Gorilas da BrunaBruna é uma "youtuber" bastante "influencer". Elegante, bonita, regularmente recauchutada, famosa por ser famosa, esbanja sensualidade por tudo e por nada e enriqueceu por causa disso. Bruna mal pode sair à rua como as outras pessoas, isto é, põe um pé fora da porta a caminho da piscina por exemplo em Ibiza e multidões de adoradores caem-lhe em cima. Bruna tem milhões de seguidores. De perseguidores. Para fazer uma vida normal, viu-se até obrigada a contratar dois possantes seguranças, ou guarda-costas, à Kevin Costner, ou gorilas, como também se diz, que não a largam um segundo e vão com ela a todo o lado, inclusive à casa de banho por exemplo nas Maldivas. São conhecidos como os gorilas da Bruna.
Dia seguinte à mesma hora, lá estão elas outra vez. As duas novamente cochichando, aninhadas, movendo-se de cócoras pelo meio do restolho como melros assustadiços ou talvez David Attenborough amoitado no coração das florestas tropicais de Bornéu e, alto e pára o baile, isso já me autoriza a não desviar o olhar. Isso de as mulheres se moverem e estarem afinal completamente vestidas e compostas, digo bem, mais o facto de cada uma delas arrastar consigo de vez em quando uma daquelas enormes sacas de supermercado que custavam 50 cêntimos nos dias em que não eram dadas. Entretanto acabaram-se as borlas. Aproximo-me, como quem não quer a coisa. "É pala chá. Só pala chá. Só chá!", diz-me de jacto a senhora mais velha, veemente, incomodada e, parece-me, desconfiada, se não mesmo receosa, da minha inocente curiosidade.
Percebo. As duas mulheres com feições e conversa orientais catam flores de madressilva, que já esbordam, brancas e amarelas, das sacas de supermercado. Voltam lá todos os dias, na época, vejo-as pelas cinco da tarde, às vezes com reforços, um rancho depenicando muros anões e fartos naquela zona mais recatada do parque. Cheira que consola! O ar é doce como mel...
Consulto o Dr. Google, que me explica tudo ou quase tudo. A flor de madressilva é altamente valorizada na medicina tradicional chinesa, que lhe reconhece propriedades adstringente, antibacteriana, antifúngica, anti-séptica, antiespasmódica, antitumor, diaforética, diurética, expectorante, febrífuga, hipoglicémica, laxante e refrigerante. A madressilva, mãe de todas as curas, usa-se para tratar a asma, o colesterol alto, a congestão linfática, a diarreia, a disenteria, a dor de cabeça, a dor de garganta, erupções cutâneas, febre, gripe, inchaços, infecção bacteriana, intoxicação gastrintestinal, laringite, queimadura do sol, sumagre-venenoso, tosse e úlceras. Se lhe conseguirmos acrescentar as unhas encravadas a sida e a covid, como chegou a ser sugerido na China, estaremos então na presença de uma panaceia ao nível da nossa famosa banha da cobra, misteriosamente desaparecida das feiras mas ainda à venda em mercados sorrateiros ou alternativos, que eu bem sei.
Por outro lado: a avaliar pela posição em que é apanhada, o mais certo é que a flor de madressilva faça muito mal às costas - é o que penso. E então lembro-me da querida Bó de Basto, que sabia de lendas, de mouras encantadas e de penedos de morar, que distinguia cogumelos, que conhecia plantas, chás para dores de barriga ou outras maleitas assim a atirarem mais para o pataqueiro, aflições comezinhas, nada comparável com a universalidade e potência da flor de madressilva, remédio capaz de afrontar as mais medonhas e sofisticadas pestes e pragas, existentes ou por inventar. Lembro-me dos curandeiros, talhadores e endireitas de Fafe e arredores, mulheres e homens honrados e competentes, abençoados por saberes antigos e generosos aliviadores de corpos e espíritos, fui cliente frequente, levado pelas orelhas, lembro-me de me consertarem maus jeitos e trasorelhos, ossos desviados, rachadelas, comichões diversas, uma e outra vez, era eu miúdo e arisco, pobre e feliz, saltando alegremente de desastre em desastre, à falta de outros brinquedos. O nosso bruxo, diga-se em abono da verdade, chegou alguns anos mais tarde, já não veio a tempo de mim.
Mas eu e as duas sobressaltadas apanhadoras de flores de madressilva no Parque da Cidade, quereis saber que mais? Reparastes certamente: a mulher mais velha, sem que eu lhe tivesse perguntado, fez questão de dizer-me, enfaticamente, como se estivesse a justificar-se, a defender-se de uma acusação não formulada, que era "só pala chá". Mas porquê? A coisa também se fuma, será? Alegra a disposição? Hummm!... Vim-me embora com essa pedra no sapato. E era realmente escusado. As sacanas das sapatilhas já me dão mau andar que chegue.
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