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quarta-feira, 20 de maio de 2026

O povo ouviu dizer

Na saúde e na doença
Com a saúde não se brinca. Com a doença talvez.

Eram aos milhares à porta do centro de saúde fechado para obras, nunca se vira uma coisa assim. Chegavam de ambulâncias, camionetas de caixa aberta, motorizadas e até carros de bois, em macas, padiolas e camas de casal, com a ajuda de bengalas, cajados, muletas, canas de pesca, andarilhos, cadeiras de rodas, carrinhos de rolamentos e patins em linha, cegos, mancos, cardíacos, asmáticos e furunculosos, os padecimentos do mundo inteiro ali estavam a céu aberto, acotovelando-se por uma vez. Sendo 13 de Maio e véspera das Feiras Francas, até parecia Fátima em peso à espera da bênção dos enfermos ou talvez Fafe e arredores marcando lugar para a corrida de cavalos a passo-travado. Mas nada disso. Ouviram dizer, constou-lhes que era "Dia do Doente" e, pronto, tomaram horas e apareceram todos à consulta. Convenhamos. Era, em rigor, Dia do Duende - do Duende, porra! - , mas não há volta a dar quando o povo ouve dizer.

sexta-feira, 25 de abril de 2025

Diálogos fafenses 8

Aparições e leitão da Bairrada
O peregrino chegou a Fátima, a mais de mil à hora, seriam talvez umas cinco da manhã, ainda a religião nem tinha aberto. Estacionou chiando pneus e perguntou, desnorteado e ofegante, como se tivesse ido a pé: - Nossa Senhora já apareceu?
- Isso foi ontem. - informou o segurança.
- E hoje?... - insistiu o peregrino.
- Não está previsto. - reportou o segurança.
- Nem um bocadinho?... - tentou o peregrino.
- Nicles batatóides! - confirmou o segurança.
- Vim de tão longe... - lamuriou-se o peregrino.
- Não posso fazer nada... - desculpou-se o segurança.
- Tenho a mulher e os putos no carro... - protestou o peregrino.
- Realmente é uma pena... - condescendeu o segurança.
- Carago!... - protestou o peregrino.
- É a vida... - filosofou o segurança.
O peregrino cabisbaixou finalmente, disse "Prontos!..." como se isso o animasse, mas não animou e ainda por cima dizer "Prontos!..." é uma rematada estupidez, deixou o número de telemóvel ao segurança, desse-se o caso de Nossa Senhora aparecer mais tarde, talvez em horário de expediente, encolheu os ombros, fez meia volta, meteu-se outra vez no carro, resmungou à família e desandou para cima, nas calmas, vidro aberto, braço de fora, Mira de Aire, Alcobaça, Batalha, Nazaré, Figueira da Foz, Coimbra, Buçaco, Luso e Curia até à Mealhada. E ao leitão. O leitão, graças a Deus, aparece sempre.