Mostrar mensagens com a etiqueta Grupo Nun'Álvares. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Grupo Nun'Álvares. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Vozes que chegam ao Céu

E sobretudo Deus
Eram dois amigos antigos, amigos do peito, leais, assíduos, generosos, cúmplices, irredutíveis, amigos com agá grande. Ainda por cima tinham Deus em comum: um acreditava, o outro não.
 
Lembro-me da voz do Nélson. O Nélson tinha uma loja minúscula e atafulhada mesmo ao lado do consultório do Dr. Antunes, uma montra e pouco mais, na hoje Rua General Humberto Delgado, em Fafe, e gostava de estar à porta a dizer bom dia ou boa tarde às pessoas que passavam, não por interesse de negócio, que a vida lá ia andando, mas porque era assim do seu feitio, dado, gentil, bom. Vendia electrodomésticos. Foi no Nélson que eu comprei a primeira televisão para a minha mãe, foi do Nélson que eu, já casado, trouxe para o Porto a primeira varinha mágica da Mi, parece-me que no nosso primeiro Natal, palermices que os homens faziam antigamente, oferecerem instrumentos de trabalho às mulheres, como se fossem prendas. Hoje em dia, fôramos nós outra vez novos, dava-lhe um Porshe Panamera ou talvez um beijo, muitos beijos, que é com o que nos temos governado estes anos todos sem demasiadas razões de queixa. O Nélson, atenção, muita atenção!, era das electricidades, desses mistérios, portanto devia saber de amplificadores, sabia certamente de altifalantes, às tantas até seria mestre de "instalações sonoras", pelo menos por parte de um sobrinho, homónimo, se não me engano, e suponho que nem será preciso dizer mais nada para que percebais que ele tinha tudo para ser um dos meus heróis.
Coincidíamos às vezes no tasco. O Nélson, o Sr. Nélson, bem mais velho do que eu, não era um bebedor, era um conversador, mas só falava se valesse a pena. Passava calado a maior parte do tempo. E eu lembro-me da voz dele, tão respeitadora, tão amiga, tão mansa, como se pedisse desculpa por se fazer ouvir. E, no entanto, era sábio. O Nélson é certamente uma das pessoas mais decentes que eu tive a sorte de conhecer em toda a minha vida, e há séculos que não sabia dele. Soube em Dezembro, inesperadamente. Morreu.
Nélson Novais, 95 anos, o sócio n.º 2 do Grupo Nun'Álvares, orfeonista de longa data, faleceu no final do ano, vi por acaso numa passagem distraída pelo Facebook da extraordinária colectividade fafense. O Nélson morreu e eu, caramba, foi como se me tivesse caído a noite, fiquei tão triste, tão zangado comigo por me esquecer de tantas e tão boas pessoas de Fafe, por lhes ter perdido o rasto, por nunca mais ter querido saber, por me ter desligado, por já não reconhecer caras que vejo nas fotografias, por estar para aqui fechado em mim e nas minhas coisinhas, que merda, que merda!...
... Até que me lembrei da voz do Nélson, ouvi-a de repente, juro, sem palavras certas, definidas, mas numa espécie de relambório sem sentido, era apenas aquele som calmo, meigo, agradável, sensível, voz de anjo, pensei. Felizmente há vozes assim, confidenciais, íntimas, vozes que apaziguam corações. Isso, se os anjos falassem, haveriam de falar com a voz do Nélson. Quer-se dizer, afinal o Nélson esteve cá em baixo apenas emprestado e outro dia finalmente regressou a casa, ao Céu, ao sítio aonde deveras sempre pertenceu. Que descanse em paz.

sábado, 1 de fevereiro de 2025

Chester, para todo o serviço

As meninas... dançam?
Lembrais-vos do futebol de salão? O que é que me vinha à cabeça quando se falava de futebol de salão? O salão. Uns cavalheiros vestidos de fraque e com um número nas costas e umas cavalheiras despidas nas costas e no resto, agarrados um ao outro e rodopiando pelo salão nobre do Teatro-Cinema como Fred Astaire e Ginger Rogers e uma bola pequenina no meio, um árbitro e o apito, um júri e tabuletas com pontuações. Para evitar ambiguidades, o futebol de salão passou a chamar-se futsal, joga-se em polidesportivos, como, por exemplo, no pavilhão do Grupo Nun'Álvares, e é o sucesso que se sabe...

Matt Dillon era o xerife de Dodge City, e Chester o seu leal escudeiro. Naquele tempo todos queriam ser Tarzan ou Mandrake, Buck Jones ou Fantasma, Mascarilha ou Cisco Kid. Os "artistas". Mas o Álvaro escolheu modestamente ser Chester, actor secundário, e assim se rebaptizou num involuntário equívoco cheio de ironia: na verdade, Álvaro Moreira Mendes nasceu para ser primeira figura, protagonista. E foi. No seu ofício de indústria, no movimento associativo, na intervenção cívica, na amizade fraterna e íntegra, foi sempre dos melhores, um fafense excelentíssimo, um homem maior do que o próprio nome, maior do que a alcunha sacada dos livrinhos de cobóis, maior do que o lugar que lhe queiram dar os menestréis da história recente de Fafe, tão desperdiçada em umbiguismos, capelinhas e bagatelas, maior do que melhor ou pior pensem dele. Acerca da opinião dos outros a seu respeito, creio, aliás, que o Chester, ajudante do xerife, não se coibiria de dizer, alto e bom som: caguei!!! E diria alto e bom som e assim com três pontos de exclamação porque ele não sabia falar de outra maneira.
Onde o Álvaro chegasse, constava. Ele encarregava-se de avisar logo à entrada, por entre raios e coriscos, avançando como um tornado de grau cinco, a enorme mão calejada e aberta desbravando caminho, oferecendo-se para um abraço, para uma palmada nas costas à moda antiga. Ser imperfeito como todos nós, mas menos imperfeito do que a maioria de nós, e muito menos imperfeito do que eu, por exemplo, o Chester tinha um coração enorme, desmesurado, e uma boca do tamanho do coração. Tinha o raio de um feitio, o homem, fazia inimigos com o dobro da facilidade com que fazia amigos. E também deu alguns pontapés na vida.
O Chester era generoso, impulsivo, excessivo e puro. E amiúde foi a primeira e principal vítima da sua generosidade sem peso nem medida. Era um bom selvagem, uma força da natureza, pau para toda a obra.
Era meu amigo. Forjámos a nossa cumplicidade no tasco, evidentemente. Nas tardadas de Inverno passadas à volta da braseira na cozinha da Dona Isabel, no Toninho Nacor, onde eu, com os bolsos cheios de cotão, ia levado pelo tio Américo. Em 1976, Barcelos acolheu o Campeonato da Europa de Hóquei Patins Sub-21 (juniores, chamavam-se então). O Chester falou do assunto. Comprámos duas assinaturas para o torneiro inteiro, e todas as noites lá íamos de Vauxhall até Barcelos por estrada nacional, que era o que havia, víamos os dois ou três jogos do programa, regressávamos a Fafe e eu chegava a casa já de madrugada. Fomos campeões.
Mais ou menos por essa altura, o Grupo Nun'Álvares estava instalado no edifício que fora posto da GNR, em frente à Igreja Matriz, e que hoje é, creio não estar enganado, casa paroquial. Ali foi construído um rinque em cimento e organizado, em 1977, o primeiro torneiro de futebol de salão em Fafe. Salão ao ar livre, é preciso que se note. Nunca falhei um jogo. Um dia vou à bilheteira comprar o bilhete do costume, está lá o Chester (o Chester tinha o seu quê de Deus, também estava em toda a parte) e entregou-me um livre-trânsito passado em meu nome e que dizia "Convidado da Organização - Prémio Assiduidade". Coisa inventada por ele, que era a alma daquilo tudo. Resultado: deixei de pagar para entrar e guardo religiosamente aquele cartão, como se fosse um santinho, uma relíquia da Terra Santa.
Quando terminei a minha felizmente efémera passagem pela tropa, o Álvaro foi a primeira pessoa a oferecer-me um emprego a sério e até já tinha tratado de tudo para eu tirar a carta de condução. Apareceu-me melhor, o Álvaro incentivou-me a aceitar a outra proposta, e ainda hoje não tenho carta nem sei conduzir.
O Chester alegrava-se quando me via em Fafe. Fazia questão que se soubesse que gostava muito de mim. E a verdade é que eu também gostava muito dele. E no entanto falhei-lhe miseravelmente na altura da vida em que por certo ele mais precisou dos amigos...
O Álvaro era, regra geral, do contra. Era um inquieto espírito de contradição. Tanto que, só para chatear, resolveu deixar-me a falar sozinho, quando tínhamos ainda tanto para conversar.

Felizes os ignorantes: quem não conheceu o Chester, não sabe o que perdeu. Trabalhador incansável, empreendedor contumaz, homem dos sete instrumentos e de mil causas, o Chester é uma história extraordinária e isto aqui é apenas um humilde lembrete, um quase nada. Grande, grande era ele. Álvaro Moreira Mendes. Chester, para todos os efeitos e para todo o serviço. Uma vida que dava um livro, um nome que merece rua. Em Dodge City já teria.