quarta-feira, 1 de julho de 2026

Os livros estavam em boas mãos

E apeteceu-me dar-lhe um abraço
O homem caminhava vagarosamente ao lado da mulher. Curvado pelo peso de, fiz as contas, setenta e tantos anos, caminhava ainda assim com uma dignidade evidente. O homem velho, de casaco antigo, asseado, pé ante pé até ao café de praia e ao milagre do sol-pôr, levava as mãos atrás das costas. E nas mãos, reparei, um livrinho da Colecção Vampiro, a antiga: "O Imenso Adeus", de Raymond Chandler. Caramba!, és cá dos meus - pensei. E apeteceu-me dar-lhe um abraço.

A mania dos livros apanhei-a em Fafe, mal aprendi a somar letras, na biblioteca que na altura se chamava da Gulbenkian. Lembro-me muito bem da carrinha Citroën cinzenta em chapa canelada, a biblioteca itinerante, que frequentei uma ou duas vezes, estacionada à beira do Manel do Campo, mas o meu sítio já era edifício, do outro lado do Largo, em frente, creio que um primeiro-andar entre a loja do Damião Monteiro e a sapataria da esquina que dava para o beco da Polícia e em cima ou por baixo da Legião Portuguesa, o que certamente justificaria que fosse ali mesmo a meta de partida e de chegada da corrida de jericos dos 16 de Maio. Comecei pelas figuras, evidentemente. Depois procurei-me nos livros. E ia lá quase todos os dias. Em miúdo, ainda em tempo de escola primária, parece-me que sob a orientação rigorosa mas gentil do Senhor Alves, pai, espero não estar a dizer uma asneira muito grande, e depois já em moço, no meu regresso a casa pós-25 de Abril e pós-seminário, beneficiando da cumplicidade generosa e vanguardista do Professor Alberto Alves, que me abriu os olhos para um mundo inteiro que eu não sabia. Foi a minha sorte. Os livros são armas poderosas. E, em Fafe, estavam em boas mãos.

terça-feira, 30 de junho de 2026

As orelhas andam aos pares

Gastrónoma
Ouviu falar em molho-verde, e disse logo que não. Ela era "ter-mi-nan-te-men-te contra os corantes"...

As orelhas. As orelhas são muito úteis. E andam geralmente aos pares, como as luvas, as calças, as meias, as botas, os patins, as jarras, os estalos e os cornos. As orelhas servem para segurar o lápis, o cigarro, de preferência apagado, e o raminho de alfádega, que já ninguém sabe o que é mas que se usava muito em Fafe, sobretudo nas tardadas de romaria. As orelhas ficam muito bem com brincos, argolas e outros tipos de piercing. De acordo com a banda desenhada antiga, os pigmeus e outras tribos mais ou menos canibais usavam ossos espetados nas orelhas. Era a moda. As orelhas centram muito bem a cabeça e estão no sítio certo para se puxar as orelhas, que era um método de ensino muito recomendado, praticado com todo o zelo e com provas dadas no meu tempo. Hoje em dia é proibido puxar as orelhas nas escolas, só se for aos professores. Os puxões de orelhas aos professores são gravados no telemóvel e mandados, com uma grande risota, para as chamadas redes sociais. Das escolas saem cada vez mais orelhudos. E entram nas chamadas redes sociais.
As orelhas produzem cera, cotão e pêlos, materiais altamente combustíveis. As orelhas ardem: se for a orelha direita, é porque estão a dizer bem de nós; se for a orelha esquerda, é porque nos estão a rogar na pele. É o que diz o povo. Se arderem as duas orelhas ao mesmo tempo, o melhor é chamar os bombeiros. As orelhas também deitam fumo sem fogo, pelo menos nos desenhos animados.
Existem várias qualidades de orelhas, como por exemplo orelhas de elfo, orelhas de abano, orelhas de rato, orelhas de gato, orelhas-de-lebre, orelhas-de-ovelha, orelhas de macaco, orelhas-de-abade, orelhas-de-judas, orelhas moucas, orelhas-de-mula e, passando à política, orelhas de burro.
As orelhas doem e quando doem chamam-se ouvidos e muitos nomes feios. As orelhas são vizinhas de porta do esternocleidomastóideo, que é o músculo mais famoso do mundo à pala do Vasquinho da Anatomia. O Vasquinho da Anatomia era o Vasco Santana a fazer de estudante-fadista na "Canção de Lisboa" à séria, o filme de 1933, co-estrelado, não a cavalo, com Beatriz Costa e António Silva. As orelhas, em situações extremas, servem também para a nossa alimentação. Neste caso, para disfarçar, chamam-se orelheira. Em tempos de crise como os que vivemos, e agora com a entrada do Verão, é preferível que se sirva fria, como a vingança, mas com molho-verde.
Às vezes as orelhas dão jeito para ouvir. Ouvir é quase sempre bom e é derivado às orelhas, com ou sem sonotone. Eu gosto muito de orelhas e tenho duas. De momento.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Epístola aos Travassolenses

A desobra de Deus
Deus criou o homem. E o homem inventou a religião. E talvez não houvesse necessidade...

Paulo de Tarso, ou Saulo de Tarso, também conhecido como Apóstolo Paulo, São Paulo Apóstolo, Apóstolo dos Gentios ou simplesmente São Paulo, nem sempre foi o santo que hoje se pinta. Tem atrás de si um passado, como todos nós, mas um passado mais negro do que o da maioria de nós. Saulo era um fariseu radical, impiedoso, feroz, um zelota que se dedicava sem descanso à perseguição dos seguidores de Jesus. Era portanto do piorio, mau como as cobras, o diabo em pessoa, e só amansou e ganhou juízo quando Deus Ele mesmo lhe saiu ao caminho, dando-lhe um valente safanão e cegando-o temporariamente, a ver se ele aprendia. E ele aprendeu.
Assim miraculosamente convertido, Paulo resolveu pôr a correspondência em ordem e desatou a escrever missivas. Para além da algumas cartas com destinatário individual, sempre para homens, que fique devidamente registado, epistolou aos Romanos, aos Coríntios, aos Gálatas, aos Efésios, aos Filipenses, aos Colossenses, que deviam ser enormes, aos Tessalonicenses e eventualmente aos Hebreus. Catequizou também os Gentios, e quando eu descobri a parte nova da Bíblia, em pequenino, contada pelo senhor abade, julgava que os Gentios eram um povo assim como os Helvéticos ou os Teutónicos, naturais e residentes num país de que era proibido ou eventualmente pecado dizer o nome, por indecente e má figura.
Aprendi muito, depois, no seminário. Tive bons mestres. Agora ao caso, tive até um famoso especialista em "St Paul'ssss Cathedraaaal" e "Speakerssss' Corner", o cónego Azevedo, ou "Ticha", por ser professor de Inglês, realmente um pândego, excêntrico e musical, bailarino de sobrepeliz e crónico mestre de cerimónias da Sé de Braga, figura que a minha memória tola às vezes confunde injustamente com o cónego Rodrigo, ou "Pipa", derivado à própria forma, outro cromo mas menos dado, também antiquíssimo e, no que me diz respeito, ineficaz professor de Latim. Já agora: o cónego Azevedo era o cónego Manuel Rodrigues de Azevedo (1915-1988) e o cónego Rodrigo era o cónego Rodrigo Guilhermino Ernesto de Carvalho. Cá está, eu e os cónegos...
Os nomes na Bíblia sempre me fascinaram. Tanto que eu pensava (e ainda penso) que se São Paulo fosse hoje e se por acaso resolvesse escrever aos portugueses só se dirigiria, arrisco dizer, aos Albicastrenses, aos Egitanienses, aos Escalabitanos aos Brigantinos, aos Freixenistas ou Freixienses ou Freixonistas ou Freixonitas, gente assim de nome fidalgo, ainda que indeciso, e nunca abaixo disso. Aliás, creio que os fafenses, padecendo de tão simples onomástica, ficariam de fora. Os fafenses assim entendidos de um modo geral, mas já não diria o mesmo, deixa-me cá ver, em relação, por exemplo e em concreto, aos Serafonenses ou aos Travassolenses que também podem ser Travassoenses, que se apresentam com gentílicos realmente de categoria, com gabarito bastante para merecerem a atenção do apóstolo e bem capazes de integraram a sua lista de contactos favoritos. E eu parece que estou a ouvir nas capelas e igrejas por esse mundo fora, palavra de honra, "Leitura da Segunda Epístola de São Paulo aos Travassolenses. Meus irmãos..."
E Melquisedeque? Ai o que eu gostava do nome Melquisedeque! E Ponto e Bitínia e Capadócia e Antioquia, nomes assim de perlimpimpim, de números de circo de Natal. Antioquia que me fazia sonhar aventuras das mil e uma noites, lamentando embora que São Paulo, que por estas bandas terá pregado o seu primeiro sermão, nunca tenha mandado uma epístola na volta do correio, uma sequer para amostra, aos simpáticos e desamparados Antioquenses.
Já no que respeita aos sodomitas, habitantes de Sodoma, continuo a achar que ficaram com a pior parte da fama. Os gomorritas, que eram outros que tais, safaram-se, vá-se lá saber porquê, e nem constam nos dicionários, quanto mais! A História nem sempre é justa, e parece-me que a Bíblia, às vezes realmente tão atrevida, devia ter aqui uma palavra a dizer.

domingo, 28 de junho de 2026

Impiedosos esparrinhadores

O fiel jardineiro
Diziam que ele regava muito bem. Era, de facto, um excelente mentiroso.

Em Fafe esparrinhava-se muito, essa é que é a verdade. Noutras localidades igualmente antigas mas porventura já mais apetrechadas e comedidas, talvez se espargisse, talvez se borrifasse, talvez se aspergisse, talvez se salpicasse, talvez se esparramasse, talvez se espalhasse, talvez se derramasse, talvez se entornasse, talvez se respingasse, talvez se chuviscasse, talvez, vá lá, se irrigasse, mas em Fafe não, nós em Fafe, por uma questão de princípio, esparrinhávamos e mais nada. Esparrinhávamos forte e feito, ui o que a gente gostava de esparrinhar, e que ninguém nos viesse dizer o contrário.
Claro que não éramos todos iguais. Cada qual esparrinhava à sua maneira, uns mais, outros menos, uns melhor, outros pior. Como tudo na vida. E havia, evidentemente, quem se destacasse entre o geral, apareciam craques, campeões, mestres do esparrinhanço, lendas para o futuro, esparrinhadores imortais. Lembro-me agora. Deu-se até o extraordinário caso de termos um talentoso jogador de futebol, fafense nado e criado, que ostentava o admirável nome de Esparrinhento, isso mesmo, Mário Esparrinhento, assim ficou registado nos anais da História o nosso herói. O Sr. Mário, que já só conheci reformado da bola, sempre de fato, gravata e sapatos de verniz, se não me engano, roda-baixa, gingão, voz de bagaço e sentença pronta, era frequentador habitual da esplanada do café Peludo, onde eu o venerava até mais não. Jogou, primeiro, pelo Sporting Clube de Fafe e, após "a fusão", em 1958, pela Associação Desportiva de Fafe, fazendo parte da nossa primeira equipa e da exclusivíssima caderneta dos meus ídolos.
Aqui só entre nós, faço ideia do que seria o Sr. Mário a esparrinhar, que eu nunca vi, para ficar assim conhecido, acima de todos, como Esparrinhento. "O" Esparrinhento. Devia ser um assombre! E isto, meus ricos meninos, nunca poderia acontecer noutra terra qualquer.

sábado, 27 de junho de 2026

Trazei-me cá o martelo, caralho!

O festeiro
Ele fazia muitas festas. Mas nunca pedia licença. Está na lista do #MeToo.

Pardelhas, Fafe. Festa de São Pedro, na véspera. A Internet ainda estava no cu dos americanos, parece impossível mas não havia Facebook nem Twitter e muito menos X, o telemóvel chamava-se telefone, trabalhava às vezes a manivela e só se deslocava da mesinha de cabeceira para a cama, se o fio deixasse, e o e-mail chamava-se telegrama. A comunicação era boca a boca, como a respiração, as conversas seguiam de bicicleta e as mais prementes voavam de motorizada, as redes sociais iam num pé e vinham noutro. Mandavam-se recados, levavam-se "repostas" - assim se dizia na minha terra, e eu gostava. Era ainda a idade das trevas, pelo menos até ao nascer do sol, geralmente por volta das seis da manhã naquele altinho fafense e naquela parte do ano.
Mas havia altifalantes, e urgências são urgências. A meio do "Carrapito da Dona Aurora", que estava a correr tão bem, alguém da comissão corta o pio aos do Conjunto António Mafra, quer-se dizer, ao disco, provocando uma sonora rascanhadela, sopra asmaticamente no velho microfone Philips, "um, dois, um, dois, experiência", e, desassossegando a aldeia inteira, grita na maior das aflições:
- Atenção, muita atenção! Ó Silva, trazei-me cá o martelo, caralho!...

sexta-feira, 26 de junho de 2026

O palito e os amorfos

Coração de ouro
Tinha um coração de ouro. Pô-lo no prego e comprou um carro em segunda mão.

O palito faz falta. Faz falta e faz parte. O palito faz parte de um português bem vestido, muito mais do que, por exemplo, o próprio chapéu, que já quase não se usa, ou a bengala, que foi praticamente abolida, e o palito lá está, malabarista, a bailar entre os dentes, de um lado ao outro da boca, para cima e para baixo, sem mãos, só à força de lábios e de língua, fazendo justiça à cabritada que o antecedeu, ainda que sejam apenas sete da manhã. O palito é, por assim dizer, indumentária, adereço de luxo, roupa de domingo metida a cotio. Sapatinho dirópito, meiinha branca, fatinho com colete, raminho de alfádega na orelha, gravata ou não, mas palito, o palito dançarino, rapioqueiro, às vezes palito e cigarro sem filtro, mais difícil ainda, porque são precisos dois para dançar o tango, assim se apresenta o português que se preza, o tuga à moda antiga, em dia de coisa e tal. E o palito realmente presta-se.
Basta ver. Temos a Olívia Palito, que é a namorada do Popeye. Temos a Manuel Palito, que matou duas mulheres e andou 34 dias a monte. Temos A Vaca Que Ri Palitos. Temos os palitos la reine, mais conhecidos como biscoitos de champanhe. E temos Valery Gergiev, amigo do peito de Vladimir Putin e renomado maestro russo que dirige orquestras com um palito a fazer de batuta. Opalito também pode ser pedra sintética translúcida, espécie de opala de imitação muito usada na joalharia e em terapias de cristal, segundo leio.
O palito guarda-se no paliteiro. Ou no bolso do peito do casaco ou do colete ou da camisa. Ou atrás da orelha, junto ao cigarro meio fumado ou à alfádega, sempre a postos para usos futuros. Os paliteiros do Miranda, em Fafe, são provavelmente os mais famosos paliteiros do mundo, mas hoje em dia só existem de memória e não é geral.
Aqui por estes lados, nas nossas aldeias, tínhamos também o palhite, que não era palito para escarafunchar os dentes ou fazer figura, mas mais propriamente fósforo para acender a candeia, que era "a luz". Os palhites ou palitos de fósforo podem chamar-se amorfos ou fósforos vermelhos. Amorfos, dizem os entendidos, porque só se inflamam a alta temperatura.
O palito, quando aos pares, incomoda um bocadinho o entrar em casa. Isto é, tem de se entrar de lado. Neste tão popular contexto, os palitos chamam-se cornos.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

O araújo no olho

Pontos de vista
Apareceram-lhe uns pontos de vista um bocado esquisitos. Da noite para o dia. E ele assustou-se. Pelo sim e pelo não, foi ao oftalmologista.

Ter um araújo no olho é uma daquelas expressões pândegas que vieram comigo de Fafe, e nem vou dizer que ela seja apenas nossa, exclusiva, mas que terá sido parida cá por estas bandas, isso já sou capaz de arriscar. Araújo é sobrenome galego e português de origem nobre medieval, também possível de encontrar escrito como Araujo ou Araúxo, mas serve igualmente de topónimo e nem é preciso ir mais longe, basta dar um salto aqui ao lado, ao antigo apeadeiro de Araújo, actual estação do Metro do Porto, em Leça do Balio.
Araújo, nome de pessoa e de sítio, está visto, mas também, há quem diga, denominação de uma variante da árvore araúja. Para nós, porém, os fafenses velhos e irredutíveis, araújo é partícula que entra no olho acidentalmente, grão de pó, minúscula maravalha, bíblico argueiro, cisco, arujo. Arujo, exactamente arujo, vocábulo fidedigno e certificado de onde facilmente derivou a nossa arisca porém bem desenrascada corruptela.
Ter um araújo no olho. Outro dia, sem mais nem menos, lembrei-me da expressão antiga, e nem faço ideia de há quantos anos não lhe punha a vista em cima nem lhe dava uso. Perguntei à Mi se a conhecia de algum lado, à expressão, se já a teria dito ou pelo menos ouvido. E ela disse-me que não. Fiquei varado! Quer-se dizer: a minha mulher, rapariga da nossa idade, nasceu no Porto, na Foz, mas é filha de pais rústicos, o meu sogro de Baião e a minha sogra de Canelas, Gaia. Isto é, a minha mulher tinha obrigação, e, vai-se a ver, nada...
Nada, também não é bem assim. Sobre araújos, a minha mulher fez questão de explicar-me que sabia era a famosa anedota que mete marinheiros e aviadores. Aquela que pergunta: se quem trabalha no mar é marujo, porque é que quem trabalha no ar não é araújo? Isso.
Ter um araújo no olho. A expressão. Não é anedota, definitivamente não é uma anedota, mas que se põe a jeito, lá isso...

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Os Antigos

O lugar da mulher
Lá vão ligeiros, marido e mulher conversando pela rua, ele à frente e ela um passo atrás, coisa de antigos. Têm uma filha. Casou. Lá vai ela jovem e ligeira conversando pela rua com o marido a estrear, ela atrás, o homem um passo adiante, porque o respeito é muito bonito.

Os Antigos sabiam tudo. No tempo dos Antigos é que era. Havia respeito, havia educação, bondade, sabedoria, paz, saúde, velhice e emprego para todos. Havia Portugal.
Os Antigos eram sábios. Sabiam de laranjas - de manhã ouro, à tarde prata e à noite mata. Sabiam do tempo - em Abril, águas mil. Sabiam de horas e alturas - deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer. Sabiam de curas e maleitas - o vinagre e o limão meio cirurgião são. Sabiam de tubérculos e famulagem - não comas caldo de nabos nem o dês aos teus criados. Sabiam de presigos e segurança pública - sardinha sem pão é comer de ladrão. Sabiam de magustos e viagras - a castanha excita o coito e alimenta muito. Sabiam de proporções - bom comer: três vezes beber. Sabiam de criação e divindades - ao menino e ao borracho põe Deus a mão por baixo. Sabiam de prestidigitação e utopias - mais vale um pássaro na mão do que dois a voar. Sabiam saltar a cerca - a galinha da vizinha é sempre melhor que a minha. E sabiam guardar um segredo - o corno é o último a saber.
Com tanta sabedoria, os Antigos morriam muito, mas morriam muito velhinhos, isto é, por volta dos cinquenta, sessenta anos.
Os Antigos não andavam por aí aos tiros. Andavam às pauladas, às facadas, às sacholadas - e aos tiros.
Os Antigos não matavam por dá cá aquele palha. Matavam por causa da água - e geralmente por causa do vinho.
Os Antigos não emprenhavam raparigas solteiras a torto e a direito. Os filhos de pai incógnito eram realmente mais que as mães, mas eram milagres.
Os Antigos não toleravam e até perseguiam os maricas, isto é, os paneleiros, porém consideravam razoável que o senhor padre fosse ao pito às moças da paróquia e brincasse com as pilinhas dos meninos da catequese.
Os Antigos achavam que melhor que um Salazar só dois Salazares. Melhor ainda, um Salazar em cada esquina. Três Salazares em casa esquina. Entre Salazar e Fátima, é que os Antigos não sabiam bem...
Os Antigos sabiam como fazer homens. Pegavam nos rapazes e mandavam-nos para a tropa, se possível para a guerra. E o futebol não era para meninas.
Os Antigos eram puros. Não gostavam de pretos. Nem de monhés. Nem de ciganos. Nem de imigrantes. Nem dos outros em geral. E iam muito à missa e à sagrada comunhão.
Os Antigos faziam muitos filhos. E batiam-lhes. E também batiam nas mulheres, mas por amor. Os Antigos gostavam muito de bater. Batiam porque tinham razão, batiam para ter razão. Batiam por vontade de Deus. Os Antigos davam pão e também educação. A educação dos Antigos.
Os Antigos sabiam o lugar da mulher. Em casa. Na cozinha. A fazer croché. E se saíam juntos à rua, era marido à frente e mulher um passo atrás, como Nosso Senhor ensinou e está na Bíblia.
Os Antigos respeitavam muito as esposas. Por isso iam às putas.

terça-feira, 23 de junho de 2026

Tocavam sempre duas vezes

Marques do Correio
O Marques do Correio aposentou-se ao fim de quase 50 anos de serviço nos CTT. Figura popular e generosa, profissional de uma competência insuperável, admirado e estimado dentro e fora do serviço, em Portugal e até no estrangeiro, o velho Marques ficou conhecido sobretudo por ter inspirado uma bonita cantiga celebrizada pela voz extensa e quente de Alberto Ribeiro e intitulada, nem de propósito, "Marques do Correio", derivado exactamente ao nosso Marques propriamente dito.

Os carteiros de Fafe eram homens poderosos. Traziam dinheiro, levavam notícias e, sobretudo, sabiam tudo de toda a gente. A vida toda. A situação económica, a saúde, o casamento, os filhos, as inclinações políticas, desportivas e religiosas, sabiam de quem saltava o muro ou mijava fora do penico. Sabiam de mortos e de vivos. De virgindades, desconsolos, infidelidades e viúvas. Isso, de viúvas é que eles sabiam! E eram casamenteiros, espertos promotores de segundas núpcias. Viesse algum homem de fora à procura de uma viúva fafense ainda em uso para casar, era só perguntar ao carteiro. Ele levava o pretendente à porta certa. "Nova, jeitosa, trabalhadora e limpa", prometia, na melhor das intenções. À minha mãe foi-lhe oferecido um abastado batateiro transmontano, tinha camioneta e tudo, mas ela optou pela viuvez para o resto da vida. Foi pena. Estaríamos hoje todos muito bem...
Mas era assim. Para os nossos carteiros, não havia segredos na vila e arredores. Seriam um perigo, se por acaso não fossem também boas pessoas - e realmente eram-no.
A Polícia daquele tempo vestia uma farda de terilene cinzento, que era a cor da Autoridade e do País. Os carteiros também vestiam de cinzento, com boné e tudo, mas em cotim. A outra diferença é que os carteiros eram nossos amigos. Gente de categoria, profissionais prestáveis, pessoas decentes. Fafenses excelentíssimos, sem dúvida e sem favor.
Lembro-me do João da Quintã, irmão do Avelino do Café e casado com a Deolinda do Tónio Quim Calçada, o João que depois desistiu de ser carteiro e foi com a família para o Canadá, se não estou em erro. Lembro-me do António Cunha, também bombeiro e assíduo camarada de conversa. Lembro-me do bom Belarmino Freitas, casado com a Licinha Mota da Casa Satierf, que queria dizer Freitas ao contrário. Lembro-me evidentemente do pândego Aristides e estou em crer que ainda me lembro também do pai do Aristides, o carteiro Egídio, se a memória não me atraiçoa. Deveria decerto lembrar-me de mais ilustres carteiros da nossa terra, parece-me até que estou a vê-los, os rostos, as figuras, o modo de andar, mas infelizmente não me ocorrem os nomes que lhes correspondam. E peço desculpa pela involuntária omissão.
Para além de poderosos, eram intrépidos os nossos carteiros. Valentes. A calcantes, de bicicleta chocolateira ou numa velha motorizada de serviço, saca de couro a tiracolo, enfrentavam as mais violentas intempéries e até cães. E eram persistentes. Tocavam sempre duas vezes, como no cinema, e três e quatro e cinco e seis, tantas vezes quantas fossem necessárias para serem atendidos, se sabiam - e sabiam sempre - se havia gente em casa. Eles é que decidiam o que era urgente e o que podia esperar para o dia seguinte. Se fosse preciso, tratando-se de dinheiro ou de documentação importante com prazos a respeitar, diligências melindrosas que não podiam nem deviam ficar ao cuidado de vizinhos, então eles próprios, os carteiros, extrapolando obrigações e abandonando a rota determinada, iam à procura dos destinatários aos sítios alternativos do costume, aos locais mais extraordinários mas já conhecidos, habituais, na feira, na poça, no tanque público, no rio, nos campos, no café, no tasco, no campo da bola, à porta da igreja, palavra de honra, era mesmo assim que as coisas se passavam.
"Que nós bem, graças a Deus", dizíamos nas cartas que mandávamos aos nossos entes queridos, e estava certo, quero acreditar. Graças a Deus, que tudo sabe e por todos olha. Mas também graças aos carteiros. Pelo menos os de Fafe não Lhe ficavam muito atrás. E por eles esperávamos, ansiosos mas confiantes, "até à volta do correio"...

Os Sãos Joões

Sondagens
A Igreja Católica tem mais de vinte mil santos e beatos com cartão passado e as quotas em dia. Desses santos todos, apenas três são populares: Santo António, São João e São Pedro. E são nossos.

(Como toda a gente sabe - como ficou muito bem aprendido no filme "O Pai Tirano", o antigo, o verdadeiro, o de António Lopes Ribeiro que eu ainda conheci pessoalmente, o a preto e branco, o de 1941, o que tem mesmo piada -, como toda a gente sabe, dizia, há duas qualidades de botas de caça: as botas de caça pum e as botas de caça pim, Vasco Santana dixit. Pois, por estranho que possa parecer, com os Sãos Joões sucede exactamente o mesmo. Quer-se dizer.)

O azar do nosso São João, o Baptista, é não ter sido o outro, o Evangelista. O nosso São João era um bocado esquisito mas muito homem: profeta ambulante, vestia-se de peles de camelo, usava um cinto de couro, comia gafanhotos e mel e convivia muito bem com cabritinhos e cabritinhas. Clamava no deserto. Um deserto que inopinadamente tinha um rio chamado Jordão como o cinema de Guimarães, e foi ali mesmo, no rio que não no cinema, que João, o nosso, inventou o baptismo e baptizou o primo Jesus. O nosso São João era a Ana Gomes daquele tempo. Punha a boca no trombone sem pauta nem contenção e isso haveria de custar-lhe a cabeça, ainda nem chegara aos trinta anos. Os amigos do Baptista tinham uma certa vergonha dele e muito gosto na própria cabeça, e por isso deram-lhe o nome de código de O Precursor, para que não se soubesse de quem falavam quando falavam. Hoje em dia, o analfabetismo instalado chama-lhe "O Percursor".
O São João que não é nosso, o Evangelista, era mais manso e teve uma vida flauteada. Morreu velho e de morte natural. Filho de Zebedeu, irmão de Tiago Maior e eventualmente sócio de André e Pedro no negócio das pescas, seria o mais novo dos doze apóstolos do Nazareno, segundo consta. De pescador quiçá analfabeto, fez-se teólogo e escritor. De evangelho e epístolas, apocalíptico até mais não. Discípulo dilecto, João, o que não é nosso, era aquele a quem Jesus amava, o que se lhe aninhou no peito durante a Última Ceia, está nos retratos. E o assunto continua a prestar-se, ainda hoje, às mais diversas e variadas.

No meu tempo de Fafe, quanto a santos populares, o São João era um hospital muito grande no Porto, felizmente com a camioneta da João Carlos Soares a passar-lhe à porta. Tínhamos, isso sim, o Santo António da minha rua, o São Pedro da Recta, creio que ainda frequentei o São Pedro da Granja e, já de saída, talvez tenha presenciado os primeiros passos do que é hoje o famoso São João da Fábrica do Ferro. Quanto ao resto, deixai estar que está bem.
O mais que se sabia do São João eram uns versinhos muito antigos que certamente pertencem ao cancioneiro fafense e era de norma cantar à mesa na noite de passagem de ano, quando já estavam todos mais para lá do que para cá. Assim fazíamos na nossa família. Insisto, para quem não é de Fafe: fafense deve ler-se e dizer-se fafénsse. E os versinhos contavam mais ou menos assim:

O São João, ó dlindlindlim,
tem um carneiro, ó dlandlandlam,
com dois guizos no pescoço.
E quando toca, ó dlindlindlim,
o guizo fino, ó dlandlandlam,
também toca o guizo grosso.


Agora, quereis saber uma coisa sem pés nem cabeça, literalmente sem cabeça? É o seguinte: a 24 de Junho, com uma festa popular que começa logo a 23, o povo assinala em grande alegria o nascimento do santo, mas a Igreja Católica e outras tendências cristãs celebram a 29 de Agosto o Dia do Martírio de São João Baptista, ou a Decapitação de João Baptista, ou a Decapitação de São João Baptista, ou a Decapitação do Anunciador, ou a Decapitação do Precursor. Quer-se dizer: festeja-se a também chamada degolação do nosso São João. Valha-nos Deus! A Igreja faz da barbaridade uma festa, e não há maneira de ganhar juízo.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Raios e Corisco

Cuidado com a língua!
"Raisparta isto!", disse Zeus, arreliado e meio distraído. E foi o fim do mundo.

Como se sabe, Zeus é o pai dos deuses, o deus dos céus, dos raios e dos relâmpagos, o fiscal que mantém em sentido toda a mitologia grega, e em Roma chama-se Júpiter. Os raios eram lanças muito grandes produzidas em série pelos gigantes ciclopes, criaturas de um olho só, como o Luís de Camões ou a gaita do Bitó. Estas lanças, suponho que de fogo, depois de prontas eram entregues ainda quentinhas a Zeus, que as atirava com toda a força sobre os homens pecadores e arrogantes, quanto mais longe melhor, e assim começaram os Jogos Olímpicos.
Foi aí que apareceu o Franklin. Benjamin Franklin, polímata americano que, entre outras habilidades, inventou o pára-raios, segundo aprendi na Escola da Feira Velha. E foi a nossa sorte. Assim se livrou a humanidade da fúria de Zeus, regra geral, e dos seus raios e coriscos. O Corisco, faço notar no entanto, era um cãozinho de banda desenhada no antigo jornal O Primeiro de Janeiro, que morreu sem que ninguém em Portugal se importasse. O jornal. O jornal é que morreu, como outros jornais que também morreram sem notícia na necrologia. Se fosse um cão, seria uma tragédia...

Quem me dera ser cão

Cadela
As palavras têm vida, acusam a idade. Há palavras que enrijecem com o tempo e há outras que se amaciam. Cadela, por exemplo. A palavra cadela, antigamente, tinha uma pesada carga pejorativa, era um nome do piorio para se chamar a uma mulher, era um insulto violentíssimo, degradante. Em Fafe, era a bomba atómica das ofensas. Cadela! Queria dizer prostituta, vadia, safada, desavergonhada, traiçoeira, vagabunda, tola, toleirona, má, malvada, crua. Mas hoje em dia, não. Hoje, as meninas e senhoras passeiam os seus cãezinhos e dizem-lhes que são a "mãe", a "mamã", a "mamãe". E dizem-no a toda a gente. Quer-se dizer: as meninas e senhoras reclamam a maternidade canina, apresentam-se como legítimas progenitoras dos seus cães-filhos, apregoam aos quatro ventos esse incontroverso estatuto. E está certo. Neste novo contexto, chamar-lhes cadelas, às meninas e senhoras mães dos cães, só pode ser, agora, um elogio, um simpático reconhecimento.

Três mulheres à mesa na pequena esplanada da confeitaria da moda, gozando uma falsa fresca de fim de tarde no Verão impiedoso da cidadezinha baixo-minhota. São jovens, alegres, morenas, as mulheres, e têm um cão. Um cão pequeno, rechonchudo, de focinho amarrotado, caricatura de um velho boxista na reforma. Será talvez um pug. Leio na Wikipédia que o pug tem "personalidade", que é "encantador, brincalhão, astuto, sociável, arteiro, dócil, afectuoso, teimoso, amoroso, atento, tranquilo, calmo". Pois. Será. O estupor do cão, o sortudo do cão, passeia-se irrequieto de colo em colo, de mama em mama, esfregando-se ao comprido na brancura sedosa de seis seios quase ao léu, lambendo, lambendo e mais não sei quê, e as mordomas ali na rua sem pudores, crescentemente excitadas, vermelhas, aos gritinhos, aos saltinhos, num fuzuê que só visto.
Ora bem. Foi na parte do mais não sei quê - e digo mais não sei quê porque realmente não faço ideia, o assunto interessou-me sobremaneira, eu estava ali concentradíssimo como o Futre, sócios, invejoso, confesso, mas não consegui perceber o que se passava até às últimas consequências -, portanto, foi na parte do mais não sei quê que a mulher menos jovem, com evidente cara de dona, largou os suspiros, ganhou fôlego, esganiçou ainda mais a voz e disse ao cão, imperativa: - Frederico! Não! Não! Não! Mamãe já falou! Isso não, Frederico!
Fiquei incomodado. Não tanto por causa da indivídua chamar Frederico ao cão. Também chamo Frederico ao meu filho Kiko e isso nunca me chateou, antes pelo contrário, até porque é o nome dele. O que me confundiu foi aquilo de ela ser mãe do cão. Estou velho para estas merdas. Fico baralhado com estas modernices sorrateiramente edipianas mas ao contrário. Não consigo acompanhar estes tempos malucos em que a nova ordem parece ser tratar os animais como pessoas, como filhos, e tratar as pessoas como animais. Como animais que não são tratados como pessoas. Como pessoas que não são de estimação. Os portugueses já gastam mais com cães do que com bebés, dizem as notícias de confiança. Não percebo. Estou definitivamente fora de prazo. E fiquei incomodado!

domingo, 21 de junho de 2026

Era uma música muito estranha

Apontamento musical
Era um pequeno apontamento musical. Estava escrito num "post-it". 

Uma vez, há muitos séculos, levaram-me a uma espécie de concerto no auditório do Conservatório de Música de Braga. Eu estava no seminário, teria no máximo os meus dezasseis anos e portanto que remédio. Fomos talvez para compor a sala, não faço ideia. E aquilo foi muito chato, não é para me gabar. Pela primeira vez na vida ouvi Béla Bartók, por interposta pessoa, e Cândido Lima, por ele próprio, creio que também com direito a comentários, ainda por cima. Saí de lá muito zangado com a padralhada e convencidíssimo de que o que acabara de ouvir não era música, até porque já tinha aprendido nas aulas que "música é um conjunto de sons agradáveis aos ouvidos", e na verdade eu vim cá para fora com as orelhas todas fodidas.
Que se segue? Descobri recentemente que existe o Dia Internacional da Música Estranha, festejado a 24 de Agosto, e lembrei-me deste lamentável episódio, que me marcou como ferro em brasa até aos dias de hoje. E então, quer-se dizer, talvez aquilo fosse isso: música estranha. Mas eu não sabia. Devo acrescentar, em minha defesa, que entretanto mudei de opinião a respeito daquela, digamos assim, especialidade musical. Mudei de opinião, mas apenas um bocadinho...

Bagatela...

Allegro ma non troppo
Deu-lhe um bach, assim de repente. Ele a princípio até ficou satisfeito, mas na verdade preferia um rimsky-korsakov.

Bagatela. Coisa sem valor, ninharia, insignificância, frivolidade ou, por outra, tabuleiro do chamado "bilhar chinês". Na música, bagatela é uma peça curta, ligeira e despretensiosa, típica do Romantismo, normalmente para ser tocada ao piano. Beethoven, por exemplo, muito dado a repentinas modificações de humor, compôs algumas dezenas dessas colossais miniaturas, a mais famosa das quais será certamente "Für Elise", que toda a gente conhece. Em Fafe, bagatela era também resposta na ponta da língua como opinião acerca disto ou daquilo, exprimindo um certo desconsolo ou desconforto, é certo, mas dentro dos limites da educação e da caridade cristã. - E este vinhinho, hã?, que tal? - perguntava-se. E se o vinho não era realmente grande espingarda e não se queria passar por parvo nem por falso ou mal-agradecido, então respondia-se diplomaticamente: - Bagatela... 
Bagatela, assim com reticências e um sorrisinho assaz encaralhado de faz-favor-de-desculpar, queria dizer sofrível, mais ou menos, menos mal, podia ser pior, não há-de ser nada. Isto é: bagatela, aqui, queria dizer exactamente o mesmo que... calar. Mas um bocadinho mais para baixo.

O calor dilata os copos

Afogamento
Deixou afogar o motor e isso marcou-o para toda a vida.

Ele era um fafense à moda antiga. Praticante de fino durante três quartos do ano, chegava ao Verão e dedicava-se à caneca. Dizia: - O calor dilata os copos...

A este respeito, embora não pareça, diga-se que todos os anos, desde 2014, o dia 21 de Junho é Dia Mundial da Girafa e é completamente merecido. Os filmes de cinema e as telenovelas e até os concertos musicais particularmente sinfónicos não seriam possíveis tais quais os conhecemos hoje em dia sem a girafa. A girafa é, como aprendemos desde os bancos da escola, um suporte móvel no qual se prende um microfone. E é também uma vasilha considerável para consumo de cerveja de pressão. A girafa é realmente muito importante.

sábado, 20 de junho de 2026

Eu queria ser palhaço

Exagero
Ele nunca brincava em serviço. O que, para um palhaço de circo, era talvez contraproducente.

Sonhava-me no circo, não do lado cómodo do público, mas no centro das atenções, no lado cómico, de nariz vermelho, cara pintada e sapatos de metro, a inventar alegria para os outros. E para mim. Isso, alegria para mim. Porque eu sempre quis ser palhaço. Ou por outra: quando eu era pequeno, em Fafe, primeiro queria ser grande. E quando fosse grande queria ser palhaço, maquinista de comboio, famoso, padre, polícia à paisana, pianista, advogado, jornalista, actor, bombeiro, jogador de futebol, Tarzan, presidente da república, terrorista, papa, escritor, herói, cantor, ciclista, santo, piloto de avião de guerra como o Major Alvega e pirata.
Que se segue: já há muito que sou grande e, francamente, sou Tarzan e é um pau. Sou Tarzan como a maioria dos portugueses: estamos de tanga e isso é indesmentível, somos portanto tarzões.
Mas palhaço é que era! Alguns amigos, lisonjeiros, dizem-me que eu às vezes até sou um bocado palhaço. Por outro lado - o das costas -, alguns filhos da mãe que não me gramam acusam-me de eu às vezes ser um bocado palhaço. Palavra de honra, às vezes e um bocado não me chega: eu queria ser palhaço, mas palhaço completamente.

Quando Fafe ia ao circo

O homem-bala
Cabisbaixo e de mala na mão, o homem-bala apresentou-se logo de manhãzinha na rulote da gerência. Deixava o circo. Ia embora para casa. Descobrira durante a noite que era objector de consciência.

Circo que é circo tem nome de circo. Ponto. Nome com pozinhos de perlimpimpim, nomes exóticos, patuscos, inventados à la minuta, nomes de fazer sonhar. Nomes à antiga: Arena, Brasil, Cardinali, Circolândia, Chen, Cristal, Dallas, Dragon, Eddy, Flic Flac, Império, Leunam, Luftman, Mariani, Mundial, Nederland, Nery Brothers, Oceanika, Soledad, Romero, Torralvo ou Twister. Ou Circo Royal, "com Pierre Ivanoff e os seus leões da Abissínia", ou o meu melhor circo do mundo, Circo Merito, que vinha a Fafe todos os anos, sem animais acima de cão, mas com um incrível número de transmissão de pensamento operado pelo senhor Merito em pessoa e sua partenaire, e sobretudo uns palhaços como nunca mais ri na minha vida e que contavam sempre a anedota de que a nossa era a única terra à face da mesma mas com maiúscula onde dormiam dezoito numa cama: o meu avô da Bomba, que era o 17, mais a minha avó. O meu avô afinava e eu achava um piadão.
O senhor Merito, que também era mestre-de-cerimónias do es-tra-or-di-ná-ri-ooo... ex-pe-ctá-cu-looo!!!..., padecia de uns óculos com lentes verdes de fundo de garrafa Carvalhelhos versão 1960 que, aos meus olhos infantis e crentes, justificavam à partida os poderes adivinhatórios de que ele estava evidentemente investido.
Coisas de outro mundo. No circo aprendi palavras sen-sa-ci-o-nais, que gostava de ouvir e de dizer e não sabia o que significavam: funambulista, malabarista, contorcionista, equilibrista, acrobata voador, faquir, trapezista, pirofagista, globista, faquista, mais engolidor de espadas, palhaço e ilusionista - estas três eu ia lá -, e que hoje percebo que todas são afinal meros adereços ou adjectivos para outra palavra do léxico circense que é a palavra... político.
Agora? Agora andam por aí circos com nomes paisanos, insossos, e a magia foi um ar que se lhe deu. Nomes de linha média em quatro-quatro-dois losango: Rúben, Cláudio, Leandro e Walter Dias. Nomes do dia-a-dia, corriqueiros, sem pés nem cabeça, como se fossem nomes de talhos ou retrosarias. Como se fossem: o Circo Ricardo, o Circo Pedro, o Circo Ferreira, o Circo Gomes, o Circo Lopes, o Circo Magalhães, o Circo Antunes. O Circo Maria das Dores. Sem o glamour de um Tony, sem o garbo de um Fredy, sem as lantejoulas de uma Nandy nem as meias de rede de uma Mirita no seu rola-rola, ainda que rotas, as meias, porque no circo é importante trabalhar com rede, posto que sem fio, portanto Wi-Fi.
E ainda haverá palhaços excêntricos musicais? E a profissão está devidamente reconhecida e enquadrada? Tem ordem? Carteira profissional? Tempo de serviço em recuperação?
O circo chegava e a vila espertava. A vila precisava. Saía do mormo, arrebitava. Fafe vivia intensamente os seus dias de circo, havia assunto, havia mundo, havia... vida. Havia emoção, havia sonho, havia alegria, riso, havia medo, havia pena, tristeza, saudade antecipada, porque depois só para o ano. Fafe ia ao circo. Toda a gente ia ao circo. Mesmo os que não iam, por miséria ou embirração, era como se fossem, só de imaginar ou ouvir contar. Não se falava de outra coisa, no café, no tasco, na feira, no campo da bola, à saída da missa, fazia-se crítica, propaganda, comparava-se com o ano anterior. Era um deslumbramento vivermos - digo bem, vivermos -, de coração aos saltos e mãos a tapar os olhos, o perigosíssimo trabalho daqueles artistas cheios de is gregos e cabelo empastado, artistas in-tarrr-na-ci-o-nais de Ermesinde e Vila Franca de Xira - Cuidado, Dany, cuidado! Res-pei-tá-vel público, silêncio, o mais completo silêncio, por favor, peço o silêncio dos senhores ex-pe-cta-do-reeesss... Vamos, Dany, cuidado, upa, ealé, bravo, bravo, Dany, bravo!...
Só a carripana com altifalantes sobressaltando as pacatas ruas da vila antiga já era uma festa, era circo ao domicílio. "Hoje grátis às damas, damas grátis!", prometia-se ambiguamente na véspera da despedida, parecia um anúncio de casa de putas em saldos, mas eu ainda não sabia. O circo era o melhor faz-de-conta de todos os tempos! O famoso Pierre Ivanoff chamava-se Pedro Piloña Reina e era um espanhol de Valência nascido em Casablanca, Marrocos. Na jaula, com os leões, vestia de tribuno romano que eu sabia dos filmes - e ficou-me até hoje. Tinha eu se calhar sete anos quando o Pedro, aliás Pierre, desafiou o meu pai, saxofonista desembaraçado na Banda de Revelhe, a fazer-se ao mundo a bordo da orquestra do grande Circo Royal, mas o meu pai não foi. Foi para mim um desgosto muito grande, que já me via palhaço, a morar na rulote, a faltar à escola e a rasgar completamente as meias de rede da Mirita...
O sítio do circo em Fafe era na Feira Velha, encostadinho à antiga escola primária cujas defuntas pedras depois se transformaram, por milagre, em capela de casa particular. E era porreiro o circo ali, porque vós hoje em dia não fazeis ideia dos deslimites do fedor a que pode chegar a jaula de um leão velho, mas eu e os da minha escola sabemos, graças a Deus. O circo creio que frequentou outros lugares da nossa vila, e lembro-me por exemplo de uma vez em que se instalou num terreno convenientemente devoluto ali para os lados da Recta, mas a Feira Velha é que era o sítio. Gosto de dizer, a Feira Velha, gosto de me ouvir dizer, a Feira Velha. Agora mesmo, escrevo e digo, vêm-me as lágrimas aos olhos por causa de duas palavras de nada, pareço tolo. Feira Velha. A Câmara Municipal, quando se tornou mercearia para não ficar atrás das outras câmaras municipais, meteu lá carros a cobrar à hora e é o que temos. Mas diz que vêm aí os novos jardins suspensos da Babilónia. É o que veremos.

Carlos Drummond de Andrade dizia: "Vou ao circo para me sentir em casa com o mundo". E Ferreira Gullar, no poema "Improviso para a moça do circo", do livro "Na Vertigem do Dia", lembrava a infância, adivinhando Fafe, e contava: "é pouca a vida que a cidade oferece, até que aparece o circo". Por outro lado: o circo somos nós - camelos, ursos, jacarés em camisolas, asnos e leões mansos. Homens-bala de pólvora seca, malabaristas, contorcionistas, ilusionistas, equilibristas, palhaços - somos nós, porque nos mandam e porque somos o único circo a que temos direito. Somos os circo de nós mesmos. Vivemos na corda bamba e sem rede. Tiraram-nos a rede, esticam-nos a corda, dão-nos a volta à cabeça, sufocam-nos, caímos que nem tordos sem capacete.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Votos inúteis

Francamente
Era um indivíduo a quem não se podia pedir uma opinião sincera. Ele dava-a.

Votos de confiança, votos de louvor, votos de vencido, votos de qualidade, votos de silêncio, votos de boas festas, votos felizes, votos infelizes, votos de parabéns, votos de melhoras, votos de casamento, o que eu lhe estimo é o que lhe desejo, votos de pesar, votos de medir, uma bora continuação, ex-votos e sobretudo votos de castidade. Inutilidades, nos dias que correm.

Eu e os cães, desequivocando

Prioritário
O sem-abrigo apresentou-se nos serviços sociais e disse Bom dia, sou cão e preciso de uma casa! Deram-lhe um T1 mobilado e decorado.

Desfazendo um equívoco que por aí vai, eu e os cães. O cães gostam de mim, eu nunca disse o contrário. Mas, regra geral, gostam de mim como eu gosto de leitão ou cabrito. O que realmente me assusta, embora me pareça justo.

Em cima do acontecimento

Foto Tarrenego!

Um conseguimento
Até aos cinquenta anos vivi e experimentei - e devo confessar que não foi grande coisa. A partir dos cinquenta anos comecei então a vivenciar e a experienciar - e realmente não há comparação...

É o que dá mexer em papéis velhos, nas tradicionais limpezas de Páscoa. Um talvez desinteressante jogo de hóquei em patins entre FC Porto e Alenquer, suponho que lá pela primeira metade da década de 1980, nas Antas, Pavilhão Américo de Sá de tantas e indesmentíveis alegrias. O jogador portista que desliza para o golo é, se não me engano, o grande Cristiano Pereira, estrela maior de uma constelação onde brilhavam também, entre outros, Vítor Hugo, Vítor Bruno, Alves ou Domingos Guimarães - isto é, uma superequipa, multicampeões e artistas de circo que dava gosto, a base da selecção nacional.
E eu estava lá, como de costume. Estávamos lá, na bancada vazia tirante nós: eu, o Miguel pequeno e o Miguel grande. Os papéis velhos devem ser remexidos amiúde, mas com cuidado por causa do pó - estou aqui com os olhos um bocadinho irritados, e quem me veja assim ainda vai dizer que me apanhou a chorar...

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Capoeirista, eu?...

Banho de sangue
Mandaram-no fechar a matraca e ele fechou. Fechou também a ponta-e-mola, a borboleta e a porta.

A sério. Não sei se posso ser considerado um verdadeiro capoeirista. A minha mãe mandava-me realmente dar de comer às galinhas e ver se havia ovos, recomendando-me sempre todo o cuidado ao entrar e ao sair do galinheiro, mas será isso suficiente?
E que se segue? O Dia do Capoeirista está aí à porta, e eu, sinceramente, não sei se deva festejar...

Armado em Bond

O pedinte e o pedante
Entre o pedinte e o pedante vai a diferença de uma vogal. A favor do pedante, evidentemente.

Ele tinha realmente a mania. Fosse aonde fosse, entrasse aonde entrasse, chegava ao balcão e pedia um "martini seco, agitado, não mexido". Nem que estivesse na Chapelaria Antunes, para comprar um guarda-chuva. E acrescentava, cheio de classe e charme: - O meu nome é Quim, Joa Quim.

Cheirava-lhes a cadáver...

O filósofo
Ele ensinava: o pior da morte é que a vida deixa de fazer sentido.

"António von Doellinger, sargento reformado do Exército Colonial, foi levado a enterrar.
Na câmara ardente, ao redor dum caixão de quatro tábuas singelas, os seus filhos, crianças tamaninas, choram.
A mais inocente e novinha de todas desvia um lenço sedalino que cobre o rosto esverdeado do defunto. O cadáver está ainda morno, exalando um cheiro canfórico a denunciar a decomposição deletéria que embriaga os abutres e as corujas. O olhar, derramado, vítreo, tem os estigmas reveladores dum horrível sofrimento moral, adivinhando-se que, daquele corpo macerado, foi o coração, alanceado pela dor cruciante da despedida à orfandade, o derradeiro órgão a morrer.
E o lenço de prateada seda cobre de novo os lábios descarnados do pobre Doellinger.
Tuberculizara. Passara privações. Desde que a doença entrara naquele tugúrio, a Conferência de São Vicente de Paulo, de sinistra nomeada, ofertou socorro ao Doellinger. Impunha, porém, uma condição: o doente devia confessar-se, devia confortar-se com os sacramentos da Igreja Católica. Não era penosa a exigência... Um tuberculoso nada adianta nem atrasa, em tal estado, engolindo a hóstia consagrada - um pedaço de obreia amassada com saliva de sacristão.
António von Doellinger, contudo, tem escrúpulos, só porque era anticlerical.
Mas um padre insistia - e, aguardando o momento desejado, quando o doente entrava no estertor da agonia dolorosa, abeirou-se-lhe do leito frio, vestindo de saia negra, na noite negra, como a morte negra que rondava à cabeceira do tuberculoso.
Doellinger recusou ainda nobremente.
Mas era necessário dizer à estupidez do indígena crédulo, fanático e supersticioso, que o ateu implorou, na hora derradeira, na hora do delírio, da alucinação, da inconsciência, o perdão de Deus e a piedade da Santa Madre Igreja. Ainda o sargento Doellinger, estóico ante a morte que tantas vezes lhe fora companheira na inóspita África, quando lutava nas fileiras, teve um gesto grandioso, heróico e teatral, bradando:
- "Não preciso da Igreja, não preciso do perdão de Deus... Não sou um criminoso..."
O padre teria sentido um arrepio de medo, um estremecimento de consciência - e largou a vítima inofensiva.
E, ao nascer da aurora, um sino dobrou, plangente, a finados!
A consciência alheia, as ideias dos nossos semelhantes são, para a Igreja Católica, coisas sem sentido.
O que é preciso, para maior glória de Deus, é que os adversários do catolicismo se arrependam, na hora derradeira, na hora suprema, quando o espírito vacila, quando o corpo arrefece ao contacto do gelo da morte, quando o indivíduo está já em estado de inconsciência, de irresponsabilidade, quando entra no delírio, na demência! Então a vítima pode ceder, porque costuma fraquejar ante o fantasma sinistro que gargalha na ronda nocturna.
O cheiro a cadáver embriaga e consola os abutres que começam a grasnar, sedentos de sangue, ávidos de carnagem dos corpos pútridos!"

Fafe, 1938 talvez. Este belo naco de prosa, pesado, ideológico, com o título "Cheirava-lhes a cadáver...", foi escrito, muito provavelmente, pelo jornalista e resistente antifascista fafense Manuel Teixeira, então proprietário e director do semanário republicano O Combate. José Manuel Teixeira da Silva e Castro (1906-1980) era irmão do também jornalista (António) Teixeira e Castro (1928-2004), com quem acamaradei no Primeiro de Janeiro. O Combate, fundado em 1930, teve vida atribulada e efémera. Foi fechado definitivamente pela Censura em 1941. Há anos que guardo religiosamente a reprodução fotográfica da primeira página deste número, que me foi revelado pelo Sr. Vale do Arquivo do Janeiro. Copiei o texto com recurso a lupa e não garanto isenção de pequenos erros na transcrição. Até da data não tenho a certeza: mas se não é de 1938, anda por lá perto.
Visito-o frequentemente. Leio e releio, e cada vez fico mais desconfiado de mim. Com um antepassado da marca deste sargento von Doellinger, donde raio é que me vem a costela sacrista?

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Os cartoleiros

Da estupidez
Incomoda-me a estupidez. Sobretudo a minha.

Os cartoleiros eram os protegidos ou favoritos dos "superiores", quer-se dizer, dos padres, no seminário. Isso e nada mais. Eram geralmente alunos acima da média, com direito a pequenas mordomias e tolerância alargada. Insignificâncias. Eram os que tinham maior proximidade e convívio com os mestres. Além disso, os cartoleiros eram também, como se dizia em Fafe, escovas, graxistas, lambe-botas e, frequentemente, bufos. Eu, devo confessar, gozei do estatuto de cartoleiro no que diz respeito à primeira parte, isto é, aos benefícios, mas fui vítima da segunda, da manha hipócrita dos chegamissos. Os cartoleiros eram apontados a dedo e invejados pelos colegas, e invejavam-se entre si.
É claro que, no Brasil, a palavra cartoleiro desfruta de um significado diverso e muito próprio, no âmbito dos trabalhos manuais em particular ou do artesanato de uma forma geral. Mas isso, valha-me Deus, já nos levaria por outros caminhos...

Os Choupilos

Epitáfio 
Quando Epitáfio morreu, ninguém sabia o que dizer...
Choupilo. Termo regional, antigo, do Norte de Portugal, usado particularmente aqui no nosso Minho, e que quererá dizer sapo pequeno ou sapo vagaroso. Que se segue. Eu não sei se é daí que a coisa vem, mas a verdade tem de ser dita: em Fafe, nos velhos tempos, choupilos eram os músicos da Banda de Golães, os seus sócios e simpatizantes ou seguidores, isto é, os seus apaixonantes. Os Choupilos, porventura assim com maiúscula, com o devido respeito e toda a consideração. Choupilos ou Choupos, neste caso já com um suave toque botânico, tudo isto dito, bem entendido, sempre do ponto de vista dos músicos e apaixonantes da banda rival, arqui-inimiga, a Banda de Revelhe. Quer-se dizer: os da Banda de Revelhe é que chamavam Choupilos ou Choupos aos da Banda de Golães, que, por sua vez, certamente também chamariam nomes do piorio aos da Banda de Revelhe, nomes feios e manhosos, mas juro que não sei quais, nunca foram do meu conhecimento.
Havia uma ronha tremenda entre as nossas duas bandas de música. Fafe tinha um feitio desgraçado, tolo, só se dava bem na confrontação, gostava de dividir-se ao meio e andar à pancada entre si. Estou farto de o dizer, tudo servia para nos separar e opor, para discutirmos e teimarmos: as duas filarmónicas, os dois velhos clubes de futebol, os dois fotógrafos da vila, os dois cangalheiros, a Escola Industrial e o Colégio, a Fábrica do Ferro e o Bugio, o Fredinho Bastos e o Tangerina, a Zundapp e a Sachs, a Juditinha e o Zé da Menina, a Rua de Baixo e a Ponte do Ranha, o Peludo e o Snack-Bar, o Dr. Antunes e o Dr. Amadeu. Uns éramos por uns, outros éramos pelos outros, sempre à bulha, como cão e gato, e ninguém nos aturava. Lembrais-vos do filme "Kramer Contra Kramer", com Dustin Hoffman e Meryl Streep? Pois nós aqui, não tendo nada a ver, era exactamente o mesmo, Fafe contra Fafe, mas sem filmes de jeito nem actores de categoria, tínhamos apenas a mania das facções, o espírito de contradição era o nosso modo de vida. 

A Banda de Revelhe era o meu ambiente. Dos quatro homens da nossa casa, a começar pelo meu pai, só eu é que não fui músico. Sou, em todo o caso, revelhista desde pequenino. E éramos revelhistas ferrenhos. O que agora me parece um pouco estranho, porque, por outro lado, a Banda de Golães é que chegou a ser, a partir dos finais do século XIX, a banda oficial dos Bombeiros Voluntários de Fafe. E nós éramos "os da Bomba", que diabo. Já bem na segunda metade dos anos de mil e novecentos, portanto um século mais tarde e deslaçada formalmente aquela histórica ligação, a Banda de Golães ainda honrava a tradição, formava em frente ao quartel da Rua José Cardoso Vieira de Castro, no dia da Festa da Bomba, e tocava o Hino dos Bombeiros. Lembro-me muito bem de ver e de ouvir. Sei de cor e salteado a melodia do hino, integral e afinada, trauteio-a ou assobio-a amiúde, só porque me dá na cabeça ou se calhar são saudades, e foi daquela maneira que a aprendi. 
Curiosamente, havia outros ramos da família, não directamente ligados aos Bombeiros como nós, que, eles sim, aderiram à Banda de Golães, o que me enchia de escândalo naquela altura, teria eu para aí sete ou oito anos. Recordo-me do Tio Rochinha, da Recta, e do Tio Albino Grande, tios-avôs, mais um ou dois primos em segundo grau, se não me engano. O bom Tio Rochinha, pequenino, tão frágil e trágico, sempre com um sorriso engatilhado e, enquanto pôde, palavras amáveis e reconfortantes para distribuir por toda a gente. E o Tio Albino Grande, um homem imponente, elegante, gentil, com uma voz mansa e bem timbrada, de locutor nocturno da Emissora Nacional, uma voz que eu gostava muito de ouvir, parecia que fazia bem às pessoas. O Tio Albino era casado com a Tia da Rua do Maia e pai do famoso Fernando Massagista, querido primo, "primaço". A Tia da Rua do Maia era irmã do Bô da Bomba e passámos a chamar-lhe Tia Rottenmeier, isto é, Tia Rotmaia, quando os bonequinhos japoneses da "Heidi" chegaram à RTP, na parte final da década de 1970.
O Tio Albino era o garboso porta-estandarte da Banda de Golães. Dava gosto vê-lo, palavra de honra. E nós dizíamos, invejosos e talvez malandros, que ele tocava muito bem bandeira.

terça-feira, 16 de junho de 2026

Com o Zegolina, ninguém estava livre

Missais terra-ar
Portugal enviou missais para a Ucrânia. Pequenos missais de rito bracarense praticamente novos. As ordens eram para mandar mísseis, mas alguém da intendência fez confusão ao aviar a encomenda.

Armando Zegolina, isto é, o Zegolina, sobrenome conquistado na rua pelo cidadão Armando Sousa, era um fafense excelentíssimo e campeão mundial da maledicência. Campeão invicto e ininterrupto pelo menos enquanto foi vivo, e não sei se também depois, é preciso que se note. O Zegla dizia mal de tudo e de todos. Pelas costas, pela frente e pelos lados. Com razão, sem razão e antes pelo contrário, apenas por uma questão de princípio. Nasceu para aquilo. Dizia mal do futebol. De quem ia ao futebol e de quem não ia ao futebol. Dizia mal da religião. De quem ia à missa e de quem não ia à missa. Dizia mal da política. De quem era dos partidos e de quem não era dos partidos. Dizia mal da televisão. De quem via e de quem não via. "E tu também te podes ir foder!", dizia-me regularmente. Era. Com o Zegolina, ninguém estava livre.
E como é que lhe veio o nome fantástico? Assim. Em pequeno, ali para os lados de Portugal e do Lombo, de onde ele era, o Armando gostava muito de brincar esvaziando os pneus de todos os automóveis que lhe calhassem à mão de semear e longe da vista dos donos. Ele explicava que lhes estava a tirar a... zegolina. E daí o nome e a lenda.
O nosso Zegolina jogou futebol até aos juniores na AD Fafe e, entre 1968 e 1971, foi soldado pára-quedista e tratador-treinador de cães de guerra. Voluntário. Cumpriu oito meses de Guiné, durante os quais realizou 21 saltos, quase sempre em situações de combate. Foi operário têxtil evidentemente na Fábrica do Ferro, emigrante em França no ramo dos elevadores, e quando tornou a casa, em 1979, fez-se electricista por correspondência e montou negócio. Frequentávamos ambos o inevitável Peludo e acompanhámos depois a módica deslocalização do Peixoto, que foi só virar a esquina. Éramos amigos, eu e o Zegolina - mais o estimado Manel Zebras, velha glória da Desportiva, os três à mesa pária em que mais ninguém queria entrar. Éramos amigos, sem dúvida. O Zegolina ansiava pelas minhas férias e pelos meus bissextos retornos a Fafe, para pormos a conversa em dia, e tínhamos uma certa pressa nisso. Éramos amigos conversantes, confidentes, cúmplices e leais, como o aço. E o Zegla até nem era nada disso de amizades derivado à língua, embora por detrás da língua desgovernada estivesse um homem generoso, bom rapaz, talvez tímido, mas ele não queria que se soubesse. Ele era ruim só da boca para fora, e essa era a sua magnífica fraqueza.
O Zegolina morreu há anos e praticamente novo, muito antes do prazo, muito antes do que seria decente ou razoável, morreu devagar, quero dizer, foi morrendo a olhos vistos, com o corpo de atleta e militar de elite cobardemente escangalhado pela sorrateira doença dos pezinhos ou paramiloidose, que só não lhe atacou a língua. E isso, estou em crer, foi o seu derradeiro consolo.

Corino de Andrade, o génio imperfeito

O homenageado
Fizeram-lhe rasgados elogios. O homenageado não gostou. Apanhou humildemente os papelinhos desirmanados, reorganizou-os com fita-cola e foi para casa...

Uma vez saiu-me a sorte grande e pude falar com o Dr. Corino de Andrade. Mário Corino da Costa Andrade (1906-2005) foi médico, investigador e humanista, uma das figuras de proa da neurologia portuguesa do século XX. Um génio. Foi o cientista que descobriu a paramiloidose, ou doença dos pezinhos, identificada nos meios académicos e clínicos, a nível mundial, como doença de Andrade ou Corino-Andrade. E achava pouco. Fundou, com Nuno Grande, o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, da Universidade do Porto.
Contou-me: aliciaram-no para que escrevesse as suas memórias - recusou, era "uma chatice". A lisonja, a ele, batia-lhe com o nariz na porta. Pretenderam homenageá-lo. Disse-me: "Não quero homenagem nenhuma, Deus me livre! Eu tenho horror, uma espécie de alergia urticária contra as homenagens. É uma chatice. O excesso de homenagens em Portugal é um mau sintoma".
Entusiasmado pelo singularidade daquele encontro, não segurei em mim que não fizesse uma das perguntas mais estúpidas de toda a minha vida profissional: - Mas o senhor doutor deve estar orgulhoso por ter descoberto uma doença, por ver o seu nome ligado a essa doença, não é?...
"Não, meu caro senhor, não é", atalhou mansamente o Dr. Corino de Andrade, com a paciência dos sábios e a astúcia dos malandros, para imediatamente me martelar pelo chão abaixo, com toda a veemência: "Seria um orgulho muito grande ter o meu nome ligado a uma cura, isso é que era genial, mas tê-lo ligado a uma doença, essa é a maior das chatices"...
Corino de Andrade tinha então uns belíssimos 87 anos, em impecável estado de conservação e conversação. Recebeu-me em sua casa, depois de eu lhe ter andado a chagar a cabeça, via telefone, durante mais de quinze dias. Ele não queria nada com jornalistas, recusava-se a "aparecer", estava farto de "chatices". Incomodavam-no a paráfrase, a elaboração escusada, as repetições. "A gente deve reduzir ao mínimo o que tem para dizer, e dizer só as coisas fundamentais, ou que assim nos pareçam, e que possam ajuntar qualquer coisa ao já dito", explicou-me.
O Dr. Corino morreu seis dias depois de ter completado 99 anos. E era diferente, não era?

Entretanto. Estudos recentes confirmam que Portugal continua a ser o país do mundo com mais casos de paramiloidose, esmagadoramente no Norte do País, com o distrito do Porto à frente de Braga e Aveiro.

Os melhores anos da minha vida 2

Foto Tarrenego!

Faziam-se homens e pronto
No meu tempo era mais fácil fazer homens. Levavam-se os rapazes às putas, mandavam-se os rapazes para a tropa, e estava o assunto resolvido. Hoje em dia a coisa exige outros mimos, ciência...

Claro que crescíamos e éramos cada vez menos. As calças à boca de sino não ajudam muito à seriedade do acto e as guedelhas anticanónicas colocam-nos nos primeiros tempos pós-revolução do 25 de Abril de 1974. Por aí estávamos, de facto - o que me foi fatal. Já não éramos meninos. Procurávamos a abertura. Muitos escolheram sair, seduzidos pelos arejos da liberdade, a mim mandaram-me embora, vítima de uma espécie de saneamento fascista-sacrista, que hoje me dá para rir, mas na altura não. Eu era o líder da insurreição interna, que, assim cortada pela raiz, por ordem directa do bispo, faleceu ali mesmo, confortada com os sacramentos da Santa Madre Igreja. Livres das más influências da "maçã podre" que eu seria, alguns destes cromos desabrocharam, então, em padres, consta-me que já vão em cónegos, mas não sei de que categoria. Os cónegos, como já aqui expliquei, dividem-se em três partes.

Há três dias que olho para esta fotografia, e o que me vai realmente na alma não é para aqui chamado. Olho para a fotografia e parece-me (nunca me tinha apercebido) que, por um aviso qualquer, nos juntámos todos à volta do Miguel Carlos. Miguel Carlos Lobo Pinto de Oliveira, se não me engano. E nunca o esqueci.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

A munha e o munho

Recensão crítica
Resolveu fazer um estudo comparado. Mas comparado com quê? Optou então por fazer um ensaio. Ensaiou e desistiu. Estava cansado. Pediu mais uma cerveja e a conta, bebeu, pagou e foi-se embora.

Os colchões eram cheios com palha ou folhelho. E as almofadas enchiam-se com munha. Isso mesmo, munha, restos de palha moída depois de malhado ou debulhado o cereal, a que dicionários e vocabulários mais delicados talvez queiram chamar apenas moinha. Mas era munha que se dizia, pelo menos entre o povo rural naquela corda serrana de Fafe e Cabeceiras de Basto, e dizia-se muito bem. Isso. Dizia-se munha, em vez de moinha. E, tomai nota, dizia-se "munho", em vez de moinho. E essa é que essa!

O vogal que é consoante

Chiu!
Disseram-lhe que o silêncio é de ouro. Nunca mais abriu a boca e ficou rico.

É um homem muito dado, com uma vida inteira dedicada ao associativismo, às agremiações. Pertence aos corpos sociais há mais de quarenta anos, primeiro como suplente, na última década como membro efectivo da Direcção, e lá se vai aguentando, automaticamente reeleito, ano após ano. Mudam os outros, mas ele fica. É vogal. Um baluarte. E no entanto ninguém lhe conhece uma opinião própria, uma tomada de posição, um ponto de vista, um prisma, uma óptica, um ângulo de visão que se diga. Navega ao sabor do vento e sempre com a maioria, silencioso. Exigem-lhe uma decisão, e ele diz "depende". Quer-se dizer: é vogal, mas os colegas chamam-lhe consoante.

Os melhores anos da minha vida

Foto Fotografia Aliança

O futuro tem tempo
A vantagem do futuro é que está sempre dois passos à frente. Sempre.

Naquela altura eu não sabia que aqueles eram os melhores anos da minha vida. Dito com mais rigor, os primeiros melhores anos da minha vida. E que ninguém se iluda com o aspecto formal, cinzento, tão manhã submersa. Rapazinhos vestidos de homens, tão coninhas. Não éramos nada disso, pelo menos não éramos todos. Éramos, pelo menos alguns, rapazes espertos e gandulos, mas tínhamos mestres. Sorte a nossa. Sorte minha. Devo-lhes tudo. E mandaram-me embora...
Alguns destes inesquecíveis cromos deram mesmo em padres, consta-me que até já vão em cónegos, mas não sei de que categoria. Os cónegos, como me ensinaram e eu gosto de explicar, dividem-se em três partes. Lá iremos...

domingo, 14 de junho de 2026

O ouvidor de silêncios

Colhedor de sóis
Saiu para apanhar sol. Regressou de saco cheio.

Ele era um exímio ouvidor de silêncios. Ouvidor de silêncios e fafense dos antigos. Capaz de distinguir o silêncio da flor de madressilva do silêncio de uma Famel Zundapp XF17 Super.

Capitão da areia

Foto Hernâni Von Doellinger

O poeta do sol
Ele sabia de sóis. Dizia, e era bem certo: - É efémero o sol do Algarve. Uma ou duas semanas após, e lá se foi o bronzeado...

O Sr. José Leocádio morreu, dizia o jornal. Foi em Março, há dois anos, mas talvez a notícia exagerasse. Cromos assim, tão presentes, que vazam gerações atrás de gerações, ficam-nos para sempre. Figura emblemática do Porto, almirante por conta própria, maratonista estival das praias da Foz e Matosinhos, o velho Renault estacionado na avenida e a buzina de palhaço avisando lambões no meio do areal, todas as manhãs parece que o vejo e ouço ali em baixo, no Passeio Atlântico: - Ó batata frita à inglesa, batatinha!...
Diz que tinha 82 anos, setenta dos quais no ofício de vendedor ambulante. No Inverno, estabelecia ponto de castanhas assadas, na Rotunda da Anémona, onde Porto e Matosinhos se cumprimentam com vista para o mar.
Fomos praticamente vizinhos, ele e eu, ainda que desencontrados no tempo. Isto é, morei na Rua Pêro de Alenquer, na Foz, quase em frente ao sítio onde o Sr. José tinha morado uns anos antes. Mas a Mi, que por ali nascera, frequentara-lhe a casa, em miúda. E provava sempre as batatinhas, que eram mesmo caseiras, fritas todos os dias logo desde a manhãzinha. Que boas que elas eram, as batatas antigas! Mas quê? É como tudo: o que era bom, está-se a acabar... 

A Esquiça nos anais da história

Indiferença
A noite caiu. E ninguém lhe deitou a mão. É o país que temos...

Efeméride. Quer dizer: acontecimento ou facto importante que ocorreu em determinada data. Ou por outra: celebração de um acontecimento ou de uma data importante. A agência de notícias Lusa, a maior em língua portuguesa, disponibiliza diariamente uma lista dos "principais acontecimentos registados", desde sempre, no dia em questão, em Portugal e no mundo inteiro. Acontecimentos tipo a descoberta da pólvora, a invenção da roda, o início da I Guerra Mundial, a chegada do homem à Lua, o 25 de Abril ou a queda do Muro de Berlim. Os jornais replicam mais ou menos esta lista, consoante o espaço disponível e a respectiva orientação editorial.
Ora bem. Andava eu, certa vez, à procura das "Efemérides Lusa" para o dia 2 de Abril, quando, por engano na busca, coisas da idade, dou de caras, no jornal Sol, com as "Efemérides de 2 de Março". E para esse dia, no ano de 2017, o Sol aponta, resplandecente: "A taberna do pai de Jorge Ferreira, árbitro que tinha apitado o Estoril-Benfica, foi vandalizada há 4 anos, durante a noite."
Caramba! Fafe nas "Efemérides"! Eu não fazia ideia da importância para a Humanidade da ocorrência em questão, mas talvez mereça. Merece certamente. Não, de caras, no que diz respeito à façanha pífia da claque antiportista Super Dragões, mas, por outro lado, quanto à Esquiça instituição, a taberna do pai do filho, ela, sim, um acontecimento digno de registo, sobretudo derivado às tripinhas e à vitela, que já lá não vou há que tempos, caseiras, honestas e acessíveis, merecedoras realmente de figurarem nos anais da História. E, até à próxima, daqui vai um abraço para o Armindo!

sábado, 13 de junho de 2026

Pó menino e pá menina...

Esbanjador
Ele dava pérolas a porcos. E opalas a vacas leiteiras.

"Pá comida!", escreveu o jovem escultor de areia na caixinha de cartão estrategicamente colocada junto à sua mais recente criação, na praia encostada ao passeio, e já com quatro ou cinco moedas graúdas pré-depositadas. "Pó caralho!", dizia um papelinho que lá foi enfiado pouco depois não sei por quem.

O moncoso, o ranhoso... e o piolhoso

Apoio
- Força, meu amigo, força! Nestes momentos é preciso ter força. Coragem! Força, hã!?...
- Importa-se de sair e de me deixar cagar em paz?...

Moncoso e ranhoso. Conceitos sinónimos, porém idiossincráticos. O moncoso é o tipo dos moncos ao dependuro, sujo, imundo, badalhoco, ranhoso - cá está -, asqueroso, desprezível, desprezável, baixo, sórdido, vil. Um bandalho, um pulha, um bardamerda.
Por outro lado, o ranhoso é o tipo que tem ranho, ranhento, ranhenta, moncoso - cá está -, teimoso, astuto, foleiro, reles. O verdadeiro filhodaputa.
Moncoso e ranhoso são nomes que se chamavam antigamente. Em Fafe chamavam-se muito. Eram nomes feios, ofensivíssimos, do piorio, ao nível, por exemplo, de... piolhoso. Mas isso já é outro assunto.

Está nas nossas mãos

É de homem
Homem que é homem não joga à malha. Faz.

Há que tempos que eu não via uma coisa assim: uma mulher, ainda nova, a fazer malha num transporte público. Descontraída, com um sorriso nos lábios e manuseando habilmente o frenético par de agulhas, como num duelo, ia dando forma ao novelo de lã que, aos arranques, se lhe esvaía do colo. Era uma camisola, pareceu-me. E, a cena, um delicioso anacronismo. O metro do Porto é sítio para tudo, já vos digo, principalmente para tudo o que meta navalhas, apalpanços, telemóveis, bisnagas amaciadoras e calhamaços do José Rodrigues dos Santos ou do Stephen King. Mas fazer tricô é que eu nunca tinha visto. E gostei.
Passaram-se dois dias. Num jardim fronteiro à praia de Matosinhos, um jovem casal gozava o sol de fim de Verão e aproveitava para ensinar a filhita a andar de bicicleta. O pai acompanhava a menina em correrias, dando-lhe as instruções elementares, mas a mãe sentou-se. Sentou-se, abriu a bolsa, rapou de um pequeno embrulho que eu primeiro não distingui e, com a agilidade de uma experimentada bonecreira, começou a bater-se com quatro-agulhas-quatro, tantas quantas são precisas para tricotar meias de lã. Era o que ela fazia, uma meia. E percebi.
Percebi que isto agora não é só gosto, moda ou revivalismo, terapia ocupacional. É sobretudo precisão, que neste caso quer dizer necessidade. Isso. Voltámos ao melhor do pior de antigamente. O Portugal democrático, da Europa, dos milhões, das auto-estradas, das universidades, dos satélites, da inteligência artificial e do século XXI é afinal igual ao Portugal fascista e "orgulhosamente só", poeirento, obscurantista e pobre do tempo em que a minha mãe, por imposta carência e esperta poupança, fazia todas as minhas camisolas e as camisolas dos meus irmãos, e que categoria que elas eram, tenho uma comigo vai para cima de quarenta anos...
Por outro lado, lembrei-me, pode estar exactamente aqui a salvação do País. Permiti-me que lance o desafio: porque não transformar o tricô num desígnio nacional? Porque não começarmos todos a fazer malha para fora? Ou entrançados de palha de Fafe? Porque não pôr este país de desempregados e falidos a dar ao dedo de norte a sul e ilhas, elas e eles, e apostar na internacionalização e exportação em barda das nossas ricas peças, tão procuradas por turistas e similares? Sim, porque não? Afinal, o que é que as natas, os pastéis de Belém e o pudim da TV são mais do que os camisolões, os coturnos ou os chapéus e seiras genuinamente made in Portugal? E quem diz Portugal, diz Golães, Paços ou Travassós.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

A mania da praia

Uma questão de tempo
"Agora, infelizmente, é apenas uma questão de tempo", disse o médico. E continuou: "Para amanhã prevêem-se aguaceiros, em especial nas regiões Norte e Centro, vento forte nas terras altas, pequena descida de temperatura e agitação marítima forte na costa ocidental."

A praia, é preciso que se note, não é obrigatória. Podem ser férias e não ir à praia. Pode ser Verão e não ir à praia. Pode ser feriado e não ir à praia. Pode ser domingo e não ir à praia. Pode ser sol e não ir à praia. Pode ser calor e não ir à praia. Pelo contrário: se for sol, se for calor, muito calor, o mais sensato até será ficar em casa, à sombra, ou procurar uma fresquinha no quintal mais próximo. Acreditai no que vos digo, há quarenta anos que moro à beira-praia e sei muito bem do que falo. E palavra de honra: não ir à praia não parece mal, não é crime e tampouco desmazelo ou falta de educação.

Brincando com o trabalho infantil

Cresce e aparece
A verdade é esta: se quer ser levado a sério, o trabalho infantil precisa de crescer.

O trabalho infantil é uma tragédia, uma vergonha, sobretudo se a criança ajudar no campo os pais pobres e lerdos para haver alguma comidinha à mesa. Pão, por exemplo. E era assim em Fafe antigamente, as crianças trabalhavam como gente grande.
O trabalho infantil é muito bem, um orgulho, principalmente se a criança entrar numa telenovela ou se for modelo de moda ou se for imitador de cantores adultos e der na televisão, enriquecendo os pais remediados e vaidosos. E a parte da televisão é aqui importantíssima.
Depois há ainda as crianças, estas são do piorio, que, órfãs de tudo e até de tecto, fazem sapatilhas de marca para os pés das entrevistadoras e dos entrevistadores da televisão que entrevistam as crianças que entram nas telenovelas e nas passarelas e nas cantigas e para os babados progenitores, que no fim pedem recibo de viagem e presença para descontar no IRS.
Parece que a diferença está nisto, segundo percebi uma vez no programa Sociedade Recreativa da RTP: os miúdos das telenovelas e da moda e do cançonetismo têm "agente". Os moncosos do campo, das fábricas, da rua, não.

E sabeis que mais? Portugal aprovou o primeiro regulamento do trabalho de menores em estabelecimentos fabris no dia 14 de Abril de 1891. Sim, do trabalho de crianças nas fábricas. E acredito que tenha sido um grande avanço civilizacional.

A minha rua era um largo

Foto Hernâni Von Doellinger

Memória
Ele era um notável decorador de interiores. Para exteriores é que já não tinha muita cabeça.

A minha rua era um largo. Santo Velho, como lhe chamavam os antigos, ou apenas Santo, o Santo, como lhe chamávamos nós os íntimos, os da rua propriamente ditos, ali nados e criados, os que já sabíamos do britânico Roger Moore, que fazia de Simon Templar na televisão do Peludo, a preto e branco, isto antes de atravessar a rua e fazer de 007 no nosso Teatro-Cinema, já a cores. Evidentemente que, para os devidos e legais efeitos, a minha rua tinha nome de data: Largo 9 de Abril, curiosamente à moda do Porto, onde 9 de Abril costuma dizer-se Arca d'Água. Eu, que até sabia da Batalha de La Lys, nunca consegui perceber o que é que a guerra de catorze a dezoito tinha a ver tão especialmente com a minha rua, e pelos vistos os doutores da Câmara também não, uma vez que de repente, não sei precisar quando, resolveram mudar-lhe o nome para Rua dos Bombeiros Voluntários. E fará um pouco mais de sentido chamar-lhe assim, embora não tenha sido por isso: na minha rua havia realmente bombeiros em quase todas as portas, e nalgumas casas eram a família inteira.

O Santo Velho era Velho por causa do Santo Novo, uns campos de milho ao lado, onde se estabeleciam o Colégio dos ricos e a Escola Industrial dos remediados, que é hoje a Casa da Cultura. Os pobres, que aguentavam a pirâmide, iam trabalhar para a Fábrica se tivessem sorte. Em Fafe, a Fábrica assim com maiúscula, fábrica por antonomásia, era a Fábrica do Ferro, que por acaso era de fiação e tecidos.

A minha rua era um terreiro onde jogávamos ao espeto, ao pião e à bola, o que, neste último caso, arreliava sobremaneira a Milinha Parola, que ameaçava estraçalhar-nos o esférico à tesourada, bastava que lhe fizéssemos alguma tangente aos vidros sempre limpos. A Milinha era Parola (ou Modista, como eu gostava mais) para se distinguir da Milinha Vaqueiro, quatro números acima. As Milinhas não se davam e a minha mãe é que intermediava. Porque o Santo, ou não se chamasse assim, era sobretudo um território de paz, de famílias, de família. Os miúdos éramos todos uma irmandade, os pais e principalmente as mães às vezes é que não, mas muito raramente. Na minha rua éramos vizinhos. Éramos comunidade.

A minha rua era um largo com vista para o mundo. O mundo era então cientificamente plano, a descair para o Picotalho e para a Granja e delimitado em cima pelos tascos do Paredes e do Zé Manco, com as Grilas de um lado e as Turicas do outro, e em baixo pela Quelha, pela Poça e pela casa brasonada com capela do Senhor Doutor, onde o Senhor Abade ia dizer missa com esmolas. Pela Páscoa, era na Casa do Santo Velho que se reuniam todas as cruzes no fim tardeiro do compasso, seguindo depois para a Igreja Nova, em galhofeira procissão de sinetas exaustas e descompassadas, nas últimas. Tínhamos o poeta Zé de Castro, duas tílias e um cilindro. Tínhamos velhotas excêntricas. Tínhamos bebedolas residentes e bêbados de visita. Tínhamos casas de lavradores, esfolhadas nocturnas e matança do porco. O Santo cheirava a eido, a estrume, a engaço, a vinho purinho e a pão. A minha rua cheirava a vida. Tínhamos o Maló cantando Frei Hermano da Câmara na esquina do velho Lermas, tínhamos o ceguinho das quartas-feiras e a Mocha e a Senhora Filomena com sardinhas, fanecas e chucharros, indesmentíveis chucharros.
Tínhamos as castanhas assadas da Maria Barraca e os tremoços na Marrequinha da Recta. Tínhamos o funileiro Barnabé que era músico mas não tocava tangos, um sapateiro, um carpinteiro que foi para França, duas ou três loucas mansas e o Professor Luís, que, esse sim, tocava na guitarra eléctrica o "Apache" dos Shadows muito melhor do que os próprios, e no entanto já era careca o bom Professor, o que me confundia um bocadinho. Eu plantava-me no meio da rua a ouvi-lo, deliciado. Eu era a terceira tília, cresciam-me raízes nos pés. Tínhamos carros de bois gemendo pelas manhãs e rebanhos de cabritos nas vésperas da Senhora de Antime e da morte. Tínhamos o Chiquinho Varandas, que uma ocasião andou à luta com o macaco do Homem Mais Forte do Mundo. Tínhamos padeira, azeiteiro e mendigos ao domicílio. Os mendigos chamavam-se pobrezinhos. Tínhamos tojo estalando ao sol no passeio. Corríamos à coiada os moços das outras ruas, queimávamos o Pai das Orelheiras pelo Entrudo, cantávamos as Janeiras e os Reis, celebrávamos o Dia dos Enganos, desajudávamos nas vindimas do Sr. José e do Sr. António e nas lavras do Tónio Quim Calçada, os três bombeiros e mestres de vida, íamos de borla ao cinema, que era praticamente nas traseiras da rua, festejávamos o Santo António de Lisboa e de Pádua, vede lá o cosmopolitismo, encostando a cascata ao cilindro abandonado, se calhar por empreiteiro falido, do lado de lá das casas do Sr. Agostinho Cachada e do Sr. José Sacristão, gente também de primeira e bombeiros obviamente. A procissão da Senhora passava-nos à porta e tocava a sirene da Bomba. O nosso Santo António era de arromba. Botávamos altifalantes a sério, "Tango dos Barbudos", "Fado das Trincheiras", o "Je T'Aime Moi Non Plus", que me incomodava o andar e eu ainda não sabia porquê. Fogueteávamos a bom foguetear: eram foguetes de três-croas, foguetes envergonhados, quase peidos, se me dais licença, géu, géu, trás, trás, adeus e até ao próximo. E tínhamos girândolas e diabos-encaixados. Tudo comprado no Rates, que era mais ou menos no local onde esteve escondido o monumento à Justiça de Fafe, anos a fio, e que agora é uma praça como muito uso e sítio de peregrinação. Quase tudo comprado no Rates, devo corrigir-me, em abono da verdade. O Rates era o proprietário mas também o sítio, lojinha de uma porta só, minúscula, escura, esconsa, tipo vão de escada, e nós íamos em bando para nos aproveitarmos das distracções do homem, a antipatia enfiada numa larga bata de sarja cinzenta e com manguitos negros, e metíamos ao bolso tudo o que lá coubesse. Levávamos muitos bolsos e o mais certo é que o Senhor Rates até fosse boa pessoa.

Estávamos portanto no Santo Velho, quando a minha rua era um largo de terra e tílias e nem desconfiava que um dia havia de ser uma estrada com dois cruzamentos, semáforos e tudo. Hoje a nossa cascata seria multada por estacionamento proibido. E nós morremos ignorantes e breves, desmemoriados pedra a pedra.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Cruzes, canhoto!

Sismando
Ao contrário do que o próprio nome indica, o Happy Centro é um sítio deveras perigoso.

O canhoto é o diabo. O demónio. Satanás. O que escreve com a mão esquerda. O que chuta com o pé esquerdo. O canhestro. Ou o desajeitado. Ou o talão que não se destaca no livro de recibos, guias ou cheques. Ou o pedaço de lenha para a fogueira, o pau torto, grosso ou nodoso. Em Fafe, é também o arrocho, o toro, o tronco, o toco, a pernada decepada, o cepo. E a mulher do canhoto é a canhota. Que é uma variedade de amêndoa algarvia, de fruto arredondado, com casca dura e miolo elíptico alargado de tonalidade clara. Ou um moinho de água, uma azenha. Ou a espingarda, na tropa. É. A língua portuguesa pela-se por uma boa brincadeira.