Mostrar mensagens com a etiqueta Toninho da Cafelândia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Toninho da Cafelândia. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Sou esbraguilhado e não sabia

Num beijo
- Num beijo! Num beijo! - gritava o homem, aflito. E realmente num bia.

Esbraguilhado, de acordo com a definição dicionária, é o tipo que "tem a braguilha desabotoada". As braguilhas há que anos não são de botões, mas não posso negar que umas quantas vezes já saí de casa com a ferramenta a arejar, esquecido completamente de puxar o fecho-éclair para cima, por pressa ou por idade - ainda não consegui chegar a uma conclusão que me convença. No entanto, foram acasos, excepções, eu morra aqui se não é verdade. Nesse sentido, portanto, não me vejo como um genuíno esbraguilhado. Em todo o caso, e pelo sim e pelo não, hoje em dia, antes de ir à rua, vou primeiro à revista, à minha mulher. Porém. Esbraguilhado também quer dizer o tipo que anda "com fralda da camisa saída". E aqui sou eu, todo e completo: esbraguilhado de corpo inteiro, que não meto as fraldas para dentro há mais de 50 anos, nem nos dias raros e cerimoniosos de uso de casaco. Jamais.

Bela palavra, esbraguilhado. Nunca lhe tinha posto a vista em cima até há coisa de duas décadas e por acaso, apesar de a língua portuguesa ser uma paixão e o meu ofício. Envergonhei-me, pela rematada ignorância. O amor e o respeito pela nossa língua foram-me ensinados primeiro pela minha mãe - analfabeta por culpa da vida, e sábia graças a Deus. A minha mãe corrigia-me a leitura, emendava-me as palavras, eu de cabeça enfiada nos livrinhos fascistas da primária, na mesa da nossa sala que era também o quarto dos meus pais logo à entrada da casinha do Santo Velho, e a minha mãe a ensinar-me Português. Ela não sabia ler nem escrever, e eu achava aquilo extraordinário. Ainda hoje acho aquilo extraordinário. Um milagre.
Depois tive a sorte de me calhar o professor Correia (Toninho da Cafelândia, se não me engano), que me levou da segunda à quarta classe na Escola Conde Ferreira, tive os extraordinários mestres do seminário, o professor Alberto Alves, que me ensinava livros na Biblioteca Gulbenkian de Fafe, o velho professor Horácio, meu chefe e amigo na revisão do jornal O Janeiro de Janeiro. Todos me ensinaram. A tabuada dos nove, a Linha da Beira Alta, os reis da 1.ª Dinastia, semânticas e hermenêuticas, mas sobretudo ensinaram-me a pedir licença e a tratar com carinho a língua portuguesa. Puxaram pelo melhor de mim, sem estragarem o que a minha mãe tinha feito. Aprendi.

Aprendi, por exemplo, a ter dúvidas quando escrevo. Quem não tem dúvidas, tende a escrever asneiras. Hoje em dia escreve-se muito de ouvido. E escrever de ouvido não tem nada a ver com literatura oral, é mas é sinónimo de preguiça, ignorância. As palavras nem sempre se escrevem como soam, e muitas vezes são mal ditas. Mal ditas, mal escritas, mal interpretadas, e assim normalizadas. O erro passa a ser a norma, a patacoada alcança dignidade gramatical. Pela parte que me toca, eu, confesso, não sei escrever sem o dicionário, o livro, ao lado; não sei escrever sem a enciclopédia, os livros, ao lado. Molho o dedo na língua, gesto antigo, vou lá ver se é com ésse ou com zê, se a palavra que escolhi quer dizer exactamente aquilo que eu quero dizer - e ainda assim asneio.
Foi num destes exercícios que descobri a palavra esbraguilhado e gostei dela. Assumi-a. E, à falta de melhor assunto, veio-me a memória. Ou então sou só eu a dar uso às palavras. Estimo-as, protejo-as, mas, sei muito bem, elas precisam de arejar, de vida. E cá estão.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Perguntai-me por Ceuta, que eu sei tudo

O Magalhães da Circunvalação
Ouço amiúde a pergunta, entre o Porto e Matosinhos, à porta dos liceus, nas galerias de arte, nos cafés, nas esquinas, nas praias, nos autocarros, no metro e até nas trotinetas partilhadas: - Mas afinal quem foi esse Fernando Magalhães?...
Vou então esclarecer. O navegador Fernão de Magalhães, nascido provavelmente em Ponte da Barca, Alto Minho, no dia 3 de Fevereiro de 1480, morreu no dia 27 de Abril de 1521, nas Filipinas. Entre uma coisa e outra, descobriu a Circunvalação, e a Circunvalação, minhas senhoras e meus senhores, passo por lá todos os dias, é realmente um mundo.

Ceuta foi tema da minha tese de doutoramento no exame da Quarta Classe. Na prova oral, depois de meia dúzia de contas no quadro, recitação de duas ou três tabuadas e uma ida aos mapas para identificar províncias, apontar linhas de caminhos de ferro e cantar rios e seus afluentes, calhou-me a lição de D. Fernando, o Infante Santo. E eu sabia tudo na ponta da língua. Sabia de D. João I e Dona Filipa de Lencastre, sabia da Ínclita Geração, dos infantes, D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique, mas também Dona Isabel, D. João e, por maioria de razão, do desgraçado D. Fernando. Sabia da bandeira. Sabia de mouros, infiéis. Sabia de Ceuta, Arzila, Tânger, Fez e Alcácer-Ceguer. Sabia também de Alcácer Quibir, mas isso foi só azar. Sabia realmente de tudo. E tudo conforme me ensinaram: a versão vigente, heróica e santa, épica como convinha, A Bem da Nação. E fiz um figuraço, dei show.
Isto passou-se na velha Escola Conde Ferreira, em Fafe, andaríamos pelos finais da década de sessenta. Éramos da sala da frente, um grupo porreiro, alunos do magnífico Toninho da Cafelândia, que nos tinha muito bem preparados. O examinador foi o professor Costa Brasileiro, da sala das traseiras, moçarada com um ou dois anos de avanço, parecia um grande brincalhão e ficou razoavelmente impressionado com o nosso desempenho.
O professor Costa Brasileiro era português de Fafe e morava num tasco, vamos dizer assim, mesmo no centro da vila, em frente à Loja Nova, e eu dava-lhe muito valor por isso. Gostava de o ver entrar e sair de casa, consoante o horário, como se fosse para os copos ou viesse dos copos, mas não era nada disso, ele não tinha culpa nenhuma, eram coisas de família. Vestia fato leve, quase sempre azul ou porventura cinzento, era um homem largo mas ágil, pesado mas elástico, tanto que até jogava voleibol pelo Grupo Nun'Álvares, o qual, aproveitai mais esta, terá sido o primeiro campeão distrital da modalidade, em 65/66, e se calhar ele fazia parte dessa histórica equipa, com óculos e tudo, ou então estaria para a guerra, mas isso não sei, a sério.
O Grupo Nun'Álvares tinha então a sua sede atrás do Jardim do Calvário, no casarão fidalgo da hoje chamada Casa do Calvário, na Rua Visconde Moreira de Rei, onde, se não estou em erro, a Misericórdia de Fafe veio a instalar-se com o seu primeiro lar de idosos. O voleibol jogava-se num campo de terra batida inventado mesmo ao lado direito do vetusto edifício, quem o olhasse de frente, com uma bela ramada-alameda a servir-lhe de bancada central sem degraus. Os jogos eram geralmente nocturnos, à média luz, à luz que havia, como se fosse para fados, se não chovesse, mas o que se ouvia era o conjunto Pimpinela, que ensaiava lá em cima...

Que é como quem diz. Não garanto nada do que aqui recordo. Isto não é História, são as minhas histórias. Os meus arquivos sou eu, falível e tendencioso, imperfeito que até dá gosto. Escrevo de cabeça e de coração, decerto às vezes também com os pés. Mas é tudo verdade. Ou por outra. Uma coisa é a verdade que eu conto, a minha verdade, a verdade de que gosto e quero, outra coisa poderá ser a verdade verdadeira, a verdade de como as coisas de passaram, independentemente da minha memória.
Se me provarem que estou redondamente enganado, prometo que tornarei aqui e onde for preciso para repor a verdade dos factos. Mas, insisto, só se me provarem que estou redondamente enganado. Redondamente! Quadradamente não serve. E se, em todo o caso, a verdade dos factos for demasiado desinteressante e me desengraçar a prosa, então ficamos mesmo assim, que não estamos mal servidos.

Ora bem. Ceuta está outra vez aí, na ordem do dia. Uma vergonha, uma tristeza, uma tragédia! E era só isto que eu tinha para vos dizer: se quereis saber de Ceuta, perguntai-me, que eu explico. Eu sei tudo de Ceuta e assim.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

A peita

Os ausentes
Sim, ele gosta muito de presentes. Mas os ausentes falam-lhe mais ao coração...

Peita. Dádiva ou promessa com o fim de subornar, suborno, antigo tributo pago pelos que não eram fidalgos - é o que dizem os dicionários. E peitar, seguindo esta linha de raciocínio, será, então, subornar com peitas, corromper, aliciar com dádivas e promessas. Talvez. Mas a peita, naquele tempo, ao menos em Fafe, era mais que um simples suborno e muito menos que um simples suborno. Até podia ser pagamento de favores, reais ou imaginários, simulacro de cunha, mas ia para além e ficava aquém disso. Não era corrupção tal como hoje a entendemos e usamos, era, isso sim, uma manifestação quase folclórica de uma certa subalternidade social mansamente aceite e assumida pelo pé-descalço, resquícios decerto medievais do tal imposto popular, numa gratidão imensa e sem sentido pelos de cima. Enfim, sabujice e lambe-botismo em todo o seu esplendor, os pobres davam aos ricos, não sei explicar de outra maneira, e assim funcionava o regime.
O meu avô, por exemplo. O meu avô da Bomba gostava muito de ser doente e adorava ir ao Porto "ao especialista". Era uma coisa constada. Íamos "ao especialista" como se fosse uma romaria, uma excursão familiar na catrel de três velocidades do meu padrinho Américo. Íamos, mas todos com a perfeita noção da solenidade do momento e da compostura que se exige numa ida "ao especialista" e ainda por cima ao Porto. Era um cardiologista na Rua de Sá da Bandeira, que por acaso também era médico do poeta Pedro Homem de Mello, que nós conhecíamos da televisão a preto e branco, e eu ficava muito emocionado por estar ali à beira daquela grande figura, na sala de espera, a cores, mas evidentemente sem abrir o bico, para não destoar e às tantas até "incomodar" o meu avô. O meu avô da Bomba, e este era um ponto de que toda a família estava avisada e o resto de Fafe também, "incomodava-se do coração".
Quando ia "ao especialista", o Bô da Bomba levava-lhe sempre um bom quilinho da melhor vitela de Fafe, traço seleccionado e cortada pelas sábias mãos do Sr. Abreu do Talho, embrulhado em imaculado papel costaneira e impecavelmente atado e laçada com fio norte de qualidade superior. Era a peita, o regalo, é claro que o meu avô não podia ir ao Porto com consulta marcada e aparecer "ao especialista" de mãos a abanar...
As peitas aos médicos eram, aliás, aparentemente consensuais e obrigatórias, e creio saber que hoje em dia ainda há quem por aí as pratique. E não se pense que se tratava de um pagamento de consulta em géneros. Não. Era um pagamento em cima do pagamento em dinheiro vivo, pagas e não bufas, um extra, uma gratificação, uma gorjeta de mãos largas, sei lá bem por que carga de água. Em Fafe havia um médico muito famoso por receber peitas, tantas e tantas, material de luxo, belas peças de caça, dúzias de ovos caseiros, salpicões, presuntos, cabos de cebolas, rasas de milho ou feijão, frangos, capões, coelhos, cabritos, mortos e vivos, e não sei se também porcos, peitas, tantas e tantas, dizia eu, que o senhor doutor aceitava alegremente e depois vendia, inclusive aos açougueiros locais, tudo passado a patacos. Isso, o médico rico fazia negócio com as esforçadas oferendas dos seus doentes pobres, tinha até uma "criada" destinada quase exclusivamente a esse ofício. Toda a gente sabia do cambalacho, na vila e nos arredores. Alguém de bolsos mais abonados andava com desejos de uma perdiz de escabeche, precisava de um coelho-bravo para dar ao patrão, queria um pato à moda antiga para uma tainada das tais, não tinha nada que enganar, era só ir ao médico...

A peita, para ser considerada e aceite como tal, deveria ser praticada de chapéu na mão e espinha vergada, balbuciando-se no acto da entrega, reverente e agradecido, muitos "obrigados!", diversos "desculpe por ser pouquinho!", um singelo e envergonhado "semos probes!", e já à porta, sempre andando às arrecuas, um derradeiro e definitiva "desculpe"...

O Natal era uma época especialmente porreira para as peitas. Consoada não é só o banquete de Natal, a reunião da família à mesa, na noite de 24 para 25 de Dezembro. Consoada é também a prenda que se dá a alguém pelo Natal, dias antes, e esse uso da palavra era então muito comum em Fafe.
Nas férias de Natal, era costume os meninos da escola primária levarem a consoada, isto é, a peita, a casa das professoras ou professores. Uma oferta simples, chocolates, rebuçados, alguma mercearia essencial, como se fosse para o Banco Alimentar, um gesto bonito, dir-se-ia, se não estivesse desde logo ferido de uma profunda injustiça social. Havia aqui, no exercício da peita escolar, qualquer coisa de insensato, algo de paradoxal, uma gritante subversão de valores - afinal, os miúdos éramos sobretudo filhos de operários, caixeiros de baixo salário, pequenos lavradores aflitos, tarefeiros incertos, proletários de uma forma geral, e os professores, apesar do infinito desprezo de Salazar, eram professores, quer-se dizer.
Havia professoras ou professores que levavam a mal e tomavam de ponta os alunos que não lhes dessem nada. Havia professoras ou professores que aceitavam simpaticamente o mimo e entregavam às crianças uns docinhos para a troca. Havia professoras ou professores que agradeciam muito o gesto, mas pediam aos meninos que voltassem a levar as coisinhas para casa, onde faziam muito mais falta. E havia o meu professor e a esposa do meu professor.
O meu professor, melhor dito, o meu excelentíssimo professor era o Toninho da Cafelândia, o Professor Correia, que morava, se não me engano, na Rua dos Combatentes da Grande Guerra, ali logo nas redondezas do Jardim do Calvário e do Tribunal. Fui lá uma vez levar a peita. Talvez um quilo de açúcar, do melhor, talvez um quilo de arroz, do melhor, ajeitados não em cartuchos normais, cinzentos, grosseiros, mas nuns cartuchos coloridos, alegres, finos, eventualmente até com fitinhas. A minha mãe caprichou.
Toquei a campainha e fui acolhido pela esposa do meu professor. Perguntou-me quem é que eu era, não precisei de explicar muito, sabia de nós, da nossa situação, a senhora agradeceu sinceramente os meus dois cartuchos, pegou neles com um sorriso, pediu-me para esperar um bocadinho à porta e foi lá dentro. A casa tinha umas escadas. A esposa do meu professor voltou num lampo e, quando voltou, vinha mais carregada do que quando foi. Trazia nas mãos, para me dar, um saquinho com rebuçados e um saco com quatro cartuchos dentro, talvez arroz, talvez açúcar, mas eram outros os cartuchos e a dobrar, para eu entregar à minha mãe e que lhe dissesse muito obrigado e que lhe mandava cumprimentos.
A boa senhora solucionara facilmente o paradoxo. E eu, todo contente, aprendi a lição da gentileza e da generosidade, do respeito pela dignidade do pobre que dá.

Por outro lado, convém não esquecer, o assunto aqui era a peita. A peita, de uma forma geral. A peita, isto é, a mama, a grandessíssima mama.