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quarta-feira, 24 de junho de 2026

Os Antigos

O lugar da mulher
Lá vão ligeiros, marido e mulher conversando pela rua, ele à frente e ela um passo atrás, coisa de antigos. Têm uma filha. Casou. Lá vai ela jovem e ligeira conversando pela rua com o marido a estrear, ela atrás, o homem um passo adiante, porque o respeito é muito bonito.

Os Antigos sabiam tudo. No tempo dos Antigos é que era. Havia respeito, havia educação, bondade, sabedoria, paz, saúde, velhice e emprego para todos. Havia Portugal.
Os Antigos eram sábios. Sabiam de laranjas - de manhã ouro, à tarde prata e à noite mata. Sabiam do tempo - em Abril, águas mil. Sabiam de horas e alturas - deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer. Sabiam de curas e maleitas - o vinagre e o limão meio cirurgião são. Sabiam de tubérculos e famulagem - não comas caldo de nabos nem o dês aos teus criados. Sabiam de presigos e segurança pública - sardinha sem pão é comer de ladrão. Sabiam de magustos e viagras - a castanha excita o coito e alimenta muito. Sabiam de proporções - bom comer: três vezes beber. Sabiam de criação e divindades - ao menino e ao borracho põe Deus a mão por baixo. Sabiam de prestidigitação e utopias - mais vale um pássaro na mão do que dois a voar. Sabiam saltar a cerca - a galinha da vizinha é sempre melhor que a minha. E sabiam guardar um segredo - o corno é o último a saber.
Com tanta sabedoria, os Antigos morriam muito, mas morriam muito velhinhos, isto é, por volta dos cinquenta, sessenta anos.
Os Antigos não andavam por aí aos tiros. Andavam às pauladas, às facadas, às sacholadas - e aos tiros.
Os Antigos não matavam por dá cá aquele palha. Matavam por causa da água - e geralmente por causa do vinho.
Os Antigos não emprenhavam raparigas solteiras a torto e a direito. Os filhos de pai incógnito eram realmente mais que as mães, mas eram milagres.
Os Antigos não toleravam e até perseguiam os maricas, isto é, os paneleiros, porém consideravam razoável que o senhor padre fosse ao pito às moças da paróquia e brincasse com as pilinhas dos meninos da catequese.
Os Antigos achavam que melhor que um Salazar só dois Salazares. Melhor ainda, um Salazar em cada esquina. Três Salazares em casa esquina. Entre Salazar e Fátima, é que os Antigos não sabiam bem...
Os Antigos sabiam como fazer homens. Pegavam nos rapazes e mandavam-nos para a tropa, se possível para a guerra. E o futebol não era para meninas.
Os Antigos eram puros. Não gostavam de pretos. Nem de monhés. Nem de ciganos. Nem de imigrantes. Nem dos outros em geral. E iam muito à missa e à sagrada comunhão.
Os Antigos faziam muitos filhos. E batiam-lhes. E também batiam nas mulheres, mas por amor. Os Antigos gostavam muito de bater. Batiam porque tinham razão, batiam para ter razão. Batiam por vontade de Deus. Os Antigos davam pão e também educação. A educação dos Antigos.
Os Antigos sabiam o lugar da mulher. Em casa. Na cozinha. A fazer croché. E se saíam juntos à rua, era marido à frente e mulher um passo atrás, como Nosso Senhor ensinou e está na Bíblia.
Os Antigos respeitavam muito as esposas. Por isso iam às putas.

domingo, 10 de maio de 2026

Condutora inteligentíssima

Pegada ecológica
Tinha uma pegada deveras ecológica. Fosse aonde fosse, ia sempre em pezinhos de lã.

Um casal de idosos num daqueles carrinhos portáteis, os papa-reformas, como alguém teve a feliz ideia de lhes chamar. Nas calmas, evidentemente. Atrás do carrinho de corda, uma condutora de um veículo a sério (à séria, se lido em Lisboa), talvez eléctrico, uma verdadeira automobilista. A condutora, jovem e dinâmica, urgente, tem óculos de sol e pressa de ambulância: buzina, assobia, gesticula, grita através da janela aberta:
- A passear!?...
Era domingo, duas da tarde, na ensolarada estrada à beira-mar. Condutora inteligentíssima! Sim, às tantas os velhos iam mesmo a passear...

sexta-feira, 8 de maio de 2026

O dia em que envelheci

Já não vamos para velhos
A verdade é esta: biblicamente falando, Moisés viveu até aos 120 anos, Jacob até aos 147, Abraão até aos 175, Adão até aos 930, Noé até aos 950, e Matusalém, filho de Enoque, pai de Lameque e avô de Noé, faleceu de repente aos 969 anos. Antigamente era assim. E agora? Agora andamos à rasca para chegarmos aos 60 e damos graças a Deus se alcançarmos os 70, embora a esperança média de vida na Europa ronde os 82. Regra geral, metemos os papéis para a reforma e morremos logo a seguir. O que estará por trás desta alteração tão radical? Glaciares, asteróides, falta de médicos de família ou tão-só falta de fé, não tenho a certeza, mas creio que a segurança social também já não aguentava tanto profeta...

Sei muito bem o dia em que envelheci. Foi de repente. Sei o ano, sei o mês, sei o dia e até sei a hora, mas tanta exactidão não vem aqui ao caso. Sei o local e sei as circunstâncias. Foi de manhã. Foi no Hospital de Gaia, numa consulta de medicina do sono, creio que a coisa se chamava ou chama assim. A dado passo da bateria de exames e do minucioso inquérito, a médica perguntou-me, surpreendentemente: - Quando era novo, o Sr. Américo já sentia este cansaço?...
Eu ia caindo de cu. Primeiro. Esta mania de me tratarem pelo meu primeiro nome, Américo, nas consultas e, em geral, em todos os serviços públicos ou privados que exigem a competente apresentação de credenciais. Não sei, chamam-me Américo e eu, que estou tão habituado a chamar-me Hernâni, procuro sempre outro indivíduo ao meu lado, no meu próprio lugar. Sinto-me outra pessoa, um estranho de mim mesmo. Tratar-me por Américo é um privilégio que está reservado ao meus companheiros da escola primária, em Fafe, e, mesmo com esses poucos que ainda se lembram de mim, nunca sei se é comigo que estão a falar quando falam comigo. O Bergiguinha chama-me Américo com todo o direito, mas diz que chama Américo a todos os homens da minha família. Segundo. "Quando era novo", disse ela. Quando era novo?! Porra, eu ainda sou novo, tentei corrigir gentilmente a senhora doutora, atirando ao ar duas ou três larachas e apanhando-as, a todas, sem deixar cair, disparando-me da marquesa, acto contínuo, num acrobático salto encarpado, com duas piruetas à retaguarda.
Mas não adiantou. Pelo contrário. A doutora insistia, parecia-me agora que com algum prazer, com uma certa maldade, "quando era novo" para aqui, "quando era novo" para ali, "quando era novo" acima, "quando era novo" abaixo, e quem sou eu para contrariar o veredicto da medicina, a sábia decisão da ciência?
E foi assim. Nesse dia, naquele preciso momento, fiquei velho para toda a vida e até hoje, por indicação médica e sem remédio. Eu acabara de fazer 41 anos.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Troca-se neto por cão

Trunfo é paus
Quatro tigres-de-bengala. Jogam sueca e contam antigamentes, na fresquinha do jardim.

Três rapazes nos arrabaldes dos cinquenta anos, amigos de longa data, desde o tempo dos juniores, gente bem posta, certamente da melhor burguesia local, fazem o costumeiro passeio matinal pela fartura verde do Parque da Cidade. O rapaz da esquerda empurra um carrinho de bebé com uma vaidade que só vista, e é bonita de se ver. Os outros dois vão à rasca até às orelhas, envergonhadíssimos com "a situação", evitam ser reconhecidos por quem passa, mais desconforto era impossível. O da direita puxa o do meio pela manga e diz-lhe, tapando a boca com a mão, como fazem agora os treinadores e jogadores de futebol quando querem falar da mãe de alguém e sabem que há câmara de televisão por perto: - Se inda ao menos fosse um cão, um canito! Agora o caralho do neto...

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Indelicadeza, por ordem da gerência

Para cus quadrados
Saio pouco. Outro dia levaram-me ao restaurante da moda e quase morri de espanto quando fui à casa de banho e descobri a sanita rectangular. Pensei, ensarilhado nas ideias e nas calças arriadas, antes de fugir pela janela, redonda por sinal: - Será que os cus mudaram de feitio e o meu não foi avisado?

Aflitíssimo, entrei no café e pedi: - Por favor, dá-me licença de utilizar a casa de banho? -. Estava preparado para receber uma de duas respostas, "sim" ou "não", mas deram-me a terceira: - Vai tomar alguma coisa? - Eu disse que beberia uma água e tornei a pedir: - Por favor, dá-me licença de utilizar a casa de banho? - Que assim sim. Utilizei então a casa de banho, isto é, urinei com parcimónia, fiz uma descarga de autoclismo, a mais pequena, limpei do chão duas pingas que se perderam pelo caminho e lavei as mãos. Evidentemente eu poderia sair da casa de banho do café e vir-me embora como se nada fosse, mas dirigi-me ao balcão para tomar a água contratada. Aproveitei para explicar calmamente ao jovem e educado funcionário que um dia, quando ele for mais velho, talvez da minha idade, vai ficar tipo fodido por lhe fazerem a ele o que ele me fez a mim. O jovem e educado funcionário disse-me que é desta maneira que ali se trabalha, por ordens da gerência. Paguei um euro e meio pela água e estou arrependido: não sei se o dinheiro chegava, mas, em vez de beber a puta da água, devia ter comido um biju. A água pôs-me outra vez à rasca no caminho até casa. Vim a correr e a saltar, a apertar-me, e, com vossa licença, mijei-me pernas abaixo mal consegui abrir a porta...

terça-feira, 31 de março de 2026

O sexo e outras modernices

Uma questão de compasso
- "Une valse à mille temps..." - disse ela, prometedora e coquete, fazendo rodar a saia plissada. - Eu não! - disse ele, apressado e javardo, arriando calças e cuecas...

"Isto agora é só sexo! Que vergonha! Que nojo!", resmungou a velha senhora, sem mais nem menos, ou como quem simplesmente dá os bons-dias. Era deveras uma senhora vetusta, recatadamente vestida e calçada, mas com aprumo, assim a modos de irmã da caridade à paisana. O cabelo curto, arcaico, pretíssimo como só ao alcance do Restaurador Olex, as mãos cansadas e a voz decidida. "Isto agora é só sexo! Que vergonha! Que nojo!", foi o que ela disse e redisse, num veemente protesto saído do nada, acrescentando em tom menor, enquanto tentava abrir o porta-moedas: - Quanto é?...
Estávamos na padaria, com efeito. Ao balcão. Para além do desabafo, bem ensaiado, a velha senhora também queria pagar os dois bijus que já guardara na saca de pano com bordados de Viana. Atrás, na fila para a máquina registadora, uma senhora um bocado menos idosa e aparentemente mais arejada deu ideia de não ter gostado muito daquilo do "Isto agora" e retrucou, numa censura mansa:
- É por isso que no tempo da senhora as raparigas solteiras não apareciam grávidas sem se saber de quem...
- Mas eu nunca! Sabe quantos anos tenho? No-ven-ta! Noventa anos, e eu nunca!... - explodiu teatralmente a velha senhora, que encontrara enfim o que de facto viera buscar: uma discussão. Para isso saíra de casa.
- A senhora não, mas outras sim... - devolveu-lhe a senhora um bocado menos idosa.
- Não se compara! - atirou a velha senhora. - Agora não querem outra coisa, ainda ontem, ali na esquina do Cinema, um rapaz e uma rapariga naquilo, aos beijos e abraços, sempre naquilo, a fazerem sexo, pareciam cães, e a televisão é só sexo, sexo, sexo, de manhã à noite e pela noite dentro, sexo, sexo, sexo, que eu bem vejo... - e de repente ia-lhe faltando o ar, coitadinha, ou então o chilique também fazia parte.
Acudiu-lhe a senhora um bocado menos idosa:
- Olhe, minha senhora, faça como eu, não veja televisão. Na verdade, algumas notícias metem mesmo nojo. E com isto da pedofilia, dos abusos dos padres, dos bispos que esconderam tudo, até já nem sei se meta a minha netinha na catequese...
- Meta, meta! - mandou a velha senhora, voz da vida e da experiência, saudosa do respeito de antanho. - Isso não faz mal nenhum... - explicou. - Isso dos padres é uma coisa muito antiga. Eu era pequena, ao tempo que isso vai, e o nosso padre já andava metido com a minha catequista. Com ela e com outras, que ele levava tudo a eito. Mas não faz mal...

terça-feira, 17 de março de 2026

Flores ao solheiro

A invenção da sogra
Consta que os muçulmanos introduziram a nora em Portugal. Gostaria de saber: e quem terão sido os espertinhos que nos introduziram a sogra?

Um restinho de sol e lá se sentavam elas comparando doenças e façanhas de netos havidos ou inventados. Rosa, Violeta, Hortênsia, Camélia, Margarida, Dália, Açucena - evidentemente no jardim imaginário, ao entardecer da vida.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Pobre e mal agradecida

Ofender não ofende?
Há coisas que não se compreendem: como é que um erro defensivo pode ser mais grave do que um erro ofensivo?

Estais a ver uma daquelas mulheres espectaculares, tão espectaculares que até parecem travestis? Ela era isso. Mas em mulher, definitivamente em mulher. Mulherão. Vi-me à rasca para segurar o maxilar inferior enquanto lhe tirava as medidas como quem não quer a coisa, e à distância. Até que pousei os olhos na ganga.
Levantei os olhos da ganga, condoído, e atravessei a esplanada o mais discretamente possível, andando às arrecuas para ninguém suspeitar de que eu ia ter com ela, abalroei uma mesa e três cadeiras, obviamente para disfarçar, accionei o modo de visão periférica, aproximei-me do alvo sem colocar em causa a minha própria segurança e avisei-a ao ouvido, quase num sussurro, mais segredo era impossível:
- A menina desculpe, não deve ter reparado, mas tem as calças deveras rotas nos joelhos. E, agora que cheguei aqui à beira, verifico que também estão razoavelmente esgaçadas nas coxas. Caiu?...
Ui, levei uma data que nem queirais saber. E em versão megafónica. Eu, que só queria ajudar...

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Eu, que só queria ajudar

Prò menino e prà menina
Bimba e lola para senhora, bimbo e lelo para homem. É a moda.

Era um rapaz dos seus 16-17 anos, se calhar 15 ou 18, ou 13, nunca fui muito bom nisto de acertar. Mas, pronto, desencaixotei o meu melhor sorriso e chamei o rapaz à atenção:
- O caro jovem fará o favor de me desculpar, não deve ter reparado, mas acontece que tem as calças a caírem-lhe, com licença, pelo cu abaixo. Vêem-se-lhe as cuecas inteiras, são de marca e ficam-lhe muito bem, mas às tantas, se não lhes deita a mão, as calças arriam-se-lhe até aos artelhos, o caro jovem enrodilha-se nelas e ainda se estende ao comprido, com consequências que lamentavelmente poderão redundar em consideráveis danos físicos e quiçá materiais.
O rapaz, talvez 19 anos, ou 12, continuo sem saber, olhou-me da cabeça aos pés com assinalável fastio, viu-me o cabelo branco, pouco e desorganizado, a barba grisalha de mês e meio, a mochila desengonçada às costas de uma T-shirt que há muito, muito tempo foi azul, as calças de fato-treino de cor incerta e largas como as dos palhaços, as sapatilhas brancas, a esquerda furada na biqueira (eram do meu filho), tentou adivinhar-me a idade e deve ter acertado em cheio, lançou o cigarro ao chão, o escarro seguiu o mesmo caminho, e respondeu-me um cagasésimo de segundo antes de me virar costas:
- Vai-te foder, velho do caralho...
Francamente, o que é que o rapaz pretenderia dizer com aquilo? Eu, que só quero ajudar...

Moral da história: chama-se a atenção quando se pretende despertar interesse ou curiosidade, quando se quer dar nas vistas; chama-se à atenção quando se deseja fazer uma crítica ou algum reparo. É. Os acentos fazem uma certa e determinada diferença.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Diálogos fafenses 46

O velho tinha razão
- Estou um velho - disse o velho.
- Não está nada - disse a visita.
- Um caco - disse o velho.
- Como novo - disse a visita.
- Já não duro muito - disse o velho.
- Inda vou primeiro - disse a visita.
- Dói-me tudo - disse o velho.
- É da idade - disse a visita.
- Ai que eu morro - disse o velho.
- Morre nada - disse a visita.
- Morro, morro - disse o velho.
- Não, não morre - disse a visita.
- Morro - disse o velho.
E morreu. Até porque já estava a ficar chateado.

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

O Menino Jesus morreu sozinho

E se o Natal for mentira?
Era uma vez a notícia: "Idoso morreu sozinho em casa com hipotermia. Morreu Fulano de Tal, 68 anos, deficiente motor, residente em Pombal, Alfândega da Fé, que há vários meses vinha pedindo a institucionalização num lar de idosos. Perdeu a vida, na sexta-feira, após ter dado entrada no hospital em situação de hipotermia."

O Menino Jesus morreu. Tinha 84 anos e era o mês de Maio de 2012. O corpo do indivíduo do sexo masculino foi encontrado por acaso, rodeado de solidão e lixo, na casa onde resolvera fechar-se ninguém soube dizer-me há quanto tempo. As autoridades sanitárias, que não têm culpa do nome que lhes puseram nem do vocabulário e da gramática que lhes deram, suspeitam que o óbito terá ocorrido pelo menos cinco dias antes da macabra descoberta. Azar do caraças: dois dias a mais. Ao terceiro safou-se o Outro.
Estais a ver? Estais a ver aquele senhor esquisito e careca que vestia sempre um casaco de cabedal preto quase até aos pés, tipo Gestapo, Deus lhe perdoe, pasta na mão e calças zangadas com os sapatos como agora se usam, mas eram à boca-de-sino? O senhor que apanhava o autocarro que vai do Castelo do Queijo até à Baixa do Porto? Estais a ver? Exactamente: era esse o Menino Jesus, que também ninguém sabe dizer-me porque se chamava assim, só se fosse por ser um bocado extraordinário como o Outro.
O Menino Jesus foi engenheiro e solteiro. Parecia-me uma figura de Fafe, um dos meus cromos antigos. Viveu sempre com a mãe, mas a mãe morreu antes dele e isso fez-lhe diferença. São tragédias a que raramente ligamos, porque, adultos como somos, achamos que as mães só fazem falta às criancinhas pequeninas, erro crasso. Quando passou a viver sozinho, durante mais de vinte anos, o Menino Jesus preferiu desviver até ao fim. Ali mesmo, em Nevogilde, num dos largos mais ruralmente nobres da cidade do Porto, zona de ricos.
Sou pobre, mas passava lá quase todos os dias, por deveres ou opções que não vêm aqui ao caso. Vi uma vez uma equipa da polícia a bater-lhe à porta. A PSP e a GNR andam a fazer um trabalho inestimável de identificação e encaminhamento dos idosos que moram sós e em risco. Acredito que têm salvo e melhorado muitas vidas e só peço que se lembrem de mim se chegar a minha vez. Mas sei que a porta do Menino Jesus nunca se abriu.
O Menino Jesus morreu no mês de Maio de 2012 e continua a morrer por aí. O Menino Jesus morreu sozinho. E não devia. Não por ser Menino Jesus e "rico", mas porque ninguém deve morrer sozinho, sem uma mão dada, uma palavra mansa ao ouvido, um céu com estrelas para olhar. Já basta o que basta: morrer, ainda que de velho, já deve ser fodido que chegue, regra geral. E confesso que não sei se o Menino Jesus tinha precisamente 84 anos, foi o que me constou. Os jornais do dia seguinte talvez tivessem dado a idade certa do homem, porque às vezes falam verdade nas notícias pequenas, breves. Ou então morreu apenas mais um octogenário, em contramão com a vida.

domingo, 19 de outubro de 2025

Ben-u-ron, uma questão de fé

Viciado em pastilhas
Tomava pastilhas atrás de pastilhas, mas não havia maneira de melhorar. Eram pastilhas de travão e ainda por cima davam-lhe gases. 

A minha sogra gosta muito do Ben-u-ron. Reclama "o meu Banuronzinho" por tudo e por nada, geralmente só para marcar posição de doente diplomada, inscrita na ordem e com as quotas em dia, questão de princípio, mas também para a insónia ou para a sonolência, para a garganta seca ou molhada, para o frio e para o calor, para as correntes de ar e para o mau-olhado, para a diarreia ou para a prisão de ventre, para os arrotos, soluços e espirros, para a flatulência ou para a surdez ou para a anosmia, para as unhas encravadas ou para os pêlos do nariz. A minha sogra só não quer Ben-u-ron para as dores de que se queixa como quem reza o terço em latim ou para a febre que felizmente quase nunca tem, por mais que meta o termómetro. Mas para o resto - isto é, para aquilo que não diz respeito ao Ben-u-ron -, a miraculosa pastilha é trigo limpo, farinha amparo. "Tenho muito fé no Banuron!", justifica a minha sogra. A Joaquininha decerto tem razão, vai a caminho dos 94 anos e, portanto, só pode ter razão. E eu, verdade seja dita, questões de fé não discuto...

terça-feira, 30 de setembro de 2025

Ó filha, se mo desses!...

Para o maneta
O povo é tolo, e manda tudo para o maneta. O Maneta aproveita, já comprou carro novo e está a fazer obras em casa. À pala.

Era uma senhora de idade, e quando digo senhora de idade quero dizer uma senhora um bocadinho mais velha do que eu, que também sou um senhor de idade. A senhora estava aflita no multibanco, à boca da rua, mesmo no centro de Fafe, e ainda por cima era quarta-feira. Que confusão! A senhora pretendia consultar o movimento da conta, a opção não se encontrava disponível, a máquina não dava talões, ela queria vir embora, sair dali, ir para casa, mas não sabia o que fazer para reaver o cartão, que continuava enfiado lá nas profundezas da ranhura, como se tivesse caído num buraco negro. A senhora pediu ajuda a quem passava e uma alma caridosa mandou-a carregar na "tecla vermelha", ela carregou, nervosa, atabalhoada, enganou-se, tornou a carregar, e enquanto isso já a máquina lhe solicitava, em alta voz, feminina e maviosa, "Por favor, retire o seu cartão!", e o Largo inteiro a ouvir. A voz solicitou uma, solicitou duas vezes, "Por favor, retire o seu cartão!", parecia que impaciente, acusadora. E a senhora, cheia de vergonha e já de cabeça perdida, respondeu-lhe no mesmo tom, em desespero de causa: - Ó filha, se mo desses!...

domingo, 14 de setembro de 2025

Vós não sabendes nada!

Gaba-te cesta
Era um homem muito antigo. Falavam-lhe em gigas e ele imaginava cestas...

Uma rapariga da minha idade, isto é, uma "idosa", descendo a Arcada em direcção ao Mário da Louça se ainda houvesse, em passeio, de braço dado e discutindo alegremente com o neto, moço com ares de universitário repetente e bem disposto, os dois perdidos de riso. Quadro bonito. Flagrante exemplar da harmonia familiar e do eterno conflito de gerações, a sabedoria dos antigos contra a ignorância de hoje em dia. E diz ela, toda despachada e gramatical, aritmética, falando para o rapaz, sim, mas sobretudo para o redor, para quem a quisesse ou não ouvir, e suspeito que especialmente para mim, que lhe pareço de igualha e vou em sentido contrário, apontado à memória do Américo das Bicicletas: - O quê? Eu até sei as letras romanas, quanto mais! Vós agora é que não sabendes nada...
E realmente.

Agora, uma revelação. O Sr. Américo das Bicicletas, que eu conheci muito bem, era, se não me engano, padrinho do meu padrinho e tio Américo. O que quer dizer que o Sr. Américo das Bicicletas era praticamente meu padrinho-avô, e eu nunca tinha pensado nisso, o que é extraordinário. Pensei hoje, agora, sem mais nem menos, ou por causa dos números romanos, e fiquei muito feliz. Porque eu gostava muito da figura do Sr. Américo das Bicicletas.

sábado, 13 de setembro de 2025

E viva o velho!

Quando for pequeno
"Quando for pequeno, quero ser palhaço e astronauta", disse o ancião, sonhador e triste. Com efeito, aquela sociedade funcionava às arrecuas: nascia-se velho e morria-se a chupar no dedo. Era naturalmente governada por garotos.

Estou mortinho que chegue o Dia Mundial da Terceira Idade, dia dos nossos velhinhos, coitadinhos, nem que tenha de ser antes. Que festa tão bonita! Levantar cedo, roupinha de domingo, pó de talco e perfume, chá e bolachas e ala para a camioneta, nem que não queiram. Lá vão os nossos velhinhos de cu tremido, cantando bonitas cantigas do Quim Barreiros ditadas ao microfone pela senhora doutora da Junta, que até já foi ao Preço Certo e agora é candidata. Missinha, santa missinha, um regalo, nem que não queiram, e Quinta da Malafaia para enfartar a mula, nem que não queiram, tantos velhinhos, tantos velhinhos, ó que extraordinário velhódromo, velhinhos de tantos lados, atordoados, perdidos, sem saberem de que terra são, tantos senhores presidentes de câmara, sorridentes e abraçadeiros, de mesa em mesa, e os fotógrafos solícitos e oficiais sempre atrás, acotovelando-se, ai que dinheiro tão bem empregue pelo orçamento municipal, vêm aí as eleições! Os velhinhos sobreviventes, nem que não queiram, regressam ao sol-pôr com o saco cheio, nem sempre entregues na terra certa. De volta à naftalina, à indiferença e ao esquecimento, até daqui a um ano, se Deus quiser.