Mostrar mensagens com a etiqueta música. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta música. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Homem que é homem joga "de mane"

Bilhar de bolso
O bilhar de bolso, é preciso que se note, não se chama assim por ser jogado numa mesa pequenina e talvez portátil.

Em Fafe jogava-se "de mane", e às vezes forte e feito. Desafiar alguém para um jogo "de mane", ó meus amigos, era caso sério, provocação do piorio, aviso de trovoada, podia-se até morrer, pelo menos de vergonha. Jogar "de mane" era assunto para homens de barba rija, nem que fossem crianças ou mulheres. E era também malandrice, sim. Era um repente, palavra de honra, mas que parecia uma eternidade. Um momento suspenso no tempo, é assim que me lembro e creio que digo bem. - Vai um joguinho? - dizia um, de olhos faiscantes, nervoso, coçando o coldre. - Contigo, só se for "de mane"... - respondia o outro, manhoso, pendurando o casado e ajeitando as partes, e fazia-se um silêncio inteiro na sala, um silêncio com fundo, até parecia que tocava "Il Triello" de Ennio Morricone mas só para dois mais eu, que, campeoníssimo dos acasos, estava sempre presente nestas ocasiões, quanto mais não fosse para ouvir a música imaginária, creio aliás que era o único que tinha essa estranha capacidade, e nesse sentido, às tantas, até fazia falta ao enredo. Para além disso, eu entendia-os como mais ninguém, legendava-lhes a conversa com pronúncia e entoação de livrinhos de cobóis, isto na minha cabeça, e depois contava assim aos adultos, que achavam um piadão ao "caralho do moço".
Jogava-se, portanto, a dinheiro. Era isso que "de mane" queria dizer. A expressão era auto-suficiente, valia só por si, mas era isso que implicada: dinheiro em jogo, aposta. Às vezes uma coroa, três tostões, cinco coroas, numa lerpa furtiva entre miúdos, ao domingo à tarde, atrás da esquina, só para começar carreira. Por norma vinte escudos, cinquenta ou cem, cada um, em todo o caso eram fortunas, para maiores de idade e chefes de família, uma nota em cima da outra, dobradas e depositadas maldisfarçadamente sob a tabela do bilhar, ali à vista de toda a gente e à espera do vencedor.
Que se segue. "Mane" afinal seria money, a palavra inglesa para dinheiro, aportuguesada às três pancadas, simplificada aos trambolhões para a nossa linguagem de rua, de feira, mas isso em Fafe não se sabia, não havia essa noção naquela época, era o que eu então supunha, porque a mim esta correspondência tão evidente passou-me completamente ao lado, e eu tinha a mania que era fino. E também não sei como é que se construiu a expressão completa "de mane", significando "a dinheiro", sendo certo que realmente me parece que agrada muito mais ao nosso ouvido ouvir dizer "de mane" do que "a mane".
Acredito que "de mane" era talvez fafês puro, original, e posso estar redondamente enganado. Não encontrei a expressão noutro lado, aliás em lado nenhum, nem em Fafe, verdade seja dita, mas também não me esforcei por aí além. Estou aberto ao desmentido e à correcção, se for esse o caso.
Eu era mocico, maluco por cinema e livros, sobretudo aos quadradinhos, entregava-me de alma e coração aos meus afazeres de mirone desimpedido, permanentemente em cima do acontecimento, fora as vezes em que a minha mãe me ia buscar pelas orelhas, e foram tantas. A minha mãe parecia que tinha radar. E eu tinha ideias e teorias. Para mim, na minha gloriosa ignorância, a expressão "de mane" vinha mas é de mano a mano, de homem para homem, cara a cara, face a face ou arca por arca, como também se falava antigamente. Indicava um confronto directo, proporcional, um duelo, uma luta ou uma competição entre duas pessoas em igualdade de condições, como anotam hoje os dicionários e tal qual como no desafio do bilhar, estais a ver, por isso, que, apesar de provavelmente errado, não era assim tão tolo o meu pensar naquela altura.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Os Choupilos

Epitáfio 
Quando Epitáfio morreu, ninguém sabia o que dizer...
Choupilo. Termo regional, antigo, do Norte de Portugal, usado particularmente aqui no nosso Minho, e que quererá dizer sapo pequeno ou sapo vagaroso. Que se segue. Eu não sei se é daí que a coisa vem, mas a verdade tem de ser dita: em Fafe, nos velhos tempos, choupilos eram os músicos da Banda de Golães, os seus sócios e simpatizantes ou seguidores, isto é, os seus apaixonantes. Os Choupilos, porventura assim com maiúscula, com o devido respeito e toda a consideração. Choupilos ou Choupos, neste caso já com um suave toque botânico, tudo isto dito, bem entendido, sempre do ponto de vista dos músicos e apaixonantes da banda rival, arqui-inimiga, a Banda de Revelhe. Quer-se dizer: os da Banda de Revelhe é que chamavam Choupilos ou Choupos aos da Banda de Golães, que, por sua vez, certamente também chamariam nomes do piorio aos da Banda de Revelhe, nomes feios e manhosos, mas juro que não sei quais, nunca foram do meu conhecimento.
Havia uma ronha tremenda entre as nossas duas bandas de música. Fafe tinha um feitio desgraçado, tolo, só se dava bem na confrontação, gostava de dividir-se ao meio e andar à pancada entre si. Estou farto de o dizer, tudo servia para nos separar e opor, para discutirmos e teimarmos: as duas filarmónicas, os dois velhos clubes de futebol, os dois fotógrafos da vila, os dois cangalheiros, a Escola Industrial e o Colégio, a Fábrica do Ferro e o Bugio, o Fredinho Bastos e o Tangerina, a Zundapp e a Sachs, a Juditinha e o Zé da Menina, a Rua de Baixo e a Ponte do Ranha, o Peludo e o Snack-Bar, o Dr. Antunes e o Dr. Amadeu. Uns éramos por uns, outros éramos pelos outros, sempre à bulha, como cão e gato, e ninguém nos aturava. Lembrais-vos do filme "Kramer Contra Kramer", com Dustin Hoffman e Meryl Streep? Pois nós aqui, não tendo nada a ver, era exactamente o mesmo, Fafe contra Fafe, mas sem filmes de jeito nem actores de categoria, tínhamos apenas a mania das facções, o espírito de contradição era o nosso modo de vida. 

A Banda de Revelhe era o meu ambiente. Dos quatro homens da nossa casa, a começar pelo meu pai, só eu é que não fui músico. Sou, em todo o caso, revelhista desde pequenino. E éramos revelhistas ferrenhos. O que agora me parece um pouco estranho, porque, por outro lado, a Banda de Golães é que chegou a ser, a partir dos finais do século XIX, a banda oficial dos Bombeiros Voluntários de Fafe. E nós éramos "os da Bomba", que diabo. Já bem na segunda metade dos anos de mil e novecentos, portanto um século mais tarde e deslaçada formalmente aquela histórica ligação, a Banda de Golães ainda honrava a tradição, formava em frente ao quartel da Rua José Cardoso Vieira de Castro, no dia da Festa da Bomba, e tocava o Hino dos Bombeiros. Lembro-me muito bem de ver e de ouvir. Sei de cor e salteado a melodia do hino, integral e afinada, trauteio-a ou assobio-a amiúde, só porque me dá na cabeça ou se calhar são saudades, e foi daquela maneira que a aprendi. 
Curiosamente, havia outros ramos da família, não directamente ligados aos Bombeiros como nós, que, eles sim, aderiram à Banda de Golães, o que me enchia de escândalo naquela altura, teria eu para aí sete ou oito anos. Recordo-me do Tio Rochinha, da Recta, e do Tio Albino Grande, tios-avôs, mais um ou dois primos em segundo grau, se não me engano. O bom Tio Rochinha, pequenino, tão frágil e trágico, sempre com um sorriso engatilhado e, enquanto pôde, palavras amáveis e reconfortantes para distribuir por toda a gente. E o Tio Albino Grande, um homem imponente, elegante, gentil, com uma voz mansa e bem timbrada, de locutor nocturno da Emissora Nacional, uma voz que eu gostava muito de ouvir, parecia que fazia bem às pessoas. O Tio Albino era casado com a Tia da Rua do Maia e pai do famoso Fernando Massagista, querido primo, "primaço". A Tia da Rua do Maia era irmã do Bô da Bomba e passámos a chamar-lhe Tia Rottenmeier, isto é, Tia Rotmaia, quando os bonequinhos japoneses da "Heidi" chegaram à RTP, na parte final da década de 1970.
O Tio Albino era o garboso porta-estandarte da Banda de Golães. Dava gosto vê-lo, palavra de honra. E nós dizíamos, invejosos e talvez malandros, que ele tocava muito bem bandeira.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

O sonho comanda a vida?

Cuidado com o que se deseja
Perseguir sonhos, às vezes, pode ser crime. Nesse caso chama-se "stalking".

Sonho. Bolinho muito fofo, de farinha e ovos, frito e depois geralmente passado por calda de açúcar ou polvilhado com açúcar e canela. Só isto. Agora: onde raio é que o poeta foi buscar a ideia de que "o sonho comanda a vida"? Se ainda fosse o pão-de-ló de Fornelos...

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Ele tinha um ouvido gourmet

Finura
Era de uma educação requintada. Dizia: "Tem progenitor que é invisual". Dizia: "Em terra de invisuais, quem possui um olho é monarca". Dizia: "O pior invisual é aquele que se recusa a vislumbrar". Dizia: "A palavras loucas, pavilhões auriculares insonoros".

Ele tinha um ouvido gourmet. Um ouvido conhecedor, apreciador, sofisticado, apurado, selectivo, esquisito, delicado, requintado. Requinta, por falar nisso, é pequeno clarinete ou flauta transversal, como a galega, ou viola braguesa de reduzida dimensão, mas desculpai-me o devaneio. Fixemo-nos no fundamental: ele tinha um ouvido gourmet. Um ouvido famoso, aclamado, respeitado, procurado, absoluto, definitivo. O esquerdo. Do direito, era magnificamente surdo.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Era uma música muito estranha

Apontamento musical
Era um pequeno apontamento musical. Estava escrito num "post-it". 

Uma vez, há muitos séculos, levaram-me a uma espécie de concerto no auditório do Conservatório de Música de Braga. Eu estava no seminário, teria no máximo os meus dezasseis anos e portanto que remédio. Fomos talvez para compor a sala, não faço ideia. E aquilo foi muito chato, não é para me gabar. Pela primeira vez na vida ouvi Béla Bartók, por interposta pessoa, e Cândido Lima, por ele próprio, creio que também com direito a comentários, ainda por cima. Saí de lá muito zangado com a padralhada e convencidíssimo de que o que acabara de ouvir não era música, até porque já tinha aprendido nas aulas que "música é um conjunto de sons agradáveis aos ouvidos", e na verdade eu vim cá para fora com as orelhas todas lixadas.
Que se segue? Descobri recentemente que existe o Dia Internacional da Música Estranha, festejado a 24 de Agosto, e lembrei-me deste lamentável episódio, que me marcou como ferro em brasa até aos dias de hoje. E então, quer-se dizer, talvez aquilo fosse isso: música estranha. Mas eu não sabia. Devo acrescentar, em minha defesa, que entretanto mudei de opinião a respeito daquela, digamos assim, especialidade musical. Mudei de opinião, mas apenas um bocadinho e, devo confessar, pelo devido respeito à carreira, obra e prestígio internacional do maestro Cândido Lima, que nasceu em Viana do Castelo, em 1939. Fundador do Grupo Música Nova, autor de "A Sétima Voz", "Madrigal Blue" e "Cartas", ele foi o primeiro compositor português a utilizar em simultâneo, entre outros meios, computador, electroacústica e orquestra.

E cá está. Cinquenta anos depois daquela experiência traumática, quase tolerei, no outro dia, a música de Martin Matalon sobreposta ao filme "Metropolis", de Fritz Lang, na Casa da Música, trabalho "para 16 instrumentistas e eletrónica" executado ao vivo pelo Remix Ensemble, sob a direcção de Bastien Stil. Quase tolerei, digo bem. O filme, mudo, centenário, interessou-me muito, nunca o tinha visto assim praticamente integral, reconstruído, é realmente uma obra-prima, isso nem se discute, mas a banda sonora, esgalhada ali mesmo à minha frente, incomodou-me sobremaneira. O som estava nos limites do insuportavelmente alto, parece que agora é assim no cinema, a música era irritante, estridente, agreste, agressiva, despropositada, um suplício para o meu ouvido sensível e requintado, um ouvido gourmet, não falta quem mo inveje. Mas ali me mantive, alapado, sofredor e inusitadamente culto, mesmo depois do intervalo, até ao fim, embora já soubesse que o artista ia ficar com a rapariga e que os trabalhadores estragam tudo quando levantam a cabeça e fazem revoluções, felizmente temos os ricos, os de cima, que nos perdoam e safam sempre. Para além disso, precisava de apanhar o metro e já era de noite. Sentada ao meu lado, a Mi, que nem é destas coisas, portou-se também como uma heroína.

Os Sexy Rannas

Conversing
- Estás com pressing?
- Não. Por acaso até tenho timing.

Outubro de 2015. Morreu Jim Diamond, o escocês que cantou I should have known better. A notícia, apresentada desta maneira, apanha-me completamente desprevenido. Não faço ideia de quem é o falecido, e o nome da cantiga, assim em estrangeiro, também não me diz grande coisa, porque sofro de disfunção relacionada com títulos e letras de canções, sejam as canções e os títulos e as letras em que língua forem. Só conheço as melodias, e apenas de vista. A minha ignorância é, realmente, formidável.
Mas quem procura sempre alcança, como dizia o sábio ginecologista polinésio. Procurei, portanto, e cheguei lá. Ao Jim Diamond - que continua a não me dizer nada, mas agora por razão de força maior, isto é, calou-se para sempre - e à cantiga em questão. À melodia. E aqui, sim, veio-me à memória um extraordinário grupo de rapazes que fizeram época em Fafe na década de oitenta do século passado e que, se não me engano, criaram no Café Chinês uma interessantíssima versão aportuguesada do tal sucesso de Diamond, versão essa injustamente ignorada pela Billboard. Paródia e paronímia, com todas as sílabas a baterem certo com o inglês original, seria, se bem me lembro, algo parecido com o que se segue a respeito do meu primo Zé, que por acaso também era da corda: "O Bomba não bebe. Não bebe, não bebe, não bebe, não bebe pouco. O Bomba não bebe. Não bebe, não bebe, não bebe pelo nariz"...
Creio que também não erro se disser que aquela rapaziada fez a mesma habilidade com a canção "Somebody", de Bryan Adams, mas a propósito do assassínio de Issam Sartawi, representante da OLP (Organização para a Libertação da Palestina) no XVI Congresso da Internacional Socialista, em Montechoro, Algarve, em 1983.
Lembrei-me dessa malta toda e deu-me vontade de rir, ri-me como um perdido e soube-me bem: eles eram - não sei se vou dizer correctamente - os Sexy Rannas, assim autoproclamados, eram a geração e o bando do meu irmão mais novo, o Orlando, meninos para o preciso, transgressores mansos, gente do melhor que Fafe tinha, e, se andarem por aí, o que lhes estimo é o que lhes desejo, a todos em geral e a cada um em particular, mais às respectivas e excelentíssimas famílias, se é que chegaram a tanto.

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

À facada, era tiro e queda

Uns para os outros
José deu uma facada a António. António deu um tiro a José. É a vida. Temos de ser uns para os outros.

Sou dos filmes de cobóis desde pequenino e particular consumidor dos spaghetti de Sergio Leone com molho de Ennio Morricone. Comecei a vê-los no Cinema de Fafe há mais de meio século e nunca mais parei. Tenho-os agora na despensa, a colecção completa e indispensável, que me foi oferecida pelo meu irmão Orlando. Gosto. Gosto e assobio. Vejo-os sempre que me apetece, e se dão na televisão (como dão de vez em quando na RTP 2, cada vez menos, ou agora nestes canais que nos saem do bolso, como, por exemplo, outro dia, no Fox Movies), não mando ninguém ver por mim. Vejo eu próprio, em pessoa. Vejo e assobio. Porém, ao fim destes anos todos e após milhões de sessões, devo confessar o seguinte: continuo sem perceber a dinâmica da morte dos bandidos. Há ali qualquer coisa que não bate certo. Quer-se dizer - os bandidos é como tordos, morrem uns atrás dos outros, do mais fraquinho e insignificante até chegar ao chefe que até sabe artes marciais, e assim é que está bem, ordem acima de tudo, mas já reparastes à custa e ao fim de quantos balázios? Já contastes quantas balas são precisas para matar um bandido, um só, nem que seja um simples soldado raso, um bandido tão bandido que nunca abriu a boca durante o filme, um figurante praticamente? Mais de dezasseis e todas na muche, isto é, na mosca, até que o estafermo do bandido, um só, aceite esticar de vez o pernil, deixando o filme avançar. É muita despesa e má propaganda à inquestionável pontaria, por exemplo, de um atirador do calibre de um Clint Eastwood. Em contrapartida, quando a coisa é resolvida à facada, o mau da fita morre logo à primeira. Tiro e queda, já vistes?
Acho mal. E portanto assobio.

sábado, 8 de agosto de 2026

O Homem da Música

Foto Hernâni Von Doellinger

Deus, cara a cara
Dizia: - Quanto mais conheço Deus, menos me interessa a Igreja.

Éramos accionistas maioritários de um banco. Um banco de jardim no Parque da Cidade do Porto, alameda de entrada-saída da Avenida da Boavista, quase em frente às bombas da Galp, quem vai para a igreja de Nevogilde. Eu e ele, o meu amigo Senhor Hernâni, o Homem da Música, ou Senhor Feliz, como prefere chamar-lhe a minha mulher.
As voltas da vida desviaram-me à falsa fé dos nossos encontros ecuménicos de fim de tarde. Ele adventista militante e eu católico sem frequência, falávamos de artes, de paz, das crianças e dos velhos, da família, do amor, de afectos, da memória, do mundo, de tudo e de nada, de Deus, da alegria de viver com Deus. O Senhor Hernâni tentava missionar-me, converter-me, contava-me da sua Igreja, cantava-me hinos de louvor à vida e ao "Senhor Jesus". Enfeitava-os com um trejeitinho de fado, às vezes de folk americano, palavra de honra. Eu tinha para a troca o "Tantum Ergo" que aprendi no seminário e o "Queremos Deus" que trouxe das excursões do meu avô a Fátima, mas guardava os latinórios para mim, e creio que era sensato, o meu amigo não merecia semelhante castigo.

O Homem da Música fez o favor de me deixar começar a ser seu amigo parece-me que há coisa de quinze anos. Calhava perdermo-nos de vista por umas temporadas, mas felizmente lá tornávamos ao reencontro no banco do costume - um banco de confiança. Uma vez o Senhor Hernâni apareceu-me com instrumental novo e a superbicicleta cada vez mais artilhada: até já tinha relógio-despertador, peça fundamental em velocípede que se preze. Acertámos a conversa em atraso. Contou-me que o jeito para as engenhocas lhe vinha do ofício antigo, mais de trinta anos como afinador de máquinas numa grande fábrica em Rio Tinto. E que o amor pela música era de sempre, desde que se lembra de começar a contar os 77 anos que então levava.
Falou-me da mulher, que tinha "menos dez anos" do que ele e doenças que chegassem para os dois. Dos filhos, três, um dos quais "trabalha numa agência e sabe as línguas todas". Da ventura de alma que lhe é "louvar e amar o Senhor". Do seu Bairro da Fonte da Moura. Da lambreta cor-de-laranja em avançado processo de tuning caseiro. Das viagens em bicicleta até Arcozelo, em Gaia, ou até São Mamede de Infesta, para tocar. Só para tocar. Tocar por tocar. E pelo caminho já cantava e tocava - o que houvesse a resolver com o trânsito, era "pelos retrovisores"...
Outra vez, há meses que não o via, o Senhor Hernâni justificou as faltas. Contou-me que passara a ir alegrar as tardes da rapaziada da idade dele que frequentava o centro de dia da então Junta de Aldoar. Levava-lhes música, porque lhe apetecia e fazia gosto. Ninguém lhe encomendara o serviço, nada disso. Era bondade em estado puro. "Eles vêm cá para fora e eu toco", diz-me, quase envergonhado da felicidade serena que lhe baila nos olhos. "Quer ver? Quer ver?", e rapa da harmónica e do pandeiro e oferece-me uma bela modinha americana que, na verdade, é um hino religioso. Agradeço-lhe. Digo "Muito bem!", pigarreio, para esconder a comoção que também me embaraça. Lembro-me do verso de António Gancho, que diziam louco: "A música vinha duma mansidão de consciência", e ali vinha, meu Deus! Conto-lhe como tenho sentido a falta dele no banco do Parque e que andava preocupado. Não estou a mentir, o Senhor Hernâni diz-me respeito. O Homem da Música percebe, ri, rouba duas ou três notas ao teclado que tem em cima dos joelhos, para que eu saiba que a coisa funciona. E funciona. O Homem da Música tem um dom, dá vida a tudo o que toca, e toca tudo, acordeão, concertina, gaita, e até microfone e até rádio, e faz instrumentos de velhos rádios desactivados, transforma-os em artefactos musicais, amiúde "electrónicos". Toca. O meu amigo é tocador de corações. Isso. A coisa funciona.
Ele quer que eu fique mais um bocado. Fico. Gosto do Homem da Música. Ainda por cima tem um nome próprio que, não desfazendo, lhe calha muito bem - é Hernâni como eu. Senhor Hernâni. Senhor, verdadeiramente, que eu não sou.

De vez em quando eu ia sabendo do Senhor Hernâni. Os recados, avulsos, diziam-me que ele estava bem. Isto é, assaltaram-no, roubaram-lhe os documentos e andava a tratar dos papéis novos, sobretudo da carta de condução, que era o que mais o afligia. Teve de ir à Junta de Aldoar, e a minha mulher, que lá trabalhava então, apresentou-se-lhe. O meu amigo fez-lhe uma festa bonita e aproveitou para mandar-me um abraço que me soube pela vida, e repetiu a façanha dois dias depois, forçando novo encontro com ela, como quem não quer a coisa, mais um abraço para mim, e eu fiquei mais feliz ainda.
Portanto, o Senhor Hernâni esteve com a minha mulher em duas breves ocasiões, e foi talvez há sete ou oito anos. Em 2023, aposentada de fresco, a minha mulher precisou de ir ao antigo emprego, e quem é que ela encontra à porta, por extraordinário acaso? O Senhor Hernâni, que, ao vê-la aproximar-se, atira à queima-roupa: - A senhora é a familiar do senhor Hernâni que mora em Matosinhos, não é? Ele como está? Quando chegar a casa, dê um abraço ao seu marido e diga-lhe que foi o Hernâni que mandou. Diga-lhe que eu estou bem, que vou fazer 90 anos, que continuo muito contente, porque acredito em Deus, diga-lhe que continuo a cantar e a tocar...
E cantou. Cantou. Ali! O meu amigo Senhor Hernâni cantou para a minha mulher, como costumava cantar para mim.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Por una cabeza

Cavalinho da chuva
Mandaram-no tirar o cavalinho da chuva, e ele tirou. E no entanto estava um rico dia de sol.

"Por una cabeza" é talvez o velho tango mais conhecido dos tempos modernos. A sua versão instrumental é tocada a torto e a direito nas séries de televisão e no cinema, não só pela sua indiscutível beleza e porque entretanto caducaram os respectivos direitos autorais, mas sobretudo depois de ter sido utilizada com o sucesso que se viu no filme "Perfume de Mulher", de 1992, que valeu a Al Pacino o Óscar de melhor actor. Eu trago-o no ouvido desde o tempo do Belinho e do seu acordeão, no palco do salão dos Bombeiros de Fafe, lá pelas décadas de 60 e 70 do século passado. A autoria deste tango é muitas vezes erradamente atribuída a Astor Piazzolla, o mestre do bandoneon. Na verdade, o tango "Por una cabeza" foi composto em 1935 com música de Carlos Gardel, o mais famoso dos cantores de tango da história, e letra de Aldredo Le Pera.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Os Bítalas

Cabeças brilhantes
Ele tinha ideias. Abriu um cabeleireiro para carecas. Lavava, encerava e puxava o lustro.

Os Bítalas eram um conjunto musical e cantavam obladi obladá. Eram quatro, sendo que o do bombo tinha cara de morcão, e chamavam-se Bítalas exactamente por terem cabelo grande, mas que afinal não era assim tão grande, como os hippies vieram posteriormente a demonstrar - era apenas um cabelinho amaricado, aparadinho, muito anos vinte, muito tipo Beatriz Costa. Bítalas em português diz-se Guedelhudos. Os Bítalas eram ingleses de Liverpool e do mundo. Em Fafe, no tempo em que imperava o corte à tigela (ou malga, se fosse mesmo à nossa moda), como actualmente outra vez, quem tivesse o cabelo a roçar as orelhas era Bítala e malvisto. Nas mãos do barbeiro Pimenta do seminário menor de Braga, os Bítalas depressa deixavam de sê-lo. Eu fui, mas cantava num orfeão de manifesto pendor sacrista e por isso passei ao lado de uma grande carreira.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Meu rico menino

Ai quem me dera
"Ai quem me dera ter outra vez vinte anos", cantava com sentimento o jovem fadista, estrela que haveria de ser. Tinha apenas sete aninhos, coitadinho, mas, quem o ouvisse, parecia que tinha oitenta...

Uma noite, altas horas, saíamos da casa de má fama ali para os lados da Estação e resolvemos passear descalços pelas ruas desertas e geladas da cidade. Não sei de quem foi a peregrina ideia, mas, de tão tola, decerto foi minha. Confesso que não me lembro do que pretendíamos exactamente provar, se é que queríamos provar alguma coisa, mas gosto de pensar naquele momento insólito como um ritual de fraternidade, a celebração de uma amizade antiga e inoxidável que nos ligava desde miúdos, apesar da evidente diferença de "estatuto social" entre as nossas duas famílias. Frequentara-lhe a casa - de rico, por assim dizer, e dizia-se assim naquele tempo. Eu levava-lhe de avanço um par de anos. Dava-me o lanche, apresentou-me ao pão com manteiga e ao café com leite. Guiou-me pelos caminhos do rock. Ensinou-me Queen, com as devidas reservas. Emprestou-me "A Night at the Opera", acabado de sair, novinho em folha. Eu e a minha mãe deliciávamo-nos a ouvir "Bohemian Rhapsody" uma e outra vez, mais de vinte ou trinta vezes ao dia, no pequeno gira-discos francês que nos sobrara do meu pai. E ficou Queen até hoje, posto que non troppo.
Ali íamos, portanto. O Bertinho e eu. E, sim, era realmente liturgia, era festa. Glorificávamos a camaradagem desinteresseira e fiel. Éramos irmãos. Irmãos para toda a vida e depois. Ali íamos afinal iguais, ambos de pés descalços, com as botas e as meias pela mão, trocando memórias e partilhando o riso. Ríamos muito! Passávamos em frente à Câmara e parámos - éramos, penso-o agora, uma procissão, os dois. Se naquele precioso instante soltassem revoadas de pombas brancas por sobre as nossas cabeças e lançassem estrondosas girândolas de foguetes, creio que não nos espantaríamos. Nós éramos a Senhora de Antime, a festa inteira, em pessoa.
Escandalosamente generoso e bom, leal e presente, o Bertinho chamava-me "meu rico menino", e eu gostava. Eu gostava, meu rico menino!

(Já agora: Bob Dylan, aprendi-o com o Best, madrugada dentro, em casa dos pais, no Lombo. Iniciei-me com "Hurricane" e sandes de fiambre, e talvez também cerveja.)

domingo, 12 de julho de 2026

Tocavam os sinos da torre da igreja

Advérbios
Há oras felizes e aliás também.

Naquele tempo, Fafe dispunha de dois razoáveis tocadores de sinos: o Zé Sacristão, na Igreja Nova, e o Mudo, na Igreja Matriz. Ambos autodidactas, biscateiros, rabugentos, mas artistas de mão cheia. O Sr. José era sacristão, como o próprio nome indica, e importante autoridade eclesiástica local, logo a seguir ao Sr. Arcipreste e à Irmã do Sr. Arcipreste, só depois é que vinham os outros padres e a comissão fabriqueira. Para além disso, era também muito amigo e principal vítima das anedotas e partidas do meu avô da Bomba e do Sr. Ferreira do Hospital, que lhe davam cabo da cabeça por uma questão de princípio. O Mudo era engraxador e sportinguista de alto gabarito, irredutível fiscal antiborlas e segurança atrás das balizas, primeiro no Campo da Granja e depois no Estádio, hoje, com a mania dos eufemismos sem sentido, chamar-lhe-iam steward e talvez Infonador ou Insonoro. Mantinha ponto no cruzamento da Rua Montenegro com a Rua António Cândido, do lado do Asilo, em frente ao Cândido Mota.
A torre da Igreja Nova dava as horas a prestações, automaticamente, comandando a toque de caixa a vida na vila antiga. Para músicas mais elaboradas, em ocasiões especiais, os sinos eram tocados a partir da sacristia. Imediatamente após as escadas e a porta, quem entrava por fora, logo à mão esquerda, antes do armário que guardava casulas e estolas, capas e outras alfaias litúrgicas mais pesadas, havia uma espécie de cofre cravado na parede e sempre fechado à chave. O interior continha um teclado de meia dúzia de notas, eventualmente as sete básicas mais um ou outro sustenido ou bemol, não tenho a certeza, e era ali, carregando nas teclas com um pauzinho tipo régua, uma de cada vez, na ordem certa, de ouvido, como quem escreve à máquina só com um dedo, que o Sr. Zé Sacristão, ou Zé Fogata, executava as duas ou três modinhas religiosas que sabia, regra geral sem enganos de maior nem improvisações dignas de registo, naturalmente dependendo da hora a que decorria o recital. Entre o toque seco na tecla e a resposta do sino respectivo demorava sempre um bocadinho, um quase nada, mas eu, menino de ajudar à missa, percebia aquilo muito bem, era o tempo que a nota levava a chegar lá acima, porque a electricidade naquela altura não era tão rápida e instantânea como é agora a dos computadores.
Estes concertos eram dados principalmente em dias de festa religiosa, antes e no final de missa solene, nas saídas ou chegadas de compassos e procissões - e lembram-me sol, manhãs límpidas e alegres. Estavam previstos, pertenciam à liturgia oficial. Pela parte que lhe tocava, e muito, o Sr. José também aceitava encomendas particulares, para assinalar condignamente casamentos e baptizados mais faustosos, por assim dizer, mas isso já era pago por fora - se é que me faço entender.
Na Igreja Matriz, o Mudo fazia igualmente pela vida, aproveitando sobretudo os funerais. Estou em crer que o seu serviço constava na folha de pagamentos dos dois cangalheiros fafenses originais, fora as sempre bem-vindas gorjetas dadas pelos familiares do defunto, que assim cuidavam de marcar lugar no céu. Na Matriz exigia-se ao sineiro um desempenho mais atlético e menos melodioso, os sinos eram da geração anterior, tocados à mão, directamente, puxando cordas e badalos, nos velhos compassos, plangentes, com alma, do dobrar de finados. Lá em cima, na torre, ser surdo deveria revelar-se de uma extrema comodidade.

Era o que tínhamos. E dávamos-lhe muito bom uso, não é para nos gabar. Agora. Diz-se que Portugal tem desde 2005 o segundo maior carrilhão da Europa. Em Alverca, com 72 sinos, alguns dos quais pesam várias toneladas, e todos geralmente calados. É o terceiro carrilhão construído em Portugal, depois dos famosos carrilhões instalados, no século XVIII, no Convento de Mafra e na Torre dos Clérigos, no Porto. Os Carrilhões de Mafra são considerados, aliás, o maior conjunto de carrilhão fixo do mundo, com 120 sinos em duas torres. E o maior e mais pesado carrilhão itinerante do mundo é também português, o Lvsitanvs, com 63 sinos e cerca de 12 toneladas, sediado em Constância mas a poder viajar por todo o país em cima de um semi-reboque, segundo leio.
De carrilhões realmente até nem estamos mal servidos. Há quem diga que é preciso tê-los, e nós temos. E quem diz carrilhões, diz órgãos. Órgãos de tubos. Como, por exemplo, o avantajado órgão de tubos da portuense Igreja da Lapa, que é considerado "o maior órgão de tubos da Península Ibérica", e olé!, e o poderoso órgão de tubos da Basílica da Nossa Senhora do Rosário, em Fátima, que é considerado "o maior órgão de tubos de Portugal". Há qualquer coisa aqui que não bate certo, é verdade, mas eu não sei o que é. Os medidores de instrumentos não se entendem e desconhecem os contornos da geografia, mas o livro da antiga 4.ª classe, contas simples de somar e uma fita métrica bastariam para acabar de vez com a confusão, se o assunto fosse em Fafe. Isto com os órgãos para o Guinness não é questão de opinião ou desempenho. O tamanho importa, mesmo!

sábado, 11 de julho de 2026

Fulanos, sopranos e beltranos

Compensações
Quem disse que o crime não compensa, decerto não sabia fazer contas...

Os sopranos têm, por definição, o tom de voz mais agudo e com mais alcance de mulher ou de rapaz muito novo. Se os sopranos forem homens, os puristas preferem chamar-lhes contratenores, que há quem confunda com contentores. Os sopranos dividem-se essencialmente em sete partes: soprano ligeiro, soprano lírico-ligeiro, soprano lírico, soprano lírico-spinto, soprano lírico-dramático, soprano dramático e soprano ultraligeiro. Também podem ser saxofones ou clarinetes. Nos Estados Unidos, os Sopranos ainda piam mais fino: falam com sotaque e gestos italianos, são mais que as mães, maus como as cobras e convictos frequentadores de meretrizes. São extremamente mafiosos e profundos conhecedores, estes sim, de contentores, blocos de cimento, peixes e rios, para além de cabeças de cavalo, que há quem confunda com cabeças de cavala. De escabeche. Quando inadvertidamente apanhados por famílias de outros naipes, liquidados e desmembrados como manda a lei, os Sopranos são chamados, por divertimento, meios-sopranos. Os Sopranos americanos fizeram uma excelente série de televisão e posteriormente derem em filme, o que se lamenta. O melhor Soprano do mundo (portanto, o pior) chamava-se Tony e padecia de ansiedade.
O meu pai era músico e tocava saxofone, tenor, na Banda de Revelhe, de Fafe. Isto antes de ir para França. O meu irmão Orlando também. Também foi músico e também tocou saxofone, alto, na Banda de Revelhe. Isto antes de se dedicar a outros consertos. O meu irmão José Manuel foi músico toda a a vida na Banda de Revelhe, mas tocava trompete ou, vá lá, fliscorne. Isto antes de se cansar. Eu cheguei a aprender música para a Banda de Revelhe, porém o máximo que sei tocar é campainhas de porta. Mas canto como um trombone.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Posso pedir um disco?

O último pedido
Vinham o padre, o presidente da câmara, o chefe da polícia e o doutor juiz. O carcereiro, que vinha também, desatarraxou a porta da cela e o director da prisão, na boa, informou o condenado: - Tens direito a um último pedido. O condenado pensou um bocadinho e disse: - Pode ser "A mula da cooperativa", do Max?...

A primeira jukebox de todos os tempos entrou em funcionamento no "saloon" Palais Royale, de São Francisco, EUA, no dia 23 de Novembro de 1889. A Fafe, as primeiras jukeboxes deverão ter chegado no final da década de sessenta do século passado, com as barracas de matraquilhos que se instalavam por baixo da Arcada, mais central era impossível, pelos 16 de Maio e pelas Festas da Vila. Havia um brilhantíssimo grupo de jovens fafenses,  bem mais velhos do que eu, que dava excelente uso à novidade. Dessa malta porreira fariam parte, se não me engano, o Berto Dantas, tio, o Eduardo do Retiro, Eduardinho, o Mesquita, creio que o Mané, Dr. Mané, o Jorge Lem, se era assim que se chamava, o Jorge Barros, filho do Nelinho, bissextamente o Ginho Cardoso e não tenho a certeza se o Bi Valente, gente assim desta categoria, e estou decerto a esquecer alguém ou alguéns e talvez a confundir nomes. Eram a vanguarda de Fafe. Eu admirava muito estes tipos cheios de classe, seguia-os sempre que podia, distâncias à parte, uma vez até me levaram com eles para um jogo de futebol que foram fazer a Felgueiras, não sei a que propósito, e no fim ainda tiveram a bondade de convidar-me para a almoçarada no primeiro-andar da Juditinha, evidentemente depois do Bertinho ter pedido por mim à minha mãe.
Mas tornando à maquineta dos discos, que mais tarde haveria de exibir também videoclipes, aliás de muito duvidosa qualidade, artística e técnica. Aquela rapaziada, já com algum mundo, tinha fino gosto musical e conhecia o que, regra geral, em Fafe ainda não se sabia. Acredito que me educaram o ouvido, entre alguns outros a quem o devo. A escolha na jukebox era muito limitada, pindérica, a ementa ao dispor consistia quase só naquilo a que hoje costumamos chamar música pimba. "O autocarro do amor" - de Os Taras e Montenegro, por onde andava um moço chamado Quim Barreiros - tocava de manhã até à noite, num despique fratricida e interminável com "Eu te amo, meu Brasil", de Os Incríveis. Uma xaropada insuportável, um atentado às orelhas de qualquer um, nem que não as tivesse ou por mais moucas que elas fossem. A minha sorte é que os rapazes do bando do Bertinho, chamemos-lhes assim, faziam questão de destoar da ignorância geral e caprichavam na evangelização, pondo a tocar, de forma paciente e cirúrgica, Beatles, obrigatoriamente, um cheirinho de Rolling Stones, Sheiks, Nat King Cole, que eu desconhecia, Sinatra, Joan Baez, Bob Dylan, Neil Young, Beach Boys, Mungo Jerry e "In the summertime", Scott McKenzie e "San Francisco", Los Bravos e "Black is black", lembro-me também da poderosa versão de "I'm free", da ópera rock Tommy, dos The Who, com a London Symphony Orchestra, e sobretudo, e estou-lhes tão grato por isso, ensinaram-me a inestimável "Eloise", de Barry Ryan, que ainda hoje ouço com prazer e nostalgia. Não sei porquê, apetece-me creditar-lhes talvez a minha descoberta de "Sebastian", dos Cockney Rebel de Steve Harley, e de "Changes", dos Black Sabbath, mas isto já devo ser eu a inventar, porque há aqui uma diferençazinha de quatro anos, de 1969 para 1973, quem sabe, porém, se não estarei certo.

Assim que tal, as festas acabavam, as barracas eram desfeitas, as jukeboxes iam-se embora e a minha vida entristecia. Sobrava-me o rádio e Quando o Telefone Toca, do Matos Maia, e era preciso dizer a frase.
Os 16 de Maio agora são Feiras Francas e as Festas da Vila, graduada em cidade, chamam-se Festas do Concelho ou Festas de Fafe, já não sei bem, as barracas dizem-se "pavilhões", muita água passou entretanto por baixo das pontes e carros por cima então nem se fala. É tudo muito sofisticado e cosmopolita, mas os discos de vinil estão outra vez na moda e a música pimba parece que também.
Por outro lado. Os matraquilhos foram inventados pelo galego Alexandre Campos Ramires ou Alexandre de Fisterra, que também era editor e escritor. O nome mais bonito dos matraquilhos é, digo eu, pseberico. Assim se falava pelo menos em Fafe.

terça-feira, 7 de julho de 2026

Bem prega frei Tomás

À capela
Cantava muito bem à capela. Pediram-lhe que cantasse à igreja. Disse que ainda não estava preparado...

Tomás era o faz-tudo do convento. Agricultor, apicultor, sacristão, chef de cozinha, porteiro, parteiro, telefonista, copista, contorcionista, iluminador, vendedor de imóveis, disc jockey, picheleiro, Pai Natal, guarda-redes, mas sobretudo era um carpinteiro de mão cheia. Fosse o soalho do refeitório ou empreitada mais modesta, de martelo em riste, pregador como ele não havia.

domingo, 5 de julho de 2026

Eu em tronco nu, tu em biquini

O periquito-da-carolina
O último periquito-da-carolina morreu no dia 21 de Fevereiro de 1918, em cativeiro, no Jardim Zoológico de Cincinnati, EUA. Chamava-se Incas e era macho. E o seu falecimento quase passava despercebido. Que pena o nosso admirável Quim Barreiros não saber destas coisas. Conhecesse ele a triste história do periquito-da-carolina e certamente já lhe teria feito uma cantiga a condizer.

Meados dos anos oitenta do século passado. Eu tornava a Fafe pelo Verão, e em Cima da Arcada, infalível, uma banca de venda de cassetes passava sem parar o sucesso do momento, "Como é que eu hei-de" ou, melhor dito, "Azar na praia", do grande Nel Monteiro. Uma e outra vez, uma vez atrás da outra, dir-se-ia que praticamente sem tirar fora, de manhã, à tarde e porventura à noite, dias úteis e inúteis, durante todo o santo horário de expediente, com serão e tudo incluído. "Como é que eu hei-de, como é que eu hei-de" era o mantra, a banda sonora daqueles dois ou três verões caseiros e suadoiros, eu e o meu irmão Orlando ríamo-nos bastante por causa disso, passou a febre e nunca mais pensei no assunto.
Acontece que apanhei a velha cantiga no outro dia, por acaso, no rádio do carro, pus mais alto, é claro que pus mais alto, cantei também, cheio de garbo e perdigotos, a minha mulher servia à pinta, gostei tanto daquele inesperado reencontro que o estupor da música chegou ao fim e eu fiquei ali à espera que ela, a música do Nel, entenda-se, voltasse automaticamente ao princípio, recomeçasse em delirante moto-contínuo, como naquele tempo de abraços e vinho em Fafe, e vieram-me umas saudades do caraças, chorei como se tivesse perdido alguém, quer-se dizer, chorei apenas um bocadinho, com lágrimas lavadas a seco.
O "Azar na praia" é hoje em dia, para mim, um clássico da verdadeira música popular portuguesa, quadrada e frequentemente desnecessária, paradoxal, convencida e ingénua, irrelevante e eterna, melodia simples e orelhuda, letra singela mas cheia de significado, como as homenagens no tempo do antigo regime e parece que agora outra vez também. A voz do Nel Monteiro, fraquinha, coitadinha, quase a fugir-lhe para parte incerta, aquela falta de ar no final das frases, os ésses rurais e honestos cantados como se trouxessem vento norte, não se arranjaria melhor nem por encomenda. E faço notar que não estou aqui no gozo. Acho esta canção realmente muito bem esgalhada, plenamente conseguida, sobretudo tendo em vista o público-alvo, tudo a bater no ponto, enfim, uma obra que só não digo que é prima porque lhe desconheço a parentela.
Manuel Teixeira Monteiro, natural de Barrô, Resende, e criado no concelho de Santa Marta de Penaguião, tem hoje 81 anos, feitos no passado mês de Maio. Para além do consagrado "Como é que eu hei-de", Nel Monteiro compôs e interpretou dezenas de outros temas que não lhe ficam muito atrás, entre os quais ouso destacar títulos igualmente inconfundíveis e paradigmáticos como "Alô, Alô, Maria Antónia", "Bronca na discoteca", "Esta miúda (dá-me cabo da cabeça)", "Bife à portuguesa", "Comboio do forró", "Santa Miquelina", "Milagre da burra", "É duro ser velho", "É duro ser mãe", "Kuduro é que é bom", "Tira o biquini amor", "Filha fizeste 18 anos", "Armanda sai da varanda", "Fico à rasca, fico à rasca" e, inesquecivelmente, "Puta vida merda cagalhões".
Nel Monteiro tem uma linda história de vida e disse uma vez que conheceu muito bem Marcelo Caetano e Salazar - "Fui sempre um ídolo dele", asseverou aliás, sem rodeios, em relação ao segundo, ao velho de Santa Comba. A extraordinária revelação entregou-a de borla à TVI, numa entrevista ao Manuel Luís Goucha, que em questão de importância, digo eu, também não é menos do que os outros dois figurões. A coisa passou-se no dia 1 de Abril de 2022. Em Dezembro de 2023, Nel Monteiro voltou à TVI e ao Goucha para contar as necessidades que passaram, ele e a mulher, derivado à pandemia. Que "foi um sufoco muito grande", que até deixaram de levantar medicamentos da farmácia por falta de dinheiro - declararam e, naturalmente, choraram. Choraram, que para isso é que são estes programas de televisão.
Ora bem. Estamos em cima de mais um Dia Mundial do Biquíni, efeméride altamente recomendável, e por isso lembrei-me outra vez do nosso Nel Monteiro, especialista na matéria. Especialista em biquínis, quero dizer, embora, por causa da rima e não por ignorância, ele lhes chame "biquinis". Em sua honra, em honra do bom Nel Monteiro, meu fugaz ídolo estival, e em honra de todos os biquínis mais ou menos desocupados, segue-se a famosa letra do "Azar na praia", mas um azar nunca vem só. Estais à vontade e estamos no tempo: deixai-vos de merdas! Com ou sem camisa, em cuecas ou ao léu, puxai mas é o youtube, som no máximo, e cantai comigo e com ele, vozes e corações ao alto, e que se lixe a afinação e, já agora, a vizinhança também:

Banhar-nos à praia fomos tu e eu
Mas que grande bronca nos aconteceu:
A minha camisa, o vestido teu
Quando à noitinha nada apareceu.

Muito envergonhados saímos dali
Eu em tronco nu, tu em biquini.
Não tinha dinheiro, carro também não
Viemos a pé, fizemos serão.

E ela, coitadinha, muito aflitinha gritava assim:

Ai, como é que eu hei-de, como é que eu hei-de?
Como é que eu hei-de me ir embora?
Com as perninhas todas à mostra
E os marmelinhos quase de fora…

Muito envergonhados saímos dali
Eu em tronco nu, tu em biquini.
Não tinha dinheiro, carro também não
Viemos a pé, fizemos serão.

domingo, 21 de junho de 2026

Bagatela...

Allegro ma non troppo
Deu-lhe um bach, assim de repente. Ele a princípio até ficou satisfeito, mas na verdade preferia um rimsky-korsakov.

Bagatela. Coisa sem valor, ninharia, insignificância, frivolidade ou, por outra, tabuleiro do chamado "bilhar chinês". Na música, bagatela é uma peça curta, ligeira e despretensiosa, típica do Romantismo, normalmente para ser tocada ao piano. Beethoven, por exemplo, muito dado a repentinas modificações de humor, compôs algumas dezenas dessas colossais miniaturas, a mais famosa das quais será certamente "Für Elise", que toda a gente conhece. Em Fafe, bagatela era também resposta na ponta da língua como opinião acerca disto ou daquilo, exprimindo um certo desconsolo ou desconforto, é certo, mas dentro dos limites da educação e da caridade cristã. - E este vinhinho, hã?, que tal? - perguntava-se. E se o vinho não era realmente grande espingarda e não se queria passar por parvo nem por falso ou mal-agradecido, então respondia-se diplomaticamente: - Bagatela... 
Bagatela, assim com reticências e um sorrisinho assaz encaralhado de faz-favor-de-desculpar, queria dizer sofrível, mais ou menos, menos mal, podia ser pior, não há-de ser nada. Isto é: bagatela, aqui, queria dizer exactamente o mesmo que... calar. Mas um bocadinho mais para baixo.

O calor dilata os copos

Afogamento
Deixou afogar o motor e isso marcou-o para toda a vida.

Ele era um fafense à moda antiga. Praticante de fino durante três quartos do ano, chegava ao Verão e dedicava-se à caneca. Dizia: - O calor dilata os copos...

A este respeito, embora não pareça, diga-se que todos os anos, desde 2014, o dia 21 de Junho é Dia Mundial da Girafa e é completamente merecido. Os filmes de cinema e as telenovelas e até os concertos musicais particularmente sinfónicos não seriam possíveis tais quais os conhecemos hoje em dia sem a girafa. A girafa é, como aprendemos desde os bancos da escola, um suporte móvel no qual se prende um microfone. E é também uma vasilha considerável para consumo de cerveja de pressão. A girafa é realmente muito importante.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Daniel, dos leões às causas sociais

Aliás e há leões
Homem que é homem não teme leão. Já se forem ratos...

Daniel foi mediano profeta e consta da Bíblia no, exactamente, Livro de Daniel. Também lhe chamaram Beltessazar, mas um nome assim era uma desgraça para o marketing e foi imediatamente esquecido. Daniel trabalhou na Babilónia como vidente e porventura cartomante, interpretando sonhos e visões, e tinha três amigos esquisitamente chamados Sadraque, Mesaque e Abednego. Foi também domador de leões, com um anjo como partenaire, dando início a essa lamentável e actualmente proibida tradição circense.
Daniel estabeleceu-se em Fafe, com loja de fazendas, malhas, pronto-a-vestir e moda em geral, mesmo ao lado da tipografia do Sr. Dias do Tribunal, e dedicou-se, discreta e afincadamente, ao associativismo e às causas sociais. Se não estou em erro, foi um dos fundadores da Cercifaf e o seu primeiro presidente, e isto, creio, já é dizer alguma coisa acerca da sua bondade. A fama chegara-lhe em 1972, quando entrou numa canção de Elton John.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

De pequenino é que

Os dias sem futuro
Chega-se a uma idade em que os dias são todos iguais. Ou quase todos os dias são quase todos iguais. Quer-se dizer: Poirot de segunda a sexta e Columbo ao sábado e domingo. É a vida.
 
O admirável Quim Barreiros cantava, agarrado ao seu acordeão. Era a história simples, exemplar, da mulher que entrou no comboio sem bilhete nem dinheiro e que teve de ir "dar ao apito" com o revisor para se safar da multa. Enquanto o Quim cantava, e como não havia universitários bêbados nas redondezas, alguém pôs um grupo de crianças a fazer um comboiinho que passava e repassava em fundo. Eram crianças de infantário, de creche, de jardim-de-infância, de pré-primária, não sei como é que se diz agora. Pequeninas, isso eram. E serviam de cenário e figurantes à cantiga do Quim, "pó, pó, pó, o cumboio vai andar, pó, pó, pó, e vai sempre a apitar, pó, pó, pó, eu já lhe tinha dito que para andar no cumboio tinha que dar ao apito".
Foi há quase quinze anos, lembro-me bem, na Curia. Deu na televisão em directo, para o País e mundo inteiro. Foi no programa Verão Total, da manhã da RTP1, com os competentes e estimáveis Sónia Araújo e Jorge Gabriel. Foi há quase quinze anos e até hoje nada. Parece que só eu é que vi. Se calhar as audiências andavam certas.