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quarta-feira, 22 de julho de 2026

Contra fatos não há argumenctos

Desorientação sexual
A verdade é só uma: ele ainda não consegue distinguir um tecto de um teto. E elas levam a mal...

Eu tenho um fato. Um. Comprei-o pronto a vestir em 1987, se não me engano, para um casamento, isso é certo, e ficava-me muito bem. O casamento para o qual eu comprei o meu fato já teve pelo menos dois divórcios, só do lado do noivo, e outras complicações. O meu fato, não. Mantém-se fiel e simples. Eu tenho um fato que é um facto à moda antiga. E nem sei se ainda me serve, sequer se estará em condições de ser vestido. Mas é o meu fato. E contra fatos não há argumenctos.

Sou esbraguilhado por opção. Ao longo de quase quarenta anos, usei o meu fato mais quatro ou cinco vezes nos casamentos de mais quatro ou cinco amigos, sobrinhos e primos, e deram também já quase todos em divórcios, num par de ocasiões solenes em Fafe, para agradar à minha mãe, que gostava de me ver todo tirone, numa excursão copofónica a Lisboa para acompanhar o Prémio Gazeta do nosso Agostinho Santos, entregue pelo Presidente Mário Soares, e numa ou duas idas à televisão para aparecer bem por dever de ofício. É, portanto, um fato praticamente novo, mas ando agora preocupado: o casaco é de trespasse. Sem chave na mão.

Para quem se interesse por estatísticas: também tenho um par de sapatos. Um. E também não sei se ainda caibo lá. De resto, é com botas e sapatilhas que me governo. E tenho quatro bonés e três mochilas.

domingo, 12 de abril de 2026

Cautelas e caldos de galinha

Ó da guarda!
- Ó da Guarda!, pediu ele. Apareceu um de Celorico da Beira, e foi o que se pôde arranjar.

O meu avô da Bomba era um homem prevenido e talvez desconfiado. Pelo sim e pelo não, segurava as calças com cinto e suspensórios.

segunda-feira, 16 de março de 2026

O enchousado

Advérbios
- Sobretudo ou principalmente?
- Com este frio, sobretudo!

O indivíduo de triste figura, enfezado, talvez torto, talvez sujo, talvez faminto, acabrunhado, macambúzio, encolhido, atafulhado de roupa desaparelhada, quatro pares de calças, três casacos, dois sobretudos e uma gabardina, como se fosse um guarda-vestidos ambulante, como se tivesse acabado de assaltar uma loja de vestimentas velhas e invernosas - esse, assim nestes preparos, estava enchousado, era enchousado. Enchousar, o verbo, pode também querer dizer espancar, sovar, bater em. E confere. Para isso servem os pobres enchousados, para sacos de pancada.

sábado, 14 de março de 2026

Pespontamento

Provador de factos
Ele era um desses modernos verificadores de factos. Trabalhava numa alfaiataria.

Era alfaiate. Mas não era de modas. Podia ser uma ave pernalta limícola da família dos recurvirrostrídeos, de bico comprido, fino e muito curvado para cima, patas azuladas e plumagem branca e preta, mas não. Era um insecto aquático, hemíptero, da família dos hidrometrídeos, de pernas longas, que se desloca sobre as águas. Exactamente. Alfaiate. Quem for de Fafe e de rios, sabe do que eu falo...

domingo, 8 de março de 2026

Fafe e o garibaldismo

Patriotismo
O patriotismo é coisa para ser levada a peito, há quem diga.

Garibaldi foi um general italiano que ficou muito famoso por usar blusão vermelho. Mais tarde o ilustre mercenário, guerrilheiro, revolucionário e patriota, alcunhado Herói de Dois Mundos por certas e determinadas razões, transformou-se em camisola de fora ou casaco curto de mulher e numa espécie de guindaste geralmente improvisado e ainda hoje muito usado na construção civil, sobretudo em obras assim mais artesanais ou domésticas, basta ir por essas belas aldeias de Fafe fora, que só o passeio já vale a pena.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

As cuecas da noiva

Viva a liberdade! Abaixo as cuecas!
Christina Aguilera informou que não usa cuecas. A cantora norte-americana fez saber que gosta de se sentir livre, e as cuecas não deixam. E eu ponho-me a cismar: às tantas, quando os nossos governantes nos mandam baixar as calças, só estão a pensar no nosso bem...

Entrava o mês de Março e o carnaval já tinha sido. Um bando de moças desce as escadas que levam até aos bares do Molhe, na Foz, Porto fino. São seis ou sete, modernas, todas meninas do sexo feminino, bem vestidas, galhofeiras. Topam o velho, quer-se dizer, a minha pessoa, e resolvem gozar o prato. Uma das raparigas, guapa sim senhora, despe a gabardina e exibe-se com um vestido de "espanhola". Vermelho e preto, por supuesto, e com um letreiro ao peito que sai ao pai. Penso: coitadinhas, chegaram atrasadas ao carnaval; ou então são palerminhas das praxes; ou então são palerminhas das praxes que chegaram atrasadinhas ao carnaval.
Com manias de jornalista de antigamente, aproximo-me para proceder à competente desambiguação. O letreiro, escrito à mão e colocado dentro de uma mica, diz: "Felicita-me ou não. Vou-me casar". Percebo logo tudo, oh juventude irreverente e criativa! É um novo ritual de despedida de solteira. Só pode ser. Ou publicidade ao viagra; ou uma partida para os apanhados.
Comovem-me a simpatia e a originalidade da ideia. Esta espécie de performance, teatro de rua, flash mob talvez, em vez do tradicional striptease masculino em recinto fechado. Que coisa bem sacada! A "espanhola" apercebe-se de que eu estou na onda, aproxima-se de mim, toda gaiteira, com umas cuequinhas verdes na mão direita e umas cuequinhas cor-de-rosa na mão esquerda. Que giro! Fala em castelhano, e eu preferia que fosse em galego, nosso, mas que se há-de fazer?...
- Olá. Vou casar amanhã. Podes dizer-me que cuecas devo usar? Estas ou estas?
- Amanhã? Nem umas nem outras, minha senhora. Sem cuecas é que vai bem - respondo eu, sumariamente ponderado o assunto em questão.
As "amigas" riem e tiram fotografias. Eu fico nos retratos, não sei se filme.
Vermelha-e-preta e radiante, la novia insiste:
Ningunas?
- É como lhe digo, minha senhora. Se o caso é casamento, primeiro noite e tudo, sem cuecas é que usted vai bem.
A moçoila parece-me ter ficado algo desconsolada com a minha resposta. Condoo-me. Eu, que, como sempre, só quero ajudar, dou-lhe então uma segunda oportunidade:
- Olhe, espere lá, vou ver se mudo de ideia: arregace aí as saias e experimente as duas cuecas, uma de cada vez, mas devagar, devagarinho, lentamente, posso pôr música?...
- ...
E desejei-lhe muitas felicidades e vivam as noivas.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Metia-se a cotio

As grandes decisões tomam-se em cuecas
No dia em que decidiu finalmente atirar-se de cabeça na piscina vazia, a piscina estava cheia, azar do caraças. Ficou como um pito! Mudou de roupa e resolveu dali para a frente: as grandes decisões, as decisões definitivas, devem ser tomadas em cuecas.

Antigamente metia-se a cotio. Cotio, para além de nome de uma casta de figos algarvios ou de uma variedade de grão-de-bico, quer também dizer, como adjectivo, que coze facilmente. Cotio era coisa de todos os dias, de uso quotidiano. Cotiar é trazer a cotio ou quotidianamente, gastar com o uso ou, até, regionalmente, motejar. É usar-se muito a miúdo, repetir-se. Havia a roupa de domingo e a roupa da semana, quer-se dizer, a roupa de cotio, do dia-a-dia, assim nos organizávamos em Fafe. Com o tempo e a missa e a traça, a roupa de domingo ia ficando desbotada, coçada, puída, picada, então metia-se também a cotio, servia para o trabalho, para a vida de casa ou para a labuta no campo. Era. Antigamente metia-se a cotio.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Excelentíssimo Menino

Foto Tarrenego!

Meias perdidas
O dia 9 de Maio, que não vem hoje ao caso, é Dia Mundial das Meias Perdidas. Só para que nos entendamos: as meias perdidas nunca acontecem de baliza aberta. Isso já seriam perdidas inteiras, completas, descaradas, escandalosas... 
 
Sou incapaz de pensar em Fafe do meu tempo sem me lembrar logo do Landinho. O Nosso Menino marcou efectivamente uma época, pelo menos a minha, mais até, estou em crer, do que muitos dos emproados figurões locais, de quem a história, se for honesta, não fará nem a mais pequena ideia. O Landinho estava sempre presente, particularmente nos momentos solenes e também nos outros, verificando factos e tomando conta da ordem pública. Era mestre-de-cerimónias, cobrava cotas inexistentes, inventava multas de trânsito, apregoava jornais invisíveis, avisava de funerais por conta própria, entregava botijas de gás, oferecia-se como matador de cabritos pela Senhora de Antime, sonhava ser padre. Ele e eu tínhamos também isso em comum. Fafe sem Landinho seria impossível. E é. O Menino fazia parte da paisagem fafense, mas era mais do que paisagem. O Landinho era - penso agora - a mais benévola metáfora do que somos todos nós os que somos de Fafe, os que sentimos Fafe. E Fafe nem sempre o tratou bem, mas ele, o Menino, nunca nos faltou - só agora, e por razão de força maior. O Landinho é, em inegociável lugar de honra, um dos meus fafenses excelentíssimos.
Sei muito do Landinho, muito mais do que aqui conto. Tínhamo-nos amizade. Sei da sua infância, sei da senhora sua mãe, das dificuldades por que passavam, sei da sua juventude, lembro-me de ele ter ido às inspecções, que pelo menos naquela leva foram realizadas no velho quartel dos Bombeiros, na Rua José Cardoso Vieira de Castro. Exactamente, o Menino foi às sortes e tenho ideia de que não se livrou à primeira, aliás ficou apurado, alguém por ele teve de posteriormente fazer prova das suas singularidades. Safou-se por pouco de ir à guerra, e às tantas ainda tínhamos ali herói. Era. O regime precisava de carne para canhão.
De salada russa, quem percebia era o Landinho, que me desculpem as ilustres Sónia Tavares e Bárbara Guimarães e, já agora, aproveitem e assoem-se a este guardanapo! Quem for antigo e de Fafe sabe disto muito bem e também sabe que o verdadeiro nome da salada russa, em português, é maionese, evidentemente, aliás "manganésia", como lhe chamava o Nosso Menino com toda a propriedade.
O Landinho pelava-se por um bom pratinho de "manganésia", mas a verdade tem de ser dita: só comia se lhe dessem. E às vezes tinha de fazer por isso. Em todo o caso, nunca ousou actuar de penetra nem comeu pela calada, como quem não quer a coisa, nem há notícias de que tenha perpetrado figuras tristes para encher a mula à pala e em sonsa contravenção. Nada disso. Parecendo que não, o Landinho sabia estar, tinha classe, pedia, e isso faz toda a diferença...
Menino queria dizer muito em Fafe, tinha valor. "Meu rico menino" é o tratamento que reservamos entre nós aos que nos queremos bem. Quando entrava no antigo Peludo, já no tempo do Peixoto, o Landinho pedia geralmente um pratinho de "manganésia", que era talvez a sua perdição gastronómica, ou então era só fome e ele saberia que não lhe davam outra coisa. Andava com sorte se lá estivesse o Valença, o gozão-mor do reino, inveterado pregador de partidas, mas também portador de um coração de razoáveis dimensões. E então o Valença dizia-lhe: - Pago-te o pratinho, mas primeiro tens de dar um beijo aqui ao Bomba! - e o Bomba era eu, e o Landinho chegava-se e abraçava-me e lambia-me a cara com um sonoro e indesmentível beijo. Isto mais do que uma vez, pelo menos três ou quatro "beijos", que o Valença insistia. E o Nosso Menino ganhava o seu pratinho de maionese, que era o que se chamava àquela travessa de salada-russa, às vezes com um filete de pescada ou um panado em fim de prazo, mais um copinho de vinho, e só um, que já não faltava quem abusasse dele. Do Menino...
Era. O Nosso Menino gostava de "manganésia" e de fatos. Eu sempre achei que o Landinho mandava fazer os seus fatos por medida, personalizados, porque os fatos que vestia assentavam-lhe todos muito mal, mas muito mal sempre da mesma maneira, e por isso ficavam-lhe muito bem, porque o Landinho era assim, aquela era a sua imagem de marca. Irredutível militante das calças à boca de sino pelo tornozelo e da gravata tipo bacalhau de quarto com nó grosso, eu via-o como um verdadeiro gentleman sobretudo aos domingos, feriados e dias santos, e sempre me incomodou que a La Redoute nunca tivesse convidado o nosso Menino para modelo de pelo menos um dos seus pantagruélicos catálogos. O Landinho morreu em 2023, e agora já vêm tarde.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Pobre e mal agradecida

Ofender não ofende?
Há coisas que não se compreendem: como é que um erro defensivo pode ser mais grave do que um erro ofensivo?

Estais a ver uma daquelas mulheres espectaculares, tão espectaculares que até parecem travestis? Ela era isso. Mas em mulher, definitivamente em mulher. Mulherão. Vi-me à rasca para segurar o maxilar inferior enquanto lhe tirava as medidas como quem não quer a coisa, e à distância. Até que pousei os olhos na ganga.
Levantei os olhos da ganga, condoído, e atravessei a esplanada o mais discretamente possível, andando às arrecuas para ninguém suspeitar de que eu ia ter com ela, abalroei uma mesa e três cadeiras, obviamente para disfarçar, accionei o modo de visão periférica, aproximei-me do alvo sem colocar em causa a minha própria segurança e avisei-a ao ouvido, quase num sussurro, mais segredo era impossível:
- A menina desculpe, não deve ter reparado, mas tem as calças deveras rotas nos joelhos. E, agora que cheguei aqui à beira, verifico que também estão razoavelmente esgaçadas nas coxas. Caiu?...
Ui, levei uma data que nem queirais saber. E em versão megafónica. Eu, que só queria ajudar...

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Eu, que só queria ajudar

Prò menino e prà menina
Bimba e lola para senhora, bimbo e lelo para homem. É a moda.

Era um rapaz dos seus 16-17 anos, se calhar 15 ou 18, ou 13, nunca fui muito bom nisto de acertar. Mas, pronto, desencaixotei o meu melhor sorriso e chamei o rapaz à atenção:
- O caro jovem fará o favor de me desculpar, não deve ter reparado, mas acontece que tem as calças a caírem-lhe, com licença, pelo cu abaixo. Vêem-se-lhe as cuecas inteiras, são de marca e ficam-lhe muito bem, mas às tantas, se não lhes deita a mão, as calças arriam-se-lhe até aos artelhos, o caro jovem enrodilha-se nelas e ainda se estende ao comprido, com consequências que lamentavelmente poderão redundar em consideráveis danos físicos e quiçá materiais.
O rapaz, talvez 19 anos, ou 12, continuo sem saber, olhou-me da cabeça aos pés com assinalável fastio, viu-me o cabelo branco, pouco e desorganizado, a barba grisalha de mês e meio, a mochila desengonçada às costas de uma T-shirt que há muito, muito tempo foi azul, as calças de fato-treino de cor incerta e largas como as dos palhaços, as sapatilhas brancas, a esquerda furada na biqueira (eram do meu filho), tentou adivinhar-me a idade e deve ter acertado em cheio, lançou o cigarro ao chão, o escarro seguiu o mesmo caminho, e respondeu-me um cagasésimo de segundo antes de me virar costas:
- Vai-te foder, velho do caralho...
Francamente, o que é que o rapaz pretenderia dizer com aquilo? Eu, que só quero ajudar...

Moral da história: chama-se a atenção quando se pretende despertar interesse ou curiosidade, quando se quer dar nas vistas; chama-se à atenção quando se deseja fazer uma crítica ou algum reparo. É. Os acentos fazem uma certa e determinada diferença.