quinta-feira, 29 de outubro de 2026

O controlador, o operário e carapaus de cebolada

Gémeos afastados
Eram gémeos mas não pareciam. E compreende-se: nasceram com três anos de diferença.

Vem aí o Dia Mundial da Qualidade, e eu acho justo. A efeméride diz-me respeito. É preciso que saibais que o meu primeiro emprego com ordenado de lei e descontos para a Caixa foi exactamente como "controlador de qualidade", que era o nome que deram ao meu trabalho de "fiel de armazém", que era o nome que não deram ao meu trabalho de faz-tudo, isto é, moço de recados, na Estamparia Marigam de boa memória, em Fafe. Controlador, passe a perigosa ambiguidade do termo. Sei, portanto, do que falo e não sei se estais a ver que, sendo eu o operário que fui, estou plenamente capacitado para ser secretário-geral do PCP, tal e qual como o bom do Paulo Raimundo, que uma vez também foi operário, e ter sido operário ou quase operário nem que seja por um quarto de hora ou somente intenção parece ser condição sine qua non para se ser secretário-geral do PCP. Estou, por isso, à bica, só me falta ser comunista. E no entanto desconheço a que qualidade de qualidade diz respeito o Dia Mundial da Qualidade. Isto é: estamos a falar de boa qualidade ou de má qualidade? De qualidade de vida ou de qualidade de morte? Afirmar-se apenas "da Qualidade" é muito pouco, é abstracto, é obscuro. Em última análise, até podemos estar a celebrar uma qualidade sem qualidade nenhuma. Pelo menos é o que eu acho.

Eu gosto de Paulo Raimundo. O mal de Paulo Raimundo é ser parecido com ele próprio. Isto é, o grande defeito de Paulo Raimundo é não ser parecido com ninguém. E o que é que se segue? Para a imensa maioria dos portugueses, mais do que uma incógnita, o secretário-geral do PCP, quatro anos após a posse, continua a ser um incógnito.
Ainda noutro dia. Eu e o Lopes vínhamos a sair da Conga, em direcção à Câmara do Porto, e passámos por três indivíduos conversando, um dos quais, dissemos nós um ao outro praticamente ao mesmo tempo, "Olha um tipo parecido com o Paulo Raimundo...", rimo-nos um bocadinho com a coincidência, porque é uma coisa que gostamos muito de fazer, rir um bocadinho, e seguimos com a nossa vidinha, que naquela tarde era entrarmos no carro e o Lopes trazer-me a Matosinhos, à porta.
À noite, em casa, varejando os títulos das notícias, é que eu dei fé que o líder comunista tinha andado de facto pela Invicta, o tipo parecido com o Paulo Raimundo era mesmo o Paulo Raimundo e os outros dois indivíduos afinal não eram indivíduos mas camaradas, evidentemente. E fiquei deveras aborrecido, porque faria muito gosto em ter-lhe dado uma mãozada, ao bom do Raimundo, até porque acho que o homem merece.
Merece, mas! Aquela aspecto de pessoa normal não o recomenda. Aquele ar mancebo, aquela cara de boa gente, bô rapaz, aquele sorriso tímido e verdadeiro, aquela presença asseada, limpinha, aquela estampada honestidade, aquele porte de 16.º na lista de candidatos à assembleia de freguesia, aquele terra-a-terrismo, aquela normalidade toda, diria eu, só o desabonam. Invisibilizam-no. Apagam-no aos olhos e à memória dos demais. Na rua, Paulo Raimundo passa ao lado de si próprio, como se nada fosse. E, se for distraído, às tantas nem se reconhece. Paulo Raimundo devia ser parecido com outra pessoa qualquer, por exemplo Jerónimo de Sousa, para se saber imediatamente que aquele que ali está é o Paulo Raimundo em pessoa.
Ou então o secretário-geral do PCP devia ir muito mais às televisões e aos jornais e às chamadas redes sociais, montar lá banca, dizer uns tremendismos quaisquer, chamar nomes às pessoas, como os líderes do Chega e da Iniciativa Liberal, que esses dois, assim, toda a gente sabe quem são, embora também não falte quem confunda Mariana Leitão com a terceira Mortágua do Bloco de Esquerda, mas quanto a isso não há volta a dar.
Aqui atrasado, creio que em Fevereiro, ri-me com Paulo Raimundo, que comentava, a pedido dos jornalistas, o parlapiê de Luís Montenegro acerca do alegado programa de ajudas pós-tempestade Kristin, muito boas intenções, palavrinhas a abater e vou ali e venho já, o último a sair apague a luz. "Para sermos correctos e rigorosos, não há nada para comentar da resposta que não foi dada pelo primeiro-ministro, que tem realmente esta característica, consegue falar meia hora sem dizer nada", apontou, mais ou menos nestes termos, o líder comunista. Para rematar: "Se perguntassem assim: um comentário ao plano, não há plano; um comentário às medidas; não houve medidas; um comentário à gravata do senhor primeiro-ministro, isso posso comentar, é a única coisa possível de comentar". Raimundo no seu melhor, e ouvido no rádio da cozinha, naquele tom simpático, agradável, aparentemente neutro, ainda teve mais piada, dava para imaginar o que iria de malandrice naquela carinha de sonso ou talvez santo, afinal absolutamente tudo menos apparatchik. O secretário-geral do PCP parecia um artista de stund up destes modernos, qualquer dia vem ao Teatro-Cinema de Fafe e eu vou ver. Chamei a Mi para se rir comigo, contei-lhe, rimo-nos os dois, acertei o vinagre na cebolada para os carapaus fritos, descasquei as batatas cortadas ao meio e cozidas no ponto, queimei os dedos, fomos para a mesa e concluímos que Paulo Raimundo, ao contrário de outros, também havia de gostar daquela nossa comidinha tão caseira, podia muito bem estar ali connosco.

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