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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Para a Lagoa, rapidamente e em força

Esconjuro
Disseram-lhe - Vá de metro, Satanás! E o Diabo, que até tinha passe, foi.

Fanico. Isto é, migalha, pedaço muito pequeno, lucros insignificantes, ganhos mínimos e obtidos a custo. Ou por outra, chilique, desmaio, perda momentânea dos sentidos, ataque nervoso. E ainda, prostituição.
Fanicar: andar ao fanico, andar em busca de pequenos lucros, andar na má vida, fazer da prostituição modo de vida, biscatar, perder os sentidos, desmaiar, entrar em crise, por assim dizer, histérica.
Fanicar ou fazer em fanicos era também lascar, esbotenar, partir em bocados, pôr em fanicos, cá está. No jogo do pião, havia o pião das nicas, sem real utilidade desportiva, diga-se, porque já velho e eventualmente mutilado, mas era o que servia para apanhar as penalizações da ordem, dadas geralmente com uns piões gigantes, gorilas, com bico grosso ou bico de lança. Eram fanicos aquelas pancadas, porque o pião sofredor ficava nicado, ferido, picado, quer dizer, fanicado. Era o desgraçado de serviço. Em sentido figurado, humanizado, o pião das nicas é o indivíduo em quem todos mandam e a quem todos responsabilizam, o chamado bode expiatório - e assim explicado é fácil perceber porquê.

Ora bem. Por alturas da Lagoa, quero dizer, da romaria da Senhora das Neves, na última sexta-feira antes do último sábado de Agosto, o povo de Fafe subia à serra para pôr a santa na cabeça e tirar o diabo, está lá um funcionário com essa incumbência. Do centro de Fafe ao santuário da Lagoa são pouco mais de 12 quilómetros, pelo Passadouro. O povo é tolo, mas não ia a pé. Os automóveis ainda eram um luxo em Fafe e portanto ia-se na carreira da "Empresa", que saía de uma grande garagem à beira da Igreja Matriz, mesmo em frente à Rua do Assento, do outro lado do então posto da GNR e de umas bombas de gasolina, que também lhe pertenciam, à garagem. Nessa enorme garagem, lá para os seus fundos e talvez anexos, construíram-se gloriosos carros para a Marcha Luminosa das Festas da Vila, "um espectáculo de luz, cor e som", mas isso é assunto que não vem ao caso. Era desengonçada e cinzenta a carreira, camionetas velhas e malcheirosas que, no dia da festa, faziam fanico para a Lagoa e vice-versa.
Isso, andavam ao fanico, faziam fanico, era assim que se dizia, e estamos de volta ao nosso tema, à nossa palavra antiga. Fazer fanico, para os autocarros, significava trabalhar sem horário avisado ou pré-estabelecido. As camionetas arrancavam, numa ou na outra direcção, quando estivessem cheias, a esbordar sempre que possível. Saíam da "Empresa" carregadas de gente mais ou menos sóbria, largavam a carga na Lagoa, esperavam pelo enchimento seguinte num terreiro aparelhado à pressão no meio do monte, à torreira impiedosa do sol, e regressavam a Fafe quando calhasse e a rebentar de gente regularmente bêbada da cabeça aos pés.
Era um ramerrame combinado. Iam e vinham, iam e vinham, os autocarros. Iam e vinho, iam e vinho, os passageiros.
Ao fim do dia, no desmanchar da feira, com o sol a pôr-se lá para os lados de Guimarães, o descampado enchia-se de pancadaria da grossa, famílias inteiras umas contra as outras, na batalha sanguinolenta pela entrada na camioneta prestes a sair para Fafe, às vezes a última, a derradeira sem apelo nem agravo, e depois era mesmo só a pé.
Atacava-se com tudo o que se tivesse à mão. Navalhas, pedras, chibatas, bengalas, muletas, colheres de pau, joelhos, tachos e panelas, socos e galochas, melões e melancias, garrafões vazios, açafates, quadros do anjo da guarda comprados apenas há minutos, concertinas, reco-recos, bombos e ferrinhos, num desconcerto sem dó nem piedade, e lá no meio, aproveitando a abençoada confusão, feliz da vida, o meu avô de Basto, que por acaso até ia a pé para Passos, via Várzea Cova, com a minha avó atrás, e não precisava da camioneta para nada, o meu querido Bô de Basto, estava a dizer, varria o ambiente com o varapau de lódão girando por cima da cabeça como ventoinha de helicóptero, partindo queixos em catadupa, tenteando o vinho para não cair de cangalhas e lançando aos céus o seu famoso grito de guerra - Olraitecamoniésse!

Ó meus amigos! Aquilo era um alcácer-quibir em cuecas, uma poça de sangue digna de ser vista e constada, que pena mas ainda não havia CMTV. A nossa Lagoa, juro-vos, era uma festa muito bonita! E, ainda por cima, ia-se ao fanico.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O melão do Bô da Bomba

Toda a verdade
As pessoas que nunca mentem, que as há, mentem apenas o estritamente necessário.

O melão era um acontecimento. Celebrava-se uma vez por ano, por alturas da Lagoa, se não estou em erro, e o mestre-de-cerimónias era o meu avô da Bomba, um adivinhador de melões como decerto não haveria outro de semelhante calibre nas redondezas, e quando por acaso não acertava, o que acontecia com lamentável frequência, a culpa era evidentemente do melão. Os melões, é que o têm, só se sabe se são bons depois de abertos: o meu avô nunca se enganava, os melões às vezes é que não correspondiam.
Ia-se à Lagoa por tudo e mais alguma coisa. Ia-se para pôr a santa na cabeça, para fazer a barba e cortar o cabelo nos barbeiros abancados debaixo das árvores do largo em frente ao santuário, ia-se para ver o ambiente, para apanhar icónicas borracheiras, para fazer compras escusadas, para ouvir as bandas de música, para ver a procissão, para dar um pezinho de dança, para cantar ao desafio, ia-se para empernar e apalpar rabos e mamas, ia-se por ir ou simplesmente para andar à pancada, ia-se apenas para apartar um melão, numa fugida, e era esse, enfim, o caso do Bô da Bomba.
Em casa, nos Bombeiros, eram chamados os maiores especialistas em melão de Fafe, isto é, os três ou quatro melhores amigos do meu avô, os do costume, os mesmos que também eram os maiores especialistas em canários e pintassilgos de Fafe. A avó punha a mesa como um altar, só para homens. O melão ao meio, resplandecente e prometedor, qual sacrário por revelar.
Fazia-se silêncio. Sentia-se uma certa comoção na sala. Como seria este ano? O avô tomava a faca num gesto largo, teatral, levantava-se, suspirava e abria o melão. Oh!... Havia uma primeira reacção, ao som, à cor, ao sumo, ao cheiro, eram peritos realmente, abanavam a cabeça, reviravam os olhos, trocavam monossílabos lá de entendidos, e seguiam para a prova propriamente dita, da boca para dentro, e que sim senhor, e que nem mais cedo nem mais tarde, maduro no ponto, apimentado, uma especialidade, um assombre, uma primeirinha, abençoadas mãos que o souberam escolher.
O meu avô ficava num sino, agradecia os encómios, explicava a técnica, desvendava o segredo, exultava de falsa modéstia e, sem mais nem menos, aproveitava para contar as suas duas anedotas. Era sagradinho. Desde que não soubesse descaradamente a botefa, o melão do Bô da Bomba era sempre um sucesso, os elogios dos velhos expertos estavam garantidos e todos os anos o melão deste ano era ainda melhor do que o melão do ano passado.
O único problema era "a despesa". O meu avô passava a merenda inteira a chorar os quinze merréis que dera pelo estupor do melão, a ver se alguém se chegava à frente com qualquer coisinha para a ajuda, ou então buscando pé para cobrar aos amigos pelo menos a pinga de vinho que acabara de lhes oferecer...

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Querem é sexo

Raros prazeres da velhice
Acordou com uma magnífica erecção. Magnífica não porque exuberante, mas apenas porque erecção.

Sou muito procurado por causa de sexo. É verdade: centenas de visitantes dos meu blogues - Tarrenego!, Fafismos e Mistérios de Fafe - entram aqui pela primeira vez porque pesquisam na Net palavras-chave tão atesoadas e cheias de segundas intenções como "belas e perigosas", "foder no parque", "a bela foda", "o bitó tinha uma gaita", "mamas", "amantes", "portuguesas malucas", "portuguesas perigosas", "comendo a tia safadinha", palavra de honra, "putas", "prostitutas", "sexo" ou... "padres de Viana do Castelo". Ou então esgotam-me os 69 de todas a minhas séries: Vida de cão 69, Estou mesmo a ver o filme 69, Também faço isto muito bem 69, I want to ride my bicycle 69 e assim sucessivamente. Ou então procuram "de puta madre", como se, pequeninos e freudianos, se tivessem perdido da progenitora bêbada na Senhora das Neves da Lagoa. Depois, perante o que encontram, levam com um balde de água fria no focinho, vão-se abaixo e certamente nunca mais cá voltam. Compreendo-os.

Há outros leitores, igualmente solitários e amantes dos trabalhos manuais, porém de hábitos um pouco mais arejados e produtivos (a jardinagem ou a culinária, por exemplo), que contactam comigo através de senhas como "Alberto João", "o seringador", "arroz de polvo carolino ou agulha", "esquerda caviar", "onde comer sardinhas", "Anthony Bourdain", "ah faneca!", "tomates" e "moelas de coelho". Sobretudo "moelas de coelho". Percebo também que fiquem desconsolados com o que tenho para lhes dar e não posso levar a mal o raspanete que achem por bem, embora eu não lhes faça caso. Já agora: para o polvo, arroz carolino. Foda é o cordeiro assado no forno em Monção. E é claro que os coelhos não têm moelas, mas o meu amigo Peixoto, em Fafe, cozinhava-as muito bem.
Quase que só sobram então os americanos, os russos e os alemães, que são sempre os primeiros a chegar e, honra lhes seja, não me largam. E é muito fácil mantê-los interessados. Basta-me meter um texto qualquer com uma ou mais destas inocentes palavras: "terrorismo", "EUA", "Putin", "Trump", outro que o que quer é sexo, "Obama", "Biden", "Saddam Hussein", "Al-Qaeda", "Estado Islâmico", "Israel", "Afeganistão", "Irão", ainda que do verbo ir, "Merkel", "Papa", "armas" ou "Bomba", ainda que seja o nome da nossa família, o meu ou o do meu avô, e meia dúzia de segundos depois já cá estão eles a bater-me à porta. É automático.
O que eles querem, sei eu. No fundo, anda tudo ao mesmo: querem sexo, como os das "mamas" e das "prostitutas". Querem ver se me fodem, com licença da palavra. Mas também vêm ao engano.

(E depois há os casos que podem ser sérios. Como ainda aqui atrasado, quando alguém cai no Tarrenego! com a terrível conjugação de palavras-chave "quero denunciar o meu pai que me maltrata". Peço desculpa pela inadvertida pista falsa e espero sinceramente que quem estava aflito, se assim era, tenha encontrado noutro sítio, nos sítios certos, que os há, a ajuda de que precisava.)