Mãe há só uma
Chamavam-lhe filho desta e filho daquela, chamavam-lhe filho de muitas mães. Ele defendia-se, num suspiro: - Mãe há só uma...
Contou-me tudo, maravilhada, fez questão. Isto é, contou-me o aqui e ali de que se lembrava, logo no dia seguinte, falou-me das estrelas que estamos a ver agora, no nosso agora, mas que não é o agora delas, o agora das estrelas, tantas e tão longínquas que nem fazemos ideia, não temos contas que cheguem para as estrelas todas, é um agora que já foi há muitos anos, anos-luz, e o universo é tão bonito, tão grandioso, que eu havia de ter visto para perceber, para dar valor, disse-me a minha mãe.
Tão entusiasmada e tão desgostosa, naquele inusitado transbordar de alma. Porque, lamentou-se, não me sabia "desplicar" a beleza completa do que vira na véspera, do que realmente sentira e pensara, as palavras necessárias não lhe acudiam à boca. Se fosse em nova! Mas agora "a cabeça já não ajuda". Esclareço. "Desplicar" quer dizer "explicar", evidentemente, e é um dos inúmeros atalhos linguísticos da minha mãe, que só me enternecem. São, regra geral, erros de pronúncia, facilitações ou adaptações orais, lógicas e compreensíveis, uma espécie de galaico-português tardio e rural, pontual, muletas de vida para quem nunca foi à escola e não lê nem escreve.
Eu nunca fui ao Sea Life nem ao Planetário do Porto. Prefiro que a mãe me conte. Adoro ouvi-la a "desplicar".
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