quarta-feira, 31 de dezembro de 2025
Diálogos fafenses 51
- Vais ver o fogo-de-artifício?
- Não, vai tu. Depois contas-me...
Fafe de sorte e azar
Servindo à pinta
- Com quantos paus de faz uma canoa?
- Ignoro.
- E com quantas copas?...
Queiramos ou não: Fafe era Fafe, um farol civilizacional, inapagável Las Vegas do vale do Ave hoje em dia com barragem e tudo, oásis de sorte e azar encravado entre a Póvoa de Lanhoso e Felgueiras, a zona de Basto, Vieira do Minho e Guimarães, consoante o lado por onde se lhe quiser entrar.
Os flippers chegaram a Fafe e foi uma febre medonha. Uma epidemia, descontrolada mas circunscrita. Eram sempre os mesmos, os do póquer, que eram os do king, que eram os do bilhar, que eram os do dominó, que eram os das copas, agora apanhados pelo pinball, e apostava-se ali à rica e sempre com o dinheiro na mão. Os recordes, sucessivamente batidos, valiam belas maquias. Eram autênticos agarrados, constavam-se lares praticamente desfeitos. Era preciso marcar vez, havia quem pagasse por uma vaga, havia quem se esquecesse de ir trabalhar à tarde, só para não largar a máquina, deixando-a à mercê da concorrência. Não havia vida para além dos flippers, morava-se ali, ao som daquelas campainhas mágicas, sem mulheres, sem filhos, e ao fim da noite talvez também sem um tostão no bolso. Depois as máquinas foram-se embora, foi a sorte, ou então milagre, e os jogadores tornaram a casa, às mulheres e aos filhos, à vida real. Até que chegaram as consolas, os computadores e os telemóveis-casinos.
terça-feira, 30 de dezembro de 2025
As coincidências nunca são por acaso
segunda-feira, 29 de dezembro de 2025
Bais à passage?
A ordem dos factores
Deitou as canas e apanhou os foguetes. Agora chamam-lhe Maneta.
A passagem de ano em Fafe era bem porreira no meu tempo. As motas juntavam-se e andavam sem escape à meia-noite, no Largo, como baratas tontas, sem rei nem roque, bebia-se Magos no velho café Peludo e, regra geral, vomitava-se abundantemente. Uma coisa verdadeiramente constada, uma festa inegavelmente de arromba! Vinha povo de fora, até de Guimarães como se fossem espanhóis, a Arcada enchia-se como um ovo, por baixo e por cima, por dentro e por fora. Era o delírio! Tremens. As motas eram sobretudo Zundapp e Sachs, faziam um cagaçal desgraçado e os tombos sem capacete eram saudados como se fossem golo do Benfica! Às vezes a festa metia também ambulância, num extraordinário espectáculo de som, luz e cor. O Magos era uma merda, mas naquela altura eu não sabia, faltava-me ainda o termo de comparação. Fazia também muito frio na rua, que era onde o ano passava, um frio literalmente de rachar, e já era uma sorte do caraças chegar a casa com o nariz e as orelhas inteiras, isto para não falar de outros acessórios corporais por norma mais recatados e indispensáveis. Na manhã do dia seguinte, que só começava, a bem dizer, à noite, o ano novo metia baixa.
Portanto, ia-se ao Largo ver o fim do ano, ia-se à "passage". O ano passava em Fafe apenas uma vez por ano, como no resto do mundo, embora no resto do mundo o ano não passe sempre à mesma hora, mas, não sei porquê, em Fafe parecia que o ano passava todos os dias, isto é, todas as noites. Os de agora podeis não acreditar, mas era assim a vida na nossa terra, e, garanto-vos, era de categoria.
domingo, 28 de dezembro de 2025
A vida era uma fotonovela
Pimenta na língua
Cuidado com a comida picante! Isto é, comida para maiores de 18 anos, servida apenas em restaurantes com bolinha vermelha, de preferência à ceia, após a meia-noite.
Recuemos. À década de oitenta do século passado e ao cimo da mui portuense Rua de 31 de Janeiro, onde havia uma casa de jogos de máquinas de flippers e afins que tinha uma cave com um altifalante fanhoso que, de uns quantos em quantos minutos, gritava cá para fora a curiosa frase "Mudança de modelo". Lá em baixo parece que havia umas raparigas muito jeitosas e nuas a fazerem não sei o quê e umas cabinas individuais e sebentas com ranhura para a clientela meter a moeda como nas velhas jukeboxes de feira e espreitar por um vidro e fazer também não sei o quê. Sei muito pouco do assunto porque, palavra de honra, nunca lá pus os pés. Ou se calhar pus, lembro-me vagamente da situação, não juraria em tribunal, mas isso também não vem ao caso.
Informei-me. "Mudança de modelo", logo a seguir ao ding-dong de uma campainha de aeroporto, queria dizer, por exemplo, que a morena mamuda passava a pasta à loura pernalta e ia para os bastidores ler a Corín Tellado, e assim sucessivamente e vice-versa, mas decerto queria dizer também que os clientes tinham de fechar a braguilha e limpar as mãos o mais rapidamente possível e dar a vez a outros, que eram mais que as mães, sobretudo no intervalo de almoço. O speaker de serviço dizia "Mudaaaança de modeloooo" com um garbo só comparável ao do mestre-de-cerimónias do Circo Merito quando anunciava na Feira Velha de Fafe a sensacional "Maribelaaaa no seu rrrrrola-rolaaaa". Eu gostava: "Mudaaaança de modeloooo"! Parava em frente para ouvir, uma e outra vez, até à hora de voltar ao trabalho, um pouco mais à frente, no velho Primeiro de Janeiro da Rua de Santa Catarina. E ria-me. Quarenta anos depois, leio e ouço a moderna lengalenga da "mudança de paradigma". "Mudança de paradigma" acima, "mudança de paradigma" abaixo. "Mudança de paradigma" para aqui, "mudança de paradigma" para ali. Para quê? Para digma! E também me faz rir, confesso, mas não me arrebita. Falta-lhe sustância, ao paradigma...
Já agora, sobre Corín Tellado, espanhola que se chamava Maria del Socorro Tellado Lopez e morreu no dia 11 de Abril de 2009, aos 82 anos. Escritora, autora mais lida na língua de Cervantes logo atrás do próprio, publicou mais de quatro mil romances cor-de-rosa ao longo de uma carreira de quase 56 anos, vendendo acima de 400 milhões de exemplares, o que lhe valeu a entrada no Guiness em 1994. Em Portugal, e pelo menos em Fafe, antes do 25 de Abril, a senhora Corín Tellado ficou famosa pela melosíssima revista de fotonovelas a que emprestava o nome. As revistas eram disputadas, partilhadas, emprestadas, trocadas, rompiam-se de mão em mão, iam de casa em casa como a Sagrada Família mas com outros interesses. A televisão era a RTP e o mais parecido com uma telenovela era o TV Rural do engenheiro Sousa Veloso (1926-2014), que eu conheci muito bem. Ambos frequentávamos o lendário café Peludo. Ele dentro do televisor pendurado logo à entrada, do lado esquerdo, por cima dos bolos-reis previamente encomendados pelos clientes, com peso certo, e comprados em Guimarães para o Natal, e eu sentado no canto contrário, atento à TV e aos bolos, que também só conhecia de vista, ouvindo uma e desejando os outros, nem que fosse só um bocadinho, uma migalha, uma tona. No final, o Senhor Engenheiro dizia, num largo sorriso, já em cima da música toda folclórica: "Despeço-me com amizade, até ao próximo programa". E era para mim. Noutras ondas, o "Simplesmente Maria", folhetim radiofónico, chegou à Renascença apenas em Março de 1973, e o país desfez-se em lágrimas, como se houvera inundações. Já disse: era assim em Portugal e pelo menos em Fafe. A parte de Fafe do rés-do-chão, da esfregona e da costura. A parte de Fafe de que sou. Era triste mas era isto: a vida era uma fotonovela.
E depois chegou a Gina.
Como os melões
O nosso António-Pedro
Às moscas
As salas de cinema estão às moscas - dizem. Realmente a limpeza já não é o que era.
Mas ainda não percebi. Resultado: estou há treze anos sem me rir, é preciso ter azar, e tanta seriedade já me faz diferença, começo a ficar com cara de pau, uma cara talvez como a do nosso bom Zé Carlos Estantio, mas ao contrário.
Por outro lado. O cineasta António-Pedro Vasconcelos (1939-2024) nasceu em Leiria e viveu geralmente em Lisboa, mas vinha amiúde e em miúdo a Fafe, "onde tinha e tem família", segundo li e ouvi na FafeTV. Em 2015, homenageado na quinta edição do Fafe Film Fest, o realizador de "O Lugar do Morto", o cineasta que acreditava no grande público e queria que as pessoas vissem cinema, o autor de muitos êxitos de bilheteira e de algumas obras-primas, fez questão de dizer esta coisa linda: "Nasci, acidentalmente, em Leiria, mas considero-me um homem do Norte e, em particular, de Fafe, terra onde vivi parte da minha infância".
E, já agora, com esta termino: a sala de cinema do Teatro-Cinema de Fafe devia chamar-se, por exemplo, Sala Dona Laura Summavielle. Mas, para saber disto, se calhar era preciso ser-se de Fafe desde pequenino...
sábado, 27 de dezembro de 2025
Boas entradas!
Testes em massa
Quando, por ocasião da pandemia, o Governo anunciou e promoveu testes em massa, ele pensou e disse: - Sim, evidentemente testes em massa, estou absolutamente de acordo. Mas testes em arroz? E testes em batatas? Que é deles?...
A culpa foi do mordomo
Abençoado juiz
- Levante-se o réu - disse o juiz. O réu levantou-se e andou, perante o espanto e a comoção gerais. Abençoado juiz! Só naquela semana já era o quarto milagre...
Sou fafense, disse Ubaldo
Os mortos vivos
Diz-me o meu amigo: "Eh pá, que tétrico, só publicas textos de escritores mortos". "Mas mortos vivos", digo eu. É o que está a dar, não é?
A esse respeito. Em 2008, no foguetório pós-Prémio Camões, a Câmara de Fafe, então presidida pelo então socialista José Ribeiro, tantas voltas dá o mundo, prometeu "futuramente" uma rua ao nome de João Ubaldo Ribeiro e ao próprio, que teve a amabilidade e a imprudência de agradecer antecipadamente o rapapé a haver. Sinceramente, não sei se a autarquia fafense já cumpriu a promessa, passados estes anos todos, e Ubaldo entretanto morreu. Isto é, eu procurei a rua e não a encontrei. Cadê? Procurei rua, avenida, praça, praceta, alameda, travessa, viela, bairro, urbanização, rotunda, campo, jardim e até sala e auditório, mas nada! Melhor dizendo, encontrei realmente a Rua João Ubaldo Ribeiro, aliás duas ruas João Ubaldo Ribeiro, mas no Brasil, uma em Aracaju, capital do estado de Sergipe, e a outra no município de Uberlândia, interior de Minas Gerais, e talvez até haja mais, mas tão longe, do outro lado do Atlântico, com a confusão que vai nos nossos aeroportos, não me dão jeito nenhum. Estarei a procurar mal? Alguém me pode ajudar? A rua estará mesmo à minha frente, em Fafe, ao virar da esquina, e eu não a vejo?
Se houver quem saiba, que me diga, por favor. Às tantas, o "futuramente" do bom Dr. Ribeiro, que também é poeta, até já chegou e eu, por falta de comparência, é que ainda não dei fé...
sexta-feira, 26 de dezembro de 2025
A religião verdadeira
Mais vale sóNo que diz respeito a Deus, a Igreja às vezes só estorva.
- Olha, ainda por cima jeovás! Rua, andor daqui para fora! - mandou Dona Amélia, sacando do toco de vassoura, mais rápida que a própria sombra. - Não quero cá disso! Eu não acredito na religião verdadeira, quanto mais na vossa... Xô, xô, xô, já disse!
É triste o fim do Natal
O princípio de Peter
O princípio de Peter (leia-se Piter) é a letra Pê. E o fim de Peter (continue a ler-se Piter) é a letra erre. O resto é conversa.
O fim do Natal é muito triste. Terminasse o Natal em m, Natam, terminasse o Natal em x, Natax, terminasse o Natal em y, Natay, terminasse o Natal em z, Nataz, terminasse até o Natal em k, Natak, e, quer-se dizer, o fim do Natal até teria alguma piada. Agora, terminar em l, Natal, um esquelético tracinho ao alto, um pauzinho desamparado armado em guarda-redes, é realmente uma tristeza muito grande, um fim que ninguém merece.
O segundo dia da vida do Menino Jesus
Traição
Natalino preferia a Páscoa. A família nunca lho perdoou.
quarta-feira, 24 de dezembro de 2025
Diálogos fafenses 2
- Vem, vem! Vem todos os anos!
- Mas o Silva morreu em Outubro.
- E o que é que isso tem a ver?
Os penetras
Caio Carmo & A. Trindade
Caio Carmo & A. Trindade, a prevenir cataclismos desde 1755. Exactamente.
Coisa de homens
O Super-Homem
Admitiu finalmente que era o Super-Homem e, diga-se em abono da verdade, ficou bastante admirado por sê-lo.
Brothers in arms
Ordem unida
A incontinência urinária, tomai bem sentido, não é uma cortesia militar!
Todas no mesmo cesto
Um problema
Ele adorava nêsperas. Mas detestava magnórios. E tinha ali um problema.
In vino veritas, in aqua planing
Convívio
Todos os domingos com chuva, sempre o mesmo dilema: "shopping" ou urgência do hospital? Optava invariavelmente pela urgência do hospital. - Há mais convívio - dizia.
Honoris Causa abriu os trabalhos e foi directo ao assunto. Disse: - E se nos deixássemos de merdas e começássemos a falar como as pessoas?...
Encontro de espíritos
Eu vi o Natal!
Subi ao farol e vi o Natal! Isto é. Não vi nada, estava a brincar. Eu não subi ao farol. Tenho vertigens.
Que não. Era melhor esperar um bocadinho. Faltava o espírito natalício...
terça-feira, 23 de dezembro de 2025
Vendedores de céu e outro mobiliário
Na cama
Ela disse que se sentia cómoda. Ele, mesinha-de-cabeceira.
Andam aos pares, como o Senhor mandou para a Arca, aos pares e de Bíblia na mão, e vê-se logo que são boas pessoas. Geralmente senhoras. A minha mãe ensinou-me desde pequenino a respeitá-las e a despachá-las com delicadeza quando nos apareciam em casa, em Fafe, ainda eram novidade, primeiro no Santo e depois no Assento, lugares assim com nomes de fé praticamente e que decerto até era pecado, sei lá, contaminar. Mas quanto aos pares, que às vezes são trios: missionam a bom missionar, de porta em porta, no meio da rua, sujeitam-se a malcriadezas em nome da fé que têm para dar e vender, e dou-lhes valor por isso. Um par, desta vez ela e ele, interpelou-me um destes dias, ali em baixo, no passeio à beira-mar onde amiúde montam banca:
- Não é nada da morte que me querem falar, pois não? A morte até poderia ser um bom princípio de conversa, em termos de marketing, de aproximação tablóide à clientela, por assim dizer, mas vocês querem é falar-me da vossa Igreja, querem converter-me à vossa Igreja, querem anunciar-me Deus, o único verdadeiro, Jeová, é ou não é?
Era.
- Então, em verdade vos digo, assim será feito - disse eu, com voz de sarça ardente ditando leis -, ouço-vos, vocês falam-me da vossa Igreja e de Jeová, mas só se também me derem tempo de antena para eu vos falar de uma mobília de sala de jantar muito jeitosa que tenho para vender.
- Mas para que queremos nós ouvi-lo falar acerca da mobília de sala de jantar, se temos uma praticamente nova, estamos tão bem servidos e não precisamos de mudar? - respondeu o par em coro e percebi logo que, para além de par, ela e ele eram também casal.
A resposta que me deram era mesmo a que eu queria, e portanto sentenciei:
- Pois, caríssimos irmãos, eu com Deus é a mesma coisa: já tenho um e por acaso até estou bastante contente com Ele. Vou agora trocar, porquê? E amém.
A sorte do Benfica foi a baleia
Golo de bicicleta
Que extraordinário golo de bicicleta! Um golo estratosférico, sensacional, fabuloso, espectacular, fenomenal, incrível, magnífico, maravilhoso, brutal, top - consoante os comentadores. Mas não valeu. "Futebol é uma coisa e ciclismo é outra" , explicou o árbitro, sinaleticamente falando, e nem precisou de ir ao VAR.
Jonas, o pistoleiro, pendurou as botas aos 35 anos e com as costas num frangalho. Tipo raro este Jonas, que também me incomodou bastante. Estimo-lhe as melhoras.
Por outro lado. Hermann Melville, autor do romance "Moby Dick", nasceu no dia 1 de Agosto de 1819 e morreu no dia 28 de Setembro de 1891, aos 72 anos. Dois interesses muito especiais do meu pai: clássicos da literatura mundial e o Benfica, Deus lhe perdoe.
O Natal do padre João Aguiar
O númeroO candidato a comediante subiu ao palco, aproximou-se do microfone e anunciou que tinha um número para apresentar. Apresentou o cinquenta e três e foi um sucesso.
segunda-feira, 22 de dezembro de 2025
O milagre das pombas
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Evasão- Mais vale só do que mal acompanhado - disse o recluso n.º 14.112. E fugiu.
Servido o festim, o cuidador de pássaros volta para casa pelo mesmo caminho, sempre com uma pequena reserva de pão e de milho no fundo do saco, prevenindo emergências, que as há. Pomba tresmalhada ou retardatária, gaivota de asa caída ou manca ou qualquer outra ave freelance também têm direito à sua dose individual, no respeito do espaço de cada qual. É. Os solitários entendem-se...
Pois durante a pandemia, pela menos, o gentil alimentador da passarada desapareceu-me da vista. E a mim, caramba, fez-me diferença, porque eu dava-lhe valor. Fui também, no meu tempo de miúdo, em Fafe, um razoável pensador de galinhas e coelhos, e portanto havia ali qualquer coisa que me dizia respeito, que me enternecia e, verdade seja dita, também me abria o apetite, e vinha-me à cabeça o franguinho guiado pela minha avó de Basto na panela de ferro apurando ao borralho.
Felizmente o senhor das pombas voltou, e em grande forma. Uma sorte para ele, para os pássaros e também para mim, que estou sempre a ligar umas coisas às outras e sou tão dado a nostalgias, e se for à mesa melhor...
Ezequiel, médium e depois médio
Dúvida metódica
Era uma dúvida verdadeiramente metódica. Ignorante, mas muitíssimo organizada.
O livro vendeu razoavelmente. Arquivistas, bibliotecários e documentalistas catalogaram-no com o assertivo nome de Livro de Ezequiel, para que não houvesse enganos futuros. Respeitado tanto pelo cristianismo como pelo judaísmo, e talvez até pelo islamismo, Ezequiel era porém um infeliz feliz, sentia que lhe faltava algo. Por não ser época de Ferrero Rocher, resolveu então mudar de vida: deixou o negócio das visões, inscreveu-se numa escolinha de futebol e fez-se jogador. Vi-o algumas vezes em campo, pelado, mas sobretudo com a camisola do Lusitânia de Lourosa, corria para o fim o século XX depois de Cristo.
Com cem mil coiotes!
Branca e radiante
Branca de Neve brincava às casinhas com a casa dos sete anões. Com os anões ela brincava aos médicos. Mas não sei se, hoje em dia, isto se pode dizer.
domingo, 21 de dezembro de 2025
Que é que tinha o Barnabé?
| Foto Hernâni Von Doellinger |
A medida do homem
Os homens não se medem aos palmos. Medem-se aos furcos.
Eu contei-lhe do outro Barnabé, que dava dois dele, ou três. O Senhor Barnabé de Fafe, funileiro de alto gabarito, morador e estabelecido naquele escondidinho do Santo Velho e músico vitalício da Banda de Revelhe. O Senhor Barnabé fafense devia ser uma enorme despesa em farda e tocava tuba porque não havia instrumento maior, tirando talvez o bombo, e a tuba vinha-lhe realmente por medida. Quanto ao Senhor Bé, que certamente não gastaria metro e meio para um fato, eu às vezes até me ria imaginando-o, pequenino e gaiato, a tocar pífaro nos intervalos.
Que se segue? De repente, aqui há coisa de três anos, o Senhor Bé tornou a faltar-me e eu, confesso, escarmentado com o desaparecimento da minha abençoadora das 7h30, fiquei com medo de perguntar por ele. Para más notícias, já basta o Correio da Manhã. Mas passados alguns meses, estávamos a chegar ao Natal, ganhei finalmente coragem, fui tirar nabos do púcaro junto de outro dos habitués do Passeio, e ouvi o que não queria. O Senhor Bé não vem mais. Morreu. De vez. Foi mudar uma válvula ao coração "e ficou na máquina", disse-me o amigo. Quer-se dizer. Ficou na máquina, assim, isso é lá alguma maneira?
Resultado. O Senhor Bé morreu e eu, palavra de honra, zanguei-me um bocado com o acontecimento. Às vezes, Deus me perdoe, acho isto da vida muito mal organizado.
Aproveite o Natal: vá para a cama!
Será do tempo?
É Dezembro e faz um frio de rachar. Parece impossível...
Quero denunciar o meu pai
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| Foto Tarrenego! |
Penso rápido
Pensei sobre o assunto. Eu penso muito, mas penso pouco. A minha é vida é feita de muitos assuntos, mas pequenos assuntos. Os meus assuntos sucedem-se uns atrás dos outros, breves, infindáveis. Por isso estou sempre a pensar, mas pouquinho de cada vez, com pensamentos curtos, instantâneos, diferentes, um para cada assunto. Isto é: penso muito, penso pouco, penso rápido.
O meu pai era portanto benfiquista e penso que só isso é mais do que suficiente para abrir um processo. Era benfiquista e, ao fim do dia de trabalho, levava-me a ver os treinos do Fafe no Campo da Granja, que também já não existe. O meu pai, apesar de breve, ensinou-me o futebol e outras coisas boas da vida, como, por exemplo, os pastéis. Uma vez levou-me às Festas Gualterianas a Guimarães, fomos a um tasco e eu pedi-lhe para comer feijão com tripas, que vi e nunca tinha provado, e gostei que eu sei lá. Se calhar por isso é que ainda hoje gosto tanto e faço tão bem. Outra vez trouxe-me de presente uma pistola Luger P08 de brincar, pesada e igualzinha às dos nazis dos filmes, e gostei que eu sei lá. Não sei o que me deu na cabeça, mas cresci e não gosto de armas. Continuo a gostar do meu pai.
Para além de benfiquista - repito, benfiquista -, o meu pai era também novo, malandro, bonito e bom, mas suponho que isso não interesse para os autos, e era excelente operário tecelão, músico, bombeiro e jogador de dominó. De bombeiro, levava-me ao cinema e ao circo à borliú, debaixo do braço, porque a pagantes seria impossível. E contava-se que no dominó, jogado na mesa do canto direito para quem entrava na sala das traseiras do café Peludo, o meu pai até escondia pedras na boca para enganar parceiros e ganhar mais uns tostões para casa. Eu ia chamá-lo, bem ensaiado pela minha mãe para que ele não ficasse malvisto perante os amigos. "A mãe manda dizer que a comida está pronta", era o que eu dizia, uma e só uma vez, baixinho, e ficava ao lado dele todo contente, à espera.
É preciso que se note: o meu pai, também conhecido como Lando Bomba ou Lando da Bomba, não era só dominó. Nas festas onde a Banda de Revelhe ia tocar, o meu pai, que tocava saxofone, tinha também sociedade com o homem da roleta de feira, artesanal e viciada. Nos intervalos dos concertos, fartava-se de ganhar canivetes, cintos, saca-rolhas, tesouras, baralhos de cartas e gaitas de beiços. O meu pai era o engodo. "Mais uma para o senhor músico. Está em dia de sorte, o raisparta o músico!", gritava o homem da roleta, feitos um com o outro, a chamar o povo. E o povo caía, ontem como hoje. No final, o meu pai devolvia tudo a troco de umas coroas ou de mais uma navalha para oferecer.
Calhava-me, de vez em quando, levar o almoço do meu pai à fábrica. Estando sol, o meu pai e outros operários da Fábrica do Ferro comiam num terreno muito jeitoso para o efeito, a caminho do rio. Do Comporte, e por favor não confundir com Comporta. Sentávamo-nos numas pedras à sombra de pinheiros geralmente mansos e eu adorava estar ali com o meu pai aquela meia hora. Era como se fosse um piquenique, mas eu ainda não conhecia a palavra.
O meu pai dizia "Lá estara?". "Lá estara?" era cumprimento, saudação tirada de ouvido entre amigos e compinchas, da rua, do café, da fábrica, dos bombeiros, da bola e da banda. "Lá estara?" queria dizer mais ou menos "Olá, tudo bem?" ou "Viva, como é que vai isso?". O meu pai fazia também questão (que se dizia "questã") de reinventar os nomes das pessoas, e por isso o nosso bom Berto Dantas era o Berteira, o monossilábico Augusto da esquina era o Gustaveira, e assim sucessivamente. O Berto Dantas foi certamente o melhor jogador de futebol de todos os tempos nascido em Fafe, e era um ser humano maravilhoso, uma verdadeira jóia, um coração que se dava.
O meu pai gostava muito de fazer rir a minha mãe e, de malandrice, lia-lhe o jornal metendo as expressões "pelo cu acima" e "pelo cu abaixo" entre as palavras das notícias. Se fosse hoje, ficaria, por exemplo, assim: "A atriz pornográfica, pelo cu acima, Stormy Daniels, pelo cu abaixo, descreveu, pelo cu acima, o pénis, pelo cu abaixo, do presidente, pelo cu acima, dos Estados Unidos, pelo cu abaixo, Donald Trump, pelo cu acima, comparando-o, pelo cu abaixo, a um cogumelo, pelo cu acima." Eu e os meus irmãos, que arranjávamos sempre maneira de ouvirmos aquela comédia, escangalhávamo-nos a rir. A minha mãe repreendia o meu pai, tentava tirar-lhe o jornal das mãos, pareciam dos filmes do Charlot mas a cores, e nós ainda nos ríamos mais. Éramos pobres, mas tínhamos o riso. E o riso é muito bom, é uma riqueza alternativa. Éramos, então, remediadamente felizes.
sábado, 20 de dezembro de 2025
Isaías, profeta e avançado-centro
Guerras santas e outras criações
O pior foi quando os homens criaram Deus. Mas, lá está, a culpa é de Deus. Deus fez asneira quando criou os homens.
Isaías escreveu um livro para a Bíblia chamado especificamente Livro de Isaías para não ser confundido com o Deuteronómio. A crítica não lhe foi favorável. Diversos especialistas descrêem que a obra tenha um único autor, Isaías ele próprio, vendo-a, antes, como um trabalho a várias mãos e de diferentes épocas, coligido eventualmente no ano 400 a.C., ou até mais tarde. Isaías seria assim uma espécie de escritor dos nossos dias, nome de capa, escritor do que já foi escrito. Por outros.
Amuado com semelhante desmerecimento público, Isaías deixou-se de profecias, abandonou o reino de Judá e veio jogar futebol para Portugal, em 1987. Começou pelo Rio Ave, brilhou no Boavista e foi para o Benfica, onde fez cinco épocas, 178 jogos e 71 golos, ganhou dois campeonatos e uma Taça. Passou pelo Coventry City, de Inglaterra, e tornou cá em 1999, para representar o Campomaiorense. Regressou ao Brasil em 2000 e pendurou as botas em 2003.
Ficaram célebres os seus dizeres numa, por acaso, flash interview: "Ouvi a palavra do Senhor, príncipes de Sodoma, escutai a lei do nosso Deus, povo de Gomorra."
Senhor, estou pronto para o Natal!
Crime perfeito
Arranjou uma amante, contratou um mordomo, atrasou o relógio, matou a mulher e chamou a polícia. Por esta ordem.
E, se quiserem, mandem também "Sete Noivas para Sete Irmãos", "A Máscara do Ranger", "E Tudo o Vento Levou", "Um Violino no Telhado", "Música no Coração", "O Feiticeiro de Oz", "Citizen Kane", "O Prisioneiro de Alcatraz", "Cinema Paraíso", "As Pontes de Madison County", "A Ponte do Rio Kwai", "O Expresso de Von Ryan", "Mamma Mia!", "Os Canhões de Navarone", "Rambo" um, dois, três, quatro, cinco, "Doze Indomáveis Patifes", "O Bom, o Mau e o Vilão" ou até "A Vida de Brian". Nosso Senhor é como o Sol, quando nasce é para todos, e mais vale ficar solteiro que casar sem ter dinheiro.
A minha abençoadora das 7h30
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Era de abraços
Abraçou o desemprego com o mesmo entusiasmo com que abraçara a profissão. Era realmente uma pessoa muito abraçadeira.
Gosto de pedir a bênção, gosto que me abençoem. Eu pedia a bênção beijando a mão aos meus avós da Bomba e aos meus avós de Basto. Pedia a bênção ao meu pai, à minha mãe, ao meu padrinho, à minha madrinha, aos meus tios e às minhas tias. Até às tias chegadas à família por casamento, que no princípio achavam aquilo um bocado estranho, mas que depois se habituaram e creio que gostam. Eu até pedia a bênção ao nosso senhor abade!
E fiquei traumatizado para toda a vida, como diria o outro que disse Foucault.
Gosto tanto de ser abençoado, que a minha mãe já sabe: as nossas despedidas diárias só estão completas quando ela me diz "O Senhor te abençoe! Fica com Deus!", e eu digo "Obrigado!", sem saber onde meter as mãos e as lágrimas. Pelo sim e pelo não, tusso.
Gosto de bênçãos, acredito nas bênçãos. Porque sim, e não por respeito ou porque me ensinaram ou obrigaram em pequenino. Sou interesseiro. Preciso de bênçãos como de pão para a boca, as bênçãos fazem-me tanta falta como o ar que respiro, como água no autoclismo. Sou abençoado por ter um amigo que há décadas me abençoa com a sua fraternidade sem cobrar juros e não acredita em bênçãos, mas para mim vai dar ao mesmo, é tudo lucro. Pelo contrário, a Senhora Dona Maria Amélia abençoava-me todos os dias cerca das sete e meia da manhã. Eu madrugava de propósito só para encontrá-la na minha caminhada diária pela marginal Matosinhos-Porto.
A minha abençoadora das 7h30 vinha de Gondomar e àquela hora já estava prestes a apanhar o(s) autocarro(s) de regresso a casa. Não consigo imaginar a que horas é que ela saía da cama. Tinha as pernas vergadas pela idade, talvez 84 anos, ela não sabia bem, e pela vida, dez filhos, nem todos mansos, muito trabalho e desgostos mais do que a conta. Via-me, levantava o braço direito e dizia-me, num largo e comovente sorriso, "Bom dia, vá com Deus!"
E eu ficava pronto, melhor do que se tivesse ido à missa. Claro que a Senhora Dona Maria Amélia dizia "Bom dia, vá com Deus!" a toda a gente. A maioria não ligava, ignorava-a ou sorria-se dela, a maluquinha, pior para eles e mais sobrava para mim. Amiúde conversávamos.
Quando os meus, família ou amigos, saem cá de casa, digo-lhes sempre, à porta, "Vai com cuidado!", e repito quantas vezes forem precisas até obter uma resposta. Um "Sim!" ou um "Tá bem..." sossegam-me. Digo "Vai com cuidado!" porque vi muito A Balada de Hill Street e, por outro lado, sinto que ainda não tenho estatuto para dizer "Vai com Deus!" Mas eles sabem que, nas entrelinhas do meu coração, o que lhes estou realmente a dizer é "O Senhor te abençoe, vai com Deus!" e, sobretudíssimo, "Até amanhã, se Deus quiser", seja o amanhã quando for...
Sempre fui dado a amizades improváveis com velhas senhoras mais ou menos esdrúxulas. Desde pequeno, em Fafe. As Grilas, as Turicas, as duas Milinhas do Santo Velho, a Modista e a Vaqueiro, para não ir mais longe, fazem parte do melhor da minha vida.
A minha abençoadora das 7h30 era outra que tal, mas desapareceu-me sem aviso. Os nossos horários desirmanaram-se, coisas da vida, e já não nos encontramos há mais de três anos, para meu grande desgosto e prejuízo, porque as bênçãos, já disse, fazem-me falta. Sem ter perguntado, soube que a boa senhora nunca mais foi vista às horas do costume nos sítios do costume, entre Matosinhos e a Foz. Não sei dela. Primeiro fiquei preocupado, triste como a noite, mas depois resolvi pensar que a Senhora Dona Maria Amélia terá aproveitado para meter um longo período de férias, porque isto de passar a vida a desejar o bem dos outros também cansa. É isso, a minha abençoadora está de férias num sítio bem bom, reservado só para pessoas de categoria. Voltará qualquer dia como nova, mais forte do que nunca, à moda dos jogadores de futebol após lesão. Voltará para me abençoar outra vez e por todas as vezes que me tem faltado. Voltará. Se Deus quisesse...
sexta-feira, 19 de dezembro de 2025
O Natal já era
Bem passado
Um ano bem passado precisa de pelo menos dois minutos de cada lado.
Diálogos fafenses 50
Ele: - Presente de Natal porreiro era um emprego, isso é que era.
Ela: - Não queres antes um par de meias?
Presentes de Natal 2
Ela: - Presente de Natal porreiro era paz no mundo e comida para todas as crianças, isso é que era.
Ele: - Não queres antes um pacote de Sugus? De framboesa...
Presentes de Natal 3
Ele: - Presente de Natal porreiro era um par de sapatos, isso é que era.
Ela: - Não queres antes um par que cornos?
Quem vê caras não vê orações
Branco mais branco
Deu o braço a torcer. E depois pô-lo a corar. Era uma pessoa muito limpa.
Um daqueles famosos restaurantes de peixe na brasa aqui ao lado, na Rua Heróis de França, Matosinhos à beira-mar, estais a ver, já vos chegou o cheiro? Ainda é cedo. Pouco passa das oito da manhã, uma velhinha varre cerimoniosamente a esplanada que por acaso é passeio ocupado com ordem municipal, os peões têm de andar pela estrada, toureando carros felizmente em sentido único. Asseada como se fosse domingo, como se fosse Natal, a velhinha, corpo franzino, cabelos brancos de neve, ajeitados à moda da televisão, da telenovela, uma carinha doce, redonda como um minúsculo sol resplandecendo bondade, olhos apontados ao chão, espertos, criteriosos, os olhos, a velhinha varre varre, vagarosa e competente. Varre varre vassourinha, se varreres bem dou-te um vintém, se varreres mal dou-te um real. Se os anjos varressem e fossem velhinhas, e competentes, eram ela certamente e varreriam assim mais ou menos. Lembro-me de velhinhas tais quais no meu tempo de criança, em Fafe, as saudades doem-me na zona do fígado, estou também a ficar velho. A rua naquele sítio àquela hora éramos a velhinha e eu. Eu, que venho de mercar sardinhas madrugadoras e vivas, eventualmente clandestinas, estremeço de comoção. Trauteio distraidamente a lengalenga mansa e antiga, brincada à rodinha no Santo Velho, de mãos estendidas, mãos dadas, meninas e meninos sem distinção, recordo-os a todos e a todas, componho-lhes as caras, dou-lhes os nomes, turva-se-me a vista de repente e, carago, são lágrimas...
Varre varre a velhinha doce e cerimoniosa, olhos espertos e belos. Olhos que não enganam. Bondosos. Cara de sol, de anjo. E, eu a passar-lhe pelas costas em pezinhos de lã, para não incomodar, para não estragar cena tão encantadora, diz a velhinha, completamente distraída de mim, como se fosse um mantra ou, vá lá, a recitação atabalhoada do terço, à tardinha, na nossa Igreja Matriz, antes da bênção do Santíssimo: - Filhos da puta! Era mas é fodê-los! Mandá-los a todos prò caralho! À puta que os pariu!...
É. Ninguém diga que está livre, amém!
quinta-feira, 18 de dezembro de 2025
Nossa Senhora do Ó
Os cónegos dividem-se em três partes
O catecismo está errado
A gula é pecado. Mas a fome não. Isto anda tudo ao contrário!
Os cónegos que então conheci, porque andei lá no meio deles, afiguravam-se-me criaturas patuscas, isso é certo. Geralmente baixinhos, barrigudos e corados, aspecto, fama e decerto proveito de comilões, sebentos às vezes, os cónegos eram uns cromos, caricaturas deles próprios. Também não sei se ficaram assim depois e por causa de terem ido para cónegos ou se aqueles é que eram os requisitos necessários e critérios de selecção para o canonicato.
Uma vez, no Seminário de Nossa Senhora da Conceição, em Braga, um padre recém-ordenado, mestre e amigo, ensinou-me que a classe dos cónegos se dividia em três categorias: "os cónegos de merda, a merda de cónegos e os cónegos a sério" - que seriam os da sé propriamente dita, eventualmente os cónegos com cargo no cabido. O meu mestre e amigo suponho que actualmente é cónego, mas não sei de que categoria. Tenho também ex-colegas de seminário que são cónegos, e estimo-lhes as melhoras.
Como funciona agora com os cónegos, confesso que desconheço. Mas acredito nisto: quarenta ou cinquenta anos não dão para nada na Igreja instituição, não dão sequer para meter a chave à porta - quanto mais para puxar o autoclismo.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2025
A sagrada comunhão
Os simples
Ele era um pregador muito terra a terra. Proclamava: - Bem-aventurados os bem-aventurados porque serão bem-aventurados.
Oremos. A minha sogra estava a ver na televisão a missa do 13 de Outubro no Santuário de Fátima. A santinha, isto é, a minha sogra, que graças a Deus não padece de fastio, antes pelo contrário, costumava almoçar cerca das 11h30, nunca mais tarde, mas a missinha tomara realmente conta dela, ensimesmada numa tremenda devoção, sem precisar sequer de deitar os olhos ao aparelho. Resolvi, ainda assim, espreitar à porta da sala e perguntar-lhe, a medo, num sussurro, se quereria comer à horinha ou se esperávamos pelo fim das cerimónias. - No fim da santa missa!, respondeu-me com rispidez, como sempre e como se por um segundo eu lhe tivesse interrompido o Céu. Pronto: a mesa podia esperar.
Os ponteiros do relógio andaram um quarto de hora, mas a televisão não: a missa continuava no mesmo sítio, como se tivesse avariado. Era a comunhão e a fila de comungantes não havia maneira de chegar ao fim. A minha sogra agitava-se, os impasses incomodam-na sobremaneira, particularmente se lhe atrasam o tacho. Levantou-se então do trono, com aqueles ruídos que fazem parte, e ordenou a todos os seus súbditos, que sou apenas eu, miseravelmente eu: - Vamos mas é comer, que isto é povo sem jeito para a sagrada comunhão!...
Então pastéis era aquilo
Reciprocidade
Serviço de esplanada tem de ser pedido ao balcão. Serviço ao balcão tem de ser pedido na esplanada. Obrigado pela compreensão.
Fafe era um terra de antonomásias, estou farto de dizer. No nosso imenso pequeno mundo, tínhamos o Largo, a Avenida, o Talho, o Monumento, a Recta, o Campo, o Depósito, o Banco, os Serviços, a Bomba, o Jardim, a Quelha, o Santo e o Café, que era o Peludo e que na verdade se chamava Cine-Bar, eventualmente dada a sua proximidade e até uma certa ligação ao Teatro-Cinema e à família Summavielle. Mas cafés, tascos e afins havia muitos. Uma mão-cheia de cafés, e tascos até dar com um pau, para ser mais preciso. Pastelarias, salões de chá ou snack-bares é que nada, até aparecer o Dom Fafe, mesmo no centro da vila, coisa fina e para clientela sem gases. O Dom Fafe, respeitando a tradição, passou a ser "o" Snack-Bar.
Eu era calisto no Peludo. Calisto televisivo. A preto e branco e com muitos pedimos desculpa por esta interrupção. Para me fazer pagar a moina, o Sr. Avelino do Café, que era o Hoss do "Bonanza" em pessoa menos o chapéu alto, entregava-me umas moedas e mandava-me à cozinha do Hospital buscar uns enormes tijolos de gelo que ele depois partia e metia no barril de tirar finos (imperiais, se lido em Lisboa). No fim do recado dava-me o troco? É o davas. Oferecia-me um pastel? Fodias-te. Eu tinha para aí sete anos, o meu pai ainda não tinha trazido pastéis para casa e o Sr. Avelino punha-me à frente a merda de um cimbalino. Sete anos, e ele dava-me um café (bica, se lido em Lisboa). Um café, a uma criança. Se ainda ao menos fosse um cigarro!...
Eu e o Sr. Avelino, o tempo haveria de fazer-nos bons amigos, mas nunca lhe perdoei a desfeita do café.
Não sou de doces. E, dos pastéis que o meu pai trazia para casa, o que eu gostava mais era da festa, do riso. Daquela meia hora extra fora da cama. Da sensação de família e fartura, da felicidade antes do sono. Porque o meu doce preferido era outro: era a côdea de broa, "grande daqui até ao céu", enfiada às escondidas na lata do açúcar amarelo e comida na clandestinidade do fundo do quintal. Subia a um banco para subir à mesa da cozinha para chegar ao armário, abria a lata, passava o pão, fechava a lata e saía dali a cem à hora mas com mil cuidados para não entornar o "recheio". Côdea de broa com açúcar amarelo, isso sim era o meu bolo. Havia lá coisa melhor no mundo! Por acaso até havia: era a gemada. Gemada simples e honesta: gema de ovo batida numa malga com muiiiiiito açúcar. Mas essa só podia ser duas vezes por ano, acho eu, pela passagem de classe e no meu aniversário. Com os ovos, lá em casa, todo o cuidado era pouco. Estavam contados, eram para deitar, para transformar em pintainhos. E ao açúcar para a broa, a minha mãe fechava os olhos. Fazia de conta que não sabia...
terça-feira, 16 de dezembro de 2025
Nem tanto ao mar nem tanto à terra
À batatada
Há muito que andavam esquinudos. Um dia sentaram-se à mesa, barafustaram-se, cresceram-se, amansaram-se, tomaram-se de palavras espertas e resolveram tudo à batatada. Com bacalhau.
O meu sogro tinha uma máxima a respeito de bacalhau que talvez não seja de deitar fora. O Sr. Carvalho, que foi um garfo de primeira enquanto pôde, declarava, na sua infinita simplicidade: - Se me derem bacalhau todos os dias, para mim está muito bem e até agradeço.
Já a minha sogra, que vai a caminho dos 94 anos e continua sem razões de queixa do apetite, tem uma visão mais ampla do universo, outra sabedoria. E defende que a vida é composta por três qualidades. Costuma filosofar, aliás, a esse propósito: - Nem sempre carne e nem sempre peixe. De vez em quando também é preciso comer um bocadinho de bacalhau.
Exactamente. Carne, peixe e bacalhau, as três espécies sobreviventes após a liquidação dos dinossauros. A minha sogra, que nunca na vida deixou o meu sogro ter razão, é que está certa. Este mundo não é só bacalhau. Ainda por cima ao preço a que ele está.
Poesia imperfeita e geralmente pretérita 17
A afiadeira aguça o lápis.
O Secónego
Medieval, mas pouco
É extraordinário o que se consegue comprar numa feira medieval. Artigos tão antigos e tão avançados para aquele tempo, tão modernos, tão actuais - mas qual idade das trevas, qual quê! Se um destes dias, na próxima feira medieval, encontrar à venda telemóveis, carros eléctricos ou camisolas do Ronaldo, não fico nada admirado...
O Secónego era uma sumidade arqueológica. Um sábio. Sabia das lendas, da História, das pedras, das palavras, dos nomes e dos sítios, dos livros. Sabia de celtas, lusitanos e fenícios, gregos e cartagineses, romanos, visigodos e muçulmanos. Sabia das origens todas, e da verdadeira origem das origens. Sabia. Estais a ver o professor José Hermano Saraiva na televisão? Pronto, o Secónego era a mesma coisa, mas sem televisão e a sério, sem supores mais ou menos floreados e, pelo contrário, com base científica. Ainda por cima, tinha piada fina. O Secónego comprazia-se em explicar aos seus alunos porque é que a terra de cada um se chamava como se chamava e porque é que uns eram Silva e outros eram Lopes. Explicou-me porque é que Fafe é Fafe e eu expliquei-lhe que não tenho culpa de ser Von Doellinger, puseram-me assim desde pequenino.
O Secónego tinha uma maneira de falar muito cómica. Falava como quem não abre a boca, ventríloquo da sua própria pessoa, às vezes com a mão à frente, com medo talvez de que se lhe evadisse a placa. Chamava-nos a todos "Ó menino!", embora já fôssemos uns respeitáveis gandulos, e ria-se satisfatoriamente mas aos solavancos.
Quando me chegou às mãos, o Secónego já era um sábio intermitente, com apagões. Era um homem precocemente envelhecido e debilitado. De vez em quando desligava e isso fazia-me uma enorme impressão. Lembro-me que nessas alturas me apetecia chorar. Que injustiça para uma cabeça assim. Filhadaputice que ele não merecia, era o que eu achava e depois ia confessar-me, porque achar filhadaputice, fosse de que espécie fosse, era pecado no seminário.
Por falar em filhadaputice (e vão três), havia umas "brincadeiras" institucionalizadas para as aulas do Secónego, e até fora delas, por gozo, maldade pura, só para moer o juízo ao velhote. E os coninhas, que, borrados de medo, até respiravam pelas orelhas frente aos outros professores, que eram de gancho, pintavam a manta com o Secónego, numa risota sem fim nem compaixão, numa coragem cobarde que ainda hoje, quando me lembro, me mete nojo. Eu também não era nenhum santo - e certamente por isso (e por achar filhadaputices a torto e a direito) é que me mandaram dar uma volta -, mas, para mim, as aulas do Secónego eram sagradas. Eram as únicas em que eu não mijava fora do penico. Por pena. Quem me dera que tivesse sido por respeito.
Um dia o Secónego desligou-se o interruptor em plena aula. De repente ficou ali, sentado à secretária, olhando o nada, obviamente esquecido de nós e dele, e dizia apenas "Leia, menino", mecanicamente, apontando para ninguém, para o vazio. E nós lemos, mandei eu, e mandei também chamar quem tirasse dali o homem, com gentileza e dignidade. Porque eu mandava (e por isso me fizeram a folha). Lemos: três ou quatro de nós, uns atrás dos outros, passando a Selecta de mão em mão, Vaiamos, irmana, vaiamos dormir nas ribas do lago, u eu andar vi a las aves meu amigo. E lemos a cantiga até ao fim e voltámos ao princípio, uma e outra vez, numa lengalenga interminável, e tanto fazia quem lesse, eram as minhas ordens, mas que lesse bem, com expressão, porque eu sentia que o som das nossas vozes aprumadas apaziguava a alma cansada e ausente do velho professor. E ele merecia.
Depois levaram-no.
O Secónego tinha uma casa creio que à borda da estrada que sobe da cidade de Braga para o Bom Jesus, a cota baixa. Padres mais novos diziam-lhe, no gozo: "Ó Secónego, que pena, uma casa tão bonita, e quem por ali passa de carro só lhe vê o cume". E ele: "Pois, mas isso é à ida, menino. À vinda, nem o cume vê, hi! hi! hi!"...
(Quando acompanhava o seu próprio corpo, o que era cada vez mais raro, o Secónego sabia mesmo muito sobre os antigamentes de Fafe, que era o que mais me interessava, e eu regalava-me a ouvi-lo. O Secónego, assim chamado, era o cónego Arlindo Ribeiro da Cunha (1906-1976), autor, entre outras obras, de "A Língua e a Literatura Portuguesa" e de uma "Gramática Latina" que chegou à sétima edição, tendo participado como colaborador regular na Grande Enciclopédia Luso-Brasileira e na Enciclopédia Verbo. Vimaranense de São Torcato, é nome de rua em Braga. E já agora: o parágrafo anterior, imediatamente antes deste entre parênteses, deve ser lido em voz alta, como quem conta uma história, com todas as pausas tidas por convenientes, sobretudo o discurso directo da última frase. Fica melhor.)
Aqui chegados, como diria o nosso Luisinho Marques Mendes, que também é um latinista, devo informar e generalizar que, numa palavra, no seminário tive os melhores professores do mundo.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2025
Acompanhamentos & companhia
Fiel amigo
O bacalhau é o melhor amigo do homem. Só lhe falta ladrar.
Comer bacalhau assado na brasa com batatas fritas é um escândalo, é um crime. Eu sou pela livre escolha - e também sou pelo FC Porto, embora essa parte não venha aqui ao caso -, mas há comidas que evidentemente não combinam, por mais voltas que lhes queiram dar. E bacalhau assado na brasa com batatas fritas, então, é uma catástrofe, uma calamidade. Mas eu já vi. História bem diferente seria, por exemplo, comer bacalhau assado na brasa com feijoada à transmontana. Isso, com a bela e robusta feijoada à transmontana. Comi uma vez esta esdrúxula combinação, em Fafe, propositadamente convidado, em casa do saudoso comandante Armindo, na Torralta, num almoço talvez de domingo, porque era prato de gala. Comi e gostei muito. Era tão bom! E estivemos tão bem! Porque uma coisa são os acompanhamentos, outra as companhias...
A Bó de Basto e o pãozinho do Senhor
Os mórreres
Sim, os víveres, evidentemente os víveres. E os mórreres?...
Foi num programa de televisão, daqueles que temperam o turismo com gastronomia. Vi que na Turquia, esse lamentável lapso da União Europeia, há um respeito muito grande pelo pão. Um respeito tão grande que bocado que cai ao chão não vai para o lixo. É apanhado, guardado e comido na refeição seguinte. Não sei se é bem assim, mas assim me foi contado na TV, e eu gostei do que ouvi, falou-me à memória.
Desconheço que influências culturais trocaram entre si Portugal e o Império Otomano, e se essas permutas foram tão longe que chegaram à bucólica freguesia de Passos, logo a seguir a Várzea Cova, quem desce, mas já Cabeceiras de Basto, propriamente à casa da minha querida avó materna. Sei é que foi neste fim de mundo que eu também aprendi a reverência pelo pão.
Na Casa do Carreiro comia-se na cozinha, à volta da lareira. Os adultos sentavam-se em compridos preguiceiros, apetrechados com uma conveniente tábua-mesa de levantar e baixar, e as crianças ajeitávamo-nos em pequenos bancos de três pernas, os mochos, obra de carpintaria simples e doméstica. Os cães também tomavam posição, anorécticos involuntários, à espera dos ossos que não havia. Levavam troços de couves, cascas de batatas, espinhas de bacalhau de quarto e era um pau.
O chão da cozinha era mesmo chão, rupestre, uma terra negra do fumo e da fuligem, dos anos e vidas de uso e das águas entornadas que lhe davam uma consistência de betão. Sim, as águas dos potes ferventes ou da banca de lavar louça, quando já desnecessárias, eram ali mesmo esparramadas, voltando a reunir-se, acho que me estou a lembrar bem, numa espécie de rego que as levava finalmente até lá fora, até ao carreiro que dava o nome à casa. Como bilhar viciado, o chão da cozinha descaía para o lado do carreiro, e tudo ajudava à limpeza. Depois era só esperar que secasse um pouco e varrer com uma vassoura de giestas apanhadas no monte. A banca era feita em madeira, velha, de pernas trôpegas, pacientemente calafetada pela gordura acumulada ao longo de décadas de serventia.
Era naquele chão que eu às vezes deixava cair o meu megalítico naco de pão, quase sempre um bom pedaço de côdea, que era do que eu mais gostava. A minha avó, mansamente, para que o meu avô não se zangasse comigo, dizia apenas:
- Apanha o pão. É pãozinho do Senhor. Dá-lhe um beijinho e já o podes comer...
E eu acreditava. Apanhava o pão, beijava-o e comia-o, com todo o respeito, como se estivesse na igreja a comungar. Até parecia que me sabia melhor.
Curiosamente, o meu avô nunca se zangou comigo. Ele, que tinha um zangar tão fácil com toda a gente...
Na nossa casa, em Fafe, a minha mãe insistia nestes ensinamentos. Dizia-nos, a mim e aos meus irmãos, que o chão não suja, que o beijo purifica, que não se pode estragar pão, é pecado, porque há muita gente com fome, pessoas mais pobres do que nós. E se o pão ficava intragável e tinha mesmo de ir para a estrumeira, só depois de um beijinho de adeus, porque, exactamente, era pãozinho do Senhor.
Em minha casa também não se estraga pão, não se estraga nada. E, se se estraga, estragado fico eu.
Não sei de onde veio esta ideia antiga, se estará mesmo ligada à fé, à religiosidade popular, ao pão que é o corpo de Cristo. Acredito mais que era sobretudo a pobreza a defender-se, consciente da importância do pão na mesa, o pão que, ontem como hoje, era a única fartura, a última fronteira para a fome. O respeito pelo pão era o respeito pela fome. E ninguém respeita tanto a fome como os pobres.
Por causa do pão, fui muitas vezes à merda. E gostava. Ir à merda, naquele tempo e naquelas circunstâncias, era satisfatoriamente adequado. E necessário. A Bó mandava-me com uma telha à procura de poios de bosta fresca, que depois servia para vedar a tampa do forno onde se cozia a broa. Eu passava sempre uma temporada das férias grandes na aldeia e ir à merda era o meu modesto contributo para que tivéssemos pão à mesa. Isso e, às vezes, ir à fonte buscar água, coisa de "menina", só para se rirem de mim.
Para a aldeia ia-se na carreira da "Empresa", que saía de uma grande garagem à beira da Igreja Matriz, mesmo em frente à Rua do Assento. Nessa enorme garagem também se construíram carros para a Marcha Luminosa das Festas da Vila, "um espectáculo de luz, cor e som", mas isso é assunto que não vem ao caso. Era desengonçada e cinzenta a carreira. Cheirava mal, espevitava enjoos. Ia-se com o nariz enfiado em meio biju para não gomitar e mesmo assim gomitava-se - falo por mim. Ia-se na carreira até Várzea Cova, e ali terminava a estrada, acreditem no que eu digo: o mundo acabava mesmo em Fafe, basta pensar também na antiga linha do comboio. Dali, depois do cu tremido, violentamente tremido, já só faltavam mais cerca de cinco quilómetros a pé, em monte de sobe e desce, fizesse sol ou diluviasse, certa vez até passando a vau o ribeiro que a força de um inverno estoura-vergas desencaminhara e transformara em rio violador de margens. Chegávamos então à aldeia propriamente dita, como nunca na vida lhe chamámos. Era Basto. Freguesia de Passos, concelho de Cabeceiras de Basto, mas simplesmente Basto, para nós.
A minha avó Emília, que era pequerricha e bondosa com um anjo, e era um anjo, fazia uma broa escura, muito saborosa, que se mantinha fresca durante dias e dias. Naquela maré, o pão era o principal alimento dos portugueses. O pão e o vinho, como fazia questão de frisar, de forma propositadamente ambígua, a propaganda salazarista. Por ordem expressa de Salazar, beber vinho, naquela altura, era "dar de comer a um milhão de portugueses", e o patriótico e honrado povo de Passos podia não saber o que era bife nem tinha electricidade nem água nem estradas nem sequer caminhos decentes, sem pedras, mas sempre deu o litro para que o resto do País não passasse fome. E o resto do país já então era Lisboa.
Beber era um honesto modo de vida. Podia faltar tudo na casa da Bó de Basto, e às vezes faltava muito, mas havia sempre broa com fartura e umas imensas malgas de "amaricano" às quais eu gostava de mandar umas pescoçadas até dizer ahhhhhh!...
Em Basto, as visitas eram recebidas com malgas de vinho e aparas de bacalhau salgado e falava-se como se fôssemos galegos, e a querida Tia Margarida felizmente ainda fala. E sempre broa, sem outros mimos. O almoço era o "jentar", e o jantar era a ceia. E bebiam-se, a acompanhar, umas valentes pingoletas. Também se bebia durante a merenda, que era aquela meia dúzia de horas de sol que vai desde o "jentar" até à ceia. Bebia-se, portanto, apenas às refeições - quer-se dizer, o dia inteiro. E já agora: o almoço, assim dito, era o café da manhã. E a manhã era madrugada, com música de galos tenores e carros de bois vagarentos e deslubrificados, rabugentos. O café era cevada, feita ao borralho, numa velha chocolateira de barro e tampa tamborileira e dançarina. Que saudades tenho dessa vida e dessa idade, dessas ideias que graças a Deus me ficaram, ainda no outro dia o "dixe" outra vez ao meu tio Al Pacino, o meu querido tio "Jé".
Enciclopedista fortuita e inocente, involuntária, alma fora da geografia e do tempo, a querida Bó de Basto alimentava-nos também o espírito. Lendas, contava-as que era uma categoria. Eram lendas mansas, de embalar, metiam mouras encantadas, príncipes, penedos. Penedos de morar, lembro-me bem, e eu queria um. Eram contadas à lareira, depois da ceia, com o vermelho do fogo a bailar-nos nas caras espectrais, eu de olhos arregalados e boca aberta, uma e outra vez, como se fosse sempre a primeira. Os efeitos especiais das histórias da avó - esperta, santa sem diploma, realmente anjo sem asas à vista - foram muitos anos mais tarde copiados pelo cinema americano. Até aquele famoso jogo de sombras manipulado pela irrequieta chama da candeia, coisa extraordinária e assustadora - era das histórias da minha avó, foi aqui que Hitchcock o veio buscar. E o vinhinho aquecido ao borralho com uma maçã assada lá dentro, também, mas isso parece que os filmes não aproveitaram.
domingo, 14 de dezembro de 2025
Um padre aí para as curvas
Fez todas as despesas da corrida. Quando, no fim, chegou à meta e lhe apresentaram a conta, ia morrendo do coração...
O Padre Clementino morava no seminário. Não porque fosse prefeito ou professor ou tivesse outras responsabilidades administrativas ou religiosas na instituição, mas apenas porque naquele tempo ainda não havia lares para padres velhinhos e desconsertados. O Padre Clementino não era velhinho, ainda não, avariara apenas, ninguém o reclamou e ficou por ali. Mas era uma figuraça, um ser fabuloso, um mito vivo e vivaço. Um cromo. Baixote, redondo, anafado, bonacheirão, vermelhusco de cara e sorriso gaiato, batina coçada, sebenta, amiúde carregada de nódoas, isto é, o Padre Clementino tinha tudo para ser cónego, mas, que eu saiba, felizmente nunca lhe fizeram essa desfeita.
O Padre Clementino era muito cuidadoso com a fruta, sobretudo com as maçãs. Punha-as a madurar na beira da janela do quarto minúsculo que lhe fora distribuído como reforma e só as comia quando elas estivessem satisfatoriamente podres, cheias de bolor, para aproveitar a penicilina. Por estas e por outras, o Padre Clementino tinha uma saúde que até metia impressão, havíeis de ver.
Contava-se, com o seu quê de lenda. Nas férias, pela calada da noite ou durante o horário lectivo, com a rapaziada nas salas de aula, o Padre Clementino andava de bicicleta pelos compridos e desérticos corredores do seminário. Apesar da ausência de tráfego, da via desafogada, apesar de ter os corredores só para ele, corredores largos, longas rectas sem sequer chicanas, a verdade é que às vezes o homem caía, sei lá se por falta de jeito ou apenas porque o raio da sotaina se lhe enrodilhava na corrente, não faço ideia. Caía e pronto. E pronto, não! Rectifico. Caía, levantava-se logo que conseguisse, não sei se estais e ver a tartaruga de pernas para o ar, verificava os estragos no material, que eram quase sempre nada, marcava o local do tombo com um grande sinal que ele já tinha preparado e que dizia, regra geral, "CURVA PERIGOSA!!!", nem mais nem menos, e saía dali todo lampeiro, novamente bicicletando como eminente ás do pedal. Com o Padre Clementino era mesmo assim, de categoria, tudo nos conformes. Fossem chamar tolo a outro...
Diálogos fafenses 48
- Mas há ou não há contraditório?
- Há, sim senhor.
- Bem. É que eu acho que...
- Calou!
Há mulheres assim, insatisfeitas
Apaixonados pelo telemóvel
Eu não percebo porque é que ele leva a namorada a almoçar. Ele também leva o telemóvel. Eu não percebo porque é que ela leva o namorado a almoçar. Ela também leva o telemóvel. Ele e ela, à mesa, ignorantes um do outro, calados um contra o outro, passam o almoço de mãos dadas. Mãos dadas ao telemóvel, ele ao dele, ela ao dela. E nem sequer ligam um ao outro.
O Dias é que mandava, e mandava muito alto, porque ele, avisou, é que ia pagar. Mandou vir Alvarinho, "para começar", e encomendou três doses de bacalhau assado. Fez muito bem. Aquele restaurante prepara, de facto, o melhor bacalhau assado do mundo. Vieram duas travessas, esplendidamente servidas: uma, enorme, com duas doses, e outra, normal, com a outra dose, tudo ao mesmo tempo. Informa-se, a propósito, que uma dose de bacalhau dá para duas pessoas que comam muito e ainda cresce. Que se segue? Comeu-se e bebeu-se ali com considerável galhardia, que apetite não faltava àqueles seis, Deus os abençoe. A travessa grande ficou vazia, na travessa normal sobrou uma lasca mínima de bacalhau, da parte mais fina.
Passou o proprietário do estabelecimento, o Sr. A., na sua sacramental ronda por todas as mesas, e, à vista de tamanha limpeza, perguntou, como sempre faz questão de perguntar, satisfeito e simpático: - O bacalhauzinho estava bom?...
Que sim. "Excelente!", "Uma maravilha!", "Não podia estar melhor!", "Fantástico!", "Divinal!" - disseram todos à uma mas cada um à sua. Todos, menos a namorada do Dias, que se batera ferozmente com a dose singela e pediu licença para falar à parte, perante o evidente embaraço e os maldisfarçados safanões dos outros cinco, inclusive o Dias, que a mandava calar, mas sem efeito.
- Sou muito franca! - começou ela. - Eu não digo o que não é, só para agradar, e o meu bacalhau estava deslavado, desenxabido... - sentenciou.
O Sr. A. encaixou, pediu desculpa, explicou, que isto, com as toneladas de bacalhau que ali se demolham semanalmente, às vezes pode acontecer, porque o bacalhau é um material muito ingrato de trabalhar, só na mesa é que se lhe pode tirar a prova dos noves, mas tudo se resolve e ia mandar servir uma nova posta, oferta da casa, e não se fala mais nisso.
Que não. Que não era preciso, que estava tudo muito bem, ela é que tem a mania, atiraram os outros, manifestamente envergonhados. Mas o Sr. A. insistia. E eles, que não. E o Sr. A., que sim. E eles, que não. Que sim. Que não. Que sim. Até que o Dias, reassumindo corajosamente o controlo da mesa e da situação, sugeriu, como quem faz um favor à casa, que só se fosse uma dose de costelinha, em vez da posta de bacalhau...
E sugeriu muito bem. Porque aquele restaurante também prepara, de facto, as melhores costelas assadas do mundo. E de borla, então nem se fala. Pois vieram as costelinhas, desapareceram num lampo, as batatas fritas também, e toda a gente acabou lambendo os beiços. Toda a gente menos a namorada do Dias, que continuava inconsolada, lamentosa, protestando agora derivado aos ossos. Isso, as costelas tinham osso, eram ossos praticamente, ossos rodeados por um pouco de carne, como, por definição, devem ser as costelas, gastronomicamente falando, mas a senhora decerto confundiu costelas com costeletas, sei lá eu, e ainda bem que Deus não se enganou no tempo de Adão e Eva. Em todo o caso: as coisas são como são, e a verdade acima de tudo, as costelas tinham osso, doa a quem doer. E sendo a namorada do Dias a pessoa franca que é, não podia realmente deixar passar em claro um escândalo de semelhante dimensão.
