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domingo, 30 de agosto de 2026

Um tubarão na sopa

Ambos os dois
A minha sogra tinha 87 anos e padecia de um apetite voraz. Prato, sopa e sobremesa em quantidades que eu aqui não digo para evitar a abertura de um conflito diplomático com a Somália. Digamos apenas que a minha sogra era uma multidão a comer. Certo dia perguntei-lhe:
- E agora, quer fruta ou bolo?
- Pode ser - respondeu-me a minha sogra.
- Pode ser o quê? - insisti, até porque a minha sogra é um bocadinho surda quando quer.
- Fruta e bolo - esclareceu a minha sogra, sem sequer olhar para mim.
A minha sogra tem actualmente 94 anos. E continua a bombar.

Parecendo que não, isto interessa muito a Fafe, agora que Fafe tem o oceano da Barragem de Queimadela. Era uma notícia e a notícia tinha um título. O título tinha tudo para ser um bom título, tirando o facto de ser um título de merda. Dizia o jornal de referência: "Vale mais um tubarão no mar do que na sopa". Um tubarão na sopa? Um tubarão? Com cabeça e tudo? Ou a cabeça é para cozer à parte, com grão? Desculpai-me que meta o bedelho, mas chamar a mosca ao assunto não seria mais credível? Quero eu dizer: mais vale uma mosca no ar do que na sopa. Isto é que está certo, ou não? É que os nossos pratos, ainda que peguemos nos sopeiros, ainda do tempo do Mário da Louça, são muito pequeninos. E cada vez mais. Por causa dos tubarões - os outros.
Resumindo e concluindo: hoje é Dia Internacional do Tubarão-Baleia, e, olhai, bom proveito!...

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Então és tu, minha porca?!...

Meia dose de xenofobia
A chinesinha descia a rua em direcção à praia, e levava o cão pela trela. Achei aquilo tão esquisito! Como se eu levasse a passear um frango de churrasco...

Todos os santos dias, não sei se por promessa, havia um canídeo que, com vossa licença, cagava ao portão da minha sogra. Todos os santos dias. Ficava ali aquele montinho de merda, com vossa licença, às vezes dois ou três montinhos de merda, com vossa licença, ou quatro ou cinco, passeio adiante e organizados em filinha pirilau, porque o alegado canídeo devia ser animal para comer à tripa-forra e evacuava, com vossa licença, geometricamente organizado e por ordem alfabética.
A minha sogra, que me dirigia uma certa osga, cismava que era eu, para lhe fazer desfeita não sei de quê. E não foi fácil convencê-la de que aqueles saralhotos, com vossa licença, eram evidentemente souveniers de canídeo. E eu sou balança.
Uma vez quase apanhei o infractor com as calças na mão: a merda, com vossa licença, ainda a fumegar, mas o canídeo já a descer o fim da rua com a dona pela trela, e, dissesse eu o que dissesse, estaria a falar para a central. Calei-me, portanto.
Portanto, calei-me, mas pus-me à tabela, agarrei-me ao Excel, recolhi e cruzei informações, fiz um horário e aqui atrasado apanhei-os em flagrante. À horinha, nem mais cedo nem mais tarde, como diria o meu querido tio Zé da Bomba, abri de rompante o portão e lá estava a acontecer à minha frente: merda ao vivo, como eu previa e com vossa licença.
Fiz a cara de nojo que trazia ensaiada há mais de um ano, e disse:
- Então és tu, minha porca?!...
- Não é uma cadela, é um cão... - empertigou-se-me a dona, histericamente professoral.
- Mas eu não estava a falar para o canídeo, minha senhora... - disse eu, e fechei outra vez o portão, antes que ela percebesse.

domingo, 23 de agosto de 2026

Há mulheres assim, insatisfeitas

Apaixonados pelo telemóvel
Eu não percebo porque é que ele leva a namorada a almoçar. Ele também leva o telemóvel. Eu não percebo porque é que ela leva o namorado a almoçar. Ela também leva o telemóvel. Ele e ela, à mesa, ignorantes um do outro, calados um contra o outro, passam o almoço de mãos dadas. Mãos dadas ao telemóvel, ele ao dele, ela ao dela. E nem sequer ligam um ao outro.

O Dias fazia anos. E foi celebrar ao famoso restaurante. O Dias mais a namorada, e digo que era namorada porque a senhora fartava-se de chamar "ó mor" ao Dias e se lhe fosse nomeadamente esposa chamar-lhe-ia outra coisa, isso tirava-se pela pinta. O Dias mais a namorada, portanto, apadrinhados por outros dois casais amigos e cúmplices, percebia-se, de velhas aventuras pelo menos gastronómicas. Um belo grupo: seis convivas praticamente vetustos mas, é preciso que se note, em razoável estado de conservação. O Dias fazia certamente 75 anos porque não se cansava de repetir que fazia 57 e bastava olhar para ele para se catrapiscar logo a pilhéria. Imagino o forrobodó que não terá sido quando ele fez 69! O Dias vestia um impecável casaco vermelho amaranto sobremaneira alusivo à efeméride e absolutamente adequado, caso, nunca se sabe, fosse necessário, por exemplo, dar uma mãozinha ao serviço.
O Dias é que mandava, e mandava muito alto, porque ele, avisou, é que ia pagar. Mandou vir Alvarinho, "para começar", e encomendou três doses de bacalhau assado. Fez muito bem. Aquele restaurante prepara, de facto, o melhor bacalhau assado do mundo. Vieram duas travessas, esplendidamente servidas: uma, enorme, com duas doses, e outra, normal, com a outra dose, tudo ao mesmo tempo. Informa-se, a propósito, que uma dose de bacalhau dá para duas pessoas que comam muito e ainda cresce. Que se segue? Comeu-se e bebeu-se ali com considerável galhardia, que apetite não faltava àqueles seis, Deus os abençoe. A travessa grande ficou vazia, na travessa normal sobrou uma lasca mínima de bacalhau, da parte mais fina.
Passou o proprietário do estabelecimento, o Sr. A., na sua sacramental ronda por todas as mesas, e, à vista de tamanha limpeza, perguntou, como sempre faz questão de perguntar, satisfeito e simpático: - O bacalhauzinho estava bom?...
Que sim. "Excelente!", "Uma maravilha!", "Não podia estar melhor!", "Fantástico!", "Divinal!" - disseram todos à uma mas cada um à sua. Todos, menos a namorada do Dias, que se batera ferozmente com a dose singela e pediu licença para falar à parte, perante o evidente embaraço e os maldisfarçados safanões dos outros cinco, inclusive o Dias, que a mandava calar, mas sem efeito.
- Sou muito franca! - começou ela. - Eu não digo o que não é, só para agradar, e o meu bacalhau estava deslavado, desenxabido... - sentenciou.
O Sr. A. encaixou, pediu desculpa, explicou, que isto, com as toneladas de bacalhau que ali se demolham semanalmente, às vezes pode acontecer, porque o bacalhau é um material muito ingrato de trabalhar, só na mesa é que se lhe pode tirar a prova dos noves, mas tudo se resolve e ia mandar servir uma nova posta, oferta da casa, e não se fala mais nisso.
Que não. Que não era preciso, que estava tudo muito bem, ela é que tem a mania, atiraram os outros, manifestamente envergonhados. Mas o Sr. A. insistia. E eles, que não. E o Sr. A., que sim. E eles, que não. Que sim. Que não. Que sim. Até que o Dias, reassumindo corajosamente o controlo da mesa e da situação, sugeriu, como quem faz um favor à casa, que só se fosse uma dose de costelinha, em vez da posta de bacalhau...
E sugeriu muito bem. Porque aquele restaurante também prepara, de facto, as melhores costelas assadas do mundo. E de borla, então nem se fala. Pois vieram as costelinhas, desapareceram num lampo, as batatas fritas também, e toda a gente acabou lambendo os beiços. Toda a gente menos a namorada do Dias, que continuava inconsolada, lamentosa, protestando agora derivado aos ossos. Isso, as costelas tinham osso, eram ossos praticamente, ossos rodeados por um pouco de carne, como, por definição, devem ser as costelas, gastronomicamente falando, mas a senhora decerto confundiu costelas com costeletas, sei lá eu, e ainda bem que Deus não se enganou no tempo de Adão e Eva. Em todo o caso: as coisas são como são, e a verdade acima de tudo, as costelas tinham osso, doa a quem doer. E sendo a namorada do Dias a pessoa franca que é, não podia realmente deixar passar em claro um escândalo de semelhante dimensão.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Eles sabem tudo e não deixam nada

Filosofices
Era um homem culto. Aliás, costumava dizer: não me descartes, não me aristóteles, não me sócrates, não me parménides, não me pitágoras, não me diógenes, não me tales de mileto e assim sucessivamente...

Os que sabem tudo sobre futebol são os mesmos que sabem tudo sobre política, os mesmos que sabem tudo sobre cultura, os mesmos que sabem tudo sobre agricultura, os mesmos que sabem tudo sobre incêndios florestais, os mesmos que sabem tudo sobre justiça, os mesmos que sabem tudo sobre economia, os mesmos que sabem tudo sobre corrupção, os mesmos que sabem tudo sobre molduras penais, os mesmos que sabem tudo sobre racismo, os mesmos que sabem tudo sobre identidade de género, os mesmos que sabem tudo sobre saúde, os mesmos que sabem tudo sobre guerra, os mesmos que sabem tudo sobre poeiras africanas, os mesmos que sabem tudo sobre judeus sefarditas, os mesmos que sabem tudo sobre gastronomia, os mesmos que sabem tudo sobre limites do humor, os mesmos que sabem tudo sobre violência doméstica, os mesmos que sabem tudo sobre mudança da hora. Os mesmos que sabem tudo sobre saber tudo de tudo. Sempre os mesmos. Olhai bem para as vossas televisões, de manhã à noite, aquilo é que é sabedoria. Fosga-se, parecem barbeiros! Como se dizia antigamente na minha terra, e sem ofensa para os presentes, vá lá saber tudo ao caralho...

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Os meus óculos de sol

Onde é que eu vou?
A minha mulher vestiu o meu roupão, vi-a sair mansamente do quarto, e pensei: - Porra!, onde é que eu vou, assim pequenino, que estava tão bem aqui na cama?...

Não sei quem sou por dentro de mim. Olho-me no espelho do quarto de banho, ali não tenho por onde fugir, e vejo-me apenas por fora. O espelho do quarto de banho é o meu espelho único, há que anos. Tento ser sincero com ele, justo comigo mesmo, olho-me olhos nos olhos mas só vejo os olhos que olham para mim. Vejo que os olhos que me olham vêem um velho turvo, baço, perplexo, talvez tonto, talvez zorro, eventualmente aiô Silver, tudo negro à minha volta. É esta mania de andar de óculos de sol dentro de casa...

terça-feira, 11 de agosto de 2026

A Póvoa agora é em Fafe

Vá ver a neve, antes que ela apareça
A melhor altura para ir ver a neve à serra da Estrela, acho eu, é agora, no Verão, se possível em pleno Agosto, quanto mais sol, melhor. Não há neve, mas pode-se passar.

É extraordinário o que se passa em Fafe por estes dias. Finalmente sem precisar da Póvoa de Varzim para nada, quem havia de dizer, Fafe tem a sua própria época balnear, de papel passado, reconhecida pelo notário, anunciada em edital, com bandeira e diploma, talvez até com batata frita à inglesa, bolas de Berlim, língua da sogra e caladinhos, nadadores-salvadores, mirones, pedintes e carteiristas. Serviço completo. Que coisa tão estranha para um tipo antigo como eu! Sobral de Monte Agraço teve, à altura, o seu parque infantil, que saiu no Tide e dava na televisão, e Fafe agora também tem época balnear, como os outros brasis e algarves da concorrência, sem lhes ficar muito atrás. Que sainete! Foi preciso esperar pelo século XXI, aguentar pacientemente as patifarias das alterações climáticas, inclusive correntes de ar, mas valeu a pena: Fafe está realmente mais fresco.
O meu irmão Nelo bem dizia, em pequeno, que, quando fosse grande, ia mandar construir uma praia em Fafe, uma praia com mar e tudo. E a verdade é só uma. Não foi o nosso Nelo, por acaso, mas alguém a construiu, e em boa hora, ela aí está, a praia da Barragem de Queimadela, ele aí está, o nosso mar, o sexto oceano, aberto ao expediente e em glorioso funcionamento. O nome "de Queimadela", para praia, se calhar não será o mais feliz, o mais acolhedor, por assim dizer, antes pelo contrário, mas, pronto, já constava, vinha de trás e, portanto, não havia volta a dar, esqueçamos o pormenor. Qualquer dia, estamos mas é a receber camionetas de poveiros, que vêm à procura do que é bom.
Para mim, no meu tempo, antes da construção do nosso mar, Fafe tinha três esplêndidas estâncias balneares: o Poço da Moçarada, em Docim, o Comporte, na Fábrica do Ferro, e Calvelos, em Golães, pelos campos de Sá, atravessando a linha do comboio. Eu e os rios éramos unha com carne. O rio São Roque, no Poço da Moçarada, explorando montes e leiras, com as suas belas cachoeiras e penedos polidos pela apressada e antiga passagem da água, foi onde aprendi a nadar, a fumar e várias outras parvoíces, mas nunca tive coragem para me atirar sequer do "segundo penedo", quanto mais do "terceiro", lá nas alturas do céu. O rio Ferro, mais à mão, no Comporte, secando ao sol no pequeno areal junto ao pontão que ligava ao Bairro de Antime. O rio Vizela, em Calvelos, uma curva selvagem, escondida no meio de impenetráveis milheirais, silvedos jurássicas e outra vegetação manifestamente africana, eu, palavra de honra, ouvia batuques ao longe e via macacos saltando de choupo em choupo, como se fossem artistas de circo, trapezistas voadores evadidos da Feira Velha. Três oásis que eu, na minha boa fé ou ingenuidade infantil, supunha longínquos, praticamente inacessíveis e secretos. Sítios de banhos, puros e duros, sem facilidades, só para homens de barba rija. E nós, os putos, sorrateiramente desenfiados, lingrinhas de pé descalço e pila ao léu, autoprojectos assumidos de futuros ecoturistas, hippies sem sequer fazermos ideia, íamos para lá treinar para a Póvoa de que ouvíamos falar, porque algum dia havia de ser. O pior era a minha mãe, que parecia que tinha radar e, uma desgraça nunca vem só, sabia sempre por onde é que eu andava e o que fazia. E, portanto, ia-me buscar. Pelas orelhas. Eu chorava e prometia que nunca mais, pelo menos até à tarde do dia seguinte.
Eu sou, aliás, especialista em épocas e instalações balneares. Não ouso colocar Fafe no topo da lista nacional de estâncias termais, seria porventura um exagero, e eu não sou disso, mas a verdade é que conheci muito bem os balneários do Campo da Granja e ainda cheguei a entrar nos balneários do Campo de São Jorge, então já oficialmente desactivado, mas funcional para jogos escolares ou de solteiros contra casados. Eu seria miúdo de escola primária. Três ou quatro anos depois, quando o Estádio começou a ser construído, nas vésperas da década de setenta, os vestiários foram provisoriamente montados na cave do quartel dos Bombeiros e eu passei a ser freguês diário do Senhor Zé Manquinho, o roupeiro dos roupeiros, numa amizade sem fim. Como decerto sabeis, eu era neto do quarteleiro, estava sempre ali de plantão, era só descer as escadas. Nas férias do seminário, não tínhamos água quente em casa, e era no balneário da AD Fafe que eu tomava banho duas ou três vezes por semana, antes dos jogadores chegarem para os treinos e sem estorvar o despacho. Levava toalhão, sabonete e roupa interior para mudar. Por sugestão do Senhor Zé Manquinho, eu era conhecido nas catacumbas como "o homem que adormece no chuveiro", tamanho era o prazer que o duche me dava e o tempo que eu lá passava, debaixo de água, nem sei como é que nunca engelhei da cabeça aos pés. Era uma espécie de Homem da Atlântida ou Aquaman, mas às pinguinhas.
Com o banho, eu tinha direito a uma bebida. Isto é, não tinha direito a bebida nenhuma, mas fazia-me e ela. Inventava um ligeiro afrontamento, queixava-me de uma pontada de azia, e o Senhor Zé já sabia. Mandava-me esperar pelo João Americano, o massagista, o único que tinha a chave da "Farmácia", palavra escrita a esferográfica azul no adesivo colado na testa do pequeno armário branco e vidrado com três prateleiras que era a própria "Farmácia" e pouco maior do que uma mesinha-de-cabeceira. O João chegava da fábrica, gozava comigo, falava muito alto, esganiçado, parecia a cantadeira de um rancho folclórico, mas também já sabia: dava-me um copo de água com uma colher de "sais de fruto", Eno, se bem me lembro, eu adorava aqueles piquinhos, bebia regalado, uma, duas goladas sem deixar cair, arrotava com toda a categoria e, boa tarde e muito obrigado, estava pronto, estava feito.
Admito que foi ali que o João Americano, o Senhor Zé Manquinho e eu inventámos o spa com champanhe, conceito hoje em dia tão coisa e tal, mas evidentemente não sabíamos.

sábado, 8 de agosto de 2026

Ele até sabia de queijos!

Super Pop Limão Reserva 2017
Era um escanção com um paladar e um olfacto apuradíssimos, premiados. Até adivinhava o detergente que lavara os copos...

Ele tinha brilhado durante toda a refeição, sem dar vez, falando de boca cheia sobre vinhos, sobre o seu extraordinário conhecimento a propósito de vinhos. De boca cheia de comida e de muitos caralhos e de diversos foda-se e de um que outro puta que pariu, mastigando e bojardando simultânea e sonoramente, expulsando amiúde alguns bocaditos de carne e batata frita, coisa de nada, pequenas migalhas como projécteis. "Vinho? Vinho bom, vinho excelente, arranjo eu no supermercado a menos de um euro a garrafa, arranjo-lhe quantas garrafas quiser, é quantas garrafas quiser!", dizia ele e tornava a dizer, tentando, sem sucesso, convencer a sogra e o sogro, em frente e sem guarda-chuva, perante o evidente orgulho da esposa, ao lado e olhando à volta, esperando talvez aplausos, ou então seria apenas desconforto, vergonha.
O jovem comensal brilhava, portanto, a grande altura. Dominava realmente a pantera. E vestia uma camisola de um azul duvidoso que dizia à frente, em letras gordas, BOSS. Ele sabia que já tinha conquistado a sala, pelo menos a mim, na mesa contígua, não sou cego nem surdo e era-me impossível escapar ao espectáculo. Ele tinha-me na mão. Resolveu, então, encerrar com chave de ouro a performance e o almoço, mandando vir queijo para sobremesa e aproveitando a oportunidade para voltar a exibir os seus dotes de conhecedor, de especialista. Exigente, pediu informações a respeito do queijo, porque para ele não podia ser um queijo qualquer. Perguntou se o queijo era flamengo ou era Limiano, foi isso mesmo que perguntou, assim, porque, a verdade também era só uma, como passou a explicar, ele não gosta de queijo flamengo, nem o pode ver, quanto mais comer. Flamengo, nunca! Gosta muito é do queijo Limiano, isso sim, "daquele de bola, com buraquinhos", fez questão de especificar, como um verdadeiro fromager.
O funcionário do restaurante informou que o queijo da casa era por acaso desse, do bom, queijo Limiano, do de bola, o queijo veio, foi comido com marmelada e toda a gente ficou satisfeita. Evidentemente, o queijo Limiano de bola é queijo flamengo, qualquer um sabe, mas isso são pormenores que só interessam a pessoas que, como eu, não percebem nada de queijo.
E então lembrei-me, a este respeito, do querido Sérgio Lopes, honesto apreciador de sandes de queijo e um dos maiores e mais cristalinos amigos que deixei em Fafe.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Querem é sexo

Raros prazeres da velhice
Acordou com uma magnífica erecção. Magnífica não porque exuberante, mas apenas porque erecção.

Sou muito procurado por causa de sexo. É verdade: centenas de visitantes dos meu blogues - Tarrenego!, Fafismos e Mistérios de Fafe - entram aqui pela primeira vez porque pesquisam na Net palavras-chave tão atesoadas e cheias de segundas intenções como "belas e perigosas", "foder no parque", "a bela foda", "o bitó tinha uma gaita", "mamas", "amantes", "portuguesas malucas", "portuguesas perigosas", "comendo a tia safadinha", palavra de honra, "putas", "prostitutas", "sexo" ou... "padres de Viana do Castelo". Ou então esgotam-me os 69 de todas a minhas séries: Vida de cão 69, Estou mesmo a ver o filme 69, Também faço isto muito bem 69, I want to ride my bicycle 69 e assim sucessivamente. Ou então procuram "de puta madre", como se, pequeninos e freudianos, se tivessem perdido da progenitora bêbada na Senhora das Neves da Lagoa. Depois, perante o que encontram, levam com um balde de água fria no focinho, vão-se abaixo e certamente nunca mais cá voltam. Compreendo-os.

Há outros leitores, igualmente solitários e amantes dos trabalhos manuais, porém de hábitos um pouco mais arejados e produtivos (a jardinagem ou a culinária, por exemplo), que contactam comigo através de senhas como "Alberto João", "o seringador", "arroz de polvo carolino ou agulha", "esquerda caviar", "onde comer sardinhas", "Anthony Bourdain", "ah faneca!", "tomates" e "moelas de coelho". Sobretudo "moelas de coelho". Percebo também que fiquem desconsolados com o que tenho para lhes dar e não posso levar a mal o raspanete que achem por bem, embora eu não lhes faça caso. Já agora: para o polvo, arroz carolino. Foda é o cordeiro assado no forno em Monção. E é claro que os coelhos não têm moelas, mas o meu amigo Peixoto, em Fafe, cozinhava-as muito bem.
Quase que só sobram então os americanos, os russos e os alemães, que são sempre os primeiros a chegar e, honra lhes seja, não me largam. E é muito fácil mantê-los interessados. Basta-me meter um texto qualquer com uma ou mais destas inocentes palavras: "terrorismo", "EUA", "Putin", "Trump", outro que o que quer é sexo, "Obama", "Biden", "Saddam Hussein", "Al-Qaeda", "Estado Islâmico", "Israel", "Afeganistão", "Irão", ainda que do verbo ir, "Merkel", "Papa", "armas" ou "Bomba", ainda que seja o nome da nossa família, o meu ou o do meu avô, e meia dúzia de segundos depois já cá estão eles a bater-me à porta. É automático.
O que eles querem, sei eu. No fundo, anda tudo ao mesmo: querem sexo, como os das "mamas" e das "prostitutas". Querem ver se me fodem, com licença da palavra. Mas também vêm ao engano.

(E depois há os casos que podem ser sérios. Como ainda aqui atrasado, quando alguém cai no Tarrenego! com a terrível conjugação de palavras-chave "quero denunciar o meu pai que me maltrata". Peço desculpa pela inadvertida pista falsa e espero sinceramente que quem estava aflito, se assim era, tenha encontrado noutro sítio, nos sítios certos, que os há, a ajuda de que precisava.)

sábado, 1 de agosto de 2026

Emes para que vos quero?

O princípio da sabedoria
O princípio da sabedoria é a letra esse. Essa é que é essa.

É impressionante a quantidade de palavras da língua portuguesa que usam escusadamente um eme final. Isso, um mê no fim. O eme que se escreve mas não se lê. Podia passar aqui o dia inteiro a dar exemplos uns atrás dos outros - abrevio, porém, dando seis, como os dedos de uma mão mais um, e sem sair da rima: rodage, vantage, viage, sabotage, calibrage, portage, arage, garage. E afinal são oito, os dedos de uma mão mais três da outra. Para que é que estas palavras precisam do eme no fim se o eme no fim não se diz? Alguém diz Base das Lajens? É só despesa! E logo a letra eme, a das três perninhas, tantas perninhas, menos duas apenas do que as cinco patas do cavalo.
O eme, faço notar, que, ainda por cima, é a letra minúscula mais obesa do nosso abecedário. Um escândalo! Uma evidente desnecessidade e um tremendo desperdício de espaço num país com somente noventa e dois mil quilómetros quadrados. Os fiscais das palavras não andam de metro e muito menos de camioneta. Decerto nem saem à rua. Não falam com pessoas, nunca vieram ao Minho, nunca estiveram em Fafe. Ou, se calhar, faltou-lhes corage para cortar a direito. Hão-de ir longem...

terça-feira, 28 de julho de 2026

Com tomates até às orelhas

O grande reclamador
Reclamava Camões, reclamava Pessoa, reclamava Sophia, reclamava Eugénio, reclamava Drummond, reclamava Vinicius, reclamava Baudelaire, reclamava Lorca e reclamava Neruda. Reclamava até Eliot e Shakespeare. Era, enfim, um grande reclamador.

Corria satisfatoriamente o ano de 2018, quando, do pé para a mão, o tomate pelado Guloso começou a aparecer-me com pele. Estranhei. Na minha ideia, um nudista vestido não é coisa que se apresente. Seria pudor? Frio? Questão de moda? Censura? Parvoíce do wokismo? Fiquei com a pulga atrás da orelha. Farto de ser levado na conversa, aproveitei a última década para passar de bovino come e cala a guerrilheiro da reclamação, e não me tenho dado mal. Dei-me até muito bem, por exemplo num gramático protesto enviado a uma importante cadeia de supermercados a respeito de uma lamentável alheira de caça que comprei e à qual faltava quase tudo, inclusive a cedilha.
Portanto, o que é que eu fiz? Resolvi contactar o Sr. Guloso ele próprio, perguntando-lhe, preocupado e mais respeitosamente era impossível, se por acaso não estaria o Excelentíssimo passando por alguma crise de escrotal decoro (há que chamar as coisas, neste caso os coisos, pelo nome), e aproveitei para me queixar do cada vez maior verdor e da cada vez maior acidez do produto em questão. O tomate pelado, não esqueçamos.
O meu e-mail teve resposta em quinze dias. Uma resposta profissional, simpática e, pareceu-me descortiná-la, com uma pitada de ironia no estrugido, que foi o que melhor me soube. Fui informado de que os tomates reclamados tinham sido produzidos "na campanha de 2017, que, por condições extremas do tempo (chuvas em final de Abril e Maio), se traduziu em tomate mais ácido, com menos cor e que se separa da pele com mais dificuldade."
Como forma de "atenuar a imagem menos positiva" que em mim lamentavelmente provocara, o Sr. Guloso revelou a intenção de enviar-me "um cabaz de produtos da marca, incluindo pelado da campanha de 2018, na expetativa de me "fazer chegar um tomate pelado mais condizente com o nome". E cá está a piadinha...
Obviamente, agradeci e recusei a generosa oferta, não gosto de almoços grátis, hábito antigo do velho ofício.
Agora. Estamos no ano de 2026. A Guloso celebrou no ano passado o seu octogésimo aniversário e o tomate pelado continua a chegar-me a casa com pele, verde e ácido, rigorosamente como o da famigerada e defeituosa colheita de 2017. Conclusão, das duas uma: em Portugal os anos são todos de "condições extremas do tempo (chuvas em final de Abril e Maio)", pelo menos para os tomates, ou então há quase uma década que todos os anos são 2017. O que seria extraordinário, embora eu já tenha visto algo do género num filme com Bill Murray e Andie MacDowell.
Por outro lado, fui ao calendário e descobri o uso que hei-de dar à montanha de embalagens cheias de tomate pelado Guloso que realmente não o é e que acumulei ao longo dos últimos anos na despensa por não me servirem para nada na cozinha. O Dia da Tomatina, ou Dia de La Tomatina, na cidade valenciana de Buñol, está aí à porta, na última quarta-feira de Agosto, como manda a tradição, e não perde pela demora. Estou a caminho, hermanos míos, com tomates até às orelhas. E olé!

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Uma mulher de barba rija

Idade Média
A Idade Média, ao contrário do que o próprio nome parece indicar, foram duas: a Baixa Idade Média e a Alta Idade Média. Diferenciam-se, evidentemente, pela altura.

Era a chamada mulher de barba rija. Feia, grande, cabelos espetados, seis dedos em cada mão e forte como um cavalo, sem ofensa para os presentes. E o nome, Brites de Almeida, também lhe ficava de modo, tal como um certo comportamento masculino e o bigode de que ninguém fala mas que certamente. Assim seria a Padeira de Aljubarrota, segundo a tradição popular, porém já se sabe: quem conta um conto acrescenta um ponto, e dessarte nasce o mito.
Esta padeira realmente nunca existiu. Ainda assim, a lenda liga-a à Batalha de Aljubarrota e ao massacre que se lhe teria seguido, mas que também nunca aconteceu. Brites seria a líder de um grupo de populares, tipo claque de futebol, que perseguiu os castelhanos em fuga. Brites emboscou-se, fez-lhes espera, aos desgraçados dos espanhóis, e matou com as próprias mãos uns tantos, se por acaso fosse verdade e o Benfica tivesse claques.
Nessa noite de 14 de Agosto de 1385, a padeira chegou a casa tarde e a más horas, talvez com os copos, como de costume, ou pelo menos maldisposta, e descobriu sete espanhóis escondidos no forno onde cozia o pão às sextas-feiras. Ela percebeu logo que eles eram espanhóis porque diziam muito "qué rico!", "vale, vale!", "qué tal, qué tal?" e outros nomeadamentes. Sem pestanejar, ou ainda que pestanejando derivado à farinha que andava pelo ar, Brites pegou na pá e bateu-lhes até os matar bem mortos, um atrás do outro, à medida que os infelizes iam saindo do forno gritando "olés" e tocando castanholas. Foi muito bem feito, dizem os nacionalistas, e desde esse dia glorioso e imaginário nunca mais ninguém viu a padeira em Portugal.

domingo, 26 de julho de 2026

O esperanto em português suave

A mim ninguém me leva!
Quem frequenta regularmente oftalmologistas, optometristas e oculistas, sabe muito bem: os óculos estão pela hora da morte. Um par de óculos de apenas razoável qualidade custa-nos os olhos da cara. O que se paga por uns óculos dá para comprar um carro em segunda mão. Ou, em alguns casos, até dois carros em segunda mão. E foi o que eu fiz: desisti dos óculos, que a mim ninguém me leva, peguei no dinheiro que lhes tinha destinado e adquiri pela internet uma viatura "em razoável estado de conservação e óptimo consumo". Fiquei muito bem servido. Por outro lado, não sei conduzir, o automóvel nem sequer pega e eu praticamente não vejo.

O turista estrangeiro aproximou-se do vendedor de óculos de sol de beira de praia. Era obviamente um turista estrangeiro, só eu e os turistas estrangeiros é que sabemos malvestir tão bem, nunca me engano a esse respeito. O vendedor de óculos de sol de beira de praia é português dos quatro costados, conheço-o de ginjeira, Verão atrás de Verão, monta banca todos os dias ali em baixo e quando chove é vendedor de guarda-chuvas de beira de praia. É, além disso, ambulante, mas apenas para fugir à polícia municipal, e um grande fala-barato, fala que se desunha, inclusive pelos cotovelos, é um chato, "Olha os óculos, freguês, toalhinha prà praia, olha os óculos, olha a toalhinha, óculos, toalhinha, freguês...", e faz gestos explicativos, como quem comunica com índios ou talvez com surdos. Ele também percebeu logo que o cliente era estrangeiro. Mas pensais que se atrapalhou, que se encolheu? Era o que faltava! Nós os portugueses temos connosco esta habilidade extraordinária de nos desenrascarmos sempre, seja em que situação for, cá em casa, lá fora ou pelo caminho, mesmo debaixo de água ou na estratosfera, aprendemos línguas, copiamos hábitos, camaleonizamo-nos, universalizamo-nos, se calhar nós é que inventámos o esperanto, não foi nada o polaco Ludwig Zamenhof, que por acaso também era oftalmologista. Possuímos, sem dúvida, este superpoder de desembaraço, improvisação e adaptação que tomaram muitos, até os americanos, e que fez dos portugueses assim ditos um povo das sete partidas do mundo por excelência. E nem é preciso ir mais longe: olhemos por nós abaixo, os fafenses, nesta acalorada época do ano, as nossas esplanadas rebentam pelas costuras e a língua oficial é o francês, toda a gente fala francês, mesmo quem não sabe falar francês, e até parece que estamos na Póvoa de Varzim.

Ou por outra. Era no passeio à beira-mar, mas podia ser em Cima da Arcada. Portanto, o turista estrangeiro abeirou-se do vendedor de óculos português e perguntou: - The glasses, how much?... (Estais a ver como eu tinha razão? Era ou não era um turista estrangeiro?).
E foi um clique, um cagagésimo de segundo bastou para que o rapidíssimo cérebro do nosso vendedor português mudasse o chip, fazendo um entre parênteses na língua do Camões e virando-se imediatamente para Shakespeare, para a língua inglesa. Cheio de segurança e enorme poliglotismo, respondeu ao camone, marcando ostensivamente as sílabas no mais escorreito acento oxfordiano: - Quali? Quali qui tu quieres?...

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Faltava-lhe a cedilha

Leve cinco e pague seis!!!
Ele era comprador compulsivo e fanático por promoções, adorador de sextas-feiras negras. Um relâmpago que entrava, pegava, pagava e saía das grandes, pequenas e remediadas superfícies num abrir e fechar de olhos, sem sequer dar tempo a que as câmaras de vigilância lhe tomassem sentido. Morava em Fafe e estava no céu, rodeado de hipermercados por todos os lados. Ele acreditava que 13,99 são treze e não catorze euros. Se lhe aparecesse à frente "Leve cinco e pague seis!!!", letreiro jeitoso em vermelho e amarelo rematado por veementes pontos de exclamação, ele aproveitava logo...

Fui ao supermercado e comprei uma alheira. Como acontece tantas vezes a muito boa gente, trouxe para casa um dois-em-um: a alheira propriamente dita e um grandessíssimo barrete. E reclamei. Reclamei para o fabricante, reclamei para a cadeia de supermercados, reclamei até para o provedor do cliente do grupo económico dono da cadeia de supermercados. Todos me responderam, com mais ou menos demora e as tretas do costume.
O primeiro a bater com a mão no peito até foi o fabricante. Para além de um simpático pedido de desculpas, oferecia-se para me enviar uma nova alheira: imaginei que me mandaria pelo menos meia dúzia, todas elas de qualidade cinco estrelas, mas não aceitei. Eu só queria reclamar, porque reclamar é bom, alivia a azia, desopila. E eu já estava satisfeito.
Devo dizer que, regra geral, dou-me bem com os supermercados. Pela manhãzinha, logo após a abertura, aproveitando o fresco dos balcões frigoríficos. Em todo o caso - e a quem puder interessar, para futuras demandas, ou, quem sabe, até para fazer jurisprudência -, aqui deixo, humildemente, o teor da minha bem sucedida reclamação:

Exm.ºs Senhores,
Comprei ontem na loja do [...], em [...], uma alegada "Alheira de Caça" produzida por V. Ex.ªs e pomposamente apresentada como "produto seleccionado da Terra Fria Transmontana".
A etiqueta prometia uma alheira com, nomeadamente, 40% de carne de caça (pato, perdiz e coelho), 30% de carne de porco e 20% de pão trigo.
Cozinhada e aberta, verifiquei logo, sem precisar de ir ao microscópio, que fora enganado. Carne... de grilo! Assim a olho - e comprovado na boca! -, a alheira era afinal composta por 90% de pão e 10% de gorduras diversas.
Dito de outra forma: a alheira de caça de V. Ex.ªs não trazia cedilha.
Melhores cumprimentos,
h.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Contra fatos não há argumenctos

Desorientação sexual
A verdade é só uma: ele ainda não consegue distinguir um tecto de um teto. E elas levam a mal...

Eu tenho um fato. Um. Comprei-o pronto a vestir em 1987, se não me engano, para um casamento, isso é certo, e ficava-me muito bem. O casamento para o qual eu comprei o meu fato já teve pelo menos dois divórcios, só do lado do noivo, e outras complicações. O meu fato, não. Mantém-se fiel e simples. Eu tenho um fato que é um facto à moda antiga. E nem sei se ainda me serve, sequer se estará em condições de ser vestido. Mas é o meu fato. E contra fatos não há argumenctos.

Sou esbraguilhado por opção. Ao longo de quase quarenta anos, usei o meu fato mais quatro ou cinco vezes nos casamentos de mais quatro ou cinco amigos, sobrinhos e primos, e deram também já quase todos em divórcios, num par de ocasiões solenes em Fafe, para agradar à minha mãe, que gostava de me ver todo tirone, numa excursão copofónica a Lisboa para acompanhar o Prémio Gazeta do nosso Agostinho Santos, entregue pelo Presidente Mário Soares, e numa ou duas idas à televisão para aparecer bem por dever de ofício. É, portanto, um fato praticamente novo, mas ando agora preocupado: o casaco é de trespasse. Sem chave na mão.

Para quem se interesse por estatísticas: também tenho um par de sapatos. Um. E também não sei se ainda caibo lá. De resto, é com botas e sapatilhas que me governo. E tenho quatro bonés e três mochilas.

A madama e os saralhotos

O povo a falar
Dizia o povo, e com razão: cagarim, cagarou-se, há dois modos de cagar, se o cagalhoto for grosso, fica o cu o fumegar.

Matosinhos à tarde. Sol que é um consolo. Puxado pela trela do pequeno cocker, o casal desce a rua, a minha, em direcção ao mar ali à beira. Eis senão quando, porventura desarranjado pelo strogonoff de vitela ou pelo leite-creme que lhe serviram ao almoço, o aflito canídeo arreia as calças e caga ali mesmo em pleno passeio, com evidente alívio pessoal e grande satisfação dos babados papás. Acabada a obra, a madama, higiene e civismo acima de tudo, vai à carteira de marca e retira um lenço de papel de um branco imaculado, abre-o, ao lenço casto, provavelmente perfumado, e volta a dobrá-lo, liturgicamente, agora apenas em dois, baixa-se, quase que me parece que se benze, e limpa o cu ao cão. Isso, limpa o cu do cão. Depois amarrota o papel e lança-o para junto do saralhoto. E ali fica o serviço. No meio do passeio. Do meu. E lá seguem os três para o mar e para o sol, dois deles puxados pela trela.
A autarquia agradece. Faz colecção. No brasão de Lisboa desenharam corvos, no de Matosinhos deveriam figurar saralhotos. A cidade de Matosinhos, para além de muitas coisas boas que tem, é isto: não há passeios que cheguem para tanta merda de cão. E a culpa não é do cão.

sábado, 18 de julho de 2026

Aguardente? Ouvi perfeitamente!

No reino dos eufemismos
Se o cego é invisual, então o surdo é insonoro. E o manco é impodal e o maneta é imanual.

Sabeis, uma daqueles carrinhas tipo rulote transformada em consultório para testes auditivos? Era uma dessas, logo pela manhã, e cá fora um jovem técnico vestindo bata branca, telemóvel na mão esquerda e papeleta na mão direita, afanava-se à procura de insonoros candidatos, mas sem sorte nenhuma. Eu terminava o meu footing diário e o meu caminho habitual até passava pelas traseiras da carrinha, mas de repente resolvi fazer um desvio para alegrar o dia ao diligente porém desanimado funcionário.
Fui-me a ele. Mal me viu assim nesta idade, até os olhos se lhe riram, abeirando-se-me imediata e decididamente:
- Bom dia. Então como é que estamos de audição? - perguntou ele.
- Faz favor de dizer... - disse eu.
- A audição como está? - perguntou ele.
- Desculpe, eu não... - disse eu.
- A audição. Ouve bem? - perguntou ele.
- Como disse?... - perguntei eu.
- A audição! - disse ele.
- O quê?... - perguntei eu.
- Tem uma boa audição? - perguntou ele.
Não é que eu estivesse com pressa, mas desisti, sorrindo:
- Não ligue, eu estava a brincar. O amigo não percebeu?...
- Percebi. E a audição como é que está?

quinta-feira, 16 de julho de 2026

O capacete antes de deitar

Isto das idades realmente
O quarentão é a média de todos nós. O cinquentão começa a desconfiar da vida. O sexagenário passa a constar das notícias. O septuagenário anda em contramão na auto-estrada. O octogenário é porque se safou no acidente. O nonagenário quer que os quarentões, os cinquentões os sexagenários, os septuagenários e os octogenários se fodam e refodam. O centenário só se realiza de cem em cem anos, e está certo.

Sempre gostei de me deitar no chão. Desde pequenino. O Verão em Fafe é um forno, e a nossa mãe punha-nos a dormir a sesta no chão da casa, não no chão estreme, mas por cima de um cobertor fininho e fofo, e dormíamos como anjos de barriguinha ao léu. Porque o ar rasteiro é mais fresquinho, está provado cientificamente, e a nossa mãe sabia também disso, embora nunca tivesse ouvido falar de correntes de convecções, fluidos, átomos ou moléculas.
Habituei-me. Sempre que pude na vida, dormi a minha soneca no chão do campo, do monte e até da praia, se pela fresca da manhã e com a praia só para mim. Casei e fui morar para a Foz, no Porto: a casa dos meus sogros tinha um quintal-jardim que era um mimo, e era ali que eu me estendia, no cimento do caminho ou na relva do coradoiro, em tardes e noites de suar em bica. Depois bebia uma ou duas garrafas de espadal bem fresquinho, e já estava em condições de ir para a cama...
Agora, moro há mais de trinta anos em Matosinhos, com o mar a passar-me à porta e a enrolar na areia, mas custa-me muito a deitar, ainda por cima no chão, que me fica cada vez mais longe, e preciso de um guindaste aqui do Porto de Leixões para me levantar. Mas não resisto: de quando em quando, dá-me para a toléria - é a idade -, ponho o capacete e, em quatro ou cinco movimentos muito complicados e perigosos, às vezes doze, consigo deitar-me no chão da sala, com muitos ais! e muitos uis! pelo meio, os ossos rangendo, a cabeça a ourar e a televisão ligada só para que o som me faça companhia e me disfarce os queixumes. Às tantas a Mi entra, assusta-se comigo ali esparramado no lamparquet com vinte anos de garantia e grita: - Ai, valha-me Deus, que ele morreu, coitadinho! Que é da motorizada, homem?...
E eu, de olhos fechados e mãos cruzadas sobre o peito, só me falta o terço: - Chama mas é a polícia, mulher, que a culpa foi do outro...

Moral da história: este calor, será do tempo?

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Época de incêndios, como manda a lei

No sítio errado à hora errada
Chegam os incêndios, e os bombeiros vão logo para as televisões, comentar.

De que se queixa este povo? Estamos em plena "Época de incêndios", e atenção que não fui eu quem lhe pôs o nome e a agendou para esta altura do ano - foi o Governo, foi Portugal! Portanto, estamos na "Época de incêndios", legítima, de papel passado, dentro do prazo, no tempo certo, como se fosse obrigatória, ai dela se não viesse depois do dinheiro que foi gasto, e queriam o quê? Inundações?...

domingo, 14 de junho de 2026

Capitão da areia

Foto Hernâni Von Doellinger

O poeta do sol
Ele sabia de sóis. Dizia, e era bem certo: - É efémero o sol do Algarve. Uma ou duas semanas após, e lá se foi o bronzeado...

O Sr. José Leocádio morreu, dizia o jornal. Foi em Março, há dois anos, mas talvez a notícia exagerasse. Cromos assim, tão presentes, que vazam gerações atrás de gerações, ficam-nos para sempre. Figura emblemática do Porto, almirante por conta própria, maratonista estival das praias da Foz e Matosinhos, o velho Renault estacionado na avenida e a buzina de palhaço avisando lambões no meio do areal, todas as manhãs parece que o vejo e ouço ali em baixo, no Passeio Atlântico: - Ó batata frita à inglesa, batatinha!...
Diz que tinha 82 anos, setenta dos quais no ofício de vendedor ambulante. No Inverno, estabelecia ponto de castanhas assadas, na Rotunda da Anémona, onde Porto e Matosinhos se cumprimentam com vista para o mar.
Fomos praticamente vizinhos, ele e eu, ainda que desencontrados no tempo. Isto é, morei na Rua Pêro de Alenquer, na Foz, quase em frente ao sítio onde o Sr. José tinha morado uns anos antes. Mas a Mi, que por ali nascera, frequentara-lhe a casa, em miúda. E provava sempre as batatinhas, que eram mesmo caseiras, fritas todos os dias logo desde a manhãzinha. Que boas que elas eram, as batatas antigas! Mas quê? É como tudo: o que era bom, está-se a acabar... 

sábado, 13 de junho de 2026

Pó menino e pá menina...

Esbanjador
Ele dava pérolas a porcos. E opalas a vacas leiteiras.

"Pá comida!", escreveu o jovem escultor de areia na caixinha de cartão estrategicamente colocada junto à sua mais recente criação, na praia encostada ao passeio, e já com quatro ou cinco moedas graúdas pré-depositadas. "Pó caralho!", dizia um papelinho que lá foi enfiado pouco depois não sei por quem.