quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Berardo, o bom filho da mãe

A modéstia do caloteiro
Chamavam-lhe caloteiro e outros elogios bem merecidos. Ele dizia, fino como um alho: - Cumpro apenas o meu dever...

Olhemos para Joe Berardo, esse bom filho da mãe. Berardo fez-se milionário sob o alto patrocínio da Caixa Geral de Depósitos. Sei isto de fonte segura: foi o próprio Berardo quem mo contou, uma vez há muito tempo. A sua primeira poupança foi uma conta que a mãe lhe abriu na Caixa, em 1962, na Madeira, com dois mil escudos, teria ele então 18 anos. Dois contos, dez euros ao preço actual, uma semente. Uma conta que se manteve aberta e que nunca parou de crescer. Um casamento frutuoso, posto que de conveniência. O saldo de Berardo na Caixa já ia aqui atrasado em mais de 280 milhões de euros, realmente uma fortuna, mas de dívida. Joe Berardo devia ao banco público mais de 280 milhões de euros, que se soubesse até àquele então, na sequência de empréstimos manhosos que lhe deram de mão beijada e que ele agora não consegue ou não lhe apetece pagar. À banca portuguesa em geral, o comendador Berardo deve quase mil milhões de euros. Uma batelada de massa de que eu nem faço ideia. E tudo começou com apenas dois contos, abençoados pela santa mãe, meu rico filho! Parece ilusionismo, número de circo. É por isso que ele se ri tanto e faz pouco do País. Ele é o homem que conseguiu dar o golpe do baú... à Caixa.
Por outro lado, dou valor ao Berardo. Ele deve aqueles camiões, navios e aviões todos cheios de dinheiro - só assim é que eu me oriento -, ri-se olimpicamente e é um homem rico. Eu não devo um cêntimo a ninguém, rio-me a prestações e sou um homem pobre. Isto é. Quem me dera ser filho do mãe... do Berardo, porque Caixa nós também já tínhamos em Fafe. No Largo, à beira da Sonap.

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Augusto, o das botas amarelas

De ressaca
O pontapé de ressaca, de uma forma geral, sai frouxo e torto. Bebesse menos...

Depois de ter sido o primeiro imperador romano e de ter imperado forte e feio durante 41 anos, menos sete do que o fascismo português, e depois de ter morrido, RIP, Augusto, que deu o nome ao mês de Agosto e ficou também conhecido como Caio Otávio ou Caio Júlio César Otaviano, apareceu em Fafe de chuteiras amarelas ou vermelhas, consoante, fazendo-se passar por defesa direito. Estávamos às portas do 25 de Abril de 1974 e era ainda tempo de botas negras, botas e vidas. Menos o Augusto, que ia ao secador todos os dias e disfarçava muito mal como jogador de futebol.
Naquele tempo, realmente, passavam por Fafe com duvidosa assiduidade uns jogadores da bola que eram interessantes espécimes de colecção, aves raras dignas de estudo, e nem estou a falar dos menos apetrechados para a função, como o espanhol Ramón ou o velocipédico Quim Santos, por exemplo e sem desprimor, mas dos verdadeiros artistas, dos malandros, bons e assim assim, tipo Dário, Raimundo, Figueiredo, Neto ou Testas, para não ir mais longe, porque houve muitos mais - alguns deixaram saudades, outros deixaram calotes e não sei se filhos.
A augusta figura, que era da malandragem, coincidiu na AD Fafe com memoráveis jogadores como Neto e Testas, imaginai a tripla, Zé Maria, Costa, Leitão, Cláudio, Ismael, Martinho, Cândido, Manuel Duarte, Nino, Alfredo, Daniel Lopes ou Valença, recém-tornado do Ultramar. Futebolisticamente falando, só Augusto destoava, quer-se dizer.
No entanto, apesar daquele aspecto colorido e aprumadinho, Augusto, não sendo génio, era genioso. Uma vez, num "amigável" com o Vitória de Guimarães, no nosso estádio, ainda pelado, pegou-se à pancada tenho na ideia que com o sardento Romeu, que também era de gancho e acabou por jogar mais tarde no Benfica, no Porto e no Sporting. O Augusto, não.
As chuteiras de Augusto estavam muito à frente do seu tempo, como hoje se sabe. E o cabelo de Augusto marcou uma época em Fafe. Na época seguinte, de facto, Augusto foi enganar para outro lado. Para Barcelos, no Gil Vicente, e depois disso a História perdeu-lhe finalmente o rasto.

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Por entre os pingos da chuva

Desenho Nestinho

O distraído
- Olhe que está a chover...
- Estou?

Agosto de 2020, em plena pandemia. Os primeiros pingos de chuva daquele Inverno a meio do Verão assustaram-me inusitadamente. Isto é: para além dos pés, molharam-me a máscara, e a verdade é que eu não sabia se as máscaras molhadas também funcionam ou se gripam, e depois ainda é preciso pô-las a secar e esperar que venha o sol e esperar que sequem. Ou não? Húmidas será melhor, como com os incêndios e com o fumo e com o sexo? E não haveria maneira de fazer máscaras à prova de água (ou waterproof, como se diz em português contemporâneo)? E no Carnaval como é que iriam ser as máscaras? Máscaras com máscaras? Estais a ver a minha angústia, o meu medo de morrer de nariz ao léu, e a máscara a pingar?
Então o que é que eu fiz? Peguei e desatei a correr de volta para casa e nunca mais saí para ir à padaria. Durante mais de quinze dias comemos as sardinhas assadas e o bacalhau frito com bolachas Maria. Torradas. Que tínhamos açambarcado.

Por outro lado, liguei ao meu amigo Ernesto Brochado a pedir-lhe ajuda. O Nestinho costuma acudir-me satisfatoriamente em semelhantes aflições. Expliquei-lhe o meu problema, a minha ânsia, trocámos algumas ideias, e, como se vê ali em cima, saiu esplendorosa a solução que então demos a conhecer ao mundo, num rigoroso exclusivo. Entretanto, registámos a patente, tivemos milhões de encomendas, vendemos triliões de kits, é assim que se diz, enchemos a carteira e estou finalmente rico, para que é que hei-de mentir?

domingo, 17 de agosto de 2025

Tomates aux gésiers de lapin

Honestidade a toda a prova
Era um "chef" de uma franqueza que só vista. Tinha um aclamado programa de televisão, e não raras vezes, após confeccionar e provar os seus requintados pratos de assinatura, sentenciava, de colher a meia haste, olhos revirados e boca em biquinho de deleite e aprovação: - Hummm! Que merda!...

A pedido de várias famílias. A minha famosa receita de tomates aux gésiers de lapin é assim. Livre de gorduras e lave em duas águas as moelas de coelho. Uma da águas pode ser das Pedras, com rodela de limão e dois pacotes de açúcar, em caso de ressaca. Seguindo. Meta as moelas de coelho numa marinada feita com sumo de pepino nacional, vinagre balsâmico, azeite de trufa, mel de rosmaninho, gengibre, flor de anis, flor de sal, flor-de-lis, flor-de-lótus e flor-de-ferrari. Deixe a repousar esta marinada dentro de uma embalagem para ovos de codorniz enquanto conta de zero a 120 e depois de 120 a zero, sempre ao pé-coxinho. Os ovos de codorniz deviam ter sido previamente tirados da embalagem, agora, ao menos, desfaça-se das cascas. Lave muito bem os tomates, corte um chapeuzinho numa das extremidades dos ditos e limpe-os de todas as sementes e nervuras internas. Introduza as moelas de coelho nos tomates, misturando-as com uns pozinhos de queijo com o nome mais arrevesado que encontrar no supermercado. Pegue nos tomates e coloque o chapeuzinho, que vai adornar, de lado, com um pequeno cartão a dizer PRESS, como nos filmes antigos, a preto e branco. Leve os tomates ao forno durante 180 minutos a 15 graus ou menos, pode até estar desligado. Excelente. Está pronto. Retire do forno e deite tudo ao lixo. Descongele e aqueça bem a feijoada que sobrou do almoço de quarta-feira, regale-se com ela, porte-se bem e faça por ser feliz.