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quinta-feira, 21 de maio de 2026

Uma pedra na sapatilha

Gorilas da Bruna
Bruna é uma "youtuber" bastante "influencer". Elegante, bonita, regularmente recauchutada, famosa por ser famosa, esbanja sensualidade por tudo e por nada e enriqueceu por causa disso. Bruna mal pode sair à rua como as outras pessoas, isto é, põe um pé fora da porta a caminho da piscina por exemplo em Ibiza e multidões de adoradores caem-lhe em cima. Bruna tem milhões de seguidores. De perseguidores. Para fazer uma vida normal, viu-se até obrigada a contratar dois possantes seguranças, ou guarda-costas, à Kevin Costner, ou gorilas, como também se diz, que não a largam um segundo e vão com ela a todo o lado, inclusive à casa de banho por exemplo nas Maldivas. São conhecidos como os gorilas da Bruna.

Duas mulheres com feições e conversa orientais, deito-me a adivinhar. Provavelmente chinesas e aparentemente mãe e filha. Ouço-as antes de as ver. Estão agachadas entre os arbustos do Parque da Cidade, em posição de necessidades, acabo por reparar sem intenção. Desolho num relâmpago, cheio de vergonha e culpa por ter olhado, e fujo dali para fora aos solavancos o mais depressa que posso. As sapatilhas que herdei do meu filho para uma segunda vida fazem-me bolhas nos calcanhares e na planta dos pés. Mancam-me. Já é o terceiro par que recebo assim, manhosamente cilicioso, começo a suspeitar que é de propósito. O Kiko anda a praxar-me não sei porquê.
Dia seguinte à mesma hora, lá estão elas outra vez. As duas novamente cochichando, aninhadas, movendo-se de cócoras pelo meio do restolho como melros assustadiços ou talvez David Attenborough amoitado no coração das florestas tropicais de Bornéu e, alto e pára o baile, isso já me autoriza a não desviar o olhar. Isso de as mulheres se moverem e estarem afinal completamente vestidas e compostas, digo bem, mais o facto de cada uma delas arrastar consigo de vez em quando uma daquelas enormes sacas de supermercado que custavam 50 cêntimos nos dias em que não eram dadas. Entretanto acabaram-se as borlas. Aproximo-me, como quem não quer a coisa. "É pala chá. Só pala chá. Só chá!", diz-me de jacto a senhora mais velha, veemente, incomodada e, parece-me, desconfiada, se não mesmo receosa, da minha inocente curiosidade.
Percebo. As duas mulheres com feições e conversa orientais catam flores de madressilva, que já esbordam, brancas e amarelas, das sacas de supermercado. Voltam lá todos os dias, na época, vejo-as pelas cinco da tarde, às vezes com reforços, um rancho depenicando muros anões e fartos naquela zona mais recatada do parque. Cheira que consola! O ar é doce como mel...
Consulto o Dr. Google, que me explica tudo ou quase tudo. A flor de madressilva é altamente valorizada na medicina tradicional chinesa, que lhe reconhece propriedades adstringente, antibacteriana, antifúngica, anti-séptica, antiespasmódica, antitumor, diaforética, diurética, expectorante, febrífuga, hipoglicémica, laxante e refrigerante. A madressilva, mãe de todas as curas, usa-se para tratar a asma, o colesterol alto, a congestão linfática, a diarreia, a disenteria, a dor de cabeça, a dor de garganta, erupções cutâneas, febre, gripe, inchaços, infecção bacteriana, intoxicação gastrintestinal, laringite, queimadura do sol, sumagre-venenoso, tosse e úlceras. Se lhe conseguirmos acrescentar as unhas encravadas a sida e a covid, como chegou a ser sugerido na China, estaremos então na presença de uma panaceia ao nível da nossa famosa banha da cobra, misteriosamente desaparecida das feiras mas ainda à venda em mercados sorrateiros ou alternativos, que eu bem sei.
Por outro lado: a avaliar pela posição em que é apanhada, o mais certo é que a flor de madressilva faça muito mal às costas - é o que penso. E então lembro-me da querida Bó de Basto, que sabia de lendas, de mouras encantadas e de penedos de morar, que distinguia cogumelos, que conhecia plantas, chás para dores de barriga ou outras maleitas assim a atirarem mais para o pataqueiro, aflições comezinhas, nada comparável com a multifuncionalidade e potência da flor de madressilva, remédio capaz de afrontar as mais medonhas e sofisticadas pestes e pragas, existentes ou por inventar. Lembro-me dos curandeiros, talhadores e endireitas de Fafe e arredores, mulheres e homens honrados e competentes, abençoados por saberes antigos e generosos aliviadores de corpos e espíritos, fui cliente frequente, levado pelas orelhas, lembro-me de me consertarem maus jeitos e trasorelhos, ossos desviados, rachadelas, comichões diversas, uma e outra vez, era eu miúdo e arisco, pobre e feliz, saltando alegremente de desastre em desastre, à falta de outros brinquedos. O nosso bruxo, diga-se em abono da verdade, chegou alguns anos mais tarde, já não veio a tempo de mim.
Mas eu e as duas sobressaltadas apanhadoras de flores de madressilva no Parque da Cidade, quereis saber que mais? Reparastes certamente: a mulher mais velha, sem que eu lhe tivesse perguntado, fez questão de dizer-me, enfaticamente, como se estivesse a justificar-se, a defender-se de uma acusação não formulada, que era "só pala chá". Mas porquê? A coisa também se fuma, será? Alegra a disposição? Hummm!... Vim-me embora com essa pedra no sapato. E era realmente escusado. As sacanas das sapatilhas já me dão mau andar que chegue.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Roma em trajes menores

Imagem Arquivos RTP

Dá-me a tua camisola
Meio-dia. Hora do "Angelus" dominical na Praça de São Pedro, quase completamente cheia. É uma das melhores casas da época. No meio da multidão de freirinhas, jovens padres, padres reformados, falsos padres, carteiristas, japoneses de máquinas fotográficas, polícias, tarados sexuais no roço, a claque ultra do Santos Futebol Clube, vendedores de raspadinhas benzidas, católicos mais ou menos indiferenciados e sérios, uma excursão de Oliveira de Azeméis e "hippies" retardatários, há uma cartolina que se agita no ar, em direcção à janela papal. Está escrito: "João Paulo II - Dá-me a tua camisola".

Uma vez eu fui a Roma comprar um Pinóquio para o meu filho, que era pequenino, coitadinho. E aproveitei para acompanhar a visita de Cavaco Silva ao Vaticano e a Itália, creio que assim nos entendemos. Isto foi em Outubro de 1987, Cavaco era primeiro-ministro de Portugal, mas eu não. Eu trabalhava no Primeiro de Janeiro e o jornal é que me mandou atrás do outro. Lembro-me muito bem do mês e até de um dia em especial, porque eu fazia anos, certos e determinados, e o padre António Rego, que ia pela Rádio Renascença, se não me engano, pôs a comitiva de jornalistas portugueses a cantar-me os "Parabéns!" ao jantar, numa osteria à moda antiga lá para o meio daquelas ruinhas de filme, cheias de buzinas, lambretas, gestos exagerados, gritos de figlio di puttana e roupa a secar.
A imagem ali de cima é exactamente desse dia de festa, cantam as nossas almas, numa conferência de imprensa dada por Cavaco Silva nos jardins da Embaixada de Portugal junto da Santa Sé. No retrato só couberam pessoas importantes. O João Pacheco de Miranda, da RTP, televisão única, a fazer perguntas sem se rir, o nosso "primeiro" e o embaixador respectivo muito atentos, ou a fazerem de conta, e eu, não sei como é que fui ali parar, altaneiro e barbado, dominando a cena e fiscalizando as obras, até parece que faço parte da súcia. Reparai-me na airosidade, na categoria da minha pessoa, não é para me gabar, na classe da meiinha branca, no requinte do sapatinho dirópito. O casaco a estrear tinha cotoveleiras de camurça. E a gravata? A gravata evidentemente era azul e branca, como a cor única do meu coração, em delicado degradê. Gostava muito daquela gravata, acho que ainda a tenho, mas não faço ideia para quê. Eu não uso gravata, eu nem sequer uso colarinho ou casaco, eu há anos que não uso sapatos, valha-me Deus!...
Cavaco Silva foi a Roma e viu o Papa. Era João Paulo II, que agora dizem que é santo. O primeiro-ministro português levava-lhe o delicado e doloroso dossiê Timor-Leste. E eu levava umas palas de sol polaroid em cima dos óculos de ver. Umas palas de levantar ou baixar, consoante a sombra ou a luz, It is I, Leclerc, o que de repente descompôs um par de guardas suíços, que se partiram a rir com o meu desempenho em plena Escadaria de Bramante, eu seja ceguinho.

Era uma das minhas primeiras saídas em serviço ao estrangeiro. E eu levava muito a sério a encomenda de enviado-especial. O meu chefe - mestre Costa Carvalho - exigia-me pelo menos uma página por dia, e uma página por dia, naquele tempo, se quereis saber, com o tamanho que as páginas dos jornais tinham, tipo lençol, era obra desenganada. Instalaram-me no Collonna Palace Hotel, na Piazza di Monte Citorio, e era do quarto com vista para a praça e pornografia na televisão que eu, ao fim do dia, antes do jantar, preparava e enviava o serviço. Por telefone - que era a tecnologia mais avançada que havia, logo a seguir ao pombo-correio. E O Primeiro de Janeiro não tinha dinheiro para pombos-correio.
Eram duas ou três horas de alta tensão. Conferir apontamentos, seleccionar e hierarquizar assuntos, escrever tema principal e caixas, escolher títulos e destaques, pedir a ligação para o Porto, esperar, esperar, esperar, ditar para o gravador o material todo de uma ponta à outra. No Porto, o camarada da secretaria de redacção ouvia a cassete com travão, marcha-atrás e acelerador, como os pilotos de rali ou os pivôs de telejornal, batia os textos a todo o vapor e no final ligava-me de volta, a meu pedido especial, para uma releitura que pudesse servir de emenda a eventuais lapsos de transmissão, que eram praticamente palavra sim, palavra não. E esperar, esperar, esperar. Eram muitos nervos, muita ansiedade, muito ruído e interferências na linha, muita chamada a ir abaixo, muita pomba assassinada, muito aperto na garganta, muito coração nas mãos.
Eu suava em bica, quero dizer, em espresso. Portanto trabalhava em cuecas. Isso mesmo, em cuecas. Um pobre jornalista em cuecas, era o que eu era, com uma toalha a cobrir e proteger a cadeira, outra enrolada no pescoço e um lenço tabaqueiro atado à volta da cabeça tipo Willie Nelson. Um homem de família, pai de filho, respeitado em dois ou três sítios de Fafe e pelos menos numa freguesia de Cabeceiras de Basto, um ex-seminarista de créditos firmados, um intrépido frequentador dos Comandos da Amadora, e ali naqueles preparos, a trabalhar em cuecas e com água por todos os lados. Que triste figura! Que ridículo! Que vergonha!
Para disfarçar, eu imaginava que era nadador-salvador.

Entretanto o Kiko cresceu e anda sempre a viajar: uma vez foi a Itália e trouxe-me dois Pinóquios. Eu nunca mais fui a Roma e, é claro, estou a perder dois-um.

domingo, 26 de outubro de 2025

O milagre das horas

Em cima da hora
Mandaram-no atrasar a hora e ele lá foi. Tentou tudo, pôs-se-lhe à frente, contou-lhe anedotas, ofereceu-lhe um panike e um sumol, deu-lhe indicações erradas, chegou até a agarrá-la pelo braço, mas o máximo que conseguiu foi atrasá-la dez minutos. Agora não sabe como vai ser...

Eu tinha dois relógios indiscutivelmente atrasados uma hora, isto já há coisa de meio ano. Eram o relógio do carro da minha mulher e o relógio aqui do "escritório". A minha mulher e o meu filho chagavam-me a cabeça: - Ó marido, ó pai, que vergonha, relógios atrasados uma hora, e logo dois, que vergonha, que vergonha, se ainda ao menos fossem adiantados, porque é que não acertas as horas, ó marido, ó pai, ó atraso de vida!?...
- As horas a Deus pertencem, ficaremos de horas certas quando for vontade do Senhor - respondia eu, pouco crente em relógios, habituado a guiar-me pelo apito da Fábrica do Ferro e pelo sino da Igreja Nova, nos meus tempos de Fafe, e não há maneira de conseguir deslargar-me desta irremediável costela sacrista e operária, ó mulher, ó filho...

E hoje deu-se o milagre, já contei à Mi e ao Kiko, e vou ligar ao Vaticano, onde também tenho os meus conhecimentos, não cuideis que não. Acordei e o relógio do carro da minha mulher e o relógio aqui do "escritório" estavam certíssimos, mais TMG era impossível. E ninguém lhes tocou! Deus é grande e o tempo está bem bom, não está?

sábado, 18 de janeiro de 2025

À Justiça o que é da Justiça

Foto Tarrenego!

O bom, o mau e o sermão
"Não oponhais resistência ao mau; se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra", ensinou Jesus no Sermão da Montanha (Mt 5, 39). Ora isto de querer fazer de nós bonzinhos à força parece-me um perigoso incitamento à violência. À violência do outro, do mau. Que ainda por cima vai ser mais mau, pela segunda vez, e por nossa culpa, nossa tão grande culpa.

Um querido amigo pediu-me ajuda para um trabalho que estava a fazer: se eu lhe conseguia "resumir em duas linhas o porquê" da expressão "Com Fafe ninguém fanfe". Ele merecia resposta, porque acamaradou comigo em tantos e tantos dos meus fugitivos regressos à terra, tornando-se, por via disso, um extraordinário fafense amador. E eu resumi assim: "Com Fafe ninguém fanfe" quer dizer, tão-só, com Fafe ninguém se meta. Porque, quem se meter, leva! E tem a sua origem nas lendas da Justiça de Fafe, que muito boa gente confunde, hoje em dia, com fazer justiça pelas próprias mãos. Não é nada disso. A Justiça de Fafe deve ligar-se, antes, à defesa da honra.
Ou por outra. A Justiça de Fafe é a metáfora folclórica de uma gente de paz que não gosta de levar desaforo para casa, ou que costumava não gostar. Gente de paz, mas tesa. Nós, os fafenses. Quem se meter com os de Fafe, quem nos ofender de graça, recebe o troco, e que mal tem isso? O resto é treta, mais ou menos erudita. Geralmente menos. Muito boa gente confunde, hoje em dia, este velho sentido de verticalidade com fazer justiça pelas próprias mãos, mas é um engano redondo. A Justiça de Fafe deve ligar-se, antes, à defesa da honra. A coça é semântica.
Isto e mais nada. Nem luta de classes, nem bullying, como se diz agora, nem administração de justiça privada, nem apologia da justiça popular, nem jogo do pau, nem fanfarronice, nem sacholadas, nem pistolas e navalhadas, nem bordoada por dá cá aquele copo, nem ciganos, nem Felizardos, nem Ardegões, nem outros Ardos ou Ões. Tudo equívocos. As lendas têm costas largas, de toda a conveniência para o caso em apreço, mas saber ler antes de escrever e pensar antes de falar também nunca fez mal a ninguém.

E não. O jogo do pau não é "uma das maiores tradições do concelho" de Fafe, como equivocamente se escreve na propaganda autárquica, a mesma que, talvez por anedota, considera "controverso" o nosso verdadeiro ex-líbris, a Justiça de Fafe. O jogo do pau é tão tradição em Fafe como em Lisboa, na Terceira, em Trás-os-Montes, no Ribatejo, na Estremadura, no Algarve ou na Galiza. Sabíeis que o "Jogo do Pau de Cabeceiras de Basto" é património cultural imaterial desde 2023? Isso, o jogo do pau de Cabeceiras de Basto. O jogo do pau é tão tradição em Fafe como a sueca, o futebol ou a malha, o esconde-esconde, o dominó ou a petanca, que se jogam em todo o lado. E que não se pense o contrário: eu gosto do nosso jogo do pau, e conheci e aprendi, sobretudo vida, com grandes "puxadores", veneráveis mestres como o Sr. José do Santo ou o Moleiro do Lombo, mas a verdade é para ser dita.
Não. O jogo do pau não foi inventado em Fafe, não deriva da Justiça de Fafe. Nem a Justiça de Fafe deriva do jogo do pau. A Justiça de Fafe é outra coisa, é lenda, lenda nossa, exclusiva, de honra, insisto, e, bem vistas as coisas, uma das poucas tradições genuínas do concelho de Fafe, que as há, como o nosso falar antigo, inimitável e pitoresco.

Não vamos mais longe. Podíamos ir à Porca de Murça ou às pedras parideiras da serra da Freita, podíamos até ir aos caralhos das Caldas, mas não vamos mais longe: deitemos os olhos aqui ao lado a Guimarães, que após Arões é sempre ao baixo e sem portagens. A vaidade que os nossos vizinhos fidalgos têm na estátua de D. Afonso Henriques, esse gandulo que usava saias e batia na mãe! Ainda por cima, existiu mesmo, e a nossa Justiça de Fafe é só bazófia, invenção - mas é a coisa mais bonita a que nos podemos agarrar, para além da forca de Moreira do Rei, que também não consta da História a sério (ou à séria, se lido em Lisboa).
Os reis de Espanha vieram de visita a Portugal e o nosso presidente Marcelo levou-os a Guimarães e à estátua do tratante, do Afonsinho: a Letizia e o Felipe puseram-lhe flores. E eu gostava de ver o mesmo com a nossa Justiça de Fafe. O mesmo, quero dizer, flores, que de reis e presidentes-reis, embora façam um figuraço nas montras da especialidade, passamos muito bem sem eles.
Mas não. Durante anos o monumento à Justiça de Fafe, pelo contrário, foi mantido longe dos olhares forasteiros, escondido, como se tivesse sido feito por engano, como se tivesse nascido com defeito, como se fosse um erro, um aborto, como se nos envergonhasse. A injustiça foi finalmente remediada, com a nova praça, a aproximação do monumento às pessoas e o sucesso que se sabe. Esbarram-se umas nas outras as iniciativas, apresentações e romarias que ali têm lugar, é ali a nova sala de visitas da cidade, não há viageiro que por lá não passe. De mota, bicicleta, trotinete, patins, carro, camião ou carrinho de rolamentos. Toda a gente tira fotografias com a "estátua" e mete nos facebooks, espero que a autarquia não se lembre de cobrar bilhete. E flores, há-as?
E há mais. As Caldas da Rainha orgulham-se dos seus fradinhos arrebitados, erguem bem alto os seus avantajados membros cerâmicos, e disso fazem negócio, turismo, riqueza. Não estará na altura de Fafe fazer o mesmo com a sua Justiça?

A Justiça de Fafe foi sempre importante para mim. Tenho muito orgulho nela. Desde a época dos postais, das quadras do Zé de Castro, que ainda por cima era meu vizinho, dos calendários, das t-shirts estampadas, do cartaz das Festas da Vila, da idade da razão. Gosto da lenda, percebo-a, conto-a, explico-a, contextualizo-a, acompanha-me desde que eu nasci, passou comigo pelo seminário, pelos Comandos, pelo jornalismo, identifica-me pelo mundo fora, e até aprecio o monumento, embora sempre o tivesse desejado mais central.
E, por minha culpa, a Justiça de Fafe também é importante para a minha família. Nunca a abandonámos, mesmo quando parecia que ninguém a queria. Ali em cima está o Kiko, meu filho, fotografado pela Mi, a mãe, minha mulher, ainda o mundo acabara de ser inventado. Olhai para ele. O Kiko, que é fafense nascido no Porto, fará 41 anos em Abril, coitadinho, vede ao tempo que aquilo vai, e leva-me à "estátua" de vez em quando para matarmos saudades e comermos uma vitelinha como só na nossa terra. Eu e a patroa também lá costumamos ir de visita ao monumento como quem vai a Fátima ou a São Bentinho, três ou quatro vezes por ano, não sei se da próxima será preciso fazer marcação...