Foto Tarrenego!

Uma frase enigmática
Agora é assim. Uma pessoa famosa por ser famosa, equilibrada ou tola, por sistema ou em episódio, isso para o caso não interessa, escreve uma palermice qualquer sem sentido nem gramática nas redes sociais, os jornais apressam-se a "noticiar" que essa pessoa famosa por ser famosa, isto é, por dar nos jornais, publicou "uma frase enigmática". E publicam a "frase enigmática". Não se sabe o que é, ninguém sabe nem precisa de saber o que é ou o que quer dizer, mas os jornais "metem" cá para fora. E nisto estamos.

Descíamos no nosso vagar a Rua Direita rumo ao Porto das Pipas, na velha Angra do Heroísmo. Era aquela caloraça das ilhas, aquele esplêndido exagero de luz, o ar quase sólido que sufoca a respiração dos menos habituados, o bom odor de salsugem, que peço emprestado ao mestre. Eu de barrete branco enfiado na cabeça e lenço tabaqueiro atado ao pescoço, as barbas suando em bica, ele no seu fato impecável, o laço "de fazer" milimetricamente composto, dizia-me "Oiça lá, você parece o Hemingway!...", e soltava uma enorme gargalhada, exabundante, para ser ouvida pelos passantes e sobretudo pelas passantes, porque, estivesse onde estivesse, sempre fez questão de que se soubesse, sobretudo elas, que por ali andava o famoso Baptista-Bastos.
Andávamos ambos, mas evidentemente eu era invisível. Tínhamo-nos conhecido alguns anos antes, numa viagem à Irlanda. Eu iniciante no ofício e ele O Grande BB, nesse tempo ainda intrépido "praticante do desporto líquido", como gostava de dizer, e contador ininterrupto de extraordinárias histórias que outros jornalistas da capital desmereciam por inveja. Diziam-lhe nas costas que ele inventava reportagens e entrevistas. Não sei se inventava ou não inventava - isto é, caguei! Eu queria era ouvir o Senhor Baptista-Bastos. Aprender. Ouvia-o embatocado, reverente, assombrado, deliciado. Ouvia-o enquanto ele me apresentava abundantemente à Guinness e ao Jameson, e os invejosos também à roda, flatulando améns, onzeneiros e hipócritas. Ia eu apenas no segundo pint, ao balcão do Kitty O'Sheas's Bar, em Dublin, e já lhe pedia repetições: "E daquela vez?..."
Baptista-Bastos gostava, inchava. Dizia, como se estivesse a dar-me corda, "O puto vai longe". Enganou-se redondamente. O mais longe que fui foi aos Açores, e ali estávamos os dois, dizia, eu e o mestre, descendo no nosso vagar a Rua Direita rumo ao Porto das Pipas, na velha Angra do Heroísmo, ilha Terceira, invadida por poderosas pick-ups de matrícula americana e nas narinas o aroma intenso, miscigenado, a especiarias e a mundos libertados pelas portas provocantemente escancaradas do loja antiga e encantatória. Chamava-se a loja, se não estou em erro, Basílio Simões & Irmãos, e quem dera que ainda exista.
Eu num sino, se fosse visível, o coração aos saltos e a cabeça num turbilhão. "O Baptista não faz ideia da vaidade que tenho por ir aqui à sua beira", confessei-lhe de repente, atrapalhando palavras. "Baptista, não", corrigiu-me, "sou Armando para a família e amigos do peito ou Baptista-Bastos para o geral, mas você, que já é da minha equipa, chame-me Amigo Bastos, que é como eu prefiro". Percebi o generoso raspanete como se, para o BB, Amigo fosse nome próprio e Bastos o apelido. (Quer-se dizer: afinal, AB.) E creio que percebi bem.

- Mas oiça lá: "à sua beira", foi o que disse? Que expressão tão bonita! "À sua beira"...
- É assim que se fala na minha terra. Sou de Fafe...
- Fafe? Justiça de Fafe, não é? Grande terra, terra de gente vertical!

Por aqueles dias mantivemos longas conversas em que eu só ouvia. Baptista-Bastos contou-me de Soares, de Cunhal, de Salazar, de Caetano, do PCP, do PS, do pai, de tipografia, de Lisboa, do Bairro Alto, de jornais, de jornalistas e simpatizantes, de tertúlias, da boémia, da noite, de sábios, de analfabetos diplomados, de livros, de Aquilino, de Branquinho da Fonseca, de Carlos de Oliveira, de Manuel Mendes, de Eugénio de Andrade, do amigo Manuel da Fonseca. Da beleza da sua mulher, do orgulho nos filhos. E de freiras pentelhudas, e de mulheres, e de mulheres, e de mulheres...
Insistia nas suas basezinhas, que já então eram um clássico: que os jornalistas se tratam mutuamente por tu e são camaradas, porque colegas são as putas, e tratava-me por você. E não me lembro se me perguntou se eu sabia onde estava no 25 de Abril, e eu por acaso sabia.

Já no aeroporto de Lisboa, no regresso a casa, Baptista-Bastos fez questão de apresentar-me à mulher, que era realmente uma senhora muito bela, e a um dos filhos, que o foi buscar. Quando nos despedimos ofereceu-me o seu excelentíssimo livro de reportagens "As Palavras dos Outros", com um recadinho escrito ali na hora na terceira página, e, como se estivesse a chamar passageiros para o voo do Porto, repetiu, tonitruante, o essencial de tudo o que copiosamente me ensinara na ilha: - Doellinger, não se esqueça, ler e escrever todos os dias! Todos os dias!...
E eu não esqueço, Amigo Bastos.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Felizmente estou de dieta

As massas
Ele gostava de uma boa massa à lavrador, de uma boa massa de marisco e sobretudo de uma boa massa de bacalhau. Também concordava com a vacinação em massa. Quanto à massa de ar quente, não é que desgostasse, mas afligia-o a flatulência.

Fiquei muito feliz quando, em 2013, a nossa dieta mediterrânica ganhou a medalha de Património Cultural Imaterial da Humanidade. O que eu gosto mais na nossa dieta mediterrânica, para além da comida propriamente dita, é do facto de se chamar dieta, o que me sossega sobremaneira a consciência, embora me faça bastante mal ao resto. Mas é dieta e temos de obedecer. Uma dieta feita, paradigmaticamente, à base de umas tripinhas com tudo, de uma vitelinha assada à moda de Fafe, de um bacalhauzinho na brasa, de um cabritinho no forno a lenha, de uns ossinhos da suã entalados entre salpicão caseiro e moiras encantadas e um naco de orelheira para desenfastiar e duas ou três costelinhas e meia dúzia de fatias de toucinho com o sal no ponto e batatas cozidas sabendo a terra e olhos de couves geadas pela madrugada e feijão vermelho da leira ao lado e, por cima desta riqueza, alho picado e azeite da fartura e do melhor, mais um tintinho honesto e de malga para molhar a palavra. Dieta cumprida, partilhada, sempre que possível, nas origens, no sítio das coisas, com porco da matança, nos velhos tascos ou antigas vendas das nossas aldeias, de Regadas a Aboim, de Fareja a Moreira do Rei, na cozinha escura, à roda da lareira de chão. Produtos frescos, locais e produzidos em sintonia com os ciclos astrais e os ritmos da natureza, como muito bem preconiza a Unesco. E eu, nestas coisas, respeito implacavelmente a Unesco.

Depois, gosto também da denominação ela própria. Património Cultural Imaterial da Humanidade. Gosto da pomposidade das maiúsculas e gosto da palavra "Imaterial", porque, pensando bem, é uma palavra que, não sendo sólida nem líquida, resvala sorrateiramente para o domínio do "Gasoso" - o que, como todos sabemos, vem mesmo a propósito...

domingo, 6 de setembro de 2026

Jogando ao pau com os ursos

Cada macaco no seu galho
"Em que ramo é que trabalhas?", perguntaram-lhe. E o macaco respondeu: "No de baixo, derivado às vertigens..."

A moda é nova, mas pegou de estaca em Portugal. O fado, a dieta mediterrânica, o cante alentejano, os chocalhos de Alcáçovas e a olaria preta de Bisalhães foram elevados aos píncaros do Património Cultural Imaterial da Humanidade, com grande regozijo nacional. Seguiram-se a falcoaria, a louça de Estremoz, os Caretos de Podence e as Festas do Povo de Campo Maior - até ver. Fixemo-nos, porém, na falcoaria. A falcoaria, numa das suas definições mais acessíveis, é a arte milenar de criar, treinar, cuidar e caçar com aves de rapina no seu habitat natural. Os falcões e colaterais contrafacções, digamos águias e açores, caçam, matam e comem, em geral, outras aves e pequenos quadrúpedes que não têm lóbi na Unesco. Está certo: a Unesco é uma organização das Nações Unidas que visa contribuir para a paz e segurança no mundo mediante a educação, a ciência, a cultura e as comunicações. Com a falcoaria ficámos irremediavelmente lançados. Eu, pela parte que me toca, penso agora nos sapateiros, nas mulheres-a-dias, nos periquitos, nos perdigueiros, nos entrançados de palha de Travassós e, andava com esta ferrada há que tempos, nos furões. Comigo, estão todos à bica.

E antes que me esqueça: por exemplo, o jogo do pau. O nosso indesmentível jogo do pau, que é tão nosso como dos outros. Porque não? Ou o berlinde, a carica, o pião, o espeto, a macaca, o moche, o tene, a cabra-cega, o arranca-cebolas, o mamã-dá-licença, o esconde-esconde. Ou o jogo da malha. Ou o jogo da bisca. Ou o jogo Benfica-CUF de 22 de Março de 1959. Porque não?
Por exemplo, as Janeiras, os Reis, as novenas, o terço e a bênção do Santíssimo. A incomparável procissão da Senhora de Antime e o pagamento de promessas de joelhos em Fátima. Porque não? As marchas de Lisboa e as rusgas do Porto e o Pai das Orelheiras e o carnaval de Ovar e as arruadas das bandas de Revelhe e Golães e a bicha das sete cabeças e a chega de bois e as "Velhas" da Terceira e as adufeiras de Monsanto e a Justiça de Fafe e a Porca de Murça e as pedras parideiras de Arouca e os zés-pereiras e os cabeçudos e os gigantones. Ou a cantiga no duche, ou a lengalenga do avô, ou a arenga de bêbado, ou o apita-o-comboio, ou o atirei-o-pau-ao-gato, ou o areias-era-um-camelo. Ou o canto pimba, ou o canto neiro. Porque não?
Por exemplo, os ranchos folclóricos, os conjuntos típicos, a Maria Albertina e o António Mafra, os grupos excursionistas, os motoclubes e as motosserras, que são serras onde se anda de mota. Ou as bandas de música de um modo geral, filarmónicas e copofónicas, indispensáveis. Porque não? Ou os bandos de malfeitores, banqueiros ou governantes, os salgados e os doces, da alheira de Mirandela ao pastel de Belém. Porque não?
Por exemplo, o manguito do Bordalo. Ou o caralho das Caldas. Porque não?
Por exemplo, o assobio. O assobio com dedos ou com as mãos em concha. Porque não?

Somos um país para o Guinness. É património até dar com um pau. É património sem mãos a medir. Com assinalável pertinácia, Portugal mete os dedos à boca e, com vossa licença, vomita património imaterial da humanidade por todos os lados. Um destes dias, sem darmos fé, estamos todos condecorados. Da cabeça aos pés.

sábado, 5 de setembro de 2026

Monólogo do barbeiro

Barbeire ou cabeleireire?
"Cabeleireiro masculino". Olho para o reclame e fico sempre naquela. Mas quê, será masculino porque é homem? Ou será masculino porque atende homens, isto é, barbeiro? E se o cabeleireiro masculino for mulher, não deveria dizer-se, sem ofensa, cabeleireira masculina? E se o cabeleireiro for feminino, o que é que temos a ver com isso? E se o barbeiro for mulher, não vamos mais longe, porque é que não é barbeira? E em caso de indefinição ou escolha múltipla, coisa absolutamente natural, poderá ser, por exemplo, barbeire? Cabeleireire? São problemas assim que de facto me afligem - quero lá saber de outras guerras.

Eu e o meu barbeiro comunicamos por sinais. Ele sabe que comigo não há conversa: entro no estabelecimento, levanto a mão direita em saudação índia mas não digo "Ugh!", sento-me na zona de espera, espero, varejo O Jogo, olho com fastio para as folhas do Jornal de Notícias, vejo as figuras da revista Volta ao Mundo, coço a cabeça e eventualmente os testículos, espreito-me aos espelhos, que realmente me favorecem, espero, espero, levanto-me quando chega a minha vez, que me é indicada pelo meu barbeiro com um aceno de cabeça, coisa cá entre os dois, aproveito os três passos de caminho para apontar se é só barba ou se é barba e cabelo, sento-me e está tudo dito. São muitos anos!
Conversa de barbeiro é uma seca. E um perigo. Os barbeiros sabem de tudo e nós, simples e indefesos clientes, não. Portanto, de navalha em punho, eles começam a falar na crise dos mísseis de Cuba de 1962 e só terminam, uma hora depois, já a socar-nos o tralhame com a escova, quando chegam ao caso do dono do café ao lado que tem a mania de deixar a janela do carro aberta, "Qualquer dia ainda se fode, com sua licença, Senhoreee...", e, depois de termos saído e já irmos longe, ainda vão à porta gritar: - O Senhoreee... também deixa a janela do carro aberta? Deixa? Ai é motorizada? Pois, nesse caso...
Ai de quem se atreva a conversar com o seu barbeiro, nem sabe no que se está a meter! Porque os barbeiros são óptimos a servir à pinta. Pasmados, à volta do cliente, de pente e tesoura suspensos no ar, como bailarina sevilhana pronta a tocar castanholas, dizem que "Sim" e que "Sim" e que "Sim" e que "Sim", "Sim senhor", "Não me diga", "Parece impossível", "A sério?", "A sério?", "É o país que temos", "Pois, hoje em dia", "Tem toda a razão", "Senhoreee...", "Senhoreee...". O nosso barbeiro nunca sabe o nosso nome, somos todos "Senhoreee..."
O meu barbeiro, treinei-o à minha feição. Nem um pio! Comigo, nem se atreve a pegar no espelho mostra-carecas para me perguntar, no final do serviço, se está tudo bem. Já sabe que comigo não vale a pena, até porque não me consta que se possa descortar cabelo. Vamos direitos ao assunto, quero dizer à máquina registadora, espreito os numerozinhos verdes a ver se ainda é o mesmo preço, é, pago, recebo o troco, levanto a mão direita em saudação índia e saio novamente sem dizer "Ugh!", que ele não estranha. Aliás, o meu barbeiro ficou bastante admirado quando, uma vez, eu lhe disse que não sou mudo.
Mas, para chegarmos a este superior estádio de entendimento silencioso, tácito, a esta combinação tão antiga e cómoda, precisei de me começar a impor logo no princípio, há mais de quarenta anos, quando cheguei de Fafe, habituado a barbeiros para homens de barba rija, e que hoje em dia, afinal, também já não passam de suspeitíssimos "salões de beleza"...

Ora bem. Não sei o que deu ao meu barbeiro, que, sem mais nem menos, resolveu falar. Comigo! E eu, de boca fechada e dentes cerrados, perante semelhante fenómeno ou talvez traição - falta de respeito, pelo menos -, mandei-o calar com os olhos, quase o fulminei. Mas ele fez-se de ceguinho e continuou com o relambório. Os barbeiros de um modo geral são assim, falam sempre, mesmo que a gente não lhes responda. Como os dentistas. E o meu barbeiro, parecia possuído, estava igual aos outros barbeiros, abriu o livro. Porque conversa de barbeiro tem técnica.
O meu barbeiro começou pela política, quer-se dizer: pelo Ventura, que vai meter estes mamões todos na ordem. O que até me veio a calhar para eu continuar calado, porque não percebo nada de política e, além disso, não gosto de dizer palavrões em público nem chamar nomes a ausentes. Perante o meu militante silêncio, o meu barbeiro passou para o futebol, quer-se dizer: Luís Filipe Vieira, gangues, facadas, polícia, e eu, nada. O meu barbeiro tentou-me, então, com Trump, agora é que o vão apanhar. Valha-me Deus, antes de almoço não, lá se me ia o apetite. E o funeral da rainha, que foi uma categoria? E eu a pensar que o real evento, se foi mesmo uma categoria, esteve certamente a cargo do nosso Baptista de Antime, mas moita-carrasco! E as notícias? Quer-se dizer: Manuel Luís Goucha que mandou Teresa Guilherme para a prateleira. E Cristina Ferreira, que foi de fim-de-semana a Sevilha. E Fátima Lopes que deslumbrou em biquíni. E Malato que diz que dá para os lados todos como as circunferências. E Sónia Araújo, e Jorge Gabriel, e João Baião. Também não. Nem assim. Mantive-me irredutível, irrevogável, calado como uma porta, mudo como um herói.
O meu barbeiro pareceu desistir. Silenciou-se, magoado. E assim esteve, pareceu-me, durante uma boa meia hora. Até que, indo ao fundo da sua alma, arrancou um imenso suspiro, pôs a cara mais sofrida do mundo, suspendeu a tesoura trabalhadeira num gesto teatral e atirou-me, certeiro: - E este tempo, hã?! Isto está...
Ah!, bom, o tempo. Falando do tempo, assim já nos entendemos: tivemos ali conversa até à hora de almoço e ligámos um ao outro, à tarde, para esclarecermos dois ou três pontos.

É claro que eu não vou ao barbeiro há mais de dez anos, derivado à crise. Se deixei de ir ao cardiologista, para poupar dinheiro, por que razão havia de continuar a ir ao barbeiro? É a Mi quem me corta o cabelo e a barba cá em casa, na varanda sem marquise que temos mesmo em frente ao mar, se nos pusermos de lado. Mas eu e o meu barbeiro éramos exactamente assim. Praticamente assim. Entretanto a minha mulher aprendeu na Internet a realizar cateterismos, e cá nos vamos arranjando.