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domingo, 12 de julho de 2026

Igreja Nova, pecados velhos

Incesto
Ele andava um farrapo. Deprimido, angustiado, pesaroso, cabisbaixo em todos os sentidos. Atormentava-o o terrível pensamento, a dúvida atroz: será incesto manter relações sexuais com a própria mulher?

Fafe. Na Igreja Matriz, a igreja velha, os homens ficavam à frente, junto ao altar, e as mulheres ficavam atrás, separadas dos homens por umas pequenas grades. Na Igreja Nova os homens ficavam do lado direito para quem olha para o altar e as mulheres ficavam do lado esquerdo para quem olha para o altar. É. A Igreja Nova representou um indiscutível avanço civilizacional. Um avanço para o lado, amém.

Tocavam os sinos da torre da igreja

Advérbios
Há oras felizes e aliás também.

Naquele tempo, Fafe dispunha de dois razoáveis tocadores de sinos: o Zé Sacristão, na Igreja Nova, e o Mudo, na Igreja Matriz. Ambos autodidactas, biscateiros, rabugentos, mas artistas de mão cheia. O Sr. José era sacristão, como o próprio nome indica, e importante autoridade eclesiástica local, logo a seguir ao Sr. Arcipreste e à Irmã do Sr. Arcipreste, só depois é que vinham os outros padres e a comissão fabriqueira. Para além disso, era também muito amigo e principal vítima das anedotas e partidas do meu avô da Bomba e do Sr. Ferreira do Hospital, que lhe davam cabo da cabeça por uma questão de princípio. O Mudo era engraxador e sportinguista de alto gabarito, irredutível fiscal antiborlas e segurança atrás das balizas, primeiro no Campo da Granja e depois no Estádio, hoje, com a mania dos eufemismos sem sentido, chamar-lhe-iam steward e talvez Infonador ou Insonoro. Mantinha ponto no cruzamento da Rua Montenegro com a Rua António Cândido, do lado do Asilo, em frente ao Cândido Mota.
A torre da Igreja Nova dava as horas a prestações, automaticamente, comandando a toque de caixa a vida na vila antiga. Para músicas mais elaboradas, em ocasiões especiais, os sinos eram tocados a partir da sacristia. Imediatamente após as escadas e a porta, quem entrava por fora, logo à mão esquerda, antes do armário que guardava casulas e estolas, capas e outras alfaias litúrgicas mais pesadas, havia uma espécie de cofre cravado na parede e sempre fechado à chave. O interior continha um teclado de meia dúzia de notas, eventualmente as sete básicas mais um ou outro sustenido ou bemol, não tenho a certeza, e era ali, carregando nas teclas com um pauzinho tipo régua, uma de cada vez, na ordem certa, de ouvido, como quem escreve à máquina só com um dedo, que o Sr. Zé Sacristão, ou Zé Fogata, executava as duas ou três modinhas religiosas que sabia, regra geral sem enganos de maior nem improvisações dignas de registo, naturalmente dependendo da hora a que decorria o recital. Entre o toque seco na tecla e a resposta do sino respectivo demorava sempre um bocadinho, um quase nada, mas eu, menino de ajudar à missa, percebia aquilo muito bem, era o tempo que a nota levava a chegar lá acima, porque a electricidade naquela altura não era tão rápida e instantânea como é agora a dos computadores.
Estes concertos eram dados principalmente em dias de festa religiosa, antes e no final de missa solene, nas saídas ou chegadas de compassos e procissões - e lembram-me sol, manhãs límpidas e alegres. Estavam previstos, pertenciam à liturgia oficial. Pela parte que lhe tocava, e muito, o Sr. José também aceitava encomendas particulares, para assinalar condignamente casamentos e baptizados mais faustosos, por assim dizer, mas isso já era pago por fora - se é que me faço entender.
Na Igreja Matriz, o Mudo fazia igualmente pela vida, aproveitando sobretudo os funerais. Estou em crer que o seu serviço constava na folha de pagamentos dos dois cangalheiros fafenses originais, fora as sempre bem-vindas gorjetas dadas pelos familiares do defunto, que assim cuidavam de marcar lugar no céu. Na Matriz exigia-se ao sineiro um desempenho mais atlético e menos melodioso, os sinos eram da geração anterior, tocados à mão, directamente, puxando cordas e badalos, nos velhos compassos, plangentes, com alma, do dobrar de finados. Lá em cima, na torre, ser surdo deveria revelar-se de uma extrema comodidade.

Era o que tínhamos. E dávamos-lhe muito bom uso, não é para nos gabar. Agora. Diz-se que Portugal tem desde 2005 o segundo maior carrilhão da Europa. Em Alverca, com 72 sinos, alguns dos quais pesam várias toneladas, e todos geralmente calados. É o terceiro carrilhão construído em Portugal, depois dos famosos carrilhões instalados, no século XVIII, no Convento de Mafra e na Torre dos Clérigos, no Porto. Os Carrilhões de Mafra são considerados, aliás, o maior conjunto de carrilhão fixo do mundo, com 120 sinos em duas torres. E o maior e mais pesado carrilhão itinerante do mundo é também português, o Lvsitanvs, com 63 sinos e cerca de 12 toneladas, sediado em Constância mas a poder viajar por todo o país em cima de um semi-reboque, segundo leio.
De carrilhões realmente até nem estamos mal servidos. Há quem diga que é preciso tê-los, e nós temos. E quem diz carrilhões, diz órgãos. Órgãos de tubos. Como, por exemplo, o avantajado órgão de tubos da portuense Igreja da Lapa, que é considerado "o maior órgão de tubos da Península Ibérica", e olé!, e o poderoso órgão de tubos da Basílica da Nossa Senhora do Rosário, em Fátima, que é considerado "o maior órgão de tubos de Portugal". Há qualquer coisa aqui que não bate certo, é verdade, mas eu não sei o que é. Os medidores de instrumentos não se entendem e desconhecem os contornos da geografia, mas o livro da antiga 4.ª classe, contas simples de somar e uma fita métrica bastariam para acabar de vez com a confusão, se o assunto fosse em Fafe. Isto com os órgãos para o Guinness não é questão de opinião ou desempenho. O tamanho importa, mesmo!

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Fafe em ponto

A horas para o desemprego
Pegou em todas as suas economias e comprou um relógio de ponto. Agora já só lhe falta o emprego.

O mundo girava ao ritmo dos sinos da Igreja Nova e do apito da Fábrica do Ferro. Estávamos em Fafe e naquele tempo não me constava que houvesse outro mundo. A vida, as horas, os chamamentos, era tudo com norma, à tabela e a toques. Para a fé e para o trabalho, para a devoção e para a exploração - os sinos avisavam para a missa, o apito marcava a mudança de turnos, entradas e saídas de povo às revoadas na velha Companhia de Fiação e Tecidos de Fafe. Comia-se quando a igreja desse meio-dia. Aquelas eram as horas certas de Fafe. Oficiais.
Claro que havia quem destoasse, porque o mundo, para ser realmente mundo completo, e Fafe era completíssimo, tem de ter de tudo, mesmo tolos e destoantes, senão o que é que seria de mim? E era também o caso daquele operário da Fábrica do Ferro que uma vez foi impedido de picar o ponto para pegar ao serviço, porque, disseram-lhe, passava um minuto da hora.
- Estás atrasado! Não ouviste o apito? - atirou o porteiro.
- O apito está adiantado, ainda faltam dois minutos. Olha, tenho e relógio acertado pela Emissora Nacional! - argumentou o operário.
- Então vai trabalhar para a Emissora Nacional... - mandou o porteiro.

Era assim a vida. Era assim o mundo. E o mundo era em Fafe, disso não há dúvidas.

P.S. - A Emissora Nacional era a actual RDP. Era a rádio nacional e rádio do regime. Os seus "pis" horários, antes dos noticiários, acertavam os relógios do país inteiro.

domingo, 26 de outubro de 2025

O milagre das horas

Em cima da hora
Mandaram-no atrasar a hora e ele lá foi. Tentou tudo, pôs-se-lhe à frente, contou-lhe anedotas, ofereceu-lhe um panike e um sumol, deu-lhe indicações erradas, chegou até a agarrá-la pelo braço, mas o máximo que conseguiu foi atrasá-la dez minutos. Agora não sabe como vai ser...

Eu tinha dois relógios indiscutivelmente atrasados uma hora, isto já há coisa de meio ano. Eram o relógio do carro da minha mulher e o relógio aqui do "escritório". A minha mulher e o meu filho chagavam-me a cabeça: - Ó marido, ó pai, que vergonha, relógios atrasados uma hora, e logo dois, que vergonha, que vergonha, se ainda ao menos fossem adiantados, porque é que não acertas as horas, ó marido, ó pai, ó atraso de vida!?...
- As horas a Deus pertencem, ficaremos de horas certas quando for vontade do Senhor - respondia eu, pouco crente em relógios, habituado a guiar-me pelo apito da Fábrica do Ferro e pelo sino da Igreja Nova, nos meus tempos de Fafe, e não há maneira de conseguir deslargar-me desta irremediável costela sacrista e operária, ó mulher, ó filho...

E hoje deu-se o milagre, já contei à Mi e ao Kiko, e vou ligar ao Vaticano, onde também tenho os meus conhecimentos, não cuideis que não. Acordei e o relógio do carro da minha mulher e o relógio aqui do "escritório" estavam certíssimos, mais TMG era impossível. E ninguém lhes tocou! Deus é grande e o tempo está bem bom, não está?