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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Zé Cão e o boxevista

Alta Autoridade
Era polícia municipal e media mais de dois metros. Chamavam-lhe Alta Autoridade.

Guardo gratíssimas recordações de São Clemente de Silvares. No Ademar, tasco praticamente gourmet, acolhedor e excelentíssimo, com a ramadinha à porta e lá dentro o vinho de categoria a refrescar no poço, eu costumava encontrar o Zé Cão, que tinha trabalhado com o meu pai na Fábrica do Ferro e era o homem mais alto do mundo. Pelo menos era o homem mais alto de Fafe e arredores, e não há mundo melhor do que o nosso, isso ainda hoje me parece. Por outro lado, para que nos situemos, informo que venho do tempo do pai do Ademar, o Sr. António, a quem chamavam "Sereno", e ele não gostava.
O Zé Cão, sentado, os joelhos batiam-lhe nos queixos com a barba por fazer. Era uma torre, pele e osso, vagaroso, comovido, desengonçado, gentil, decilitrado, só, pobre, criança em corpo descomunal, com uns sapatões de palhaço feitos certamente de encomenda e sempre agarrado à caneca de quartilho de verde tinto, que naquelas mãozonas mingava até parecer uma xícara de chá de casinha de brincar. Mãos hirsutas, nodosas e honestas. O Zé Cão era um homem com zê grande. 
O Valença, uma das maiores glórias do futebol local, tinha a mania de se meter com o Zé Cão, quando o nosso gigante descia a Fafe e parava, fatalmente, no Peludo. Na verdade, o Valença tem a mania de se meter com toda a gente, também se metia com o Landinho, o Nosso Menino, mas o que aqui interessa é o Zé Cão. E o Valença, quando o apanhava a jeito, obrigava o Zé Cão a contar vezes sem conta as suas idas ao Porto, ao Royal e ao Derby, velhos cafés de putas na Rua Chã, quase em frente um do outro, e o bom do Zé ia lá para aliviar o tesão a preço combinado, e uma famosa ocasião teve mesmo de se haver com um "boxevista", um "boxevista" a sério, se calhar chulo, na parte de cima da Ponte de Luís I, ali ao pé, discutindo exactamente e em vias de facto por causa das senhoras ou talvez honorários. E o Zé Cão ganhou. Ganhou, evidentemente, nem podia ser de outra maneira, o Zé Cão era nosso. E a piada a espremer da historieta seria tão-só fazer o Zé Cão dizer "boxevista", que a palavra era dele, isto é, "bocsvista" ou "boquessevista". A mando do Valença, o Zé Cão dizia, e tornava ao combate, e fazia os gestos como foi, e disparava ganchos e uppercuts, cruzados e directos, e era um campeão sem sair do seu canto, desajeitado, quase caindo, porém olímpico e ainda invicto, a lutar por merecer mais um copo que alguma alma caridosa fizesse o favor de lhe pagar.
O Zé Cão lutava um faz-de-conta tão escangalhado e convincente que parecia mesmo que estava no ringue a enfrentar-se ao peso-pesado cubano Teófilo Stevenson, por exemplo, o maior "boxevista" amador de todos os tempos, dando-se o devido desconto ao sentido da palavra "amador" em certos países naquela altura. Stevenson - triplo campeão do mundo e medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Munique 1972, Montreal 1976 e Moscovo 1980 - recusou sempre tornar-se profissional, por opção ou imposição, Havana é que sabe, rejeitando os sucessivos contratos de milhões de dólares com que os EUA lhe iam acenando. Morreu em 2012, infelizmente sem se ter tirado a limpo se ele era, de facto, melhor do que Muhammad Ali, como alguns puristas defendiam e, tanto quanto sei, ainda defendem. Melhor do que o Zé Cão, é que de certeza não era!
Lembro-me tão bem. O Zé Cão de São Clemente, o nosso gigante bom, que me contava histórias do meu pai, com os olhos piscos e rasos de água, desiludo e triste, quase tão órfão como eu. Quem diria que aquela figura frágil e desarticulada, aquela imensa marioneta, levara ao tapete, no seu tempo, um "boxevista", um "boxevista" a sério, porventura chulo de ponta e mola, e logo em cima da ponte, ao luar, como se fosse no cinema? As notícias nunca dão tudo, é verdade, mas não consta que Muhammad Ali ou Teófilo Stevenson alguma vez o tenham feito. Um "boxevista", por causa das putas, em cima da ponte? Não, não há registos. Façanha assim, só o nosso Zé!

domingo, 11 de maio de 2025

O bisavô Lindolpho, pedagogo e jornalista

No país dos setores
Há o setor público e o setor privado. O setor público ensina sobretudo em escolas do Estado e o setor privado em colégios fardados e universidades altamente propinadas. Há também, por exemplo, o setor da saúde, que, regra geral, é médico. O setor da saúde também pode ser público ou privado. Ou público e privado...

Um por acaso lembrou-me aqui atrasado do meu bisavô Lindolpho, pai do meu avô da Bomba e egrégia figura que infelizmente não conheci. Fui aos papéis. Lindolpho Von Doellinger, pedagogo, nasceu no Rio de Janeiro, Brasil, na freguesia de Santo António dos Pobres - tanto quanto consigo perceber na certidão de nascimento do meu avô, assento n.º 71, que preservo com devoção e fita-cola. Dos Pobres, e eu nunca tinha ligado. A minha vida começa finalmente a fazer sentido...
Que se segue? Fafe marcou o 10 de Junho de 2017 com a inauguração do Museu da Educação, em Silvares, dando estupenda serventia ao recuperado edifício da centenária Escola Deolinda Leite. Ora acontece que o primeiro professor desta escola deverá ter sido exactamente o meu bisavô (situemo-nos nos anos de 1892 a 1894), sendo certo que não parou por lá muito tempo - o que me faz lembrar uma pessoa que conheço muito bem. Ano e meio, se tanto, e já o "Sr. Lindolpho Von Doellinger" manifestava a sua "vontade férrea" de mudar de ares para "abrir uma escola particular denominada Santa Virgínia, em Fafe, por insistência de muitos pedidos de vários seus amigos", segundo leio num documento do sítio do Museu das Migrações e das Comunidades.
Outro por acaso fez-me descobrir que, provavelmente entre os anos de 1907 e 1912, o meu bisavô Lindolpho - a quem puseram uma alcunha que, por maldosa, aqui não repito, embora não me envergonhe - foi director do semanário político fafense "A Verdade". Quer-se dizer: isto anda tudo ligado, velho camarada!