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quarta-feira, 29 de abril de 2026

Relações públicas, vícios privados

Jornalista, disse ele

- Profissão?
- Jornalista.
- Imprensa, televisão, rádio, agência noticiosa ou multimédia?
- Câmara municipal.


Uma vez, há muitos séculos, começava eu no meu ofício, mandaram-me a uma conferência de imprensa no palacete da secção do Porto da Ordem dos Médicos. A Ordem dos Médicos do Porto tinha então um assessor de imprensa, relações públicas ou director de comunicação, como parece que agora se diz, que era jornalista no activo, certamente com carteira profissional validada, com cargo de chefia em agência noticiosa pública e que, se a memória não me atraiçoa, também era treinador de futebol. Era portanto o verdadeiro enciclopedista do século vinte. Ou o sebastião come tudo, tudo, tudo. O homem sorria à porta da salinha preparada, com uns bilhetinhos na mão que ia entregando, um ou dois a cada jornalista que entrava, como se estivesse a passar rifas.
Os bilhetinhos. Eram perguntinhas dactilografadas como quadras para concurso de São João no Jornal de Notícias. As perguntinhas que os da Ordem dos Médicos do Porto, ou pelo menos o meu obtuso camarada, queriam que os jornalistas fizessem na tal conferência de imprensa, posto que eles por acaso já tinham a resposta na ponta da língua, "Ora ainda bem que me coloca essa questão...". Perguntas de conveniência, grosseiramente encomendadas, batotice, jornalismo viciado, por assim dizer, que também o há! Mandei o assessor da treta lamber sabão, como se diz na minha terra, vim-me imediatamente embora e nem sequer quis saber se alguém aceitou a encomenda e alinhou na fantochada.
Mas, na verdade, sei.

sábado, 7 de março de 2026

Era Rio mas podia ser Tarzan

Os putativos
"Era hipócrita se dissesse que não penso nas presidenciais", disse Rui Rio uma vez há muitos anose compreendo-o perfeitamente. Eu próprio seria hipócrita se dissesse que não penso nas presidenciais.

Passou-se assim, que eu não sou de intrigas. Durante a chatíssima presidência de Rui Rio na Câmara do Porto, certa vez os jornalistas foram chamados a acompanhar Sua Excelência numa visita à piscina municipal da Pasteleira. Decerto houvera melhoramentos, e Florbela Guedes, a assessora de comunicação, digamos assim, do então futuro e agora ex-líder do PSD, lá estava a tomar conta. Das obras, do presidente e de nós. No decorrer da desinteressante conversa que tivemos de aturar, e não me lembro a propósito de quê, Rio fez a extraordinária revelação de que não sabia nadar. Para mim, que ia pelo 24horas, já chegava. Na verdade, o meu jornal tinha-me mandado lá para conferir se o cinzentão autarca portuense calçava meias da mesma cor, ambas, e de que cor, mas aquilo de não saber nadar, no pico de carreira dos Black Company e da campanha contra o afogamento das gravuras rupestres de Vila Nova de Foz Côa, saíra-me melhor do que a encomenda. Satisfeitos, pedimos a continha e pusemo-nos a andar sem pagar, eu mais o meu camarada da fotografia.
Ainda não tínhamos chegado à Junta de Lordelo do Ouro e já tocava o telemóvel do meu camarada da fotografia, por acaso amigo de infância de Rui Rio. Era a Florbela a dar-lhe o recado que me desse o recado que aquilo de Sua Excelência não saber nadar era a brincar, que o Senhor Presidente nadava como um torpedo, que ele uma vez até esteve quase a ser Tarzan num filme, que aquilo não era notícia, que não valia a pena, que não tinha jeito nenhum, que valha-me Deus! Eu, que também pensava que aquilo não era notícia, e confesso que ia dar o meu melhor para deitar os apontamentos ao lixo, resolvi então oferecer à Dra. Florbela Guedes, ex-jornalista, o mesmo tratamento que ela nos dispensava sistematicamente a nós, jornalistas em geral, não nos atendendo sequer o telefone e fechando-nos todas as portas e janelas do presidente e da autarquia, deixadas no trinco só para alguns. Mandei-a, por isso, dar uma curva com os quatro piscas ligados e, em dois ou três históricos parágrafos, antológicos e imortais, denunciei ao mundo e arredores o escândalo do século - Rui Rio não sabe nadar, yo! -, que eu também não sou para brincadeiras. E ia-me saindo o Pulitzer daquele ano...

Alguns anos depois, creio que em 2020, a meio do consulado de Rio como presidente do PSD, o Expresso publicou um interessante retrato, ou perfil, de Florbela Guedes. Ali se dizia que ela era "a mulher mais poderosa" do partido, que ela era "a sombra e a extensão do próprio líder", que era ela quem decidia "quem fala em nome do PSD - e quando". Quer-se dizer, pensei eu: Florbela Guedes é que era a verdadeira patroa do PSD, portanto a patroa de Rui Rio.