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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Os cinemas também se abatem

Fitas...
Não vá em fitas! Máscara de ferro é uma coisa, testa-de-ferro é outra.

O cinema foi sempre a coisa mais importante da minha vida, até deixar de ser. Creio que a última vez em que entrei numa sala de cinema convencional levava pela mão o meu filho, ou vice-versa, para vermos "O Rei Leão", portanto no Verão de 1994 e, lamentavelmente, era a versão portuguesa.
Comecei cedo, ainda de calças curtas e a dar uso nas legendas às primeiras letras que trazia aprendidas da escola. Era o tempo do cinema ao ar livre na parada das traseiras dos velhos Bombeiros, na Rua José Cardoso Vieira de Castro, entre os dois palacetes. Debaixo da escadaria do quartel foi montada uma espaçosa e saudabilíssima cabina de projecção toda ela construída em lusalite, e o terreiro enchia-se de cadeiras e bancos corridos com costas. O operador era o Porinhos, se não me engano, eu via os filmes da janela do quarto do meu padrinho e tio Américo, derivado à falta de idade, depois o cinema acabou sem mais nem menos, sem me avisarem ou explicarem, a parada lá ficou, como o próprio nome indica, e o barraco, de tão jeitoso, aproveitou-se para arrecadação das tralhas do meu avô.
Ainda em Fafe, mais tarde, tornei-me ferrinho do Teatro-Cinema, andei pelas aldeias com o Pimenta, de catrel e altifalantes, a anunciar os "ma-gní-fi-cos" filmes que, pelo Verão, passavam no campo de futebol e eram tão fraquinhos, frequentei bissextamente o salão inacabado do Martinho da Granja, se a memória não me atraiçoa, e fui uma ou duas vezes ao Estúdio Fénix. Entretanto, levado pela vida, tinha-me virado para Braga - São Geraldo e Teatro-Circo -, e para Guimarães - São Mamede e Jordão. Vi cinema, de forma avulsa e por exemplo, em Vila Real, Figueira da Foz, Amadora, Lisboa, Dublin, Roma, Manchester ou Bordéus, onde de momento estivesse e pudesse.
Instalei-me no Porto e não me escapou um: Águia D'Ouro, Batalha, Carlos Alberto, Charlot, Coliseu, Estúdio, Estúdio Foco, Estúdio 400, Júlio Dinis, Lumière, Nun'Álvares, Passos Manuel, Olímpia, Pedro Cem, Rivoli, Sá da Bandeira, Terço, Trindade, Vale Formoso, Chaplin, em Leça da Palmeira, e até o Vitória, na Circunvalação, mas tecnicamente do lado de Rio Tinto, Gondomar.
E agora, que é deles? Onde estão os velhos cinemas do Porto? Fecharam todos? A cadeado? Foram todos ao shopping e perderam-se? Eu sei que também não vou ao cinema há mais de um quarto de século, mas a culpa não é minha: é do meu filho, que cresceu, e isso realmente faz-me diferença.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

O Grosso da Coluna e o Maciço Central

O complexo
Era evidentemente um complexo, com todos os seus sintomas. Estádio, pavilhão, piscina e quatro campos de ténis. Complexo desportivo, como lhe chamam em Psiquiatria.

A diferença entre o Grosso da Coluna e o Maciço Central pode resumir-se assim: o primeiro é corredor de bicicletas e o segundo joga no eixo da defesa, como agora se diz. E o que têm em comum o Grosso da Coluna e o Maciço Central? Fisicamente falando, pertencem ambos à família dos Armários.
Não era evidentemente o caso de Herculano Oliveira, ciclista do tempo antigo, um poderosíssimo lingrinhas a quem chamavam "Andorinha das Penhas", uma levandisca com pedais, peso-pluma voador, digo eu, capaz até de bater Joaquim Agostinho na subida à serra da Estrela, quer-se dizer, às Penhas da Saúde, e é daí que lhe vem o cognome, o qual, dito assim a quem é, tem tanto de ornitológico como de justo.
Naquele tempo, os ciclistas eram-nos contados pela rádio, com muito emoção e, às vezes, algum atraso. Ouvia-se o relato da Volta, em magotes à roda do transístor em alta-voz, enquanto víamos os treinos ou os jogos de futebol do Fafe. Ouvidos, os ciclistas eram o fim do mundo em cuecas, eram trinta por uma linha, eram tudo e mais alguma coisa e também "ases do pedal", "bravos do pelotão" ou "gigantes da estrada", nome que lhes assentava tão bem e que agora parece que está reservado aos SUV e aos camiões TIR, para além da Brisa e outras mais modestas correntes de ar mensais.
Herculano Oliveira era do Sangalhos, é património do grande Sangalhos - uma potência velocipédica de que decerto os mais novos nem fazem ideia -, mas também passou, entre outras equipas, pela Coelima e fez carreira internacional. Nas décadas de sessenta e setenta, foi 4.º na Volta a Portugal, 22.º na Volta a Espanha e 45.º na Volta a França. Posso dizer, só para me gabar, que, em mocico, estive às vezes à beira dele?

A Póvoa agora é em Fafe

Vá ver a neve, antes que ela apareça
A melhor altura para ir ver a neve à serra da Estrela, acho eu, é agora, no Verão, se possível em pleno Agosto, quanto mais sol, melhor. Não há neve, mas pode-se passar.

É extraordinário o que se passa em Fafe por estes dias. Finalmente sem precisar da Póvoa de Varzim para nada, quem havia de dizer, Fafe tem a sua própria época balnear, de papel passado, reconhecida pelo notário, anunciada em edital, com bandeira e diploma, talvez até com batata frita à inglesa, bolas de Berlim, língua da sogra e caladinhos, nadadores-salvadores, mirones, pedintes e carteiristas. Serviço completo. Que coisa tão estranha para um tipo antigo como eu! Sobral de Monte Agraço teve, à altura, o seu parque infantil, que saiu no Tide e dava na televisão, e Fafe agora também tem época balnear, como os outros brasis e algarves da concorrência, sem lhes ficar muito atrás. Que sainete! Foi preciso esperar pelo século XXI, aguentar pacientemente as patifarias das alterações climáticas, inclusive correntes de ar, mas valeu a pena: Fafe está realmente mais fresco.
O meu irmão Nelo bem dizia, em pequeno, que, quando fosse grande, ia mandar construir uma praia em Fafe, uma praia com mar e tudo. E a verdade é só uma. Não foi o nosso Nelo, por acaso, mas alguém a construiu, e em boa hora, ela aí está, a praia da Barragem de Queimadela, ele aí está, o nosso mar, o sexto oceano, aberto ao expediente e em glorioso funcionamento. O nome "de Queimadela", para praia, se calhar não será o mais feliz, o mais acolhedor, por assim dizer, antes pelo contrário, mas, pronto, já constava, vinha de trás e, portanto, não havia volta a dar, esqueçamos o pormenor. Qualquer dia, estamos mas é a receber camionetas de poveiros, que vêm à procura do que é bom.
Para mim, no meu tempo, antes da construção do nosso mar, Fafe tinha três esplêndidas estâncias balneares: o Poço da Moçarada, em Docim, o Comporte, na Fábrica do Ferro, e Calvelos, em Golães, pelos campos de Sá, atravessando a linha do comboio. Eu e os rios éramos unha com carne. O rio São Roque, no Poço da Moçarada, explorando montes e leiras, com as suas belas cachoeiras e penedos polidos pela apressada e antiga passagem da água, foi onde aprendi a nadar, a fumar e várias outras parvoíces, mas nunca tive coragem para me atirar sequer do "segundo penedo", quanto mais do "terceiro", lá nas alturas do céu. O rio Ferro, mais à mão, no Comporte, secando ao sol no pequeno areal junto ao pontão que ligava ao Bairro de Antime. O rio Vizela, em Calvelos, uma curva selvagem, escondida no meio de impenetráveis milheirais, silvedos jurássicas e outra vegetação manifestamente africana, eu, palavra de honra, ouvia batuques ao longe e via macacos saltando de choupo em choupo, como se fossem artistas de circo, trapezistas voadores evadidos da Feira Velha. Três oásis que eu, na minha boa fé ou ingenuidade infantil, supunha longínquos, praticamente inacessíveis e secretos. Sítios de banhos, puros e duros, sem facilidades, só para homens de barba rija. E nós, os putos, sorrateiramente desenfiados, lingrinhas de pé descalço e pila ao léu, autoprojectos assumidos de futuros ecoturistas, hippies sem sequer fazermos ideia, íamos para lá treinar para a Póvoa de que ouvíamos falar, porque algum dia havia de ser. O pior era a minha mãe, que parecia que tinha radar e, uma desgraça nunca vem só, sabia sempre por onde é que eu andava e o que fazia. E, portanto, ia-me buscar. Pelas orelhas. Eu chorava e prometia que nunca mais, pelo menos até à tarde do dia seguinte.
Eu sou, aliás, especialista em épocas e instalações balneares. Não ouso colocar Fafe no topo da lista nacional de estâncias termais, seria porventura um exagero, e eu não sou disso, mas a verdade é que conheci muito bem os balneários do Campo da Granja e ainda cheguei a entrar nos balneários do Campo de São Jorge, então já oficialmente desactivado, mas funcional para jogos escolares ou de solteiros contra casados. Eu seria miúdo de escola primária. Três ou quatro anos depois, quando o Estádio começou a ser construído, nas vésperas da década de setenta, os vestiários foram provisoriamente montados na cave do quartel dos Bombeiros e eu passei a ser freguês diário do Senhor Zé Manquinho, o roupeiro dos roupeiros, numa amizade sem fim. Como decerto sabeis, eu era neto do quarteleiro, estava sempre ali de plantão, era só descer as escadas. Nas férias do seminário, não tínhamos água quente em casa, e era no balneário da AD Fafe que eu tomava banho duas ou três vezes por semana, antes dos jogadores chegarem para os treinos e sem estorvar o despacho. Levava toalhão, sabonete e roupa interior para mudar. Por sugestão do Senhor Zé Manquinho, eu era conhecido nas catacumbas como "o homem que adormece no chuveiro", tamanho era o prazer que o duche me dava e o tempo que eu lá passava, debaixo de água, nem sei como é que nunca engelhei da cabeça aos pés. Era uma espécie de Homem da Atlântida ou Aquaman, mas às pinguinhas.
Com o banho, eu tinha direito a uma bebida. Isto é, não tinha direito a bebida nenhuma, mas fazia-me e ela. Inventava um ligeiro afrontamento, queixava-me de uma pontada de azia, e o Senhor Zé já sabia. Mandava-me esperar pelo João Americano, o massagista, o único que tinha a chave da "Farmácia", palavra escrita a esferográfica azul no adesivo colado na testa do pequeno armário branco e vidrado com três prateleiras que era a própria "Farmácia" e pouco maior do que uma mesinha-de-cabeceira. O João chegava da fábrica, gozava comigo, falava muito alto, esganiçado, parecia a cantadeira de um rancho folclórico, mas também já sabia: dava-me um copo de água com uma colher de "sais de fruto", Eno, se bem me lembro, eu adorava aqueles piquinhos, bebia regalado, uma, duas goladas sem deixar cair, arrotava com toda a categoria e, boa tarde e muito obrigado, estava pronto, estava feito.
Admito que foi ali que o João Americano, o Senhor Zé Manquinho e eu inventámos o spa com champanhe, conceito hoje em dia tão coisa e tal, mas evidentemente não sabíamos.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Eu sarapinto, tu sarapintas, ele sarapinta

Não terebintinarás
O verbo terebintinar, esse mesmo, miseravelmente ignorado por quem hoje escreve, lê e fala na ainda chamada língua portuguesa. O verbo terebintinar que, como toda a gente sabe, conjuga-se como o verbo pirilamparar. Evidentemente.

Ele era um extraordinário ciclista e não fazia caso à gramática. Dizia que gostava de correr "isolado, sozinho, sem mais ninguém", porque depois, na chegada à meta, "cada cal é cada cal e cada um sarapinta como pode". Não fazer caso da gramática fazia parte de ser ciclista antigamente. Ele venceu uma Volta a Portugal e era do meu FC Porto e das memórias da minha infância. Carlos Carvalho. Tive o privilégio de conhecê-lo pessoalmente anos mais tarde, eu moço, ele já reformado do pelotão mas não das bicicletas. E então o meu gigante das estradas era aquele homenzinho? Aquilo é que era o colosso de rodas? Era. E fiquei a admirá-lo ainda mais, como quem admira um fazedor de impossíveis.

Em 1976 a AD Fafe resolveu de repente montar de raiz uma equipa de ciclismo e apresentar-se à Volta a Portugal. Não terá sido bem a AD Fafe, mas algumas pessoas ligadas à AD Fafe e amantes das bicicletas, e tudo foi feito em cima do joelho, como convém às grandes empreitadas. Foi-se ao refugo do pelotão nacional e arranjaram-se dois ciclistas e mais dois ou três acompanhantes e desistentes garantidos. Os ciclistas eram o jovem António Alves, que posteriormente brilharia ao serviço do FC Porto, do Coimbrões de mestre Emídio Pinto, se não me engano, e do Boavista, entre outros clubes, e Manuel Martins, fafense de Golães e irmão mais novo do campeão José Martins. Dos outros, infelizmente, não reza a história. Foi-se praticamente à sucata e arranjou-se um velho Mercedes que seria, por assim dizer, recuperado e "preparado" para carro de apoio na garagem do Zé Bastos, ao lado dos antigos Bombeiros. O veículo, que avariava muito bem e parou vezes sem conta nas voltas da Volta, sobretudo quando fazia mais falta aos corredores, era o único acrescento logístico da equipa e seria guiado pelo Fredinho Bastos, condutor experimentadíssimo em corridas mas de automóveis. E foi-se a Pousada de Saramagos, Famalicão, tentar contratar um "treinador".
Uma embaixada fafense deslocou-se à loja-oficina de Carlos Carvalho, que ficava ali à face da estrada nacional, quem depois vira para o campo de futebol do Riopele de má memória pelo menos para nós. Iam talvez o grande Chico Marinho, de quem um dia falarei à parte, o despachado e palavrento Machadinho, que também já era cobrador da AD Fafe, sucedendo na pasta ao Sr. Túbal, desse tenho a certeza, não sei se o Fredinho, o David Alves e o seu irmão Gabriel, eventualmente, e por certo alguém da direcção. O David era uma espécie de consultor para todos os assuntos desportivos em Fafe. E o Gabriel foi ciclista na Coelima. Posso garantir é que eu fazia parte daquela delegação de alto nível, como modesto observador e porque, tratando-se de Fafe, naquele tempo da minha juventude eu ia com toda a gente para todo o lado. Em Fafe, não sei porquê, estive no meio de tudo ou tudo passou por mim. Fui portanto um espectador privilegiado da história da nossa terra naqueles anos imediatamente antes e após o 25 de Abril de 1974. Ou então, também admito estoutro ponto de vista, fui apenas um considerável emplastro, mas quase sempre a convite, é preciso que se note.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Os grandes adeptos eram quatro

Mudam-se os tempos
As pessoas pagam fortunas para irem ao futebol, mas não vêem o jogo. Espreitam-no pelo ecrã do telemóvel, filmam, fotografam, viram as costas ao campo, telefonam-se, vão ao YouTube, lançam tochas, fazem "selfies", mandam sms umas às outras, cadeira ao lado, procuram as câmaras de televisão, acenam para casa, actualizam o Facebook com a emoção do momento. A bola, evidentemente, não interessa para nada.

No princípio, Deus criou os céus, a terra e a Associação Desportiva de Fafe. Era essa a minha fé e estava redondamente enganado. Quando eu era pequeno, pelos três ou quatro anos, e comecei a ir com o meu pai ao Campo da Granja, achava que estava a participar de uma coisa muito antiga, que vinha do tempo dos dinossauros ou pelo menos dos romanos. Nem me passava pela cabeça que, como vim a descobrir séculos mais tarde, eu e o meu clube somos praticamente da mesma idade, eu quase um ano mais velho, ainda por cima, e tive um desgosto muito grande.
Quer-se dizer: eu acompanhava os primeiros passos da AD Fafe, mas não sabia. Afinal a nossa "Associação" não vinha da fundação da nacionalidade, com o peito cheio de glórias e façanhas, conforme os meus ingénuos supores, mas acabara apenas de nascer, fruto da fusão celebrada em notário entre o Futebol Clube de Fafe e o Sporting Clube de Fafe, corria o ano de 1958, mas isso são pormenores.
Por aquela altura e na meia dúzia de anos a seguir, o que mais me interessava quando ia ao futebol não era tanto a habilidade dos nossos grandes jogadores, que eu por acaso até já catrapiscava, mas o desempenho dos nossos grandes adeptos. Eram quatro, como os quatro cavaleiros do Apocalipse, mas em manso. O Sr. Antunes Chapeleiro, o Sr. Abílio Batateiro, o Sr. Rocha "Mijão" e o Felinhos. Quatro figuras icónicas, como agora se diz, fafenses excelentíssimos, como eu costumo dizer. Funcionavam raramente em grupo e principalmente a solo, eram os donos daquilo tudo, antigos como matusaléns, sábios como salomões, sumos sacerdotes da coisa, tomaram muitos comentadores de hoje em dia.
Frequentavam jogos e treinos, chovesse ou fizesse sol, dia após dia, menos o Sr. Antunes, que era só jogos e acompanhava com muito carinho as camadas jovens, aos domingos de manhã. E era um perigo na bancada. Pequenino e doce, despachado, tirone da cabeça aos pés, gostava de dar a táctica, gritava ordens para dentro do campo, mas gritava baixinho, educadamente, mandava o rapaz chutar - "Chuta, menino!" - e, nem dava fé, chutava ele também, no ar, quase caindo de cangalhas e, na passada, enfiando biqueirada de chumbo grosso no rabo ou canelas do insensato que lhe calhasse à frente. Membro da alta burguesia fafense e ilustre comerciante da nossa praça, estabelecido nos respeitáveis ramos da chapelaria e sapataria, frente a frente, duas lojas famosas e chiques, muito bem frequentadas, na hoje chamada Rua General Humberto Delgado, o Sr. Antunes era talvez um caso à parte, tinha a sua própria gramática de grande adepto, isso é certo, geralmente contida, às vezes graciosa, mas uma paixão tremenda, avassaladora, transfiguradora, e eu, grande admirador, passava o jogo inteiro a olhar para ele.
O Felinhos, do Picotalho, mesmo ao lado do Estádio, quando o Fafe deixou a Granja por casa nova e neutra, era outro que tal no que diz respeito aos pontapés na atmosfera mandados de cá de fora, que, se fossem lá dentro, eram golos atrás de golos, disso ninguém lhe tirava a ideia. Um desperdício, infelizmente. O Felinhos tinha a estampa de um pau de virar tripas e opiniões do tamanho e temperamento dos canhões de Navarone. Nunca estava contente, nada lhe servia, criticava o torto e o direito, porque sim, porque não e porque talvez, sempre contra tudo e contra todos, locais ou forasteiros, resmungava numa vozinha aguçada, interminável, irritante, a desafiar soco, o que, por outro lado, só lhe abonava a coragem. Ou talvez o despropósito.
O Sr. Abílio, da Fábrica do Ferro, era um bem instalado negociante de batatas, em concorrência directa com o Sr. Chupiu, o qual, não fazendo parte dos quatro magníficos, tinha porém um tasco, afamado e manhoso, mesmo à porta de entrada do novo campo da bola. E quem diz entrada, diz saída, não havia como lhe fugir. O Sr. Abílio era, portanto, dono do seu próprio horário e destino, tal qual o Sr. Rocha, de Sá, que possuía uma potente moto Jawa, uma furgoneta para os domingos e um tractor, que era o seu ganha-pão. O Sr. Rocha, um homem grande, pesado, opinioso, cheio de certezas vernaculares, aliás como o Sr. Abílio, iguais em todos os itens, viu bem o furo, lavrava para fora, isto é, alugava-se à hora, a ele e ao seu tractor, para amanhar os campos dos lavradores aqui à roda. Foi exactamente naquela maré que tudo isto começou aqui na região: com décadas de atraso, a mecanização agrícola chegava enfim ao minifúndio minhoto. Para além disso, o Sr. Rocha fazia questão de exibir a sua simpatia pelo antigo regime e mandava-nos calar a todos, com cara de poucos amigos e um ameaçador "Chiiiiiu!!!" de dedo apontado, mal aparecia na televisão do café Peludo o genérico de abertura da "Conversa em família" de Marcelo Caetano, sua excelência o presidente do Conselho.
Eu dava-lhes muito valor, aos quatro grandes adeptos da AD Fafe, ao nosso quarteto fantástico. O Sr. Antunes Chapeleiro, o Sr. Abílio Batateiro, o Sr. Rocha "Mijão" e o Felinhos. Indesmentíveis poços de sabedoria, prodigiosos senadores do pontapé na bola. Eles sabiam tudo de futebol. Melhor dito, eles é que sabiam! O que já era conhecido e o que ainda havia de ser inventado. Em caso de derrota, que acontecia com arreliadora frequência, sabiam milhões de vezes mais do que a besta do treinador, especialmente o Sr. Rocha e o Sr. Abílio, que eram realmente duas sumidades, eles já tinham ditam, aliás, tinham-se fartado de dizer, "Eu é que disse!", "Mas eu disse primeiro!", pegavam-se não raro, discutiam um contra o outro com uma ciência que dava gosto ouvir, trocavam insultos com bigode, mandavam-se àquela parte, ignoravam-se de despeito, tudo por amor ao Fafe, só faltava mesmo andarem à pancada, e havia de ser bonito.

domingo, 28 de junho de 2026

Admiráveis esparrinhadores

O fiel jardineiro
Diziam que ele regava muito bem. Era, de facto, um excelente mentiroso.

Em Fafe esparrinhava-se muito, essa é que é a verdade. Noutras localidades igualmente antigas mas porventura já mais apetrechadas e comedidas, talvez se espargisse, talvez se borrifasse, talvez se aspergisse, talvez se salpicasse, talvez se esparramasse, talvez se espalhasse, talvez se derramasse, talvez se entornasse, talvez se respingasse, talvez chuviscasse, talvez, vá lá, se irrigasse, mas em Fafe não, nós em Fafe, por uma questão de princípio, esparrinhávamos e mais nada. Esparrinhávamos forte e feito, ui o que a gente gostava de esparrinhar, e que ninguém nos viesse dizer o contrário.
Claro que não éramos todos iguais. Cada qual esparrinhava à sua maneira, uns mais, outros menos, uns melhor, outros pior. Como tudo na vida. E havia, evidentemente, quem se destacasse entre o geral, apareciam craques, campeões, mestres do esparrinhanço, lendas para o futuro, esparrinhadores imortais. Lembro-me agora. Deu-se até o extraordinário caso de termos um talentoso jogador de futebol, fafense nado e criado, que ostentava o admirável nome de Esparrinhento, isso mesmo, Mário Esparrinhento, assim ficou registado nos anais da História o nosso herói. O Sr. Mário, que já só conheci reformado da bola, sempre de fato, gravata e sapatos de verniz, se não me engano, roda-baixa, gingão, voz de bagaço e sentença pronta, era frequentador habitual da esplanada do café Peludo, onde eu o venerava até mais não. Jogou, primeiro, pelo Sporting Clube de Fafe e, após "a fusão", em 1958, pela Associação Desportiva de Fafe, fazendo parte da nossa primeira equipa e da exclusivíssima caderneta dos meus ídolos.
Aqui só entre nós, faço ideia do que seria o Sr. Mário a esparrinhar, que eu nunca vi, para ficar assim conhecido, acima de todos, como Esparrinhento. "O" Esparrinhento. Devia ser um assombre! E isto, meus ricos meninos, nunca poderia acontecer noutra terra senão Fafe.

terça-feira, 16 de junho de 2026

Com o Zegolina, ninguém estava livre

Missais terra-ar
Portugal enviou missais para a Ucrânia. Pequenos missais de rito bracarense praticamente novos. As ordens eram para mandar mísseis, mas alguém da intendência fez confusão ao aviar a encomenda.

Armando Zegolina, isto é, o Zegolina, sobrenome conquistado na rua pelo cidadão Armando Sousa, era um fafense excelentíssimo e campeão mundial da maledicência. Campeão invicto e ininterrupto pelo menos enquanto foi vivo, e não sei se também depois, é preciso que se note. O Zegla dizia mal de tudo e de todos. Pelas costas, pela frente e pelos lados. Com razão, sem razão e antes pelo contrário, apenas por uma questão de princípio. Nasceu para aquilo. Dizia mal do futebol. De quem ia ao futebol e de quem não ia ao futebol. Dizia mal da religião. De quem ia à missa e de quem não ia à missa. Dizia mal da política. De quem era dos partidos e de quem não era dos partidos. Dizia mal da televisão. De quem via e de quem não via. "E tu também te podes ir foder!", dizia-me regularmente. Era. Com o Zegolina, ninguém estava livre.
E como é que lhe veio o nome fantástico? Assim. Em pequeno, ali para os lados de Portugal e do Lombo, de onde ele era, o Armando gostava muito de brincar esvaziando os pneus de todos os automóveis que lhe calhassem à mão de semear e longe da vista dos donos. Ele explicava que lhes estava a tirar a... zegolina. E daí o nome e a lenda.
O nosso Zegolina jogou futebol até aos juniores na AD Fafe e, entre 1968 e 1971, foi soldado pára-quedista e tratador-treinador de cães de guerra. Voluntário. Cumpriu oito meses de Guiné, durante os quais realizou 21 saltos, quase sempre em situações de combate. Foi operário têxtil evidentemente na Fábrica do Ferro, emigrante em França no ramo dos elevadores, e quando tornou a casa, em 1979, fez-se electricista por correspondência e montou negócio. Frequentávamos ambos o inevitável Peludo e acompanhámos depois a módica deslocalização do Peixoto, que foi só virar a esquina. Éramos amigos, eu e o Zegolina - mais o estimado Manel Zebras, velha glória da Desportiva, os três à mesa pária em que mais ninguém queria entrar. Éramos amigos, sem dúvida. O Zegolina ansiava pelas minhas férias e pelos meus bissextos retornos a Fafe, para pormos a conversa em dia, e tínhamos uma certa pressa nisso. Éramos amigos conversantes, confidentes, cúmplices e leais, como o aço. E o Zegla até nem era nada disso de amizades derivado à língua, embora por detrás da língua desgovernada estivesse um homem generoso, bom rapaz, talvez tímido, mas ele não queria que se soubesse. Ele era ruim só da boca para fora, e essa era a sua magnífica fraqueza.
O Zegolina morreu há anos e praticamente novo, muito antes do prazo, muito antes do que seria decente ou razoável, morreu devagar, quero dizer, foi morrendo a olhos vistos, com o corpo de atleta e militar de elite cobardemente escangalhado pela sorrateira doença dos pezinhos ou paramiloidose, que só não lhe atacou a língua. E isso, estou em crer, foi o seu derradeiro consolo.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

O Albino Carpinteiro e o Carpinteiro Albino

Carteira profissional
Chamado à pedra, protestou: - Eu sou carpinteiro, e vou fazer queixa ao sindicato...

Havia o Carpinteiro Albino. E havia o Albino Carpinteiro. Carpinteiro Albino era de Elvas, corria em automóveis e ganhou o primeiro Rali de Portugal, assim chamado, em 1967. Albino Carpinteiro era nosso, da Ponte do Ranha, se não me engano, de Fafe e do Fafe, artista de mão cheia, guardião bricoleiro do estádio e faz-tudo municipal.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

A Associação, a Desportiva e o Fafe

Quando o Sporting deu 7-1 ao Benfica
Catorze de Dezembro de 1986. Em Alvalade o velho, num épico jogo de futebol: Sporting 7 - Benfica 1. Ainda hoje há quem diga que, a haver um vencedor, tinha de ser o Benfica.

Suspeito que seja caso único, talvez a nível mundial. Um importante clube de futebol que pode ter, e tem, quatro nomes autónomos e cada um deles suficiente e correcto, utilizando apenas as três palavras que lhe servem de identificação registada, portanto sem precisar de recorrer a alcunhas postiças, tipo águias, leões ou dragões, encarnados, verdes-e-brancos ou azuis-e-brancos, lampiões, lagartos ou andrades. E esse clube, tomai bem nota, é exactamente o nosso: a Associação Desportiva de Fafe, isto é, a Associação, aliás, a Desportiva, quer-se dizer, o Fafe. Um, dois, três, quatro.
Eu sou do tempo da Associação, era assim que dizíamos na minha geração - sou pela Associação, fui ver a Associação, golo da Associação! -, mas os mais velhos do que eu chamavam-lhe Desportiva - sou pela Desportiva, fui ver a Desportiva, golo da Desportiva! E, no entanto, ia tudo dar ao mesmo. Com a famosa "fusão" ainda fresca, creio que, em Fafe, havia um certo pudor em chamar Fafe ao Fafe, que era palavra comum aos dois históricos emblemas que se apagaram, o Sporting Clube de Fafe e o Futebol Clube de Fafe, para darem à luz a Associação Desportiva de Fafe, em 1958. Naqueles primórdios, terá sido certamente boa ideia não incendiar rivalidades antigas e violentas com o nome "Fafe" atirado logo à cabeça, para que ninguém pensasse que os adeptos e ex-jogadores de um eram mais Fafe do que os adeptos e ex-jogadores do outro, isto é, que a nova colectividade pertencia mais a uns do que aos outros ou que se estaria a prolongar a vida de uma das partes à custa da extinção da outra, o que então seria o fim do mundo. Chamando-lhe "Associação" ou "Desportiva", e o povo assim fez, fino como um alho, o novo clube era mesmo a estrear, de todos por igual, estava tacitamente aceite, universalmente subentendido, evitava-se ferir susceptibilidades, abanar o vespeiro. Lembro-me muito bem desse ambiente ainda extremado, escorregadio e frágil como camada de gelo, e que amiúde explodia em discussões infindáveis e perigosas nos nossos tascos e cafés.
Fafe foi entrando aos poucos, prudentemente, já na minha juventude, e aí está. Um clube masculino e feminino, com quatro nomes e um só amor. O Fafe, a Desportiva, a Associação, a Associação Desportiva de Fafe, consoante a idade, a memória e o comprimento da língua de quem o diz. Já quanto aos "justiceiros", essa novidade de carregar pela boca, vou ali e venho já...

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Eleições, futebol, tropa e alguma batota

Dão-se alvíssaras
Perdeu a cabeça e pôs anúncio no jornal. Faz-lhe muita falta.

As eleições locais corriam sempre bem, chovesse ou fizesse sol. Com novas ou velhas freguesias, uniões de facto ou aldeias desavindas, o mapa oficial não interessava para nada, a logística era um pormenor, as chapeladas eram as do costume. Bebiam-se uns copos à boca das urnas e nas urnas propriamente ditas, fazia-se uma almoçarada com o pessoal de serviço de todos os partidos, que eram o PPD e o "da mãozinha", o snobe do CDS mais o comunista, que vinha de fora e era desconfiado e picuinhas. O pai votava pelo filho que, coitadinho, "é deficiente", o filho votava pelo pai que já morreu mas "fazia muito gosto de votar", pai e filho votavam pela avó que "está muito atacadinha" e não pôde vir, e depois a avó vinha, toda gaiteira, e votava também. Havia quem votasse em dois lados, havia quem votasse duas ou três vezes no mesmo lado, havia quem votasse em dois partidos, e valia, havia quem votasse em quantas freguesias fosse preciso, era só pedir, havia quem quisesse e pudesse votar mas não deixavam, havia quem se fizesse de ambulância, havia quem se fizesse de parvo, havia quem chamasse a polícia, havia quem chamasse o gregório, agarrado ao garrafão levado pelo presidente da mesa a mando do presidente da junta. Chegada a hora das contas, ia-se aos cadernos e à acta, acrescentava-se aqui, desarriscava-se ali, seguindo a lei dos vasos comunicantes, rasgavam-se uns papéis que só estorvavam, queimavam-se só para não fazer lixo, noves fora nada, o chato do PCP também assinava, e no fim batia tudo certo. Podeis crer: batia tudo certo. Eram trafulhicezinhas consensuais, amigáveis, vigaricezinhas proporcionais, comedidas, batotazinha no mais escrupuloso respeito pelo método D'Hondt. Ganhava quem tinha mesmo de ganhar. Era, ó meus amigos, a democracia a funcionar, a manifestar-se de dentro de si própria. Autêntica, transparente, normal. Participada.

As primeiras eleições livres, democráticas, com sufrágio universal, realizaram-se em Portugal no dia 25 de Abril de 1975, celebrando o primeiro aniversário da Revolução dos Cravos. Eram as eleições para a Assembleia Constituinte, para a organização da democracia nova em folha, tendo votado cerca de 92% dos eleitores, isto é, quase seis milhões de portugueses. Nunca mais houve uma participação assim.
O acto eleitoral foi vigiado urna a urna pelas Forças Armadas, que enviaram um pequeno destacamento para todos os concelhos do País sem guarnição. Em Fafe, os militares montaram posto de comando no quartel dos Bombeiros, suponho que para aproveitarem a incipiente central de comunicações já existente na corporação. E eu ali, mais uma vez no meio da História, embora correndo por fora, como sempre, rindo-me como um perdido dos velhos polícias fafenses, naquele tempo Fafe tinha PSP, batendo a pala desajeitadamente a um aspirante imberbe e com cara de copinho-de-leite, se bem que quem realmente mandava naquela tropa toda era o Dr. Parcídio Summavielle, em funções de presidente da Comissão Administrativa da Câmara de Fafe, sempre de um lado para o outro, ele é que dava as ordens que eram para levar a sério, ele é que dizia onde se ia ou não ia, o que estava bem e o que estava mal, o que se fazia ou deixava de fazer.
Os soldados traziam rações de combate para o almoço, e foi o que comeram, coitados. A minha tia Laura é que não concordou com aquilo, "não tinha jeito nenhum", teve pena dos rapazes e fez-lhes um tachinho de comidinha boa, quanto mais não fosse para os desougar. Regalam-se os magalas que por ali estavam àquela hora. Já lhes valera a pena a vinda a Fafe. A Tia Laura era uma cozinheira de mão-cheia e, feitio e vocabulário à parte, tinha um enorme coração.

A tropa esteve em Fafe mais duas vezes naqueles tempos de festa e brasa, mas chamada de urgência para meter o povo na ordem. Logo em Maio de 74, com a revolução ainda no ar, o árbitro Porém Luís (1929-2010) só conseguiu sair do Estádio, escoltado por militares que vieram, creio, de Braga, três horas após o fim do jogo da AD Fafe com o Gil Vicente, que terminou 0-0. O Fafe lutava pela subida à primeira divisão e o trabalho do juiz de Leiria (nascido no Barreiro) deixou muito a desejar, principalmente junto dos adeptos fafenses, que, a verdade também é só uma, sentindo-se "roubados", e de cabeça perdida, queriam, a todo o custo, chegar-lhe a roupa ao pêlo. Pelo menos. Em todo o caso, ainda hoje estou convencido de que, se tivessem revistado Porém Luís à saída, as autoridades talvez lhe descobrissem dois penáltis nos bolsos. Um não marcado sobre o nosso Manuel Duarte e o outro não marcado sobre o nosso Valença. A AD Fafe ficou em segundo da zona, foi à liguinha nacional e não subiu.
No Verão Quente de 1975, logo em Junho, quando tudo começou, a sede do PCP de Fafe foi atacada, houve resposta, tiros, um morto, feridos, ameaças de nova investida e de destruição total. Durante a noite chegam os fuzileiros, cabeludos, barbudos, com autocolantes de esquerda nas fardas. Apartam águas, serenam os ânimos e protegem o edifício. O resto foi uma ferida que nunca mais sarou.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

O dérbi eterno, em 96 ponto 7

Acontecimentos
Há acontecimentos épicos e acontecimentos hípicos. Às vezes coincidem.

Comecei a ver o Sporting-Benfica na cozinha, ouvindo o relato na rádio Antena 1. O Sporting-Benfica ou o Benfica-Sporting, nem que seja em damas ou dominó, é o melhor espectáculo do mundo, assim aprendemos em Portugal desde pequeninos. E realmente. Estava a ser um dérbi de arromba, um clássico dos antigos, uma partida palpitante, de categoria superior, talvez bancada ou até camarote, bola cá, bola lá, sempre nas áreas, quase-golos uns atrás dos outros, os relatadores esganiçados com tanta emoção, sobejavam-lhes os adjectivos, faltava-lhes o ar, que jogaço, que loucura! Fui a correr para a sala e liguei a televisão, para ver com os meus próprios olhos: o jogo era fraquinho, uma tristeza, não havia dois passes seguidos certos, os do Benfica, sem tino, entregavam a bola aos do Sporting e os do Sporting, atrapalhados, devolviam o esférico aos do Benfica, pareciam tolinhos, desajeitados, ignorantes das balizas, por banda de um e de outro lado. Entre cortesias tontas a meio campo, isso, no miolo do terreno, como nos dizem, sarrafava-se a bom sarrafar, é verdade, mas dentro de um protocolo aparentemente estabelecido e mutuamente aceite, combinado. Que pobreza, que sensaboria, que merda! Voltei, desiludido, para a cozinha, provei e pus sal no arroz de grelos, liguei outra vez o rádio: o prélio levantou imediatamente fervura, tornou a ser sublime, frenético, sensacional, fantástico, formidável, alucinante, arrepiante, épico, dantesco, um frémito, um frenesim, um AVC em potência, só não era golo porque não calhava e o INEM estava de prevenção. Eram defesas impossíveis, eram perdidas inacreditáveis, a bola sempre a rasar o poste, a bater insistentemente na trave, até parecia, mas saiu pela bandeirola de canto, foi para o quintal, mais três pontos para o País de Gales. Fiquei-me, portanto, pelos 96.7, que também podia ter sido o resultado final, tantos os golos cantados que contei, e, confesso, fiquei de barriga cheia, regalei-me. Que fartote! Tanto drama, tanta comédia, apesar do formidável zero-zero. Digo-vos. Esquecei a televisão por cabo, que nos custa os olhos da cara e só nos dá entretimentos deprimentes. O futebol, para ser bom, para valer a pena, deve ser visto na rádio Antena 1. 

Sou pela Antena 1 desde que nasci, no tempo em que a rádio era a preto e branco e a Antena 1 chamava-se Emissora Nacional e aos domingos dava os resultados da 3.ª divisão e dos distritais já pela noite dentro e era uma comoção tremenda ouvir dizer Fafe, Associação Desportiva de Fafe, no Philips da mesinha de cabeceira dos meus pais, ainda o pai era vivo e fazia-nos rir. Ficávamos ali todos à espera, a família, prezados ouvintes, como se estivéssemos a rezar o terço mas de boca calada, angustiados e alerta, porque aquilo era dito uma só vez, como no "Alô, Alô", e com a rapidez do "não dispensa a consulta do prospecto". Vamos supor: o jogo do Fafe tinha sido em Arcos de Valdevez, que naquela altura era muito longe e não havia telemóveis (eu sei que é difícil de acreditar), não fora o rádio e só saberíamos o resultado a altas horas da madrugada, se tivéssemos vagar para isso, quando a camioneta da excursão regressasse ao Largo, cheia de sono e de vinho, "bom dia, boa tarde ou boa noite, conforme a hora e o local em que nos escuta".
Sou, portanto, antigo, e faço gosto. Prefiro os dicionários encadernados à Wikipédia e os livros de uma forma geral às séries "de culto". Prefiro o éter à água oxigenada, a rádio à televisão. O melhor que a televisão tem, para mim, é que agora também dá relato. Quer-se dizer: é outra vez a velha rádio, lá com caras tipo passe, mas escusamos de olhar para ela.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Mais rápido que uma linha recta

À velocidade da luz
De acordo com os especialistas, a velocidade da luz desloca-se praticamente à velocidade da luz. O que é extraordinário!

A menor distância entre dois pontos é uma recta? Nem sempre. Às vezes a menor distância entre dois pontos pode ser uma curva. Aqui não se trata de ciência, é mero exercício de memória. Por exemplo: lembrais-vos do Generoso? Claro que não vos lembrais do Generoso. Mas eu explico: o Generoso era um extremo brasileiro que jogou no SC Braga bem no início da década de setenta do século passado, por alturas da segunda divisão, se não me engano. O Generoso (e decerto um nome assim nunca foi tão bem empregue), o Generoso, dizia eu, era tão rápido, corria tanto, que, quando atacava e levava um adversário à ilharga, despossuído de outros e melhores argumentos técnicos, chutava a bola para a frente, saía do relvado, contornava o defesa pela pista de cinza, e - espantai-vos! - ainda chegava lá primeiro.

Para que nos entendamos, o relvado e a pista de cinza eram no Estádio 28 de Maio, em Braga. Sim, antes do 25 de Abril de 1974 e muito antes da notável Pedreira do arquitecto Souto Moura, o Estádio 1.º de Maio, na Ponte, chamava-se Estádio 28 de Maio. Por questões políticas e não de calendário litúrgico, rito bracarense: chamava-se 28 de Maio glorificando o golpe militar que naquela data, em 1926, derrubou a Primeira República e abriu caminho à ditadura do Estado Novo. O que só demonstra que, para todos os efeitos, a Outra Senhora levava 27 dias de avanço em relação a Esta Senhora e que as revoluções cometem-se sobremaneira para mudar os nomes das ruas, praças, pontes, estádios e outro imobiliário. E as moscas também.
De corte fascista, o Estádio 28 de Maio, que ainda está de pé, tentava aparentar-se e rivalizar com o Estádio Nacional, no Jamor, e foi inaugurado, em 1950, por Salazar e Carmona, que assim ditos até parecem uma alegre sociedade de costureiros. Veio a revolução dos cravos e o estádio virou a casaca, mudou de nome, passou a chamar-se Estádio 1.º de Maio, viva o Dia dos Trabalhadores, viva a classe operária!, mais ajuizado seria que se tivesse chamado sempre Campo da Quinta da Mitra.
Quereis outro exemplo? O Estádio 25 de Abril, de Penafiel. Antes da reciclagem política, aquele terreiro chamava-se Campo das Leiras, e, convenhamos, nome mais bonito não podia ter.

Mas eu também vi o Generoso executar a sua supersónica façanha no então pelado do meu Fafe, no "Estádio" que poderia ter-se chamado "Maria Cristina", onde o resvés com os pilares de cimento e com os tubos metálicos da vedação conferia um toque extra de emoção e perigo ao espectáculo. O Generoso, sempre na mecha e a passar calafriantes tanjas ao excelentíssimo público e ao desastre, trazia-me à cabeça o encantatório e fanhoso reclame altifalante das barulhentas motas do poço da morte, nos dias dos 16 de Maio e da Senhora de Antime, primeiro no Largo ou na Feira Velha e depois no sítio onde agora está o Pavilhão Municipal. Também ali, no campo da bola, havia "arrojo, coragem, audácia, cooommm-ple-to desprezo pela vida". E eu, palavra de honra, sempre achei que o Generoso, pela sua saúde, devia jogar de capacete...

O grande Generoso, parece que ainda o estou a ver. José Carlos Generoso, que passou por Braga como um cometa na época 1973/74 e faleceu em Setembro de 2021, com 77 anos.

sábado, 31 de janeiro de 2026

O Senhor Manuel Duarte

Foto Carlos Barroso/Record

De categoria
Ser "de categoria" era ser de altíssima qualidade, excepcionalmente bom, de um nível superior. E havia pessoas assim.

Quero contar-vos duas ou três coisas sobre um fafense excelentíssimo. Manuel Almeida Duarte chegou a Fafe em 1972, andaria pelos seus 27 anos de idade. Era futebolista. Vinha do Varzim para jogar pela nossa AD Fafe, por nós, e era uma lenda. Formara-se na Académica, jogara também no Leixões, no Sporting e no FC Porto, mas a grande aura que o rodeava derivava do facto de ele ter integrado a célebre selecção portuguesa que conquistou o terceiro lugar no Mundial de 1966, em Inglaterra. Ao lado de Eusébio, Coluna, Vicente, Simões, Hilário, Torres, José Augusto e outros colossos. Sim, Manuel Duarte era Magriço.
E era um jogador caro, para as modestas posses da AD Fafe. Apesar de ter vindo do Varzim, Manuel Duarte mantinha vínculo contratual com o FC Porto, que suportava parte do seu ordenado. Quando a ligação aos portistas cessou, o equilíbrio financeiro foi encontrado com um segundo emprego. A grande estrela de futebol começou a trabalhar como "fiel de armazém" na estamparia Marigam, de Moisés Teixeira, que era então o presidente da AD Fafe. E não lhe caíram os parentes na lama.
Posso estar enganado, mas creio que foi assim que as coisas se passaram.
Com o seu invejável currículo debaixo do braço, Manuel Duarte poderia ter sido um indivíduo vaidoso, sobranceiro, inatingível, intratável, um estoura-vergas, um bronco. Mas era exactamente o contrário. Era uma pessoa culta, educada, elegante, recatada, gentil, modesta, um homem de família, marido e pai. Tinha classe. Era um príncipe.
O estilo nervoso do seu futebol contrastava flagrantemente com a pessoa calma que ele fazia questão de ser, ainda que às vezes lhe custasse. E ao juízo da generalidade dos fafenses, digo-o porque a sua memória merece que se diga a verdade, Manuel Duarte era muito mais consensual como pessoa, isto é, como cidadão, do que como jogador de futebol, amiúde incompreendido e mal-amado. Em todo o caso, devo acrescentar que nunca na vida vi em campo alguém mais generoso, mais esforçado, mais disponível, mais entregue ao jogo e à sua equipa do que Manuel Duarte no meu Fafe. Era um profissional de mão cheia, um exemplo para os colegas, novos ou velhos. Tanto que, no tempo em que não havia adjuntos, foi ele o escolhido para começar a dar os treinos, diariamente ao fim da tarde, enquanto o velho mestre Nelo Barros não chegava do seu trabalho nos escritórios da Fábrica do Ferro.
E só agora tomo nota desta curiosa coincidência: a fábrica na vida destes dois grandes homens do futebol. Na Marigam, Manuel Duarte era mais um entre as operárias e os operários, que o adoravam. Era competente e atencioso, respeitador, simples, de humildade e bonomia desarmantes. Sei disto tudo porque um dia ele teve de deixar a fábrica, para ir treinar o Limianos, se não me engano, e eu fui substituí-lo.
Conhecíamo-nos da AD Fafe, onde eu biscatara, e coincidimos na Marigam durante um ou dois meses, não me lembro ao certo, para que o Manel me passasse a pasta. Aprendi tudo com ele e vim a perceber mais tarde que ele me ensinara tudo o que havia para ensinar sobre aquele ofício - e nem sempre se encontra este tipo de abertura e lealdade profissional. Dávamo-nos bem, entendíamo-nos às mil maravilhas, acredito que nos fizemos amigos, o Manel fez-me o mapa dos alçapões, orientou-me sobre o sitio e as pessoas, sobre o trabalho, sobre a vida. Tratávamo-nos por você, como se fôssemos iguais, ele era o Manel mas na minha cabeça eu via-o sempre como o grande senhor que ele era, o Senhor Manuel Duarte.
Vim para o Porto e uma vez encontrámo-nos no cinema, no Estúdio Foco, se bem me lembro, e aproveitámos a ocasião única para pormos a conversa em dia. Depois passaram-se os anos. Vi o Manuel Duarte mais três ou quatro vezes, em Fafe, pela Senhora de Antime. Interessante. Íamos ver passar a Senhora no mesmo sítio, no cruzamento com semáforos da minha velha rua, entre o Paredes e o Zé Manco, eu, contranatura, do lado do Palacete, e o Manel, sempre distinto, sempre Senhor Manuel Duarte, do lado do Santo Velho. O meu lado. Nunca atravessei a estrada para o abraçar, como no meu íntimo desejava. E não me atrevia, por pudor e respeito. Também por medo. Receava que o Manel não me reconhecesse, que já não se lembrasse de mim, o que me seria um enorme desgosto...
Manuel Almeida Duarte nasceu em 1945 na freguesia de Vale de Azares, concelho de Celorico da Beira, e morreu em Fafe, no dia 22 de Setembro de 2022. É um fafense excelentíssimo. Um dos fafenses mais excelentíssimos que tive o privilégio de conhecer. Fafense por direito próprio, excelentíssimo com todo o mérito.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Conhé, Kiki e Caló...

Cinco violinos
Claudio Monteverdi, Paganini, Samvel Yervinyan, Camille Berthollet e Hilary Hanh. Ou por outra: Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano.

Conhé, Kiki e Caló, Faustino e Barnabé, Cláudio e Ferreira Pinto. Assim. É assim que os trago na cabeça há mais de cinquenta anos, e digo-os, aos nomes raros, antigos e melodiosos, como se fossem poema, letra de festival da canção escrita por Ary dos Santos e cantada por Simone de Oliveira. Conhé, Kiki e Caló, Faustino e Barnabé, Cláudio e Ferreira Pinto. Já lhes apreçaram o ritmo lanceiro de lengalenga, a precisão sincopada de ladainha, a musicalidade silábica de balada sustenida? E são apenas nomes, nomes de jogadores de futebol, protagonistas de uma famosa equipa do União de Tomar em tempo de primeira divisão, na passagem da década de sessenta para a década de setenta do século XX. Depois destes sete magníficos poderiam vir, mais adiantados no terreno, como hoje se diria, o Bilreiro ou o Araújo ou o Lecas ou o Leitão ou o Alberto ou o Dui ou o Totói, que era irmão gémeo do nosso Djunga, também colega de equipa, ou outro ou outros, mas de todos estes não me lembro na velha oração que sei de cor. Tive de ir à procura...
Conhé, Kiki e Caló, Faustino e Barnabé, Cláudio e Ferreira Pinto. Assim. Os meus amigos, que são também magníficos mas menos do que sete, estão fartos de me ouvir. Já se riem de mim quando eu começo. Fazem pouco. Mas eu insisto e digo, e recito, e canto: Conhé, Kiki e Caló, Faustino e Barnabé, Cláudio e Ferreira Pinto. É claro, não são os Cinco Violinos do Sporting fidalgo nem a superequipa do imparável Benfica da década de sessenta. Tampouco são o saudoso Belenenses de Vicente e Matateu ou aquela linha recuado do FC Porto afinada em érre e formada por Rui, Rodolfo, Ronaldo, Rolando e Guedes, só para destoar. Não são, realmente. Mas, palavra de honra, são os meus cromos preferidos.
Ainda por cima, o Cláudio, seguindo o bom exemplo do Djunga, viria depois a jogar no meu Fafe, parece-me que após passagem pelo Riopele. Creio que morou na "Torralta" praticamente a estrear e, se não me engano, era pai do Hélder e do Toni. Com os anos transformara-se em defesa central, um portento de técnica em souplesse, lento mas geralmente eficaz, imperial, suava em bica mesmo em pleno Inverno, evaporava-se em campo, era o primeiro construtor e líder da equipa, gostava de fintar os avançados adversários e fazia gala do passe de letra, inclusive na marcação de penáltis.
E para quem não sabe: os do União de Tomar eram e certamente são os nabantinos, por causa do rio Nabão, que atravessa a cidade. Ali chegou a jogar Eusébio, já preso por arames, abandonado pelo Benfica e, com todo o respeito, a estragar o final de carreira. O grande Eusébio, que eu ainda vi em campo também pelo Beira Mar e, segundo constou, quase pelo Lixa. Eusébio, muito Rei, muito King, muito Pantera Negra, mas, lamento, também não faz parte da cantilena mágica.

Portugal num guardanapo

A táctica do duplo pivô
- Ora muito bem: vamos jogar com dois pivôs, quatro caninos, três incisivos e um molar, e sobretudo com muito siso - disse o treinador aos seus rapazes. Era treinador nas horas vagas
, dentista encartado a tempo inteiro.

Por volta de 1980, Mário Wilson (1929-2016) era o seleccionador nacional e também treinador do Vitória de Guimarães, por onde passava pela segunda vez, se não me engano. No Inverno, para poupar o relvado, único, do velho e feiinho Municipal vimaranense, o Vitória vinha treinar a Fafe geralmente às quartas ou quintas-feiras, fazendo connosco o chamado jogo-treino. Connosco, quero dizer, com a Associação Desportiva de Fafe, que costumava ter uma equipa competente de segunda divisão. Eu trabalhava na AD Fafe: tratava dos papéis, de alguns inocentes papéis, é preciso que se note.
Mário Wilson era uma jóia de pessoa e foi um treinador sobretudo afectivo. Gostava de falar com os seus jogadores um a um, como em acto de confissão mas passeando, colocando-lhes o braço paternal por cima dos ombros - vi-o assim muitas vezes.
Um dia, numa daquelas quartas ou quintas-feiras, o Senhor Wilson entrou-me no minúsculo gabinete, que era por baixo das bancadas e por cima dos balneários, cumprimentou-me elegantemente como se eu fosse alguém e pediu-me se podia usar o telefone para ligar para Lisboa, para a Federação Portuguesa de Futebol. Eu teria para aí uns 21 ou 22 anos e "dei-lhe" autorização, armado em parvo como só naquela idade. Depois de conseguir resposta do lado de lá da linha, o Velho Capitão pigarreou, cofiou a icónica barbicha, foi ao bolso do casacão de cabedal, rapou de um guardanapo de papel marcado com beiçadas de verde tinto, vamos um supor, desamarrotou-o, estendeu-o em cima da minha secretária, alisou-o o melhor que pôde e começou a ditar para a capital o que lá escrevera eventualmente ao almoço. Eram nomes, uma lista, a convocatória para a Selecção Nacional na campanha de apuramento falhado para o Europeu de 1980, em Itália. Exactamente: a Selecção de Portugal estava no guardanapo de Mário Wilson...

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Sobre Artur Jorge, duas ou três "coisas bonitas"

O carregador de piano
Era uma equipa tecnicamente evoluída, formada por jogadores habilidosos e repentistas, mágicos, predestinados, futebolistas de eleição. Mas precisava evidentemente de alguém que vestisse o fato-macaco, de um carregador de piano. Aproveitando a janela de Inverno do mercado de transferências, foi contratado o Sr. Saraiva, precário da Casa da Música que costumava alombar nas deslocações da Orquestra Sinfónica do Porto.

Antigamente não havia Liga Revelação nem equipas B, tínhamos, era, às quartas-feiras à tarde, o campeonato de reservas. Nas reservas jogavam os mais fraquinhos da equipa principal, que raramente entravam em campo ao domingo, duvidosas aquisições à experiência, ex-lesionados em fase final de recuperação e jovens promessas recrutadas aos juniores para fazerem número. Não existia treinador das reservas. A equipa era, por assim dizer, orientada pelo treinador do primeiro time, que geralmente delegava num dos seus adjuntos. Lembro-me vagamente de jogos de reservas em Fafe, ainda no tempo do Campo da Granja, mas sobretudo do FC Porto, quase duas décadas mais tarde, no campo de treinos n.º 1 do Estádio das Antas, entalado entre as costas da "Maratona" e a zona de pavilhões e piscina, onde passei tardadas a ensinar portismo ao meu filho recém-nascido. Muitos dos grandes craques azuis e brancos, futuras estrelas mundiais, vi-os ali em início de carreira, ou, em todo o caso, antes da afirmação definitiva, medindo forças desiguais com as poderosíssimas equipas do Senhora da Hora, do Candal, do Infesta ou, vá lá, do Salgueiros, do Leixões ou do Boavista.
Uma vez, Artur Jorge (1946-2024) era treinador do FC Porto e foi para o banco num desses jogos de reservas. A certa altura do encontro, resolveu fazer uma substituição e deu ordens a um jogador para aquecer. O jogador, e nem lhe recordo o nome, tirou o blusão para vestir a camisola, colocou as caneleiras com adesivo e tudo, puxou as meias para os joelhos, calçou-se e estava a começar a atar os cordões das chuteiras quando o treinador olhou para trás, estendeu o dedo apontando dali para fora e mandou-o tomar banho, isto é, recolher aos balneários, assim a frio. Alteração táctica na substituição? Nada disso. Apenas castigo. Artur Jorge, que não raras vezes fazia substituições logo nos primeiros minutos de jogo, se pressentia alguém em dia não ou a dormir na forma, queria os seus homens sempre prontos para o que desse e viesse. Preparados e alerta, permanentemente disponíveis para o imediatamente. Mesmo os que ficavam no banco, que era local de trabalho. Isso. O banco de suplentes, com Artur Jorge, não era beira de piscina.

Artur Jorge era homem de poucas falas. Distante, dizia-se. Gostava de "coisas bonitas", isso sabia-se. Exigente, duro, mantinha realmente distância em relação aos seus jogadores, que fazia questão de só "conhecer" no emprego, isto é, no balneário e no campo. De resto, nada de convívio, nada de confianças. Cá fora, na vida real, até os cumprimentos só se fossem por telepatia. Era assim nas Antas, onde os vi chegar e sair, treinador e jogadores, tantas e tantas vezes, passando um pelos outros como se nem os visse. Tinha sido assim na sua época de Vitória de Guimarães, como adjunto ou treinador de campo de José Maria Pedroto (1928-1985), por volta de 1980, se não estou em erro. O Vitória vinha regulamente treinar a Fafe, às vezes, na preparação de jogos nocturnos, vinha ao final do dia, daqueles dias curtos e agrestes do antigo Inverno minhoto, acendia-se a iluminação que havia, fraquinha mas de boa vontade, e o Estádio ficava à média-luz, como se fosse casa de fado. Eu por acaso até gostava. Artur Jorge no meio do pelado, voz potente e rara, explicando a jogada, corrigindo posições, dando nas orelhas aos jogadores enregelados, e mestre Pedroto seguindo o treino da bancada, de pé, bem agasalhado, à civil, contando piadas finas para a corte babada à sua volta, palavra de honra. O deus Pedroto. Chamavam-lhe então manager. E eu achava que deviam ir chamar manager a outro...

Conta-se. Naquele tempo, os jogadores e treinadores de futebol eram pessoas livres, cidadãos inteiros, e falavam com os jornalistas sem pedir licença ao dono. Artur Jorge era então treinador do FC Porto, e um famoso jornalista pediu-lhe uma entrevista nas vésperas e a propósito de um grande jogo qualquer. Homem inteligente, culto, reflexivo, avesso ao circo da banalidade e com mais que fazer na vida, poeta, filósofo, melómano e coleccionador de arte, Artur Jorge terá dito ao jornalista para escrever o costume, aquilo que os treinadores de futebol costumam dizer nestas circunstâncias, que é sempre a mesma coisa e nada. A entrevista não se fez, mas saiu. E saiu muito bem. Ou por outra. Aproveitando-se do facto de tertuliar bissextamente com Artur Jorge, o jornalista famoso abusou da confiança do então treinador do FC Porto, não lhe pediu a entrevista, não lhe fez a entrevista, não o avisou sequer da entrevista, mas a entrevista saiu. E Artur Jorge não gostou. Conta-se.
Eu conheci Artur Jorge, de vista, do lado do admirador, e conheci muito bem o famoso jornalista, do lado de dentro do ofício. A respeito da tal "entrevista", sei, das duas, qual é a versão verdadeira, sei como se passaram realmente as coisas. Mas o que é que isso interessa agora?

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Boxers, trusses e espermatozóides

A gozona
- Tem sumo de tomate?
- Mas com certeza, minha senhora...
- E os espermatozóides, safam-se?...

Um estudo de cientistas americanos publicado na revista Human Reproduction considerava que os homens que normalmente vestem boxers têm mais espermatozóides. A ideia já tem barbas, vem quase desde o tempo dos romanos, mas a palpitosa notícia foi-me então oferecida pelo nosso jornal Público, sempre atento a estas extraordinarices. Não me vou dar ao trabalho de procurar, mas tenho a certeza de que o estudo científico em questão contradiz um outro estudo científico, também americano evidentemente, que prova que os boxers prejudicam os espermatozóides. Como se sabe, os estudos científicos, sobretudo na América, tanto podem ser patrocinados por fabricantes de boxers como por fabricantes de slips - é a lei da livre concorrência, cada um puxa a brasa à sua sardinha, pelo menos no reino das cuecas.
Fixemo-nos, porém, no âmago da notícia, nos boxers. Será abusivo concluir que, se um homem com boxers tem mais espermatozóides, um homem sem cuecas de qualquer espécie tem muitos mais? E as famigeradas trusses? Sim, as trusses, como não se cansava de dizer o grande Zé Manquinho, contando e recontando as peças dos equipamentos da AD Fafe, carregando nos erres, com tanta graça, fazendo e refazendo sucessivos montinhos de roupa até que tudo batesse certo. E a tanga, como é? E o fio dental, prejudica? E um nudista a tempo inteiro, o que é que ele há-de fazer ao mais que certo excedente de espermatozóides, que às tantas até lhe saem pelas orelhas? E mulher que use boxers, como é que fica de espermatozóides?
A ciência, é o que tem, faz-nos pensar nas coisas importantes da vida.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A ordem natural das coisas

Entre linhas
O casal Antunes apresentou-se como de costume: deslumbrante, no seu habitual 4-4-2 losango.

O Paços de Ferreira de José Mota, o Rio Ave de Carlos Brito, o Vitória de Setúbal de Manuel Fernandes, o Nacional de Manuel Machado, o Aves do Professor Neca, o Boavista de Manuel José, a Académica de Vítor Manuel, o Varzim de Henrique Calisto, o Marítimo de Nelo Vingada, o Salgueiros de Filipovic, o Vitória de Guimarães de Jaime Pacheco, o Chaves de Raul Águas, o Belenenses de Marinho Peres, o Farense de Paco Fortes, o Portimonense de Vítor Oliveira, o Gil Vicente de Álvaro Magalhães, o Beira Mar de António Sousa, o Braga de Manuel Cajuda, o Felgueiras de Jorge Jesus, parece impossível, o Riopele e o Tirsense de Ferreirinha, o Infesta de Augusto Mata, o Fafe de Nelo Barros, e o FC Porto campeão. Assim eram as coisas e estava tudo certo, ninguém ia para o Brasil ou para as Arábias abanar a árvore das patacas, eu entendia-me com o futebol e era feliz. Era adepto. Agora? Agora o futebol está de pernas para o ar, chamam-lhe "o jogo" e tem polícia de choque, cordões de segurança, jaulas, petardos, periodizações tácticas e claques profissionais, bandidas e amiúde assassinas, os treinadores duram dois ou três jogos, ninguém é de ninguém, o meu Fafe anda pela terceira divisão, o Sporting foi campeão, rebentaram com o FC Porto e eu também já não estou grande coisa...

Mestre Nelo Barros

Tácticas
- Olhe que eu meto-lhe um processo!
- Defensivo ou ofensivo?
- De transição...

Tive a sorte de conhecer Nelo Barros. Manuel Coelho de Barros (1917-2007) foi um grande treinador de futebol e um mestre de treinadores de futebol. Nunca fez primeiras páginas de jornais, porque sempre se recusou a deixar o emprego no escritório da que era então a maior fábrica de Fafe e uma das maiores do País. Equipas da 1.ª divisão chamavam por ele, ano após ano, pediam-lhe disponibilidade total, trabalho a tempo inteiro, mas ele nunca quis ir por aí. O Nelinho era assim.
Pessoa excelentíssima, homem elegante, distinto, culto, carismático, Nelo Barros era reconhecidamente um catedrático da táctica, sabia muito de bola e dava gosto ouvi-lo falar de futebol. Ele entusiasmava-se e entusiasmava. O futebol de Nelo Barros tinha pessoas e histórias dentro. O futebol contado por Nelo Barros era simples, percebia-se à primeira vista, batia certo, era lindo!
Uma noite, no velho salão dos Bombeiros, então ainda instalados na Rua José Cardoso Vieira de Castro, entre os dois palacetes, o mestre encantou uma plateia à pinha que o foi ouvir falar de desporto e de futebol, de jogadores e de jogos, de treinadores e de tácticas, como nunca se tinha ouvido falar por estas bandas. O Nelinho falou como de costume, sem tabus, sem grandes teorias, sem peneiras, falou simples mas com convicção. Até eu, que era um rapazola, entendi tudo. E fiquei a gostar ainda mais de futebol.
Perguntaram-lhe o que é que era preciso para se ser um bom treinador. Nelo Barros, provavelmente um dos melhores treinadores portugueses de todos os tempos, respondeu assim lapidarmente, que esta cá me ficou: "Não há bons treinadores. Os bons jogadores é que fazem os bons treinadores". E depois desenvolveu, desmontou a aparente contradição, mas nem era preciso.
Eu gostava tanto de ouvir Nelo Barros, que ia assistir a todos os treinos, que eram sempre ao fim da tarde, por causa do tal emprego do treinador na fábrica. Uma vez, o jogo em preparação era contra o Riopele. E digo contra de propósito, porque aquele era um tempo de rivalidades à moda antiga, dentro e fora do campo, acabando quase sempre tudo à trolha.
Mas, voltando ao treino, o Nelinho reuniu os jogadores à sua volta e deu a táctica. E eu por perto, de radar ligado. Fiquei deslumbrado: eram indicações precisas para cada um dos jogadores, para o funcionamento da defesa, para o desempenho do meio-campo, para o trabalho dos avançados, para as movimentações da equipa como um todo, as trocas, as compensações, até o Berto Magalhães ia jogar como médio vadio para secar os criativos riopelenses. O Berto era um suplente muito fraquinho, mas generoso e com um pulmão se faz favor, para além disso mandava-me cá um bigode que metia realmente respeito. Nas palavras do mestre, tudo encaixava, tudo fazia sentido. E tudo dito com tanta certeza, que no domingo só podia dar certo.
Mas não deu. Do outro lado estava uma equipa poderosíssima, histórica. Se a memória não me atraiçoa, no Riopele jogariam, por essa altura, o Piruta, o Vital, o Barros, o Albano, o João e o Luís Pereira, todos craques, treinados por outro que também a sabia toda: Ferreirinha. Saímos de Pousada de Saramago vergados a uma pesada derrota, já não sei por quantos, mas eu não perdi a fé no nosso Nelo Barros. Pelo contrário. Na humilhação da goleada, aprendi a beleza original do futebol, tal como o mestre o ensinava: onze contra onze e uma bola que é redonda. O resto é treta.

Hoje, uma nova raça de treinadores, colunistas, comentadores, ex-treinadores-comentadores e ex-comentadores-treinadores, todos paineleiros enfim, quer fazer-nos acreditar que o futebol é praticamente uma ciência oculta, só percebida por uns poucos predestinados que, modéstia à parte, são eles próprios. E inventam palavras e expressões para complicar o que é simples. E já não há bola nem futebol. Eles, que sabem inglês, "inventaram" o jogo. O jogo. Pois, pela parte que me cabe, parabéns à prima! Sou um simples já com razoável uso. E tenho é saudades de ouvir o Nelinho, treinador e cavalheiro, a falar de bola. De bola simplesmente.

domingo, 25 de janeiro de 2026

Os Dalton eram da claque

Domínio de bala
Apertado, o adversário disparou à queima-roupa e ele, cheio de classe, dominou a bala com o peito e rematou de bicicleta, deixando-se cair. Golo!, gritou o estádio de pé, em comovido delírio. Foi realmente um funeral muito bonito.

Os irmãos Dalton eram oito, quatro de cada vez. Começaram por ser Bob, Grat, Bill e Emmet, mas morreram, faz de conta, e foram substituídos pelos primos mais à mão, os impagáveis Joe, William, Jack e Averell. Estes quatro eram bastante filhos da mãe, da Mãe Dalton, vestiam-se às risquinhas amarelas e pretas como se fossem uma extravagante claque da AD Fafe, deslocavam-se em escadinha, sempre do mais pequeno para o maior ou vice-versa, e Lucky Luke fazia-lhes a vida negra.
Houve também o bando dos Dalton a sério (à séria, se lido em Lisboa). Eram especialistas em bancos e comboios, actuaram com assinalável sucesso no Velho Oeste americano entre 1890 e 1892 e chamavam-se Tim Evans, Bob Dalton, Grat Dalton e Dick Broadwell. Foram abatidos pela polícia durante o assalto a uma dependência bancária em Coffeyville, Kansas, e tiveram todos um lindo enterro.
Há ainda a registar os cosméticos Dalton, marinhos segundo dizem, Dalton Trumbo, tão excelente quanto controverso romancista e argumentista norte-americano, Timothy Dalton, aquele actor galês e fraquinho que fez por engano dois 007, o Dalton Ico e o Dalton Trevisan (1925-2024), famoso escritor brasileiro entendido em vampiros e ganhador dos prémios Camões e Machado de Assis, entre outros. O mais destacado membro da família terá sido, no entanto, o cientista inglês John Dalton (1766-1844), químico, meteorologista e físico, um dos primeiros a defender que a matéria é feita de pequenos nadas, os átomos, e inventor da "lei das proporções múltiplas", melhor chamada Lei de Dalton, evidentemente para não se confundir com a Lei de Ohm.