Remédio santo
Eu tinha um problema. Enfiava-me no guarda-fatos a comer nozes, o que me provocava imensas aftas. Fui ao médico. Mandou-me comprar um baú e tenho andado muito bem.
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terça-feira, 19 de maio de 2026
O remédio das bichas
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terça-feira, 7 de abril de 2026
O Sr. Moura era de filme
Como um passarinho
Morreu como um passarinho. Abatido a tiro.
E então puxo a fita atrás. O Sr. Moura tinha mais de 200 anos e uns óculos muito pândegos e parecia uma figura dos filmes da Walt Disney para crianças. Eu gostava muito de o ver lá ao fundo, na mesa grande do laboratório, a inventar remédios e talvez perfumes, a tomar notas, a fazer contas, a conferir apontamentos em folhas manuscritas e desencontradas, amarelecidas, no meio de uma babilónia de balões, provetas, tubos de ensaio, pipetas, espátulas, pinças, lâminas, balanças, funis, almofarizes e pilões, serpentinas, condensadores, quem dera que também bicos de Bunsen, isso, porque estou a imaginá-los, rodeado por uns armários enormes e antigos, altos do chão até ao tecto, a toda a volta, cheios de frascos, frasquinhos e campânulas, garrafas, garrafões, caixas e caixinhas, sacos, sacas, saquinhos e saquetas que eu adivinhava abundantes de matérias-primas preciosas, fluidos insondáveis, pomadas da casa e a granel, bicarbonato, pós de perlimpimpim, pétalas delicadas de flores exóticas, especiarias do fim do mundo, sementes, raízes e plantas raras e milagrosas, aromas intensos e contraditórios, e ao canto, estou em crer, uma vassoura encantada, aprendiza e ajudante, trabalhadeira, à espera das ordens do velho mestre. A mesa e os armários, em madeira, escura, pesada, eram da idade do Sr. Moura. Aquilo dos óculos esquisitos seria decerto obrigatório para os farmacêuticos naquela época, porque o Quinzinho também tinha. O Sr. Moura, parecendo que não, ditava a moda.
Ainda para mais, o bom do Sr. Moura, que morava por cima do estabelecimento, na Rua Montenegro, atendia durante a madrugada, se lhe tocassem à campainha para acudir a uma aflição inopinada, no tempo em que não havia farmácias de turno nem intercomunicadores ou videoporteiro. Com aquele aspecto de velhinho precoce, sábio ancestral, feiticeiro, alquimista, eterno príncipe dos manipulados, o Sr. Moura assomava ao patiozinho do 1.º andar, informava-se do que era, descia as escadas em chinelos de quarto ou enfiado nos sapatos três números acima, com o pijama a espreitar por baixo das calças vestidas à pressa e às vezes embrulhado no roupão, só lhe faltavam a candeia na mão e o barrete de dormir, resmungava por todos os lados, mas, a verdade é só uma, salvava o povo. E essa é que é essa.
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sábado, 27 de setembro de 2025
Diálogos fafenses 29
Os médicos, as farmácias e o sistema
Fui à farmácia comprar o antibiótico. A senhora doutora farmacêutica perguntou-me:- Marca ou genérico?
- O mais barato, se faz favor. Pode ser de saldo, se tiver, ou mesmo em segunda mão, se for em conta - respondi.
Veio o antibiótico. Genérico.
- São seis euros e setenta e nove - informou-me a senhora doutora farmacêutica.
- Seis euros e setenta e nove?! - espantei-me. - Mas o senhor doutor médico escreveu aqui na receita que, e passo a citar, "esta prescrição custa-lhe, no máximo, 77 cêntimos, a não ser que opte por um medicamento mais caro", e eu manifestamente não optei...
- Pois, mas não ligue a isso. É o que eles têm lá no sistema. O preço muda ao fim de três meses - disse-me a senhora doutora farmacêutica.
- Mas a receita é de hoje, fresquíssima - atalhei.
- Pois, mas é o sistema - reiterou a senhora doutora farmacêutica.
- E o sistema não é o mesmo para as farmácias? Entre 77 cêntimos e seis euros e setenta e nove vai uma diferença de quase dez vezes mais, como é que isto é possível? - inquiri e tornei a inquirir.
- Faça o favor de ver aqui no computador. Na verdade há mais barato, este de três euros e quinze, mas que hoje, por acaso, até já custa cinco euros e trinta e sete, e não temos - explicou-me a senhora doutora farmacêutica.
- Mas a custar 77 cêntimos é que nada - insisti.
- Nem de perto nem de longe, é o sistema - insistiu, por seu lado, a senhora doutora farmacêutica.
- E os senhores doutores médicos sabem? - eu.
- Sabem, sabem - a senhora doutora farmacêutica.
- Desculpe voltar ao mesmo: mas então porque é que os senhores doutores médicos escrevem estes preços nas receitas, se sabem que estão a enganar os doentes?
- É para pressionar as farmácias - segredou-me a senhora doutora farmacêutica, chegando-se-me ao ouvido.
- E tem resultado, não tem? - devolvi-lhe eu, no mesmo tom confidencial...
Fui à farmácia comprar o antibiótico. A senhora doutora farmacêutica perguntou-me:- Marca ou genérico?
- O mais barato, se faz favor. Pode ser de saldo, se tiver, ou mesmo em segunda mão, se for em conta - respondi.
Veio o antibiótico. Genérico.
- São seis euros e setenta e nove - informou-me a senhora doutora farmacêutica.
- Seis euros e setenta e nove?! - espantei-me. - Mas o senhor doutor médico escreveu aqui na receita que, e passo a citar, "esta prescrição custa-lhe, no máximo, 77 cêntimos, a não ser que opte por um medicamento mais caro", e eu manifestamente não optei...
- Pois, mas não ligue a isso. É o que eles têm lá no sistema. O preço muda ao fim de três meses - disse-me a senhora doutora farmacêutica.
- Mas a receita é de hoje, fresquíssima - atalhei.
- Pois, mas é o sistema - reiterou a senhora doutora farmacêutica.
- E o sistema não é o mesmo para as farmácias? Entre 77 cêntimos e seis euros e setenta e nove vai uma diferença de quase dez vezes mais, como é que isto é possível? - inquiri e tornei a inquirir.
- Faça o favor de ver aqui no computador. Na verdade há mais barato, este de três euros e quinze, mas que hoje, por acaso, até já custa cinco euros e trinta e sete, e não temos - explicou-me a senhora doutora farmacêutica.
- Mas a custar 77 cêntimos é que nada - insisti.
- Nem de perto nem de longe, é o sistema - insistiu, por seu lado, a senhora doutora farmacêutica.
- E os senhores doutores médicos sabem? - eu.
- Sabem, sabem - a senhora doutora farmacêutica.
- Desculpe voltar ao mesmo: mas então porque é que os senhores doutores médicos escrevem estes preços nas receitas, se sabem que estão a enganar os doentes?
- É para pressionar as farmácias - segredou-me a senhora doutora farmacêutica, chegando-se-me ao ouvido.
- E tem resultado, não tem? - devolvi-lhe eu, no mesmo tom confidencial...
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