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sábado, 5 de setembro de 2026

Monólogo do barbeiro

Barbeire ou cabeleireire?
"Cabeleireiro masculino". Olho para o reclame e fico sempre naquela. Mas quê, será masculino porque é homem? Ou será masculino porque atende homens, isto é, barbeiro? E se o cabeleireiro masculino for mulher, não deveria dizer-se, sem ofensa, cabeleireira masculina? E se o cabeleireiro for feminino, o que é que temos a ver com isso? E se o barbeiro for mulher, não vamos mais longe, porque é que não é barbeira? E em caso de indefinição ou escolha múltipla, coisa absolutamente natural, poderá ser, por exemplo, barbeire? Cabeleireire? São problemas assim que de facto me afligem - quero lá saber de outras guerras.

Eu e o meu barbeiro comunicamos por sinais. Ele sabe que comigo não há conversa: entro no estabelecimento, levanto a mão direita em saudação índia mas não digo "Ugh!", sento-me na zona de espera, espero, varejo O Jogo, olho com fastio para as folhas do Jornal de Notícias, vejo as figuras da revista Volta ao Mundo, coço a cabeça e eventualmente os testículos, espreito-me aos espelhos, que realmente me favorecem, espero, espero, levanto-me quando chega a minha vez, que me é indicada pelo meu barbeiro com um aceno de cabeça, coisa cá entre os dois, aproveito os três passos de caminho para apontar se é só barba ou se é barba e cabelo, sento-me e está tudo dito. São muitos anos!
Conversa de barbeiro é uma seca. E um perigo. Os barbeiros sabem de tudo e nós, simples e indefesos clientes, não. Portanto, de navalha em punho, eles começam a falar na crise dos mísseis de Cuba de 1962 e só terminam, uma hora depois, já a socar-nos o tralhame com a escova, quando chegam ao caso do dono do café ao lado que tem a mania de deixar a janela do carro aberta, "Qualquer dia ainda se fode, com sua licença, Senhoreee...", e, depois de termos saído e já irmos longe, ainda vão à porta gritar: - O Senhoreee... também deixa a janela do carro aberta? Deixa? Ai é motorizada? Pois, nesse caso...
Ai de quem se atreva a conversar com o seu barbeiro, nem sabe no que se está a meter! Porque os barbeiros são óptimos a servir à pinta. Pasmados, à volta do cliente, de pente e tesoura suspensos no ar, como bailarina sevilhana pronta a tocar castanholas, dizem que "Sim" e que "Sim" e que "Sim" e que "Sim", "Sim senhor", "Não me diga", "Parece impossível", "A sério?", "A sério?", "É o país que temos", "Pois, hoje em dia", "Tem toda a razão", "Senhoreee...", "Senhoreee...". O nosso barbeiro nunca sabe o nosso nome, somos todos "Senhoreee..."
O meu barbeiro, treinei-o à minha feição. Nem um pio! Comigo, nem se atreve a pegar no espelho mostra-carecas para me perguntar, no final do serviço, se está tudo bem. Já sabe que comigo não vale a pena, até porque não me consta que se possa descortar cabelo. Vamos direitos ao assunto, quero dizer à máquina registadora, espreito os numerozinhos verdes a ver se ainda é o mesmo preço, é, pago, recebo o troco, levanto a mão direita em saudação índia e saio novamente sem dizer "Ugh!", que ele não estranha. Aliás, o meu barbeiro ficou bastante admirado quando, uma vez, eu lhe disse que não sou mudo.
Mas, para chegarmos a este superior estádio de entendimento silencioso, tácito, a esta combinação tão antiga e cómoda, precisei de me começar a impor logo no princípio, há mais de quarenta anos, quando cheguei de Fafe, habituado a barbeiros para homens de barba rija, e que hoje em dia, afinal, também já não passam de suspeitíssimos "salões de beleza"...

Ora bem. Não sei o que deu ao meu barbeiro, que, sem mais nem menos, resolveu falar. Comigo! E eu, de boca fechada e dentes cerrados, perante semelhante fenómeno ou talvez traição - falta de respeito, pelo menos -, mandei-o calar com os olhos, quase o fulminei. Mas ele fez-se de ceguinho e continuou com o relambório. Os barbeiros de um modo geral são assim, falam sempre, mesmo que a gente não lhes responda. Como os dentistas. E o meu barbeiro, parecia possuído, estava igual aos outros barbeiros, abriu o livro. Porque conversa de barbeiro tem técnica.
O meu barbeiro começou pela política, quer-se dizer: pelo Ventura, que vai meter estes mamões todos na ordem. O que até me veio a calhar para eu continuar calado, porque não percebo nada de política e, além disso, não gosto de dizer palavrões em público nem chamar nomes a ausentes. Perante o meu militante silêncio, o meu barbeiro passou para o futebol, quer-se dizer: Luís Filipe Vieira, gangues, facadas, polícia, e eu, nada. O meu barbeiro tentou-me, então, com Trump, agora é que o vão apanhar. Valha-me Deus, antes de almoço não, lá se me ia o apetite. E o funeral da rainha, que foi uma categoria? E eu a pensar que o real evento, se foi mesmo uma categoria, esteve certamente a cargo do nosso Baptista de Antime, mas moita-carrasco! E as notícias? Quer-se dizer: Manuel Luís Goucha que mandou Teresa Guilherme para a prateleira. E Cristina Ferreira, que foi de fim-de-semana a Sevilha. E Fátima Lopes que deslumbrou em biquíni. E Malato que diz que dá para os lados todos como as circunferências. E Sónia Araújo, e Jorge Gabriel, e João Baião. Também não. Nem assim. Mantive-me irredutível, irrevogável, calado como uma porta, mudo como um herói.
O meu barbeiro pareceu desistir. Silenciou-se, magoado. E assim esteve, pareceu-me, durante uma boa meia hora. Até que, indo ao fundo da sua alma, arrancou um imenso suspiro, pôs a cara mais sofrida do mundo, suspendeu a tesoura trabalhadeira num gesto teatral e atirou-me, certeiro: - E este tempo, hã?! Isto está...
Ah!, bom, o tempo. Falando do tempo, assim já nos entendemos: tivemos ali conversa até à hora de almoço e ligámos um ao outro, à tarde, para esclarecermos dois ou três pontos.

É claro que eu não vou ao barbeiro há mais de dez anos, derivado à crise. Se deixei de ir ao cardiologista, para poupar dinheiro, por que razão havia de continuar a ir ao barbeiro? É a Mi quem me corta o cabelo e a barba cá em casa, na varanda sem marquise que temos mesmo em frente ao mar, se nos pusermos de lado. Mas eu e o meu barbeiro éramos exactamente assim. Praticamente assim. Entretanto a minha mulher aprendeu na Internet a realizar cateterismos, e cá nos vamos arranjando.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Quando os médicos fumavam

Impressionante!
É impressionante a quantidade de gente que se junta à porta do IPO-Porto para... fumar. À porta do IPO, Instituto Português de Oncologia. Para fumar. Impressionante...

Sou do tempo em que os médicos fumavam. Fumavam durante as consultas, quero dizer, ostensivamente, abundantemente, como chaminés, cigarro atrás de cigarro, cinzeiros cheios, dedos castanhos de nicotina, auscultavam, palpavam, mediam a tensão, espiavam as costas, espreitavam os olhos, os ouvidos e a garganta, martelavam os joelhos, desciam aos tornozelos, engasgavam-se no fumo, tossiam e lançavam cinza para cima do paciente, mas o Dr. Antunes não, o nosso bom Dr. Antunes fumava cachimbo, exibia aliás uma pequena colecção de bonitos cachimbos em cima da secretária de trabalho no consultório da Rua General Humberto Delgado, por baixo da residência, ao lado da loja do Nélson, que tinha uma voz mansa e vendia electrodomésticos. Com o Dr. Antunes, em Fafe, era realmente outro asseio, outra categoria.
E que se segue. Os médicos fumavam e isso, a mim, parecia-me bom sinal. Eu acreditava na imortalidade dos médicos e na santidade dos padres.

terça-feira, 16 de junho de 2026

Corino de Andrade, o génio imperfeito

O homenageado
Fizeram-lhe rasgados elogios. O homenageado não gostou. Apanhou humildemente os papelinhos desirmanados, reorganizou-os com fita-cola e foi para casa...

Uma vez saiu-me a sorte grande e pude falar com o Dr. Corino de Andrade. Mário Corino da Costa Andrade (1906-2005) foi médico, investigador e humanista, uma das figuras de proa da neurologia portuguesa do século XX. Um génio. Foi o cientista que descobriu a paramiloidose, ou doença dos pezinhos, identificada nos meios académicos e clínicos, a nível mundial, como doença de Andrade ou Corino-Andrade. E achava pouco. Fundou, com Nuno Grande, o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, da Universidade do Porto.
Contou-me: aliciaram-no para que escrevesse as suas memórias - recusou, era "uma chatice". A lisonja, a ele, batia-lhe com o nariz na porta. Pretenderam homenageá-lo. Disse-me: "Não quero homenagem nenhuma, Deus me livre! Eu tenho horror, uma espécie de alergia urticária contra as homenagens. É uma chatice. O excesso de homenagens em Portugal é um mau sintoma".
Entusiasmado pelo singularidade daquele encontro, não segurei em mim que não fizesse uma das perguntas mais estúpidas de toda a minha vida profissional: - Mas o senhor doutor deve estar orgulhoso por ter descoberto uma doença, por ver o seu nome ligado a essa doença, não é?...
"Não, meu caro senhor, não é", atalhou mansamente o Dr. Corino de Andrade, com a paciência dos sábios e a astúcia dos malandros, para imediatamente me martelar pelo chão abaixo, com toda a veemência: "Seria um orgulho muito grande ter o meu nome ligado a uma cura, isso é que era genial, mas tê-lo ligado a uma doença, essa é a maior das chatices"...
Corino de Andrade tinha então uns belíssimos 87 anos, em impecável estado de conservação e conversação. Recebeu-me em sua casa, depois de eu lhe ter andado a chagar a cabeça, via telefone, durante mais de quinze dias. Ele não queria nada com jornalistas, recusava-se a "aparecer", estava farto de "chatices". Incomodavam-no a paráfrase, a elaboração escusada, as repetições. "A gente deve reduzir ao mínimo o que tem para dizer, e dizer só as coisas fundamentais, ou que assim nos pareçam, e que possam ajuntar qualquer coisa ao já dito", explicou-me.
O Dr. Corino morreu seis dias depois de ter completado 99 anos. E era diferente, não era?

Entretanto. Estudos recentes confirmam que Portugal continua a ser o país do mundo com mais casos de paramiloidose, esmagadoramente no Norte do País, com o distrito do Porto à frente de Braga e Aveiro.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

A mania da praia

Uma questão de tempo
"Agora, infelizmente, é apenas uma questão de tempo", disse o médico. E continuou: "Para amanhã prevêem-se aguaceiros, em especial nas regiões Norte e Centro, vento forte nas terras altas, pequena descida de temperatura e agitação marítima forte na costa ocidental."

A praia, é preciso que se note, não é obrigatória. Podem ser férias e não ir à praia. Pode ser Verão e não ir à praia. Pode ser feriado e não ir à praia. Pode ser domingo e não ir à praia. Pode ser sol e não ir à praia. Pode ser calor e não ir à praia. Pelo contrário: se for sol, se for calor, muito calor, o mais sensato até será ficar em casa, à sombra, ou procurar uma fresquinha no quintal mais próximo. Acreditai no que vos digo, há quarenta anos que moro à beira-praia e sei muito bem do que falo. E palavra de honra: não ir à praia não parece mal, não é crime e tampouco desmazelo ou falta de educação.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Uma pedra na sapatilha

Gorilas da Bruna
Bruna é uma "youtuber" bastante "influencer". Elegante, bonita, regularmente recauchutada, famosa por ser famosa, esbanja sensualidade por tudo e por nada e enriqueceu por causa disso. Bruna mal pode sair à rua como as outras pessoas, isto é, põe um pé fora da porta a caminho da piscina por exemplo em Ibiza e multidões de adoradores caem-lhe em cima. Bruna tem milhões de seguidores. De perseguidores. Para fazer uma vida normal, viu-se até obrigada a contratar dois possantes seguranças, ou guarda-costas, à Kevin Costner, ou gorilas, como também se diz, que não a largam um segundo e vão com ela a todo o lado, inclusive à casa de banho por exemplo nas Maldivas. São conhecidos como os gorilas da Bruna.

Duas mulheres com feições e conversa orientais, deito-me a adivinhar. Provavelmente chinesas e aparentemente mãe e filha. Ouço-as antes de as ver. Estão agachadas entre os arbustos do Parque da Cidade, em posição de necessidades, acabo por reparar sem intenção. Desolho num relâmpago, cheio de vergonha e culpa por ter olhado, e fujo dali para fora aos solavancos o mais depressa que posso. As sapatilhas que herdei do meu filho para uma segunda vida fazem-me bolhas nos calcanhares e na planta dos pés. Mancam-me. Já é o terceiro par que recebo assim, manhosamente cilicioso, começo a suspeitar que é de propósito. O Kiko anda a praxar-me não sei porquê.
Dia seguinte à mesma hora, lá estão elas outra vez. As duas novamente cochichando, aninhadas, movendo-se de cócoras pelo meio do restolho como melros assustadiços ou talvez David Attenborough amoitado no coração das florestas tropicais de Bornéu e, alto e pára o baile, isso já me autoriza a não desviar o olhar. Isso de as mulheres se moverem e estarem afinal completamente vestidas e compostas, digo bem, mais o facto de cada uma delas arrastar consigo de vez em quando uma daquelas enormes sacas de supermercado que custavam 50 cêntimos nos dias em que não eram dadas. Entretanto acabaram-se as borlas. Aproximo-me, como quem não quer a coisa. "É pala chá. Só pala chá. Só chá!", diz-me de jacto a senhora mais velha, veemente, incomodada e, parece-me, desconfiada, se não mesmo receosa, da minha inocente curiosidade.
Percebo. As duas mulheres com feições e conversa orientais catam flores de madressilva, que já esbordam, brancas e amarelas, das sacas de supermercado. Voltam lá todos os dias, na época, vejo-as pelas cinco da tarde, às vezes com reforços, um rancho depenicando muros anões e fartos naquela zona mais recatada do parque. Cheira que consola! O ar é doce como mel...
Consulto o Dr. Google, que me explica tudo ou quase tudo. A flor de madressilva é altamente valorizada na medicina tradicional chinesa, que lhe reconhece propriedades adstringente, antibacteriana, antifúngica, anti-séptica, antiespasmódica, antitumor, diaforética, diurética, expectorante, febrífuga, hipoglicémica, laxante e refrigerante. A madressilva, mãe de todas as curas, usa-se para tratar a asma, o colesterol alto, a congestão linfática, a diarreia, a disenteria, a dor de cabeça, a dor de garganta, erupções cutâneas, febre, gripe, inchaços, infecção bacteriana, intoxicação gastrintestinal, laringite, queimadura do sol, sumagre-venenoso, tosse e úlceras. Se lhe conseguirmos acrescentar as unhas encravadas a sida e a covid, como chegou a ser sugerido na China, estaremos então na presença de uma panaceia ao nível da nossa famosa banha da cobra, misteriosamente desaparecida das feiras mas ainda à venda em mercados sorrateiros ou alternativos, que eu bem sei.
Por outro lado: a avaliar pela posição em que é apanhada, o mais certo é que a flor de madressilva faça muito mal às costas - é o que penso. E então lembro-me da querida Bó de Basto, que sabia de lendas, de mouras encantadas e de penedos de morar, que distinguia cogumelos, que conhecia plantas, chás para dores de barriga ou outras maleitas assim a atirarem mais para o pataqueiro, aflições comezinhas, nada comparável com a multifuncionalidade e potência da flor de madressilva, remédio capaz de afrontar as mais medonhas e sofisticadas pestes e pragas, existentes ou por inventar. Lembro-me dos curandeiros, talhadores e endireitas de Fafe e arredores, mulheres e homens honrados e competentes, abençoados por saberes antigos e generosos aliviadores de corpos e espíritos, fui cliente frequente, levado pelas orelhas, lembro-me de me consertarem maus jeitos e trasorelhos, ossos desviados, rachadelas, comichões diversas, uma e outra vez, era eu miúdo e arisco, pobre e feliz, saltando alegremente de desastre em desastre, à falta de outros brinquedos. O nosso bruxo, diga-se em abono da verdade, chegou alguns anos mais tarde, já não veio a tempo de mim.
Mas eu e as duas sobressaltadas apanhadoras de flores de madressilva no Parque da Cidade, quereis saber que mais? Reparastes certamente: a mulher mais velha, sem que eu lhe tivesse perguntado, fez questão de dizer-me, enfaticamente, como se estivesse a justificar-se, a defender-se de uma acusação não formulada, que era "só pala chá". Mas porquê? A coisa também se fuma, será? Alegra a disposição? Hummm!... Vim-me embora com essa pedra no sapato. E era realmente escusado. As sacanas das sapatilhas já me dão mau andar que chegue.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

O povo ouviu dizer

Na saúde e na doença
Com a saúde não se brinca. Com a doença talvez.

Eram aos milhares à porta do centro de saúde fechado para obras, nunca se vira uma coisa assim. Chegavam de ambulâncias, camionetas de caixa aberta, motorizadas e até carros de bois, em macas, padiolas e camas de casal, com a ajuda de bengalas, cajados, muletas, canas de pesca, andarilhos, cadeiras de rodas, carrinhos de rolamentos e patins em linha, cegos, mancos, cardíacos, asmáticos e furunculosos, os padecimentos do mundo inteiro ali estavam a céu aberto, acotovelando-se por uma vez. Sendo 13 de Maio e véspera das Feiras Francas, até parecia Fátima em peso à espera da bênção dos enfermos ou talvez Fafe e arredores marcando lugar para a corrida de cavalos a passo-travado. Mas nada disso. Ouviram dizer, constou-lhes que era "Dia do Doente" e, pronto, tomaram horas e apareceram todos à consulta. Convenhamos. Era, em rigor, Dia do Duende - do Duende, porra! - , mas não há volta a dar quando o povo ouve dizer.

terça-feira, 19 de maio de 2026

O remédio das bichas

Remédio santo
Eu tinha um problema. Enfiava-me no guarda-fatos a comer nozes, o que me provocava imensas aftas. Fui ao médico. Mandou-me comprar um baú e tenho andado muito bem.

O remédio das bichas antigamente era vendido em frascos tipo xarope e tomado às colheradas. Comprava-se na farmácia com recomendações adequadas ou era dado na escola por ordem do delegado de saúde, dizia-se que era eficaz, uma limpeza. Belos tempos. O negócio está hoje em dia nas mãos de exorcistas de contrabando, vendedores de banha da cobra e outros aldrabões, especialistas do Chega e parece que também do PSD.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

O dia em que envelheci

Já não vamos para velhos
A verdade é esta: biblicamente falando, Moisés viveu até aos 120 anos, Jacob até aos 147, Abraão até aos 175, Adão até aos 930, Noé até aos 950, e Matusalém, filho de Enoque, pai de Lameque e avô de Noé, faleceu de repente aos 969 anos. Antigamente era assim. E agora? Agora andamos à rasca para chegarmos aos 60 e damos graças a Deus se alcançarmos os 70, embora a esperança média de vida na Europa ronde os 82. Regra geral, metemos os papéis para a reforma e morremos logo a seguir. O que estará por trás desta alteração tão radical? Glaciares, asteróides, falta de médicos de família ou tão-só falta de fé, não tenho a certeza, mas creio que a segurança social também já não aguentava tanto profeta...

Sei muito bem o dia em que envelheci. Foi de repente. Sei o ano, sei o mês, sei o dia e até sei a hora, mas tanta exactidão não vem aqui ao caso. Sei o local e sei as circunstâncias. Foi de manhã. Foi no Hospital de Gaia, numa consulta de medicina do sono, creio que a coisa se chamava ou chama assim. A dado passo da bateria de exames e do minucioso inquérito, a médica perguntou-me, surpreendentemente: - Quando era novo, o Sr. Américo já sentia este cansaço?...
Eu ia caindo de cu. Primeiro. Esta mania de me tratarem pelo meu primeiro nome, Américo, nas consultas e, em geral, em todos os serviços públicos ou privados que exigem a competente apresentação de credenciais. Não sei, chamam-me Américo e eu, que estou tão habituado a chamar-me Hernâni, procuro sempre outro indivíduo ao meu lado, no meu próprio lugar. Sinto-me outra pessoa, um estranho de mim mesmo. Tratar-me por Américo é um privilégio que está reservado ao meus companheiros da escola primária, em Fafe, e, mesmo com esses poucos que ainda se lembram de mim, nunca sei se é comigo que estão a falar quando falam comigo. O Bergiguinha chama-me Américo com todo o direito, mas diz que chama Américo a todos os homens da minha família. Segundo. "Quando era novo", disse ela. Quando era novo?! Porra, eu ainda sou novo, tentei corrigir gentilmente a senhora doutora, atirando ao ar duas ou três larachas e apanhando-as, a todas, sem deixar cair, disparando-me da marquesa, acto contínuo, num acrobático salto encarpado, com duas piruetas à retaguarda.
Mas não adiantou. Pelo contrário. A doutora insistia, parecia-me agora que com algum prazer, com uma certa maldade, "quando era novo" para aqui, "quando era novo" para ali, "quando era novo" acima, "quando era novo" abaixo, e quem sou eu para contrariar o veredicto da medicina, a sábia decisão da ciência?
E foi assim. Nesse dia, naquele preciso momento, fiquei velho para toda a vida e até hoje, por indicação médica e sem remédio. Eu acabara de fazer 41 anos.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Campos de férias

Urso bipolar
Passava meio ano no Pólo Norte, de Novembro a Abril, e meio ano no Pólo Sul, de Maio a Outubro. Era um urso bipolar. E andava em tratamento.

Todos os meses de Julho de todos os anos, o aviso lá estava bem visível à porta de entrada, para orientação de pessoal, clientes e público em geral: "Campos de férias!", dizia o letreiro. E fazia todo o sentido, porque a verdade é só uma - o Campos era a alma daquela empresa, passava-lhe tudo pelas mãos. Na ausência do Campos, o serviço ressentia-se, era como se estivessem fechados, o próprio Campos não se cansava de o repetir.
Lembrais-vos daquele ilustre industrial fafense que veio de férias do Ultramar e a guerra teve de parar até que ele regressasse ao mato? O Campos também era assim, essencial e insubstituível. E um bocado mentiroso.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Doentinhos, graças a Deus!

O Homem-Prazol
Os super-heróis. Fui apreciador, confesso. Em miúdo, à pala da televisão do Peludo, das borlas no Cinema ou dos livrinhos de cobóis levados à troca no quiosque do postigo por Baixo da Arcada, já disse. O homem-aranha, o homem-formiga, o homem elefante, o homem que é homem, o homem-rã, o homem de gelo, o homem de ferro, o homem de lata, o homem-bala, o homem-estátua, o homem invisível, o homem que veio de longe, o homem-sanduíche, o homem-crocodilo, o homem-tocha, o homem-máquina, o homem dos sete instrumentos e até o homem-bata, que quase existia. Apreciava, é verdade. Mas. Derivado a pecados velhos e por indicação médica, hoje em dia sou mais dado ao homem-prazol.

Há uma longa e honrosa tradição familiar no nosso lado Von Doellinger: somos umas pessoas muito doentes, que foi a única herança que o meu avô da Bomba nos deixou, aos de nossa casa. De resto, nem um tostão, nem um penico partido e colado com adesivo, tampouco uma corrente de ar. A minha mãe costuma dizer que, em questão de doenças, nós, os Bombas, "não damos vez uns aos outros". A minha mãe, é preciso que se note, é do lado Pereira, que lamentavelmente não me chegou ao nome, Pereira do meu avô de Basto, decilitrador pertinaz que, porém, nunca aceitou copo dado e levava tudo à frente na hora da pancadaria. Este meu querido avô, antigo mineiro e mestre pedreiro de primeira água, era, pelo contrário, um mãos-largas. Tudo o que tinha, dava. E se o que tinha à mão era o varapau de lódão, então era de esgaça-pessegueiro, sem olhar a quem. A mim, deu-me o meu primeiro relógio de pulso e, numa noite de Natal, ofereceu-me inesperadamente o seu próprio relógio de bolso, um magnífico e infalível Omega talvez centenário que me escangalhou em lágrimas e que há coisa de vinte anos passei ao meu filho, que bem o merece e não lhe liga nenhuma nem sequer lhe dá corda. Eu? Fiquei-me com as memórias. Do choro também.
Já agora. O meu rijo avô de Basto esteve doente uma única vez, se não me engano. E morreu. Com os pulmões vagarosamente estraçalhados pelos anos longínquos do trabalho nas minas e uma vida no aparelho da pedra.

Mas o lado Bomba. As doenças. Neste campo, como em mais um ou dois, ou três, sou a ovelha negra da família. Doentemente falando, sou uma treta, uma nódoa, um ignorante, uma vergonha para a classe dos doentes em geral e da minha família em particular. Nunca me queixo, estou sempre bem, não dou uma para a caixa. Às vezes até penso que devia ser expulso. Da classe e da família.
Os Bombas, por definição, são entusiásticos consumidores de medicamentos e canjas de galinha. Só estão bem quando estão doentes. Conhecem todas as doenças e os dois volumosos tomos da Farmacopeia Portuguesa por ordem alfabética, de cor e salteado, da frente para trás e de trás para a frente, índices e apêndices incluídos, automedicam-se e só precisavam da consulta e da assinatura do médico - "especialista!", sempre "especialista!", e "do Porto!" - para autenticar o internamento a troco de um bom quilinho da melhor vitela de Fafe, traço seleccionado e cortada pelas sábias mãos do Senhor Abreu do Talho Novo, embrulhado em imaculado papel costaneira e impecavelmente atado e laçada com fio norte de qualidade superior. Justificava-se a despesa dos unhas-de-fome: o internamento em hospital era a sorte grande, a realização de um sonho. Recorrente. Para que o povo soubesse que!
Os meus queridos avós da Bomba, ninguém me tira da ideia, não morreram da doença. Faleceram da mania. Deus os tenha.

domingo, 12 de abril de 2026

Sejamos então pacientes

Hipocondríaco e metódico
Era um autarca hipocondríaco e metódico. Seguindo indicação médica, tomava quatro medidas por dia - uma ao levantar, uma depois de almoço, uma antes de jantar e uma ao deitar. Rigorosamente.

Como um alho era o famoso indivíduo, não sei quem nem de que sexo ou género, mas político certamente, que inventou a palavra "paciente" para substituir a palavra "doente". O finório, ou a finória, ou finórie, vá lá, sabia tudo sobre listas e tempos de espera, greves epidémicas ou cirúrgicas, operações adiadas, consultas anuladas, funerais e missas de sétimo dia, demissões de directores e outras pandemias. Porque a verdade é esta: o doente, regra geral, queixa-se, esperneia, mas o paciente, por definição, aguenta.

terça-feira, 7 de abril de 2026

O roxis e o Sr. António Maneta

Fazendo pela vida
O médico deu-lhe dois anos. Ele pediu seis. O médico contrapôs três e que não podia dar mais. Ele exigiu cinco, senão nada feito. O médico disse quatro e não se fala mais nisso. Ele, negócio fechado.

O roxis, quereis saber o que é? Então cá vai. O roxis é da família do taco, mas muito mais antigo, e é sinónimo de chapa, porque ir fazer um roxis ou ir fazer uma chapa era exactamente a mesma coisa. O Hospital de Fafe, no tempo em que quem lá mandava era a "Mamer", tinha uma máquina de roxis muito velha, numa sala muito escura ao lado da urgência, que era o banco, e da escadaria interior que levava à capela, que era também salão nobre. Por baixo das escadas, porta com porta, num quartinho para anões muito arrumadinho, morava o Toninho, ou seja, o Sr. António do Hospital, a quem também chamavam Maneta, Sr. António Maneta ou Toninho Maneta, isto dito com mais burrice do que malícia, e que era, para além de telefonista e porteiro, fumador obstinado e habilidoso, havíeis de o ter visto a manusear a caixa de fósforos, e um dos maiores apaixonantes da Banda de Revelhe, honra lhe seja. Apesar da sua estratégica localização, ali entre a vida e a morte, e mesmo em frente ao Toninho, o aparelho de roxis tinha dia certo e horário de expediente para funcionar. A sua operacionalidade dependia, se não estou em erro, da indispensável presença ou pelo menos orientação do Dr. Mota Prego, que tinha um nome assim de categoria e vinha de propósito de Guimarães para tratar destes assuntos.
Quer-se dizer, o Dr. Mota Prego era o nosso especialista em roxis, e uma vez ele e o Dr. Antero, creio, trataram-me muito bem de uma clavícula partida que era a minha vaidade na escola primária e hoje em dia ainda me dói. E o Sr. António carregava no erre quando me chamava Herrenâni...

O Sr. Moura era de filme

Como um passarinho
Morreu como um passarinho. Abatido a tiro.

Chega o tempo das gripes, das constipações, da tosse, do nariz entupido, das febres e das dores de garganta, e eu lembro-me do Quinzinho da Farmácia, que tantas vezes me acudiu na minha infância e juventude. O Quinzinho da Farmácia Moura, em Fafe. É. Lembro-me logo do Quinzinho, sorrio, vejo-o como se fosse hoje, ouço-lhe a voz, perfeitamente, as recomendações, mas depois apanho-me a pensar: que estúpido, que injusto que sou, e então o Sr. Moura propriamente dito? Sim. O Sr. Moura da Farmácia Moura, em Fafe. O que pensar e dizer dele?
E então puxo a fita atrás. O Sr. Moura tinha mais de 200 anos e uns óculos muito pândegos e parecia uma figura dos filmes da Walt Disney para crianças. Eu gostava muito de o ver lá ao fundo, na mesa grande do laboratório, a inventar remédios e talvez perfumes, a tomar notas, a fazer contas, a conferir apontamentos em folhas manuscritas e desencontradas, amarelecidas, no meio de uma babilónia de balões, provetas, tubos de ensaio, pipetas, espátulas, pinças, lâminas, balanças, funis, almofarizes e pilões, serpentinas, condensadores, quem dera que também bicos de Bunsen, isso, porque estou a imaginá-los, rodeado por uns armários enormes e antigos, altos do chão até ao tecto, a toda a volta, cheios de frascos, frasquinhos e campânulas, garrafas, garrafões, caixas e caixinhas, sacos, sacas, saquinhos e saquetas que eu adivinhava abundantes de matérias-primas preciosas, fluidos insondáveis, pomadas da casa e a granel, bicarbonato, pós de perlimpimpim, pétalas delicadas de flores exóticas, especiarias do fim do mundo, sementes, raízes e plantas raras e milagrosas, aromas intensos e contraditórios, e ao canto, estou em crer, uma vassoura encantada, aprendiza e ajudante, trabalhadeira, à espera das ordens do velho mestre. A mesa e os armários, em madeira, escura, pesada, eram da idade do Sr. Moura. Aquilo dos óculos esquisitos seria decerto obrigatório para os farmacêuticos naquela época, porque o Quinzinho também tinha. O Sr. Moura, parecendo que não, ditava a moda.
Ainda para mais, o bom do Sr. Moura, que morava por cima do estabelecimento, na Rua Montenegro, atendia durante a madrugada, se lhe tocassem à campainha para acudir a uma aflição inopinada, no tempo em que não havia farmácias de turno nem intercomunicadores ou videoporteiro. Com aquele aspecto de velhinho precoce, sábio ancestral, feiticeiro, alquimista, eterno príncipe dos manipulados, o Sr. Moura assomava ao patiozinho do 1.º andar, informava-se do que era, descia as escadas em chinelos de quarto ou enfiado nos sapatos três números acima, com o pijama a espreitar por baixo das calças vestidas à pressa e às vezes embrulhado no roupão, só lhe faltavam a candeia na mão e o barrete de dormir, resmungava por todos os lados, mas, a verdade é só uma, salvava o povo. E essa é que é essa.

O Quinzinho da Farmácia

A azia
O grande problema do engolidor de espadas era a azia. Aliás, mudou de ofício, por indicação médica.

Antigamente, em Fafe, o Serviço Nacional de Saúde chamava-se Quinzinho da Farmácia e funcionava muito bem. O Quinzinho da Farmácia era evidentemente farmacêutico e sobremaneira autodidacta. No seu ofício de boticário, o Quinzinho era o melhor médico do mundo, o médico privativo e gratuito dos pobres da vila e arredores, o verdadeiro médico de família ainda os médicos de família nem sequer tinham sido inventados.
Em caso de fanico arrevesado ou maleita repentina, primeiro ia-se ao Quinzinho, que tratava toda a gente por tu e tinha uma voz arrastada e grossa por baixo de um bigode em forma de bigodinho e lá em cima, para o trabalho, uns óculos muito cómicos de tirar e pôr que me faziam rir. Ir ao Quinzinho era uma espécie de rastreio, uma primeira opinião, que até podia ser definitiva. O Quinzinho, que me apresentou à Pasta Medicinal Couto e mais do que uma vez salvou as minhas desgraçadas amígdalas de irem ao corte, observava cada caso minuciosamente e decidia. Se o assunto fosse da sua competência e não ultrapassasse os seus saberes, a questão ficava ali mesmo remediada sem outras alcavalas senão o preço geralmente módico dos medicamentos logo usados ou aviados para consumo doméstico, e apenas quando tal era necessário. Aos casos mais bicudos, que lhe chegavam frequentemente, às vezes em pressurosos carros de praça que se acotovelavam à porta da Farmácia Moura, impedindo o trânsito na Rua Montenegro, mesmo em frente aos Mercadinhos, o Quinzinho reencaminhava-os na hora para os médicos encartados ali das redondezas, não raramente sugerindo este ou aquele clínico, consoante as sintomatologias averiguadas, ou então despachava-os com urgência directamente para o hospital. E a engrenagem resultava. Eu estou em crer que o homem merecia um nobel! Da medicina, da química, da física, da economia, da literatura - o Quinzinho ensinava bulas a analfabetos -, da paz, da compaixão, não sei bem, mas um nobel de certeza, isso é que eu sei.
E sabeis que mais? Gosto de pensar que foi a partir do nosso Quinzinho que os ingleses inventaram, muitos anos mais tarde, em 1994, o Protocolo de Manchester. E essa é que é essa.

quarta-feira, 18 de março de 2026

A vidinha a andar para trás

Em dois sítios
Ele era um tipo manifestamente azarado. Caiu e partiu o braço em dois sítios: mais precisamente em Mirandela, há coisa de dez anos, e no Sabugal, fará amanhã quinze dias.

Eu andava com grandes esperanças. O velho Dickens que me desculpe o abuso, mas sobravam-me razões para tamanho optimismo: num dia achei um cêntimo e no dia seguinte dei de caras com dez cêntimos, assim sem mais nem menos, naquele bocado de Cima da Arcada entre a memória dos Armazéns Cunha e as saudades do Américo das Bicicletas, aquele sítio é realmente uma mina. Não havia dúvidas, as caminhadas matinais estavam a fazer-me bem, pelo menos ao porta-moedas, e então pus-me à tabela, armado em garimpeiro, permanentemente a olhar para o chão mal colocava o pé no passeio e com a cabeça a fazer contas de multiplicar. Sempre por dez. Portanto, um cêntimo, dez cêntimos, a seguir seria um euro, depois dez euros, cem euros, mil euros, dez mil euros, cem mil euros e assim sucessivamente. Contava ficar rico em menos de uma semana. Mas durante uns dias, nada, nem um tostão para amostra, e eu já estava a desmoralizar, confesso. Até que ontem achei cinco cêntimos à beira da praça de táxis e hoje encontrei um cêntimo em frente ao Club Fafense. Quer-se dizer. Ainda fiquei pior, porque, assim inesperadamente a desmultiplicar, suponho que mais dia menos dia sou eu a perder dinheiro. E, que se segue, pelo sim e pelo não, vou deixar terminantemente de ir ao Largo. Para além disso, estou farto de me esbarrar nas pessoas, sobretudo às quartas-feiras...

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Maior e vacinado

Foto Hernâni Von Doellinger

Sem açúcar
Disseram-lhe que era Dia Mundial da Sépsis. Ele achou bem e mandou vir. Pensava que era uma bebida.

Acreditais que ainda tenho comigo e em plenas funções o meu primeiro, e único, boletim de vacinas? As vacinas, naquele tempo, em Fafe, apanhavam-se no velho casarão em frente à Escola Conde Ferreira, na Rua Montenegro, com a escadaria mesmo ao lado da caixa do Mudo, engraxador e sportinguista de alto gabarito, irredutível fiscal no Campo da Granja e depois no Estádio, hoje chamar-lhe-iam steward, palermas, e era também exímio tocador dos sinos da Igreja Matriz, especializado em concertos para casamentos, baptizados e sobretudo funerais, pago à peça, portanto por fora. Era um extra. O Mudo. Quanto ao histórico casarão, ali funcionavam ou funcionaram, não sei se coincidindo, o Centro de Saúde, os Serviços Municipalizados de Água e Electricidade, também não estou certo de que se chamassem exactamente assim, e a "cantina" ou o sítio da sopa para os meninos mais pobres da escola. Aquele tempo era porreiro porque podia-se dizer "vácina" sem que nos ralhassem pessoas que, relativamente a gramática e língua portuguesa em geral, só fazem ideia de emojis. Eu rio-me dos que se riem de eu dizer "vácina". Continuo a dizer "vácina" e "vácinas", e graças a Deus tenho-me dado muito bem.
O Centro de Saúde era de certeza um sítio maravilhoso porque trabalhavam lá o Aníbal Carriço, que sobreviveu à guerra cheio de balázios e escrevia nos jornais, tinha tudo para ser meu herói, e a Getinha, que era minha vizinha no Santo e gostava muito de mim e eu gostava muito dela. Quando andou na Escola de Condução Fafense para tirar carta, e não sei se concluiu, eu acompanhava a vanguardeira Getinha nas aulas, sentado no banco de trás do então inevitável Carocha amarelo e preto, às voltas sem sentido pelo centro da vila só para a má-língua ver, a contorcer-me por todos os lados, enjoadíssimo, porque eu enjoava abundantemente a andar de carro, mas era por uma boa causa e com autorização da minha mãe, depois de fazer os deveres: uma menina de bem, uma donzela, nunca entraria sozinha na viatura de um cavalheiro, por mais cavalheiro que o cavalheiro fosse, e ainda que o cavalheiro fosse o instrutor e a viatura fosse de instrução, olha o respeito! Quer-se dizer, eu, inocente guardador de virgindades, era ali uma espécie de pau-de-cabeleira, mas de uma espécie muito rara certamente, uma espécie talvez descontextualizada, abstrusa, porque a vida depois dá muitas voltas e até é de rir, às vezes, e de chorar, outras, o que acontece às pessoas e com as pessoas, mas isso já não é para aqui chamado. A querida Getinha era uma mulher extraordinária - isso é que é certo.
Tornando, então, às vacinas e ao velho boletim. A minha primeira vacina registada, perpetrada evidentemente em Fafe, foi uma "Anti-Poliomielítica Morta ou Viva", até parece dos filmes de cobóis, tem a data de 15 de Dezembro de 1965, lembro-me muito bem dela, e a mais recente foi-me aplicada ainda no outro dia, 23 de Maio de 2024, em Matosinhos, onde moro, porque, embora possa não parecer, eu levo isto das vacinas muito a sério. Covid e gripe à parte, a próxima, se não for antes, está já agendada para 2034, isto é, o Serviço Nacional de Saúde, que eu tanto estimo, atribuiu-me pelo menos mais dez anos de vida, só tenho de apresentar-me no dia certo. Eu por acaso já não contava com semelhante bónus, nem sei sequer se o mereço ou justifico, mas, cá está, é a prova de que as vacinas realmente funcionam.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Dá Deus dentes... e é uma chatice

Oh, my dicky ticker!
Eu tinha um cardiologista por acaso porreirinho e visitava-o de quatro em quatro meses. A pagar. Falávamos de jornais, de jornalistas, de política, de bons restaurantes secretos e fora de mão e sobretudo do FC Porto, que nos interessava a ambos. Acto médico é que nada, mas no intervalo medíamos a tensão, o que é extraordinário! Deixei. Deixei também o urologista, os toques rectais não me seduzem, e fiquei-me somente com o dentista, que me sevicia de meio em meio ano, fora os inopinados, como por exemplo agora mesmo que ando arreliado das gengivas e vou ao castigo de dois em dois meses, lá se me vai o pé-de-meia. É a crise, é a vida. Um destes dias morro de repente, do coração, mas com uma boca que é uma categoria, e ainda vão dizer que foi por por causa de eu ter deixado de falar de jornais, de jornalistas, de política, de bons restaurantes secretos e fora de mão e sobretudo do FC Porto com o meu ex-cardiologista.

Cheguei muito tarde ao dentista. Logo eu que tomo horas para tudo, cheguei tarde ao dentista. Quero dizer: já passava dos quarenta. Evidentemente não sou exemplo para ninguém, também neste departamento da vida, mas a verdade é que, apesar de tantos anos de aparente desmazelo odontológico, eu tinha uma cremalheira que era um mimo - foi o que me disse o doutor, muito admirado e elogioso, quando lhe arreganhei a tacha pela primeira vez. Palavras para quê? Eu usava Pasta Medicinal Couto. Os meus problemas com os dentes começaram, portanto, quando fui ao dentista.
E estreei-me em grande, numa célebre extracção de um siso, que, não é para me gabar, correu que foi uma desgraça. O dente estava muito apegado a mim, eram décadas de convívio e recusava-se a sair, compreendo-o. Anestesia atrás de anestesia, o dentista escarafunchava e escarafunchava, puxava e puxava, pedia desculpa, que nunca tinha acontecido, inventava alavancas que não alavancavam nada, fazia o pino, o quatro e o oito, trinta por uma linha, tentou o flique-flaque à retaguarda e o mergulho empranchado de braços abertos, escarafunchava e puxava, o homem suava copiosamente e eu sem guarda-chuva nem limpa pára-brisas, parava para se desfazer das cambras, ralhava com as afogueadas assistentes que pareciam baratas tontas, pedia outra vez desculpa, que nunca tinha acontecido, e elas, quase em lágrimas e em coro: nunca tinha acontecido, mandou vir um escadote, a escada Magirus dos Bombeiros, uma marreta da obra em frente, o fogueteiro de Arões, o grupo de zés-pereiras de Regadas e um velho bombista do Verão Quente de 1975, por esta exacta ordem, escarafunchava e escarafunchava, puxava e puxava, desculpe, nunca tinha acontecido, e nada. Que daqui não saio, daqui ninguém me tira, insistia o filho da puta do dente, agarrado à gengiva como uma lapa, e já me estava a meter nervos.
Eu era uma poça de sangue. A minha boca era já duas, derivado ao escarrapacho forçado. Tinha a boca pior que o chapéu de um pobre - e foi ali que eu percebi na carne o significado da infeliz expressão. Se eu pudesse falar, gritaria: "chama-me um carro!", como se dizia em Fafe, mas eu não podia falar, porque não sentia a boca e isso até era do mal o menos.

(Por outro lado, o dentista passa muito bem sem a nossa opinião. Já reparastes que o dentista só faz perguntas depois de nos atafulhar a boca com metade dos móveis do consultório e a mangueira do jardim? Respondemos como? Só se for pelo nariz, mas isso é número arriscado e praticável apenas em caso de profunda constipação. E já destes fé que a gente vai lá queixar-se do dente de baixo e o dentista trata do dente de cima? E que geralmente acerta?)

O dente cedeu, por implosão controlada, ao fim de uma manhã inteira de pancadaria. O dente era eu. E eu era um destroço, um sobrevivente inesperado de Alcácer Quibir. Vi-me ao espelho: tinha os lábios esgaçados de orelha a orelha, parecia o Joker do Jack Nicholson. Para me confortar, o dentista disse-me que ainda ia ficar pior. E ficou. No dia seguinte: os cantos da boca em ferida, a cara inteira feita num bolo, inchada e negra. É. Eu tinha uma cara nova, irreconhecível, parecia que tinha passado pelo programa de protecção de testemunhas do FBI. Ou pelo menos pelo Botched do canal E!...
Por causa da dose cavalar de anestesia, andei semana e meia a babar-me e com um falar esquisito. A minha mulher queria internar-me. Safei-me por uma unha negra à consulta externa do Hospital Magalhães Lemos.
Mas isso passou. A sintomatologia física desapareceu. A memória da carnificina é que não. Padeço de stress pós-traumático. Ainda hoje é uma tortura ir ao barbeiro. Sim, ao barbeiro. Entro em pânico. Estais a ver? A mesma espera, a mesma televisão ligada na Praça da Alegria, a mesma bata branca, a cadeira, a babete, os utensílios cromados, pontiagudos e cortantes, o zzzzzzzzz assobiado do secador que parece o zzzzzzzzz assobiado de uma broca, a televisão desviada para as inundações, estais a ver? Estais a ouvir? Estais a perceber a minha agonia?
Isto é: houve aqui uma transferência qualquer que eu não sei explicar. Porque com o meu dentista corre tudo muito bem, farto-me de o recomendar a toda a gente. Dou-o de conselho.  É, aliás, o meu conselho odontológico, como gosto de dizer. Na verdade, o sanguinolento episódio do dente do siso não passou disso e ganhei esta bonita história para contar aos netos de quem é avô. Na próxima sexta-feira vai lá a minha mulher por mim e portanto adeus até ao meu regresso.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Come respo!

A lebre de serviço
Os principais favoritos organizaram uma patuscada e comeram a lebre. Depois, já se sabe, fizeram tempos de merda.

"Não queres sopa, não queres frango, não queres peixe, não queres batatas, não queres arroz, não queres massa, não queres salada, não queres fruta, não queres pão - olha, come respo!", dizia a mãe desesperada ao filho fastiento e mal-agradecido. Respo. Que quer dizer saliva ou excremento humano. Isto é, "come merda!", dizia a mãe. Assim se falava em Fafe naquele tempo, e falava-se muito bem.