segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Perguntai-me por Ceuta, que eu sei tudo

O Magalhães da Circunvalação
Ouço amiúde a pergunta, entre o Porto e Matosinhos, à porta dos liceus, nas galerias de arte, nos cafés, nas esquinas, nas praias, nos autocarros, no metro e até nas trotinetas partilhadas: - Mas afinal quem foi esse Fernando Magalhães?...
Vou então esclarecer. O navegador Fernão de Magalhães, nascido provavelmente em Ponte da Barca, Alto Minho, no dia 3 de Fevereiro de 1480, morreu no dia 27 de Abril de 1521, nas Filipinas. Entre uma coisa e outra, descobriu a Circunvalação, e a Circunvalação, minhas senhoras e meus senhores, passo por lá todos os dias, é realmente um mundo.

Ceuta foi tema da minha tese de doutoramento no exame da Quarta Classe. Na prova oral, depois de meia dúzia de contas no quadro, recitação de duas ou três tabuadas e uma ida aos mapas para identificar províncias, apontar linhas de caminhos de ferro e cantar rios e seus afluentes, calhou-me a lição de D. Fernando, o Infante Santo. E eu sabia tudo na ponta da língua. Sabia de D. João I e Dona Filipa de Lencastre, sabia da Ínclita Geração, dos infantes, D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique, mas também Dona Isabel, D. João e, por maioria de razão, do desgraçado D. Fernando. Sabia de mouros, infiéis. Sabia de Ceuta, Arzila, Tânger, Fez e Alcácer-Ceguer. Sabia também de Alcácer Quibir, mas isso foi só azar. Sabia realmente de tudo. E tudo conforme me ensinaram: a versão vigente, heróica e santa, épica como convinha, A Bem da Nação. E fiz um figuraço, dei show.
Isto passou-se na velha Escola Conde Ferreira, em Fafe, andaríamos pelos finais da década de sessenta. Éramos da sala da frente, um grupo porreiro, alunos do magnífico Toninho da Cafelândia, que nos tinha muito bem preparados. O examinador foi o professor Costa Brasileiro, da sala das traseiras, moçarada com um ou dois anos de avanço, era um grande brincalhão e ficou razoavelmente impressionado com o nosso desempenho.
O professor Costa Brasileiro era português de Fafe e morava num tasco, vamos dizer assim, mesmo no centro da vila, em frente à Loja Nova, e eu dava-lhe muito valor por isso. Gostava de o ver entrar e sair de casa, consoante o horário, como se fosse para os copos ou viesse dos copos, mas não era nada disso, ele não tinha culpa nenhuma, eram coisas de família. Vestia fato leve, quase sempre azul ou porventura cinzento, era um homem largo mas ágil, pesado mas elástico, tanto que até jogava voleibol pelo Grupo Nun'Álvares, o qual, aproveitai mais esta, terá sido o primeiro campeão distrital da modalidade, em 65/66, e se calhar ele até fazia parte dessa histórica equipa, ou então estaria para a guerra, mas isso não sei, a sério.
O Grupo Nun'Álvares tinha então a sua sede atrás do Jardim do Calvário, no casarão fidalgo da hoje chamada Casa do Calvário, na Rua Visconde Moreira de Rei, onde, se não estou em erro, a Misericórdia de Fafe veio a instalar-se com o seu primeiro lar de idosos. O voleibol jogava-se num campo de terra batida inventado mesmo ao lado direito do vetusto edifício, quem o olhasse de frente, com uma bela ramada-alameda a servir-lhe de bancada central sem degraus. Os jogos eram geralmente nocturnos, à média luz, à luz que havia, como se fosse para fados, se não chovesse, mas era o tempo do conjunto Pimpinela, que ensaiava lá em cima...

Que é como quem diz. Não garanto nada do que aqui recordo. Isto não é História, são as minhas histórias. Os meus arquivos sou eu, falível e tendencioso, imperfeito que até dá gosto. Escrevo de cabeça e de coração, decerto às vezes também com os pés. Mas é tudo verdade. Ou por outra. Uma coisa é a verdade que eu conto, a minha verdade, a verdade de que gosto e quero, outra coisa poderá ser a verdade verdadeira, a verdade de como as coisas de passaram, independentemente da minha memória.
Se me provarem que estou redondamente enganado, prometo que tornarei aqui e onde for preciso para repor a verdade dos factos. Mas, insisto, só se me provarem que estou redondamente enganado. Redondamente! Quadradamente não serve. E se, em todo o caso, a verdade dos factos for demasiado desinteressante e me desengraçar a prosa, então ficamos mesmo assim, que não estamos nada mal.

Ora bem. Ceuta está outra vez aí, na ordem do dia. Uma tristeza, uma tragédia! E era só isto que eu tinha para vos dizer: se quereis saber de Ceuta, perguntai-me, que eu explico. Eu sei tudo de Ceuta e assim.

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