O defeito do 25 de Abril
O mal do 25 de Abril é ser só um dia. Uma efeméride.
Na mesa ao lado, eram três homens, dois na casa dos cinquenta, se tanto, e o outro bem mais velho, decerto pelos setenta e muitos. Iam já no uísque pós-café e a conversa vagueava às revoadas como se não tivesse pressa e quisesse ser ouvida, é o que têm os restaurantes, devia-se ser despejado mal se acabasse de comer. Falava-se do antigamente. Isto é, os mais novos falavam do antigamente de que ouviram dizer. Calado o ancião, que viveu o antigamente, que remédio, mas tanto lhe fazia. Dizia-se: - Muito atraso, muita ignorância, muita pobreza, e depois a guerra, felizmente Salazar salvou Portugal, endireitou a economia e meteu o país nos eixos, fez o país crescer, desenvolver-se, as pessoas não fazem ideia, dizem agora mal dele mas não fazem ideia. Salazar fez um trabalho extraordinário, porque aqueles é que foram tempos difíceis. As pessoas não fazem ideia de como era antigamente e de como seria se não fosse Salazar. Hoje é muito fácil falar...
Chega, pensei. Pedi a continha e pus-me a andar, já eram muitas repetições, as pessoas não fazem ideia, parecia coisa para o TikTok. Mas sou forçado a admitir: realmente, hoje é muito fácil falar. No tempo de Salazar é que não. Ia-se preso. E até se morria por abrir a boca. Fafenses morreram.
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