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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Low cost e sem bicho

Prato do dia
O reclame impresso sem erros em papel A4 e colado na portinha de vidro do minúsculo restaurante dizia em letras garrafais: "Prato do Dia - 3,50 euros". E, em letras pequeninas, esclarecia: "Só prato". Manobras publicitárias à parte, prato com comida era realmente uma bocadinho mais caro.

Na beira da estrada, o letreiro em cartão canelado castanho recortado às três pancadas e infantilmente colorido, porém sem erros, avisava, fluentemente bilingue: "Fruta low cost". Era a primeira vez que eu via semelhante. Estávamos em plena EN 13, entre Vila Nova de Cerveira e Valença, mais próximos de São Pedro da Torre. Interessou-me.
Parei. Perguntei:
- Low cost, diz. Esta fruta é mesmo low cost?
- Lowcostíssima, meu caro senhor. Se encontrar fruta mais low cost, devolvemos-lhe o dinheiro. É o lema da casa...
- Qual casa?
- A carrinha, o toldo...
- E a como é o quilo?
- Da carrinha ou do toldo?
- Da fruta low cost...
- Cinco euros a caixa.
- A caixa?
- A caixa.
- Com fruta?
- Com fruta.
- Com bicho?
- Sem bicho.
- Francamente, não acho lá muito low cost...
- Olhe que mais low cost do que isto não há...
- Por acaso, ali atrás, coisa de quinhentos metros, era mais low cost...
- Mas com bicho...
- Sem bicho.
- Dou isso de low cost, quer-se dizer, mas é preciso ver a qualidade do produto. Como afirma o nosso povo, na sua indesmentível sabedoria: às vezes o low cost sai high cost...
- Mas que conversa tão estimulante! Agora que já nos entendemos, diga-me lá sinceramente: cinco euros a caixa, com fruta, sem bicho, é mesmo o mais low cost que me pode fazer?
- É preço de tabela, indexado à cotação do Brent, meu caro senhor. Amigos amigos, negócios à parte: se eu lhe levasse mais low cost, entraria em deficit, certamente em default, e estaria outra vez com a troika à perna, isto é, à leg...
- Nesse caso, arrivederci!
- Adeus, ó vai-te embora!...

sábado, 6 de dezembro de 2025

Uma cunha ao Pai Natal

E muitas propriedades
Ai que saudades que eu tenho dos bons velhos votos de um feliz Natal e um ano novo cheio de propriedades. Era outra riqueza, fartura a perder de vista...

Aviso com tempo. No Natal de 2024 ofereceram-me catorze livros. Está certo: gosto muito de ler e parece que toda a gente que gosta de mim sabe que eu gosto muito de ler. Contra isso, nada. Mas, valha-me Deus, eu também preciso de peúgas, cuecas e pijamas, como as outras pessoas, e, ainda por cima, estou na idade...
Posto isto. Hoje é Dia de São Nicolau, que dizem que é o Pai Natal, mas não é. Porque São Nicolau, isto é, São Nicolau de Mira, também conhecido como São Nicolau de Bari, existiu mesmo no século III, foi bispo e é padroeiro da Rússia, da Grécia, da Noruega e de Beit Jala, na Palestina. É patrono dos guardas-nocturnos na Arménia e dos ajudantes de missa na cidade italiana de Bari. E é também padroeiro dos estudantes, como muito bem se aprende aqui ao lado em Guimarães, mas nunca trabalhou para a Coca-Cola. Já quanto ao Pai Natal realmente, não quero com isto escangalhar certas e determinadas crenças infanto-comerciais, mas, devo confessar, eu prefiro o Menino Jesus!

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Diálogos fafenses 37

Cavalheiro de posição
- É muito complicado para uma pessoa da minha posição...
- E qual é exactamente a posição de vosselência?...
- Defesa central. Mas também faço o lado direito...

domingo, 5 de outubro de 2025

Entre átonas e tónicas, eu é com gin

A fama tem um preço
Na rádio, Renascença por acaso, o reclame a uma telenovela da SIC avisa: - A fama tem um preço! Pois tem. E o arroz carolino também. E a massa-cotovelo e as batatas e os alhos e o azeite, que está pela hora de morte. As próprias pessoas, diz-se, também têm um preço. Algumas, melhor colocadas na vida, têm dois ou três...

Dizer que. Já tinham o "Trófense", por causa de ser da Trofa, e depois inventaram os "ávenses", derivado a serem das Aves. Os rapazes do desporto da Antena 1, que é praticamente a única rádio que eu ouço, e gosto, têm um problema, eventualmente uma disfunção, com a maneira de dizer palavras. Logo eles, cuja profissão é, fino modo, dizer palavras. Um destes dias ainda os escutarei a falarem dos "fárenses", por serem de Faro, dos "pôrtuenses" por serem do Porto, dos "brácarenses" por serem de Braga, dos "pácenses" por serem de Paços de Ferreira ou, puxando a brasa à nossa sardinha, dos "fáfenses", por serem de Fafe. E quem diz os rapazes do desporto da Antena 1, diz os rapazes do desporto das outras rádios e de todas as televisões, que lhes vão logo atrás e, se não estou em erro, são sempre os mesmos.
É o falso dilema entre sílabas átonas e tónicas. Eu resolvo-o com gin.

Por também ser verdade, tenho de acrescentar o seguinte: há coisa de uma ou duas semanas, ouvi na Antena 1 um spot a anunciar o relato de um jogo do Trofense. Sim, Trofense, disse a voz, por sinal excelente. Exultei de alegria!