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quarta-feira, 8 de julho de 2026

O melhor dia do anho

É preciso ter lata
O confinamento da pandemia fez dele um verdadeiro especialista em atum, preparando-o para toda a espécie de apagões. Bom Petisco à segunda, Ramirez à terça, Tenório à quarta, Minerva à quinta, Pitéu à sexta e Inês ao sábado. Ao domingo, sardinha em tomate, evidentemente.

Quatro ou cinco dias antes do domingo da Senhora de Antime, que é o segundo domingo de Julho, um pastor mailo seu rebanho davam entrada no largo do Santo Velho, mesmo em frente a nossa casa, e ali se estabeleciam, montando pasto, posto de venda e açougue, até que o último anho fosse despachado, isto é, até ao extermínio total. O pastor tinha cajado de pastor e cão de pastor, mas não era um verdadeiro pastor, era um senhor creio que da Rua de Baixo ou Santo Ovídio com faro para o negócio e habilidade para matar cabritos. Só era pastor, quer dizer, cabriteiro, naquela época do ano. E o rebanho também era um falso rebanho, os animais não se conheciam de lado nenhum, juntavam-se apenas para aquilo, naquela ocasião, mal eles sabiam com que fim, eram recrutados nos lavradores das redondezas e levados ao engano e ao altar do sacrifício, quer-se dizer, ao forno do fogão a lenha, de preferência, com batatinha dourada e arroz seco e solto, tudo muito bem comido e regado, na mesa grande e em família alargada, logo a seguir à procissão mas sem pressas. O fogão era amiúde na vizinha, por favor, bastava ir lá às horas certas para dar as devidas voltas à pingadeira.
Antes que me esqueça, para os de fora: o cabrito, generalizemos assim por bondade, era e suponho que ainda é o prato oficial das Festas de Fafe, isto é, da Senhora de Antime. O que não deixa de ser irónico, na terra da vitela assada. Naquele tempo, o cabrito entrava em nossa casa apenas uma vez por anho, e, é preciso que se note, em anhos bons...
No Santo Velho acontecia tudo, o Santo era um largo multiusos. Portanto também servia de matadouro e talho, escancarado e a céu aberto. O Santo era o centro do mundo. Os clientes vinham de toda a parte, da Feira Velha, da Fábrica do Ferro, do Retiro, da Ponte do Ranha, da Fonte da Cana, de onde calhasse. As pessoas escolhiam o animal que queriam levar para casa, maior ou mais pequeno, vivo ou morto, como os bandidos procurados no Velho Oeste americano. O peso e o preço eram combinados a olho, entre vendedor e comprador, e mais tarde eventualmente ajustados, coisa de nada, após pesagem da carcaça numa balança de mola propriedade do magarefe e viciada com toda a certeza.
Se era para seguir cadáver, o bicho morria logo ali, encostado ao muro do quintal da Senhora Carolina, avó do Naninho. O matador tinha um tenebroso conjunto de facas ou navalhas de diversos tamanhos e feitios, mas todas muito bem afiadas. E tinha também um pequeno tubo de cana que usava para, soprando-lhe do fundo da alma, com a cara a passar perigosamente pelas três cores dos semáforos, amarela, verde e vermelha, por esta ordem, inflar grotescamente a pele do animal, separando-a da carne e dobrando-lhe o tamanho, aquilo tudo quase a rebentar, o homem e o odre, cuidava eu, e era realmente uma coisa extraordinária de se ver, para depois proceder à esfola, facilmente, com uma perna às costas, como quem limpa o cu a meninos. E antes assim.
Era uma mortandade que só vista, caíam uns atrás dos outros. O chão do Santo enchia-se de vísceras e tripas e peles vazias e varejas grandes, feias e verdes. O Santo era uma poça de sangue, uma vala comum, uma estrumeira. O ar do Santo tornava-se irrespirável, cheirava a erva, a merda, a palha, a sebo, a azedo, a peste, e até as tílias se afligiam. O Santo fedia. Mas era por uma boa causa...
Por pobreza ou conveniência, havia quem comprasse o cabritinho a meias, ou até em quartos, mas quanto a isso os clientes é que se entendiam. Quem tivesse um galinheiro de vago ou um bocadinho de quintal, aproveitava para comprar o anho mais cedo, quando a possibilidade de escolha era maior, e levava o anho vivinho da silva para dois ou três dias de engorda. Na sexta-feira e não sei se ainda no sábado, o matador ia a casa e acabava de vez com a conversa.
Cá fora, o refugo aguardava pelos retardatários do costume.
Quem tinha de aparecer, por aqueles dias, era o Landinho, o Nosso Menino. E aparecia, porque o Landinho aparecia sempre. O Landinho andava de porta em porta e navalha na mão oferecendo os seus préstimos como matador de cabritos. Isso. O nosso Landinho, que era, entre outros afazeres delirantemente encartados, fiscal da câmara, polícia de trânsito, passador de multas e até padre, também matava muito bem cabritos, embora nunca o tivesse feito nem chegou a fazer, para sorte dele, dos cabritos e de nós todos.

Portanto, meus amigos fafenses, o segundo domingo de Julho, dia da Senhora de Antime, é agnus day, quer-se dizer, dia do anho. Mas também da vitela. E, se calhar, das tripas, aquele meio tachinho que sobra estrategicamente do almoço de sábado. E atenção: onde escrevi "tripas" e "vitela assada", deve falar-se "tripasss" e "bitela assada", com os ésses muito bem condimentados. Vitela e falar à moda de Fafe, sempre! Isto é, "sémpre"! A vitela assada à moda de Fafe, minhas senhoras e meus senhores, é provavelmente a melhor vitela assada do mundo. E isso nem tem discussão.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Excelentíssimo Menino

Foto Tarrenego!

Meias perdidas
O dia 9 de Maio, que não vem hoje ao caso, é Dia Mundial das Meias Perdidas. Só para que nos entendamos: as meias perdidas nunca acontecem de baliza aberta. Isso já seriam perdidas inteiras, completas, descaradas, escandalosas... 
 
Sou incapaz de pensar em Fafe do meu tempo sem me lembrar logo do Landinho. O Nosso Menino marcou efectivamente uma época, pelo menos a minha, mais até, estou em crer, do que muitos dos emproados figurões locais, de quem a história, se for honesta, não fará nem a mais pequena ideia. O Landinho estava sempre presente, particularmente nos momentos solenes e também nos outros, verificando factos e tomando conta da ordem pública. Era mestre-de-cerimónias, cobrava cotas inexistentes, inventava multas de trânsito, apregoava jornais invisíveis, avisava de funerais por conta própria, entregava botijas de gás, oferecia-se como matador de cabritos pela Senhora de Antime, sonhava ser padre. Ele e eu tínhamos também isso em comum. Fafe sem Landinho seria impossível. E é. O Menino fazia parte da paisagem fafense, mas era mais do que paisagem. O Landinho era - penso agora - a mais benévola metáfora do que somos todos nós os que somos de Fafe, os que sentimos Fafe. E Fafe nem sempre o tratou bem, mas ele, o Menino, nunca nos faltou - só agora, e por razão de força maior. O Landinho é, em inegociável lugar de honra, um dos meus fafenses excelentíssimos.
Sei muito do Landinho, muito mais do que aqui conto. Tínhamo-nos amizade. Sei da sua infância, sei da senhora sua mãe, das dificuldades por que passavam, sei da sua juventude, lembro-me de ele ter ido às inspecções, que pelo menos naquela leva foram realizadas no velho quartel dos Bombeiros, na Rua José Cardoso Vieira de Castro. Exactamente, o Menino foi às sortes e tenho ideia de que não se livrou à primeira, aliás ficou apurado, alguém por ele teve de posteriormente fazer prova das suas singularidades. Safou-se por pouco de ir à guerra, e às tantas ainda tínhamos ali herói. Era. O regime precisava de carne para canhão.
De salada russa, quem percebia era o Landinho, que me desculpem as ilustres Sónia Tavares e Bárbara Guimarães e, já agora, aproveitem e assoem-se a este guardanapo! Quem for antigo e de Fafe sabe disto muito bem e também sabe que o verdadeiro nome da salada russa, em português, é maionese, evidentemente, aliás "manganésia", como lhe chamava o Nosso Menino com toda a propriedade.
O Landinho pelava-se por um bom pratinho de "manganésia", mas a verdade tem de ser dita: só comia se lhe dessem. E às vezes tinha de fazer por isso. Em todo o caso, nunca ousou actuar de penetra nem comeu pela calada, como quem não quer a coisa, nem há notícias de que tenha perpetrado figuras tristes para encher a mula à pala e em sonsa contravenção. Nada disso. Parecendo que não, o Landinho sabia estar, tinha classe, pedia, e isso faz toda a diferença...
Menino queria dizer muito em Fafe, tinha valor. "Meu rico menino" é o tratamento que reservamos entre nós aos que nos queremos bem. Quando entrava no antigo Peludo, já no tempo do Peixoto, o Landinho pedia geralmente um pratinho de "manganésia", que era talvez a sua perdição gastronómica, ou então era só fome e ele saberia que não lhe davam outra coisa. Andava com sorte se lá estivesse o Valença, o gozão-mor do reino, inveterado pregador de partidas, mas também portador de um coração de razoáveis dimensões. E então o Valença dizia-lhe: - Pago-te o pratinho, mas primeiro tens de dar um beijo aqui ao Bomba! - e o Bomba era eu, e o Landinho chegava-se e abraçava-me e lambia-me a cara com um sonoro e indesmentível beijo. Isto mais do que uma vez, pelo menos três ou quatro "beijos", que o Valença insistia. E o Nosso Menino ganhava o seu pratinho de maionese, que era o que se chamava àquela travessa de salada-russa, às vezes com um filete de pescada ou um panado em fim de prazo, mais um copinho de vinho, e só um, que já não faltava quem abusasse dele. Do Menino...
Era. O Nosso Menino gostava de "manganésia" e de fatos. Eu sempre achei que o Landinho mandava fazer os seus fatos por medida, personalizados, porque os fatos que vestia assentavam-lhe todos muito mal, mas muito mal sempre da mesma maneira, e por isso ficavam-lhe muito bem, porque o Landinho era assim, aquela era a sua imagem de marca. Irredutível militante das calças à boca de sino pelo tornozelo e da gravata tipo bacalhau de quarto com nó grosso, velhos sapatos italianos, cambados, e às vezes sem meias, isto é, na moda antes do tempo, eu via-o como um verdadeiro gentleman sobretudo aos domingos, feriados e dias santos, e sempre me incomodou que a La Redoute nunca tivesse convidado o nosso Menino para modelo de pelo menos um dos seus pantagruélicos catálogos. O Landinho morreu em 2023, e agora já vêm tarde.