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quinta-feira, 28 de maio de 2026

O homem que sabia de codornizes

Eram quatro e formavam um excelente trio
Eram quatro pessoas em palco: um senhor à viola, uma senhora no clarinete, um senhor ao piano e outro senhor virando-lhe as páginas da partitura. Procurei-lhes os nomes enquanto tocavam Brahms e Mozart com assinalável competência. Os quatro formavam o famoso Trio Tomter, Kam & Ihle Hadland. Isto é: são o senhor Lars Anders Tomter, a senhora Sharon Kam e o senhor Christian Ihle Hadland, por ordem de instrumentos. O mudador de páginas, posto que exímio executante, era provavelmente "o rapaz", como "o moço" das obras que vai ao tasco buscar as minis para os artistas, os pedreiros e trolhas propriamente ditos, e portanto não tem direito a nome...

José Mário Branco (1942-2019) faria agora 84 anos. Quando morreu, teve muitos elogios e, naturalmente, algumas críticas fascistas. Televisões, rádios e jornais tentaram fazer-lhe justiça, dentro do possível. Ouviram-se cantigas, falaram especialistas, arejaram-se memórias. A jornalista Catarina Carvalho contou, no DN, que José Mário Branco lhe dissera uma vez, durante a produção de um disco para uma fadista famosa, que aquilo que ele estava a fazer naquele momento era trabalho de rigor, de filigrana. "É chupar os ossinhos da codorniz", explicava o mestre, numa frase lapidar.
Fiquei contente. José Mário Branco sabia de quase tudo e, tomai lá, até sabia de codornizes. E eu não sei de nada, mas desunho-me satisfatoriamente com as codornizes. Ficámos então com isso em comum, as codornizes e a suprema arte dos esbichadores. A minha platónica relação com José Mário Branco vem de longe, de muito longe, do tempo da minha primeira juventude, ainda em Fafe, de o ouvir a cantar palavras belas e poderosas no rádio da mesinha de cabeceira da nossa mãe, eu arrepiado e comovido, mal sabia que ainda viria a ser amigo de quem andou com ele na estrada, mal sabia que ainda haveria de saber meia dúzia de pequenas histórias com ele dentro e que mais ninguém sabe. Pequenas históricas revolucionárias, musicais e gagas. Eu nunca falei com o Zé Mário e o Zé Mário nunca me conheceu de lado nenhum. A minha amizade com ele, por interposta pessoa e de ouvir dizer, era de admiração e reverência. Sobretudo respeito: silêncio, que se vai ouvir José Mário Branco. Mas a partir daquele momento, quando eu soube das codornizes, a nossa relação passou a ser de camaradas, velhos parceiros da vigairada, acho que tenho esse direito. Que ninguém separe o que a codorniz uniu. E era mais duas bifanas e dois fininhos, se faz favor!

No mesmo DN, naquele dia, escrevia-se sobre "tetos" para os sem-abrigo em Lisboa. Tetos, pois. Registei. Quando forem horas de mamar, chamai-me.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Também acontece aos melhores

Os favoritos
E diz o comentador, no final do jogo do campeonato inglês: "Vitória mais que justa da equipa que não reunia qualquer tipo de favoritismo". Sim, é verdade, ele há favoritismos das mais variadas espécies. Mas quase nunca reúnem.

Abril passava para Maio no ano de 2012. O FC Porto sagrou-se campeão nacional. O grande jornalista Ferreira Fernandes escrevia então no DN. E escreveu. Eu, armado em carapau de corrida, "respondi-lhe" no meu blogue Tarrenego!, metendo-lhe o título acima e a foto de uma caixa de Kompensam-S, medicamento indicado para o alívio dos sintomas de azia, enfartamento e acumulação de gases. O textinho era assim:
"Ferreira Fernandes é um dos mais brilhantes cronistas do jornalismo português. E é o meu preferido. Todos os dias procuro o cantinho que lhe dão no Diário de Notícias e todos os dias me delicio e aprendo alguma coisa com ele. Ferreira Fernandes é informado, é culto, é estiloso, é escorreito, é claro, é corajoso, é honesto, é sensato, é sucinto, é simples, é assertivo. E também é benfiquista.
Ferreira Fernandes escreve de tudo, não por armanço idiota, mas porque verdadeiramente sabe de quase tudo. Escreve, por exemplo, de futebol, sem que lhe caiam as medalhas ao chão, e continua a ser um prazer lê-lo. O Barcelona e o Real Madrid, Messi e Cristiano Ronaldo, Guardiola e Mourinho devem-lhe, se calhar, os mais perfeitos textos que sobre eles foram escritos a nível mundial.
Ferreira Fernandes tornou ao tema do pontapé na bola na edição de ontem do DN, mas inesperadamente com uma cirúrgica preocupação doméstica. Na noite em que Rio Ave e Benfica entregaram ao FC Porto mais um título de campeão que, desta vez, parece que mais ninguém queria, o meu cronista favorito esqueceu-se do facto e resolveu escrever sobre os desarranjos intestinais do futebol português. É. Realmente, ninguém está livre."

Ferreira Fernandes, de quem sinto uma saudade imensa na chamada "imprensa nacional", mas provavelmente ele não, teve a bondade de dar-me troco, com a ironia, a sabedoria e a elegância do costume. Escreveu:
Caro Hernâni Von Doellinger,
leu mal, não quis fugir à vitória do FCP. Mais um campeonato do FCP não é notícia. Não escrevi sobre ela pela razão idêntica à dada por Liz Taylor por não ter ido ao funeral de Richard Burton: "Se eu fosse a todos enterros dos meus ex-maridos não fazia outra coisa."
Abraço, Ferreira Fernandes."

Eu, evidentemente, fiquei num sino por Ferreira Fernandes me ter lido, ainda por cima agraciando-me com um comentário, uma medalha. E rematei, dono da bola, até parecia que estava a adivinhar os festejos extraordinários deste ano:
"Muito obrigado, caro Ferreira Fernandes, pela gentileza da visita e do comentário. Que vou encaixilhar. Mas voltou a descair-lhe o pé na metáfora, meu amigo: os títulos do FC Porto não são funerais. Ou, pelo menos, não são um funeral para toda a gente. São uma festa, não viu?
Abraço,
h."

Isto é. O cronista Ferreira Fernandes, à mão, todos os dias, faz-me falta. Faz-nos falta. O País, se tivesse salvação, deveria reclamá-lo. E eu tinha alguma urgência de dizer isto outra vez.