A primeira "selfie"
Tinha dez anos quando fez a sua primeira "selfie". Gostou. Depois foi à igreja e confessou-se.
No metro do Porto, direcção Senhor de Matosinhos-Fânzeres. Entro na estação Matosinhos Sul e o rapaz também. A carruagem está a rebentar pelas costuras, arranjo lugar sentado porque sou velho e momentaneamente aleijadinho, o rapaz fica de pé, encostado à porta. O rapaz, mais perto dos vinte do que dos quinze, vai ao bolso e saca do telemóvel (deve ter outro nome o aparelho, talvez em inglês, mas para mim é um telemóvel e já digo muito). Saca do telemóvel, dizia, eleva-o na mão direita bem acima da cabeça, aponta-o para a dita e, como se estivesse sozinho a fazer caretas ao espelho da casa de banho, veste de repente um sorriso de plástico que por acaso até lhe fica bastante mal, olha para o telemóvel, dispara, suponho, e volta à cara normal, como se não fosse nada. Reparo que o rapaz, embora só fotografe o rosto, avança um pé em relação ao outro, em manifesta pose de três quartos com vista para o mar. Um lado está resolvido. Agora o outro: o rapaz continua com o telemóvel na mão direita bem acima da cabeça, que revira para a esquerda num lamentável trejeito artístico, trocando de pés, e, novamente como se estivesse sozinho a fazer caretas ao espelho da casa de banho, veste outra vez e de repente um sorriso de plástico que por acaso até lhe fica bastante mal, olha para o telemóvel, dispara, suponho, e volta à cara normal, como se nada fosse. Feito extraordinário, de que tomo nota: o sorriso do rapaz é exactamente o mesmo das duas vezes, o mesmíssimo, decalcado, sem tirar nem pôr, o mesmo sorriso da cara para fora, oco, palermóide, nanométrica réplica mimética um do outro, o mais profundo sorriso de cara de cu à paisana - posso garantir eu, que sei muito de sorrisos à pala do nosso
Zé Carlos Estantio, ui se os telefones antigos dessem para tirar retratos...
Penso então ali, respeitosamente: há que dar valor ao rapaz - para se atingir semelhante grau de perfeição, isto é preciso muito treino, muito ano, muita
selfie.O rapaz saiu no Parque de Real, apenas duas paragens acima, viagem de três minutos. Decerto foi só para aquilo que ele entrou, quer-se dizer, não ia a lado nenhum. Serviço feito, ala para casa, que se faz tarde! Nem tive tempo para lhe dar os parabéns.
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