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sábado, 27 de junho de 2026

Trazei-me cá o martelo, caralho!

O festeiro
Ele fazia muitas festas. Mas nunca pedia licença. Está na lista do #MeToo.

Pardelhas, Fafe. Festa de São Pedro, na véspera. A Internet ainda estava no cu dos americanos, parece impossível mas não havia Facebook nem Twitter e muito menos X, o telemóvel chamava-se telefone, trabalhava às vezes a manivela e só se deslocava da mesinha de cabeceira para a cama, se o fio deixasse, e o e-mail chamava-se telegrama. A comunicação era boca a boca, como a respiração, as conversas seguiam de bicicleta e as mais prementes voavam de motorizada, as redes sociais iam num pé e vinham noutro. Mandavam-se recados, levavam-se "repostas" - assim se dizia na minha terra, e eu gostava. Era ainda a idade das trevas, pelo menos até ao nascer do sol, geralmente por volta das seis da manhã naquele altinho fafense e naquela parte do ano.
Mas havia altifalantes, e urgências são urgências. A meio do "Carrapito da Dona Aurora", que estava a correr tão bem, alguém da comissão corta o pio aos do Conjunto António Mafra, quer-se dizer, ao disco, provocando uma sonora rascanhadela, sopra asmaticamente no velho microfone Philips, "um, dois, um, dois, experiência", e, desassossegando a aldeia inteira, grita na maior das aflições:
- Atenção, muita atenção! Ó Silva, trazei-me cá o martelo, caralho!...

sexta-feira, 12 de junho de 2026

A minha rua era um largo

Foto Hernâni Von Doellinger

Memória
Ele era um notável decorador de interiores. Para exteriores é que já não tinha muita cabeça.

A minha rua era um largo. Santo Velho, como lhe chamavam os antigos, ou apenas Santo, o Santo, como lhe chamávamos nós os íntimos, os da rua propriamente ditos, ali nados e criados, os que já sabíamos do britânico Roger Moore, que fazia de Simon Templar na televisão do Peludo, a preto e branco, isto antes de atravessar a rua e fazer de 007 no nosso Teatro-Cinema, já a cores. Evidentemente que, para os devidos e legais efeitos, a minha rua tinha nome de data: Largo 9 de Abril, curiosamente à moda do Porto, onde 9 de Abril costuma dizer-se Arca d'Água. Eu, que até sabia da Batalha de La Lys, nunca consegui perceber o que é que a guerra de catorze a dezoito tinha a ver tão especialmente com a minha rua, e pelos vistos os doutores da Câmara também não, uma vez que de repente, não sei precisar quando, resolveram mudar-lhe o nome para Rua dos Bombeiros Voluntários. E fará um pouco mais de sentido chamar-lhe assim, embora não tenha sido por isso: na minha rua havia realmente bombeiros em quase todas as portas, e nalgumas casas eram a família inteira.

O Santo Velho era Velho por causa do Santo Novo, uns campos de milho ao lado, onde se estabeleciam o Colégio dos ricos e a Escola Industrial dos remediados, que é hoje a Casa da Cultura. Os pobres, que aguentavam a pirâmide, iam trabalhar para a Fábrica se tivessem sorte. Em Fafe, a Fábrica assim com maiúscula, fábrica por antonomásia, era a Fábrica do Ferro, que por acaso era de fiação e tecidos.

A minha rua era um terreiro onde jogávamos ao espeto, ao pião e à bola, o que, neste último caso, arreliava sobremaneira a Milinha Parola, que ameaçava estraçalhar-nos o esférico à tesourada, bastava que lhe fizéssemos alguma tangente aos vidros sempre limpos. A Milinha era Parola (ou Modista, como eu gostava mais) para se distinguir da Milinha Vaqueiro, quatro números acima. As Milinhas não se davam e a minha mãe é que intermediava. Porque o Santo, ou não se chamasse assim, era sobretudo um território de paz, de famílias, de família. Os miúdos éramos todos uma irmandade, os pais e principalmente as mães às vezes é que não, mas muito raramente. Na minha rua éramos vizinhos. Éramos comunidade.

A minha rua era um largo com vista para o mundo. O mundo era então cientificamente plano, a descair para o Picotalho e para a Granja e delimitado em cima pelos tascos do Paredes e do Zé Manco, com as Grilas de um lado e as Turicas do outro, e em baixo pela Quelha, pela Poça e pela casa brasonada com capela do Senhor Doutor, onde o Senhor Abade ia dizer missa com esmolas. Pela Páscoa, era na Casa do Santo Velho que se reuniam todas as cruzes no fim tardeiro do compasso, seguindo depois para a Igreja Nova, em galhofeira procissão de sinetas exaustas e descompassadas, nas últimas. Tínhamos o poeta Zé de Castro, duas tílias e um cilindro. Tínhamos velhotas excêntricas. Tínhamos bebedolas residentes e bêbados de visita. Tínhamos casas de lavradores, esfolhadas nocturnas e matança do porco. O Santo cheirava a eido, a estrume, a engaço, a vinho purinho e a pão. A minha rua cheirava a vida. Tínhamos o Maló cantando Frei Hermano da Câmara na esquina do velho Lermas, tínhamos o ceguinho das quartas-feiras e a Mocha e a Senhora Filomena com sardinhas, fanecas e chucharros, indesmentíveis chucharros.
Tínhamos as castanhas assadas da Maria Barraca e os tremoços na Marrequinha da Recta. Tínhamos o funileiro Barnabé que era músico mas não tocava tangos, um sapateiro, um carpinteiro que foi para França, duas ou três loucas mansas e o Professor Luís, que, esse sim, tocava na guitarra eléctrica o "Apache" dos Shadows muito melhor do que os próprios, e no entanto já era careca o bom Professor, o que me confundia um bocadinho. Eu plantava-me no meio da rua a ouvi-lo, deliciado. Eu era a terceira tília, cresciam-me raízes nos pés. Tínhamos carros de bois gemendo pelas manhãs e rebanhos de cabritos nas vésperas da Senhora de Antime e da morte. Tínhamos o Chiquinho Varandas, que uma ocasião andou à luta com o macaco do Homem Mais Forte do Mundo. Tínhamos padeira, azeiteiro e mendigos ao domicílio. Os mendigos chamavam-se pobrezinhos. Tínhamos tojo estalando ao sol no passeio. Corríamos à coiada os moços das outras ruas, queimávamos o Pai das Orelheiras pelo Entrudo, cantávamos as Janeiras e os Reis, celebrávamos o Dia dos Enganos, desajudávamos nas vindimas do Sr. José e do Sr. António e nas lavras do Tónio Quim Calçada, os três bombeiros e mestres de vida, íamos de borla ao cinema, que era praticamente nas traseiras da rua, festejávamos o Santo António de Lisboa e de Pádua, vede lá o cosmopolitismo, encostando a cascata ao cilindro abandonado, se calhar por empreiteiro falido, do lado de lá das casas do Sr. Agostinho Cachada e do Sr. José Sacristão, gente também de primeira e bombeiros obviamente. A procissão da Senhora passava-nos à porta e tocava a sirene da Bomba. O nosso Santo António era de arromba. Botávamos altifalantes a sério, "Tango dos Barbudos", "Fado das Trincheiras", o "Je T'Aime Moi Non Plus", que me incomodava o andar e eu ainda não sabia porquê. Fogueteávamos a bom foguetear: eram foguetes de três-croas, foguetes envergonhados, quase peidos, se me dais licença, géu, géu, trás, trás, adeus e até ao próximo. E tínhamos girândolas e diabos-encaixados. Tudo comprado no Rates, que era mais ou menos no local onde esteve escondido o monumento à Justiça de Fafe, anos a fio, e que agora é uma praça como muito uso e sítio de peregrinação. Quase tudo comprado no Rates, devo corrigir-me, em abono da verdade. O Rates era o proprietário mas também o sítio, lojinha de uma porta só, minúscula, escura, esconsa, tipo vão de escada, e nós íamos em bando para nos aproveitarmos das distracções do homem, a antipatia enfiada numa larga bata de sarja cinzenta e com manguitos negros, e metíamos ao bolso tudo o que lá coubesse. Levávamos muitos bolsos e o mais certo é que o Senhor Rates até fosse boa pessoa.

Estávamos portanto no Santo Velho, quando a minha rua era um largo de terra e tílias e nem desconfiava que um dia havia de ser uma estrada com dois cruzamentos, semáforos e tudo. Hoje a nossa cascata seria multada por estacionamento proibido. E nós morremos ignorantes e breves, desmemoriados pedra a pedra.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Todos à sacristia!

Os santos impopulares
O dia 12 de Junho é de Santo Onofre, considerado, por exclusão de partes, um dos mais de vinte mil santos impopulares da Igreja Católica. Por tradição, na noite de Santo Onofre desfilam as marchas em Lisboa e comem-se sardinhas assadas, mas isso é já derivado ao santo do dia seguinte, o nosso Santo António, um dos três únicos santos da corda - Santo António, São João e São Pedro, os santos populares, virais, com milhões de seguidores e, há quem acredite, algumas visualizações.

Fafe das aldeias, no tempo das romarias. Do alto do campanário, os altifalantes falaram como se fossem Deus. Estavam zangados e só lhes faltava a sarça ardente: "Atenção, muita atenção! No final da procissão há reunião da comissão deste ano para ver se se arranja comissão para o ano. Todos à sacristia! Se não se arranjar comissão, para o ano não há procissão". E mais nada.
Eu ainda não tinha sido apresentado à palavra pragmatismo. Quando, bastante mais tarde, tomei conhecimento, percebi logo que pragmatismo era aquilo da comissão e da procissão.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Os pegantes ao andor

Os santos populares, o início
Fez-se um concurso na televisão. Uma espécie de concurso do vestido de chita para santos, organizado e transmitido pela CMTV, com apresentação da astróloga Maya. Ganhou São Sebastião. Mas na votação do público, isto é, de Portugal, os mais populares foram Santo António, São João e São Pedro, "ex aequo", porque a coisa tinha de meter latim senão não valia. E foi assim que começou a tradição.

- Atenção, muita atenção! Pede-se a comparação dos pegantes ao andor da Senhora do Alípio junto ao clipe onde estão os antifalantes.
Aos anos que isto vai, ali para os lados de Amares, ainda as romarias não eram abrilhantadas com Fernando Rocha e rulotes de fast-food, mas por lá andaria a nossa Banda de Revelhe. E que saudades que eu tenho desse tempo visionário e vanguardeiro em que o acordo ortofónico não havia sido inventado mas já era galhardamente roufenhado por altifalantes elevados às mais eucaliptais cruchas, para que a coisa cá em baixo não passasse despercebida lá em cima a Deus Nosso Senhor, que é praticamente tão brasileiro como português.
Decerto que a procissão saiu e o andor da Senhora do Alívio também. Já não sei como é que correu a "comparação". Nem me lembro em que estado terá chegado ao "clipe" o grupo de "pegantes" retardatários. Mas devia ser líquido.

domingo, 19 de abril de 2026

A Festa da Bomba

A sarça ardente (ou Chamem os bombeiros!)
Quando Moisés disse, todo vaidoso, "A minha vida dava um filme", Deus ficou bastante chateado, pegou lume ao monte e proclamou: - Agora apaga-o, que o Noé gastou-me a água toda.

Quando eu era pequeno, Fafe tinha três grandes festas e eram as maiores festas do mundo: a Senhora de Antime, a Festa da Bomba e a cascata do Santo António na minha rua. Quanto à enormeza da Senhora de Antime, sobretudo da sua incomparável e pungente procissão, suponho que estamos conversados. O nosso Santo António era também uma coisa constada, pelo menos para nós, e é preciso não esquecer que até tínhamos foguetes e altifalantes, que o Zé da SIF arranjava, e metíamos raivinha às outras ruas todas, incluindo avenidas, rampas, quelhas e largos como o nosso. O Zé da SIF é irmão do Armando Perrinha, e eles mais o Zé Maria, que foi comando no Ultramar, a Dina e a Luísa são filhos do Agostinho Cachada e da Senhora Laura, família quase minha, vizinhos do coração e gente do melhor que pode haver. Mas as festas. Falta esmiuçar a festa de anos dos Bombeiros Voluntários de Fafe - a Festa da Bomba, que se celebra regularmente por alturas de 19 de Abril -, e vamos a isso.

A Festa da Bomba, um bocadinho acima e dois meses antes do nosso Santo António, era de arrebenta. Só de altifalantes - sempre os altifalantes! - eram dois dias, quase três, e coisa profissional, a encher de som fanhoso o ar da vila e arredores: "Amplificações sonoras de João Baptista Gonçalves, de Antime, Fafe, deslocam-se a qualquer localidade, haja ou não haja corrente eléctrica", levando atrás a discografia completa do António Mafra e da Maria Albertina, com o Tom Jones e o alemão Freddy Breck a emprestarem um toque de classe aos "trabalhos". E no domingo era povo que só visto. Havia bailarico no terraço do quartel e na parada, que era nas traseiras, havia discos pedidos - "E o disco que se segue é dedicado à menina de camisola vermelha que está encostada à parede na varanda do segundo andar, por um seu admirador", e saía "O Carrapito da Dona Aurora" -, havia os tremoços da minha avó e o verde tinto do meu avô, que era quarteleiro mas não era tolo, havia capacetinhos de folheta dourada e alfinete torcido para enfiar nas lapelas dos generosos pobretes mas alegretes que davam "qualquer coisinha para a ajuda". (Se calhar foram os primeiros pins de que há memória. Os lacinhos furta-cores e os autocolantes de mão estendida ainda não tinham sido inventados.) Arranjaram-se ali namoros, casamentos. Era uma festa popular, sim. Mas a minha Festa da Bomba, a parte que me dizia particularmente respeito, era a festa dos bombeiros.
Começava uns dias mais cedo, a distribuir pelas montras o programa do aniversário e a puxar pelo corpo para pôr os carros e o quartel como brincos, que naquele tempo eram só para mulheres e piratas. Depois ia na "Carrinha", uma velha Austin da II Grande Guerra, ajudar a recolher garrafões de vinho oferecidos pelos ricos da terra e amigos da Bomba: os Summavielles, o Zé de Freitas, o João do Sal, o Senhor Fernandes do Retiro (não por acaso, um quase eterno presidente da associação), que são os que me recordo.
O meu ponto alto, porém, era o içar das bandeiras, a toque de caixa e ao som da fanfarra, logo pela manhãzinha do dia grande. Eu fazia questão, tomava conta da bandeira dos Bombeiros, bela, azul e branca, passada a ferro pela minha querida tia Laura, feita num linho que dava gosto tocar, com a águia que afinal era a fénix renascida, as chamas e os machados no meio. Içava-a a compasso, orgulhoso, solene, tremente e, confesso, a chorar por mim abaixo como um madaleno arrependido nunca soube de quê.
Tinha mais que fazer no quartel, mas ia ao Largo ver o desfile engrossado pelas corporações convidadas e amigas. Caíam-me os olhos para os carros, todos mais modernos do que os nossos, mas isso não chegava para me desmoralizar. Eu sabia que os bombeiros de Fafe eram muito melhores do que os outros, nem que tivessem de ir a pé para o fogo. E às vezes iam.
Lembro-me sobretudo dos amigos de Vizela, que eram mais do que amigos, eram irmãos (futebol à parte), e, depois da obrigação feita, decilitravam com quase tanto gabarito como os bombeiros de Fafe, campeões mundiais da decilitragem. Era: após a cerimónia das medalhas é que começava a verdadeira festa. Cada um que se amanhasse para o almoço, em casa, era o mais certo, e já voltavam todos bem bons, mas a meio da tarde havia o "beberete" no salão de festas transformado em refeitório. O "beberete" constava de uns bijus e de uns bolinhos de bacalhau feitos pela minha avó e metidos em sacos plásticos de doses individuais e sumárias, acompanhados à fartazana pelo tal vinho dado pelos beneméritos da corporação e que era bebido como se só voltasse a haver Festa da Bomba dali a um ano. O que até nem estava mal visto.
Conclusão: era beberete demais para tão pouco comerete. Passavam-se ali carraspanas iglantónicas. Os de Vizela ficavam até ao fim, num taco-a-taco que chegou a ser histórico, mas o nosso Joãozinho do Opel levava sempre a taça para casa. E levavam-no sempre a casa. De padiola. E eu pensava que não fazia mal, que os nossos bombeiros voluntários mereciam de mão cheia aquele dia sem medida e só para eles, derivado ao resto do ano em que eles eram só para os outros. Pensava que, às tantas, a Festa da Bomba era essencialmente aquilo - aquela bebedeira geral, eucarística, redentora e uniformizada, em descompassada ordem unida. E achava bem. E quero acreditar que nunca mais na vida tive pensamentos tão acertados.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Vozes que chegam ao Céu

E sobretudo Deus
Eram dois amigos antigos, amigos do peito, leais, assíduos, generosos, cúmplices, irredutíveis, amigos com agá grande. Ainda por cima tinham Deus em comum: um acreditava, o outro não.
 
Lembro-me da voz do Nélson. O Nélson tinha uma loja minúscula e atafulhada mesmo ao lado do consultório do Dr. Antunes, uma montra e pouco mais, na hoje Rua General Humberto Delgado, em Fafe, e gostava de estar à porta a dizer bom dia ou boa tarde às pessoas que passavam, não por interesse de negócio, que a vida lá ia andando, mas porque era assim do seu feitio, dado, gentil, bom. Vendia electrodomésticos. Foi no Nélson que eu comprei a primeira televisão para a minha mãe, foi do Nélson que eu, já casado, trouxe para o Porto a primeira varinha mágica da Mi, parece-me que no nosso primeiro Natal, palermices que os homens faziam antigamente, oferecerem instrumentos de trabalho às mulheres, como se fossem prendas. Hoje em dia, fôramos nós outra vez novos, dava-lhe um Porshe Panamera ou talvez um beijo, muitos beijos, que é com o que nos temos governado estes anos todos sem demasiadas razões de queixa. O Nélson, atenção, muita atenção!, era das electricidades, desses mistérios, portanto devia saber de amplificadores, sabia certamente de altifalantes, às tantas até seria mestre de "instalações sonoras", pelo menos por parte de um sobrinho, homónimo, se não me engano, e suponho que nem será preciso dizer mais nada para que percebais que ele tinha tudo para ser um dos meus heróis.
Coincidíamos às vezes no tasco. O Nélson, o Sr. Nélson, bem mais velho do que eu, não era um bebedor, era um conversador, mas só falava se valesse a pena. Passava calado a maior parte do tempo. E eu lembro-me da voz dele, tão respeitadora, tão amiga, tão mansa, como se pedisse desculpa por se fazer ouvir. E, no entanto, era sábio. O Nélson é certamente uma das pessoas mais decentes que eu tive a sorte de conhecer em toda a minha vida, e há séculos que não sabia dele. Soube em Dezembro, inesperadamente. Morreu.
Nélson Novais, 95 anos, o sócio n.º 2 do Grupo Nun'Álvares, orfeonista de longa data, faleceu no final do ano, vi por acaso numa passagem distraída pelo Facebook da extraordinária colectividade fafense. O Nélson morreu e eu, caramba, foi como se me tivesse caído a noite, fiquei tão triste, tão zangado comigo por me esquecer de tantas e tão boas pessoas de Fafe, por lhes ter perdido o rasto, por nunca mais ter querido saber, por me ter desligado, por já não reconhecer caras que vejo nas fotografias, por estar para aqui fechado em mim e nas minhas coisinhas, que merda, que merda!...
... Até que me lembrei da voz do Nélson, ouvi-a de repente, juro, sem palavras certas, definidas, mas numa espécie de relambório sem sentido, era apenas aquele som calmo, meigo, agradável, sensível, voz de anjo, pensei. Felizmente há vozes assim, confidenciais, íntimas, vozes que apaziguam corações. Isso, se os anjos falassem, haveriam de falar com a voz do Nélson. Quer-se dizer, afinal o Nélson esteve cá em baixo apenas emprestado e outro dia finalmente regressou a casa, ao Céu, ao sítio aonde deveras sempre pertenceu. Que descanse em paz.

sexta-feira, 18 de julho de 2025

O rapaz dos altifalantes

Interferências
Ele tinha dois rádios muito jeitosos. Depois de um tombo na banheira, o rádio do braço esquerdo, coitadinho, agora só apanha a onda curta.

A frase era: "E ao iniciarmos os nossos trabalhos, a todos desejamos uma muito boa tarde". Mas só funcionava, a frase mágica, se fosse metida no meio de uma marcha de John Philip Sousa, que para mim era um músico português de Castelo de Paiva que tinha ido para a América em pequenino. Eu sabia que no Pejão havia, por aquela altura, uma grande banda de música, quase tão boa como a nossa, a de Revelhe, e era daí que vinha a minha inocente suposição. Se o Sousa não era de Fafe, caso contrário eu saberia, então só podia ser de Castelo de Paiva. Quanto à marcha propriamente dita, de preferência "Stars And Stripes Forever". Isso, sim, era serviço completo, coisa profissional.
Eu adorava os altifalantes. Altifalantes, bandas de música e bombos, zés-pereiras, que eu achava que se chamavam assim por causa do Bô de Basto, que era Pereira e tocou caixa. Longe ou perto, os altifalantes chamavam por mim e eu ia. Eram sinal de futebol no Campo da Granja, eram Festa da Bomba, eram o Santo António na minha rua, eram a Senhora de Antime que vinha à vila numa tremenda e comovente procissão e, lá no meio da multidão sem medida, os altifalantes em cima da carripana do Baptista, fanhosos, deitavam o terço e cantavam o "Queremos Deus". E eu queria era dizer aquela frase. "E ao iniciarmos os nossos trabalhos, a todos desejamos uma muito boa tarde". O meu sonho era dizê-la quando fosse grande.
E disse. Vezes sem conta, anos mais tarde, já os altifalantes tinham sido promovidos a "instalações sonoras", embora ainda não fossem "sistema de som", e a bola rolava no nosso Estádio de campo pelado. Sim, o microfone agora era meu, eu era o rapaz da "constituição das equipas" e daqueles reclames muito jeitosos que terminavam todos em "... nesta simpática lo-ca-li-da-deee". E os anúncios pelos 16 de Maio e pelas Festas da Vila, pelo Natal, nos altifalantezinhos pendurados nas árvores em Cima da Arcada, sim, também era eu. Mas estavam gravados e a frase era-me impedida. E nem imaginam o que eu sofria quando andava com o Pimenta pelas aldeias de Fafe a apregoar os filmes do cinema ao ar livre, as cornetas atadas às três pancadas no tejadilho da velha catrel emprestada à Comissão de Auxílio, e eu, aos solavancos contra o tecto, "hoje, às 21h30, na bancada do Estádio Municipal, cinema, sensacional filme, "Dominique", com Debbie Reynolds e Ricardo Montalban, a verdadeira história da freira cantora que tocava viola a andava de lambreta, a não perder, hoje, às 21h30...", e vira o disco e toca o mesmo, mas sem poder dizer a frase. Sem conseguir dizer a frase. Não encaixava de maneira nenhuma, o raio da frase. Que seca! E os filmes também.
"E ao iniciarmos os nossos trabalhos, a todos desejamos uma muito boa tarde". Era a frase da minha infância, a minha frase-talismã, e andou sempre comigo. Até na profissão. Sempre me vi como o rapaz dos altifalantes, nem mais nem menos. Quando passei pela Informação da Rádio Comercial, no tempo em que a Comercial fazia parte do universo RDP, muitas vezes a disse, à frase-maravilha, como teste, na gravação de uma notícia ou apenas por brincadeira, de microfone fechado, antes de ir para o ar com o noticiário. "E ao iniciarmos os nossos trabalhos, a todos desejamos uma muito boa tarde".
Nunca chegou cá fora, e foi o que os senhores ouvintes perderam - como certamente estão agora a perceber. Em contrapartida, uma vez, no final de um bloco noticioso particularmente bem conseguido, saiu-nos - ao colega de cabina e a mim - um "Até os comemos!", de microfone involuntariamente aberto e destinatários certos, que ainda hoje é o nosso orgulho.
E, realmente, "Até os comemos!" também é uma bela frase e resulta muito bem em rádio, sobretudo se for numa rádio séria e sustentada pelos contribuintes. Mas, verdade seja dita, não tem comparação com a outra, a gloriosa, a dos altifalantes, pois não?

sábado, 26 de abril de 2025

Funerais de categoria, fazia-os o Baptista

Susto de morte
Era um defunto que dava gosto: parecia que estava a dormir. E estava. Quando acordou, morreu do susto.

No princípio era a SIF. Depois é que apareceram os altifalantes do Costa e Castro de Travassós. É assim que eu me lembro. A SIF do meu vizinho Zé - o Zé da SIF -, do senhor Vilhena e até do filho do senhor Vilhena. Escrevo de memória, mas creio que estou a dizer bem. Quando não tinha o meu pai, eu entrava no futebol com o Zé da SIF, fazendo de conta que carregava uma corneta que era do meu tamanho, e por isso é que sou um especialista em Campo da Granja e em "amplificações sonoras", com formação em feiras, festas e romarias, missas cantadas e procissões. Desde pequenino.
"Amplificações sonoras" - atentai bem. Fazei como eu: dizei, em voz alta, "amplificações sonoras". Isso. Mais alto. Agora, dizei outra vez, com voz de "continue connosco" e arrastando as sílabas. Não são palavras mágicas? São. Mas não é isso que aqui interessa.
Onde eu quero chegar é ao Baptista de Antime. Às "Amplificações sonoras de João Baptista Gonçalves, de Antime, Fafe, deslocam-se a qualquer localidade, haja ou não haja corrente eléctrica", e que, quando apareceram no mercado, rebentaram logo com a concorrência.
E eu acho que consigo perceber porquê. O Baptista de Antime era um tipo porreiro. Até tinha um tasco - e isso, salvo duvidosas excepções, é o melhor que se pode dizer seja de quem for. Apesar de disputar a rua com o Lando da Rampa, que era realmente vinho de outra pipa, o bom do senhor Baptista manteve o tasco e lançou-se nos altifalantes com um sucesso que só ouvido. Parece que o estou a ver agora, hiperactivo, falador, a ligar fios atrás de fios, cigarro na boca, a barba por fazer e a mão a mandar para trás a melena rebelde do cabelo brilhantinado, sempre magro, sempre de fato, sempre disponível e sorridente. Tenho ideia de que os altifalantes para a Festa da Bomba eram de graça, mas se calhar aqui estou a exagerar.
De tão bom, de tão dado às pessoas e vice-versa, o Baptista de Antime até cometeu a proeza de ganhar a Junta de Freguesia para o Partido Comunista. Antime fica no concelho de Fafe, é preciso que se note. E Fafe, para quem não sabe, fica no Minho, pertence ao distrito de Braga, que era como se fosse o Alentejo mas, politicamente, ao contrário. Estais a ver a façanha?
Um dia, o Baptista de Antime, que já tinha um tasco e alugava "amplificações sonoras" e electricidade em pó aos fins-de-semana, resolveu alargar a sua carteira de negócios ao ramo da funerária. E em boa hora o fez, numa esperta lógica de complementaridade que continuaria a ser dinheiro em caixa. E em caixão. Romarias e funerais, o casamento perfeito, na alegria e na tristeza, venha mais um copo. O homem estava em todas. E a treta das sinergias foi ele que inventou.

Os funerais do Baptista eram muito gabados. O Zé Maria Sapateiro dizia que eram "uma categoria".
O Zé Maria Sapateiro, que sabia muito de funerais, era também de Antime e pai da minha querida tia Laura. Era, portanto, sogro do meu tio e padrinho Américo. Era avô do Zé e da Zulmira - para que os de agora se situem. Em cima de tudo isto, o senhor Zé Maria era uma figura, malandro e esforçado piadista, com o porém do benfiquismo.
Eu gostava muito de ouvir o senhor Zé Maria. E o senhor Zé Maria, quando já morava com os meus tios, gostava de terminar as suas dissertações, à mesa da cozinha da casa do Lombo, com um "Viva o Benfica e mais nada!" que me incomodava um bocadinho. Ainda por cima, conhecendo a cor do meu coração, que era e é só uma - azul e branco -, insistia em reclamar os meus améns, "Não é, Hernâni?", porque, dizia ele, "O Hernâni é que sabe". E eu não sabia.
Uma vez o senhor Zé Maria morreu e eu fui a Fafe ao funeral. Foi um funeral de categoria. Deve ter sido o Baptista. Só pode ter sido o Baptista.

Conheci gente extraordinária em Fafe. E às vezes arrependo-me de ter crescido. Tenho saudades do tempo em que a vida da vila andava ao toque do sino da Igreja Nova e do apito da Fábrica do Ferro. É. A minha terra, infelizmente, já não existe.