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segunda-feira, 13 de julho de 2026

As lambanas

Atrás de um grande homem
Atrás de um grande homem às vezes vem a polícia.

As lambanas são pequenas fadas aladas, parece que vindas da mitologia filipina. Lambana é também, como acabo de descobrir, nome de um resort na Índia. Em Fafe, porém, lambana era o feminino acusativo de lambão, portanto queria dizer o mesmo que lambona ou lambareira, talvez com um significado mais abrangente e desdenhoso. Mas era lambana que dizíamos, é lambana que eu ainda digo. Lambana. Comilona, glutã, gulosa, tolinha por doces ou simplesmente açúcar, larpeira, alarve, egoísta, regalona, interesseira, invejosa, sovina, açambarcadora, lavajona, sebastião come, tudo, tudo, tudo, mas em sebastiana. "Fulana é uma lambana", "És muito lambana", "Naquela casa é só lambanas". A lambana, as lambanas. Mas cuidado, muita atenção: é preciso não confundir lambanas com begueiras. As begueiras, que também as há, são outro assunto.

domingo, 7 de junho de 2026

Já não há mulheres com bigode

Um bigode em forma de talvez
Tinha um belo bigode. Elegante, ralo, fino, um bigodinho talvez à Errol Flynn. Nada de assombroso, realmente, mas para mulher não estava mal.

Sempre gostei de ir a Ponte de Lima por causa do arroz de sarrabulho e dos bigodes das mulheres. Mulheres feias é ali. Feias e bigodudas. Basta um raio de sol espreitar por entre as nuvens tão bem desenhadas e elas saltam todas não se sabe donde para as bordas do rio a arejar as carantonhas e respectivas piaçabas. Palavra de honra, é um espectáculo digno de ser visto. Comprar um cartucho de jornal cheio de castanhas assadas e comê-las, ainda quentes, enquanto observamos o mulherio, picadeiro acima, picadeiro abaixo, como num desfile de moda mas para bigodes fêmeos, nove pontos para aquela, treze para a das suíças, há lá melhor maneira de passar um pedaço de tarde! Não sei o que a bela vila alto-minhota tem, mas é assim que as coisas são.
Cuidado. Antes que me soltem os cães, fazei o favor de perceber que eu não disse que as mulheres limianas são bigodadas e feias. Não. O que eu digo é que, sobretudo aos fins-de-semana e feriados, férias de Verão, da Páscoa, de Natal ou de Carnaval, nas Feiras Novas, no Corpo de Deus ou num dia qualquer, elas, as bigodadas e feias, concentram-se todas ali, à beira-Lima, como se fosse um congresso de camafeus ou um concurso de feieza. Numa dessas ocasiões, eu próprio fui confundido com a cantadeira de um rancho folclórico derivado às minhas barbas. De resto, não sei de onde elas vêm, as mulheres abigodadas, nunca perguntei.

Vou a Ponte de Lima desde pequenino, desde o tempo das excursões ao Alto Minho organizadas pelo meu avô da Bomba, videirinho da silva e sobrevivente dos sete ofícios. Aqui atrasado tornei lá todo contente e tive um desgosto muito grande. A vila mais antiga de Portugal, Ponte de Lima monumental e histórica, bela, tradicional, está mais pobre. As mulheres continuam particularmente feias, honra lhes seja, mas deitaram abaixo os bigodes. Sentei-me no banco do costume, junto à vendedeira de castanhas, queimei os dedos a comê-las, mas bigodes de mulheres, que era ao que eu ia, nem um para amostra. É lamentável. Os cremes depilatórios estão a dar cabo do nosso património.
Não sei se volto a Ponte de Lima. Ainda por cima, o arroz de sarrabulho também não estava grande coisa. Mas as castanhas eram bem boas.

sábado, 6 de junho de 2026

Pernas até ao cu

O Estreito de Ormuz
Havia o Grosso da Coluna e o Maciço Central, robustos e tonificados. Agora temos o Estreito de Ormuz, esse lingrinhas.

No tempo em que os animais falavam. Falava-se de mulheres longas ou extralongas - mulherões, avionas, tranconas a perder de vista - e dizia-se que elas tinham pernas até ao cu. Pelo menos na minha terra dizia-se. Como se as mulheres eventualmente mais manejáveis - perrotas, batoques, torneirinhas como a faneca - tivessem pernas apenas até ao joelho, vá lá.

terça-feira, 17 de março de 2026

Flores ao solheiro

A invenção da sogra
Consta que os muçulmanos introduziram a nora em Portugal. Gostaria de saber: e quem terão sido os espertinhos que nos introduziram a sogra?

Um restinho de sol e lá se sentavam elas comparando doenças e façanhas de netos havidos ou inventados. Rosa, Violeta, Hortênsia, Camélia, Margarida, Dália, Açucena - evidentemente no jardim imaginário, ao entardecer da vida.

quarta-feira, 11 de março de 2026

As begueiras

Dia da Mulher
No Dia da Mulher, a minha leva-me a almoçar fora, para eu não ter de cozinhar. À noite volto para o fogão.

Conheceis aquelas mulheres que andam sempre na rua e passam a vida no café a dizer mal dos homens que andam sempre na rua e passam a vida no café? Sim, essas. São as begueiras. É certo que o termo original é masculino e minhoto, begueiro, referindo-se preferencialmente a um jumento novo, pequeno, ou a uma qualquer besta de carga, e pode também servir para descrever um mulo ou, pejorativamente, uma pessoa de pouca inteligência e/ou com qualidades negativas ou malandra, mas em Fafe o conceito afeminou-se, não sei em que altura do século passado, e mudou completamente de sentido. Temos então a begueira, as begueiras, linguarudas, opinativas, independentes, soalheiras, as que "não têm que fazer em casa". As begueiras funcionam em grupo, em vários grupos, assíduos, independentes e fechados, às vezes inimigos uns dos outros, células militantes de escrutínio alheio e maledicência, municiadas estatutariamente a chá e torradas, amiúde um panachê. No seu conjunto, elas, as begueiras, os diversos núcleos de begueiras, formam o chamado begueirame.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

As mulheres e eu

Ladies first?
Ele disse, força do hábito, "As senhoras primeiro". Ui!, caíram-lhe todos em cima - feministas, machistas e indiferenciados -, derivado àquilo da igualdade de género...

Raparigas e mulheres que passam por mim todos os dias, ou quase todos os dias, nas minhas caminhadas matinais. Raparigas bonitas, mulheres interessantes, todas amáveis, que me cumprimentam desembaraçadamente com um "olá!", com um "bom-dia!", com um jovial aceno de mão, com um enorme sorriso, personalizado. E alegram-me a vida. Palavra de honra, fazem-me feliz. Raparigas e mulheres de que nem lhes sei os nomes nem de onde são e param a bicicleta ou a corrida para me explicarem, sem obrigação, que estiveram meio ano a trabalhar na América, que já terminaram o doutoramento, que os filhos pequenos mudaram de colégio, que tiveram um problemazinho de saúde, que agora costumam vir mais tarde ou que agora costumam vir mais cedo, e que por isso não nos temos visto e é pena.
Mulheres e raparigas que, se por acaso me apanham a caminhar com a Mi, de mão dada, deitam de antecedência os olhos ao chão, zapam por nós como se não nos vissem, comprometidas, como se não me conhecessem de lado nenhum, como se eu fosse ninguém.
Quer-se dizer: o que é que elas pensam? O que é que elas pensavam? De que é que estavam à espera? Eu sou apenas o velho simpático, valha-me Deus...

sábado, 10 de janeiro de 2026

Ela gostava de se apernaltar

Pergunta com rasteira
Gostava de fazer perguntas com rasteira. Era realmente um indivíduo traiçoeiro e particularmente violento.

Ela, vaidosa, gostava de se apernaltar. Não é que ela fosse irremediavelmente baixa no seu magnífico metro e cinquenta e sete, na verdade os seus pés chegavam quase sempre ao chão, pelo menos quando andava, mas ela gostava de sentir-se nas nuvens. Só calçava "carrinhos de choque" e recorria a todos os expedientes para crescer a olhos vistos. E metia tudo o que podia: cunhas, calços, avançados, médios defensivos, rampas, plataformas, saltos, tacões e até palmilhas em camadas, como bolo recheado. Era de rir vê-la caminhar naqueles preparos altaneiros e amiúde circenses, e ao riso dos outros ela chamava inveja, sentimento rasteiro, coisa de gente pequena. Portanto era isso, não é erro, não há engano - ela gostava mesmo de se apernaltar.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Pobre e mal agradecida

Ofender não ofende?
Há coisas que não se compreendem: como é que um erro defensivo pode ser mais grave do que um erro ofensivo?

Estais a ver uma daquelas mulheres espectaculares, tão espectaculares que até parecem travestis? Ela era isso. Mas em mulher, definitivamente em mulher. Mulherão. Vi-me à rasca para segurar o maxilar inferior enquanto lhe tirava as medidas como quem não quer a coisa, e à distância. Até que pousei os olhos na ganga.
Levantei os olhos da ganga, condoído, e atravessei a esplanada o mais discretamente possível, andando às arrecuas para ninguém suspeitar de que eu ia ter com ela, abalroei uma mesa e três cadeiras, obviamente para disfarçar, accionei o modo de visão periférica, aproximei-me do alvo sem colocar em causa a minha própria segurança e avisei-a ao ouvido, quase num sussurro, mais segredo era impossível:
- A menina desculpe, não deve ter reparado, mas tem as calças deveras rotas nos joelhos. E, agora que cheguei aqui à beira, verifico que também estão razoavelmente esgaçadas nas coxas. Caiu?...
Ui, levei uma data que nem queirais saber. E em versão megafónica. Eu, que só queria ajudar...

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

segunda-feira, 16 de junho de 2025

Crónica Feminina

A actriz
Ficou famosa por ser a primeira mulher a fazer de Super-Homem.

Vieram as calças, e ela nada. Os movimentos libertários, o divórcio, o voto, a canasta, os empregos, os carros, os cigarros, as gravatas, os cafés, os sapatos de salto baixo e os sapatões também vieram, e ela nada. Em casa, sempre em casa, de uma virgindade absoluta em relação ao amantíssimo esposo e demais, bordava, falava francês e tocava piano. Ouvia os discos pedidos e lia Corín Tellado. E dava alpista ao canário. E regava os vasinhos, ela própria uma flor de estufa, no larguinho da vila antiga. E compunha almofadinhas e peluches e corações por sobre o delicado leito conjugal. Muito cor-de-rosa, muita renda na roupa interior que só ela sabia, muito tafetá, muitos lacinhos e sabonetinhos. Tanto pó de talco e perfume! Tão mulherzinha! Queimou uma vez um sutiã, é verdade, mas foi sem querer, passando a ferro, quando a serviçal lhe faltou. Tirando isso, nada. Parecia doença. Crónica. As vizinhas, que nem lhe conheciam o nome, chamavam-lhe, por graça, Crónica Feminina.