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quinta-feira, 2 de abril de 2026

Jesus Cristo morreu em Fafe

A última ceia
Português, desempregado, 45 anos de idade. Quando finalmente conseguiu um "part-time" como homem-sanduíche, chegou a casa à noite e deu-se de comer aos filhos.

As coisas em que a gente acredita quando é miúdo! Eu, por exemplo, acreditava piamente que o Menino Jesus era português, nosso - morra já aqui se estou a mentir. Eu ia à missa, ajudava à missa, ouvia com gosto aqueles bocadinhos de Bíblia cheios de aventuras e fazia a conexão que se impunha: se Nossa Senhora é de Antime, se São José é no Lombo, se os pastorinhos são de Fátima e a Samaritana é de Coimbra, se o Moisés é de Fafe e o Abraão também, se o João Baptista tem altifalantes e faz funerais, se os apóstolos são todos portugueses, sobretudo pescadores da Póvoa e Matosinhos, é só ver os nomes - João e Tiago, filhos de Zebedeu, Pedro, André, Filipe, Mateus, Tomé, Bartolomeu e por aí fora, nomes assim podiam ter jogado no Varzim ou no Leixões -, se o Jordão é em Guimarães e o Calvário é à beira do posto da Polícia de Viação e Trânsito e do Hotel, se a Avenida de Roma é em Lisboa, se Nazaré e Belém são obviamente em Portugal, se Damasco é alperce, se até o Espírito Santo somos nós que o pagamos, então o Menino Jesus também é daqui, aqui nasceu e cresceu, por aqui andou, faleceu e ressuscitou, também é português, um de nós. Deus é nosso. Se Deus quiser, até joga pela Selecção. Era o que eu pensava. Já grande, e após alguns anos de desengano e reeducação religiosa no seminário, passei a olhar com um certo carinho e determinada melancolia para esta minha crença infantil e patriótica. Depois veio Cavaco Silva, em 2006, e eu, após profunda reflexão, deixei finalmente de acreditar, regra geral. Dediquei-me à exegese, à hermenêutica, à toponímia, à topogígia, à geografia e à natação sincronizada sob chuveiro, sem ofensa para os presentes e apenas aos terceiros sábados de cada mês, de três em três meses, dez minutos antes de me deitar. E felizmente não é hoje.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

O segundo dia da vida do Menino Jesus

Traição
Natalino preferia a Páscoa. A família nunca lho perdoou.

O Menino Jesus nasceu ontem nas palhinhas de Belém, há 2025 anos, e hoje, 26 de Dezembro, celebramos o seu segundo dia de vida. Embora, de acordo com historiadores e especialistas, Jesus tenha nascido provavelmente entre o ano 4 e o ano 6 antes de Cristo, talvez a 13 de Abril, talvez a 14 de Outubro, talvez a 3 de Julho, não se sabe ao certo, datas que na verdade também não existiam na altura, porque o calendário gregoriano ainda não tinha sido inventado. Em todo o caso, parece quase certo que o Menino Jesus terá nascido quatro, cinco ou seis anos antes de ter nascido, o que quer dizer que não pode ser inscrito nos juniores.

sábado, 6 de dezembro de 2025

Uma cunha ao Pai Natal

E muitas propriedades
Ai que saudades que eu tenho dos bons velhos votos de um feliz Natal e um ano novo cheio de propriedades. Era outra riqueza, fartura a perder de vista...

Aviso com tempo. No Natal de 2024 ofereceram-me catorze livros. Está certo: gosto muito de ler e parece que toda a gente que gosta de mim sabe que eu gosto muito de ler. Contra isso, nada. Mas, valha-me Deus, eu também preciso de peúgas, cuecas e pijamas, como as outras pessoas, e, ainda por cima, estou na idade...
Posto isto. Hoje é Dia de São Nicolau, que dizem que é o Pai Natal, mas não é. Porque São Nicolau, isto é, São Nicolau de Mira, também conhecido como São Nicolau de Bari, existiu mesmo no século III, foi bispo e é padroeiro da Rússia, da Grécia, da Noruega e de Beit Jala, na Palestina. É patrono dos guardas-nocturnos na Arménia e dos ajudantes de missa na cidade italiana de Bari. E é também padroeiro dos estudantes, como muito bem se aprende aqui ao lado em Guimarães, mas nunca trabalhou para a Coca-Cola. Já quanto ao Pai Natal realmente, não quero com isto escangalhar certas e determinadas crenças infanto-comerciais, mas, devo confessar, eu prefiro o Menino Jesus!

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

O meu pai foi dado à troca

Tristeza mole
A tristeza, é o que tem, só dói enquanto dura.

O Natal dá-me saudades do Menino Jesus e do meu pai. Não acredito na Popota nem na Leopoldina, mas também nunca acreditei no Pai Natal, embora que o há há, ou que o ho ho! O Menino Jesus, sim, diz-me respeito. O Menino Jesus e o meu pai deviam ser da corda, tu-cá-tu-lá um com o outro, porque era o meu pai quem me punha no sapatinho as avelãs, os chocolatinhos e o par de meias que o Menino Jesus me dava todos os anos, isso eu sabia. Tão unha com carne deveriam ser os dois que o Menino Jesus nasceu no dia 25 de Dezembro e o meu pai, tudo combinado lá entre eles, morreu de véspera, em França, provavelmente para nos doer menos, um pelo outro, e doeu ainda mais, que eu só tinha onze anos. Em França é onde nascem os meninos, e ainda hoje acho lamentável que o meu pai tenha sido dado à troca.

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

O Menino Jesus morreu sozinho

E se o Natal for mentira?
Era uma vez a notícia: "Idoso morreu sozinho em casa com hipotermia. Morreu Fulano de Tal, 68 anos, deficiente motor, residente em Pombal, Alfândega da Fé, que há vários meses vinha pedindo a institucionalização num lar de idosos. Perdeu a vida, na sexta-feira, após ter dado entrada no hospital em situação de hipotermia."

O Menino Jesus morreu. Tinha 84 anos e era o mês de Maio de 2012. O corpo do indivíduo do sexo masculino foi encontrado por acaso, rodeado de solidão e lixo, na casa onde resolvera fechar-se ninguém soube dizer-me há quanto tempo. As autoridades sanitárias, que não têm culpa do nome que lhes puseram nem do vocabulário e da gramática que lhes deram, suspeitam que o óbito terá ocorrido pelo menos cinco dias antes da macabra descoberta. Azar do caraças: dois dias a mais. Ao terceiro safou-se o Outro.
Estais a ver? Estais a ver aquele senhor esquisito e careca que vestia sempre um casaco de cabedal preto quase até aos pés, tipo Gestapo, Deus lhe perdoe, pasta na mão e calças zangadas com os sapatos como agora se usam, mas eram à boca-de-sino? O senhor que apanhava o autocarro que vai do Castelo do Queijo até à Baixa do Porto? Estais a ver? Exactamente: era esse o Menino Jesus, que também ninguém sabe dizer-me porque se chamava assim, só se fosse por ser um bocado extraordinário como o Outro.
O Menino Jesus foi engenheiro e solteiro. Parecia-me uma figura de Fafe, um dos meus cromos antigos. Viveu sempre com a mãe, mas a mãe morreu antes dele e isso fez-lhe diferença. São tragédias a que raramente ligamos, porque, adultos como somos, achamos que as mães só fazem falta às criancinhas pequeninas, erro crasso. Quando passou a viver sozinho, durante mais de vinte anos, o Menino Jesus preferiu desviver até ao fim. Ali mesmo, em Nevogilde, num dos largos mais ruralmente nobres da cidade do Porto, zona de ricos.
Sou pobre, mas passava lá quase todos os dias, por deveres ou opções que não vêm aqui ao caso. Vi uma vez uma equipa da polícia a bater-lhe à porta. A PSP e a GNR andam a fazer um trabalho inestimável de identificação e encaminhamento dos idosos que moram sós e em risco. Acredito que têm salvo e melhorado muitas vidas e só peço que se lembrem de mim se chegar a minha vez. Mas sei que a porta do Menino Jesus nunca se abriu.
O Menino Jesus morreu no mês de Maio de 2012 e continua a morrer por aí. O Menino Jesus morreu sozinho. E não devia. Não por ser Menino Jesus e "rico", mas porque ninguém deve morrer sozinho, sem uma mão dada, uma palavra mansa ao ouvido, um céu com estrelas para olhar. Já basta o que basta: morrer, ainda que de velho, já deve ser fodido que chegue, regra geral. E confesso que não sei se o Menino Jesus tinha precisamente 84 anos, foi o que me constou. Os jornais do dia seguinte talvez tivessem dado a idade certa do homem, porque às vezes falam verdade nas notícias pequenas, breves. Ou então morreu apenas mais um octogenário, em contramão com a vida.