Eram quatro e formavam um excelente trio
Eram quatro pessoas em palco: um senhor à viola, uma senhora no clarinete, um senhor ao piano e outro senhor virando-lhe as páginas da partitura. Procurei-lhes os nomes enquanto tocavam Brahms e Mozart com assinalável competência. Os quatro formavam o famoso Trio Tomter, Kam & Ihle Hadland. Isto é: são o senhor Lars Anders Tomter, a senhora Sharon Kam e o senhor Christian Ihle Hadland, por ordem de instrumentos. O mudador de páginas, posto que exímio executante, era provavelmente "o rapaz", como "o moço" das obras que vai ao tasco buscar as minis para os artistas, os pedreiros e trolhas propriamente ditos, e portanto não tem direito a nome...
José Mário Branco (1942-2019) faria agora 84 anos. Quando morreu, teve muitos elogios e, naturalmente, algumas críticas fascistas. Televisões, rádios e jornais tentaram fazer-lhe justiça, dentro do possível. Ouviram-se cantigas, falaram especialistas, arejaram-se memórias. A jornalista Catarina Carvalho contou, no DN, que José Mário Branco lhe dissera uma vez, durante a produção de um disco para uma fadista famosa, que aquilo que ele estava a fazer naquele momento era trabalho de rigor, de filigrana. "É chupar os ossinhos da codorniz", explicava o mestre, numa frase lapidar.
Fiquei contente. José Mário Branco sabia de quase tudo e, tomai lá, até sabia de codornizes. E eu não sei de nada, mas desunho-me satisfatoriamente com as codornizes. Ficámos então com isso em comum, as codornizes e a suprema arte dos esbichadores. A minha platónica relação com José Mário Branco vem de longe, de muito longe, do tempo da minha primeira juventude, ainda em Fafe, de o ouvir a cantar palavras belas e poderosas no rádio da mesinha de cabeceira da nossa mãe, eu arrepiado e comovido, mal sabia que ainda viria a ser amigo de quem andou com ele na estrada, mal sabia que ainda haveria de saber meia dúzia de pequenas histórias com ele dentro e que mais ninguém sabe. Pequenas históricas revolucionárias, musicais e gagas. Eu nunca falei com o Zé Mário e o Zé Mário nunca me conheceu de lado nenhum. A minha amizade com ele, por interposta pessoa e de ouvir dizer, era de admiração e reverência. Sobretudo respeito: silêncio, que se vai ouvir José Mário Branco. Mas a partir daquele momento, quando eu soube das codornizes, a nossa relação passou a ser de camaradas, velhos parceiros da vigairada, acho que tenho esse direito. Que ninguém separe o que a codorniz uniu. E era mais duas bifanas e dois fininhos, se faz favor!
No mesmo DN, naquele dia, escrevia-se sobre "tetos" para os sem-abrigo em Lisboa. Tetos, pois. Registei. Quando forem horas de mamar, chamai-me.
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