sábado, 26 de abril de 2025

Funerais de categoria, fazia-os o Baptista

Susto de morte
Era um defunto que dava gosto: parecia que estava a dormir. E estava. Quando acordou, morreu do susto.

No princípio era a SIF. Depois é que apareceram os altifalantes do Costa e Castro de Travassós. É assim que eu me lembro. A SIF do meu vizinho Zé - o Zé da SIF -, do senhor Vilhena e até do filho do senhor Vilhena. Escrevo de memória, mas creio que estou a dizer bem. Quando não tinha o meu pai, eu entrava no futebol com o Zé da SIF, fazendo de conta que carregava uma corneta que era do meu tamanho, e por isso é que sou um especialista em Campo da Granja e em "amplificações sonoras", com formação em feiras, festas e romarias, missas cantadas e procissões. Desde pequenino.
"Amplificações sonoras" - atentai bem. Fazei como eu: dizei, em voz alta, "amplificações sonoras". Isso. Mais alto. Agora, dizei outra vez, com voz de "continue connosco" e arrastando as sílabas. Não são palavras mágicas? São. Mas não é isso que aqui interessa.
Onde eu quero chegar é ao Baptista de Antime. Às "Amplificações sonoras de João Baptista Gonçalves, de Antime, Fafe, deslocam-se a qualquer localidade, haja ou não haja corrente eléctrica", e que, quando apareceram no mercado, rebentaram logo com a concorrência.
E eu acho que consigo perceber porquê. O Baptista de Antime era um tipo porreiro. Até tinha um tasco - e isso, salvo duvidosas excepções, é o melhor que se pode dizer seja de quem for. Apesar de disputar a rua com o Lando da Rampa, que era realmente vinho de outra pipa, o bom do senhor Baptista manteve o tasco e lançou-se nos altifalantes com um sucesso que só ouvido. Parece que o estou a ver agora, hiperactivo, falador, a ligar fios atrás de fios, cigarro na boca, a barba por fazer e a mão a mandar para trás a melena rebelde do cabelo brilhantinado, sempre magro, sempre de fato, sempre disponível e sorridente. Tenho ideia de que os altifalantes para a Festa da Bomba eram de graça, mas se calhar aqui estou a exagerar.
De tão bom, de tão dado às pessoas e vice-versa, o Baptista de Antime até cometeu a proeza de ganhar a Junta de Freguesia para o Partido Comunista. Antime fica no concelho de Fafe, é preciso que se note. E Fafe, para quem não sabe, fica no Minho, pertence ao distrito de Braga, que era como se fosse o Alentejo mas, politicamente, ao contrário. Estais a ver a façanha?
Um dia, o Baptista de Antime, que já tinha um tasco e alugava "amplificações sonoras" e electricidade em pó aos fins-de-semana, resolveu alargar a sua carteira de negócios ao ramo da funerária. E em boa hora o fez, numa esperta lógica de complementaridade que continuaria a ser dinheiro em caixa. E em caixão. Romarias e funerais, o casamento perfeito, na alegria e na tristeza, venha mais um copo. O homem estava em todas. E a treta das sinergias foi ele que inventou.

Os funerais do Baptista eram muito gabados. O Zé Maria Sapateiro dizia que eram "uma categoria".
O Zé Maria Sapateiro, que sabia muito de funerais, era também de Antime e pai da minha querida tia Laura. Era, portanto, sogro do meu tio e padrinho Américo. Era avô do Zé e da Zulmira - para que os de agora se situem. Em cima de tudo isto, o senhor Zé Maria era uma figura, malandro e esforçado piadista, com o porém do benfiquismo.
Eu gostava muito de ouvir o senhor Zé Maria. E o senhor Zé Maria, quando já morava com os meus tios, gostava de terminar as suas dissertações, à mesa da cozinha da casa do Lombo, com um "Viva o Benfica e mais nada!" que me incomodava um bocadinho. Ainda por cima, conhecendo a cor do meu coração, que era e é só uma - azul e branco -, insistia em reclamar os meus améns, "Não é, Hernâni?", porque, dizia ele, "O Hernâni é que sabe". E eu não sabia.
Uma vez o senhor Zé Maria morreu e eu fui a Fafe ao funeral. Foi um funeral de categoria. Deve ter sido o Baptista. Só pode ter sido o Baptista.

Conheci gente extraordinária em Fafe. E às vezes arrependo-me de ter crescido. Tenho saudades do tempo em que a vida da vila andava ao toque do sino da Igreja Nova e do apito da Fábrica do Ferro. É. A minha terra, infelizmente, já não existe.

sexta-feira, 25 de abril de 2025

Diálogos fafenses 8

Aparições e leitão da Bairrada
O peregrino chegou a Fátima, a mais de mil à hora, seriam talvez umas cinco da manhã, ainda a religião nem tinha aberto. Estacionou chiando pneus e perguntou, desnorteado e ofegante, como se tivesse ido a pé: - Nossa Senhora já apareceu?
- Isso foi ontem. - informou o segurança.
- E hoje?... - insistiu o peregrino.
- Não está previsto. - reportou o segurança.
- Nem um bocadinho?... - tentou o peregrino.
- Nicles batatóides! - confirmou o segurança.
- Vim de tão longe... - lamuriou-se o peregrino.
- Não posso fazer nada... - desculpou-se o segurança.
- Tenho a mulher e os putos no carro... - protestou o peregrino.
- Realmente é uma pena... - condescendeu o segurança.
- Carago!... - protestou o peregrino.
- É a vida... - filosofou o segurança.
O peregrino cabisbaixou finalmente, disse "Prontos!..." como se isso o animasse, mas não animou e ainda por cima dizer "Prontos!..." é uma rematada estupidez, deixou o número de telemóvel ao segurança, desse-se o caso de Nossa Senhora aparecer mais tarde, talvez em horário de expediente, encolheu os ombros, fez meia volta, meteu-se outra vez no carro, resmungou à família e desandou para cima, nas calmas, vidro aberto, braço de fora, Mira de Aire, Alcobaça, Batalha, Nazaré, Figueira da Foz, Coimbra, Buçaco, Luso e Curia até à Mealhada. E ao leitão. O leitão, graças a Deus, aparece sempre.

quinta-feira, 24 de abril de 2025

O Sr. Pimenta, isto é, o Bataman

O homem-tocha
O homem-tocha mudou de residência, mas ficou na zona. Chamam-lhe agora homem-mealhada.

Chegava a altura dos pontos e eu baixava à enfermaria. Academicamente falando, os pontos eram aquilo a que hoje, suponho, ainda se chama testes, e a enfermaria já então era o que é - enfermaria. Atenção: eu dava parte de doente não porque fosse mau aluno, mas porque era muito bom preguiçoso. Para além dos percevejos na cama e do tradicional concurso de punhetas logo pela manhãzinha e a meio da tarde, o melhor que a enfermaria tinha era a sineta a tocar lá fora para os outros, a comida "de dieta" e o enfermeiro propriamente dito, que na verdade era barbeiro. O Sr. Pimenta, se bem me lembro. O Sr. Pimenta era enfermeiro suponho que por usucapião, porque tinha a bata branca de barbeiro, trazia os termómetros no bolso, via as febres, passava raspanetes e dava-nos uns comprimidos de faz de conta que, se não me engano, eram sobras do Laboratório Militar. Os comprimidos serviam para tudo e não faziam nada. As febres eram forjadas na fricção com os cobertores - chamava-se àquilo "manipular a febre" ou apenas "manipular". Para além disso, o Sr. Pimenta dava também muito mal injecções, provavelmente de água destilada. E eu contava anedotas.
Figura mítica, consagrada instituição da velha Tamanca e autoridade local, espécie de regedor interno, o Sr. Pimenta era um homem gordo, de andar pesado e lento, periclitante. A cada passo parecia-me que ia cair redondo para um dos lados, consoante a perna curta que avançava. O Sr. Pimenta tinha idade para ser meu avô, achava eu, e uma barbearia montada como se fosse a sério, no pequeno corredor mesmo em frente à capela e ao lado da sala de aulas que era também a "loja" onde os padres nos vendiam os "objectos", mas cortava tão mal o cabelo como os tosquiadores fardados que mo raparam sem dó nem piedade, uns anos depois, quando dei entrada nos Comandos. O Sr. Pimenta era barbeiro porque tinha a bata branca de enfermeiro.
Quer-se dizer: o Sr. Pimenta era a bata.
E poderia ter sido, quem sabe, o Homem-Bata, isto é, o Bataman, se, derivado aos seus múltiplos poderes e polivalentes predicados, a Marvel lhe tivesse deitado a mão em devido tempo. Infelizmente a Marvel não recruta em Portugal, e é o que perde.
Apesar de ter tudo para ser um super-herói, o Sr. Pimenta era só Sr. Pimenta para mim, porque a minha mãe tinha-me ensinado a tratar os senhores por senhores. Para o resto da rapaziada do seminário, meninos bem ou matarruanos, o Sr. Pimenta era o Pimenta, ordens de cima, nada de confianças. Paradoxalmente. E os outros funcionários ou acoitados, os que nos serviam no refeitório, certamente lerdos mas filhos de Deus como a gente, eram "criados". Criados. Ordens de cima. Já nem falo de educação - a caridade cristã tem definitivamente muito que se lhe diga.

Portanto, chegava a altura dos pontos e eu baixava à enfermaria. Um ano, o padre Vilar, o bom padre Vilar, não quis que eu ficasse sem nota a Religião e Moral. Visitou-me, fez-me duas ou três perguntas que valeriam o ponto, perguntas do mais elementar possível, só para que eu fizesse boa figura. Perguntou-me:
- Quem é Deus para ti?
- Deus é o meu pai - respondi.
- Todos somos filhos de Deus - atalhou o padre.
- Mas eu sou mais, porque sou órfão - defendi-me, com uma não ensaiada porém oportuna lágrima no canto do olho que me valeu para aí um dezoito.
Isto é: sou malabarista desde pequenino.

Na enfermaria havia sempre um bufo que ia contar ao impiedoso padre Coutinho as minhas anedotas, mas omitia a parte da sagrada masturbação, que era regra geral e ideia não sei de quem, minha é que não, parece impossível. E eu também não sabia a malícia das anedotas que levava de Fafe para contar. Fiquei a saber quando fui chamado à pedra por uma orelha - e assim me roubaram a inocência. O padre Coutinho gostava muito de música clássica, e eu tenho a certeza absoluta de que a música clássica, que é tão boa, não gostava nada dele.

domingo, 20 de abril de 2025

sexta-feira, 18 de abril de 2025

Diálogos fafenses 6

Num certo sentido
- Num certo sentido, o caro amigo é um bocado parvo!
- Mas em que sentido, concretamente?
- No sentido Fafe-Guimarães.
- Ao quilómetro 47?
- Nem mais.
- Também já andava desconfiado...

terça-feira, 15 de abril de 2025

Com papas e bolos

Pastelaria graças a Deus
Comeu um cardeal, dois jesuítas e três seminaristas. Bebeu quatro taças de Casal Garcia, persignou-se e deu graças a Deus.

Não sei como dizer isto sem ferir susceptibilidades, mas não há como fugir à agenda: o dia 5 de Fevereiro é, desde 2007, Dia Mundial da Nutella. Também não sei a que é que sabe a nutella e até suponho que não me faz diferença não saber. Na infância tive decerto a minha pequena dose de tulicreme nalgum fortuito episódio de fartura doméstica de que não guardo grande memória, já me explicaram que nutella e tulicreme não são a mesma coisa, antes pelo contrário, mas não estou apetrechado para milimetrar a comparação nem para o debate que o assunto obviamente impõe. Por outro lado: quando a manteiga entrou em nossa casa chamava-se Planta, era bem boa e nós já achávamos que éramos ricos. Naquela altura, uma rulote muito jeitosa estacionava no nosso Santo Velho e umas senhoras muito simpáticas e de bata branca ou avental chique explicavam muito bem explicada a margarina Vaqueiro, que era outra novidade para o povo. As boas senhoras, raparigas todas jeitosas que eu achava que eram da televisão, davam a provar a quem passava, iam a casa fazer demonstrações por medida, e eu achava que a nossa Milinha de cima, a Milinha Vaqueiro, é que tinha mandado vir. Não sei se tinha...
Sei é isto, ai, margarina, se eu te desse a minha vida: ainda há pouco, na Póvoa de Varzim, icónica Rua da Junqueira, uma excelentíssima bola de Berlim com creme normal custava um euro, um euro certo, e a merda de uma bola tipo Berlim com nutella custava um euro mais vinte cêntimos. Como costumo fazer amiúde, um destes dias torno a meter-me no metro e vou lá, de propósito, ver em que param as modas, é só fazer as contas à inflação, e se as bolas com nutella forem este ano mais baratas, ou até dadas, compro na mesma das de creme normal, isto é, bolas de Berlim. 

sábado, 12 de abril de 2025

O poeta Augusto Fera

Escritor e tudo
É um autor impaciente e impulsivo. Publicou o seu primeiro livro sem sequer o ter escrito, e a obra revelou-se o sucesso que se vê: vai na décima sétima edição e já ganhou quatro prémios literários - um, internacional. E continua a surpreender o mercado, à média de três novos livros por ano. Para além disso, é também pintor, "performer", crítico de cinema, prefaciador, antiquário, amigo n.º 1 de Manuel António Pina, forcado amador, talhador de trasorelhos, apresentador de variedades e prepara-se para lançar o seu segundo disco de originais.

O poeta Augusto Fera morreu no dia 27 de Novembro de 2012. Durante meio século espalhou a sua poesia pela imprensa local, fartou-se de ganhar prémios e em 2011 publicou o seu primeiro e único livro - "Cruz de Chumbo e Outros Poemas" -, num acto de justiça em boa hora praticado por José Mário Silva, então presidente da Junta de Freguesia de Fafe, que editou a obra.
Confesso: não me revejo na estética da poesia de Fera, demasiado (diria) maneirista para o meu gosto, mas admirava-lhe o contínuo labor na procura das palavras, a intenção de chegar aos clássicos, o esforço, a ingenuidade às vezes, a seriedade na escrita e a honestidade na mensagem. Convenhamos, no entanto, que a minha opinião literária é aqui absolutamente irrelevante, até porque incompetente.
Conheci muito bem Augusto Fera. O homem sábio, simples e humilde. No meu tempo de miúdo e de Santo Velho, maravilhava-me a vê-lo dobrar a esquina do Palacete, em direcção a casa, na Ponte do Ranha, quando ele vinha do trabalho, na Fábrica do Ferro. Sabia sempre onde e a quantas andava. Como é que ele, cego, conseguia? Como é que ele percebia que a esquina estava exactamente ali? Aquilo sempre me intrigou. Diziam-me que ele contava os passos, que via as horas com os dedos. Para mim, não: aquele homem era mágico, tinha poderes. Pois se até fazia versos...

O poeta fafense Augusto Fera morreu, e a Biblioteca Municipal de Fafe não lhe dedicou então uma única linha. No dia da morte do nosso poeta, lembro-me bem, o blogue da Biblioteca Municipal de Fafe destacou o Prémio Portugal Telecom de Valter Hugo Mãe. Também está certo...
Augusto Fera não fazia parte dessa plêiade de convencidos da vida que amiúde afunila e esgota a "cultura" fafense em genialidades de trazer por casa. Augusto Fera era a sério e era povo, corria por fora. Percebo, por isso, o intelectual silêncio à volta da morte do poeta. Um silêncio quebrado, numa honrosa e justificada excepção, pelo blogue Sala de Visitas do Minho, de Artur Coimbra.
Não. O poeta Augusto Fera não era cego. O poeta, não! Outros serão.

quinta-feira, 10 de abril de 2025

A reinvenção das galochas

Quem vê caras
Quem vê caras também vê lux. E nova gente, vip, ana, maria, mariana e cristina, telenovelas, tv7dias, tv mais, tv guia e ¡hola, "por supuesto".

As mulheres do campo, as lavradeiras, sempre andaram de galochas. Era assim em Fafe, era assim o mundo. Antigamente, para os demais, uma mulher de galochas era de rir, era parola. Agora andar de galochas é moda, as mulheres vão de galochas para o escritório e para o café. Fico à espera do avental. Ainda hei-de ver as madamas a tomarem chá de mindinho esticado e com um molho de couves à cabeça.