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terça-feira, 28 de julho de 2026

Era um artista português

Alma de poeta
Tenho dentes sensíveis, disse-me o dentista. É a minha alma de poeta.

Esqueçamos por momentos as eleições, o futebol e outras guerras. Puxemos à memória aquele extraordinário anúncio da televisão a preto e branco com um homem (africano do Império, por sinal) a abocanhar uma cadeira e a fazê-la andar à roda acima da cabeça como ventoinha de helicóptero. Um enorme sucesso sempre que dava no café Peludo, que era onde se via TV. E pensando bem, chamar-lhe anúncio até acaba por saber a pouco: aqueles 20 segundos eram todo um programa de variedades e talvez manifesto político, mas isso agora não vem aqui ao caso. Aquilo é que eram dentes fortes, gengivas sãs, boca saudável! E tudo porquê? Porque o artista era um artista português e usava Pasta Medicinal Couto.
Eu, que sou dos tempos áureos do Restaurador Olex, também usei a Couto durante mais de um quarto de século, julgo que inicialmente "receitada" pelo extraordinário Quinzinho da Farmácia, o "médico" dos pobres de Fafe, o melhor médico de família que Deus ao mundo botou, ainda os médicos de família não tinham sido inventados. Aquela coisa de ser "Medicinal" no nome do meio também me convencia, tenho de confessar, e só a larguei após sucessivas tentativas falhadas para fazer sequer mexer uma cadeira de plástico com os dentes e depois de ir ao dentista pela primeira vez na vida, aos 45 anos.
A Couto nasceu no Porto há 94 anos, quando não era natural um preto de cabeleira loira e um branco de carapinha. A primeira fórmula da "Pasta Medicinal" foi registada a 13 de Junho de 1932, por Alberto Ferreira Couto e um amigo dentista. O novo produto prometia não só lavar os dentes, mas também, tomai nota, protegê-los dos malefícios da sífilis, reduzir os casos de infeção gengival e limitar o fenómeno crescente da retração das gengivas. Em 2001, por imposição das normas comunitárias relativas a este tipo de artigos, a marca foi obrigada a deixar cair a tão sedutora quanto conveniente designação de "Medicinal", passando a chamar-se simplesmente Pasta Dentífrica Couto. Até hoje.
Em 2012, o então principal accionista da empresa Couto, em Vila Nova de Gaia, anunciou que tinha dois pretendentes à compra da marca. Um da área da cosmética e outro do sector farmacêutico, ambos com intenções de "aumentar mais as vendas". O negócio deveria ser fechado até 2017. Não sei se foi, desinteressei-me do assunto. Mas também, hoje em dia, as cadeiras são muito mais leves...

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Dá Deus dentes... e é uma chatice

Oh, my dicky ticker!
Eu tinha um cardiologista por acaso porreirinho e visitava-o de quatro em quatro meses. A pagar. Falávamos de jornais, de jornalistas, de política, de bons restaurantes secretos e fora de mão e sobretudo do FC Porto, que nos interessava a ambos. Acto médico é que nada, mas no intervalo medíamos a tensão, o que é extraordinário! Deixei. Deixei também o urologista, os toques rectais não me seduzem, e fiquei-me somente com o dentista, que me sevicia de meio em meio ano, fora os inopinados, como por exemplo agora mesmo que ando arreliado das gengivas e vou ao castigo de dois em dois meses, lá se me vai o pé-de-meia. É a crise, é a vida. Um destes dias morro de repente, do coração, mas com uma boca que é uma categoria, e ainda vão dizer que foi por por causa de eu ter deixado de falar de jornais, de jornalistas, de política, de bons restaurantes secretos e fora de mão e sobretudo do FC Porto com o meu ex-cardiologista.

Cheguei muito tarde ao dentista. Logo eu que tomo horas para tudo, cheguei tarde ao dentista. Quero dizer: já passava dos quarenta. Evidentemente não sou exemplo para ninguém, também neste departamento da vida, mas a verdade é que, apesar de tantos anos de aparente desmazelo odontológico, eu tinha uma cremalheira que era um mimo - foi o que me disse o doutor, muito admirado e elogioso, quando lhe arreganhei a tacha pela primeira vez. Palavras para quê? Eu usava Pasta Medicinal Couto. Os meus problemas com os dentes começaram, portanto, quando fui ao dentista.
E estreei-me em grande, numa célebre extracção de um siso, que, não é para me gabar, correu que foi uma desgraça. O dente estava muito apegado a mim, eram décadas de convívio e recusava-se a sair, compreendo-o. Anestesia atrás de anestesia, o dentista escarafunchava e escarafunchava, puxava e puxava, pedia desculpa, que nunca tinha acontecido, inventava alavancas que não alavancavam nada, fazia o pino, o quatro e o oito, trinta por uma linha, tentou o flique-flaque à retaguarda e o mergulho empranchado de braços abertos, escarafunchava e puxava, o homem suava copiosamente e eu sem guarda-chuva nem limpa pára-brisas, parava para se desfazer das cambras, ralhava com as afogueadas assistentes que pareciam baratas tontas, pedia outra vez desculpa, que nunca tinha acontecido, e elas, quase em lágrimas e em coro: nunca tinha acontecido, mandou vir um escadote, a escada Magirus dos Bombeiros, uma marreta da obra em frente, o fogueteiro de Arões, o grupo de zés-pereiras de Regadas e um velho bombista do Verão Quente de 1975, por esta exacta ordem, escarafunchava e escarafunchava, puxava e puxava, desculpe, nunca tinha acontecido, e nada. Que daqui não saio, daqui ninguém me tira, insistia o filho da puta do dente, agarrado à gengiva como uma lapa, e já me estava a meter nervos.
Eu era uma poça de sangue. A minha boca era já duas, derivado ao escarrapacho forçado. Tinha a boca pior que o chapéu de um pobre - e foi ali que eu percebi na carne o significado da infeliz expressão. Se eu pudesse falar, gritaria: "chama-me um carro!", como se dizia em Fafe, mas eu não podia falar, porque não sentia a boca e isso até era do mal o menos.

(Por outro lado, o dentista passa muito bem sem a nossa opinião. Já reparastes que o dentista só faz perguntas depois de nos atafulhar a boca com metade dos móveis do consultório e a mangueira do jardim? Respondemos como? Só se for pelo nariz, mas isso é número arriscado e praticável apenas em caso de profunda constipação. E já destes fé que a gente vai lá queixar-se do dente de baixo e o dentista trata do dente de cima? E que geralmente acerta?)

O dente cedeu, por implosão controlada, ao fim de uma manhã inteira de pancadaria. O dente era eu. E eu era um destroço, um sobrevivente inesperado de Alcácer Quibir. Vi-me ao espelho: tinha os lábios esgaçados de orelha a orelha, parecia o Joker do Jack Nicholson. Para me confortar, o dentista disse-me que ainda ia ficar pior. E ficou. No dia seguinte: os cantos da boca em ferida, a cara inteira feita num bolo, inchada e negra. É. Eu tinha uma cara nova, irreconhecível, parecia que tinha passado pelo programa de protecção de testemunhas do FBI. Ou pelo menos pelo Botched do canal E!...
Por causa da dose cavalar de anestesia, andei semana e meia a babar-me e com um falar esquisito. A minha mulher queria internar-me. Safei-me por uma unha negra à consulta externa do Hospital Magalhães Lemos.
Mas isso passou. A sintomatologia física desapareceu. A memória da carnificina é que não. Padeço de stress pós-traumático. Ainda hoje é uma tortura ir ao barbeiro. Sim, ao barbeiro. Entro em pânico. Estais a ver? A mesma espera, a mesma televisão ligada na Praça da Alegria, a mesma bata branca, a cadeira, a babete, os utensílios cromados, pontiagudos e cortantes, o zzzzzzzzz assobiado do secador que parece o zzzzzzzzz assobiado de uma broca, a televisão desviada para as inundações, estais a ver? Estais a ouvir? Estais a perceber a minha agonia?
Isto é: houve aqui uma transferência qualquer que eu não sei explicar. Porque com o meu dentista corre tudo muito bem, farto-me de o recomendar a toda a gente. Dou-o de conselho.  É, aliás, o meu conselho odontológico, como gosto de dizer. Na verdade, o sanguinolento episódio do dente do siso não passou disso e ganhei esta bonita história para contar aos netos de quem é avô. Na próxima sexta-feira vai lá a minha mulher por mim e portanto adeus até ao meu regresso.