Matematicamente
Eram números primos. Direitos. Por parte das mães.
sexta-feira, 24 de julho de 2026
Por encabação
quarta-feira, 22 de julho de 2026
Contra fatos não há argumenctos
Desorientação sexual
A verdade é só uma: ele ainda não consegue distinguir um tecto de um teto. E elas levam a mal...
Sou esbraguilhado por opção. Ao longo de quase quarenta anos, usei o meu fato mais quatro ou cinco vezes nos casamentos de mais quatro ou cinco amigos, sobrinhos e primos, e deram também já quase todos em divórcios, num par de ocasiões solenes em Fafe, para agradar à minha mãe, que gostava de me ver todo tirone, numa excursão copofónica a Lisboa para acompanhar o Prémio Gazeta do nosso Agostinho Santos, entregue pelo Presidente Mário Soares, e numa ou duas idas à televisão para aparecer bem por dever de ofício. É, portanto, um fato praticamente novo, mas ando agora preocupado: o casaco é de trespasse. Sem chave na mão.
quinta-feira, 18 de junho de 2026
Cheirava-lhes a cadáver...
O filósofoEle ensinava: o pior da morte é que a vida deixa de fazer sentido.
A mais inocente e novinha de todas desvia um lenço sedalino que cobre o rosto esverdeado do defunto. O cadáver está ainda morno, exalando um cheiro canfórico a denunciar a decomposição deletéria que embriaga os abutres e as corujas. O olhar, derramado, vítreo, tem os estigmas reveladores dum horrível sofrimento moral, adivinhando-se que, daquele corpo macerado, foi o coração, alanceado pela dor cruciante da despedida à orfandade, o derradeiro órgão a morrer.
E o lenço de prateada seda cobre de novo os lábios descarnados do pobre Doellinger.
Tuberculizara. Passara privações. Desde que a doença entrara naquele tugúrio, a Conferência de São Vicente de Paulo, de sinistra nomeada, ofertou socorro ao Doellinger. Impunha, porém, uma condição: o doente devia confessar-se, devia confortar-se com os sacramentos da Igreja Católica. Não era penosa a exigência... Um tuberculoso nada adianta nem atrasa, em tal estado, engolindo a hóstia consagrada - um pedaço de obreia amassada com saliva de sacristão.
António von Doellinger, contudo, tem escrúpulos, só porque era anticlerical.
Mas um padre insistia - e, aguardando o momento desejado, quando o doente entrava no estertor da agonia dolorosa, abeirou-se-lhe do leito frio, vestindo de saia negra, na noite negra, como a morte negra que rondava à cabeceira do tuberculoso.
Doellinger recusou ainda nobremente.
Mas era necessário dizer à estupidez do indígena crédulo, fanático e supersticioso, que o ateu implorou, na hora derradeira, na hora do delírio, da alucinação, da inconsciência, o perdão de Deus e a piedade da Santa Madre Igreja. Ainda o sargento Doellinger, estóico ante a morte que tantas vezes lhe fora companheira na inóspita África, quando lutava nas fileiras, teve um gesto grandioso, heróico e teatral, bradando:
- "Não preciso da Igreja, não preciso do perdão de Deus... Não sou um criminoso..."
O padre teria sentido um arrepio de medo, um estremecimento de consciência - e largou a vítima inofensiva.
E, ao nascer da aurora, um sino dobrou, plangente, a finados!
A consciência alheia, as ideias dos nossos semelhantes são, para a Igreja Católica, coisas sem sentido.
O que é preciso, para maior glória de Deus, é que os adversários do catolicismo se arrependam, na hora derradeira, na hora suprema, quando o espírito vacila, quando o corpo arrefece ao contacto do gelo da morte, quando o indivíduo está já em estado de inconsciência, de irresponsabilidade, quando entra no delírio, na demência! Então a vítima pode ceder, porque costuma fraquejar ante o fantasma sinistro que gargalha na ronda nocturna.
O cheiro a cadáver embriaga e consola os abutres que começam a grasnar, sedentos de sangue, ávidos de carnagem dos corpos pútridos!"
Fafe, 1938 talvez. Este belo naco de prosa, pesado, ideológico, com o título "Cheirava-lhes a cadáver...", foi escrito, muito provavelmente, pelo jornalista e resistente antifascista fafense Manuel Teixeira, então proprietário e director do semanário republicano O Combate. José Manuel Teixeira da Silva e Castro (1906-1980) era irmão do também jornalista (António) Teixeira e Castro (1928-2004), com quem acamaradei no Primeiro de Janeiro. O Combate, fundado em 1930, teve vida atribulada e efémera. Foi fechado definitivamente pela Censura em 1941. Há anos que guardo religiosamente a reprodução fotográfica da primeira página deste número, que me foi revelado pelo Sr. Vale do Arquivo do Janeiro. Copiei o texto com recurso a lupa e não garanto isenção de pequenos erros na transcrição. Até da data não tenho a certeza: mas se não é de 1938, anda por lá perto.
Visito-o frequentemente. Leio e releio, e cada vez fico mais desconfiado de mim. Com um antepassado da marca deste sargento von Doellinger, donde raio é que me vem a costela sacrista?
segunda-feira, 8 de junho de 2026
O autógrafo do Tino
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| Foto Tarrenego! |
Artista de eleição
Para além de calceteiro e candidato a Presidente da República, Tino de Rans é também artista de variedades. Aqui atrasado veio a Fafe abrilhantar o Carnaval de Antime. Ele e Maria Leal. Faltou o Zé Cabra, evidentemente.
Eu não sei se o Tino saiu em ombros, decerto não, mas sei que não fez figura de urso enquanto esteve na Quinta. Fez com que outros fizessem por ele, e já não foi pouco. Repito: o Tino não é lerdo, apenas se esforça por parecer. E goza o prato...
De resto, para mim, o Tino de Rans é praticamente presidente da república. Por isso guardo com tanta vaidade o livro e o autógrafo com que ele me agraciou.
quinta-feira, 28 de maio de 2026
O homem que sabia de codornizes
Eram quatro e formavam um excelente trio
Eram quatro pessoas em palco: um senhor à viola, uma senhora no clarinete, um senhor ao piano e outro senhor virando-lhe as páginas da partitura. Procurei-lhes os nomes enquanto tocavam Brahms e Mozart com assinalável competência. Os quatro formavam o famoso Trio Tomter, Kam & Ihle Hadland. Isto é: são o senhor Lars Anders Tomter, a senhora Sharon Kam e o senhor Christian Ihle Hadland, por ordem de instrumentos. O mudador de páginas, posto que exímio executante, era provavelmente "o rapaz", como "o moço" das obras que vai ao tasco buscar as minis para os artistas, os pedreiros e trolhas propriamente ditos, e portanto não tem direito a nome...
terça-feira, 26 de maio de 2026
Uma palavra à esquina
Leporídeos
- Colhões ou coelhões?
- Testículos.
- E era preciso ser malcriado?...
segunda-feira, 25 de maio de 2026
Também acontece aos melhores
Os favoritos
E diz o comentador, no final do jogo do campeonato inglês: "Vitória mais que justa da equipa que não reunia qualquer tipo de favoritismo". Sim, é verdade, ele há favoritismos das mais variadas espécies. Mas quase nunca reúnem.
Ferreira Fernandes escreve de tudo, não por armanço idiota, mas porque verdadeiramente sabe de quase tudo. Escreve, por exemplo, de futebol, sem que lhe caiam as medalhas ao chão, e continua a ser um prazer lê-lo. O Barcelona e o Real Madrid, Messi e Cristiano Ronaldo, Guardiola e Mourinho devem-lhe, se calhar, os mais perfeitos textos que sobre eles foram escritos a nível mundial.
Abraço, Ferreira Fernandes."
h."
segunda-feira, 4 de maio de 2026
O dérbi eterno, em 96 ponto 7
Acontecimentos
Há acontecimentos épicos e acontecimentos hípicos. Às vezes coincidem.
sexta-feira, 1 de maio de 2026
Motorista em teletrabalho
A pegada
Deixou de andar a pé e passou a andar de carro. Para diminuir a pegada.
quarta-feira, 29 de abril de 2026
Relações públicas, vícios privados
Jornalista, disse ele
- Profissão?
- Jornalista.
- Imprensa, televisão, rádio, agência noticiosa ou multimédia?
- Câmara municipal.
Os bilhetinhos. Eram perguntinhas dactilografadas como quadras para concurso de São João no Jornal de Notícias. As perguntinhas que os da Ordem dos Médicos do Porto, ou pelo menos o meu obtuso camarada, queriam que os jornalistas fizessem na tal conferência de imprensa, posto que eles por acaso já tinham a resposta na ponta da língua, "Ora ainda bem que me coloca essa questão...". Perguntas de conveniência, grosseiramente encomendadas, batotice, jornalismo viciado, por assim dizer, que também o há! Mandei o assessor da treta lamber sabão, como se diz na minha terra, vim-me imediatamente embora e nem sequer quis saber se alguém aceitou a encomenda e alinhou na fantochada.
terça-feira, 21 de abril de 2026
Roma em trajes menores
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| Imagem Arquivos RTP |
Dá-me a tua camisola
Meio-dia. Hora do "Angelus" dominical na Praça de São Pedro, quase completamente cheia. É uma das melhores casas da época. No meio da multidão de freirinhas, jovens padres, padres reformados, falsos padres, carteiristas, japoneses de máquinas fotográficas, polícias, tarados sexuais no roço, a claque ultra do Santos Futebol Clube, vendedores de raspadinhas benzidas, católicos mais ou menos indiferenciados e sérios, uma excursão de Oliveira de Azeméis e "hippies" retardatários, há uma cartolina que se agita no ar, em direcção à janela papal. Está escrito: "João Paulo II - Dá-me a tua camisola".
A imagem ali de cima é exactamente desse dia de festa, cantam as nossas almas, numa conferência de imprensa dada por Cavaco Silva nos jardins da Embaixada de Portugal junto da Santa Sé. No retrato só couberam pessoas importantes. O João Pacheco de Miranda, da RTP, televisão única, a fazer perguntas sem se rir, o nosso "primeiro" e o embaixador respectivo muito atentos, ou a fazerem de conta, e eu, não sei como é que fui ali parar, altaneiro e barbado, dominando a cena e fiscalizando as obras, até parece que faço parte da súcia. Reparai-me na airosidade, na categoria da minha pessoa, não é para me gabar, na classe da meiinha branca, no requinte do sapatinho dirópito. O casaco a estrear tinha cotoveleiras de camurça. E a gravata? A gravata evidentemente era azul e branca, como a cor única do meu coração, em delicado degradê. Gostava muito daquela gravata, acho que ainda a tenho, mas não faço ideia para quê. Eu não uso gravata, eu nem sequer uso colarinho ou casaco, eu há anos que não uso sapatos, valha-me Deus!...
Cavaco Silva foi a Roma e viu o Papa. Era João Paulo II, que agora dizem que é santo. O primeiro-ministro português levava-lhe o delicado e doloroso dossiê Timor-Leste. E eu levava umas palas de sol polaroid em cima dos óculos de ver. Umas palas de levantar ou baixar, consoante a sombra ou a luz, It is I, Leclerc, o que de repente descompôs um par de guardas suíços, que se partiram a rir com o meu desempenho em plena Escadaria de Bramante, eu seja ceguinho.
Era uma das minhas primeiras saídas em serviço ao estrangeiro. E eu levava muito a sério a encomenda de enviado-especial. O meu chefe - mestre Costa Carvalho - exigia-me pelo menos uma página por dia, e uma página por dia, naquele tempo, se quereis saber, com o tamanho que as páginas dos jornais tinham, tipo lençol, era obra desenganada. Instalaram-me no Collonna Palace Hotel, na Piazza di Monte Citorio, e era do quarto com vista para a praça e pornografia na televisão que eu, ao fim do dia, antes do jantar, preparava e enviava o serviço. Por telefone - que era a tecnologia mais avançada que havia, logo a seguir ao pombo-correio. E O Primeiro de Janeiro não tinha dinheiro para pombos-correio.
Eram duas ou três horas de alta tensão. Conferir apontamentos, seleccionar e hierarquizar assuntos, escrever tema principal e caixas, escolher títulos e destaques, pedir a ligação para o Porto, esperar, esperar, esperar, ditar para o gravador o material todo de uma ponta à outra. No Porto, o camarada da secretaria de redacção ouvia a cassete com travão, marcha-atrás e acelerador, como os pilotos de rali ou os pivôs de telejornal, batia os textos a todo o vapor e no final ligava-me de volta, a meu pedido especial, para uma releitura que pudesse servir de emenda a eventuais lapsos de transmissão, que eram praticamente palavra sim, palavra não. E esperar, esperar, esperar. Eram muitos nervos, muita ansiedade, muito ruído e interferências na linha, muita chamada a ir abaixo, muita pomba assassinada, muito aperto na garganta, muito coração nas mãos.
Eu suava em bica, quero dizer, em espresso. Portanto trabalhava em cuecas. Isso mesmo, em cuecas. Um pobre jornalista em cuecas, era o que eu era, com uma toalha a cobrir e proteger a cadeira, outra enrolada no pescoço e um lenço tabaqueiro atado à volta da cabeça tipo Willie Nelson. Um homem de família, pai de filho, respeitado em dois ou três sítios de Fafe e pelos menos numa freguesia de Cabeceiras de Basto, um ex-seminarista de créditos firmados, um intrépido frequentador dos Comandos da Amadora, e ali naqueles preparos, a trabalhar em cuecas e com água por todos os lados. Que triste figura! Que ridículo! Que vergonha!
Para disfarçar, eu imaginava que era nadador-salvador.
Entretanto o Kiko cresceu e anda sempre a viajar: uma vez foi a Itália e trouxe-me dois Pinóquios. Eu nunca mais fui a Roma e, é claro, estou a perder dois-um.
domingo, 29 de março de 2026
A problemática do bairro problemático
Prò maneta
Mandavam-lhe: - Espirre ou tussa para a dobra do cotovelo ou, de preferência, para um lenço de papel, e depois deite-o fora! Ele não fazia nem uma coisa nem outra. Era muito distraído e tinha medo de se enganar.
sábado, 7 de março de 2026
Era Rio mas podia ser Tarzan
Os putativos"Era hipócrita se dissesse que não penso nas presidenciais", disse Rui Rio uma vez há muitos anos, e compreendo-o perfeitamente. Eu próprio seria hipócrita se dissesse que não penso nas presidenciais.
Ainda não tínhamos chegado à Junta de Lordelo do Ouro e já tocava o telemóvel do meu camarada da fotografia, por acaso amigo de infância de Rui Rio. Era a Florbela a dar-lhe o recado que me desse o recado que aquilo de Sua Excelência não saber nadar era a brincar, que o Senhor Presidente nadava como um torpedo, que ele uma vez até esteve quase a ser Tarzan num filme, que aquilo não era notícia, que não valia a pena, que não tinha jeito nenhum, que valha-me Deus! Eu, que também pensava que aquilo não era notícia, e confesso que ia dar o meu melhor para deitar os apontamentos ao lixo, resolvi então oferecer à Dra. Florbela Guedes, ex-jornalista, o mesmo tratamento que ela nos dispensava sistematicamente a nós, jornalistas em geral, não nos atendendo sequer o telefone e fechando-nos todas as portas e janelas do presidente e da autarquia, deixadas no trinco só para alguns. Mandei-a, por isso, dar uma curva com os quatro piscas ligados e, em dois ou três históricos parágrafos, antológicos e imortais, denunciei ao mundo e arredores o escândalo do século - Rui Rio não sabe nadar, yo! -, que eu também não sou para brincadeiras. E ia-me saindo o Pulitzer daquele ano...
sábado, 28 de fevereiro de 2026
Vinho para Saddam Hussein
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| Foto Hernâni Von Doellinger |
Aos pares é mais barato
- Sou incapaz de matar uma mosca! - disse ele.- E duas? - perguntei eu.
E eu fui. Comprei o vinho e escrevi o texto. Não o cartão. Desunhar um texto pequeno que andava à volta disto: o Saddam gosta de Mateus Rosé. Era capaz de ter também alguma graça, já não me lembro, mas quando digo andar à volta é mesmo andar à volta, fazer chouriço, meter palha, usar e abusar da técnica de composição musical da variação (e fuga), porque a "notícia" não tinha mais nada para dizer, era oca por dentro. E foi manchete no dia seguinte.
(Permiti-me abrir aqui um parêntese pedagógico, para proteger os caros leitores da tentação de tirarem conclusões precipitadas e injustas acerca do meu jornal. Deixai-me esclarecer o seguinte: num certo sentido, o 24horas foi o precursor do jornalismo que hoje se faz em Portugal - um jornalismo de títulos, colorido e imaginativo, a que, para ser perfeito, só falta o pequeno pormenor da informação, isto é, as noticiazinhas propriamente ditas, a substância. Hoje os jornais portugueses são todos iguais ao 24horas. Uma diferença apenas os separa: o 24horas era, nos seus bons tempos, o melhor pior jornal do País, era um mau jornal muito bem feito. E ficava barato ao dono. Depois veio a rapaziada, tomou conta e escangalhou tudo.)
Meti a caixa de vinho num armário da redacção. Eu já tinha aprendido que as geniais ideias vindas de Lisboa padeciam de tesão breve e alzheimer. Eu também era da chefia, mas no Porto, sabia muito bem como é que a coisa funcionava. Regra geral, no dia seguinte os nossos criativos e bem-intencionados chefes já não se lembravam das figuras tristes que nos tinham mandado fazer no dia anterior. E mandavam-nos fazer outras. Assim foi. Nunca mais se falou no assunto.
Em Dezembro de 2003 apanharam Saddam e eu pensei: "Agora é que era de lhe mandar o Rosé, para lhe animar o Natal na prisão". Pensei, e deixei-me estar. O ex-presidente iraquiano foi executado três anos depois, como se viu abjectamente no YouTube, e as garrafas lá continuaram no armário, até ao dia em que Lisboa veio ao Porto anunciar que o Porto ia fechar para salvar o jornal. Isto é, para salvar Lisboa. Começava o ano de 2009 e desfizeram-se de nós. Eu trouxe para casa duas garrafas do Mateus Rosé de Saddam Hussein.
(Se fosse hoje, os gostos líquidos de Saddam andariam talvez mais pelo vinho azul da Casal Mendes, mas também não se poderia esperar melhor critério de quem certamente nunca pôs os pés no Nacor e às tantas nem estaria informado a respeito da rota dos tascos de Fafe.)
Enofilias e folclore à parte, o 24horas acabou por não se safar, mas "Lisboa" sim, e é o que eu lhes estimo. Os alegados responsáveis do ex-jornal estão agora a enganar noutro lugar. As duas garrafas de Mateus Rosé ainda cá estão em casa, a fazerem de pai e mãe a uma outra, de aguardente do Salazar, parece que engarrafada pelo próprio, como me garantiu, no acto da oferta em Santa Comba Dão, o sobrinho-neto do nosso estimado ditador. Estão bem umas para as outras, as garrafas. E os outros também.
domingo, 22 de fevereiro de 2026
A arte de cuspir no prato
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Saudações inimigas?
Escrevi aí a uma ungida criatura, assunto sério, melindroso, e, no final, mandei-lhe um "grande abraço". A criatura despachou-me às três pancadas e, no final, mandou-me, para a troca, "saudações amigas". Saudações amigas? Mas, Senhor Bispo, o que raio são saudações amigas? Evidentemente serão o contrário de saudações inimigas, mas o que são saudações inimigas? Abraço, eu sei: o abraço é sólido, palpável, vê-se, sente-se, dá-se, recebe-se, aperta-nos, aproxima-nos, humaniza-nos, igualiza-nos. Agora, saudações amigas? Isso traz água no bico...
Claro que a grosseria não era geral. Havia também pessoas que muito simplesmente se recusavam a falar-nos mas sem baixarem o nível. O bom do Raul Solnado (1929-2009), Luís Represas, o actor José Pedro Gomes, são dos que me lembro agora que escrevo. Nenhum dos três me conhecia, mas, depois de me ouvirem educadamente, foram igualmente atenciosos na nega. Disseram-me: "Desculpe, Hernâni, não é nada de pessoal consigo, portanto ligue-me quando estiver noutro jornal. Então conversaremos do que quiser". Agradeci sinceramente a franqueza e a urbanidade. E pedi desculpa eu. Eu sabia que eles tinham razões.
Era vida difícil. Num jornal que precisava da "opinião" dos "famosos" sobre tudo e sobre nada. A propósito da nudez de Marisa Cruz num filme ou por causa do Fidel Castro que passou a pasta ao irmão. A minha sorte é que acabava sempre por encontrar uma alma caridosa que me ajudava a ganhar o dia. Gente que sabia o que era o 24horas mas que, fosse por que razão fosse, nunca me deixou ficar pendurado: gente como Marcelo Rebelo de Sousa, o comentador, e o bom Júlio Magalhães, jornalista e cara da TV, sempre disponível, sempre decente e generoso, os empresários e portistas Pôncio Monteiro (1940-2010), Manuel Serrão e Rui Moreira, os estilistas Miguel Vieira, Katty Xiomara, Luísa Pinto e Gio Rodrigues, os juízes Rui Rangel e Eurico Reis, o fiscalista Saldanha Sanches (1944-2010), Valentim Loureiro (o meu cromo da sorte), Júlio Isidro e Joaquim Letria, que também eram da casa, Tozé Brito, Luís Filipe Barros, José Cid, o humorista Nilton, Octávio Machado, Francisco José Viegas, Manuel Luís Goucha, José Carlos Malato, Jorge Gabriel, Hélio Loureiro, Paulo Teixeira Pinto e mais uns poucos de que injustamente me estou a esquecer. Dou-lhes, a todos, um grande abraço. Eram sempre os mesmos e a minha tábua de salvação. O meu piquete de emergência.
Cada qual lá teria os seus motivos. Alguns, tenho a certeza, era mesmo uma questão de bondade. Fiquei agradecido a todos. De vez em quando pago-lhes aqui nos meus blogues com umas ripeiradas. É este maldito 24horismo que não há maneira de me passar...
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
Quando eu morrer
Escândalo
Estava muito zangada e enchei-o de nomes, isso é verdade. Chamou-lhe António, José, Fernando, Roberto, Atílio, Alfredo, Tavares, Antunes, Celestino e assim sucessivamente. Toda a gente ouviu.
Quando eu morrer, se for notícia, preocupa-me o que é que o Correio da Manhã me vai chamar. Quer-se dizer. Monstro de Santa Comba, Grávida da Murtosa, Bombeiro de Braga ou Bombeiro Dudu, Rei dos Catalisadores, Predador das Caldas, Violador de Telheiras, Triplo Homicida de Aguiar da Beira, Triplo Homicida de Lisboa, Dentista da TV, Padre de Ferro, Padre DJ da Póvoa de Varzim, Padre Sexy, Padre Motard, Superjuiz, Superpolícia, Estripador de Lisboa, Surfista Português, Mata Sete, Mãe Coragem, Pai Herói, Praxista Boémio, Capitão Roby do Minho, Patrão dos Livros, Alegado Espião da Rússia, Pequena Maddie, são tudo nomes porreiros, bem sacados, ninguém diz o contrário. Mas infelizmente já estão tomados.
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
Aí para as curvas
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| Foto Tarrenego! |
O chamado calo no cu
A sabedoria vem com a idade. Os problemas na próstata também.
Quanto à fotografia, bem, Basílio Horta, ao centro, avança determinado para o comício nocturno na cidade de Braga, por entre meia dúzia de bandeiras da AD, da AD verdadeira, mas que naquela altura já não havia nem o apoiava, e o jornalista a vê-los passar, a tomar conta, bem à direita, o que não deixa de ser paradoxal e embaraçoso, mãos nos bolsos, estantio, olhar enfastiado e bem agasalhado, porque, é o que eu digo, o tempo naquele tempo ainda era de confiança, e fazia frio em Portugal. Frio à moda de Fafe.
Para que conste. A comida oficial da política portuguesa é o lombo de porco assado, que por acaso é quase sempre apenas estufado, e uma desgraça. Canja, lombo e musse de chocolate. Assim. Se calhar até em Fafe, terra da melhor vitela assada do mundo. Quem já passou por campanhas eleitorais e comeu lombo todos os dias, ao almoço e ao jantar, sabe muito bem do que é que eu estou a falar. Lombo assado, e é um pau. Depois, quando alcançam o poleiro ansiado e o povo é que paga, os políticos esquecem-se do porco, tão em conta, tão prato do dia, e servem-se entre eles peixinho da alta à lá qualquer coisa, nanja sardinha, faneca ou carapau de pé-descalço.
Olhai, por exemplo, o Professor Marcelo. Também já comi lombo de porco com ele, diga-se em abono da verdade, mas logo que pulou para Presidente a coisa passou a fiar mais fino. No almoço cerimonial da tomada de posse, a primeira, foi creme de espargos, robalo a vapor e gelado. E no almoço comemorativo dos 40 anos da Constituição, em 2016, a ementa versava creme de couve-flor, tranches de garoupa e pudim de Estremoz. Também um desconsolo, realmente, mas ao menos não é lombo de porco.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026
Já me tinhas dito
Do tempo dos jornais
Era um homem muito antigo. Do tempo em que os jornais escreviam notícias. E ele percebia. Depois os jornais começaram a publicar vídeos. E ele deixou de perceber.
domingo, 1 de fevereiro de 2026
No tempo em que os animais falavam
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| Foto Gaspar de Jesus |
O fim do futebolMais dia menos dia, de uma maneira ou de outra, as claques vão conseguir acabar com o futebol. Para mim, já acabaram. Há anos.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
Sobre Artur Jorge, duas ou três "coisas bonitas"
O carregador de piano
Era uma equipa tecnicamente evoluída, formada por jogadores habilidosos e repentistas, mágicos, predestinados, futebolistas de eleição. Mas precisava evidentemente de alguém que vestisse o fato-macaco, de um carregador de piano. Aproveitando a janela de Inverno do mercado de transferências, foi contratado o Sr. Saraiva, precário da Casa da Música que costumava alombar nas deslocações da Orquestra Sinfónica do Porto.
Uma vez, Artur Jorge (1946-2024) era treinador do FC Porto e foi para o banco num desses jogos de reservas. A certa altura do encontro, resolveu fazer uma substituição e deu ordens a um jogador para aquecer. O jogador, e nem lhe recordo o nome, tirou o blusão para vestir a camisola, colocou as caneleiras com adesivo e tudo, puxou as meias para os joelhos, calçou-se e estava a começar a atar os cordões das chuteiras quando o treinador olhou para trás, estendeu o dedo apontando dali para fora e mandou-o tomar banho, isto é, recolher aos balneários, assim a frio. Alteração táctica na substituição? Nada disso. Apenas castigo. Artur Jorge, que não raras vezes fazia substituições logo nos primeiros minutos de jogo, se pressentia alguém em dia não ou a dormir na forma, queria os seus homens sempre prontos para o que desse e viesse. Preparados e alerta, permanentemente disponíveis para o imediatamente. Mesmo os que ficavam no banco, que era local de trabalho. Isso. O banco de suplentes, com Artur Jorge, não era beira de piscina.
Artur Jorge era homem de poucas falas. Distante, dizia-se. Gostava de "coisas bonitas", isso sabia-se. Exigente, duro, mantinha realmente distância em relação aos seus jogadores, que fazia questão de só "conhecer" no emprego, isto é, no balneário e no campo. De resto, nada de convívio, nada de confianças. Cá fora, na vida real, até os cumprimentos só se fossem por telepatia. Era assim nas Antas, onde os vi chegar e sair, treinador e jogadores, tantas e tantas vezes, passando um pelos outros como se nem os visse. Tinha sido assim na sua época de Vitória de Guimarães, como adjunto ou treinador de campo de José Maria Pedroto (1928-1985), por volta de 1980, se não estou em erro. O Vitória vinha regulamente treinar a Fafe, às vezes, na preparação de jogos nocturnos, vinha ao final do dia, daqueles dias curtos e agrestes do antigo Inverno minhoto, acendia-se a iluminação que havia, fraquinha mas de boa vontade, e o Estádio ficava à média-luz, como se fosse casa de fado. Eu por acaso até gostava. Artur Jorge no meio do pelado, voz potente e rara, explicando a jogada, corrigindo posições, dando nas orelhas aos jogadores enregelados, e mestre Pedroto seguindo o treino da bancada, de pé, bem agasalhado, à civil, contando piadas finas para a corte babada à sua volta, palavra de honra. O deus Pedroto. Chamavam-lhe então manager. E eu achava que deviam ir chamar manager a outro...
Eu conheci Artur Jorge, de vista, do lado do admirador, e conheci muito bem o famoso jornalista, do lado de dentro do ofício. A respeito da tal "entrevista", sei, das duas, qual é a versão verdadeira, sei como se passaram realmente as coisas. Mas o que é que isso interessa agora?
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