sábado, 3 de outubro de 2026

Soba! Soba! Soba!

Sete cães a um osso
"Os cães passam e a caravana ladra", dizia sempre que os via. Realmente, estava farto de políticos e de campanhas eleitorais

Nunca se deve fazer isso: assobar os cães. Para além de estúpido, é perigoso. Mas fazia-se, e muito. Sou testemunha. Em Fafe, portanto no Baixo Minho interior, e pelo menos também em Trás-os-Montes, segundo li e faz sentido, as pessoas tinham essa mania tola de assobarem os cães. Em Fafe, aliás, assobava-se bastante. - Olha que eu assobo-te o cão! Era um aviso, uma ameaça. Uma burrice. Assobar, verbo regional, oralizado, rústico, antigo e actual, queria e quer dizer provocar uma briga, uma bulha, uma luta, um ataque entre cães, ou então lançá-los contra humanos, eventuais invasores de propriedade, dissidentes de café ou apenas vizinhos de quem não se gosta.
Assobar é, evidentemente, o mesmo que açular, isto é, estimular, instigar, provocar, acirrar, incitar, irritar, atiçar, estimular, excitar, enraivar, mandar morder ou atacar. E como é que isso se fazia? Como é que isso, se calhar, ainda se faz? Colocando os cães frente a frente, focinho contra focinho, ou ao pé das pernas do homem-alvo, empurrando os animais, chibatando-os, apontando ao "inimigo" e gritando a palava de ordem "Soba! Soba! Soba!", que havia de significar "Ataca! Ataca! Ataca!", e terá sido assim que a coisa começou, de soba para assobar ou vice-versa, sei lá, estabelecendo-se enfim na gramática do povo.
E é curioso, isto do falar dos velhos. Os cães, eu já os tinha metido no "Torna! Torna! Torna!", não sei se vos lembrais, e agora, por maioria de razão e direito próprio, entram neste "Soba! Soba! Soba!". Pois é. Como dizia o saudoso Eduardo Guerra Carneiro e eu não me canso de repetir à minha mulher: isto anda tudo ligado.

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