Cá estamos
- E então?
- Cá estamos...
- Estamos, não estamos?
- Estamos.
- Então até amanhã.
- Se cá estivermos...
segunda-feira, 30 de junho de 2025
sábado, 28 de junho de 2025
Quando os Tonys eram de Matos
O nosso homem no terreno
Quando ela falava do seu homem no terreno, havia logo quem imaginasse histórias de espiões, acção, aventura e romance. Mas não. Ela falava do marido e da hortazita que o desgraçado fabricava nas traseiras da casa em horário pós-laboral.
Mas nem todos têm a minha sorte. Os lisboetas, por exemplo. Os lisboetas são uns infelizes, uns desgraçados, não sabem da vida, não sabem da terra, não sabem sequer de que terra são. Aqui atrasado, o Continente, esse, o dos supermercados, fazia de velho mestre-escola e, uma vez por ano, tomava conta dos lisboetas, assim ditos, e levava-os em gaiteira excursão de volta às suas raízes mais profundas. Às berças. Aos campos do Minho, de Trás-os-Montes, das Beiras, do Alentejo ou dos Algarves de onde eles partiram há duas ou três gerações, com a saca da merenda enfiada no cajado ao ombro, os pés descalços e as chancas nas mãos. Quer-se dizer: embora o ignorem, os lisboetas são tão parolos como os outros parolos todos à volta. Lisboa já não diferencia. Faz cada vez mais parte do resto que é paisagem neste país que não existe.
Naquele dia, os lisboetas, que são parolos mas não se lembram, aprendiam ou reaprendiam, por exemplo, que o leite não nasce em pacotes, que as galinhas estão vivas antes de estarem mortas, como diria a senhora dona Lili Caneças, que os ovos só podem ser produzidos com aquele feitio ou que o bife não é um animal, pelo menos um animal completo. E, com um bocadinho de sorte, até talvez pudessem descobrir o mais extraordinário segredo da vida, que é: a vaca não dá leite. Isso, a vaca não dá leite, ao contrário do que consta. A vaca não dá leite, não dá carne que serve para a nossa alimentação, não dá pele que serve para fazer sapatos nem dá chifres que servem para fazer pentes, como nos exigiam nas redacções da escola primária. A vaca não dá nada, porque a vida não é de graça. É preciso ir lá, à vaca, e dar-se ao trabalho e tirar e tratar e transformar e fazer - é assim que o Lopes ensina os netos.
Mas então, o Continente oferecia aos lisboetas uma espécie de circo rural onde não faltavam as vacas e os cavalos, os patos e os gansos, as ovelhas e os porcos, as avestruzes e os burros. E enfartava-os com um megapiquenique a que o analfabetismo vigente não se cansava de chamar "Mega Pic Nic". Um arraial dos antigos para recriar, em plena Avenida da Liberdade e no Parque Eduardo VII, o "espírito do campo", o "ambiente de uma grande quinta", com o patriótico desiderato - acrescentava a propaganda do Continente - de "chamar a atenção dos portugueses para a importância do apoio à produção nacional". Pois se calhar.
E os lisboetas juntavam-se aos milhares, aos milhares de milhares, de boca aberta, entusiasmados até mais não com a novidade, fresquinha e ao vivo, das cores, dos sabores e dos aromas do campo, como se o campo fosse aquilo. Mas, sobretudo, os lisboetas do país inteiro, do país que não existe, iam ao cheiro do concerto do Tony Carreira. À borla. Tony Carreira apresentado aos lisboetas como "o melhor da música portuguesa".
Ora bem. Honra lhe seja, Tony Carreira, isto é, António Manuel Mateus Antunes, 61 anos, natural de Pampilhosa da Serra, é um profissionalão, provavelmente o melhor do seu ofício, mas não é "o melhor da música portuguesa". Entendamo-nos: por mais multidões que congregue, por mais corações que despedace, por mais sutiãs ou cuecas de senhora que lhe atirem ao palco, Tony Carreira é apenas um cantor romântico com imeeeeeenso sucesso e acaba de fazer constar que o próximo disco pode ser o último, Deus o ouça. Mas a música portuguesa, desculpai-me a expressão, é outra coisa. E felizmente.
Depois o Continente trouxe o arraial para o Porto, para os lisboetas do Norte. O estardalhaço chama-se cá em cima Festival da Comida e invade e atafulha o martirizado Parque da Cidade, aproveitando uma ínfima parte da parafernália montada para o já de si devastador Primavera Sound. E com Tony Carreira sempre! Eu sou um ferrinho, todos os anos: nunca lá ponho os pés. Aliás, porque moro ao lado, nesses dias de confusão fujo para o sossego do Minho antigo, esse sim, quanto mais alto melhor. Já disse. Sou de Fafe e doutro tempo. Do tempo em que os Óscares eram Acúrsios. E os Tonys eram de Matos.
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segunda-feira, 23 de junho de 2025
Diálogos fafenses 19
Prova de vida
- Está?
- Estou.
- Está?!...
- Estou!
- Ah!
- E aí, está?
- Estou.
- Está?!...
- Estou!
- Pronto, amanhã ligo eu.
- Está?
- Estou.
- Está?!...
- Estou!
- Ah!
- E aí, está?
- Estou.
- Está?!...
- Estou!
- Pronto, amanhã ligo eu.
sábado, 21 de junho de 2025
Fui para padre e não me quiseram
Quanto mais alto, melhor
Ouço a poderosa Abertura 1812, de Tchaikovsky, e é como se fosse o Minho, o meu Minho. Isto é: quanto mais alto, melhor.
Rui Valério entrou para o seminário aos 11 anos, destacava a CNN Portugal, e o Papa, então Francisco, escolheu-o para ser o novo patriarca de Lisboa. Eu também entrei para o seminário aos 11 anos, mas, lá está, mais uma vez não fui escolhido. Em todo o caso, não me dava jeito. Aquilo foi em Novembro de 2024 e eu tinha e tenho a produção toda tomada até ao final de 2026. Viessem mais cedo. Ou, então, que não me tivessem deitado fora. Para além disso, devo confessar, convinha-se um lugar cá mais para cima, para o Minho, se possível, no Alto Minho então é que era, uma casinha mesmo sem sacristia mas com terreno, pequeno que fosse, o rio e o mar à beira...
quarta-feira, 18 de junho de 2025
A xalxixa, mas em francês
LinguadoO Dia da Língua Francesa é apenas uma vez por ano, a 20 de Março. Infelizmente, há logo quem se aproveite e abuse.
Céu de puro anil
e de graças mil
pelo mês de Abril
és a beleza.
Só pra ti olhar
faz-me suspirar
e em ti buscar
toda a riqueza.
Quer-se dizer: não tenho a certeza quanto à localização certa de "beleza" e "riqueza", se era por esta ordem ou ao contrário, também não sei se "riqueza" entra mesmo, ou seria "tristeza" ou "clareza" ou "leveza" ou "pureza", mas "beleza" é exacto que constava e a rima era realmente esta, em "eza". Em todo o caso, estais a ver a profundeza?
terça-feira, 17 de junho de 2025
Diálogos fafenses 18
Contos americanos
- Era um exímio executante...
- Tocava o quê?
- Cadeira eléctrica.
- Era um exímio executante...
- Tocava o quê?
- Cadeira eléctrica.
segunda-feira, 16 de junho de 2025
Crónica Feminina
A actriz
Ficou famosa por ser a primeira mulher a fazer de Super-Homem.
sábado, 14 de junho de 2025
Diálogos fafenses 17
A autoridade quer-se vigilante e... atenciosa
- Boa tarde, senhor condutor.- Boa tarde, senhor agente, mas eu não sou condutor...
- Pois. Documentos, se faz favor, senhor condutor...
- Quais documentos, senhor agente? E, palavra de honra, eu não sou condutor...
- Pois. Carta de condução, se faz favor, senhor condutor...
- Não tenho, senhor agente. Porque a verdade é mesmo esta: eu não sei conduzir, eu nunca na vida conduzi, eu não sou condutor...
- Pois. Livrete, se faz favor, senhor condutor...
- Não tenho, senhor agente, eu nem sequer tenho carro. É como digo: eu não sou condutor...
- Pois. Seguro do veículo, se faz favor, senhor condutor...
- Não tenho, senhor agente. Nem veículo, já disse... E não sou condutor...
- Pois. Então, se faz favor, o que é que o senhor condutor está a fazer aí sentado?...
- Aqui sentado? Ó senhor agente, estou aqui na esplanada a apanhar um bocadinho de sol e a beber uns fininhos com este amigo...
- Pois. Ora vamos lá fazer o teste do balão, se faz favor...
sexta-feira, 13 de junho de 2025
As pancadas de Jean-Baptiste Poquelin
Quando elas morriam de pé
"Morta por dentro, mas de pé, de pé, como as árvores", dizia a Senhora Dona Palmira Bastos, batendo altaneira com a bengala no tablado, na beleza insubstituível do preto e branco da televisão antiga. A queridíssima Senhora Dona Palmira Bastos tinha quase noventa anos e ainda não sabia das motosserras, do urbanismo autárquico em Portugal e da Amazónia no Brasil.
A primeira vez que eu as ouvi, às pancadas, foi em Fafe, no nosso Teatro-Cinema, há bem mais de meio século. Teatro amador, mas pancadas profissionais, competentes. Era a récita de "Selo de Chumbo", um dramalhão em três actos de Armando Tavares, levado à cena pela prata da casa, com, entre outros e outras que infelizmente me fugiram da memória, Nélson Fafe e o Sr. Moreira, enormes actores e ensaiadores, o Tónio da Legião, estou em crer, e até o meu padrinho Américo terá tido um pequeno papel, coisa de uma deixa, duas palavras, mais não, entrada por saída, numa interpretação que ficou para a posteridade. O final da peça, se bem me lembro, era de fazer chorar as pedras da calçada...
As pancadas de Molière foram entretanto substituídas por apitos ou campainhas e por uma voz de altifalante que manda desligar os telemóveis.
segunda-feira, 9 de junho de 2025
Cogumelos e outras alucinações
Regresso às raízes
Chegou à idade, meteu os papéis, reformou-se e resolveu voltar às raízes. Mandioca, cenoura, beterraba, batata-doce, inhame, gengibre, nabo, rabanete - à base disso.
Dei-lhes valor. Saber de cogumelos não é para qualquer um, e aqueles jovens pareciam saber mesmo do que falavam, e quanto mais mágicos ou psicadélicos, certamente melhor. Lembro-me da Bó de Basto, que era uma especialista muito procurada, sabia muito bem distinguir os venenosos dos comestíveis, que trazia para casa na abada do velho avental e que depois aparava e assava, a meio da tarde, nas brasas preguiçosas da lareira, só com uma mancheia de sal grosso por cima. E uma malga de vinho, evidentemente.
Em Fafe, no tempo em que Fafe tinha montes, os mais antigos dos antigos, gente do campo, também conheciam cogumelos e sentieiros, mas só eles. E a minha sorte é que foi por aquelas cozinhas que eu me criei.
À porta do café, dizia, falava-se de cogumelos. Eram três entendidos. O dono de um daqueles extraordinários telemóveis que têm outro nome e são de esfregar com o dedo como quem acende um fósforo sem cabeça, dá-me lume faxavor?, mais dois compenetrados e doutos colegas. No ecrã do aparelho passavam-se decerto pequeninas imagens e pertinentes informações micológicas, eles de cabeças juntas - porque duas cabeças pensam sempre melhor do que uma, e então se forem três é como se fosse um cientista - e um explicava este é "mediúcre", mas tens a certeza que é "mediúcre" perguntava o outro, é "mediúcre" de certeza absoluta, diz aí em baixo "mediúcre," então não se vê logo que é "mediúcre", sentenciava o que estava para não entrar pessoalmente na história, mas resolvi dar-lhe esta oportunidade de carreira.
O meu telemóvel é um telefone e foi por causa disso que o comprei. Para fazer e receber chamadas. Portanto só quando cheguei a casa é que pude vir aqui ao ilustre computador procurar os cogumelos de raça "mediúcre". Ou da espécie "mediúcre". Ou marca "Mediúcre", com 25 por cento de desconto em cartão. Não encontrei. Mas fiquei a saber que, tecnicamente falando, haverá cogumelos mortais e cogumelos tóxicos, cogumelos aptos para consumo ou cogumelos não aptos para consumo, cogumelos excelentes ou cogumelos... medíocres. Medíocres! Então era isso que a moçarada queria dizer. Medíocre.
Os rapazes não têm culpa. Eles fumam umas coisas e até sabem de cogumelos, honra lhes seja! Mas ouvem na televisão os doutores e governantes a encheram a boca de "mediúcres" e "periúdos" e acreditam que é assim que se diz. Mas não é. Na verdade, nada é como os doutores e governantes dizem na televisão.
sábado, 7 de junho de 2025
António Rebordão quê?...
O livro
Chegou à última página com o coração dilacerado entre a euforia e o desalento. Que mundo extraordinário, o livro. Quinhentas e sessenta e três páginas cheias de mistério, de sonho, de imaginação, de fantasia, certamente romance, amores e desamores, aventuras e desventuras, acção, suspense, final previsto e inesperado, feliz. Por outro lado, pensou, acariciando-lhe vagarosamente a lombada macia, num gemido mal disfarçado de suspiro: - Ah, se eu soubesse ler!...
- Sabe que fomos praticamente vizinhos durante alguns anos? O senhor doutor ainda mora lá para a nossa Foz?...
O senhor doutor era para mim senhor doutor porque Rebordão Navarro era formado em Direito e chegou a exercer de advogado e de delegado do Ministério Público, antes de se entregar de corpo e alma à escrita, como ficcionista, poeta e editor. Já quanto à resposta, às respostas que eu, molageiro, lhe pedia, disse-me que não e que sim. Que não sabia que fôramos vizinhos, que aliás não me conhecia de lado nenhum nem isso lhe fazia falta, mas que realmente continuava pela Foz, embora já não na Praça de Liège.
Porém, era ali que eu queria chegar. Com esta minha notável capacidade para fazer figuras tristes, que já então se manifestava exuberantemente, eu estava mortinho por demonstrar mais uma vez quão sólido é o cuspo com que argamasso os meus pindéricos alicerces culturais. E acrescentei, todo vaidoso:
- Sabe, eu tenho o livro, tenho "A Praça de Liège". Se soubesse que me ia encontrar com o senhor doutor, até o tinha trazido para que me fizesse o favor de uns sarrabiscos, de um autógrafo. Tenho o livro, está lá em casa...
- Ai tem o livro? Mas eu escrevi mais livros, escrevi para aí uns catorze... - cortou Rebordão Navarro, sem disfarçar o sorriso malandro como o arrozinho de feijão e legumes que lhe acompanhava os bolinhos de bacalhau com que se deliciava.
A minha primeira reacção foi largar o meu habitual "Eu sei!" com que tento sair das enrascadas em que por mania me meto, e recitar ali mesmo, de cor e salteado, da trás para a frente e da frente para trás, por ordem alfabética e depois por ordem cronológica, os outros treze títulos do reputado autor que tinha à minha frente de faca em punho, mas a verdade é esta: eu só conhecia "A Praça de Liège". Optei, portanto, por tornar pública a minha segunda reacção, que também me saiu uma boa merda e que foi "Pois faço ideia, mas lamentavelmente não tenho acompanhado a carreira do senhor doutor"...
"A Praça de Liège" foi um sucesso tremendo aquando da sua publicação, em 1988. Era o livro da moda (pois se até eu o comprei!) e ganhou o Prémio Literário Círculo de Leitores. Na altura em que me encontrei com o autor, contou-me o próprio, no Círculo de Leitores já não sabiam quem ele era, quem era o escritor António Rebordão Navarro. Alguém do Círculo contactou a irmã do escritor por uma razão qualquer, a senhora falou do irmão e do famigerado prémio e obteve como resposta um lamentável
- Quem? Rebordão quê? Não conheço...
Pois é: a memória. As empresas enxotam quem sabe da poda, despedem os funcionários pelas mãos dos quais passaram os factos e as pessoas, preferem juniores renováveis e analfabetos, verdes como os recibos, fiam-se no Google e na inteligência artificial, mas não vão lá. E depois ninguém sabe nada de nada, por manifesta estupidez natural.
Há anos que está a acontecer o mesmo nas redacções dos jornais portugueses e até se contam algumas saborosas anedotas a esse respeito. São de rir tanto, as anedotas, que às tantas até são verdade.
No que me diz respeito, e como penitência pela minha ignorância àquela data quanto à dimensão da obra literária de António Rebordão Navarro, que afinal era qualquer coisinha mais do que catorze títulos, aqui deixo o registo essencial, com sinceros votos de que faça também bom proveito à rapaziada do Círculo de Leitores: poesia - "Longínquas Romãs e Alguns Animais Humildes", 2005; "A Condição Reflexa", 1989; "27 Poemas", 1988; "Aqui e Agora", 1961; teatro - "Sonho, Paixão, Mistério do Infante D. Henrique", 1995; "O Ser Sepulto", 1972; crónica - "Estados Gerais", 1991; ensaio - "Juro Que Sou Suspeito", 2007; conto "Dante Exilado em Ravena", 1989; romance - "As Ruas Presas às Rodas", 2011; "A Cama do Gato", 2010; "Romance com o Teu Nome", 2004; "Todos os Tons da Penumbra", 2000; "Amêndoas, Doces, Venenos", 1998; "A Parábola do Passeio Alegre", 1995; "As Portas do Cerco", 1992; "Mesopotâmia", 1984; "A Praça de Liège", 1988; "O Parque dos Lagartos", 1981; "O Discurso da Desordem", 1972; "Um Infinito Silêncio", 1970; "Romagem a Creta", 1964.
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terça-feira, 3 de junho de 2025
Diálogos fafenses 14
A tensão, muita a tensão!
- Temos tomado a nossa medicação? - pergunta-me ela.
- Temos, temos, senhora doutora - respondo eu, que sou uma pessoa educada e um exemplar tomador de medicações.
- Temos feito o nosso exerciciozinho diário?
- Todos os dias, senhora doutora.
- Temos moderado a nossa alimentação?
- Que remédio, senhora doutora. O dinheiro já só dá para cascas de batatas.
- Ora ainda bem. Vamos lá ver como que é temos a nossa tensão - diz-me ela.
- Vamos a isso, senhora doutora, nem é tarde nem é cedo - digo eu, tirando o casaco e arregaçando a manga da camisa.
Vimos a tensão.
- Temo-la um bocadinho alta - informa-me ela, sem esconder a preocupação.
- Um bocadinho pouco ou um bocadinho muito, senhora doutora? - pergunto eu, também já um bocadinho muito à rasca.
- Bastante, bastante. Vamos meter este comprimidozinho debaixo da língua e vamos deitar um bocadinho ali - diz-me ela.
- Vamos lá então, senhora doutora. A senhora doutora primeiro, que eu gosto de ficar por cima - digo eu, que, repito, sou uma pessoa educada e exemplar tomador de medicações.
- Temos, temos, senhora doutora - respondo eu, que sou uma pessoa educada e um exemplar tomador de medicações.
- Temos feito o nosso exerciciozinho diário?
- Todos os dias, senhora doutora.
- Temos moderado a nossa alimentação?
- Que remédio, senhora doutora. O dinheiro já só dá para cascas de batatas.
- Ora ainda bem. Vamos lá ver como que é temos a nossa tensão - diz-me ela.
- Vamos a isso, senhora doutora, nem é tarde nem é cedo - digo eu, tirando o casaco e arregaçando a manga da camisa.
Vimos a tensão.
- Temo-la um bocadinho alta - informa-me ela, sem esconder a preocupação.
- Um bocadinho pouco ou um bocadinho muito, senhora doutora? - pergunto eu, também já um bocadinho muito à rasca.
- Bastante, bastante. Vamos meter este comprimidozinho debaixo da língua e vamos deitar um bocadinho ali - diz-me ela.
- Vamos lá então, senhora doutora. A senhora doutora primeiro, que eu gosto de ficar por cima - digo eu, que, repito, sou uma pessoa educada e exemplar tomador de medicações.
segunda-feira, 2 de junho de 2025
Moisés, semeador de ventos
A obra-prima
Os especialistas dividem-se e a opinião pública também. Há quem defenda que o melhor trabalho de Miguel Ângelo são os frescos da Capela Sistina. Outros preferem a Baía de Cascais...
Infelizes, em verdade vos digo, os que nunca ouviram o Moisés a peidar-se pelo soleno da noite, ali para os lados da Feira das Galinhas, que realmente tinha uma excelente acústica naquele tempo e hoje parece-me que é um parque de estacionamento e chama-se Praceta Egas Moniz. O Moisés era uma figura, um figurão. Era o homem perfeito, tinha tudo do melhor: portismo, habilidade para a bola, vaidade, ondinha no cabelo, fastio para o trabalho, gases. Semeador de ventos, colhedor de tempestades, Moisés, o nosso, era um artista, um predestinado, um exímio executante, como se dizia em gíria musical. Os flatos do Moisés, tomai nota, eram acutilantes, poderosos como pragas, abriam mares, incendiavam sarças, esculpiam lei em pedra maciça, abanavam os alicerces da Igreja Nova, levantada mesmo em frente, Deus nos perdoe, não sei como é que o Moisés nunca se aleijou. O Moisés peidava a capella. Os traques do Moisés seriam hoje considerados e explorados e exportados como energia alternativa, verde talvez, e vendidos a Espanha, para os espanhóis aprenderem. Mas também eram mansos, melodiosos, trinados, sin-co-pa-dos, contidos, suspiros nocturnos, meditabundos, quase confidenciais. O Moisés solfista trabalhava, com efeito, em vários registos, um dos quais, de interpretação particularmente exigente, mezzo piano, denominava-se "rasgar chita" e costumava encerrar o concerto, com mais dois ou três encores, porque o Moisés levava audiência atrás. As bufas do Moisés, que aceitava pedidos como crooner que se preze, eram um tremendo êxito. Para uma carreira internacional que se adivinhava, faltou-lhe quiçá entrar em estúdio e gravar um disco, provavelmente de janelas abertas, e não sei se isso seria tecnicamente possível. Em todo o caso, ficou a perder a posteridade, que hoje em dia não sabe o que era bom.
Para rematar, é preciso que se note que o sintetizador, instrumento musical electrónico tal como actualmente o conhecemos, ainda não tinha sido inventado. Moisés era o seu próprio instrumento. No seu tempo, e no panorama artístico nacional, Moisés, o nosso Moisés, foi profético, vanguardista, pioneiro, radical, fracturante. Uma autêntica pedrada no charco. Uma indesmentível lufada de ar fresco. Pum!
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