domingo, 30 de novembro de 2025

O verdadeiro Artista

O andar de John Wayne
O que ele queria mesmo era ter um andar como o do John Wayne. Aquele andar, estais a ver? O andar inteiro. Doze quartos, duas cozinhas, piscina com escorrega e, evidentemente, marquise.

Vem aí o Dia do Artista e eu não sei dele. Não sei do Artista, quero dizer. O Artista é de Fafe, do meu tempo, morava no Picotalho, à beira da velha casa do Sr. Armindo Bristol e do Carlos Frangueiro, andou comigo na escola, o Carlos também, o Artista é portanto rapaz da nossa idade. O Artista era Artista porque se identificava com os artistas da televisão e do cinema, dos livrinhos de cobóis, e estava bem visto, porque os artistas eram os galãs, os protagonistas, os que levavam a rapariga, os que nunca morriam, apenas desapareciam em direcção ao sol poente. Por isso, antes de começar a brincadeira, o Artista avisava logo, sem dar vez a mais ninguém: "eu é que sou o Artista". Uns diziam que eram Eusébio, outros que eram Adrião, o do hóquei em patins, uns diziam que eram Zorro, outros que eram Daniel Boone. O Carlos, apesar de Frangueiro, nome posto, até se safava como guarda-redes. O Artista era o Artista, e estava tudo dito.
Por razões talvez profissionais, o Artista gostava de frequentar a sala de bilhares do Café Império em vez do Peludo, ao contrário de nós todos, vestia sempre com grande categoria e tinha um andar estudado e falar nervoso, foi trabalhar para o Porto há quase cinquenta anos, depois disso encontrámo-nos em meia dúzia de fortuitas ocasiões, curiosamente sempre em Fafe, creio que por alturas de Natal, ele cada vez mais impecável, parecia um lorde, invariavelmente apressado, e a seguir perdi-lhe o rasto, nunca mais o vi. Alguém me sabe dizer o que é feito do Artista?

À espanhola, mas sem castanholas

As barbas de molho
Até que um dia, de tanto ouvir falar naquilo, ele pôs as barbas de molho. Mas nunca soube para quê. Se ainda fosse bacalhau! Ou, vá lá, pelo menos uns tremoços...

Antes que o mundo acabe, faço questão de esclarecer o seguinte: bacalhau à espanhola não é caldeirada de bacalhau, tampouco ensopado de bacalhau. Ide a Fafe a aprendei: bacalhau à espanhola é um prato que pede azeite e não água. Perguntai aos antigos. É quase um guisado, de molho grosso e aveludado, e com o tempero apurado até aos limites legais de sal, pimenta, alho, louro e salsa. Por mim, também malagueta. Colorau, um nada só para dar cor, mais dourada do que vermelha. E, tomai nota, o pimento e o tomate são duas desnecessidades usadas apenas por quem pensa, mas não sabe, que só assim é que é "à espanhola". Erro crasso. O bacalhau à espanhola é à portuguesa! É à moda de Fafe, como era feito em todos os lares, ricos, pobres ou entremeados, pensões, tascos e saudosas casas de pasto da minha terra. Depois chegaram os restaurantes. E os snack-bars. E as tascas. E escangalharam tudo...

(Falo em fim do mundo e falo a sério, e não em cuecas, porque isto aqui não está para brincadeiras, um destes dias acordamos e está tudo morto, peço desculpa por ser tão cru. Entre solstícios e eclipses, luas de sangue, apagões, meteoros, asteróides, cometas e sextas-feiras 13, terramotos e terroristas, Elon Musk, Donald Trump e Vladimir Putin, claques de futebol, Montenegro, Ventura e rusgas policiais, basta uma corrente de ar, coisinha de nada, um arzinho que lhe deu, e a casa vem abaixo, quer-se dizer, já não há mais bacalhau para ninguém. O que é pena, porque, sejamos honestos e reconhecidos, o bacalhau é o melhor amigo do homem, só lhe falta ladrar, e, se tivéssemos mais um bocadinho de tempo, de mundo, vamos dizer assim, se calhar o bacalhau... au... au... ainda lá chegava.)

De volta ao tacho, ao nosso bacalhau à espanhola. O bacalhau até pode ser de quarto, daquele que, inteiro, não mede mais do que um palmo, e pode ser pouco, praticamente espinhas. Não faz diferença nenhuma. O importante é o gosto que o bacalhau empresta, o equilíbrio do tempero geral, a consistência da molhanga. Quando eu era pequeno e os tempos eram de mais pobreza do que agora, a minha mãe fazia um bacalhau à espanhola a que, honestamente, chamava batatas à espanhola. E vós não fazeis ideia do que perdestes por nunca terdes provado as batatas à espanhola da minha mãe...
E pronto, era isto. O mundo já pode acabar. Estou preparado, enfim de consciência tranquila. Andava com esta espinha atravessada na garganta, mas está o assunto resolvido. E agora, se me dais licença, vou à cozinha salgar uns ossinhos da suã para o almoço de terça-feira.

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Diálogos fafenses 40

Para bom entendedor
- Então já soubeste do gajo...
- Oh!, pá...
- O gajo...
- É sempre o mesmo...
- Diz-me ele...
- Tem a mania...
- Mas eu...
- Fizeste bem...
- Sabes como é que eu sou...
- És...
- Ele ainda começou...
- Mas tu...
- Havias de ter visto...
- Faço ideia...
- Um gajo tem...
- A quem o dizes...
- Gostei de falar contigo.
- Ainda bem que resolveste o assunto.
- Qual assunto?
- O teu assunto com o gajo.
- Qual gajo?
- Oh!, pá...

O Menino Jesus morreu sozinho

E se o Natal for mentira?
Era uma vez a notícia: "Idoso morreu sozinho em casa com hipotermia. Morreu Fulano de Tal, 68 anos, deficiente motor, residente em Pombal, Alfândega da Fé, que há vários meses vinha pedindo a institucionalização num lar de idosos. Perdeu a vida, na sexta-feira, após ter dado entrada no hospital em situação de hipotermia."

O Menino Jesus morreu. Tinha 84 anos e era o mês de Maio de 2012. O corpo do indivíduo do sexo masculino foi encontrado por acaso, rodeado de solidão e lixo, na casa onde resolvera fechar-se ninguém soube dizer-me há quanto tempo. As autoridades sanitárias, que não têm culpa do nome que lhes puseram nem do vocabulário e da gramática que lhes deram, suspeitam que o óbito terá ocorrido pelo menos cinco dias antes da macabra descoberta. Azar do caraças: dois dias a mais. Ao terceiro safou-se o Outro.
Estais a ver? Estais a ver aquele senhor esquisito e careca que vestia sempre um casaco de cabedal preto quase até aos pés, tipo Gestapo, Deus lhe perdoe, pasta na mão e calças zangadas com os sapatos como agora se usam, mas eram à boca-de-sino? O senhor que apanhava o autocarro que vai do Castelo do Queijo até à Baixa do Porto? Estais a ver? Exactamente: era esse o Menino Jesus, que também ninguém sabe dizer-me porque se chamava assim, só se fosse por ser um bocado extraordinário como o Outro.
O Menino Jesus foi engenheiro e solteiro. Parecia-me uma figura de Fafe, um dos meus cromos antigos. Viveu sempre com a mãe, mas a mãe morreu antes dele e isso fez-lhe diferença. São tragédias a que raramente ligamos, porque, adultos como somos, achamos que as mães só fazem falta às criancinhas pequeninas, erro crasso. Quando passou a viver sozinho, durante mais de vinte anos, o Menino Jesus preferiu desviver até ao fim. Ali mesmo, em Nevogilde, num dos largos mais ruralmente nobres da cidade do Porto, zona de ricos.
Sou pobre, mas passava lá quase todos os dias, por deveres ou opções que não vêm aqui ao caso. Vi uma vez uma equipa da polícia a bater-lhe à porta. A PSP e a GNR andam a fazer um trabalho inestimável de identificação e encaminhamento dos idosos que moram sós e em risco. Acredito que têm salvo e melhorado muitas vidas e só peço que se lembrem de mim se chegar a minha vez. Mas sei que a porta do Menino Jesus nunca se abriu.
O Menino Jesus morreu no mês de Maio de 2012 e continua a morrer por aí. O Menino Jesus morreu sozinho. E não devia. Não por ser Menino Jesus e "rico", mas porque ninguém deve morrer sozinho, sem uma mão dada, uma palavra mansa ao ouvido, um céu com estrelas para olhar. Já basta o que basta: morrer, ainda que de velho, já deve ser fodido que chegue, regra geral. E confesso que não sei se o Menino Jesus tinha precisamente 84 anos, foi o que me constou. Os jornais do dia seguinte talvez tivessem dado a idade certa do homem, porque às vezes falam verdade nas notícias pequenas, breves. Ou então morreu apenas mais um octogenário, em contramão com a vida.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

O papel e o papelão

O (des)interesseiro
- Eu quero é que o dinheiro se foda! - dizia. Acrescentando: - E que procrie, evidentemente...

O gestor de projectos instalou-se em Fafe, vindo ninguém sabe donde, e foi ao banco pedir um empréstimo. Quantia avultada. Pretendia construir e montar de raiz uma fábrica de cartão canelado e pós de perlimpimpim, exactamente no sítio onde fora outrora a velha Fábrica do Papelão, no rio Ferro, em Cavadas, a seguir ao extinto monte de Castelhão, entre as pontes de Ranha e de São José, investimento para cima de diversos milhões de euros e emprego garantido para cerca de 23 pessoas, talvez 24 ou 25, ainda não sabia ao certo, isto tudo, bem entendido, antes da chegada em barda das grandes superfícies, que entretanto tomaram conta do lugar. O senhor do banco pediu-lhe a identificação de gestor de projectos, e o gestor de projectos respondeu prontamente: "Não tenho. Ainda estou a começar. Este é o meu primeiro negócio, mas toco muito bem ocarina". O senhor do banco tomou devida nota e observou, arguto e rindo: "Fábrica de cartão canelado, nesta altura do ano? Vê-se logo que é golpe, vigarice das antigas". "Golpe, não, caríssimo senhor, e faça o favor de reparar que eu disse caríssimo sem saber sequer a taxa de juro que aqui se pratica. Em todo o caso, se eu fosse mesmo vigarista, e dos antigos, como vosselência fez questão de caracterizar, ter-lhe-ia indicado que precisava do dinheiro para abrir um banco e não uma fábrica", ripostou o gestor de projectos, sem se rir, e foi roubar carteiras para outro lado.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Sushi à moda de Fafe

As voltas e o ponto
O meu bacalhau vem para casa seco e inteiro. Eu é que o corto, eu é que o demolho. Eu é que lhe dou as voltas todas, eu é que lhe sei o ponto.

Fazei o obséquio de tomar nota! Sob o generoso fio corrente de água fria da torneira, desfiar meticulosamente uma boa posta de bacalhau da peça, sem pele e sem espinhas. Passar os fiapos do bacalhau por mais uma, duas ou três águas, sempre frias, agitando-o, ao bacalhau, e espremendo-o, até que fique no ponto de sal. Regar com azeite do melhor e três ou quatro pingas de vinagre, cobrir e misturar com cebola cortada às rodelas bem fininhas, picar um quase nada de alho, salpicar ao de leve com pimenta branca e enfeitar com azeitonas pretas. Está pronto! Sushi de bacalhau à moda de Fafe - inesperado, inovador e chique. Os antigos chamam-lhe punheta.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Papando uns e outros

Fruta da época
Perguntaram-lhe sobre frutas da época, e ela respondeu ferrero rocher e mon chéri.

Chegava o Natal e ele, entre bombons e bumbuns, levava tudo a eito e sem destrinça. Padecia de uma espécie muito avançada de paronímia, segundo atestado médico, e a mulher, que era das antigas, desculpava-o, coitadinha...

Quando o homem-estátua abriu a boca

As pombinhas da catrina
As pombinhas da catrina andaram de mão em mão. Acabaram por casar, é certo, mas da fama não se livram...

Porto, vésperas de mais um Natal. Ao fim de 35 anos de inabalável serviço na ex-libríssima Praça da Liberdade, o homem-estátua chamou o fiscal da Câmara num pst! muito bem disfarçado. Veio também um polícia municipal. "Ó colegas, isto aqui já não dá nada. Até o cavalo de D. Pedro IV leva mais do que eu ao fim do dia. Estou no ir, se calhar para Fafe, vou fazer de pedregulho no Largo ou talvez de árvore. Ou então vou para a Suíça trabalhar como boneco de neve ou vaca da Milka, que estamos na época. Lembrais-vos do Dr. Miguel Relvas? Sabíeis que sempre que os portugueses emigram têm uma visão universalista que lhes traz sucesso?", disse o homem-estátua ao fiscal camarário e ao polícia municipal, por entre dentes e sem perder a pose. Era efectivamente um homem-estátua aprumado, muito profissional e filósofo amiúde. "Além disso, estou farto de que me caguem em cima", acrescentou, descendo finalmente do banco de cozinha e arrumando os tarecos e o velho reumatismo em dois sacos plásticos do Pingo Doce do tempo em que os sacos plásticos eram de borla. "As pombas?", perguntou o fiscal da Câmara, que era um bocadinho lerdo de entendimento, porém presto para as multas. "O quê?", perguntou o homem-estátua, que já nem se lembrava do que tinha acabado de dizer. "Cagam-lhe em cima, as pombas?", interveio o polícia municipal, espaçando as sílabas e restabelecendo a ordem. "Os pombos. Os do Governo, os da Assembleia, os da Justiça, os da Saúde, os da TAP, os da CP, os da EDP, os dos Correios, os da Caixa, os da Igreja, os do Espírito Santo, esses pombos todos de gravata ou cabeção mas sem anilha, esses cagões", respondeu o homem-estátua, escarafunchando os bolsos profundos à procura dos apontamentos com a lista completa, nome a nome, a começar em Aníbal e a acabar em Ventura, à procura da lista imensa e do manguito do Bordalo, que também estava para ali metido, há que tempos à espera. Tinham sido realmente muitos anos de gesto suspenso e bico calado.

domingo, 23 de novembro de 2025

No Minho, mais perto do céu

Livro das lamentações
O dinheiro não cai do céu. E é pena.

O Minho cheira a Natal, sabeis? O Alentejo e Trás-os-Montes decerto também cheiram, as Beiras e o Ribatejo lá terão os seus aromas, mas a mim o que me interessa aqui é o Minho, e quanto mais alto melhor. Entra o Outono, a friagem, e o Minho, abençoado tempo, começa a cheirar a Natal. Ao Natal antigo, já posso dizê-lo. Os últimos lavradores do Minho fazem fogueiras nos campos como fizeram os seus pais e os pais dos seus pais, queimando folhas secas e gravetos velhos, emprestando ao ar um perfume doce de lareira. De lar. Dá uma vontade tola de abrir a janela do carro, largar a cabeça ao gelo e fechar os olhos. E eu abro e eu largo e eu fecho. A janela, a cabeça e os olhos, respectivamente. Sou pendura, graças a Deus, não sei conduzir, vamos em segurança.
Ando sempre de nariz no ar, tenho talvez um lado canino que desconhecia em novo e já começo a admitir. Farejo. Os cheiros interessam-me particularmente, orientam-me, transportam-me aos sítios. O cheiro a especiarias leva-me a Angra do Heroísmo, Óbidos cheira a chocolate, Fundão à flor da cerejeira e Vila Nova de Foz Côa às amendoeiras em flor. Fafe cheirava a sabão amarelo e Matosinhos cheira mal.
Que depressa vão os dias! Tinha razão o nosso bom padre Fraga: ainda há pouco foi Janeiro, passámos agora Agosto e já estamos no fim do ano, meus meninos. Estamos no Natal. Estamos sempre no Natal.
É. A memória também vai ao cheiro: a querida Bó de Basto, pequerricha, resmungona e bondosa, aquecendo o vinho na infusa esbotenada que tem dentro uma maçã acabadinha de assar no borralho. O fumo das giestas molhadas e que, ainda assim, ajudam a espertar o braseiro. Os malabarismos a toque de caixa do testo da velha chocolateira desbordante de café que não passava de cevada. A garrafa da aguardente do avô que bastava aliviar-lhe a rolha para logo sarar constipações e até unhas encravadas. A luz bailarina da candeia fazendo filmes mudos e de terror nas paredes da cozinha, negras de fumo e do luto da vida. E a canela. Sim, as queimadas agrícolas de Novembro e Dezembro, no Minho, são temperadas com canela. Quem disser o contrário, anda muito mal informado ou está a pensar nos  fogos de Verão. 
Então. Vamos lá, que são que horas! De novo na estrada de um carro só, o fumo, os fumos, aqui, ali, mais adiante, novelos que sobem da terra suada, letra a letra inventando palavras de faz de conta. São os índios a mandar recados uns aos outros, gosto de pensar, e rio-me outra vez moço. Fafe, Medelo, Marinhão, Moreira do Rei, Várzea Cova, Passos logo ali em baixo, tecnicamente já em Cabeceiras de Basto, devagar se vai ao longe. Assim vamos, a Mi e eu, para não perdermos pitada. Tive tanta sorte: a minha mulher converteu-se ao minhotismo, já há muito, andamos sempre os dois ao mesmo. O fumo acinzenta o verde que cresce ao abandono e as leiras lavradas e cada vez mais raras. Acinzenta a paisagem mas limpa a alma. Este fumo aconchega-nos, abraça-nos, obriga-nos a abraçarmo-nos. Por causa do fumo, o céu é mais baixo, estamos mais perto do Céu, estamos mais perto uns dos outros, e apetece-me inspirar a plenos pulmões a ver se consigo guardar este fumo e este cheiro, esta paz, para o resto do ano, para o resto da vida. Quem me dera aqui à noite, toda as noites, com este cheiro, com este céu. Este céu cheio de estrelas, que eu bem as sei. Devia ser proibido alguém morrer sem ter uma mão dada e um céu assim para olhar. Olhar... e só então partir. 

sábado, 22 de novembro de 2025

Eu queria ser palhaço

Ele nunca brincava em serviço. O que, para um palhaço de circo, era talvez contraproducente.

Sonhava-me no circo, não do lado cómodo do público, mas no centro das atenções, no lado cómico, de nariz vermelho, cara pintada e sapatos de metro, a inventar alegria para os outros. E para mim. Isso, alegria para mim. Porque eu sempre quis ser palhaço. Ou por outra: quando eu era pequeno, em Fafe, primeiro queria ser grande. E quando fosse grande queria ser palhaço, maquinista de comboio, famoso, padre, polícia à paisana, pianista, advogado, jornalista, actor, bombeiro, jogador de futebol, Tarzan, presidente da república, terrorista, papa, escritor, herói, cantor, ciclista, santo, piloto de avião de guerra como o Major Alvega e pirata.
Que se segue: já há muito que sou grande e, francamente, sou Tarzan e é um pau. Sou Tarzan como a maioria dos portugueses: estamos de tanga e isso é indesmentível, somos portanto tarzões.
Mas palhaço é que era! Alguns amigos, lisonjeiros, dizem-me que eu às vezes até sou um bocado palhaço. Por outro lado - o das costas -, alguns filhos da mãe que não me gramam acusam-me de eu às vezes ser um bocado palhaço. Palavra de honra, às vezes e um bocado não me chega: eu queria ser palhaço, mas palhaço completamente.

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Diálogos fafenses 39

Grazie verigude!
A inglesinha abeirou-se-me sorridente e de mapa aberto na mão, meio perdida, pedindo-me que eu lhe dissesse onde é que ela estava, questão assim a modos que existencial. Indiquei-lhe, com todo o gosto: estávamos, ela e eu, em Matosinhos, exactamente no cruzamento da Rua do Godinho com a Avenida de Serpa Pinto, que, por sorte, era mesmo o sítio que ela queria. Estava lá marcado com um xis. Alargando o sorriso, bonito, a inglesinha simpática fez "Hã... hã... hã...", à procura da palavra certa, e, no seu melhor português, muito bem aprendido, bem treinado, saiu-se finalmente, toda satisfeita: - "Grazie!"...
Vá lá, podia ter sido pior. Se me tivesse atirado por exemplo "Muchas gracias!", abanando castanholas e rebolando as ancas, aí, sim, eu ficaria verdadeiramente incomodado.

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Firme e hirto como uma barra de ferro

O grande prestidigitador
Era um mágico extraordinário: em vez de coelhos da cartola, tirava macacos do nariz.

Não sei se foi pelos 16 de Maio ou pela Senhora de Antime, talvez fosse pelo Natal ou então ocorreu num dia qualquer, anónimo, um dia sem atributos que o destaquem ou recomendem. Mas aconteceu. Uma vez, um artista hipnotizador, quiçá mentalista e certamente ilusionista veio dar um espectáculo ao nosso Cinema e eu, que era mocico e pobre, não entrei, não vi, porque era preciso pagar bilhete para entrar. E era uma bonita tarde de sol. Para chamar povo como no Poço da Morte dos 16 de Maio e da Senhora de Antime, o artista hipnotizador, quiçá mentalista e certamente ilusionista fez cá fora, na Rua Monsenhor Vieira de Castro, o famoso número de conduzir um carro com os olhos vendados, naquele bocado de estrada entre a esquina do Santo Velho e o ateliê do Zé Manel Carriço, exactamente nesse sentido, que era permitido na altura, nem cem metros sempre em linha recta, assim também eu, foi o que então pensei, e no entanto ainda hoje não sei conduzir nem tenho carta de condução, com os olhos abertos ou fechados. O mirabolante número da condução em braille terá sido feito cá fora de mais a mais porque lá dentro decerto não daria jeito, cheguei também a essa importante conclusão aqui atrasado, quando finalmente percebi que o bonito Teatro-Cinema de Fafe, apesar de realmente glorioso e frequentemente "icónico", é muito mais pequeno do que eu o supunha no meu tempo.
Esperei pelas horas à sombra, no passeio em frente, fazendo malha com o cotão dos bolsos, discretamente, encostado à histórica casa-mãe dos Summavielles, como já lhe chamei, e que era habitual sítio de estar, antes e após o cinema, e nos intervalos também. No final da função, os ilustres que pagaram para entrar e ver disseram-me que aquilo lá dentro não prestou, que não valera o dinheiro. Felizmente para eles, a saída era de graça...
O artista talvez fosse o Professor Karma, esse extraordinário e irrefutável hipnotizador de galinhas, lembrei-me agora, mas de momento não estou em condições de o afiançar sem correr risco de levar com um par de desmentidos no focinho. Era, em todo o caso, um Professor Karma qualquer, ainda que vestisse outro nome mais ou menos estrambólico. O grande Zandinga não foi, esse haveria eu de conhecê-lo pessoalmente, alguns anos mais tarde, numa noitada para lá de estranha, no Porto. E Alexandrino, o cromo do "firme e hirto como uma barra de ferro" a quem Herman José deu fama, é muito mais recente, ainda nem sequer tinha sido inventado.
Em Fafe apareciam de vez em quando uns fenómenos assim, vendedores de sonhos e de retroescavadoras com luzinhas, empresários de carregar pela boca e artistas a bem dizer, micro e pequenos vigaristas em tournée pelo país que era paisagem e gostava bastante de ser levado de conversa. De preferência, a preço módico. Uma ocasião até nos quiserem impingir uns sensacionais espectáculos de luta livre, nos antigos Bombeiros, era só tirar os carros todos cá para fora e montar lá dentro o ringue e assentos à volta, realmente uma trabalheira, e o meu avô, que era o quarteleiro, torceu logo o nariz. Prometiam-nos um festival de pancadaria a fingir, mas eu não sabia, com os assombrosos Tarzan Taborda, José Luís e Carlos Rocha, eram os nomes dos cartazes, vindos directamente do Coliseu dos Recreios, do Parque Mayer e do Pavilhão dos Desportos de Lisboa, pelo menos os retratos colossais, e para mim era como se viessem do Coliseu de Roma. A coisa ficou sem efeito, nunca soube porquê, ninguém me consultou nem explicou, o meu avô foi dormir a sesta, todo contente, e eu fiquei-me com um desgosto que até hoje. Carago, nos Bombeiros eu tinha borla garantida...

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Quantos eram os três reis magos?

Como um camelo
Dizer-se que ele bebia como um camelo, era um abuso. Ele bebia realmente muito, mas todos os dias.

Os três reis magos eram não se sabe quantos, e na verdade nem eram reis nem eram Magos. Provavelmente inexistiram. Ou então seriam Moët & Chandon. Mas isso não interessa. O certo é que, depois de terem adorado o Menino Jesus, em Belém, e de lhe terem oferecido ouro, incenso, mirra, um tambor, um cavalinho de pau e um carrinho de bombeiros, dedicaram-se à bola: Gaspar brilhou no Rio Ave, Baltasar fez seis épocas no Sporting e Belchior jogou na selecção de futebol de praia. Por outro lado, que raio de ideia foi aquela de oferecer mirra a uma criança? Mirra!? Mas isso é algum presente?...

Antes que lhe caia a pirângula

O perigo de ougar
Os anjos não têm sexo. Quer-se dizer: tinham, mas queriam mais, ougaram e caiu-lhes a pirângula, como se dizia em Fafe.

Em terra de pobres, a norma era desougar. Não havia fartura, faltava até o mero suficiente, mas procriava-se com prazer, abundavam evidentemente as crianças, e então dava-se-lhes apenas a provar, e por uma boa razão, essencial, para manter os futuros homens inteiros e artilheiros, como adiante se verá. Ougava-se muito, antigamente, sobremaneira cá em cima, no velho Douro, em Trás-os-Montes, no nosso Minho, em Fafe especialmente, lembro-me bem, ougava-se, noutros sítios do Portugal triste e escanzelado dir-se-ia decerto doutra maneira também pândega para disfarçar, mas a querer dizer sempre o mesmo: pobreza. Fome, quando não.
Ougar, ou "ògar", de augar, de aguar. Ougar, isto é, salivar ao olhar para comida ou bebida de outrem, ficar com água na boca, sentir grande desejo de. Ougar era muito perigoso naquele tempo, porque, dizia o povo, que sabia tudo embora morresse cedo, quem ficasse ougado, quer-se dizer, desconsolado, contrariado, carente, invejoso, em situação de grande desprazer ou de pasmaceiro apetite ao ver, caía-lhe redondamente a pirângula, isso mesmo, a pirângula, não sei se os acessórios também, e a ideia de um futuro homem sem pirângula e quiçá também sem acessórios, hoje em dia a coisa mais natural do mundo, não era ideia que se tivesse naquela altura sem o incómodo de um penetrante arrepio pela espinha acima.
Por isso, entre os pobres, era muito importante atalhar a coisa, desougar - o gado, com um pequena porção de penso, mas não é isso que vem aqui ao assunto, e fundamentalmente as crianças, coitadinhas, mais que as mães, ruins de aturar, com mais olhos do que barriga, borradas, chorosas, moncosas e cobiçosas de tudo o que viam ou pressentiam à frente dos outros. Desougar era dar um bocadinho. Desougar era uma urgência. Desougava-se para impedir o ougamento, para poupar um par de estalos (geralmente não, acumulava), para acabar de vez com a lamúria e, em todo o caso, para preservar a integridade pelo menos física do pedinchoso. À mesa, mandava, solene, quem era de lei, o homem: - Caralho, mulher, desouga o moço, dá-lhe um cibo antes que lhe caia a pirângula!...

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Quando Fafe ia ao circo

O homem-bala
Cabisbaixo e de mala na mão, o homem-bala apresentou-se logo de manhãzinha na rulote da gerência. Deixava o circo. Ia embora para casa. Descobrira durante a noite que era objector de consciência.

Circo que é circo tem nome de circo. Ponto. Nome com pozinhos de perlimpimpim, nomes exóticos, patuscos, inventados à la minuta, nomes de fazer sonhar. Nomes à antiga: Arena, Brasil, Cardinali, Circolândia, Chen, Cristal, Dallas, Dragon, Eddy, Flic Flac, Império, Leunam, Luftman, Mariani, Mundial, Nederland, Nery Brothers, Oceanika, Soledad, Romero, Torralvo ou Twister. Ou Circo Royal, "com Pierre Ivanoff e os seus leões da Abissínia", ou o meu melhor circo do mundo, Circo Merito, que vinha a Fafe todos os anos, sem animais acima de cão, mas com um incrível número de transmissão de pensamento operado pelo senhor Merito em pessoa e sua partenaire, e sobretudo uns palhaços como nunca mais ri na minha vida e que contavam sempre a anedota de que a nossa era a única terra à face da mesma mas com maiúscula onde dormiam dezoito numa cama: o meu avô da Bomba, que era o 17, mais a minha avó. O meu avô afinava e eu achava um piadão.
O senhor Merito, que também era mestre-de-cerimónias do es-tra-or-di-ná-ri-ooo... ex-pe-ctá-cu-looo!!!..., padecia de uns óculos com lentes verdes de fundo de garrafa Carvalhelhos versão 1960 que, aos meus olhos infantis e crentes, justificavam à partida os poderes adivinhatórios de que ele estava evidentemente investido.
Coisas de outro mundo. No circo aprendi palavras sen-sa-ci-o-nais, que gostava de ouvir e de dizer e não sabia o que significavam: funambulista, malabarista, contorcionista, equilibrista, acrobata voador, faquir, trapezista, pirofagista, globista, faquista, mais engolidor de espadas, palhaço e ilusionista - estas três eu ia lá -, e que hoje percebo que todas são afinal meros adereços ou adjectivos para outra palavra do léxico circense que é a palavra... político.
Agora? Agora andam por aí circos com nomes paisanos, insossos, e a magia foi um ar que se lhe deu. Nomes de linha média em quatro-quatro-dois losango: Rúben, Cláudio, Leandro e Walter Dias. Nomes do dia-a-dia, corriqueiros, sem pés nem cabeça, como se fossem nomes de talhos ou retrosarias. Como se fossem: o Circo Ricardo, o Circo Pedro, o Circo Ferreira, o Circo Gomes, o Circo Lopes, o Circo Magalhães, o Circo Antunes. O Circo Maria das Dores. Sem o glamour de um Tony, sem o garbo de um Fredy, sem as lantejoulas de uma Nandy nem as meias de rede de uma Mirita no seu rola-rola, ainda que rotas, as meias, porque no circo é importante trabalhar com rede, posto que sem fio, portanto Wi-Fi.
E ainda haverá palhaços excêntricos musicais? E a profissão está devidamente reconhecida e enquadrada? Tem ordem? Carteira profissional? Tempo de serviço em recuperação?
O circo chegava e a vila espertava. A vila precisava. Saía do mormo, arrebitava. Fafe vivia intensamente os seus dias de circo, havia assunto, havia mundo, havia... vida. Havia emoção, havia sonho, havia alegria, riso, havia medo, havia pena, tristeza, saudade antecipada, porque depois só para o ano. Fafe ia ao circo. Toda a gente ia ao circo. Mesmo os que não iam, por miséria ou embirração, era como se fossem, só de imaginar ou ouvir contar. Não se falava de outra coisa, no café, no tasco, na feira, no campo da bola, à saída da missa, fazia-se crítica, propaganda, comparava-se com o ano anterior. Era um deslumbramento vivermos - digo bem, vivermos -, de coração aos saltos e mãos a tapar os olhos, o perigosíssimo trabalho daqueles artistas cheios de is gregos e cabelo empastado, artistas in-tarrr-na-ci-o-nais de Ermesinde e Vila Franca de Xira - Cuidado, Dany, cuidado! Res-pei-tá-vel público, silêncio, o mais completo silêncio, por favor, peço o silêncio dos senhores ex-pe-cta-do-reeesss... Vamos, Dany, cuidado, upa, ealé, bravo, bravo, Dany, bravo!...
Só a carripana com altifalantes sobressaltando as pacatas ruas da vila antiga já era uma festa, era circo ao domicílio. "Hoje grátis às damas, damas grátis!", prometia-se ambiguamente na véspera da despedida, parecia um anúncio de casa de putas em saldos, mas eu ainda não sabia. O circo era o melhor faz-de-conta de todos os tempos! O famoso Pierre Ivanoff chamava-se Pedro Piloña Reina e era um espanhol de Valência nascido em Casablanca, Marrocos. Na jaula, com os leões, vestia de tribuno romano que eu sabia dos filmes - e ficou-me até hoje. Tinha eu se calhar sete anos quando o Pedro, aliás Pierre, desafiou o meu pai, saxofonista desembaraçado na Banda de Revelhe, a fazer-se ao mundo a bordo da orquestra do grande Circo Royal, mas o meu pai não foi. Foi para mim um desgosto muito grande, que já me via palhaço, a morar na rulote, a faltar à escola e a rasgar completamente as meias de rede da Mirita...
O sítio do circo em Fafe era na Feira Velha, encostadinho à antiga escola primária cujas defuntas pedras depois se transformaram, por milagre, em capela de casa particular. E era porreiro o circo ali, porque vós hoje em dia não fazeis ideia dos deslimites do fedor a que pode chegar a jaula de um leão velho, mas eu e os da minha escola sabemos, graças a Deus. O circo creio que frequentou outros lugares da nossa vila, e lembro-me por exemplo de uma vez em que se instalou num terreno convenientemente devoluto ali para os lados da Recta, mas a Feira Velha é que era o sítio. Gosto de dizer, a Feira Velha, gosto de me ouvir dizer, a Feira Velha. Agora mesmo, escrevo e digo, vêm-me as lágrimas aos olhos por causa de duas palavras de nada, pareço tolo. Feira Velha. A Câmara Municipal, quando se tornou mercearia para não ficar atrás das outras câmaras municipais, meteu lá carros a cobrar à hora e é o que temos. Mas diz que vêm aí os novos jardins suspensos da Babilónia. É o que veremos.

Carlos Drummond de Andrade dizia: "Vou ao circo para me sentir em casa com o mundo". E Ferreira Gullar, no poema "Improviso para a moça do circo", do livro "Na Vertigem do Dia", lembrava a infância, adivinhando Fafe, e contava: "é pouca a vida que a cidade oferece, até que aparece o circo". Por outro lado: o circo somos nós - camelos, ursos, jacarés em camisolas, asnos e leões mansos. Homens-bala de pólvora seca, malabaristas, contorcionistas, ilusionistas, equilibristas, palhaços - somos nós, porque nos mandam e porque somos o único circo a que temos direito. Somos os circo de nós mesmos. Vivemos na corda bamba e sem rede. Tiraram-nos a rede, esticam-nos a corda, dão-nos a volta à cabeça, sufocam-nos, caímos que nem tordos sem capacete.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

No tempo dos codaques

Jacuzzi!
Contra a injustiça e a mentira, o indignado escritor tirou a roupa e gritou: - Jacuzzi! E entrou para a história.

A câmara Kodak foi registada pelo americano George Eastman em 1888. E alcançou tamanho sucesso que a marca rapidamente se transformou em sinónimo do próprio produto, em substantivo comum. Codaque passou a significar máquina fotográfica. Ainda hoje, para os mais antigos como eu, em Fafe e por esse mundo fora, um codaque é uma máquina fotográfica, seja de que marca for, e uma máquina fotográfica, seja de que marca for, é um codaque. Ou por outra, trabalho é trabalho e codaque é codaque.
Exactamente como se passou com o sumol, o panique, o pirex, a gilete, a chiclete, o cotonete, o jipe, o caterpílar, o cimbalino, o lego, o jacuzi, o taparuer, a vaselina, o velcro, o quispo, o curita, a lambreta, a vespa, a mobilete, a solarine, o botox, a licra, o filofax, o post-it, o x-acto, o rímel, o sonotone, a aspirina e as crocas - que eram marcas e passaram a ser coisas.
Actualmente os telemóveis também são codaques, e fazem o serviço praticamente sozinhos. Noutros tempos, cá entre nós, quando éramos turistas de pé-descalço e íamos de excursão visitar o Portugal dos Pequenitos, o nosso codaque era o garrafão de vinho. Sim, dizíamos que o garrafão era o codaque. Os japoneses lá com as máquinas fotográficas deles, sempre sorridentes e de cabeça a abanar, e nós, finos como alhos, com o de cinco litros a tiracolo ou atarraxado aos queixos, víamos tudo a dobrar e pelo mesmo preço.

Ia-se ao Largo ver os retratos

E o número da máquina fotográfica?
- Passei o dia inteiro a ligar-lhe para o telemóvel, mas dava sempre impedido...
- Quando for assim, ligue-me para a máquina fotográfica.

Houve um tempo em que as fotografias eram tiradas por fotógrafos. Fotógrafos profissionais, competentes, conhecedores, eficazes regra geral, artistas às vezes. Por outro lado, nesse tempo ainda não havia telemóveis e portanto, quando era preciso falar com alguém que não estivesse presente, ligava-se da máquina fotográfica, nada mais simples. Os antigos sabiam tudo e antigamente é que era, estou farto de dizer. Só era pena morrerem tão cedo e sem saberem de quê. Naquele tempo tínhamos dois fotógrafos e nevava em Fafe. Não era preciso ir mais longe. Em Fafe, mesmo no centro da vila. Não era necessário alongar vistas para os cumes da Lameira ou da Lagoa e sonhar aventuras mais ou menos (hi)malaicas. Era ali nas nossas mãos, aos nossos pés, a realidade. O nosso Santo Velho pintava-se de branco, contavam-se os centímetros de altura do "nevão", faziam-se bonecos, pelo menos boneco, com nariz de cenoura e tudo, declaravam-se guerras de bolas de neve, ensaiavam-se trambolhões de criar bicho, chorar era proibido, queixinhas, nem pensar, ou ainda levávamos mais quando chegássemos a casa.
Os campos nas nossas traseiras, onde hoje está o Pavilhão Municipal, encontravam-se de vago e enchiam-se de moçarada brincalhona e apressada, porque a neve era efémera e sabia-se lá quantos anos estaríamos depois outra vez à espera que ela tornasse. Lembro-me particularmente de uma ocasião, um  verdadeiro acontecimento: o Foto Victor com os filhos a fazerem uma festa tremenda, e o Foto Victor a tirar retratos atrás de retratos, fotografias sorrateiramente alpinas que depois expôs, algumas, nas montras da loja em frente aos Correios. Foi um sucesso. O Foto Victor era um dândi, no melhor sentido, e os filhos para lá caminhavam.
Fafe também tinha disto, nomes assim, esdrúxulos. O Sr. Victor era fotógrafo com porta aberta e o estabelecimento chamava-se Foto Victor. Portanto o Sr. Victor passou a chamar-se Foto Victor. Aliás, como o Foto Jóia, mas este no Largo, à beira do Talho, do Romeu e do Fernando da Sede, como quem olha para o Mário da Louça e para a Electra. Foto Jóia era simultaneamente o nome do "estúdio" e do seu proprietário. "Vem aí o Foto Jóia!", dizia-se, e era a coisa mais natural do mundo.
Curiosamente, nunca apanhei o Foto Jóia no meio da neve, mas lembro-me de que foi ele quem me fez as fotografias para o meu primeiro bilhete de identidade, que era preciso para irmos para França ter com o nosso pai, para o "reagrupamento familiar", ontem como hoje, mas, já de malas feitas, acabámos por não ir, porque o nosso pai morreu no Natal francês, desgraçadamente na neve, apenas dias depois, um ou dois meses antes da viagem programada, e a minha vida deu então esta volta que é assim.
Fafe era uma terra compacta e tudo acontecia no Largo. A feira semanal, a feira das cebolas, os 16 de Maio, a Senhora de Antime, a Volta a Portugal, cortejos alegóricos, corsos de carnaval, batalhas de flores, circos de manga curta, robertos, gincanas automóveis, corridas de patins, corridas de jericos, corridas de São Silvestre, passagens de ano, dias dos combatentes, desfiles da Mocidade e da Legião Portuguesa, despedidas e chegadas, encontros, reencontros, partidas para a Ultramar. Era tudo ali. O Largo era o centro, o Largo era Fafe. Nas ruas e nos lugares das redondezas dizia-se "Vou a Fafe", querendo dizer que se ia ao Largo.
As lojas dos dois fotógrafos, os seus escaparates, eram locais sagrados de peregrinação na vila de antanho. Aos finais de tarde ou no fim-de-semana, era à pinha. Era famoso o átrio do Foto Jóia. Ali se ficava a saber quem casou, os padrinhos e convidados, quem baptizou, os padrinhos e convidados, quem tirou retrato novo mais ou menos atiradiço sabe-se lá com que fim, amiúde para mandar para Angola, Moçambique, Guiné. Ali se revelavam namoros a estrear, paulnewmans de trazer por casa, misses universo que nunca seriam. As bodas de ouro, as juras de amor, o fato feito por medida, o carro na rodagem, a filha recém-doutora, o soldadinho condecorado na guerra e que haveria de chegar num caixão, a vida dos outros ali escarrapachada atrás do vidro impenetrável, na arte exigente e discreta do preto e branco ou no exagero quase pornográfico da cor, novidade em folha. A vida retocada à mão, porque o photoshop ainda não tinha sido inventado. Era. Ainda faltavam muitos anos para a javardice dos reality shows e para os despudores de todos os facebooks, mas não estávamos mal servidos, não senhor...
Havia uma certa rivalidade entre o Foto Victor e o Foto Jóia, e, estranhamente, também entre as respectivas clientelas, coisa tola, sem sentido, nós em casa por acaso éramos Foto Jóia! Fazia parte, em Fafe, esta maneira de nos dividirmos por tudo e por nada, uns por uns e outros por outros, como claques de nascença e irremediáveis, por causa dos dois clubes de futebol, das duas bandas de música, dos dois cangalheiros, da Escola Industrial e do Colégio, da Fábrica do Ferro e do Bugio, do Fredinho Bastos e do Tangerina, dos "Bombeiros Novos" e dos "Bombeiros Velhos" e do mais que se pudesse inventar e sobretudo desse para desunir, disputar, desconversar, ateimar. Era a trave mestra da boa e velha idiossincrasia fafense, concordar apenas em discordar, sem dúvida um bom princípio democrático, mas muito pouco jeitoso para o lado prático da vida. Uma coisa é certa, porém: Foto Jóia e Foto Victor frequentavam ambos o tasco do Nacor, o que, já agora, só lhes abona a respeito, e não me constam notícias de confrontos ou baixas a registar.

sábado, 15 de novembro de 2025

Fafe cheirava a sabão amarelo

Um homem muito limpo
Ele era muito cuidadoso com a ferramenta. Todos os dias, de manhã e à noite, lavava as intimidades com um bom naco de sabão azul. Lavava, lavava, lavava. O sabão, se não me engano, é um poderoso desinfectante e antibacteriano. Um dia, faltando sabão azul em casa, lavou-se com sabão rosa. Nunca mais foi o mesmo homem.

Do que eu gostava mais em Fafe, do que eu realmente sinto falta? Do cheiro. Fafe tinha o seu próprio cheiro, distintivo, memorial. Fafe cheirava a esmero, cheirava a limpo, a lavado. Fafe cheirava a sabão amarelo. E era isto o ano inteiro, mais ainda na semana da Páscoa, quando as nossas mães asseavam a casa especialmente para receber o Senhor. Fafe, em boa verdade, era uma acolhedora mistura de cheiros bons, um bouquet requintado, mas o honesto odor do sabão amarelo pairava sobre tudo e sobre todos. Sobretudo.
Parecia penitência, castigo. As nossas mães, dobradas horas a fio com os desgraçados joelhos enfiados naquele caixote de madeira a que uns chamam tacoila e outros chamam cunco ou outro nome qualquer, conforme a região, em todo o caso instrumento de suplício, ou então com um simples farrapo servindo de rodilha ou joelheira, as nossas mães, dizia, lavando, lavando, esfregando, esfregando, água, sabão amarelo e palha de aço, e depois chupar e secar, e depois, e só depois, talvez no dia seguinte, outra vez o castigo, outra vez a penitência, a cera regrada, o lustro puxado e repuxado, até que o soalho brilhasse como um espelho, como o sol. E ficava o cheiro. Aleluia!
E pelos 16 de Maio também. E igualmente pela Senhora de Antime, pelo Corpo de Deus. De resto, os domingos em Fafe cheiravam que era uma categoria. Os domingos em geral. Cheiravam a desodorizante, a perfume, a brilhantina, a laca, a graxa, a sebo e a naftalina - tudo misturado, na missa das onze, com a Igreja Nova à pinha, dava uma certa vontade de gomitar, não vou mentir -, mas o melhor era o que se passava entretanto nas ruas da vila antiga, logo desde as primeiras horas da manhã, aquele extraordinário aviso dos velhos fogões de lenha, tão de confiança, tão competentes, tão autónomos, assando vitela tenra e dourada com todos os vagares, com todos os matadores, o cheiro e o fumo magníficos escapulindo-se pela chaminé carbonizada ou pelo telhado mal aparelhado e alastrando de porta em porta, como maldição de filme de mortos-vivos de hoje em dia, mas em bendição, que outros eram os tempos, graças a Deus.
Fafe cheirava. Embora hoje possa não parecer, Fafe era uma povoação rural, íntima, pacata, território de lavradores teimosos e polivalentes - tirante o Largo, isto é, o por Cima e o por Baixo da Arcada, e para além da Fábrica do Ferro e do Bugio, que eram outras vidas. Só por exemplo, toda aquela zona envolvente da Torralta, onde agora estão o bairro tão bem tratado, as várias escolas, o Pavilhão Municipal, as vivendas, as estradas e avenidas, os semáforos, as rotundas, a Biblioteca, os Bombeiros, a Feira, a Central de Camionagem e por aí fora, aquilo era tudo campos, terrenos agrícolas particularmente fecundos, os campos do Santo, Granja e São Gemil, campos, caminhos, quelhas, noras e minas, levadas e poças, com muito milho, fruta e umas quantas pipas de vinho. Era zona de carros de bois, aquela, e actualmente abunda de automóveis e tem o chão pintado a furta-cores. Fafe realmente cheirava. E à semana metia a cotio o cheiro a eido, a estrume, a lavadura, a gado, a galinheiro, a couves cegadas, a erva acabada de cortar, a terra seca acabada de regar, a medas húmidas, a chuva era farta e cheirava muito bem em Fafe.
Fafe tinha o cheiro doce das glicínias, cheirava a alfádega, a cidreira, a amoras, às tílias do Santo Velho, a uvas americanas, aos pinheiros de São Jorge e Castelhão, a castanhas assadas pela Maria Barraca à beira do tasco do Zé Manco, ao azeite do Moniz e ao bacalhau frito da Dolorzinhas no tasco do Paredes. Cheirava a maçãs guardadas nos barrotes secretos dos tectos, cheirava a geleia e a marmelada, a vinho novo, a aletria quente, a canela. Fafe cheirava todo o ano a Natal. Cheirava ao incenso da procissão do Corpo de Deus. E cheirava a piche derretido ao sol das tardadas de Verão, e cheirava a cano de escape de motorizadas sem cano de escape na noite atolambada da passagem de ano. Fafe cheirava à aguardente e ao engaço do fantástico alambique do Cinema, copiosamente manobrado pelo Sr. Zé dos Alhos, parece que ainda o estou a ver e ouvir. A cheirar.
Fafe cheirava a roupa a corar. Cheirava ao avental sempre lavado da minha mãe, que cheirava tão bem a sabão, a segurança e a felicidade, e eu, criança, pequenito, abraçava-me a ele, a ela, com quanta força tinha, e fechava os olhos à espera que o tempo à minha volta não passasse. É. Fafe cheirava à minha mãe.

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Poesia imperfeita e geralmente pretérita 16

Chuva moderada

Olho pela janela e chove.
Chove que Deus a dá
porém não chove
por aí além
porque a crise já se sabe
chega a todos
inclusive ao Sempiterno
ao Senhor das Águas.

Durante quase toda a noite
fez um sol de categoria
sei porque sonhei
mas agora não
não faz sol nem sonho.

Olho pela janela e vejo
telhados vermelhos e cinzentos
cinzentos suspeito que de lusalite
e quase me dá uma himoptise
tusso e desisto.

Eu tusso muito bem
e desisto ainda melhor.

Vejo cinco telhados cinco
o resto são paredes paredes
de prédios de doze andares doze
cheios de janelas e marquises marquises.

Paredes prédios a precisarem pelo menos de pintura
pintura.

Nos telhados nem um gato
nem uma gaivota
nem uma pega
um melro sequer.
Estão cá sempre todos
menos o melro que eu nunca vi
e hoje
agora
não sei o que lhes deu.

Ter-lhes-á sucedido
confinamento?

Estou sem gatos,
sem pássaros,
sem sol.
Chove apenas. Moderadamente.

Digamos
períodos de chuva ou aguaceiros
em geral fracos
a partir do meio
da manhã
e já vamos a estas horas.

Assim não há condições
para fazer poesia,
condições
para que a poesia aconteça.

Acho
que vou escrever
um romance histórico
com 987 páginas.

Entrego-o amanhã
se não chover.

O telefonema do padrinho

Foto Tarrenego!

Quem sai aos seus
Ele era médico, de família. Quer-se dizer, seguiu os passos do pai, do avô também e o bisavô até nem tinha sido o primeiro, todos médicos, que remédio, geração atrás de geração. Entre tios, sobrinhos e primos, formavam, com efeito, um considerável corpo clínico. Dizia-se que eram descendentes directos de William Osler, por parte da mãe, e, regra geral, do próprio Hipócrates em pessoa. Mas essa parte não posso jurar... 
 
O meu padrinho era sempre o primeiro. Entrávamos no mês de Dezembro, logo nos dias iniciais, o telefone cá de casa tocava e eu sabia mesmo antes de atender: era o meu padrinho, para nos desejar boas festas. E confirmava-se. Eu retribuía ligando-lhe duas ou três semanas depois, ao cair da noite de 24, precisamente, já nos prolegómenos da ceia de Natal. O meu padrinho bem percebia a minha malandrice, mas fazia de conta que não. E no ano seguinte lá tornava ele à jogada de antecipaçãozíssima.
O meu padrinho era um homem muito bom. Quem o conheceu, sabe que não estou a mentir. Era tão profundamente bom, que não sabia ser mau, mesmo quando queria ou precisava de arriar a giga. Nessas ocasiões, raríssimas, faltava-lhe a voz, a fúria sumia-se como se por falta de comparência, soava a falso, creio até que funcionava ao contrário, parecia que era a mangar, e eu, se por acaso estivesse por perto, desmanchava-me a rir. E respeitava-lhe a bondade.
O meu padrinho chamava-se Américo, Tio Mérico, Américo da Bomba, Sr. Américo, Comandante, e certamente por causa dele é que carrego este extraordinário nome de Américo Hernâni, que devia ganhar um prémio pelo menos nacional de esdruxulice. Mas eu perdoo-lhe. Por outro lado, com um nome próprio assim redundante, Américo e Hernâni, naquele tempo de benfiquismo a bem da Nação, eu só podia dar portista - e dei. Foi a minha sorte. E agradeço ao meu padrinho. Felizmente, o meu coração é desde nascença de uma só cor, azul e branco, às vezes também rosa bebé, outras ocasiões amarelo desbotado, conforme o equipamento do adversário, enfim, o que for melhor para o negócio das camisolas.
O meu padrinho era o irmão do meio do meu pai, que era o mais velho. Lá em cima, no retrato antigo, estão os dois, fardados de músicos da Banda de Revelhe, suspeito que posando ao lado do então novo Tribunal de Fafe. O padrinho é o do casaco e boné, todo tirone. Depois havia o mais novo, o meu tio Zé da Bomba, a quem os amigos e colegas de estudos chamavam "Fone", mas que, no nosso caso concreto, precisava mesmo de ser "da Bomba" para o distinguirmos do meu tio Zé de Basto.
O meu pai morreu num Natal gelado e francês, muito antes do tempo e sem aviso. E os irmãos resolveram ir ter com ele, uns anos mais tarde, primeiro um, depois o outro, como se também não tivessem mais nada para fazer por cá, e estavam redondamente enganados. Os três. Ainda hoje nos fazem faltam.
Que se segue? Eu já estava afeito a ele. Sem o telefonema do padrinho, tão fiável, antecipado e cómico, como que a abrir o calendário do Advento sem o saber, os meus natais já não são o que foram, perderam muita da sua graça. O primo Miguel, filho do tio Zé e também afilhado do tio Américo, ainda agarrou a pasta, durante uma temporada, e passou a ser o primeiro. Remediava enquanto durou, sou sincero. Porque, a verdade é só uma, tinha de ser um Bomba, e dos assumidos. E eu gosto do Miguel! Mas não era a mesma coisa.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Bai-me à benda!

Leve 5 e pague 6!
Ele era um consumidor compulsivo, adorador de promoções. Se lhe aparecesse à frente "Leve 5 e pague 6!", aproveitava logo.

Fafe é uma grande superfície de grandes superfícies. Não sei se já cá estão todas e se cabem cá todas, porque há sempre lugar para mais uma, mas a verdade é que, tirante elas, sobra cada vez menos Fafe à vista. Atenção: eu não critico a invasão, admito até que esta fartura sem peso nem medida possa ser muito boa para Fafe e para os fafenses em geral, quero dizer, para os fafenses consumidores e/ou à procura de emprego, decerto não faltarão argumentos e talvez razões que a justifiquem ou tentem justificar. E também não sei se podia ser de outra maneira. Digo apenas o que vejo. E, chegados a Dezembro, sorrio ao ver o Município anunciar, candidamente, ou então como remedeio ou descargo de consciência, que... "Natal é no comércio local!"

Poesia imperfeita e geralmente pretérita 15

Um grande igualmente e uma boa continuação
n
na
nata
natal
natação
natátil natado
natalino nateiro
natalense natalício
natalidade nateirado
natário natatório natadeiro
batatascozidascombacalhau
na
na

O mais baixo magistrado da nação

Um homem bem apetrechado
Ele tinha uma panóplia de argumentos, uma panela de pressão, uma visão estratégica, uma caixa de pandora e carradas de razão. Era realmente um homem muito bem apetrechado.

De acordo com a constituição, o mais alto magistrado da nação deve medir para cima de 1,73 m, considerada a altura média dos portugueses homens. Se o mais alto magistrado da nação for por acaso uma mais alta magistrada da nação, então basta medir para cima de 1,63 m, considerada a altura média das portuguesas mulheres. Luís Marques Mendes, que é homem do sexo masculino, mede 1,61 m calçado e é candidato à Presidência da República, faz ele muito bem. António Vitorino, que também é homem do sexo masculino, medirá, talvez de palmilhas, mais um centímetro do que Marques Mendes, isto é, 1,62 m, e algum PS queria que ele se candidatasse à Presidência da República, mas ele fugiu. Foi pena. A campanha eleitoral prometia uma empolgante luta de titãs entre estes dois. É certo que, nas actuais circunstâncias, nem o nosso Luisinho nem o escapista Vitorino obedecem às normas. Mas era fácil de resolver. Fazia-se, a este propósito, uma revisão constitucional. Uma revisão à constituição dos portugueses. Nada de profundo ou trabalhoso, nada que implique força bruta ou possa dar ideias aos neofascistas mais ou menos hemiciclistas. Eu sugeria apenas um acerto, um ajuste directo, uma revisão constitucional por medida, por baixo. Uma revisãozinha, vá lá. Coisa talvez de doze ou treze centímetros...
Napoleão, que era Napoleão, media pouco mais de metro e meio, segundo os ingleses, ou um metro e setenta, para os franceses. Sem cunhas, saltos altos, sapatos de plataforma ou outras alcavalas, Silvio Berlusconi media 1,65 m, que é também a altura de Nicolas Sarkozy, Dmitry Medvedev mede 1,57 m, Vladimir Putin mede 1,67 m, Rishi Sunak, Emmanuel Macron, Olaf Scholz e Volodymyr Zelensky medirão todos 1,70 m, número redondo, e Kim Jong-il não se sabe bem, mas medirá entre 1,55 m e 1,65 m, sendo possível que na gloriosa versão oficial meça dois metros e quarenta, pelo menos.
Alto é o almirante. Alto e para o baile. Gouveia e Melo fez saber que mede 1,93 m bem esticadinho, mas que isso não lhe sirva de argumento, ou então que se meta com alguém do seu tamanho. Aliás, eu creio que entre nós, portugueses, o conceito de mais alto magistrado está desnecessariamente sobrevalorizado e tende até a promover uma mal disfarçada discriminação. Os tempos são outros, povo meu! Porque não aproveitarmos as próximas presidenciais para elegermos, pelo contrário, o mais baixo magistrado da nação?

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Poesia imperfeita e geralmente pretérita 14

Branco é

Branco é
galinha o põe
-te em guarda
nacional republicana
socialista e laica
dela

Estamos no Natal, meus meninos!

Conto de Natal
Um conto de Natal era geralmente uma seca. Já um conto de réis eram mil escudos. Uma pipa de massa naquele tempo, é preciso que se note.

O Natal começa cedo cá em casa. O mais tardar no início da segunda semana de Novembro, a minha mulher tira um dia, desencaixota o Natal e espalha-o pela casa inteira. O pinheiro, os presépios, a aldeia de Natal, bonequinhos de neve, arranjos de mesa, canecas de Natal, Pais Natais de todos os materiais, tamanhos e feitios, laços, lacinhos, azevinhos, estrelas-do-natal naturais e artificiais, soldadinhos de madeira a fazerem de soldadinhos de chumbo, peluches alusivos e musicais, Ferrero Rocher, Mon Chéri, calendários do Advento, bengalinhas, comboiinhos, renas e grinaldas e estrelinhas e anjinhos, velas, bolas e embrulhinhos por todo o lado, em todos os cantos e corredores, em todas as portas, em todas as divisões, incluindo casas de banho, despensa e quarto de arrumos. A iluminação é geralmente inaugurada quando o Kiko e a Sara vêm jantar, que é à quinta. A minha mulher gosta muito do Natal, o meu filho gosta muito do Natal. Eu gosto muito da minha mulher e do meu filho. Portanto, que remédio...

No ano passado metemos o galo no presépio. Todos os anos experimentamos pelo menos um melhoramento natalício, há muito que andávamos com o galo debaixo de olho, e foi no ano passado. E lá ficou ele, instantaneamente afeito aos seus novos quefazeres, altaneiro e bico calado, mas gostamos de imaginá-lo todo kikirikiki como o Jerónimo do reclame da Compal na televisão, a anunciar o nascimento do Menino Jesus exactamente às 7h30, conforme muito bem podia constar da Bíblia.
O nosso galo do presépio é "um" galo de Barcelos, mas, atenção, não é "o" Galo de Barcelos. Nada de parolices, valha-nos Deus! É um galo de capoeira, obra de mestre barcelense, isso sim, 6x4 centímetros, a obra, um euro e meio, o preço. É arte, comprada nas barraquinhas do Senhor de Matosinhos.
Só presépios temos nove, para além de mais meia dúzia de Meninos Jesus avulsos, e nem a varanda e o escritório escapam ao nosso Natal. Pusemos o galo novo no presépio principal, evidentemente. O nosso é um presépio inclusivo, ao contrário do presépio do falecido papa Bento XVI, que em 2012 resolveu expulsar a vaca e o burro, porque, sentenciou, no local do nascimento de Jesus "não havia animais". Portanto, concluí eu, também não havia ovelhinhas, o que quer dizer que também não houve pastorinhos do deserto. Sobravam, inequivocamente, os três reis magos. Gente fina, vinho de outra pipa. Reis. E magos (porque o champanhe ainda não tinha sido inventado). Esses, é certo, estiverem lá, em representação de toda a humanidade - segundo Ratzinger. Estiveram os reis magos e os anjos cantadores. Os anjos também estiveram. E os camelos.
Que se segue? Eu por acaso até era mais dado a acreditar no burro e na vaca do que na mirabolante história de Gaspar, Melchior, aliás Belchior, e Baltasar, uma boa linha média para quem jogue em 4-3-3, mas que se há-de fazer? Na verdade, eu por acaso até sou capaz de acreditar mais no burro e na vaca do que nos anjos e no presépio completo, a começar pelo dogma da virgindade de Maria tal como está estabelecido. Mas quê? Mais de dois mil anos a aquecerem o Menino com os respectivos bafos, e foi este o pagamento que o burrinho e a vaquinha receberam.
Cá em casa não expulsamos ninguém, antes pelo contrário. No nosso presépio entram todos. Todos são bem-vindos, sem excepções. Pastores, trolhas, cabrinhas, escafandristas, empregados de mesa, com e sem-abrigo, prostitutas, levandiscas, lambe-botas, grilos, reis magos e outros artistas de circo, polícias municipais, cães e gatos, sapos e ciganos, evidentemente o burro e a vaca, que se lixe o Vaticano!, e desde ano passado o galo. Este ano, por causa das coisas e para fazer coro, a Mi trouxe outro galo, mais um burro, mais um vaca e mais um ovelhinha, um camelo avulso, isto é, sem rei mago em cima, um pato, um coelho, um peru e um porco, sim um porco, se calhar para o ano traz um elefante, uma avestruz e um peixinho-dourado, talvez com aquário, e depois um crocodilo e uma tartaruga, o Ben-Hur, se também quiser, o He-Man, o Super-Homem, o homem-estátua, a Justiça de Fafe, a Barbie, o Nenuco, a Popota, a Irmã Lúcia, os Power Rangers, o Padre Cruz, os Transformers e as Tartarugas Ninja, o Zé Povinho e o Fradinho das Caldas, o Tutankhamon, o Yoda, Marcelo Rebelo de Sousa e até Bento XVI se entretanto sair em boneco.
Deus é grande, e o nosso presépio será cada vez maior.

É. Chegamos ao Verão e a minha mulher começa logo a programar o Natal, a fazer compras de Natal, a falar do Natal, e realmente num lampo estamos lá, num lampo estamos cá. Agora, nesta idade, os dias fogem-nos com uma bolina que já não conseguimos controlar. "Estamos aqui, estamos no Natal!", dizemos quase sem querer. E de repente estamos, mal acabamos de dizer. Como se estivéssemos sempre no Natal. Como se o Natal fosse um presente contínuo. E, olhai, do mal o menos.
Faz-me lembrar o padre Fraga, mestre e amigo na minha infância sacrista. Há muitos anos, no seminário, em Braga, o querido padre Fraga passava a vida a tentar chamar-nos à razão, a apelar ao redobrar do esforço no estudo, à recuperação de notas, ao brio escolar. O bom padre Fraga, Albano Teixeira Fraga, que é fafense de Travassós e que se desfazia em riso de cada vez que queria falar de mau, perorava com os braços cruzados no peito, gesticulando com uma mão destrançada de cada vez, "por um lado isto, por outro lado aquilo", coisa bonita de se ver. Ele tinha uma teoria, um argumento poderoso. Estávamos ainda em Janeiro, no início do 2.º período, e o padre Fraga agitava as juvenis (in)consciências, alertando, apocalíptico: "Porque, meus meninos, estamos no fim do ano!..."
Isso. A urgência da vida. Com o padre Fraga, desde o princípio do ano que estávamos no fim do ano, não havia tempo a perder. Cá em casa, a Mi é com o Natal. Os nossos Natais, verdade seja dita, são como os cigarros das férias grandes, que eu, o Bilinho e o Bergiga íamos fumar às escondidas atrás do Jardim do Calvário: acendem-se uns nos outros.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Diálogos fafenses 37

Cavalheiro de posição
- É muito complicado para uma pessoa da minha posição...
- E qual é exactamente a posição de vosselência?...
- Defesa central. Mas também faço o lado direito...

Banhos de acento, recomendam-se

Banho ao cão
Mandaram-no dar banho ao cão, e ele deu. Aproveitou para limpar e lubrificar as estrias, o ferrolho e o gatilho.

Era sábado, ao cair da folha, pela manhãzinha. Felizmente não chovia e faltava uma semana para as eleições autárquicas. Joel Cleto, historiador e estrela da televisão, ia falar aos seus discípulos. Estávamos no princípio do Passeio Atlântico, à beira da Anémona, o Porto ao lado, e uma pequena multidão com saquinhos com o logótipo da Câmara de Matosinhos às costas, numa mão sempre o telemóvel e noutra os auriculares, esperava a vinda. Pacientemente. Não os contei um a um, mas, assim por alto, seriam duas ou três dezenas de "irredutíveis socialistas" - foi desta forma que me apeteceu imaginá-los, tendo em conta o festival de iniciativas que naquela maré varria o País, com as câmaras e juntas, todas as câmaras e juntas, a gastarem os últimos cartuchos em excursões, passeios e passeatas, comezainas, cantorias, artistas da televisão, pão e circo para o povo, todo o tipo de iniciativas culturais ou nem por isso. Esta, segundo li depois, tinha inscrições limitadas e seria uma caminhada através da variante do Caminho Português de Santiago, pela frente marítima, até à Praia de Angeiras. Com Joel Cleto como guia, embora as explicações ao longo do percurso talvez já estivessem apalavradas numa aplicação predeterminada.
Cleto, que não é alto, chegou, empoleirou-se no pequeno muro do Passeio, pigarreou e disse: - Recomendo que liguem [a tal app]. Não demora mais do que dois segundos e é "gratuíto"...
"Gratuíto", valha-me Deus, foi o que o historiador disse. "Gratuíto" com acento no "í"! Havia necessidade?...
Eu, passando casualmente, arrepiaram-se-me os pêlos das pernas perante semelhante, e não resisti. Virei-me para trás e gritei: - É gratuito! Gratuito! A palavra gratuito não tem acento!...
Dois casais do grupo ouviram-me. Ficaram a rir-se de mim, do velho barbudo em calções e de mochila, que seguiu em frente e certamente é tolinho. A minha mãe continua a ter razão: estou sempre a destoar.

Agora. Gratuito é uma palavra grave e não leva acento gráfico. A sílaba tónica é constituída pelo ditongo ui. A pronúncia da palavra gratuito é, portanto, "gratúito" e não "gratuíto". Assim como se diz "fortúito" e não "fortuíto", "circúito" e não "circuíto", "intúito" e não "intuíto".
O bom Joel Cleto, que eu estimo, não está sozinho na gafe, infelizmente. Telejornais e noticiários radiofónicos abundam e redundam no erro, neste e noutros da mesma raça. A palavra rubrica, por exemplo, nunca se escreve com acento, mas lê-se sempre como palavra grave. A sílaba tónica é a penúltima, "bri". Isto é, e passo a fazer o desenho, diz-se sempre "rubríca", como se tivesse acento no i, e nunca "rúbrica", como se tivesse acento no u. Quer signifique assunto específico ou título de capítulo determinado, quer se refira a assinatura abreviada. É sempre rubrica, rubrica, rubrica. Dizendo-se sempre "rubríca", "rubríca", "rubríca".
E, já agora, é período que se diz e não "periúdo". Período, sempre, em todos os múltiplos significados da palavra, inclusive os mais íntimos. E diz-se medíocre, tal qual se escreve, e não "mediúcre". É medíocre.
O mesmo se aplica à palavra escrita "proíbido", mas ao contrário. "Proíbido" não existe, é proibido.

Felizmente há instrução. "Instrução" é uma palavra antiga que significava saber ler e escrever e por aí acima ou adiante. Educação era outra coisa. "Instrução", para além da tropa, era também o conjunto de aulas teóricas ou práticas para tirar a carta de condução ou para se aprender a ser bombeiro, em Fafe, mas não é isso que vem aqui ao caso. Havia quem tivesse mais ou menos instrução, havia quem não tivesse instrução nenhuma, era muita gente assim naquele Portugal ressesso, povo que nunca pôde ir à escola, os analfabetos, mais de 25 por cento da população, sobretudo mulheres, no tempo de Salazar, começavam a trabalhar aos sete/oito anos de idade, as meninas postas "a servir" pelos pais pobres e ignorantes, e assinavam de cruz. "O vinho é que induca, o fado é que instrói", dizia-se, mas os sábios do fascismo diziam muitas outras parvoíces do género e mandavam encaixilhar, como, por exemplo, "quem não é do Benfica não é bom chefe família".
A bitola da "instrução" era a Escola Primária, o Exame da Quarta e ponto final. Aprendia-se o essencial, incluindo os acentos nas palavras, os acentos faziam parte. Coisa simples, escrever e dizer as palavras como elas devem ser escritas e ditas. As novas gerações são hoje, felizmente, muito mais instruídas, tituladas, copiosas em licenciaturas, mestrados, doutoramentos e pós-doutoramentos, mas amiúde não sabem de acentos, desprezam as concordâncias, ensarilham-se nas vírgulas, confundem palavras, escrevem "exitou" quando a ideia era escrever hesitou, ainda ontem vi isso num jornal, e fartam-se de conjugar o verbo "tar".
Um bom banho de acento é o que lhes recomendo. Do fundo do coração. Se fosse herpes genital, hemorróidas, ardências, dores ou comichões nas partes, então recomendaria o outro, o velho banho de assento. De caras.

domingo, 9 de novembro de 2025

sábado, 8 de novembro de 2025

O meu primo Abenedego

Mais leve que o ar
Há quem seja magro, mas Hélio realmente abusava. Um dia levantou voo...

Diz que há um australiano que detém o recorde mundial do nome mais comprido do mundo, um nome com mais de duas mil palavras, é preciso um camião para andar com o nome às costas e leva quinze dias a assinar, adeus ó vai-te embora. O nome mais comprido de Portugal é reclamado pelos admiradores do rei D. Manuel II (1889-1932), que se chamava, completamente, Manuel Maria Filipe Carlos Amélio Luís Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis Eugénio, e há quem acrescente, de Bragança Orleães Sabóia e Saxe-Coburgo-Gotha.
Em Itália, um casal foi proibido de dar o nome de Sexta-Feira ao filho, mas na China, aqui atrasado, havia quase seis mil pessoas que se chamam Ano Novo. Em Portugal, país de brandos costumes, parece que ainda ninguém foi tão longe, mas apenas porque não é, ou não era, permitido. No Ministério da Justiça existia mesmo uma lista negra de mais de 2.500 nomes próprios e esquisitos que já tinham sido pedidos e recusados.
E alguns deles nem lembrariam ao diabo, como, vede lá, Jesus Cristo, Deusa, Adoração, Imaculada, Cristão, Cristo ou Maria da Aleluia. Pérolas que constavam na lista de "Vocábulos Não Admitidos como Nomes Próprios" do Instituto dos Registos e do Notariado (IRN) e que estavam lá porque, exactamente, houve pais que tiveram a peregrina ideia de chapá-los da testa dos respectivos filhos. Não sei se ainda existe tal lista, que já estava há alguns anos sem qualquer tipo de actualização.
Os pais italianos queriam ser "originais", disseram aos jornais, mas o tribunal considerou, talvez acertadamente, que Sexta-Feira traria uma carga de "vergonha" e de "ridículo" à criança que fosse marcada para toda a vida com semelhante nome.
Ora, se os portugueses têm muitos defeitos, um deles não será certamente a falta de originalidade. E também aqui, no ramo dos nomes mais ou menos patetas, não ficamos a dever nada a ninguém.
Duvidais? Tomai então nota dos seguintes: Abenedego, Brilhantina, Consolino, Divinando, Estaline, Girina, Ismanuel, Jacquelino, Magnífica, Maxfredo, Ovnis, Paliologo, Romã, Sete, Togarma, Viking ou Zuzidine. Tudo nomes que alguém quis pôr aos filhos, mas que o bom senso da lei proibiu.

A sorte, para nós, fafenses à moda antiga, é que não há, nunca houve, norma para a atribuição de alcunhas, que nisso somos campeões. Ninguém nos bate na arte de crismar o parceiro, às vezes famílias inteiras, com apodos porventura espertos e patuscos, quando não carregados de desprezo e maldade, inveja e vingança, quase sempre explorando acintosamente particularidades físicas ou morais dos indivíduos em questão. Eu, por herança, sou "Perna-de-Pau" e "Bomba", amiúde "Dezassete", e também "Neques", mas pela costela de Basto. E, se quereis saber, tenho muito gosto!

Quando, há uns anos, fiz um pequeno trabalho jornalístico sobre nomes, o IRN esclareceu-me, cheio de a propósito, que o nome próprio das "crianças nascidas em Portugal que sejam portuguesas" deve ser "português, de entre os constantes da onomástica nacional ou adaptados graficamente à língua portuguesa, não devendo suscitar dúvidas quanto ao sexo". Filhos de jogadores de futebol e de artistas da televisão são casos à parte, foi o que então concluí.
Por outro lado, e voltando ao princípio, à questão do tamanho, o IRN informou-me que o nome completa de cada pessoa deve compor-se, no máximo, de seis vocábulos, isto é, até dois nomes próprios e quatro apelidos. Como, por exemplo, Duarte Nuno Fernando Maria Miguel Gabriel Rafael Francisco Xavier Raimundo António de Bragança. Não é?...

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Queres dinheiro? Toma!

As extraordinárias descobertas da ciência
Os cientistas descobriram: os neutrinos têm massa. Os portugueses, de uma forma geral, antes pelo contrário.

Metido sorrateiramente na caixa de correio da porta de casa, um prospectozinho 21x10 em couchê fatela escrito dum lado só. Pergunta, em letras garrafais, vermelhas, "Precisa de dinheiro?" e, ainda enorme mas a preto, "Tem imóvel?"... E passa a explicar, em caracteres mais recatados: "Mesmo com penhoras, dívidas fiscais ou problemas bancários, temos a solução! Contacte-nos. Resolvemos em 48 horas. Análise gratuita". Seguem-se dois números de telemóvel, e mais nada, nem um nome, uma morada, uma marca, pois, como diz o Evangelho, "Quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que fez a direita, a fim de que a tua esmola fique em segredo" (Mateus 6:3-4). Ó almas caridosas e secretas! Ainda há gente boa, graças a Deus...

O homem mais procurado

O troglodita e os poliglotas
Ele diz que é troglodita, isto é, que fala várias línguas, e até pôs no currículo. Poliglotas, costuma explicar, eram os gajos dos dinossauros, com uma moca ao ombro e as mulheres arrastadas pelos cabelos.

Estais a ver o Florindo Cabeças, também conhecido como Lindinho da Mamã, Flox Bigfoot, Becas Língua-e-Dedo, Garanhão da Cumieira, Rochedo da Pegadinha, Estripador do Matadouro, Campeão da Ponta-e-Mola, Príncipe dos Faquires, Guardião dos Piças-Moles, Estoura-Vergas do Retiro, Fantasma do Palacete, Comandante-em-Chefe da Sargaça, Perseguidor de Lampiões, Esticadinho de Medelo, Fângio da Recta de Armil, aliás Colosso de Rodas, Furacão do Twist, Doutor Corrente-de-Ar, Duque do Palmanço, Fantástico do Terilene, TGV de Cepães, Weissmuller de Calvelos, Stradivarius de Golães, Sete-de-Paus do Assento, Cabeçudo Machoman ou Fló Ajeitadinho, também chamado Vânia Toleirona e, às vezes, Selma Sabrina? Não? Não estais a ver? É o que eu digo: hoje em dia ninguém sabe quem ele é. Nem eu.

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Diálogos fafenses 36

O silêncio de Deus
- Deus diz-lhe alguma coisa?
- Não, Deus nunca me disse nada.
- É portanto ateu, agnóstico talvez, ou digamos indiferente...
- Por acaso até sou crente, religioso e bastante praticante.
- Mas diz que Deus nada lhe diz...
- Pois é. Falo muito para o boneco...

Os homens medem-se aos furcos

Mania das grandezas
Era um anão fora do normal. Media um metro e noventa e sete.

O Tatu está de volta, volta e meia. Perguntar-me-eis: mas qual Tatu?, e eu poderia dar uma certa e determinada resposta, rimada e bem conhecida aí por uns tantos, porém, pessoa educada que sou, digo simplesmente: o Tatu da "Ilha da Fantasia", que a RTP Memória resolve pôr a arejar quando lhe dá na cabeça. O Tatu (Tattoo) era o francês Hervé Villechaize, um excelente anão mas fracativo actor. Ainda assim, gosto mais de o ver trabalhar do que, por exemplo, ao ultrafamoso Tyrion Lannister (Peter Dinklage) da "Guerra dos Tronos", essa tão aclamada série de culto que a mim não me assiste. Não vão mais longe. Se andavam à procura do indivíduo que, a nível mundial, nunca viu um episódio da "Guerra dos Tronos", spoilers tampouco, podem mandar suspender as buscas - c'est moi.
Anões e o mundo do espectáculo - assunto menor? Não creio. Os homens não se medem aos palmos. Medem-se aos furcos, como toda a gente sabe. E as mulheres também. Falo primeiro por mim, que, perguntado ainda na escola primária acerca das minhas perspectivas de futuro, respondi que, quando fosse grande, queria ser anão para ir para o circo. E antes de mim já havia o Peter Pan e depois de mim saiu da cartola aquela improvável linha média - Adelino Teixeira, Alves, Vítor Martins e Octávio - com que mestre José Maria Pedroto calou Wembley-o-Velho e empatou a arrogante Inglaterra, no nosso mítico ano de 1974. Parece que ainda os estou a ouver, em Dolby 4-4-2, subindo em passinhos curtos a estrada dos tijolos amarelos: The house began to pitch. The kitchen took a slitch. It landed on the Wicked Witch in the middle of a ditch, Which was not a healthy situation for the Wicked Witch.
Dos pequenos, sim, reza a História. Coloquemos, pois, os anões em cima da mesa, porque merecem. Se me pedissem uma shortlist dos anões mais famosos, sendo que a fama mede-se obviamente em televisão e cinema, eu escolheria:
Talvez a Thumbelina (Debbie Lee Carrington), de "Desafio Total". Talvez o Mini Me (Verne Troyer), de "Austin Powers: O Espião Irresistível". Talvez Deep Roy, o múltiplo oompa loompa em "A Fantástica Fábrica de Chocolate". Talvez o duende Marcus (Tony Cox), em "Um Pai Natal para Esquecer". Talvez o professor Filius Flitwick (Warwick Davis), na saga "Harry Potter". Talvez o Mickey Abbott (Danny Woodburn), na série "Seinfeld". Talvez o "Arnold" Gary Coleman. Talvez o R2-D2 (Kenny Baker), da "Guerra das Estrelas". Talvez o Wee-Man (Jason Acuña), do "Jackass" da MTV. Talvez o munchkin Karl Slover, do "Feiticeiro de Oz". Talvez James Cagney, Mickey Rooney, Edward G. Robinson ou o apalpador Dustin Hoffman. Evidentemente poderia juntar à lista o Danny DeVito e o Tom Cruise, mas estes, peço desculpa, dizem-me muito pouco. Talvez...
Ou talvez o fogoso Nelson Ned, que era de outras artes e me dava cabo da cabeça aos domingos à tarde, nos castigadores altifalantes dos Comandos, da Amadora a Santa Margarida. Ou talvez o anão do Multibanco. Ou talvez, porque não, o Sr. José Nogueira, de Fafe, que, em meados do século passado, esteve quase a ir para Lisboa e ser famoso. Ou ainda talvez, puxando ao sentimento, as minhas duas queridas avós, a Bó de Basto e a Bó da Bomba, pequerrichas também, ou o senhor Flórido Engraxador, que trabalhava no velho Peludo e, aos sábados e domingos, também em Cima da Arcada, ou o César da Recta ou o senhor Clemente que fazia pipas e escadas para as vindimas e decilitrava aguardente como um alambique. Talvez...
Mas que fique registado que o meu anão favorito é uma anã. Chama-se Cadence Roth, Cady para os amigos, e chegou a ser a mulher mais pequena do mundo, se tivesse realmente existido. Conheci-a num livro, "Talvez a Lua", de Armistead Maupin. Procurai o livro. Atentai na Cady.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

As beatas e os anões

Não há milagres
Abençoados os que não acreditam em milagres. Que sensação maravilhosa, que deslumbramento devem experimentar quando eles acontecem!

Li no jornal, com estupefacção e náusea, que "atirar beatas para o chão passa a custar entre 25 e 250 euros de multa". Eu não sabia disto, palavra de honra: mas quem é que anda para aí a atirar beatas ao chão? Desde a história do lançamento de anões que eu não via tamanha estupidez. Por amor de Deus, deixai as mulherzinhas em paz! A religião é coisa de cada um...

Tramado pelos socos

Dores artroses
Ele padecia de "dores artroses". E também de evidente analfabetismo.

Fafe tinha tudo. Fafe até teve um anão que esteve quase a ir para Lisboa e ser famoso. Não foi por pouco, lá nos meados do século passado, mas só em 2011 é que eu soube da história, em boa hora recuperada pelo blogue Falaf - Revista Cultural de Fafe, creio que de Jesus Martinho e que entretanto encerrou actividade ou mudou de instalações. O homem em foco, o nosso pequeno grande herói, como se diz agora, chamava-se José Nogueira, era natural da freguesia de Golães e teve direito a prosa e retrato na edição de 1947 do Almanaque Ilustrado de Fafe.
Num artigo muito à época, com o desajeitado título de "Um exemplar raro", o Almanaque falava do "petiz de 59 anos" que passou ao lado de uma grande carreira derivado a dois pormenores que hoje não teriam importância nenhuma: a ignorância e o calçado. O anão de Fafe, que "nos seus tempos fazia serenatas, mas não casou", nasceu lamentavelmente com pelo menos 80 anos de avanço. Fosse ele do nosso tempo e ninguém sabe se não estaria, por exemplo, à frente de um partido e a dar todos os dias nas televisões.
Porque faltou muito pouco para que o nosso José Nogueira se tivesse transformado numa espécie de atracção de feira a nível nacional, numa celebridade, e é preciso que se note que na altura não havia reality shows nem CMTV, nem TVI, nem Now, nem CNN Portugal, nem comentadores, nem paineleiros, nem YouTube, nem influencers. O "petiz" era mesmo o máximo por si próprio, era sucesso garantido. E Paulo Portas, não vamos mais longe, também foi pelas feiras que começou.
Segundo rezava o Almanaque, o ilustre fafense José Pinto Bastos "andou para levar" o nosso anão "ao grande Coliseu dos Recreios de Lisboa, pelo que teve entendimentos com o benemérito Empresário Ricardo Covões". A coisa, tomai nota, só não foi avante por causa de José Nogueira, tornando ao Almanaque, "ser analfabeto e estar afeito a usar socos e, lá, precisar de usar calçado de polimento, fraque e luvas."
Os socos... Os socos é que o lixaram. O analfabetismo foi desculpa, pelo menos é o que eu acho.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

O jeito que me faz o Armand Assant

Sensibilidade e bom gosto
Eleutério tinha um desgosto muito grande no nome que lhe deram. Mudou para Adalsindo e agora é um homem feliz.

Eu tenho um querido amigo de infância que se chama... que se chama... coiso. Tenho também este pequeno problema: hoje em dia, com a idade e tão raras as saltadas a Fafe, nunca me lembro do nome do meu querido amigo de infância. Então inventei o seguinte truque de memória, que me tem ajudado imenso: quando quero falar com ou do meu querido amigo de infância, penso no Assante. Sim, no actor americano Armand Assante. Estais a ver? Armand, tão quase igual ao portuguesíssimo Armando. Por exemplo, de Armando Baptista-Bastos. E pronto, já descobristes e não era difícil, pois não? O meu querido amigo de infância chama-se, evidentemente, Armindo. Isso. Armindo.

O nome é que nos destina

Não praticante
Dizia: - A minha religião é o trabalho. Mas não pratico.

Lúcia de Jesus Rosa dos Santos (1907-2005), nascida com um nome assim, tão predestinado, Jesus e também dos Santos, apesar de Rosa, só podia dar no que deu. A Irmã Lúcia viu Nossa Senhora em cima de uma azinheira, guardou o segredo de Fátima, entalou Salazar e a Igreja, escreveu livros de memórias, encontrou-se com papas e é praticamente santa, só lhe falta um bocadinho. E é isto. Cada um é para o que nasce, e o nome é que nos destina. Eu nasci Américo Hernâni Von Doellinger, em Fafe, a mais de 260 quilómetros da Cova da Iria, por auto-estrada, que naquele tempo não havia, e, espero que me perdoeis, com um nome assim escaganifobético, desinspirador, perigosamente estrangeiro, insignificante e incréu como o meu, nunca tive, não tenho a mínima hipótese. E, mais, também levei as ovelhas ao monte...

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Poesia imperfeita e geralmente pretérita 12

Lua

Gritam Céus Choram
Olhos Cegos
A noite baixou sobre a Noite
(Translucidez insustentável necrotério clamorosamente profético)
Trazes-me nada
Dizes-me amplexo
Sexo Nexo Tacho
A Lua caiu
Partiu(-se)
- foi pena -
Era da Vista Alegre

domingo, 2 de novembro de 2025

Os dias trocados

E se de repente?
Se de repente uma flor lhe oferecer desconhecidos, pare imediatamente com a medicação.

A Igreja Católica tem mais de vinte mil santos e beatos com cartão passado e as quotas em dia. Santos populares, que são apenas três, nossos, e os outros todos. Muitos deles de uma santidade nefasta ou pelo menos altamente duvidosa, mas paciência, agarremo-nos então aos vinte mil. E dia 1 de Novembro é dia deles todos. Dia de Todos os Santos. É portanto dia de festa de arromba, a romaria maior da Igreja inteira. Seria de multiplicar por vinte mil, digo eu, o pagode sem fim de um São João, de um Santo António, de um São Bentinho, de um São Francisco, de um Santo Antão, de uma Santa Ana, de uma Senhora de Antime, de um Senhor de Matosinhos, de uma Senhora da Agonia, de uma Senhora dos Remédios, até de um Corpo de Deus, mas não, o povo pega no feriado, compra flores e vai chorar para o cemitério. Chorar os seus mortos, os Finados, os Fiéis Defuntos. Mas isso é só no dia seguinte, 2 de Novembro, ó criaturas!...

sábado, 1 de novembro de 2025

Era tão fácil a morte em Fafe

O testamento
O notário vacilou. Mas leu. O defunto deixava beijos e abraços. Distribuídos pelos inúmeros herdeiros em fracções de zero a 145, consoante o julgado merecimento de cada qual. Dinheiro não havia. Tinha ido todo em putas e vinho verde. Isto é, em beijos e abraços.

Um folheto que me foi metido na caixa do correio convidava-me a escolher "um Plano Funerário adequado". Adequado a quê e para quem?, se conto estar morto quando for o meu funeral e quero lá saber de mordomias póstumas - foi o que então pensei, e já lá vão alguns anos. O papel dizia que havia um "Plano Magno", praticamente como o gelado, um "Plano Essencial", que não faz bem nem mal, e um "Plano Popular", como o ex-CDS. Em qualquer dos casos, eram garantidos "serviço personalizado a partir de 995 euros" e uma vasta "experiência", o que também deixa muito mais descansado o defunto mais exigente. "Florista, Campas e Lápides, Documentação Oficial, Serviço Internacional, Música na Cerimónia, Medalha Impressão Digital, Cinzas ao Mar, Financiamento sem Juros, Contrato de Funeral em Vida", estava tudo previsto.
A caixa do correio mete-me medo. Não tanto pelas contas da luz, da água ou do condomínio, tampouco pelos avisos das Finanças ou do Tribunal, mas principalmente pelos que me perguntam pelo meu ouro e eu não os conheço de lado nenhum, pelos que me pedem o meu voto e não me conhecem de lado nenhum, pelos que querem comprar a minha casa que eu não quero vender, pelos que me querem vender uma casa que eu não quero comprar, pelos que querem que eu mude de Deus, e agora até pelos que me querem vender a minha morte como se soubessem alguma coisa da minha vida que eu não sei, ainda por cima aliciando-me com extras e regalias redundantes, luxos próprios para defuntos vaidosos, como se por acaso eu estivesse mortinho por fazer figura.
Vamos lá com calma. Eu sei que ninguém fica cá para a semente e que se alguém ficar sou eu (mas não é isto que aqui interessa). Sei que fatalmente já por cá andei mais tempo do que aquele que me resta para andar. Mas, com franqueza, a vida é tão boa e dá-me tantas consumições, que tenho mais que fazer do que pensar na morte, do que organizar a minha morte. Quando eu morrer (se morrer), logo se verá. Eu é que já não verei, e não me faz diferença nenhuma. Que se amanhem! Essa é a herança que deixo de bom grado a quem me sobreviver. Se alguém houver.

Era tão fácil a morte em Fafe. Morria-se e tínhamos logo à porta, como se estivessem à espera, de fita métrica na mão, patrões ou emissários, o Albano da Costa ou o Damião Monteiro, que dividiam o mercado talvez ela por ela, cada qual já sabia quem eram os seus, e, mais tarde, também o Baptista de Antime, que alugava altifalantes e fazia funerais "de categoria", como afiançava o Zé Maria Sapateiro, e nunca ninguém o desmentiu. Na hora da morte, a escolha da funerária, para os fafenses, era simples: baseava-se nas amizades, nas ligações familiares e, definitivamente, em favores devidos a este ou àquele cangalheiro, homens importantes, influentes, e com negócios e interesses vários e poderosos na vida da vila antiga.
Às vezes, para enterros nas aldeias à volta, algumas delas, por aquela altura, ainda sem estradas de lei ou sequer caminhos transitáveis, os agentes funerários requisitavam a carreta dos Bombeiros, puxada e manobrada à mão por um piquete fardado de gala, com luvas brancas e capacetes dourados reluzindo ao sol, coisa bonita de se ver. Nestas infaustas e solenes ocasiões, os bombeiros de serviço recebiam uma pequena gratificação, a bem dizer simbólica, decerto saída do pagamento da funerária à corporação, e, após as exéquias, no regresso do cemitério, eram amiúde agraciados pela família enlutada com uma generosa merenda, que constava, regra geral, de bacalhau frito, broa e umas boas malgas de verde tinto, evidentemente, nem que fosse apenas manhãzinha.
Publicidade a respeito de funerais, naquela maré, em Fafe, a única que havia era a do gato-pingado biscateiro e apressado que andava de loja em loja, de café em café, de tasco em tasco, a deixar o tradicional aviso em papel do falecimento e do enterro, para colocar nas montras, mas explicando sempre de viva voz, em todos os locais, quem era exactamente o morto, o seu enquadramento familiar, irmãos, pais ou filhos, se fossem mais conhecidos, uma ou outra nota biográfica, empregos, alcunhas, se as houvesse, hora e morada, porque naquele tempo os defuntos saíam de casa, tudo dito muito rapidamente, entrada por saída, uma e outra vez, numa espécie de lengalenga previamente ensaiada, porém aberta a perguntas, e eu gostava muito de ouvir aquilo, como se fosse um teatro, uma récita, eu dava realmente valor ao trabalho do homem. O gato-pingado, para mim, era um artista.

Devo confessar, já agora, que o prospecto que me enfiaram na caixa do correio acabou por aguçar a minha curiosidade. Esse é, afinal, o truque do marketing, mesmo do marketing de trazer por casa. Porta a porta. Admito que estou a pensar pedir um orçamento para a minha morte. Seduziu-me aquela coisa da "Medalha Impressão Digital", que não sei o que é mas deve ser muito bom para o morto. E também quero que me expliquem muito bem explicadinho o "Contrato de Funeral em Vida". Isso é legal? E é saudável? Funeral em vida? Dasse!...