Maus hálitos
Tinha muitos maus hálitos, ele. O tabaco e o vinho, por exemplo. E também coçava os testículos...
Era assim. Mas há uns meses que o vejo sozinho pelas esquinas, desamparado, perdido, praguejante. A franzina senhora desapareceu de cena. De tão sumária e submissa que me parecia, temo, sinceramente temo, que lhe tenha acontecido o pior: que tenha resolvido morrer devagarinho e sozinha só para não incomodar. Ou então está enterrada num quintal. O bronco continua por aí, agora solitário e sempre bandalho, sem escrava nem saco de pancada pelo braço, enfim obrigado a vergar a mola se quer matar o vício. O Governo criminalizou as piriscas, a ciência inventou os cigarros electrónicos e a covid desbastou cafés e restaurantes, no chão da porta dos quais ele costumava abastecer-se e rir-se das imbecilidades do Governo e da ciência. Risinhos à parte, que o gajo é tolo, a vida corre-lhe de mal a pior. E é o que eu lhe estimo.
O desgraçado continua, portanto, às piriscas, no outro dia sem mais nem menos malcriou com a Mi, que não lhe liga mas tem medo dele, mais cedo ou mais tarde vou ter de conceder-lhe um par de estalos, ao grunho, e já não estou em idade para semelhantes flostrias. O indivíduo continua às piriscas, que fuma acto contínuo, mas, actualizado com os tempos da pandemia, que ainda estão quentinhos, anda de máscara cirúrgica. A máscara padece de evidentes sinais de que foi sacada ao lixo. Mas de máscara, o burgesso. É outra limpeza, outra segurança.
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