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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

A pintura do Mané

Artista compulsivo
Pintou a manta. A manta, as fronhas e os lençóis. Quando lhe vinha a musa, não tinha mão no pincel.

A pintura do Mané não lhe dizia grande coisa. Isto é. Asseguravam-lhe que o Mané era um grande artista, falavam-lhe do impressionismo francês, até do realismo, dos jogos de luz e de sombra, dos nus, mas ele não se deixava convencer. O Mané era um gajo porreiro, isso nem se discute, pagava umas cervejolas bem bebidas e desenrascava satisfatoriamente o lugar de defesa-esquerdo aos domingos de manhã, mas, quer-se dizer, era apenas um trolha regular e à beira da reforma. Como ele...

sábado, 15 de agosto de 2026

O Animal e os outros animais

Aquela altura do ano
Uma vez em Agosto. "Cão deixado no lixo dentro de um saco gera onda de solidariedade em Vila Real", anunciava o jornal. Acrescentando: "Plataforma Proanimal alerta que nesta altura do ano há mais animais abandonados e menos pessoas disponíveis para os acolher." Verdade como punho, ontem como hoje. Embora não gere nenhuma "onda de solidariedade", está curiosamente a acontecer o mesmo com os velhos e com os recém-nascidos, por assim dizer, humanos - cada vez mais abandonados e com cada vez menos pessoas disponíveis para os acolher. É. Vivemos realmente uma "altura do ano" perigosíssima. Mas os cãezinhos, Senhor...

O cidadão Fernando Alves. O Animal, chamam-lhe, ou o Emplastro, que, segundo o semanário Expresso, foi contratado por agências turísticas para acompanhar os passeios pelo menos bêbados de mais de 15 mil finalistas universitários portugueses a Espanha, isto só em 2008. Quinze mil doutores, em dinheiro de hoje em dia, e devem estar todos agora a mandar no país. O extraordinário Emplastro que até foi ao Herman SIC e teve direito a dentes novos, dados por um desinteresseiro benemérito, ó que publicidade tão bem empregue.
Eu sei que há guerras por esse mundo fora, cá em casa Portugal arde, o país é assumidamente racista, já sem pedir desculpa, as crianças nascem na rua ou nas ambulâncias, bebés são deitados ao lixo e velhotes também, os ministros enrodilham-se em contas malfeitas e histórias mal contadas, os novos fascistas medram como cogumelos, as mulheres regressam à cozinha, até Deus anda metido com indivíduos da pior espécie, mas o campeonato de futebol começou e, portanto, o nosso Fernando apresentou-se ao serviço. A televisão sem ele é uma seca, e com ele também, mas o Fernando tem pinta. Tudo continua normal, normalíssimo, e cá vamos andando com a cabeça entre as orelhas, como dizia Sérgio Godinho, o escritor de canções. O pior é mesmo o defeso futebolístico, que, felizmente, já lá vai. No defeso, como o próprio nome indica, ninguém quer saber se o Fernando é herdeiro do Pinto da Costa ou filho do Luís Filipe Vieira, ou pai do Frederico Varandas ou sócio do António Salvador, e então o que é que se passa? Isto: sem câmaras de televisão para preencher, o Emplastro monta base à porta de um restaurante de Matosinhos, não sei se convidado ou somente tolerado pela gerência, e abrilhanta, à saída, copos de brutos, hic!, quero dizer, fotos de grupos, gente bem. Nos intervalos das suas pertinentes intervenções (faz cara de Emplastro, só lhe pedem isso), o Fernando deita-se na soleira da porta ao lado e então faz papel de famélico de Calcutá, o que lhe fica um bocado mal, estando ele gordo como um chino. E pede, se vê uma máquina fotográfica, "Uma moedinha, é para comer, é para comer..." - o número do costume. Não sei quem é que actualmente lhe está a cuidar da imagem e da carreira, o superagente Jorge Mendes não é de certeza, mas há ali qualquer coisa que não bate certo. Eu sei, já disse, é no defeso, mas isso não explica tudo.
O Fernando fez-se Emplastro a pulso, porque não é tolo nenhum - ao contrário do que muitas pessoas possam pensar -, mas também deu jeito a certas e determinadas televisões que ele fosse assim. E aos jornais. E às revistas. Pois se até o "entrevistavam" e lhe fizeram o "perfil"! Por outro lado, também já mete um bocado de nojo, não é verdade? Às tantas ainda o mandam para a Arábia Saudita.
Posso dar um palpite? Posso e é o seguinte: ninguém vai querer saber do Emplastro, quando o Fernando estiver deitado na soleira e for a sério (à séria, se lido em Lisboa). Nem os comensais arrotantes nem os estudantes terminais. Quem ousará sobressaltar-se quando o Animal for realmente abandonado?...

terça-feira, 11 de agosto de 2026

O Grosso da Coluna e o Maciço Central

O complexo
Era evidentemente um complexo, com todos os seus sintomas. Estádio, pavilhão, piscina e quatro campos de ténis. Complexo desportivo, como lhe chamam em Psiquiatria.

A diferença entre o Grosso da Coluna e o Maciço Central pode resumir-se assim: o primeiro é corredor de bicicletas e o segundo joga no eixo da defesa, como agora se diz. E o que têm em comum o Grosso da Coluna e o Maciço Central? Fisicamente falando, pertencem ambos à família dos Armários.
Não era evidentemente o caso de Herculano Oliveira, ciclista do tempo antigo, um poderosíssimo lingrinhas a quem chamavam "Andorinha das Penhas", uma levandisca com pedais, peso-pluma voador, digo eu, capaz até de bater Joaquim Agostinho na subida à serra da Estrela, quer-se dizer, às Penhas da Saúde, e é daí que lhe vem o cognome, o qual, dito assim a quem é, tem tanto de ornitológico como de justo.
Naquele tempo, os ciclistas eram-nos contados pela rádio, com muito emoção e, às vezes, algum atraso. Ouvia-se o relato da Volta, em magotes à roda do transístor em alta-voz, enquanto víamos os treinos ou os jogos de futebol do Fafe. Ouvidos, os ciclistas eram o fim do mundo em cuecas, eram trinta por uma linha, eram tudo e mais alguma coisa e também "ases do pedal", "bravos do pelotão" ou "gigantes da estrada", nome que lhes assentava tão bem e que agora parece que está reservado aos SUV e aos camiões TIR, para além da Brisa e outras mais modestas correntes de ar mensais.
Herculano Oliveira era do Sangalhos, é património do grande Sangalhos - uma potência velocipédica de que decerto os mais novos nem fazem ideia -, mas também passou, entre outras equipas, pela Coelima e fez carreira internacional. Nas décadas de sessenta e setenta, foi 4.º na Volta a Portugal, 22.º na Volta a Espanha e 45.º na Volta a França. Posso dizer, só para me gabar, que, em mocico, estive às vezes à beira dele?

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Eu sarapinto, tu sarapintas, ele sarapinta

Não terebintinarás
O verbo terebintinar, esse mesmo, miseravelmente ignorado por quem hoje escreve, lê e fala na ainda chamada língua portuguesa. O verbo terebintinar que, como toda a gente sabe, conjuga-se como o verbo pirilamparar. Evidentemente.

Ele era um extraordinário ciclista e não fazia caso à gramática. Dizia que gostava de correr "isolado, sozinho, sem mais ninguém", porque depois, na chegada à meta, "cada cal é cada cal e cada um sarapinta como pode". Não fazer caso da gramática fazia parte de ser ciclista antigamente. Ele venceu uma Volta a Portugal e era do meu FC Porto e das memórias da minha infância. Carlos Carvalho. Tive o privilégio de conhecê-lo pessoalmente anos mais tarde, eu moço, ele já reformado do pelotão mas não das bicicletas. E então o meu gigante das estradas era aquele homenzinho? Aquilo é que era o colosso de rodas? Era. E fiquei a admirá-lo ainda mais, como quem admira um fazedor de impossíveis.

Em 1976 a AD Fafe resolveu de repente montar de raiz uma equipa de ciclismo e apresentar-se à Volta a Portugal. Não terá sido bem a AD Fafe, mas algumas pessoas ligadas à AD Fafe e amantes das bicicletas, e tudo foi feito em cima do joelho, como convém às grandes empreitadas. Foi-se ao refugo do pelotão nacional e arranjaram-se dois ciclistas e mais dois ou três acompanhantes e desistentes garantidos. Os ciclistas eram o jovem António Alves, que posteriormente brilharia ao serviço do FC Porto, do Coimbrões de mestre Emídio Pinto, se não me engano, e do Boavista, entre outros clubes, e Manuel Martins, fafense de Golães e irmão mais novo do campeão José Martins. Dos outros, infelizmente, não reza a história. Foi-se praticamente à sucata e arranjou-se um velho Mercedes que seria, por assim dizer, recuperado e "preparado" para carro de apoio na garagem do Zé Bastos, ao lado dos antigos Bombeiros. O veículo, que avariava muito bem e parou vezes sem conta nas voltas da Volta, sobretudo quando fazia mais falta aos corredores, era o único acrescento logístico da equipa e seria guiado pelo Fredinho Bastos, condutor experimentadíssimo em corridas mas de automóveis. E foi-se a Pousada de Saramagos, Famalicão, tentar contratar um "treinador".
Uma embaixada fafense deslocou-se à loja-oficina de Carlos Carvalho, que ficava ali à face da estrada nacional, quem depois vira para o campo de futebol do Riopele de má memória pelo menos para nós. Iam talvez o grande Chico Marinho, de quem um dia falarei à parte, o despachado e palavrento Machadinho, que também já era cobrador da AD Fafe, sucedendo na pasta ao Sr. Túbal, desse tenho a certeza, não sei se o Fredinho, o David Alves e o seu irmão Gabriel, eventualmente, e por certo alguém da direcção. O David era uma espécie de consultor para todos os assuntos desportivos em Fafe. E o Gabriel foi ciclista na Coelima. Posso garantir é que eu fazia parte daquela delegação de alto nível, como modesto observador e porque, tratando-se de Fafe, naquele tempo da minha juventude eu ia com toda a gente para todo o lado. Em Fafe, não sei porquê, estive no meio de tudo ou tudo passou por mim. Fui portanto um espectador privilegiado da história da nossa terra naqueles anos imediatamente antes e após o 25 de Abril de 1974. Ou então, também admito estoutro ponto de vista, fui apenas um considerável emplastro, mas quase sempre a convite, é preciso que se note.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Diálogos fafenses 87

Qualquer tipo de dúvida
"Aqui não há qual-quer-ti-po-de-dú-vi-da", garantiu de imediato o locutor da televisão. Sou desconfiado quanto às certezas. Portanto resolvi accionar a minha lista de verificação de tipos de dúvidas, ou, como dizemos nós, os especialistas em língua portuguesa e apugilistas do acordo ortográfico, a ultimate checklist.
E então:
- Dúvida metódica? - Não.
- Dúvida caótica? - Não.
- Dúvida cartesiana? - Não.
- Dúvida sebastiânica? - Não.
- Dúvida hiperbólica? - Não.
- Dúvida hiperbárica? - Não.
- Dúvida sensível? - Não.
- Dúvida cruel? - Não.
- Dúvida do sonho? - Não.
- Dúvida do pesadelo? - Não.
- Dúvida metafísica? - Não.
- Dúvida metaquímica? - Não.
- Dúvida razoável? - Não.
- Dúvida insensata? - Não.
- Sombra de dúvida? - Não.
- Sol de dúvida? - Não.
- Sol na eira e chuva no nabal... da dúvida? - Não.
- Na dúvida pró réu? - Não.
- E pluribus unum? - Não.
- In vino veritas? - Não.
- Branco ou tinto? - Não.
Pronto. Tinha razão o locutor da televisão. Grande olho! Excelente visão! Não havia ali realmente "qual-quer-ti-po-de-dú-vi-da", dúvida de feitio nenhum: após as repetições, era fora-de-jogo como uma casa.

terça-feira, 7 de julho de 2026

O do Órfo e o do Tininho

Mal passado
A questão é muito simples: será insulto chamar bife ao camone?

Não sei quantos talhos há actualmente em Fafe, mas devem ser muitos e certamente vendem de tudo, ovos, azeite, queijo, vinho, peixe congelado, feijão, ananás enlatado, bebidas frescas, carros em segunda mão, raspadinhas e talvez carne. Os talhos são todos assim, hoje em dia, lojas de conveniência, parecem padarias. Tempos modernos. Antigamente os talhos eram apenas talhos, mas instituições de referência, barómetro e reflexo do nível de vida local, raros e valiosos como ourivesarias. Tínhamos dois.
O Talho tem lugar cativo, especial, nas minhas memórias fafenses cheias de antonomásias. O talho era o Talho, o largo era o Largo e a avenida era a Avenida, assim, sem mais nada, não havia que enganar, toda a gente sabia que aqueles nomes bastavam, eram intransmissíveis e também geografia, e para mim ainda são. O centro do mundo era exactamente ali, construído a partir de nós.
Em Fafe, Órfão era nome próprio e dizia-se Órfo. O Órfo trabalhava no Talho, isto é, o Órfo era o Órfo do Talho, do Talho do Órfo, que realmente não se chamava desta maneira mas Talho Novo, um talho à moda antiga mas assim denominado decerto para se distinguir do Talho Avenida, do Tininho, ou dos do Souto, como então se dizia, e nem tenho a certeza se este se chamava mesmo assim, Talho Avenida, mas era na Avenida, logo no princípio, quem saía do Largo em direcção à Estação, com o Monumento pelas costas, do lado e antes do Café Avenida e quase em frente ao Martins da Avenida, portanto, estais a ver, o mais certo é que também fosse da Avenida, e se calhar nem era. 
Os do Souto eram os Barros, essa distinta família que também deu futebolistas extraordinários - Nelo, Armando, Nelito, Zeca e Fernando, irmãos, nomes grandes que digo de cor, apenas de ler e ouvir dizer, porque já cheguei tarde para os ver jogar. Mas conheci-os. E o Souto, então ainda marcado por alguns velhos castanheiros, ficava à face da estrada que desce para a Fábrica de Ferro, quem deriva para o Lombo. Era ali a casa-mãe do clã, no Souto, e eles eram os do Souto, uma das ínclitas gerações fafenses. 
O nosso Talho, isto é, o Talho Novo, era, como o deles, no centro da vila e do mundo, no Largo, mas mais puxado ao lado do Mário da Louça e do Café Império, ali no enfiamento do Fernando da Sede, do Foto Jóia, do Romeu e outros que tais, tudo gente porreira, excelentíssima, o Órfo incluído. Para a mim, que era mocico e tinha medo à mão lampeira da minha mãe, o Órfo só podia ser Senhor Órfo, por respeito obrigatório, mas a expressão assim composta parecia-me um bocado parva apenas de a pensar da cabeça para dentro, e portanto eu nunca a disse da boca para fora. Quer-se dizer. A vida em Fafe era muito simples naquele tempo, mas às vezes fazia-me confusão...
Quando a minha mãe me mandava à fressura, "um quarto", eu tinha de escalar a parede de quatro metros e meio de altura do balcão para pendurar-me na borda e ser visto lá em cima. E é curioso: quase sessenta anos passados, ainda guardo bem vivas as caras daquela boa gente, que me atendia tão bem, como se eu fosse grande, como se eu fosse rico, como se eu fosse ao bife, respeitando com reserva e elegância a nossa pobreza. Caras a que, tenho pena, não sei agora dar nomes, com excepção do Senhor Abreu, que morava em frente aos Bombeiros, do bom Senhor Beijo - Beijo de Benjamim, isto é, "Beijamim", suponho -, que era um gigante também de gentileza, e, evidentemente, do Senhor Órfo, o Talho em pessoa.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Os grandes adeptos eram quatro

Mudam-se os tempos
As pessoas pagam fortunas para irem ao futebol, mas não vêem o jogo. Espreitam-no pelo ecrã do telemóvel, filmam, fotografam, viram as costas ao campo, telefonam-se, vão ao YouTube, lançam tochas, fazem "selfies", mandam sms umas às outras, cadeira ao lado, procuram as câmaras de televisão, acenam para casa, actualizam o Facebook com a emoção do momento. A bola, evidentemente, não interessa para nada.

No princípio, Deus criou os céus, a terra e a Associação Desportiva de Fafe. Era essa a minha fé e estava redondamente enganado. Quando eu era pequeno, pelos três ou quatro anos, e comecei a ir com o meu pai ao Campo da Granja, achava que estava a participar de uma coisa muito antiga, que vinha do tempo dos dinossauros ou pelo menos dos romanos. Nem me passava pela cabeça que, como vim a descobrir séculos mais tarde, eu e o meu clube somos praticamente da mesma idade, eu quase um ano mais velho, ainda por cima, e tive um desgosto muito grande.
Quer-se dizer: eu acompanhava os primeiros passos da AD Fafe, mas não sabia. Afinal a nossa "Associação" não vinha da fundação da nacionalidade, com o peito cheio de glórias e façanhas, conforme os meus ingénuos supores, mas acabara apenas de nascer, fruto da fusão celebrada em notário entre o Futebol Clube de Fafe e o Sporting Clube de Fafe, corria o ano de 1958, mas isso são pormenores.
Por aquela altura e na meia dúzia de anos a seguir, o que mais me interessava quando ia ao futebol não era tanto a habilidade dos nossos grandes jogadores, que eu por acaso até já catrapiscava, mas o desempenho dos nossos grandes adeptos. Eram quatro, como os quatro cavaleiros do Apocalipse, mas em manso. O Sr. Antunes Chapeleiro, o Sr. Abílio Batateiro, o Sr. Rocha "Mijão" e o Felinhos. Quatro figuras icónicas, como agora se diz, fafenses excelentíssimos, como eu costumo dizer. Funcionavam raramente em grupo e principalmente a solo, eram os donos daquilo tudo, antigos como matusaléns, sábios como salomões, sumos sacerdotes da coisa, tomaram muitos comentadores de hoje em dia.
Frequentavam jogos e treinos, chovesse ou fizesse sol, dia após dia, menos o Sr. Antunes, que era só jogos e acompanhava com muito carinho as camadas jovens, aos domingos de manhã. E era um perigo na bancada. Pequenino e doce, despachado, tirone da cabeça aos pés, gostava de dar a táctica, gritava ordens para dentro do campo, mas gritava baixinho, educadamente, mandava o rapaz chutar - "Chuta, menino!" - e, nem dava fé, chutava ele também, no ar, quase caindo de cangalhas e, na passada, enfiando biqueirada de chumbo grosso no rabo ou canelas do insensato que lhe calhasse à frente. Membro da alta burguesia fafense e ilustre comerciante da nossa praça, estabelecido nos respeitáveis ramos da chapelaria e sapataria, frente a frente, duas lojas famosas e chiques, muito bem frequentadas, na hoje chamada Rua General Humberto Delgado, o Sr. Antunes era talvez um caso à parte, tinha a sua própria gramática de grande adepto, isso é certo, geralmente contida, às vezes graciosa, mas uma paixão tremenda, avassaladora, transfiguradora, e eu, grande admirador, passava o jogo inteiro a olhar para ele.
O Felinhos, do Picotalho, mesmo ao lado do Estádio, quando o Fafe deixou a Granja por casa nova e neutra, era outro que tal no que diz respeito aos pontapés na atmosfera mandados de cá de fora, que, se fossem lá dentro, eram golos atrás de golos, disso ninguém lhe tirava a ideia. Um desperdício, infelizmente. O Felinhos tinha a estampa de um pau de virar tripas e opiniões do tamanho e temperamento dos canhões de Navarone. Nunca estava contente, nada lhe servia, criticava o torto e o direito, porque sim, porque não e porque talvez, sempre contra tudo e contra todos, locais ou forasteiros, resmungava numa vozinha aguçada, interminável, irritante, a desafiar soco, o que, por outro lado, só lhe abonava a coragem. Ou talvez o despropósito.
O Sr. Abílio, da Fábrica do Ferro, era um bem instalado negociante de batatas, em concorrência directa com o Sr. Chupiu, o qual, não fazendo parte dos quatro magníficos, tinha porém um tasco, afamado e manhoso, mesmo à porta de entrada do novo campo da bola. E quem diz entrada, diz saída, não havia como lhe fugir. O Sr. Abílio era, portanto, dono do seu próprio horário e destino, tal qual o Sr. Rocha, de Sá, que possuía uma potente moto Jawa, uma furgoneta para os domingos e um tractor, que era o seu ganha-pão. O Sr. Rocha, um homem grande, pesado, opinioso, cheio de certezas vernaculares, aliás como o Sr. Abílio, iguais em todos os itens, viu bem o furo, lavrava para fora, isto é, alugava-se à hora, a ele e ao seu tractor, para amanhar os campos dos lavradores aqui à roda. Foi exactamente naquela maré que tudo isto começou aqui na região: com décadas de atraso, a mecanização agrícola chegava enfim ao minifúndio minhoto. Para além disso, o Sr. Rocha fazia questão de exibir a sua simpatia pelo antigo regime e mandava-nos calar a todos, com cara de poucos amigos e um ameaçador "Chiiiiiu!!!" de dedo apontado, mal aparecia na televisão do café Peludo o genérico de abertura da "Conversa em família" de Marcelo Caetano, sua excelência o presidente do Conselho.
Eu dava-lhes muito valor, aos quatro grandes adeptos da AD Fafe, ao nosso quarteto fantástico. O Sr. Antunes Chapeleiro, o Sr. Abílio Batateiro, o Sr. Rocha "Mijão" e o Felinhos. Indesmentíveis poços de sabedoria, prodigiosos senadores do pontapé na bola. Eles sabiam tudo de futebol. Melhor dito, eles é que sabiam! O que já era conhecido e o que ainda havia de ser inventado. Em caso de derrota, que acontecia com arreliadora frequência, sabiam milhões de vezes mais do que a besta do treinador, especialmente o Sr. Rocha e o Sr. Abílio, que eram realmente duas sumidades, eles já tinham ditam, aliás, tinham-se fartado de dizer, "Eu é que disse!", "Mas eu disse primeiro!", pegavam-se não raro, discutiam um contra o outro com uma ciência que dava gosto ouvir, trocavam insultos com bigode, mandavam-se àquela parte, ignoravam-se de despeito, tudo por amor ao Fafe, só faltava mesmo andarem à pancada, e havia de ser bonito.

domingo, 28 de junho de 2026

Admiráveis esparrinhadores

O fiel jardineiro
Diziam que ele regava muito bem. Era, de facto, um excelente mentiroso.

Em Fafe esparrinhava-se muito, essa é que é a verdade. Noutras localidades igualmente antigas mas porventura já mais apetrechadas e comedidas, talvez se espargisse, talvez se borrifasse, talvez se aspergisse, talvez se salpicasse, talvez se esparramasse, talvez se espalhasse, talvez se derramasse, talvez se entornasse, talvez se respingasse, talvez chuviscasse, talvez, vá lá, se irrigasse, mas em Fafe não, nós em Fafe, por uma questão de princípio, esparrinhávamos e mais nada. Esparrinhávamos forte e feito, ui o que a gente gostava de esparrinhar, e que ninguém nos viesse dizer o contrário.
Claro que não éramos todos iguais. Cada qual esparrinhava à sua maneira, uns mais, outros menos, uns melhor, outros pior. Como tudo na vida. E havia, evidentemente, quem se destacasse entre o geral, apareciam craques, campeões, mestres do esparrinhanço, lendas para o futuro, esparrinhadores imortais. Lembro-me agora. Deu-se até o extraordinário caso de termos um talentoso jogador de futebol, fafense nado e criado, que ostentava o admirável nome de Esparrinhento, isso mesmo, Mário Esparrinhento, assim ficou registado nos anais da História o nosso herói. O Sr. Mário, que já só conheci reformado da bola, sempre de fato, gravata e sapatos de verniz, se não me engano, roda-baixa, gingão, voz de bagaço e sentença pronta, era frequentador habitual da esplanada do café Peludo, onde eu o venerava até mais não. Jogou, primeiro, pelo Sporting Clube de Fafe e, após "a fusão", em 1958, pela Associação Desportiva de Fafe, fazendo parte da nossa primeira equipa e da exclusivíssima caderneta dos meus ídolos.
Aqui só entre nós, faço ideia do que seria o Sr. Mário a esparrinhar, que eu nunca vi, para ficar assim conhecido, acima de todos, como Esparrinhento. "O" Esparrinhento. Devia ser um assombre! E isto, meus ricos meninos, nunca poderia acontecer noutra terra senão Fafe.

sábado, 6 de junho de 2026

As lágrimas do adepto

Sou muito forte mentalmente e jogo muito bem sem bola
Sou muito forte mentalmente, tenho uma grande cultura táctica e razoável visão periférica. Jogo muito bem sem bola. Mas sobretudo sou muito forte mentalmente, que é o que faz a diferença em campo. Não me levam ao Mundial, e eu não percebo. Tenho um centro de gravidade que tomaram muitos. É certo que me falta alguma margem de progressão e realmente nunca fui aquilo a que se possa chamar "jogador de futebol", embora jogue muito bem com os dois pés, mas com ambos ao mesmo tempo. Em todo o caso, sou - creio que me repito - muito forte mentalmente e jogo muito bem sem bola.

O adepto. O adepto anda quatro anos a poupar para acompanhar a selecção no Mundial. Ou então assalta um banco. Acompanhar a selecção no Mundial implica, às vezes, atravessar meio mundo e morar fora durante um mês - coisa para custar um dinheirão. O pão e água para toda a família, que fica em casa, justifica-se portanto como regime de emergência, e o assalto a bancos também. É o amor, é o país, é a selecção. Está certo.
Depois a selecção não joga nada, está a levar três secos a dois minutos do fim e já tem guia de marcha para o regresso a casa. E o adepto entra numa depressão desgraçada, mãos esgadanhando a cabeça incrédula, lágrimas esborratando as pinturas de guerra, dei cabo da minha vida por esta merda, ai os meus ricos filhinhos, mais me valia morrer, uma tristeza que só vista. Exactamente. A televisão vê a tristeza do adepto - profunda, incrédula, esgadanhada e esborratada - e passa-a no ecrã gigante do estádio. Em câmara lenta, HD e 4K. As lágrimas do adepto, momento televisivo de rara beleza. O adepto vê que está a ser visto na televisão, e salta, e ri, e manda beijinhos, e faz caretas, e tira macacos do nariz, e fica tão feliz, tão feliz, tão feliz da vida, que se lixe o desespero, que se lixe a selecção, que se lixem os filhos, valeu bem a pena a fome que passaram durante quatro anos. Ou o assalto ao banco. Que está certo e também dá na televisão.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

A Associação, a Desportiva e o Fafe

Quando o Sporting deu 7-1 ao Benfica
Catorze de Dezembro de 1986. Em Alvalade o velho, num épico jogo de futebol: Sporting 7 - Benfica 1. Ainda hoje há quem diga que, a haver um vencedor, tinha de ser o Benfica.

Suspeito que seja caso único, talvez a nível mundial. Um importante clube de futebol que pode ter, e tem, quatro nomes autónomos e cada um deles suficiente e correcto, utilizando apenas as três palavras que lhe servem de identificação registada, portanto sem precisar de recorrer a alcunhas postiças, tipo águias, leões ou dragões, encarnados, verdes-e-brancos ou azuis-e-brancos, lampiões, lagartos ou andrades. E esse clube, tomai bem nota, é exactamente o nosso: a Associação Desportiva de Fafe, isto é, a Associação, aliás, a Desportiva, quer-se dizer, o Fafe. Um, dois, três, quatro.
Eu sou do tempo da Associação, era assim que dizíamos na minha geração - sou pela Associação, fui ver a Associação, golo da Associação! -, mas os mais velhos do que eu chamavam-lhe Desportiva - sou pela Desportiva, fui ver a Desportiva, golo da Desportiva! E, no entanto, ia tudo dar ao mesmo. Com a famosa "fusão" ainda fresca, creio que, em Fafe, havia um certo pudor em chamar Fafe ao Fafe, que era palavra comum aos dois históricos emblemas que se apagaram, o Sporting Clube de Fafe e o Futebol Clube de Fafe, para darem à luz a Associação Desportiva de Fafe, em 1958. Naqueles primórdios, terá sido certamente boa ideia não incendiar rivalidades antigas e violentas com o nome "Fafe" atirado logo à cabeça, para que ninguém pensasse que os adeptos e ex-jogadores de um eram mais Fafe do que os adeptos e ex-jogadores do outro, isto é, que a nova colectividade pertencia mais a uns do que aos outros ou que se estaria a prolongar a vida de uma das partes à custa da extinção da outra, o que então seria o fim do mundo. Chamando-lhe "Associação" ou "Desportiva", e o povo assim fez, fino como um alho, o novo clube era mesmo a estrear, de todos por igual, estava tacitamente aceite, universalmente subentendido, evitava-se ferir susceptibilidades, abanar o vespeiro. Lembro-me muito bem desse ambiente ainda extremado, escorregadio e frágil como camada de gelo, e que amiúde explodia em discussões infindáveis e perigosas nos nossos tascos e cafés.
Fafe foi entrando aos poucos, prudentemente, já na minha juventude, e aí está. Um clube masculino e feminino, com quatro nomes e um só amor. O Fafe, a Desportiva, a Associação, a Associação Desportiva de Fafe, consoante a idade, a memória e o comprimento da língua de quem o diz. Já quanto aos "justiceiros", essa novidade de carregar pela boca, vou ali e venho já...

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Também acontece aos melhores

Os favoritos
E diz o comentador, no final do jogo do campeonato inglês: "Vitória mais que justa da equipa que não reunia qualquer tipo de favoritismo". Sim, é verdade, ele há favoritismos das mais variadas espécies. Mas quase nunca reúnem.

Abril passava para Maio no ano de 2012. O FC Porto sagrou-se campeão nacional. O grande jornalista Ferreira Fernandes escrevia então no DN. E escreveu. Eu, armado em carapau de corrida, "respondi-lhe" no meu blogue Tarrenego!, metendo-lhe o título acima e a foto de uma caixa de Kompensam-S, medicamento indicado para o alívio dos sintomas de azia, enfartamento e acumulação de gases. O textinho era assim:
"Ferreira Fernandes é um dos mais brilhantes cronistas do jornalismo português. E é o meu preferido. Todos os dias procuro o cantinho que lhe dão no Diário de Notícias e todos os dias me delicio e aprendo alguma coisa com ele. Ferreira Fernandes é informado, é culto, é estiloso, é escorreito, é claro, é corajoso, é honesto, é sensato, é sucinto, é simples, é assertivo. E também é benfiquista.
Ferreira Fernandes escreve de tudo, não por armanço idiota, mas porque verdadeiramente sabe de quase tudo. Escreve, por exemplo, de futebol, sem que lhe caiam as medalhas ao chão, e continua a ser um prazer lê-lo. O Barcelona e o Real Madrid, Messi e Cristiano Ronaldo, Guardiola e Mourinho devem-lhe, se calhar, os mais perfeitos textos que sobre eles foram escritos a nível mundial.
Ferreira Fernandes tornou ao tema do pontapé na bola na edição de ontem do DN, mas inesperadamente com uma cirúrgica preocupação doméstica. Na noite em que Rio Ave e Benfica entregaram ao FC Porto mais um título de campeão que, desta vez, parece que mais ninguém queria, o meu cronista favorito esqueceu-se do facto e resolveu escrever sobre os desarranjos intestinais do futebol português. É. Realmente, ninguém está livre."

Ferreira Fernandes, de quem sinto uma saudade imensa na chamada "imprensa nacional", mas provavelmente ele não, teve a bondade de dar-me troco, com a ironia, a sabedoria e a elegância do costume. Escreveu:
Caro Hernâni Von Doellinger,
leu mal, não quis fugir à vitória do FCP. Mais um campeonato do FCP não é notícia. Não escrevi sobre ela pela razão idêntica à dada por Liz Taylor por não ter ido ao funeral de Richard Burton: "Se eu fosse a todos enterros dos meus ex-maridos não fazia outra coisa."
Abraço, Ferreira Fernandes."

Eu, evidentemente, fiquei num sino por Ferreira Fernandes me ter lido, ainda por cima agraciando-me com um comentário, uma medalha. E rematei, dono da bola, até parecia que estava a adivinhar os festejos extraordinários deste ano:
"Muito obrigado, caro Ferreira Fernandes, pela gentileza da visita e do comentário. Que vou encaixilhar. Mas voltou a descair-lhe o pé na metáfora, meu amigo: os títulos do FC Porto não são funerais. Ou, pelo menos, não são um funeral para toda a gente. São uma festa, não viu?
Abraço,
h."

Isto é. O cronista Ferreira Fernandes, à mão, todos os dias, faz-me falta. Faz-nos falta. O País, se tivesse salvação, deveria reclamá-lo. E eu tinha alguma urgência de dizer isto outra vez.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

O dérbi eterno, em 96 ponto 7

Acontecimentos
Há acontecimentos épicos e acontecimentos hípicos. Às vezes coincidem.

Comecei a ver o Sporting-Benfica na cozinha, ouvindo o relato na rádio Antena 1. O Sporting-Benfica ou o Benfica-Sporting, nem que seja em damas ou dominó, é o melhor espectáculo do mundo, assim aprendemos em Portugal desde pequeninos. E realmente. Estava a ser um dérbi de arromba, um clássico dos antigos, uma partida palpitante, de categoria superior, talvez bancada ou até camarote, bola cá, bola lá, sempre nas áreas, quase-golos uns atrás dos outros, os relatadores esganiçados com tanta emoção, sobejavam-lhes os adjectivos, faltava-lhes o ar, que jogaço, que loucura! Fui a correr para a sala e liguei a televisão, para ver com os meus próprios olhos: o jogo era fraquinho, uma tristeza, não havia dois passes seguidos certos, os do Benfica, sem tino, entregavam a bola aos do Sporting e os do Sporting, atrapalhados, devolviam o esférico aos do Benfica, pareciam tolinhos, desajeitados, ignorantes das balizas, por banda de um e de outro lado. Entre cortesias tontas a meio campo, isso, no miolo do terreno, como nos dizem, sarrafava-se a bom sarrafar, é verdade, mas dentro de um protocolo aparentemente estabelecido e mutuamente aceite, combinado. Que pobreza, que sensaboria, que merda! Voltei, desiludido, para a cozinha, provei e pus sal no arroz de grelos, liguei outra vez o rádio: o prélio levantou imediatamente fervura, tornou a ser sublime, frenético, sensacional, fantástico, formidável, alucinante, arrepiante, épico, dantesco, um frémito, um frenesim, um AVC em potência, só não era golo porque não calhava e o INEM estava de prevenção. Eram defesas impossíveis, eram perdidas inacreditáveis, a bola sempre a rasar o poste, a bater insistentemente na trave, até parecia, mas saiu pela bandeirola de canto, foi para o quintal, mais três pontos para o País de Gales. Fiquei-me, portanto, pelos 96.7, que também podia ter sido o resultado final, tantos os golos cantados que contei, e, confesso, fiquei de barriga cheia, regalei-me. Que fartote! Tanto drama, tanta comédia, apesar do formidável zero-zero. Digo-vos. Esquecei a televisão por cabo, que nos custa os olhos da cara e só nos dá entretimentos deprimentes. O futebol, para ser bom, para valer a pena, deve ser visto na rádio Antena 1. 

Sou pela Antena 1 desde que nasci, no tempo em que a rádio era a preto e branco e a Antena 1 chamava-se Emissora Nacional e aos domingos dava os resultados da 3.ª divisão e dos distritais já pela noite dentro e era uma comoção tremenda ouvir dizer Fafe, Associação Desportiva de Fafe, no Philips da mesinha de cabeceira dos meus pais, ainda o pai era vivo e fazia-nos rir. Ficávamos ali todos à espera, a família, prezados ouvintes, como se estivéssemos a rezar o terço mas de boca calada, angustiados e alerta, porque aquilo era dito uma só vez, como no "Alô, Alô", e com a rapidez do "não dispensa a consulta do prospecto". Vamos supor: o jogo do Fafe tinha sido em Arcos de Valdevez, que naquela altura era muito longe e não havia telemóveis (eu sei que é difícil de acreditar), não fora o rádio e só saberíamos o resultado a altas horas da madrugada, se tivéssemos vagar para isso, quando a camioneta da excursão regressasse ao Largo, cheia de sono e de vinho, "bom dia, boa tarde ou boa noite, conforme a hora e o local em que nos escuta".
Sou, portanto, antigo, e faço gosto. Prefiro os dicionários encadernados à Wikipédia e os livros de uma forma geral às séries "de culto". Prefiro o éter à água oxigenada, a rádio à televisão. O melhor que a televisão tem, para mim, é que agora também dá relato. Quer-se dizer: é outra vez a velha rádio, lá com caras tipo passe, mas escusamos de olhar para ela.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

A visita da Veneranda Figura

Foto Tarrenego!

Os três
Vai há tão pouco tempo, e parece que já ninguém se lembra. Portugal era o país dos três efes: futebol, fado e Fátima. E dos três esses: Salazar! Salazar! Salazar! E dos três pês: pobres, pobres, pobres...

As visitas da Veneranda Figura ao Portugal corno manso eram, não raro, momentos de alto fervor nacionalista e profunda reflexão cultural. Sua Excelência o Senhor Presidente da República - ou O Padeiro, na versão abreviada, ou o Cabeça-de-Abóbora, na simpatia do país rural - tinha o condão da palavra certa. Humanista dos sete costados, enciclopedista dado a calendário, geografia e contas de somar, Américo Tomás abria a boca para espirrar e saíam-lhe pérolas, orações de sapiência. Num país de troca-tintas e fala-barato de nascimento, o rigor e o donaire na afirmação são a superlativa herança que o marido de Dona Gertrudes fez o obséquio de nos deixar.
Por exemplo:
1. "Hoje visitei todos os pavilhões, se não contar com os que não visitei."
2. "É uma terra [Manteigas] bem interessante, porque, estando numa cova, está a mais de 700 metros de altitude."
3. "Comemora-se hoje em todo o país uma promulgação do despacho número cem, a que foi dado esse número não por acaso mas porque ele vem na sequência de outros noventa e nove anteriores promulgados."
4. "Neste almoço ouvi vários discursos, que o governador civil intitulou de simples brindes. Peço desculpa, mas foram autênticos discursos."
5. "Eu prolongo no tempo esse anseio de Vossa Excelência e permito-me dizer que o meu anseio é maior ainda. Ele consiste em que, mesmo para além da morte, nós possamos viver eternamente na terra portuguesa, porque se nós, para além da morte vivermos sempre sobre a terra portuguesa, isso significa que Portugal será eterno, como eterno é o sono da morte."
6. "Hoje tivemos um dia sumamente positivo: de manhã assistimos à santa missa e de tarde inaugurámos o monumento ao bombeiro."
7. "Pedi desculpa ao Senhor Engenheiro Machado Vaz por fazer essa rectificação. Mas não havia razão para o fazer porque, na realidade, o Senhor Engenheiro Machado Vaz referiu-se à altura do início do funcionamento dessa barragem e eu referi-me, afinal, à data da inauguração oficial. Ambas as datas estavam certas. E eu peço, agora, desculpa de ter pedido desculpa da outra vez ao Senhor Engenheiro Machado Vaz."
8. "A minha boa vontade não tem felizmente limites. Só uma coisa não poderei fazer: o impossível. E tenho verdadeiramente pena de ele não estar ao meu alcance."
9. "O Senhor Professor Oliveira Salazar, ao longo de mais de trinta anos, é uma vida inteiramente sacrificada em proveito do País, e, desconhecendo completamente todos os prazeres da vida, é um homem excepcional que não aparece, infelizmente, ao menos, uma vez em cada século, mas aparece raramente ao longo de todos os séculos."
10. "Esta é a primeira vez que estou cá desde a última vez que cá estive."

Convivi pessoalmente e a uma distância razoável com Américo de Deus Rodrigues Tomás. Uma vez, numa pressinha. Quando a Veneranda Figura veio a Fafe, montado num esplêndido Rolls-Royce descapotável negro, como era negra a vida dos portugueses regra geral, e guardado por uma matilha de impressionantes motos brancas da GNR. Era um reizinho. Veio inaugurar por atacado a "nova" Câmara Municipal, o Tribunal, que tinha sido cadeia, e a escola do Santo Velho - estaríamos, se não me engano, nos finais da década de mil novecentos e sessenta. E decerto O Mais Alto Magistrado da Nação por cá deixou algumas das suas proverbiais patacoadas, mas não tenho a certeza: eu teria talvez 11 anos, porém já não lhe botava sentido. Preferia fazer pouco dele, O Padeiro, e a moçarada à minha volta, agitando impostas bandeirinhas nacionais presas por arames e muitos "Viva o Senhor Presidente da República!", e eu escangalhava-se a rir com aquela palhaçada toda, conferindo definitivamente ao acto o significado (ou a in-dignidade) que realmente lhe assistia. A severa Dorzinhas, empregada e dona da escola, ainda tentou repreender-me, mas eu já não lhe dizia respeito, estava a ir para padre, era de outro campeonato.
Embora sem selfies nem banhos no Tejo, Tomás era o circo e mais nada. O Presidente da República nunca encontrou palavras de jeito para falar ao Portugal dos pequeninos, que ele porventura acharia que fosse apenas um sítio em Coimbra, quem vai para Fátima. O Almirante não as sabia, as palavras certas, e ninguém lhas ensinou ou escreveu. Staff e entourage são modernices, estrangeirismos ainda por cima, e a Revista da Armada foi criada em 1971.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Grândola é na Galiza

Os do 28 de Maio
Há os do 25 de Abril. E há os do 25 de Novembro. Uns são donos do 25 de Abril, os outros são donos do 25 de Novembro. E todos apresentam argumentos de propriedade sobre a data respectiva, alguns por herança, outros por usucapião, uns tantos por revelação divina, certos e determinados por puro e simples assalto, sendo curioso notar que abundam, enfim, os que por acaso até dão para os dois lados. É a vida. Os do 25 de Abril cantam bonitas cantigas. Os do 25 de Novembro, regra geral, são do 28 de Maio. E estão de volta.

Houve quem ficasse muito admirado, mas sem razão. Aqui atrasado, em Vigo, na Galiza, num jogo de futebol da primeira divisão espanhola, adeptos do Bétis, de Sevilha, entoaram cânticos fascistas e fizeram a saudação nazi. À saída, para além da derrota por 3-2 com o Celta, levaram também com "Grândola, Vila Morena" e a voz de Zeca Afonso ecoando no Estádio de Balaídos.
Não foi por acaso. Para começar, é tido como certo que a canção "Grândola, Vila Morena" foi estreada por Zeca Afonso, isto é, cantada em público pela primeira vez, exactamente na Galiza, em Santiago de Compostela, no Burgo das Naçons, no dia 10 de Maio de 1972. O Zeca, é também assim que ele é conhecido e referido pelos galegos de média cultura, passou largas temporadas na Galiza, deu por lá inúmeros concertos, andou e cantou por Lugo, Ourense, Pontevedra, Vigo e outros adiantes, fez imensos amigos, tinha e tem uma legião de fiéis admiradores, as comemorações e homenagens sucedem-se ainda hoje. Em Compostela há o Parque José Afonso e mantém-se em actividade a AJA Galiza - Associaçom José Afonso. Nos bares e ruas de Compostela canta-se e festeja-se "Grândola" como quem canta e festeja a "A Rianxeira". Não sei como é agora, mas ainda há meia dúzia de anos havia um pub lá para as traseiras da famosa catedral, a Casa das Crechas, que passava constantemente a música de Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Francisco Fanhais, Luís Cília, Fausto, Vitorino e por aí fora, mas Zeca Afonso sempre! Porque na Galiza pensa-se e sente-se que o 25 de Abril também lhes pertence. E fazem os galegos muito bem!

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Eu tive um sapo

Os engolidores
Engolidores, há-os. Como por exemplo engolidores de sapos, metaforicamente falando, engolidores de fogo, que na verdade não engolem mas borrifam, e engolidores de espadas. Engolidores de copas e engolidores de ouros não sei, mas engolidores de paus também há-os.

Tive uma infância feliz, em Fafe, rodeado de animais de estimação, ditos agora de companhia. Tínhamos um cão chamado Rin Tin Tin, tínhamos uma cadela chamada Lassie, tínhamos um canguru chamado Skippy e até tínhamos um cavalo chamado Mister Ed ao qual nem faltava falar. Eu ia vê-los ao café, porque em casa não tínhamos televisão.
Tínhamos também um sapo. Isto é, uma vez à noite tivemos um sapo, mesmo nosso, nem foi preciso ir ao café ver televisão, se o Sr. Avelino estivesse bem disposto e por acaso a ligasse, mas não lhe pusemos nome. Ao sapo. Ao Sr. Avelino pusemos, era o "Hoss", por causa do gordo do Bonanza. Mas eu conto a história do sapo.
A porta da nossa casa no Santo Velho tinha, em baixo, junto ao chão, um bocadinho de folheta levantada, e era ali que se deixava a chave, de uns para outros, éramos pelo menos seis, como, por exemplo, à noite, quando a nossa mãe já nos dava licença de saída até às 22 horas, ao Nelo e a mim, e depois no regresso a gente metia a mão no buraco, tirava a chave, que era enorme, digna de São Pedro, há que dizê-lo, abria a porta em câmara lenta, a monumental chave de bico calado, bem oleada, e entrávamos em casa com os pés debaixo dos braços para não fazermos barulho, a nossa mãe fazia de conta que estava a dormir e portanto só de manhã é que nos acertava o passo por termos chegado às 22h01.
Acontece que. Uma noite, findo o serão, estamos à porta, e o Nelo, que é mais velho e foi sempre mais medroso, manda-me apanhar a chave. Eu meto a mão no vazio da folheta e, em vez da chave, agarro um enorme sapo que lá se tinha enfiado, filho da puta, e apanhei um susto que me ia mijando todo, estremeci-me até hoje, argh!, enchi-me de nojo, cachicha!, arranquei a mão como se a tirasse do fogo e rasguei-me na chapa ferrugenta, gani, vomitei, cocei-me antecipando verrugas para toda a vida, palavra de honra, e o caralho do sapo, como se não fosse nada com ele, saiu nas calmas felizmente para o lado da rua, caso contrário eu nunca mais entraria em casa. Entrámos, a nossa mãe a pé, à nossa espera, e a hora de picar o ponto já não interessava para nada. Levámos logo ali, por causa do sapo, da ferida, do vomitado, do barulho, quer-se dizer, do "espectáculo", que a nossa mãe não tolerava, fosse em que circunstância fosse. Tudo por minha culpa. Ainda por cima eu tinha dito "argh!" e em nossa casa, que era muito pobre, estavam terminantemente proibidas as onomatopeias, sobremaneira as derivadas dos livros aos quadradinhos, um luxo...

Os sapos à porta realmente incomodam-me. E metem-me nojo sobretudo os sapos à porta dos restaurantes ou de outros estabelecimentos comerciais. É. Como sou um bocado cigano, recuso-me também a entrar.
Os sapos às vezes são de engolir, como aconteceu com Álvaro Cunhal e o PCP na segunda volta das eleições presidenciais de 1986, para derrotar Freitas do Amaral, candidato da direita, e, só por isso, eleger Mário Soares. "Vamos ter de engolir um sapo. Se for preciso, tapem a cara [de Soares] com uma mão e votem com a outra", recomendou Cunhal aos comunistas. Para se distinguirem dos faquires, que engolem facas, os engolidores de sapos chamam-se sapires.

No velho tasco do Toninho Nacor, em Fafe, havia um sapo que era um jogo, na zona cimentada do quintal logo depois da cozinha, por baixo do sombroso caramanchão, ao lado das famosas gaiolas dos pássaros e do forno de barro que assava vitela e cozia o bolo de milho para as sardinhas. O sapo era um jogo tradicional e de taberna, um jogo de mesa em forma de armário aberto com inúmeras ranhuras correspondentes a outras tantas gavetas. Jogava-se com pequenas patelas, que se lançavam para o "armário" e cada entrada correspondia a uma certa pontuação. A boca do sapo era o máximo, se não me engano. Servia para matar o tempo enquanto se esperava pela hora da merenda e dali poderia sair também "multa" aos perdedores para próximas quartilhadas.
Sobre este interessante assunto, os sapos, apraz-me finalmente registar que o Sapo, primeiro motor de busca português, foi criado por cinco estudantes da Universidade de Aveiro, em 1995. Antes disso, mas em Penafiel, o Sapo já era um famoso restaurante de enfarta-brutos e conceituado estabelecimento de compra e venda de árbitros de futebol. Outros tempos!

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Quando Ben-Hur foi impedido de entrar no presépio

A conversão do penálti
Foi uma conversão muito difícil, um processo doloroso e demorado. Perceba-se: era um penálti ateu desde pequenino, e burro velho não toma andadura. Mas, pronto, vai ser baptizado no próximo domingo, logo após a missa das sete.

Ben-Hur queria entrar no presépio. Chamou o grupinho do costume - Spartacus, Maximus, Maciste, Hércules, Sansão, Demétrio, Ursus, Nuno Salvação Barreto, o Homem Mais Forte do Mundo e o Custódio Ardegão, que isto era em Fafe, e não fosse a coisa dar para o torto. E lá foram. O Pescador do Laguinho, que sabia kung fu e era segurança de discoteca em part-time, para além de fazer de figurante na cascata de São Pedo do Bairro da Granja, impediu-lhes terminantemente o acesso: - Noite temática, meus senhores, hoje é só anjos, pastores e reis magos. Ordens de cima. Apareçam pela Páscoa...

sábado, 7 de março de 2026

Diálogos fafenses 81

Banho de cultura, mas a seco
- E essa semanita em Roma?
- Fantástica! Um tremendo banho de cultura! Um mergulho na História! Sabes que a cultura para mim...
- E o velho Coliseu?
- Sem condições. As bancadas, em ruína, e já estão a substituir o relvado...

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Valia-nos São Valentim

Foto Tarrenego!

A torto e a direito
Ele não era para brincadeiras. Com um coelho, matava logo duas cajadadas.
 
Os meus dias de São Valentim eram porreiros. Sempre. Recebesse ele quem recebesse, Presidente da República, primeiro-ministro, ministros disto ou daquilo, fossem quiçá o Papa, Trump, Cicciolina ou até a rainha de Inglaterra ou o sultão do Brunei, ele, Valentim Loureiro, em funções de presidente da Câmara de Gondomar ou da Metro do Porto, ultrapassava tudo e todos, tomava conta do protocolo e das operações, comandava as tropas e... armava barraca. Sempre. Era um regalo para mim e para o meu jornal de então, o 24horas, que me mandava atrás do Major à procura das partes gagas, que eram umas atrás das outras, estrambólicas até dar com um pau. Eu era o enviado-especial, o especialista em Valentim Loureiro, e o homem nunca me deixou ficar mal. Ele era, como eu então lhe chamava, o meu cromo da sorte. Trabalhávamos a meias, tipo parelha de palhaços. O meu papel consistia em ver, ouvir, perguntar e transformar depois a notícia em anedota, e creio que também não me saía nada mal.
Desconfio que isto não me elogia, talvez até me desclassifique, mas Valentim Loureiro gostava de mim. E ria-se do que eu escrevia sobre ele. Quero dizer, ria-se dele próprio, das suas pantominices, o que só lhe enaltece a inteligência. Não éramos amigos, nada disso, mas desaguisámo-nos apenas uma vez, se bem me lembro, numa desconversa em privado, e por causa da Fábrica do Ferro, de que ele entretanto destomara conta em Fafe...
Quando os putos de Lisboa que rebentaram com o 24horas resolveram começar por fechar a redacção do Porto, a ver se salvavam as suas próprias pessoas, Valentim Loureiro disse-me logo que fosse ter com ele, que me arranjava emprego. Agradeci, naturalmente, mas nunca mais lhe apareci. Prezo inegociavelmente a minha liberdade e a minha independência pessoal e profissional, ou vice-versa, mas registei. E continuo grato. Ele foi um dos poucos que quiseram saber de mim.
Valentim Loureiro, o nosso Valentim, não era santo nenhum, antes pelo contrário. Tinha um feitio lixado, e espero que ainda tenha, que é bom sinal. Teimoso, virulento, desbocado, vendedor de banha de cobra e de retroescavadoras com luzinhas, de pares de sapatos só direitos ou só esquerdos, oferecedor de varinhas mágicas e outros electrodomésticos, desinformado, populista, voluntarista e amiúde irresponsável e talvez trafulha, nem sei como não foi ele o inventor do Chega, o Major trocava sistematicamente as voltas aos seus desgraçados e bem pagos assessores, que não conseguiam ter mão nele e escondiam-se pelos cantos (já que não conseguiam esconder o patrão), chorando baba e ranho e arrepelando os cabelos de incompetência. Estes, sim, é que tinham paciência de santo, mais ordenado chorudo e garantido no fim do mês, fora as mordomias e as abébias e os segredos que iriam acabar em livros patetas, mais reforma de político, instantânea e garantida, coitadinhos, tenho tanta pena deles...
Dirigente desportivo carismático e afável trampolineiro, visionário construtor do Boavista moderno, para o bem e para o mal, Valentim presidiu aos destinos do clube do Bessa durante 19 anos. Oficialmente. Não oficialmente, foram, são, muitos mais. O treinador Manuel José, que orientou os axadrezados durante a primeira metade da década de noventa do século passado, teve talvez a melhor tirada acerca de Valentim Loureiro. Disse um dia o míster, na televisão, resumindo tudo: - Às vezes, aturar o Major é pior do que ir a pé a Fátima...
E decerto era, mas eu nunca fui a Fátima a pé, e na única vez que tentei ir a São Bentinho, sem promessa ou compromisso, desisti parece-me que por alturas das Cerdeirinhas, para grande desgosto do saudoso Agostinho Cachada, que era o nosso guia. Mas Valentim Loureiro, o cromo, faz falta. Faz-me falta. Que isto Portugal está uma tristeza, um desconsolo. Uma perigosa pasmaceira. E o Boavista, afinal, escangalhou-se...

domingo, 1 de fevereiro de 2026

No tempo em que os animais falavam

Foto Gaspar de Jesus

O fim do futebol
Mais dia menos dia, de uma maneira ou de outra, as claques vão conseguir acabar com o futebol. Para mim, já acabaram. Há anos.

Houve um tempo em que os presidentes dos maiores clubes de futebol falavam com os jornalistas e até convidavam os directores dos jornais para jantar. Os jornalistas, todos eram tratados por igual e quem tivesse unhas que tocasse viola. Mas isso foi muito, muito antigamente, no tempo em que os animais falavam e não havia telemóveis. Depois, conta-se que os presidentes dos maiores clubes resolveram dividir os jornalistas em dois grandes grupos: os que levavam recados e os que levavam no focinho - e deixaram de falar aos restantes. Mais tarde, os presidentes dos maiores clubes criaram as suas próprias televisões e passaram a ser "entrevistados" pelos seus próprios assalariados. E agora, quando se dignam descer até ao ecrã das televisões ditas generalistas, falam directamente de casa e exigem tratamento de primeiro-ministro, pelo menos. São outros tempos!
E, entretanto, sobramos cada vez menos daquela mesa...

sábado, 31 de janeiro de 2026

O Senhor Manuel Duarte

Foto Carlos Barroso/Record

De categoria
Ser "de categoria" era ser de altíssima qualidade, excepcionalmente bom, de um nível superior. E havia pessoas assim.

Quero contar-vos duas ou três coisas sobre um fafense excelentíssimo. Manuel Almeida Duarte chegou a Fafe em 1972, andaria pelos seus 27 anos de idade. Era futebolista. Vinha do Varzim para jogar pela nossa AD Fafe, por nós, e era uma lenda. Formara-se na Académica, jogara também no Leixões, no Sporting e no FC Porto, mas a grande aura que o rodeava derivava do facto de ele ter integrado a célebre selecção portuguesa que conquistou o terceiro lugar no Mundial de 1966, em Inglaterra. Ao lado de Eusébio, Coluna, Vicente, Simões, Hilário, Torres, José Augusto e outros colossos. Sim, Manuel Duarte era Magriço.
E era um jogador caro, para as modestas posses da AD Fafe. Apesar de ter vindo do Varzim, Manuel Duarte mantinha vínculo contratual com o FC Porto, que suportava parte do seu ordenado. Quando a ligação aos portistas cessou, o equilíbrio financeiro foi encontrado com um segundo emprego. A grande estrela de futebol começou a trabalhar como "fiel de armazém" na estamparia Marigam, de Moisés Teixeira, que era então o presidente da AD Fafe. E não lhe caíram os parentes na lama.
Posso estar enganado, mas creio que foi assim que as coisas se passaram.
Com o seu invejável currículo debaixo do braço, Manuel Duarte poderia ter sido um indivíduo vaidoso, sobranceiro, inatingível, intratável, um estoura-vergas, um bronco. Mas era exactamente o contrário. Era uma pessoa culta, educada, elegante, recatada, gentil, modesta, um homem de família, marido e pai. Tinha classe. Era um príncipe.
O estilo nervoso do seu futebol contrastava flagrantemente com a pessoa calma que ele fazia questão de ser, ainda que às vezes lhe custasse. E ao juízo da generalidade dos fafenses, digo-o porque a sua memória merece que se diga a verdade, Manuel Duarte era muito mais consensual como pessoa, isto é, como cidadão, do que como jogador de futebol, amiúde incompreendido e mal-amado. Em todo o caso, devo acrescentar que nunca na vida vi em campo alguém mais generoso, mais esforçado, mais disponível, mais entregue ao jogo e à sua equipa do que Manuel Duarte no meu Fafe. Era um profissional de mão cheia, um exemplo para os colegas, novos ou velhos. Tanto que, no tempo em que não havia adjuntos, foi ele o escolhido para começar a dar os treinos, diariamente ao fim da tarde, enquanto o velho mestre Nelo Barros não chegava do seu trabalho nos escritórios da Fábrica do Ferro.
E só agora tomo nota desta curiosa coincidência: a fábrica na vida destes dois grandes homens do futebol. Na Marigam, Manuel Duarte era mais um entre as operárias e os operários, que o adoravam. Era competente e atencioso, respeitador, simples, de humildade e bonomia desarmantes. Sei disto tudo porque um dia ele teve de deixar a fábrica, para ir treinar o Limianos, se não me engano, e eu fui substituí-lo.
Conhecíamo-nos da AD Fafe, onde eu biscatara, e coincidimos na Marigam durante um ou dois meses, não me lembro ao certo, para que o Manel me passasse a pasta. Aprendi tudo com ele e vim a perceber mais tarde que ele me ensinara tudo o que havia para ensinar sobre aquele ofício - e nem sempre se encontra este tipo de abertura e lealdade profissional. Dávamo-nos bem, entendíamo-nos às mil maravilhas, acredito que nos fizemos amigos, o Manel fez-me o mapa dos alçapões, orientou-me sobre o sitio e as pessoas, sobre o trabalho, sobre a vida. Tratávamo-nos por você, como se fôssemos iguais, ele era o Manel mas na minha cabeça eu via-o sempre como o grande senhor que ele era, o Senhor Manuel Duarte.
Vim para o Porto e uma vez encontrámo-nos no cinema, no Estúdio Foco, se bem me lembro, e aproveitámos a ocasião única para pormos a conversa em dia. Depois passaram-se os anos. Vi o Manuel Duarte mais três ou quatro vezes, em Fafe, pela Senhora de Antime. Interessante. Íamos ver passar a Senhora no mesmo sítio, no cruzamento com semáforos da minha velha rua, entre o Paredes e o Zé Manco, eu, contranatura, do lado do Palacete, e o Manel, sempre distinto, sempre Senhor Manuel Duarte, do lado do Santo Velho. O meu lado. Nunca atravessei a estrada para o abraçar, como no meu íntimo desejava. E não me atrevia, por pudor e respeito. Também por medo. Receava que o Manel não me reconhecesse, que já não se lembrasse de mim, o que me seria um enorme desgosto...
Manuel Almeida Duarte nasceu em 1945 na freguesia de Vale de Azares, concelho de Celorico da Beira, e morreu em Fafe, no dia 22 de Setembro de 2022. É um fafense excelentíssimo. Um dos fafenses mais excelentíssimos que tive o privilégio de conhecer. Fafense por direito próprio, excelentíssimo com todo o mérito.