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sexta-feira, 12 de junho de 2026

A minha rua era um largo

Foto Hernâni Von Doellinger

Memória
Ele era um notável decorador de interiores. Para exteriores é que já não tinha muita cabeça.

A minha rua era um largo. Santo Velho, como lhe chamavam os antigos, ou apenas Santo, o Santo, como lhe chamávamos nós os íntimos, os da rua propriamente ditos, ali nados e criados, os que já sabíamos do britânico Roger Moore, que fazia de Simon Templar na televisão do Peludo, a preto e branco, isto antes de atravessar a rua e fazer de 007 no nosso Teatro-Cinema, já a cores. Evidentemente que, para os devidos e legais efeitos, a minha rua tinha nome de data: Largo 9 de Abril, curiosamente à moda do Porto, onde 9 de Abril costuma dizer-se Arca d'Água. Eu, que até sabia da Batalha de La Lys, nunca consegui perceber o que é que a guerra de catorze a dezoito tinha a ver tão especialmente com a minha rua, e pelos vistos os doutores da Câmara também não, uma vez que de repente, não sei precisar quando, resolveram mudar-lhe o nome para Rua dos Bombeiros Voluntários. E fará um pouco mais de sentido chamar-lhe assim, embora não tenha sido por isso: na minha rua havia realmente bombeiros em quase todas as portas, e nalgumas casas eram a família inteira.

O Santo Velho era Velho por causa do Santo Novo, uns campos de milho ao lado, onde se estabeleciam o Colégio dos ricos e a Escola Industrial dos remediados, que é hoje a Casa da Cultura. Os pobres, que aguentavam a pirâmide, iam trabalhar para a Fábrica se tivessem sorte. Em Fafe, a Fábrica assim com maiúscula, fábrica por antonomásia, era a Fábrica do Ferro, que por acaso era de fiação e tecidos.

A minha rua era um terreiro onde jogávamos ao espeto, ao pião e à bola, o que, neste último caso, arreliava sobremaneira a Milinha Parola, que ameaçava estraçalhar-nos o esférico à tesourada, bastava que lhe fizéssemos alguma tangente aos vidros sempre limpos. A Milinha era Parola (ou Modista, como eu gostava mais) para se distinguir da Milinha Vaqueiro, quatro números acima. As Milinhas não se davam e a minha mãe é que intermediava. Porque o Santo, ou não se chamasse assim, era sobretudo um território de paz, de famílias, de família. Os miúdos éramos todos uma irmandade, os pais e principalmente as mães às vezes é que não, mas muito raramente. Na minha rua éramos vizinhos. Éramos comunidade.

A minha rua era um largo com vista para o mundo. O mundo era então cientificamente plano, a descair para o Picotalho e para a Granja e delimitado em cima pelos tascos do Paredes e do Zé Manco, com as Grilas de um lado e as Turicas do outro, e em baixo pela Quelha, pela Poça e pela casa brasonada com capela do Senhor Doutor, onde o Senhor Abade ia dizer missa com esmolas. Pela Páscoa, era na Casa do Santo Velho que se reuniam todas as cruzes no fim tardeiro do compasso, seguindo depois para a Igreja Nova, em galhofeira procissão de sinetas exaustas e descompassadas, nas últimas. Tínhamos o poeta Zé de Castro, duas tílias e um cilindro. Tínhamos velhotas excêntricas. Tínhamos bebedolas residentes e bêbados de visita. Tínhamos casas de lavradores, esfolhadas nocturnas e matança do porco. O Santo cheirava a eido, a estrume, a engaço, a vinho purinho e a pão. A minha rua cheirava a vida. Tínhamos o Maló cantando Frei Hermano da Câmara na esquina do velho Lermas, tínhamos o ceguinho das quartas-feiras e a Mocha e a Senhora Filomena com sardinhas, fanecas e chucharros, indesmentíveis chucharros.
Tínhamos as castanhas assadas da Maria Barraca e os tremoços na Marrequinha da Recta. Tínhamos o funileiro Barnabé que era músico mas não tocava tangos, um sapateiro, um carpinteiro que foi para França, duas ou três loucas mansas e o Professor Luís, que, esse sim, tocava na guitarra eléctrica o "Apache" dos Shadows muito melhor do que os próprios, e no entanto já era careca o bom Professor, o que me confundia um bocadinho. Eu plantava-me no meio da rua a ouvi-lo, deliciado. Eu era a terceira tília, cresciam-me raízes nos pés. Tínhamos carros de bois gemendo pelas manhãs e rebanhos de cabritos nas vésperas da Senhora de Antime e da morte. Tínhamos o Chiquinho Varandas, que uma ocasião andou à luta com o macaco do Homem Mais Forte do Mundo. Tínhamos padeira, azeiteiro e mendigos ao domicílio. Os mendigos chamavam-se pobrezinhos. Tínhamos tojo estalando ao sol no passeio. Corríamos à coiada os moços das outras ruas, queimávamos o Pai das Orelheiras pelo Entrudo, cantávamos as Janeiras e os Reis, celebrávamos o Dia dos Enganos, desajudávamos nas vindimas do Sr. José e do Sr. António e nas lavras do Tónio Quim Calçada, os três bombeiros e mestres de vida, íamos de borla ao cinema, que era praticamente nas traseiras da rua, festejávamos o Santo António de Lisboa e de Pádua, vede lá o cosmopolitismo, encostando a cascata ao cilindro abandonado, se calhar por empreiteiro falido, do lado de lá das casas do Sr. Agostinho Cachada e do Sr. José Sacristão, gente também de primeira e bombeiros obviamente. A procissão da Senhora passava-nos à porta e tocava a sirene da Bomba. O nosso Santo António era de arromba. Botávamos altifalantes a sério, "Tango dos Barbudos", "Fado das Trincheiras", o "Je T'Aime Moi Non Plus", que me incomodava o andar e eu ainda não sabia porquê. Fogueteávamos a bom foguetear: eram foguetes de três-croas, foguetes envergonhados, quase peidos, se me dais licença, géu, géu, trás, trás, adeus e até ao próximo. E tínhamos girândolas e diabos-encaixados. Tudo comprado no Rates, que era mais ou menos no local onde esteve escondido o monumento à Justiça de Fafe, anos a fio, e que agora é uma praça como muito uso e sítio de peregrinação. Quase tudo comprado no Rates, devo corrigir-me, em abono da verdade. O Rates era o proprietário mas também o sítio, lojinha de uma porta só, minúscula, escura, esconsa, tipo vão de escada, e nós íamos em bando para nos aproveitarmos das distracções do homem, a antipatia enfiada numa larga bata de sarja cinzenta e com manguitos negros, e metíamos ao bolso tudo o que lá coubesse. Levávamos muitos bolsos e o mais certo é que o Senhor Rates até fosse boa pessoa.

Estávamos portanto no Santo Velho, quando a minha rua era um largo de terra e tílias e nem desconfiava que um dia havia de ser uma estrada com dois cruzamentos, semáforos e tudo. Hoje a nossa cascata seria multada por estacionamento proibido. E nós morremos ignorantes e breves, desmemoriados pedra a pedra.

quarta-feira, 23 de julho de 2025

A Milinha Modista

Em zona de construção
Perder a bola em zona de construção é uma chatice. São os taipais, os andaimes, a maquinaria, os buracos, a lama, ferros mais ou menos retorcidos, a obrigatoriedade de uso de capacete, colete de sinalização e botas de biqueira de aço, e ainda por cima é "proibida a entrada a pessoas estranhas ao serviço". Mais vale dizer adeus à bola...

A Milinha Modista era uma instituição no Santo Velho. Chamava-se Milinha Modista, Milinha Costureira ou Milinha Parola, e esta parte do Parola eu nunca percebi porquê, não sei de onde veio, porque a Milinha vestia elegantemente e era uma senhora cheia de classe, sobretudo se não abrisse a boca. Esta Milinha chamava-se estes nomes todos para se distinguir da outra Milinha da nossa rua, a Milinha Vaqueiro, que eu suspeitava, com fundamentadas razões, que fosse dona de uma empresa de margarinas, entre outros negócios mais ou menos secretos. Ela e o Sr. Manuel, o marido, de quem se dizia que era o sapateiro de Salazar e que realmente saía muito, de comboio, com um embrulho debaixo do braço, e voltava uns dias depois carregado de coisas, e sempre se me afigurou um homem misterioso, gentil e triste.

Durante muitos anos eu confundi Agatha Christie com Miss Marple. Quero dizer, a cara de Agatha Christie era, para mim, a cara da veterana actriz inglesa Margaret Rutherford, e só já em adulto é que desfiz o equívoco, perante o verdadeiro retrato da famosa autora de romances policiais, porventura descoberto na badana de um livro. Mais curioso ainda é que, em Fafe, na minha infância, eu mantinha sob apertada vigilância meia dúzia de velhas senhoras que eram Miss Marple de certeza absoluta, por mais que tentassem disfarçar. Senhoras antigas, amiúde intrometidas, vestindo com quase cinquenta anos de atraso, senhoras assim como a minha Milinha Vaqueiro ou como as manas Grilas em dias de maior asseio. Fafe era uma fartura, havia de tudo. Fafe era o mundo inteiro, e essa foi a minha sorte.

A Milinha Modista morava por baixo do Chico Varandas, o herói da nossa rua, o vizinho que uma vez, pelas Festas da Vila, desafiou para a pancada o macaco do Homem Mais Forte do Mundo em pessoa. O prédio do Chiquinho era mesmo encostado à nossa casinha amarela, do lado direito de quem olha para fora. No lado esquerdo era a Milinha Vaqueiro. Os três quintais também eram contíguos e aos olhos uns dos outros. As Milinhas não se davam e a minha mãe é que intermediava.
A Milinha era uma excelente costureira, renomada, muito procurada e disputada pelas mais finas damas da melhor sociedade fafense, que, com excepção da Nicinha, tinham de mandar recado, marcar vez e ir para a fila. A Nicinha, mãe do ilustre Eugénio Marinho, era uma jóia de pessoa e como se fosse família da Milinha.
A Milinha era mestra. E tinha aprendizas. Isto é, aceitava aprendizas, e também era imensa a lista de candidatas e pedidos metidos pelos pais, com recomendações, empenhos, peitas e tudo, mas só três ou quatro, à vez, seriam as infelizes contempladas. Infelizes, de facto. Não eram empregadas nem recebiam salário, pelo contrário, eram crianças e aprendizas para todo o serviço, mulheres a dias, cozinha incluída. E eram também senhoras da limpeza, à força de vassoura, esfregão e espanador, com especial cuidado ao pó sobre os grossos figurinos marcados com nomes, medidas, datas e amostras de tecidos, autênticos calhamaços da penúltima moda criteriosamente dispostos em cima da mesa da sala de entrada. A Milinha era uma mestra enciclopedista, exigente e severa com as suas pupilas.
Na sala de costura, as aprendizas aprendiam sentadas em banquinhos ou cadeirinhas de madeira e infantário, trabalhando em cima de uma tábua ou prancha tenteada em cima dos joelhos, uma tábua ou prancha digamos, hoje em dia, ergonómica, com recorte em meia-lua para a reentrância da barriga, e que decerto até teria nome técnico mas eu não sei qual. Na cozinha, as aprendizas cozinhavam todos os dias na máquina a petróleo e faziam pelo menos uma vez por semana fanecas fritas com batatas fritas, um oxímoro culinário, a bem dizer, cozinhavam mas não comiam, e sei disto tudo porque era visita regular talvez para recados e porque a minha irmã Nanda também por lá andou, coitadinha, antes de ir para a Fábrica do Ferro, que, por estranho que possa parecer, foi a sua salvação.
A Milinha era "dos do Santo", irmã do Sr. José e do Sr. António, lavradores filósofos e meus mestres de vida, e tia do David Alves. Tinha um feitio desgraçado, a mulher. Mal ouvia uma bola a pinchar da rua, saía como um raio de tesoura de costura em riste, a tesoura maior, de corte, e com metros e metros de caralhadas na ponta da língua, ameaçando estraçalhar o esférico à menor tangente, à mínima corrente de ar que sentisse ou adivinhasse junto aos seus vidros, pelos quais nutria uma estima que efectivamente só vista. Se por acaso me descortinava lá no meio da moçarada e do jogo, eu a tentar esconder-me, a Milinha ficava um tudo-nada constrangida, notava-se, mas o que estava dito, estava dito, virava costas e ia para dentro, não sem antes nos lançar um derradeiro e definitivo - Fodei-vos!...

A Milinha adorava-me e eu gostava muito dela. Convidei-a e ela compareceu ao meu casamento, no Porto. Quando, nos anos seguintes, a minha mulher e eu íamos a Fafe, e íamos frequentemente, não tornávamos a casa sem antes passarmos pelo Santo e visitarmos a Milinha, que nos recebia cheia de orgulho e com uma alegria imensa, sentando-nos à volta da velha mesa dos antigos figurinos. A alegria era recíproca, nós também tínhamos muito gosto em estar com a Milinha. Uma vez, nesses reencontros, estive para lhe explicar que fanecas fritas com batatas fritas não é coisa que se faça, mas contive-me e preferi falar do tempo, que estava um rico dia. Fiz bem. Às tantas, ainda era corrido à vassourada...

terça-feira, 15 de abril de 2025

Com papas e bolos

Pastelaria graças a Deus
Comeu um cardeal, dois jesuítas e três seminaristas. Bebeu quatro taças de Casal Garcia, persignou-se e deu graças a Deus.

Não sei como dizer isto sem ferir susceptibilidades, mas não há como fugir à agenda: o dia 5 de Fevereiro é, desde 2007, Dia Mundial da Nutella. Também não sei a que é que sabe a nutella e até suponho que não me faz diferença não saber. Na infância tive decerto a minha pequena dose de tulicreme nalgum fortuito episódio de fartura doméstica de que não guardo grande memória, já me explicaram que nutella e tulicreme não são a mesma coisa, antes pelo contrário, mas não estou apetrechado para milimetrar a comparação nem para o debate que o assunto obviamente impõe. Por outro lado: quando a manteiga entrou em nossa casa chamava-se Planta, era bem boa e nós já achávamos que éramos ricos. Naquela altura, uma rulote muito jeitosa estacionava no nosso Santo Velho e umas senhoras muito simpáticas e de bata branca ou avental chique explicavam muito bem explicada a margarina Vaqueiro, que era outra novidade para o povo. As boas senhoras, raparigas todas jeitosas que eu achava que eram da televisão, davam a provar a quem passava, iam a casa fazer demonstrações por medida, e eu achava que a nossa Milinha de cima, a Milinha Vaqueiro, é que tinha mandado vir. Não sei se tinha...
Sei é isto, ai, margarina, se eu te desse a minha vida: ainda há pouco, na Póvoa de Varzim, icónica Rua da Junqueira, uma excelentíssima bola de Berlim com creme normal custava um euro, um euro certo, e a merda de uma bola tipo Berlim com nutella custava um euro mais vinte cêntimos. Como costumo fazer amiúde, um destes dias torno a meter-me no metro e vou lá, de propósito, ver em que param as modas, é só fazer as contas à inflação, e se as bolas com nutella forem este ano mais baratas, ou até dadas, compro na mesma das de creme normal, isto é, bolas de Berlim.