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sábado, 11 de julho de 2026

Era fresca e doce

O génio da água destilada
Tinha um comportamento aparentemente excêntrico em dias de invernada: saía à rua com o guarda-chuva aberto mas virado ao contrário. As pessoas riam-se. Não sabiam que ele era recarregador de baterias...

No Verão da minha terra, no Verão antigo, umas abençoadas senhoras andavam pela caloraça das feiras e romarias vendendo copos de água de mina adoçada com açúcar amarelo e um remoto gosto a limão. Não era limonada, atenção, era exactamente o que eu digo: água fresca com duas ou três colheres de açúcar e talvez uma casca ou somítica rodela de limão. E não havia gelo. Na vila de Fafe, às quartas-feiras, dia de mercado semanal, pelos 16 de Maio ou pela Senhora de Antime, a "mina" era a bica da poça do Santo, do meu Santo Velho, que ficava ali à beira e era só comodidade. Em cima da cabeça, as despachadas senhoras, equilibristas que remédio, levavam uma rodilha e por cima da rodilha, consoante o uso dos sítios, uma bilha de barro ou um cântaro de lata revestido a cortiça, para conservar a frescura natural. Anunciavam "Fresca e doce!", a água, e desatavam a fugir, de socos na mão e pés descalços, mal se precatavam da presença, ainda que distante e distraída, do perigosíssimo fiscal da Câmara. E o povo, coitadinho, morria ali à sede. Ou então metia-se no vinho, que era o mais certo.
Fafe funcionava assim. Eu, que nunca provei pirolito, por falta de dinheiro e de coragem para assaltar o Banco, que era apenas um e por isso se dizia com letra maiúscula e ficava entalado entre o Martins Relojoeiro e o Nelo da Electra, eu, que só sabia dos gelados nas mãos dos outros, bebi uma ou duas vezes um daqueles copinhos, evidentemente mais em conta e decerto prenda extraordinária já não sei de quem nem porquê. E quereis saber? Era realmente fresca e doce, a água, como dizia a publicidade popular, e, palavra de honra, soube-me pela vida!

Já quentes e boas eram as castanhas, assim chamadas derivado à própria cor. No último Inverno por acaso até só foram quentes, às vezes nem isso, de resto apresentaram-se geralmente uma boa merda - secas, bichosas, bolorentas até. Mas ao que interessa: o pregão era, e ainda é, "Quentes e boas!", ou, como também se dizia em Fafe, "Castanhas assadas a vapor, ó que boas, ó que boas!..."
Quereis saber mais? Quem as vendia, às castanhas, ali no Santo Velho à beira do tasco do Zé Manco, era a Maria Barraca, que morava com as Ferreira Leite, na casa de rés-do-chão e primeiro andar quase em frente, isto antes de juntar dinheiro para abrir uma lojinha de plásticos e outras utilidades caseiras, uma portinha apenas, um bocado mais abaixo na Rua Monsenhor Vieira de Castro, um pouco antes do Ponto Final, mas do outro lado da estrada, depois das Turicas, encostada ao casarão do ricaço e benemérito encartado Zé de Freitas que desapareceu não sei para onde e hoje em dia parece que é o supermercado do Aldi. O casarão. Quanto à Maria Barraca, casou-se. Tarde, era o que constava, mas decerto muito a tempo.

Naquele mesmo correr, no terreiro do Santo face à estrada para o Picotalho, aproveitando a passagem obrigatória do povo em barda que trabalhava na Fábrica do Ferro, montavam banca também a Mocha e a D. Filomena, sardinheiras de categoria, e a Marrequinha da Recta, que curtia e vendia tremoços. Os tremoços da Marrequinha gozavam de muita fama e tinham um segredo. Dizia-se que eram a especialidade que eram porque a boa senhora lhes mijava regularmente durante a demolha.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Posso pedir um disco?

O último pedido
Vinham o padre, o presidente da câmara, o chefe da polícia e o doutor juiz. O carcereiro, que vinha também, desatarraxou a porta da cela e o director da prisão, na boa, informou o condenado: - Tens direito a um último pedido. O condenado pensou um bocadinho e disse: - Pode ser "A mula da cooperativa", do Max?...

A primeira jukebox de todos os tempos entrou em funcionamento no "saloon" Palais Royale, de São Francisco, EUA, no dia 23 de Novembro de 1889. A Fafe, as primeiras jukeboxes deverão ter chegado no final da década de sessenta do século passado, com as barracas de matraquilhos que se instalavam por baixo da Arcada, mais central era impossível, pelos 16 de Maio e pelas Festas da Vila. Havia um brilhantíssimo grupo de jovens fafenses,  bem mais velhos do que eu, que dava excelente uso à novidade. Dessa malta porreira fariam parte, se não me engano, o Berto Dantas, tio, o Eduardo do Retiro, Eduardinho, o Mesquita, creio que o Mané, Dr. Mané, o Jorge Lem, se era assim que se chamava, o Jorge Barros, filho do Nelinho, bissextamente o Ginho Cardoso e não tenho a certeza se o Bi Valente, gente assim desta categoria, e estou decerto a esquecer alguém ou alguéns e talvez a confundir nomes. Eram a vanguarda de Fafe. Eu admirava muito estes tipos cheios de classe, seguia-os sempre que podia, distâncias à parte, uma vez até me levaram com eles para um jogo de futebol que foram fazer a Felgueiras, não sei a que propósito, e no fim ainda tiveram a bondade de convidar-me para a almoçarada no primeiro-andar da Juditinha, evidentemente depois do Bertinho ter pedido por mim à minha mãe.
Mas tornando à maquineta dos discos, que mais tarde haveria de exibir também videoclipes, aliás de muito duvidosa qualidade, artística e técnica. Aquela rapaziada, já com algum mundo, tinha fino gosto musical e conhecia o que, regra geral, em Fafe ainda não se sabia. Acredito que me educaram o ouvido, entre alguns outros a quem o devo. A escolha na jukebox era muito limitada, pindérica, a ementa ao dispor consistia quase só naquilo a que hoje costumamos chamar música pimba. "O autocarro do amor" - de Os Taras e Montenegro, por onde andava um moço chamado Quim Barreiros - tocava de manhã até à noite, num despique fratricida e interminável com "Eu te amo, meu Brasil", de Os Incríveis. Uma xaropada insuportável, um atentado às orelhas de qualquer um, nem que não as tivesse ou por mais moucas que elas fossem. A minha sorte é que os rapazes do bando do Bertinho, chamemos-lhes assim, faziam questão de destoar da ignorância geral e caprichavam na evangelização, pondo a tocar, de forma paciente e cirúrgica, Beatles, obrigatoriamente, um cheirinho de Rolling Stones, Sheiks, Nat King Cole, que eu desconhecia, Sinatra, Joan Baez, Bob Dylan, Neil Young, Beach Boys, Mungo Jerry e "In the summertime", Scott McKenzie e "San Francisco", Los Bravos e "Black is black", lembro-me também da poderosa versão de "I'm free", da ópera rock Tommy, dos The Who, com a London Symphony Orchestra, e sobretudo, e estou-lhes tão grato por isso, ensinaram-me a inestimável "Eloise", de Barry Ryan, que ainda hoje ouço com prazer e nostalgia. Não sei porquê, apetece-me creditar-lhes talvez a minha descoberta de "Sebastian", dos Cockney Rebel de Steve Harley, e de "Changes", dos Black Sabbath, mas isto já devo ser eu a inventar, porque há aqui uma diferençazinha de quatro anos, de 1969 para 1973, quem sabe, porém, se não estarei certo.

Assim que tal, as festas acabavam, as barracas eram desfeitas, as jukeboxes iam-se embora e a minha vida entristecia. Sobrava-me o rádio e Quando o Telefone Toca, do Matos Maia, e era preciso dizer a frase.
Os 16 de Maio agora são Feiras Francas e as Festas da Vila, graduada em cidade, chamam-se Festas do Concelho ou Festas de Fafe, já não sei bem, as barracas dizem-se "pavilhões", muita água passou entretanto por baixo das pontes e carros por cima então nem se fala. É tudo muito sofisticado e cosmopolita, mas os discos de vinil estão outra vez na moda e a música pimba parece que também.
Por outro lado. Os matraquilhos foram inventados pelo galego Alexandre Campos Ramires ou Alexandre de Fisterra, que também era editor e escritor. O nome mais bonito dos matraquilhos é, digo eu, pseberico. Assim se falava pelo menos em Fafe.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Crocodilos no Jardim do Calvário

Um grande nome
A comissão de festas tinha prometido "um grande nome" e cumpriu satisfatoriamente. Quando as luzes do palco se acenderam e foi pomposamente anunciado, o cantor chamava-se, com efeito, José Manuel-António Ferreira Rocha Vieira da Silva Pereira Gonçalves Ribeiro e Castro Melo Antunes Bastos Monteiro Neves Brochado Macedo Nogueira Santos Oliveira Costa Rodrigues Martins Carvalho Marques Almeida Cunha Pires Lopes de Perestrelo e Lencastre-Maldonado. E tinha bailarinas...

Uma vez, o Jardim do Calvário recebeu uma exposição de dinossauros, coisa realmente imponente, mastodôntica, quinze dinossauros completos e em tamanho natural, instalados em Fafe durante um mês e picos, certamente uma considerável despesa pelo menos em penso e água, porque isto os dinossauros, já se sabe, comem como alarves e bebem como camelos, dinheiro bem empregue e que, estou convicto, redundou num enorme sucesso, porque todas as iniciativas do Município redundam em enormes sucessos, pelo menos de acordo com a avaliação insuspeita do próprio Município.
Portanto, foi porreiro para Fafe. E foi também, de alguma maneira, um regresso às origens. Porque aquele bucólico espaço, cujo lago de bolso, para além de cisnes ou pelo menos patos, já teve barcos ou pelo menos barco, houve uma altura, e não vai assim há tanto tempo, em que tinha também crocodilos. E deviam ser uns crocodilos enormes.
Os crocodilos, que são do tempo dos dinossauros, faziam um barulho medonho à noite e não deixavam descansar o Mecas, que morava habitualmente ali ao lado, em casa do padrinho, o Dr. Zé, na Travessa do Calvário, se estou a dizer bem, mas não tenho a certeza, que isto, a certa altura, já entra na onda do mito. O Mecas ia depois para a fábrica (a Fábrica do Ferro, é claro) e, embora fosse por natureza um trabalhador exemplar, isto é, a ronha em pessoa, passava o dia inteiro a dormir lá em cima dos fardos de algodão exactamente por causa dos estupores dos crocodilos - conforme ele próprio explicava aos chefes, mestres, encarregados, afinadores e até patrões quando o apanhavam na sorna, que era todos os dias.
Sei quase tudo o que verdadeiramente interessa saber sobre o Jardim do Calvário, porque eu e o Jardim somos uma história muito antiga. Foi ali que eu me iniciei no mundo do espectáculo, evidentemente como espectador, com lugar cativo no serão das inesquecíveis Festas da Vila. Ano após ano, antes da marcha e do fogo, passaram-me pelas mãos a Senhora Dona Amália, a Hermínia Silva - que, para além do indispensável Pacheco, trazia atrás o filho, o tenor Mário Silva -, o Rodrigo, a Tonicha, o José Cid, o Paco Bandeira, a Dina, os putos do Mini Pop que tinham ido ao Festival da Canção e depois viriam a ser os Jafumega, o Hugo Maia de Loureiro que era cinturão negro e campeão de judo e ofereceu no focinho aos assobios de uns tantos por causa de um playback mal explicado, o Nicolau Breyner e o Herman José que andavam a passear pelo País a rábula do "Senhor Contente, Senhor Feliz", eventualmente a Lenita Gentil, a Florência, o Armando Gama e o Marco Paulo, e o mais certo é ter levado também com o Nelo Silva e com os Broa de Mel, com o Manuel Morais e com o "Cantinflas Português" que era uma coisa que só vista...
Estais a ver, portanto, o meu currículo. O nosso currículo. Eu e o Jardim do Calvário. Eu entrava à sorrelfa, todos os anos variando de expediente, porque os espectáculos eram a pagar, tinham plateia para a burguesia local, comerciantes e pequenos industriais, respectivas matronas e extremosa prole, que se acadeiravam no espaço de cimento rachado, aparentemente afectado por um cataclismo de filme e pomposamente chamado de "rinque de patinagem", os mais ricos dos mais ricos nas filas da frente, e à volta da vedação, de pé, apertadinhos e aos apalpões, era a geral, éramos nós, pessoal do rés-do-chão mas os que batíamos mais palmas quando tínhamos as mãos de vago.
Se não estou em erro, terá sido ali mesmo que começou essa tradição tão festiva e tão fafense do "cuelho", também chamado de empernanço ou, cientificamente falando, "estou a ver passar os ciclistas"...

No Jardim do Calvário iniciei-me também nos concursos do vestido de chita e, confesso, nos fumos. Pelos nove-dez anos, ia fumar para as escadas do inamovível portão das traseiras, o sítio de Fafe onde se faziam as coisas feias. O Bílio - sim, esse Bilinho, meu querido companheiro de infância - aparecia com meio maço de Definitivos, que ali queimávamos num instante, antes que alguém nos visse e fosse contar à minha mãe. Depois eu ia-me confessar. Porque Deus vê tudo e fumar, naquele tempo, era um pecado muito grande, um dos maiores pecados logo a seguir à masturbação. Não fiquei com o vício. Do cigarro, quero dizer.
Pelos dezoito-dezanove, já nas escadas da frente, lá no alto, fui apresentado à liamba, que tinha vindo de Angola com uma mão à frente e outra atrás e era muito fixe. Nunca percebi a moca dos outros, sempre pensei que estavam apenas a armar-se, porque comigo a coisa não funcionava. Quer-se dizer: engasgava-me, isso sim, não vou mentir, mas mais nada. E também não fiquei freguês.
Ao longo dos últimos anos, sempre que pude e posso, voltei e volto ao Jardim, para mostrar aos amigos, para ouvir os concertos da Banda de Revelhe (era ali o sítio certo, valha-me Deus!), ou apenas, e dizer aqui apenas é uma rematada tolice, para, sozinho, envergonhadamente comovido, apaziguar as saudades.

Mas aos dinossauros é que eu não fui. Achei muito bem que os dinossauros viessem pastar a Fafe, as  residências artísticas servem para isso mesmo, disse-o sinceramente na altura, e estimei-lhes os maiores sucessos. Porém, era no Jardim e a pagar, e eu não dou para esse peditório. Por uma questão de princípio. Não sabia como é que as coisas iam ser organizadas, se os fafenses poderiam desfrutar do seu Jardim do Calvário durante o tempo da exposição, parece que não, se poderiam levar os seus filhos aos baloiços, parece que não, se poderiam passear livremente com a família por aqueles caminhinhos de brincar, parece que não, se poderiam procurar e descobrir sem encargos os nomes das plantas, arbustos e árvores, parece que não, se poderiam ocupar um banco sem serem presos, parece que não. Isto é: seria obrigatório comprar bilhete para simplesmente entrar no Jardim? Parece que sim.
O próprio Município cataloga o Calvário como o "mais importante jardim público da cidade". Público. E no entanto o Jardim do Calvário parece às vezes privatizado por pessoas que pensam que o jardim é só delas, e não é, o jardim é de todos, e eu não percebo nada disto. Sempre me incomodou a visão merceeira do serviço público mas pouco, a ausência de bom senso, o quero, posso e mando de quem está de passagem e não respeita o povo nem cuida dos mais pobres. Sempre me fez espécie a esperteza saloia de convidarmos visitas para nossa casa e cobrarmos bilhete à entrada da sala de estar.
Pagar para entrar no Jardim do Calvário, jardim público? Nunca! Quando eu era pequeno e me diziam que estávamos no fascismo, eu suspeitava que fascismo era exactamente aquilo: pagar para entrar no Jardim do Calvário ou para ir ao escorrega. Portanto não fui aos dinossauros. Por uma questão de princípio, repito. E também já não tenho idade para saltar muros...

sábado, 4 de julho de 2026

Fafe cheirava a sabão amarelo

Um homem muito limpo
Ele era muito cuidadoso com a ferramenta. Todos os dias, de manhã e à noite, lavava as intimidades com um bom naco de sabão azul. Lavava, lavava, lavava. O sabão, se não me engano, é um poderoso desinfectante e antibacteriano. Um dia, faltando sabão azul em casa, lavou-se com sabão rosa. Nunca mais foi o mesmo homem.

Do que eu gostava mais em Fafe, do que eu realmente sinto falta? Do cheiro. Fafe tinha o seu próprio cheiro, distintivo, memorial. Fafe cheirava a esmero, cheirava a limpo, a lavado. Fafe cheirava a sabão amarelo. E era isto o ano inteiro, mais ainda na semana da Páscoa, quando as nossas mães asseavam a casa especialmente para receber o Senhor. Fafe, em boa verdade, era uma acolhedora mistura de cheiros bons, um bouquet requintado, mas o honesto odor do sabão amarelo pairava sobre tudo e sobre todos. Sobretudo.
Parecia penitência, castigo. As nossas mães, dobradas horas a fio com os desgraçados joelhos enfiados naquele caixote de madeira a que uns chamam tacoila e outros chamam cunco ou outro nome qualquer, conforme a região, em todo o caso instrumento de suplício, ou então com um simples farrapo servindo de rodilha ou joelheira, as nossas mães, dizia, lavando, lavando, esfregando, esfregando, água, sabão amarelo e palha de aço, e depois chupar e secar, e depois, e só depois, talvez no dia seguinte, outra vez o castigo, outra vez a penitência, a cera regrada, o lustro puxado e repuxado, até que o soalho brilhasse como um espelho, como o sol. E ficava o cheiro. Aleluia!
E pelos 16 de Maio também. E igualmente pela Senhora de Antime, pelo Corpo de Deus. De resto, os domingos em Fafe cheiravam que era uma categoria. Os domingos em geral. Cheiravam a desodorizante, a perfume, a brilhantina, a laca, a graxa, a sebo e a naftalina - tudo misturado, na missa das onze, com a Igreja Nova à pinha, dava uma certa vontade de gomitar, não vou mentir -, mas o melhor era o que se passava entretanto nas ruas da vila antiga, logo desde as primeiras horas da manhã, aquele extraordinário aviso dos velhos fogões de lenha, tão de confiança, tão competentes, tão autónomos, assando vitela tenra e dourada com todos os vagares, com todos os matadores, o cheiro e o fumo magníficos escapulindo-se pela chaminé carbonizada ou pelo telhado mal aparelhado e alastrando de porta em porta, como maldição de filme de mortos-vivos de hoje em dia, mas em bendição, que outros eram os tempos, graças a Deus.
Fafe cheirava. Embora hoje possa não parecer, Fafe era uma povoação rural, íntima, pacata, território de lavradores teimosos e polivalentes - tirante o Largo, isto é, o por Cima e o por Baixo da Arcada, e para além da Fábrica do Ferro e do Bugio, que eram outras vidas. Só por exemplo, toda aquela zona envolvente da Torralta, onde agora estão o bairro tão bem tratado, as várias escolas, o Pavilhão Municipal, as vivendas, as estradas e avenidas, os semáforos, as rotundas, a Biblioteca, os Bombeiros, a Feira, a Central de Camionagem e por aí fora, aquilo era tudo campos, terrenos agrícolas particularmente fecundos, os campos do Santo, Granja e São Gemil, campos, caminhos, quelhas, noras e minas, levadas e poças, com muito milho, fruta e umas quantas pipas de vinho. Era zona de carros de bois, aquela, e actualmente abunda de automóveis e tem o chão pintado a furta-cores. Fafe realmente cheirava. E à semana metia a cotio o cheiro a eido, a estrume, a lavadura, a gado, a galinheiro, a couves cegadas, a erva acabada de cortar, a terra seca acabada de regar, a medas húmidas, a chuva era farta e cheirava muito bem em Fafe.
Fafe tinha o cheiro doce das glicínias, cheirava a alfádega, a cidreira, a amoras, às tílias do Santo Velho, a uvas americanas, aos pinheiros de São Jorge e Castelhão, a castanhas assadas pela Maria Barraca à beira do tasco do Zé Manco, ao azeite do Moniz e ao bacalhau frito da Dolorzinhas no tasco do Paredes. Cheirava a maçãs guardadas nos barrotes secretos dos tectos, cheirava a geleia e a marmelada, a vinho novo, a aletria quente, a canela. Fafe cheirava todo o ano a Natal. Cheirava ao incenso da procissão do Corpo de Deus. E cheirava a piche derretido ao sol das tardadas de Verão, e cheirava a cano de escape de motorizadas sem cano de escape na noite atolambada da passagem de ano. Fafe cheirava à aguardente e ao engaço do fantástico alambique do Cinema, copiosamente manobrado pelo Sr. Zé dos Alhos, parece que ainda o estou a ver e ouvir. A cheirar.
Fafe cheirava a roupa a corar. Cheirava ao avental sempre lavado da minha mãe, que cheirava tão bem a sabão, a segurança e a felicidade, e eu, criança, pequenito, abraçava-me a ele, a ela, com quanta força tinha, e fechava os olhos à espera que o tempo à minha volta não passasse. É. Fafe cheirava à minha mãe.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

O povo ouviu dizer

Na saúde e na doença
Com a saúde não se brinca. Com a doença talvez.

Eram aos milhares à porta do centro de saúde fechado para obras, nunca se vira uma coisa assim. Chegavam de ambulâncias, camionetas de caixa aberta, motorizadas e até carros de bois, em macas, padiolas e camas de casal, com a ajuda de bengalas, cajados, muletas, canas de pesca, andarilhos, cadeiras de rodas, carrinhos de rolamentos e patins em linha, cegos, mancos, cardíacos, asmáticos e furunculosos, os padecimentos do mundo inteiro ali estavam a céu aberto, acotovelando-se por uma vez. Sendo 13 de Maio e véspera das Feiras Francas, até parecia Fátima em peso à espera da bênção dos enfermos ou talvez Fafe e arredores marcando lugar para a corrida de cavalos a passo-travado. Mas nada disso. Ouviram dizer, constou-lhes que era "Dia do Doente" e, pronto, tomaram horas e apareceram todos à consulta. Convenhamos. Era, em rigor, Dia do Duende - do Duende, porra! - , mas não há volta a dar quando o povo ouve dizer.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

A passarada fafense

Como uma vaca espanhola
O Dia da Língua Espanhola e o Dia da Língua Inglesa são no mesmo dia, 23 de Abril, o que é curioso, talvez até paradoxal, e não deixa de ter piada. Porque a segunda coisa mais engraçada do mundo é ouvir um espanhol a falar inglês. A coisa mais engraçada do mundo é, como toda a gente sabe, ouvir um italiano a falar inglês.

Uma vez, num Verão, o Facebook oficial da Câmara de Fafe tentou colmatar a habitual falta de "notícias" da silly season com a publicação de uma série de verbetes a respeito de pássaros. Isso, elencando, uma a uma, as, assim apresentadas, "espécies autóctones de Fafe", digamos, a passarada fafense. Uma iniciativa muito bonita, louvável, ecológica, leve e arejada, tirando o facto de, na verdade, não existirem "espécies autóctones de Fafe", que, se as houvera, tanto jeito dariam para expor e premiar, em lugar à parte e de honra, pelos 16 de Maio, nas Feiras Francas, entre o concurso pecuário e a corrida de cavalo a passo-travado. Mas não. Nem o passarinho dom-fafe é daqui natural, apesar de ter um nome assim aparentemente tão nosso. Há aves que, como dizem os especialistas, ocorrem em Fafe, isto é, podem ser vistas em Fafe, mas são de todo o lado, ou de quase todo o lado, não foram inventadas em Fafe, não nasceram em Fafe pela primeira vez, logo a seguir aos dinossauros ou, pelo menos, no tempo dos romanos, para depois se espalharem pelos quatro cantos do mundo, como os nossos emigrantes. E é isso o que "autóctone" quer dizer...
Haverá em Fafe, quando muito, espécies de aves autóctones de Portugal, que são poucas, sobressaindo evidentemente as galinhas: a galinha amarela ou galinha minhota, a galinha branca, a galinha pedrês portuguesa, a galinha preta lusitânica e o peru preto português ou peru preto alentejano. Mas pronto.
Foi em 2025. Se tomei devida nota, o Município fafense começou então por chamar a si a andorinha-das-chaminés, o tartaranhão-caçador, o corvo-marinho-de-faces-brancas, o papa-figos, o tartaranhão-azulado, a garça-real e o cuco-canoro. E eu fiquei, sentado, à espera do resto. Dos melros, dos pombos, das rolas, das pegas, das poupas, das fuinhas, dos bufos, das escrevedeiras, dos maçaricos, dos abutres e, por exemplo, dos papagaios, que realmente abundam em Fafe e também são filhos de Deus.
Entretanto a série parou por ali, tanto quanto me é dado saber, sem mais explicações até hoje. Talvez a obra tenha ficado a meio...

domingo, 17 de maio de 2026

O circo ao virar da esquina

Curioso número
Pediram-lhe que indicasse alguns dos principais números de circo. Envergonhado, lembrou-se apenas do 69.

Havia uns circos muito jeitosos, pequeninos, descapotáveis, que andavam de terra em terra, mas isto todos os dias, uma, duas ou três localidades por dia. Eram circos de rua, de esquina, próprios para terras de remediada dimensão. Nada de tendas, rulotes, camiões, jaulas, luzes, altifalantes, cartazes, grandes trupes, nomes extraordinários, antes pelo contrário. Eram circos de bolso, anónimos, amiúde unifamiliares - uma velha carripana, o homem, a mulher, duas ou três crianças, todos artistas, e o cão, magro como um faquir, mas não praticava. A fome devia ser muita. E o guarda-roupa deixava demasiado a desejar. A carripana era transporte, armazém, camarim e casa.
Em Fafe, na então orgulhosa vila de Fafe, abancavam no Largo, que era onde tudo acontecia, até a feira e a Volta a Portugal. Ali no ângulo da Rua 31 de Janeiro com a Praça 25 de Abril, num pedaço de passeio mais espaçoso onde hoje encosta, se não me engano, a Fafetur, era esse o sítio. O verdadeiro salão nobre da terra, com licença do Jardim do Calvário.
Eram circos sazonais e breves, praticamente espontâneos. Precisavam apenas de um cantinho, vinham num pé e iam noutro. Chegavam numa tarde de Verão, estendiam uma lona no chão, chamavam o povo ali à volta com umas gaitadas e iniciavam a função. Sempre a toque de caixa. Umas palhaçadas, umas cabriolas, sucintos números de malabarismo, equilibrismo e contorcionismo, às vezes até uma amostra de funambulismo ainda que curta e a baixa altitude, mas sim, porque circo que é circo obviamente trabalha no arame. Meia hora, se tanto, e estava feito. No final da apresentação e dos merecidos aplausos, uma das crianças, geralmente menina, passava pela roda do excelentíssimo público com um chapéu ou um prato na mão, recolhendo o dinheiro que cada um resolvesse dar de paga, e havia quem atirasse moedas de agradecimento para a lona coçada e rota. Assim, uma ou duas matinés, três no máximo, se a plateia o justificasse ou o dinheiro em caixa ainda não chegasse para a sopa, depois as crianças desvestiam-se do circo, os pais arrumavam os tarecos, a lona era recolhida, e toca a entrar na carripana, partiam todos, ainda de dia, decerto por causa da imensidão da viagem e aparentemente em direcção a Guimarães, que, no meu ponto de vista, naquele tempo, era em direcção ao mundo. E eu ficava como a noite.
Estes circos de porta a porta, de soleira, estes extraordinários espectáculos, ando capaz de dizer que seriam os sucessores ou, pelo menos, uma derivação directa dos saltimbancos que itineravam o Portugal mais profundo durante as décadas de cinquenta e sessenta do século passado, apresentando o famoso show da cabra ou "cabrinha", outro assombro dos antigos. Uma cabra, ou cabrito, vá lá, que fazia equilibrismos em cima, por exemplo, do gargalo de uma garrafa de cerveja, ela própria, a garrafa, colocada, por sua vez, em cima de um banco de madeira, dos de cozinha. Uma coisa realmente de pasmar!
A cabra, ou cabrito, vá lá, às vezes era um cão ou um gato, mais raro um macaquito marca sagui ou, também acontecia, um burro. Mas eu não me lembro de ver, nem essa parte me interessava por aí além. Não tinha, naquela idade, qualquer posição estruturada sobre a problemática da exploração de animais domésticos em sede de circo de pé-rapado, mas sabia, sempre soube, que de burros já estava Fafe bem servido. Basta pensar na burra do Reigrilo, e não é preciso ir mais longe...

Chancas à porta

Gato-sapato
Faziam dele gato-sapato. Quarenta e dois, biqueira larga.

As chancas eram de pobres. De gente do campo, rota e remendada. Suja. E de choro e ranho em casa, ó mãe eu tenho vergonha de ir assim para a escola, quero uns sapatos como os outros meninos. Efectivamente, os meninos ricos tinham sapatos, botas e sandálias, consoante a estação do ano no tempo em que havia estações do ano, e os paizinhos dos meninos ricos, depois de razoavelmente gastos os sapatos, as botas e as sandálias dos filhos, vendiam o calçado aos pais dos meninos pobres. Vendiam. Na minha terra, os paizinhos dos meninos ricos eram muito ricos e muito da religião e da santamissinha e das procissões e vicentinos, mas vendiam aos pobres - não davam. Vendiam. Se calhar por isso é que eram ricos. Quem dá aos pobres empresta a Deus, quem vende aos pobres é que se safa. Alguns safaram-se, amém.

Chancas é calçado de pau, valha-me Deus! E, no entanto, chancas era bom. Porque abaixo de chancas eram socos, ainda mais miseráveis e lavradorescos, e abaixo de socos era descalço. Sim, descalço. Andava-se descalço no Portugal pré-25 de Abril. Andava-se descalço por necessidade, e quem andasse descalço era multado pela polícia, ia para o posto e até podia acabar na Pide e na cadeia.
Ora, as chancas. As chancas, exactamente como as galochas, estão agora na moda e caras. Suponho que os netos, as netas, os bisnetos e as bisnetas dos ricos da minha terra correm todos a comprar chancas, envergonhando os antepassados que faziam pouco dos pobres chancudos e antigos. Anacrónicos por maldição, os pobres da minha terra calçarão modernamente sapatinho dirópito - e choram por andarem toda a vida ao contrário. Choram. E eu só me dá para rir.

À conclusão: ao andar, as chancas e os socos, batendo em cheio no chão, faziam um basqueiro desgraçado. Dentro de casa, naqueles velhos soalhos gastos, carunchosos e periclitantes, então era um autêntico terramoto, aliás muito bem aproveitado como fundo musical pelos ranchos folclóricos. Mas no dia-a-dia antigo, doméstico, as chancas e os socos ficavam à porta, do lado de fora. Por causa do banzé, da lama e da terra que traziam agarradas dos campos e do quintal, e evidentemente derivado ao insuportável chulé. Insuportável mas honrado.

Do Costa Pacifica ao Costa do Assento

Reservado o direito de admissão
Foi má ideia aquele letreiro à porta do consultório - "Proibida a entrada de animais". Era um veterinário...

Moro mesmo em frente ao mar, se for para a varanda e me puser de lado. A minha rua é o oceano. No meu quintal estacionam regularmente navios de passeio mediterranicamente atlânticos, paquetes carregados, descarregados e outra vez carregados de turistas rotundos e supersónicos que conseguem turistar o Norte de Portugal inteiro em menos de oito horas. Há quem chame ao meu quintal, por inveja ou ignorância, Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões. Mas não: é o meu quintal e mais nada.
Noutro dia parou ali em baixo o Costa Pacifica, um colosso. São quase trezentos metros de navio para 3.780 passageiros. E sabeis que mais? Eu vim de Fafe, uma terra evidentemente sem comparação, ainda para mais agora que também tem mar, basta ir à Barragem, qualquer dia começam a aparecer aí os navios, e, Costa por Costa, estávamos melhor servidos, tínhamos o Costa do Assento, que tocava concertina, uma vez deu na televisão a apoiar o General Ramalho Eanes e também era uma categoria de pessoa, não desfazendo. O Sr. Costa tinha tudo de bom, tirante o feitio: foi meu vizinho, bombeiro valente e lavrador de primeira apanha, "veterinário" autodidacta, espécie de curandeiro, endireita e parteiro dedicado em exclusividade ao gado sobretudo vacum, tocava e mandava no rancho folclórico, ensinava viras, malhões e jogo do pau, era casado com a boa Senhora Rosinda e pai do Zé e do Lando, jóias de moços que lhe herdaram as artes, e pegava assiduamente no andor da Senhora de Antime.
Mas aqui. Chegam, os turistas, e afigura-se-me que vieram para um congresso de cus na Exponor. Vê-los logo pela manhã é um espectáculo que não pára de maravilhar-me. Porque, conforme eles vão saindo, o barco vai subindo, fica mais alto, airoso, aliviado, parece-me. Depois, à tarde, regressam, os turistas, embarcam de requitó, pós-doutorados em sardinha assada e vinho do Porto, vão entrando e o barco começa a dar de si, amoucha, encolhe-se, queixa-se, parece-me, larga dois ou três lamentosos arrotos, zarpa devagar, devagarinho e não percebo como é que não se afunda.
Naquele tempo, nos tempos áureos do Costa do Assento, turistas éramos nós, os putos de Fafe, lingrinhas de pé descalço e pila ao léu, em sorrateiras escapadelas até às recônditas estâncias balneares do Poço da Moçarada, do Comporte ou de Calvelos, de onde, por norma e tradição, éramos sacados a ganir, puxados por uma orelha. A minha mãe parecia que tinha radar, e, uma desgraça nunca vem só, sabia sempre por onde é que eu andava e o que fazia. Que se segue? Os paquetes que agora me batem regularmente à porta chegaram tarde à minha vida, eu preferia tê-los visto atracar à poça do Santo ou à ponte do rio de Pardelhas, mas mais vale tarde que nunca, e mesmo agora dão-me bastante que pensar, suscitam-me reflexões de pequena e média profundidade que, não raro, gosto de partilhar. E daquela vez, olhando para o imponente Costa Pacifica, vieram-me à cabeça os cus. Os cus que os cruzeiros descarregam e recarregam.
Cu de turista não é brincadeira. É traseiro de bitola larga e se for cu americano então ocupa o mundo inteiro ou ameaça ocupar. Até parece que para se ser turista - turista diplomado - é preciso ter um cu daqueles. E o cu alemão e o próprio cu inglês também para lá caminham, não querem ficar atrás. O que diz tudo a respeito dos cus. Imagino que sejam muito ricos os camones com que me cruzo nas bordas do Porto de Leixões. Tão turistas e tão prendados de cu, serão decerto milionários. Engordam e viajam porque podem. E podem muito. Os cus precisam de arejar.
Na minha rua passa o mar. E, afinal, é porreiro ver navios. Por causa do Costa Pacifica, lembrei-me do Costa do Assento. Se quereis saber, ganhei o dia.

Corta mais que um canivete

Era uma modinha antiga, do tempo em que havia respeito, não sei quem é que a cantava originalmente, na rádio, antes de chegar ao povo, que tomou conta dela, e o refrão dizia assim:

Corta mais que um canivete,
oh! que língua tão comprida.
Ora mete, mete, mete
a língua na tua vida.

E sabeis que mais? Eu, miúdo e crédulo, achava que a cantiga era a respeito do nosso Canivete, ardina de categoria, decilitrador contumaz, fafense excelentíssimo, "ocaidi, ocaidá, toma lá, vem cá já, bolinha!, bolinha!"...

Poesia imperfeita e geralmente pretérita 18

O burro

Era burro
muito burro.
Tão burro
que não sabia.

A burra do Reigrilo

Quadrúpedes
O burro é um quadrúpede. Meio polvo também.

Nos últimos tempos, é todos os anos a mesma coisa. Chegam os 16 de Maio e não há corrida de jericos. E a corrida de jericos faz falta. Uns 16 de Maio sem corrida de jericos é como orelheira de porco sem sal ou como, não vamos mais longe, o lago do Jardim do Calvário sem crocodilos. Um desconsolo. O programa bem tenta disfarçar, anunciando, todo vaidoso, a "corrida de cavalo a passo-travado", assim chamada, com hífen e tudo. Mas é tão pouquinho. E, ainda por cima, uma prova desportiva estigmatizada por essa denominação assaz amaricada, "passo-travado" com hífen e tudo, não vai a lado nenhum, só faltava mesmo dizer-se que as cavalgaduras também correm de minissaia e salto alto. Mas burros é que nada, e logo nos tempos que correm e em Fafe. Parece impossível. Quer-se dizer: vim-me embora, e agora não há mais asnos na terra, é nisso que quereis que eu acredite?
Lembro-me muito bem como era. Havia a corrida de cavalos, sim senhor, coisa série mas amadora, com montadores e montadas cá da terra e arredores, medindo forças por entre um mar de gente cheia de entusiasmo, chapéus e vinho, na mais nobre rua da vila, o empedrado - ou pavê, como dizem agora os especialistas - onde costuma terminar a etapa da Volta a Portugal em Bicicleta. Partiam em frente ao Café Império e iam dar a volta na Cafelândia, ainda não havia rotunda nem banco, com as ferraduras novas a chisparem por todos os lados e alguns animais, de travões bloqueados, a espargatarem contra vontade para um 10 de nota artística nos Jogos Olímpicos e mandando os donos irremediavelmente de focinho ao chão. Ao Império regressavam apenas três ou quatro conjuntos completos, e o pódio era discutido já depois de cortada a meta, à força de varapau, ameaças de tiros e polícias de fraldas à mostra e agarrados aos bonés, baldeados de um lado para o outro ao sabor da maré, com a multidão a tomar diferentes partidos, de cabeça e chapéus perdidos, mortinha por também molhar a sopa. Isto eram as pessoas. Os cavalos, naturalmente mais ajuizados, não se metiam. Mesmo os cavalos que tinham terminado a prova sozinhos, apesar de um tudo-nada desorientados e talvez contrafeitos, mantinham o fair play, viravam as costas à confusão e iam procurar os donos mercurocromados para pedirem desculpa pelo mau jeito. Quanto ao júri, ponderava criteriosa e responsavelmente todos os argumentos em discussão, sobretudo os argumentos que metiam pistola, e depois entregava a taça às primeiras mãos que a agarrassem.
O melhor vinha a seguir. Era a corrida de burros, que não era bem uma corrida, porque os burros, que não eram assim tão burros, recusavam-se terminantemente a correr. Davam uns passos, nem sempre no sentido correcto, na direcção proposta, davam umas voltas, mudavam de rumo quando lhes apetecia, contrariando em flagrante o ditado de que "só os burros é que não mudam", e se calhar às vezes até nem havia vencedor. Mas o povo ria-se. É preciso que se note, porém, que os burros portavam-se assim não por serem burros mas por serem ignorantes. Na verdade, naquele tempo eles ainda não sabiam do estudo da Universidade de Londres que aqui atrasado descobriu que os burros não são animais estúpidos nem teimosos. Serão surdos ou não compreendem inglês, quando muito, mas agora já sou eu a extrapolar.
Ora bem. O Reigrilo tinha uma burra que se chamava a burra do Reigrilo. O Reigrilo - Agostinho, de baptismo, ou Gostinho - era tão teimoso como a burra, portuguesa e analfabeta, mas bebia muito mais. Eu nunca na vida vi o Reigrilo sóbrio. A sorte dele, quando saía do tasco do Paredes em adiantado estado de fermentação, era exactamente a burra, que o levava a casa, submissa e em piloto automático, debaixo de um chorrilho de insultos e chibatadas absolutamente desnecessárias e imerecidas. Eu tinha medo do vinho do Reigrilo e a burra parecia que também.
Creio não cometer nenhum erro histórico se afirmar que a burra do Reigrilo só fazia frente ao dono pelos 16 de Maio, na corrida que nunca era. O Reigrilo, altamente decilitrado, aparecia sempre na horinha, nem mais cedo nem mais tarde, para incómodo da organização e gáudio da populaça. Podiam dar a partida quantas vezes quisessem: a burra do Reigrilo não saía do sítio, apesar das bordoadas impiedosas que apanhava, e se se mexia era apenas para deitar o dono de cangalhas, uma e outra vez, numa vingança anual e certamente bem amadurecida, ali mesmo à frente de todos, onde a humilhação do homem podia ser maior.

Pois agora nada, que tristeza! E nem sei se os camarários doutores da mula ruça acabaram com aquilo de propósito para enxotar dali os nossos ciganos, os bons e honrados ciganos de Fafe que também marcavam o ponto com os seus burros atletas. Não sei, palavra de honra que não sei, mas veio-me agora à cabeça essa terrível dúvida. Sei é que a corrida de jumentos era uma verdadeira e querida tradição. Era tema de conversa entre os fafenses. Chegavam os 16 de Maio e, no café ou na rua, à saída da missa, perguntavam-se uns aos outros: - Então, este ano corres? E já tens quem te monte?
Pois, era assim a vida antiga. Bonita e tão agradável. E tenho a certeza de que a malta nova havia de se divertir à brava com a corrida de asnos, se ela tornasse, toda gaiteira e revivalista. Mas quê, tirante eu, parece que mais ninguém se acusa! O que é que se há-de fazer? Sozinho também não corro...

sábado, 16 de maio de 2026

Por causa duma ateima

Seminfusas bem colcheias
A diferença entre uma colcheia e uma colmeia está na medida. Isto é: uma colmeia corresponde exactamente a uma semicolcheia. E deve servir-se de preferência numa seminfusa. Bem fresca...

E aquela tradição tão fafense da ateima? Era. Em Fafe ateimava-se por tudo e por nada, sabia-se de tudo, discutia-se tudo, afirmava-se tudo, contrariava-se tudo, apostava-se em tudo e no seu oposto. Por nada, e por uma questão de princípio, mas às vezes também por dinheiro. Era mais um jogo, numa terra viciada nisso mesmo, no jogo. Um jogo como o Totobola e a Lotaria da Santa Casa da Misericórdia, o nosso jogo da ateima, como o bilhar e os flippers do Peludo ou o pilas do Serafim Lamelas ou a batota no Club e no Fernando da Sede, isto para não falar nos sorteios da itinerante associação de invisuais, ainda os invisuais não tinham vergonha de serem cegos, e nas rifas da Comissão de Auxílio da AD Fafe. Futebol e política, Deus e o Diabo, vinhos e petiscos, carros, gajas e motorizadas, pré-congelados e piratas, caça e pesca, pistolas, espingardas e canhões de Navarone, gramática e escafandrismo, meteorologia e teoria da relatividade, grandes escritores e livros nunca lidos, países, moedas e bandeiras do mundo, chá de cidreira e actores de Hollywood, rácios bolsistas e festival da canção, bandas de música e ranchos folclóricos, a cor dos olhos de Brigitte Bardot e a cor de burro quando foge - era só escolher. Fosse qual fosse o tema, éramos teimosos, tínhamos opiniões, pontos de vista, prismas, ópticas, enfoques, perspectivas e até ângulos, cismas, birras e finca-pés, exageros de verde tinto e cerveja a copo que encorajavam certezas absolutas e desencontradas. E faltava dizer isto: a coisa passava-se realmente em tascos e cafés. Sobretudo.
Havia um extraordinário grupo de veteranos músicos da Banda de Revelhe que era particularmente dado à arte da ateimação. A cultura fafense deve-lhes muito, a essa meia dúzia de exímios ateimadores, mestres e guias de sucessivas gerações de jovens músicos da nossa terra, mas não é isso que aqui interessa. Estavam sempre naquilo, os velhos rezingas, nas ateimas. E uma vez que, também preguiçosos e talvez cobardes, não tinham vagar nem feitio para chegarem a vias de facto por forma a resolverem-se entre eles como adultos, isto é, à estalada, precisavam amiúde de um juiz de fora, imparcial e sábio, que desempatasse as suas inumeráveis disputas, tolas e desnecessárias a maioria das vezes.
O Google ainda não tinha sido inventado, e portanto ligavam-me a mim, primeiro para o jornal e depois para o telemóvel, quando o telemóvel finalmente apareceu. Após a invenção do Google, ligavam-me na mesma, porque há coisas que eu sei e o Google não sabe. Ligavam-me, "Nane, por causa duma ateima"...
Ligavam-me e o meu primeiro problema era perceber o que é que eles queriam. Do lado de lá havia facções, claques, vozes várias, interrupções, algazarra, indisfarçáveis caralhadas. Eu já disse que aquilo passava-se principalmente em tascos e cafés, e acrescento que acontecia a certas e determinadas horas, horas cheias e bem bebidas. As palavras telefónicas dos meus estimados consulentes entaramelavam-se por norma e eu não raro também, porque quem sai aos seus a mais não é obrigado. Mas lá chegávamos. E então eu sentenciava, armado em parvo, resolvia a ateima, mas, que me lembre, por mais argumentos e explicações que apresentasse e repetisse, nunca consegui convencer a parte vencida, e às vezes nem a parte vencedora, e portanto tenho esse grande desgosto no meu currículo...

Fafe é uma terra de enormes tradições. E a ateima era uma bela tradição fafense. Não sei, porém, se ainda se cultiva. Porque é como tudo. Os velhos músicos deixaram de tocar na Banda de Revelhe e já não me ligam, estimo-lhes que ao menos continuem a beber. O Bertinho, meu rico menino, também já não me liga a perguntar, mas esse está desculpado e tenho muitas saudades dele. E eu para aqui, fafense exilado e imprestável, cheio de certezas para dar e vender, já que para mim há largos anos que não tenho nenhuma. E entretanto, em Fafe, as tradições multiplicam-se e medram, algumas tradições que não interessam a ninguém e até espantosas tradições inventadas ainda agora por uma autarquia que ostenta o gosto do croquete e a mania do novo-riquismo cultural. Sinceramente, espero e peço que a Câmara, e já nem falo em subsídio, pelo menos deite os olhos às nossas ateimas, incentive a prática e não lhes permita o falecimento...

O Texas, a caminho do Picotalho

Um Tales de Mileto
A água é o princípio de todas as coisas; o vinho é o fim - dizia o filósofo antigo. Um tal... um tal... um Tales de Mileto.

O Texas era um tasco e era em Fafe. Chamava-se também Quiterinha, derivado ao nome da dona, senhora respeitável, ou Pensão Império, e isso eu nunca soube derivado a quê. Estais a ver a Rua Monsenhor Vieira de Castro, quem vai para o Picotalho, do lado do Cinema, depois da padaria do Sr. Rodrigues e encostado à loja do Noré, mesmo em frente à cabine, antes de chegar às Grilas e ainda mais às Turicas, nas barbas da procissão da Senhora de Antime, que lhe passava à porta? O Texas era exacta e geograficamente aí, previamente a ter-se instalado de armas e bagagens no sul dos Estados Unidos da América, resvés com o México, segundo vi depois nos filmes a cores.
O Texas, o nosso Texas, o verdadeiro Texas, era a preto-e-branco como o regime e tinha, após o balcão, um reservado com vista para a cozinha e para os campos do Santo, onde hoje se ergue o cimento do Pavilhão Municipal. Foi no nosso Texas, na sala da frente, que eu vi na televisão os jogos de Portugal no Mundial de 1966. Eu e a RTP éramos miúdos da mesma idade. Ao Texas fui com o meu pai, no Texas confraternizei com os músicos antigos da Banda de Revelhe, que tinha casa de ensaio ali a dois compassos, coisa tão a calhar, no Texas aprendi vida com o querido Senhor Ferreira do Hospital e até com o Queirós, meu camarada bissexto na fábrica e provavelmente o melhor tintureiro do mundo, desse-se o caso extraordinário de ele aparecer ao trabalho...

(Isso. O Texas era como se fosse uma segunda casa de ensaio da Banda de Revelhe, centro de convívio líquido, arena de ateimadores encartados, a verdadeira sede da agremiação. Músicos e apaixonantes reuniam-se e discutiam ali, à volta de umas valentes infusas de vinho verde. Falava-se de música, cortava-se na casaca, contrariava-se por uma questão de princípio, celebrava-se a existência. Houve um tempo em Fafe. Um tempo preciso e uma forma de ser diversa. Havia uma maneira talvez boémia, romântica, idiossincrática, de ser-se músico na nossa terra, naquele tempo. Estava-se assim na vida. É esse tempo, esse modo de vida e esses músicos, figuras extraordinárias, que eu gosto de contar. Quando o meu pai foi para França, os compinchas que ficaram, incluindo o meu padrinho e tio Américo, irmão do meu pai, escreviam-lhe de vez em quando mandando-lhe novidades de Fafe, da banda e do tasco, e, malandros, castigadores, costumavam carimbar a assinatura colectiva da missiva com um fundo de caneca esborratado de tinto matão, acirrando-lhe saudades e apetites. Lembro-me como se fosse hoje.)

Vamos dizer, então, que o Texas, o nosso, era uma casa de pasto - sem ofensa para todos os verdadeiros americanos do faroeste, incluindo gado cavalar e vacum. As portas do Texas eram verdes, mas não eram de saloon. Cobóis, apareciam alguns, sobretudo às quartas-feiras, porém não me lembro de tiros, e os índios era como se fossem da família. Naquele tempo em Fafe, terra de paz e amor, matava-se mais à sacholada, domesticamente, e a Justiça de Fafe era um postal com quadras bairristas do Zé de Castro, poeta-cauteleiro, o nosso Aleixo. Borracheiras havia-as, e eram acontecimento de alta patente, é preciso que se note. Não tínhamos xerife, mas tínhamos o Chester, tínhamos o regedor de pistolete à cinta e tínhamos o Miguel Cantoneiro, que padecia de uma questão com os erres e, para todos os efeitos, também era autoridade. Às vezes, quando não era precisa, também tínhamos polícia.

Em todo o caso: o Texas foi sempre um sítio pacífico enquanto esteve nas nossas mãos. Quando foi para a América é que se tornou perigoso.

O boleto e a merenda

O chichi do maestro
Nos grandes concertos sinfónicos, o maestro sai sempre no final de cada peça para ir à casinha mudar a água às azeitonas. Depois volta para as palmas, para as vénias e para as flores, sorridente e aliviado. E os músicos? Os músicos protestam batendo nas estantes e continuam em palco de perninhas apertadas e, quem sabe, a urinarem-se por elas abaixo...

O boleto é uma ordem oficial escrita que requisita alojamento para militares numa casa particular ou o próprio alojamento assim conseguido. É também salvo-conduto, a parte superior do carril sobre o qual rolam comboios e eléctricos, um género de cogumelos comestíveis e a articulação da perna do cavalo acima da ranilha, dizem uns, ou acima da quartela, dizem outros. No Brasil, boleto é ainda papelinho de aposta nas corridas de cavalos, registo de dados de uma operação bolsista, bilhete de acesso a espectáculos e similares ou impresso de factura-recibo.
Posto isto, que não interessa para nada, mudemos de assunto. Falemos de uma coisa completamente diferente. Falemos do boleto.
O boleto, que, pelo menos aqui há uns anos e em Fafe, era praticado pelas bandas de música e consistia numa módica quantia em dinheiro vivo que o contramestre da filarmónica distribuía pelos músicos provavelmente a título de ajuda de custo ou, talvez melhor dizendo, como subsídio de alimentação - o que salvava o dia sobretudo aos jovens aprendizes, que passeavam muito bem a farda e faziam número nas procissões e outras arruadas, mas "ainda não ganhavam". Funcionava, em todo o caso, como um prémio, um extra. Uma espécie de consoada recebida a prestações.
De uma certa maneira, o boleto era também uma das peças do concerto. Enfim, uma bagatela, como lhe chamariam os românticos. Peça curta e despretensiosa mas de sucesso garantido, faço questão de acrescentar, para contar tudo como deve ser contado. Beethoven, por exemplo, muito dado a repentinas modificações de humor, compôs algumas dezenas dessas miniaturas para piano, verdadeiras jóias, autênticas obras-primas, a mais famosa das quais será certamente "Für Elise", que toda a gente conhece. Tornando, porém, ao boleto: se não parecesse um rematado disparate, suponho até que seriam os próprios músicos a pedir bis. O dinheiro saía em notas puídas e renitentes de um gordo envelope cada vez mais magro e era entregue em mão, uma mão atrás da outra, no dia mesmo da "festa", em pleno coreto, com o povo ao redor, durante um intervalo que desse jeito, na vez da outra banda tocar.
Posso ter inventado esta memória, mas cuido que o mais das vezes o bodo era repartido já da parte da tarde do "serviço". E que se segue? Não sei porquê, mas desconfio, a minha cabeça começou então a associar boleto a merenda, como se fossem palavras sinónimas, e até hoje. Boleto igual a merenda. Exactamente. Merenda ao "balcão" de uma barraca beduína, periclitante e malcheirosa, espécie de estendal armado às três pancadas entre varas de choupo e toldos de pano, com bacalhau frito, orelheira salgada, frango abusivamente churrascado, moscas e sardinhas assadas que eram uma desgraça. Uma desgraça bem bebida, afogada em vinho até ao nariz.

Vinho, como quem diz. Bastas ocasiões bebia-se "receita", isto é, juntava-se cerveja e açúcar ao alegado vinho para disfarçar o pique a vinagre. Mas bebia-se. Porque beber fazia parte da arte, tinha o seu próprio solfejo. Como eu costumo dizer, e não me canso de repetir, a diferença entre uma colcheia e uma colmeia está na medida. Isto é: uma colmeia corresponde exactamente a uma semicolcheia. E deve servir-se de preferência numa seminfusa. Bem fresca...

Poesia imperfeita e geralmente pretérita 3

Banda

Banda
do casaco,
banda gástrica, banda magnética,
banda desenhada, banda do cidadão, banda cromática,
banda perfurada, banda de frequência
banda larga, onda curta, Banda Miranda, The Band,
banda sonora, Banda de Revelhe, Banda de Golães

cara à banda, a Outra Banda, pôr de banda,
vai àquela banda

embandeirar em arco, abandonar o barco

bandeira, bandarra,
bandarilha, bandeja,
bandolete, bandó, bandado,
bandeirada, bandeirante, bandeirinha,
bandeirola

bando, bandolim,
bandido, bandoleiro,
bandalheira, debandada

bandulho

a banda abunda,
abana a bunda.

Os apaixonantes

Bravo!
O São Carlos rebentando pelas costuras, o público, conhecedor, finíssimo, profundamente lisboeta, num delírio de palmas compassadas e gritos comedidos, gritinhos: - Bravo!, bravo!, bravo! O touro, um Miura rondando os 650 quilos, assomou à boca de cena e agradeceu, composto e patriótico: - Gracias, muchas gracias!...

Encostados ao coreto, de mão em concha na orelha, seguem a música com gestos semibreves de deleite e aprovação, procurando com um sorriso de conhecedor e olhos piscos a cumplicidade do povo todo ali à roda. E pedem chiu!, semiconfusos e comovidos até às lágrimas, à espera dos ribombos do grand finale, para então se desfazerem em aplausos e em sinsenhores! Eles estão a ouvir a melhor banda do mundo, a sua banda, e pouco importa que, na verdade, até nem tenham bom ouvido. Não precisam dos ouvidos sequer. Eles ouvem a música com o coração. Eles são os apaixonantes.
Regra geral, são homens, reformados e musicalmente analfabetos. Mas também são sábios, quando conseguem reduzir a sublime arte que tanto os apaixona à sua simplicidade essencial. "Perceber de música é gostar do que se ouve", dizem. Eles, sim, são os verdadeiros filarmónicos, fazendo jus à explicação da origem grega da palavra: phílos = amigo + harmonikós = de harmonia. Exactamente: eles são os amigos da música.
Eles vão ouvir os ensaios, da parte de fora, na rua, por respeito, não querem incomodar, distrair. Trazem na carteira o calendário das "festas" e concertos para o Verão inteiro. Seguem a banda para todo o lado, se possível de boleia na camioneta que transporta o material e os músicos. É verdade, como eles apreciam a proximidade e o convívio com os seus artistas! Acompanham-nos ao tasco, à barraca, oferecem mais um copo a troco de dois dedos de paleio, discutindo clarinetes e bombardinos, marchas e fantasias, com demonstrativos e desafinados terululi-fá-dó-mi-rol-fé-poropopó-trró-pum! pelo meio. Pedem "mais peso", querem "peças pesadas" para afogar sem misericórdia a banda do outro coreto no emocionante despique que apenas intervala. Entusiasmados, metem na conversa o Tchaikovsky e o Giménez, num tu cá, tu lá mais próprio de quem evoca uma famosa dupla de defesas centrais. Se eles sabem do que falam? Talvez não. E isso interessa?
Na terra onde eu nasci há duas bandas de música. E dois grupos rivais de apaixonantes, simetricamente filarmónicos e copofónicos. Qualquer observador independente dirá que, objectivamente, uma banda é melhor do que a outra. Mas isso aqui também não interessa para nada. Para os apaixonantes, a qualidade absoluta é um valor irrelevante. A nossa banda é que é sempre a melhor. O ouvido dos apaixonantes, para além de geralmente duro, é um ouvido selectivo, faccioso: surdo às fífias da casa e inventor de desafinações na concorrência. "Eles estão fraquinhos este ano"...
Portugal deve ser o único país do mundo que tem apaixonantes. E os apaixonantes são uma raça em vias de extinção. Há-os em Fafe. Alguns dos poucos sobreviventes podem ainda ser avistados numa festa ou romaria perto de si, em grupos de dois ou três, encostados ao coreto, de mão em concha na orelha, como lhe contei. Se por caso os vir, respeite-os, admire-os, mime-os, ajude à preservação da espécie.
Porque os apaixonantes e as bandas de música são como aqueles casais antigos, fiéis e mansos, doces, em que um não vive sem o outro. Ela morre e ele vai logo atrás. Ele morre e ela vai logo atrás. É. No dia em que desaparecer o último apaixonante, enterrem-se também as filarmónicas. E que permaneçam juntos, para toda a eternidade.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Éramos pelos touros

Referendo tauromáquico
Fez-se um referendo sobre as touradas - sim ou não? Os touros votaram não.

Sim, creio que se poderá afirmar, sem demasiado escândalo, que havia uma certa afición em Fafe. Uma espécie de penha taurina intermitente e inorgânica, espontânea, funcionava, digamos assim, no Peludo, café do povo, sempre que houvesse corrida na televisão, o que acontecia muito raramente e ainda a preto e branco. Gostávamos, portanto, de touradas. Éramos conhecedores, exigentes, e só nos interessavam as pegas.
As touradas eram entretém de Verão, geralmente à noite, e as nossas noites de Verão decorriam pacatamente naquele bocadinho de passeio que servia de esplanada ao Peludo, na rua do Cinema e quase em frente, dois bancos corridos, de jardim, encostados à parede, e três ou quatro mesas com cadeiras a atravancarem a passagem. O Peludo ganhara o nome por contágio, do tasco ao lado, porta com porta, esse, sim, Peludo de nascença e papel passado, o nosso café deveria chamar-se Cine-Bar, como estava escrito no velho toldo e nos documentos oficiais, mas a gente chamava-lhe Peludo e não havia volta a dar. Estava-se bem! A tourada era lá dentro, no televisor pendurado num dos cantos da pequena sala, logo após a porta. O espectáculo começava, cortesias, cavaleiros, toureiros, matadores, bandarilheiros ou simples peões de brega, e o pessoal cá fora como se nada fosse, aquilo não interessava para nada. Porém. Tocava o cornetim a anunciar a pega, e entrávamos todos a correr para ganhar lugar e pedir mais um fino. As pegas é que nos diziam respeito. E éramos, obviamente, pelo touro. Para o nosso grupo de aficionados, uma boa pega, uma pega realmente de encher o olho, era quando o animal, sozinho, conseguia dizimar a formação de forcados inteira, um a um ou todos aos mesmo tempo, o valentão da cara, os ajudas e até o rabejador, tudo levado à frente, tudo pelos ares e, se possível, que ainda não era, a coisa repetida depois duas ou três vezes, em câmara lenta. 
Rematada a função, amiúde de cernelha, que tristeza, após três, quatro ou cinco tentativas de pega natural falhadas, tornávamos ao exterior, talvez para mais uma sessão de anedotas com o Tónio Augusto Ferreira ou para ouvirmos as mirabolâncias do Zé Manel Carriço, que aparecia de repente, parecia impossível, só tinha de atravessar a rua. E ali ficávamos no comentário e na galhofa, até à próxima gaitada.

Que Fafe também teve a sua tourada, isso já é outra história. Foi no Campo da Granja, em 1963, provavelmente por ocasião das Festas da Senhora de Antime, que é o mais certo, mas também poderá ter sido por alturas das Feiras Francas, lembro-me é que era um belo dia de sol e, agora que penso nisso com mais vagar, não faço a mínima ideia de como é possível lembrar-me. Uma tourada que terá sido a primeira organizada em terras de Fafe e que, se não me engano, foi igualmente a única, e portanto última, até hoje.
O redondel não era assim tão redondo como o nome poderia indicar à partida: digamos que foi construída, com robustos troncos de madeira, uma espécie de lua cheia fanada, cortada em linha recta na zona da bancada, que era para o excelentíssimo público poder estar em cima do acontecimento. As digníssimas autoridades locais e a nossa mais distinta burguesia, orgulhosamente alapadas na bancada de cimento com tecto de chapas de zinco, quero crer que com umas discretas almofadinhas aliviando os respectivos traseiros, e o povo a pé, no meio do campo da bola, encostado às tábuas, mas seria muito pouco, meio dúzia de gatos-pingados, se tanto, e eventualmente já razoavelmente decilitrados, porque os bilhetes, mesmo os bilhetes mais baratos, eram bastante caros. Foram certamente ao engano e, diga-se em sua defesa, o calor era realmente muito e a situação deveras incómoda e eventualmente perigosa. Se naquele tempo já havia praças de toiros desmontáveis e alugáveis, não foi daquela vez que uma delas chegou a Fafe.
A tourada, segundo me lembro, e confesso que continuo sem perceber como é que me lembro, foi uma merda. Os do Peludo, especialistas encartados, nem lá pusemos os pés. Oficialmente. Quer-se dizer: mandaram-me a mim, que era puto, dar uma espreitadela, dei, e por isso é que sei do que estou a falar. Acho eu.

No tempo das feiras de gado, havia uma, valente, na Lameira, acontecimento constado ali à volta. Realizava-se todos os anos "pelos 21", isto é, no dia 21 de Agosto, ponto alto das Festas em Honra de Nossa Senhora da Saúde. Ora bem. Uma ocasião, uma vaca espantou-se não sei com quê, soltou-se do sítio onde estava a guardar e correu o arraial inteiro de uma ponta a outra a espalhar o pânico e o caos em direcção à Pica, escornando e escoiceando a torto e a direito, desfazendo tendas, barracas e ornamentações, tudo em pantanas, invadindo tascos e casas sérias, saltando para cima de carros e outros veículos mais ou menos motorizados e levando a eito aquele povo todo, aflito e tolo que não sabia aonde se havia de meter, anjinhos e mordomos incluídos. Eu, muito bem entrincheirado e de barriga cheia após merenda na Albertininha, ri-me como um perdido. Quer-se dizer: a coisa não constava do programa, mas também foi uma bonita tourada.

Serafim Lamelas, o homem do pilas

Praticamente olímpico
Era um atleta de mão cheia. Dele se dizia, e com razão, que dava cartas no jogo de bilhar. Passou ao lado de uma grande carreira, exactamente porque nunca percebeu que bisca lambida é uma coisa e as três tabelas são outra. As duas juntas, com efeito, não fazem modalidade.

No tempo em que Fafe era o Largo com árvores e os fafenses eram todos bons rapazes, "os" 16 de Maio e a Senhora de Antime eram festas de rebimba o malho. Havia de tudo: cestinhas, aviões, carrinhos de choque, carrossel, farturas, fome, apalpões às moças, estaladas de resposta, barracas de matraquilhos com jukebox, poço da morte, mulher-serpente, água fresca com longínquo sabor a limão e açúcar amarelo, parrecas e rebuçados, procissões, promessas, anho assado no forno, corridas de jericos e pilas. Pilas principalmente.
O bom povo de Fafe jogava ao quino, pelo Natal, no velho café Peludo. Jogavam maus meninos bem, todo o ano, toda a noite, no Club Fafense, desperdiçando sorrateiras fortunas de berço. Jogavam os novos cavalheiros da indústria, desalinhados e ricos a estrear, toda a noite, todo o ano, no Fernando da Sede, de porta respeitosamente fechada. (Para entrar era preciso saber o santo-e-senha. Eu sabia, entrava, mas não jogava.) Jogava-se aos pinhões em casa, jogava-se ao bilhar, ao dominó, aos flippers, à sueca, à lerpa, às copas, ao sete e meio, ao montinho e à malha em todo o lado, a dinheiro, a cerveja ou a vinho, e até se jogava ao pau e à bola, mas isso já era para predestinados. Em Fafe jogava-se forte e feio. A tudo. Mas o pilas estava à frente. E nos 16 de Maio era fatal. E na Senhora de Antime também. E não tenho a certeza se no Corpo de Deus amém.

O Serafim Lamelas é que era o verdadeiro homem do pilas - a História nunca o poderá negar. O Serafim Lamelas era o nosso Stanley Ho e também um bocadinho o nosso Vito Corleone. Tinha a sua famiglia, por assim dizer. Montava casino em todas as festas, grandes feiras e romarias da região, bastavam-lhe uma esquina, uma quelha, um desvão de escada, onde calhasse e parecesse invisível. O Senhor Serafim reconhecia-me e respeitava-me, sendo eu apenas miúdo, mas sabendo ele que eu era filho da minha mãe, e isso era o meu melhor atestado.
O pilas é, para quem eventualmente o ignore, um jogo de mesa e de rua, de sorte e azar. Sorte para o banqueiro, azar para o apostador. Regra geral. É também um jogo evidentemente proibido, e por isso é que se jogava tanto. Os músicos das bandas filarmónicas eram naquele antigamente os melhores clientes do pilas, mas eu estaria capaz de jurar que muitas das vezes eles andariam por ali feitos com a casa, só para chamar patos.
O casino do Serafim consistia num resumido cavalete manufacturado com ripas de madeira ultraleve sobre o qual era estendido, a modos de tampo, um cartão, um papelão, um papel qualquer, uma toalha de mesa, sempre que possível um rectângulo em cabedal, tudo material facilmente dobrável, enrolável e sobretudo escondível.
O tampo estava dividido em quadradinhos pintados e numerados de 1 a 6 com tinta vermelha e de uma forma que parecia intencionalmente tosca ou então andaria ali a mão de Picasso. Apostava-se num número apenas, "singelo", ou dividia-se a aposta por dois números ou até por quatro, se bem me lembro, bastando para isso colocar o dinheiro da aposta em cima das setinhas que indicavam as múltiplas.
Havia depois o copo de plástico, dos de lavar os dentes, e o dado, provavelmente amestrado, que saíam como que por magia de um dos bolsos interiores do larguíssimo casaco do Serafim. O copo era agitado por mãos experimentadas, rápidas e enganadoras, virado ao contrário, suspense, saía o dado cansado, gasto, desilusão, este já está, não há nada para ninguém, só para mim, nova corrida, nova viagem. O Serafim era, por acréscimo, o nosso Luís de Matos.
O imenso casaco do Serafim Lamelas servia também para guardar o dinheiro da banca, num enchumaço que engrossava cada vez mais. E ninguém me tira da ideia: lá dentro estavam escondidas navalhas, pistolas e até metralhadoras, daquelas de carregadores redondos como nos velhos filmes dos gangsters de Chicago mas a cores.

Aquando da Senhora de Antime ou pelos 16 de Maio, que eram então dois dias, e daí decerto tão singular plural, o Serafim chegou a instalar-se encostadinho às escadas da Arcada, do lado mais esquerdo de quem desce, curiosamente o local onde ele e a mulher tinham lugar de feira, às quartas. Os jogadores apareciam ali num repente, como moscas não se sabe vindas donde. Amagotavam-se à volta da mesa, numa arriscada luta de cotovelos encasacados, nervosos, cheios de vício e de pressa, um olho nos números e o outro nas costas, não se desse o caso. O Serafim, que tinha mais olhos do que um razoável quintal com couves, assumia a pose de mestre de cerimónias, orientando a mêlée e reclamando espaço para a função, exibia molhos de notas dobradas no meio dos dedos secos e lestos e, para desviar atenções, exercitava a lábia, muita lábia, debitando ladainhas profanas e encantatórias. Os seus lugares-tenentes à coca, um em cada dobrar de rua, tomando conta da polícia, que estava careca de saber daquilo tudo. Um polícia chegava a correr, dizia, num susto, "Vinte escudos no 3, rápido, rápido!", saía o 3, mas é claro que saía o 3, e o polícia desaparecia dali com os bolsos cheios e como se nunca lá tivesse estado.
Se a polícia fosse a sério, em missão, o Lamelas e seus acólitos desmontavam a banca num relâmpago e evaporavam-se com todo o dinheiro que estivesse em cima da mesa. Quando o dia estava a correr mal, faziam este número as vezes que lhes desse jeito. Fingiam que fugiam e mudavam de poiso, levando sempre a massa. E os clientes ficavam num desconsolo burgesso, sem os cinquenta paus da quase aposta, sem o prémio que agora é que era e, não vamos mais longe, porventura também sem a carteira. Era um golpe bem ensaiado. E cinquenta escudos davam realmente para muito vinho naquela altura. Uma tragédia!
Outras vezes, por malandragem, era comum ouvir-se gritar de cima da Arcada, anonimamente, "Olha a polícia!", só para se meterem com o Serafim, e o Serafim, molageiro, aproveitava a deixa ou não, consoante o enchumaço do supercasaco lhe parecesse mais ou menos atravancado e satisfatório.
Vi pilas em muito lado, quando corria atrás da Banda de Revelhe por este nosso Norte festeiro acima e abaixo. Em muito lado, e pilas de vários feitios e díspares dimensões, é preciso que se note. Mas pilas como deve ser, pilas de categoria, pilas a sério, era em Fafe e mais nada. Essa é a verdade, e a verdade é para ser dita. Lamentavelmente, não sei se hoje em dia ainda há pilas na minha terra.
Embora possa parecer o contrário a quem nunca viu, o nosso pilas era um jogo muito completo. Para além do grande Serafim Lamelas e dos seus homens de mão, do cavalete de ponta e mola e dos algarismos mal-ajambrados, do copo de plástico e do dado porém nunca arregaçado, da polícia infiltrada e dos carteiristas por conta da casa, o pilas fafense revestia-se amiúde de pancadaria, navalhadas e tiros. Mortes, não posso jurar. Mas era realmente uma coisa muito bonita, animada.

Os tirones de Fafe

Diz-me o que vestes
A forma de vestir diz tudo acerca das pessoas. Vejamos, por exemplo, os nudistas.

Um homem saía de casa com fato novo, sapato engraxado, talvez flor na lapela e até chapéu, que eu ainda sou desse tempo, e na rua diziam-lhe - Eh pá, estás todo tirone! E quereis saber? Era um elogio, melhor cumprimento era impossível para começar bem o dia. Falava-se assim em Fafe, mas este aqui não era um falar exclusivo nosso, fafês autêntico, seria, antes, de uso particularmente nortenho, isso estou em crer que digo bem.
O termo, tirone, remonta certamente a meados do século passado e virá do cinema, do famoso e elegantérrimo actor americano Tyrone Power, que fazia então um enorme sucesso sobretudo entre o público feminino. A estrela apagou-se, o galã acabou por desaparecer, mas ficou o nome, a alcunha, esta espécie de adjectivo a calhar tão bem aos vaidosos sessentões fafenses, tirone, sinónimo de elegante, bem-posto, aprumado, chique, catita, peralta, peralvilho, casquilho, janota, pimpão, boneco, emperiquitado, dândi, indivíduo bem vestido com o seu quê de preciosismo, bem ajambrado, que veste à moda, nos trinques, como se diz agora no português das telenovelas brasileiras.
Em Fafe, naquele tempo, as pessoas ricas vestiam muito bem. Ou então as pessoas ricas vestiam bem em todo o lado, mas eu não sabia, porque eu só conhecia Fafe e, como mundo, Fafe bastava-me. A minha mulher ri-se quando repetidamente lhe conto, com todos os pormenores e mais um, como as pessoas ricas de Fafe vestiam bem, os casacos assertoados ou em tweed ou em linho, os blazers azuis, as calças em lã, com pinças e dobra em baixo, muito vincadinhas, ou em terilene cinzento, que era uma novidade, as camisas triple marfel, os sapatos italianos clássicos, com sola alta de Inverno e com sola baixa de Verão, os sobretudos impecáveis, esculturais, colados ao corpo, as gabardinas double-face, o guarda-chuva irrepreensivelmente enrolado, londrino até dar com um pau, porém comprado na selecta Chapelaria Antunes, e os lenços e as gravatas e os perfumes e a cigarreira e o isqueiro pelo menos de prata e às vezes a boquilha, eles realmente todos tirones, como mandava o figurino, e nós de calças de cotim remendadas no cu e nos joelhos, os pés arrastando chancas e uma vergonha enorme de sermos pobres.
Regra geral, os homens de Fafe eram uns fidalgos, por assim dizer ou parecer, pelo menos aos domingos, feriados e dias santos, casamentos, comunhões e baptizados, ida às sortes, idas à feira, visitas à madrinha, idas às putas, excursões a Fátima e ao Portugal dos Pequenitos, e muito particularmente, por maioria de razão, nos 16 de Maio e pela Senhora de Antime. Aí então, não é para os gabar, apresentavam-se com todos os matadores e roupa geralmente a estrear.
É preciso que se diga que Fafe tinha uma colecção de alfaiates de altíssimo coturno, e espero falar deles com mais vagar um destes dias. Os nossos tirones iam ao alfaiate, tinham alfaiate privativo, escolhiam modelo, cor e tecido, e vestiam-se por medida. Mas não iam à Riopele comprar o corte, atenção, isso era para os remediados. Por outro lado, os fatos prontos a vestir chegaram às excelentíssimas Lobas já em plena década de setenta, eram Corte Inglés, eu bem lhes namorava a montra, como boi olhando para palácio, mas aquilo também ainda não era para nós. Nem para os tirones fafenses, que, classe acima de tudo, continuaram a preferir a exclusividade, o serviço personalizado e impecável da nobre alfaiataria local, honra lhes seja. Só depois é que vieram as calças vermelhas, os pulôveres cor-de-rosa ou amarelos pelos ombros e os sapatos com berloques. Isto é, o betismo...

Em todo o caso, Tirone também foi um nome regularmente usado em Fafe para cães. Mas, quanto a isso, não sei que diga.