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segunda-feira, 4 de maio de 2026

O dérbi eterno, em 96 ponto 7

Acontecimentos
Há acontecimentos épicos e acontecimentos hípicos. Às vezes coincidem.

Comecei a ver o Sporting-Benfica na cozinha, ouvindo o relato na rádio Antena 1. O Sporting-Benfica ou o Benfica-Sporting, nem que seja em damas ou dominó, é o melhor espectáculo do mundo, assim aprendemos em Portugal desde pequeninos. E realmente. Estava a ser um dérbi de arromba, um clássico dos antigos, uma partida palpitante, de categoria superior, talvez bancada ou até camarote, bola cá, bola lá, sempre nas áreas, quase-golos uns atrás dos outros, os relatadores esganiçados com tanta emoção, sobejavam-lhes os adjectivos, faltava-lhes o ar, que jogaço, que loucura! Fui a correr para a sala e liguei a televisão, para ver com os meus próprios olhos: o jogo era fraquinho, uma tristeza, não havia dois passes seguidos certos, os do Benfica, sem tino, entregavam a bola aos do Sporting e os do Sporting, atrapalhados, devolviam o esférico aos do Benfica, pareciam tolinhos, desajeitados, ignorantes das balizas, por banda de um e de outro lado. Entre cortesias tontas a meio campo, isso, no miolo do terreno, como nos dizem, sarrafava-se a bom sarrafar, é verdade, mas dentro de um protocolo aparentemente estabelecido e mutuamente aceite, combinado. Que pobreza, que sensaboria, que merda! Voltei, desiludido, para a cozinha, provei e pus sal no arroz de grelos, liguei outra vez o rádio: o prélio levantou imediatamente fervura, tornou a ser sublime, frenético, sensacional, fantástico, formidável, alucinante, arrepiante, épico, dantesco, um frémito, um frenesim, um AVC em potência, só não era golo porque não calhava e o INEM estava de prevenção. Eram defesas impossíveis, eram perdidas inacreditáveis, a bola sempre a rasar o poste, a bater insistentemente na trave, até parecia, mas saiu pela bandeirola de canto, foi para o quintal, mais três pontos para o País de Gales. Fiquei-me, portanto, pelos 96.7, que também podia ter sido o resultado final, tantos os golos cantados que contei, e, confesso, fiquei de barriga cheia, regalei-me. Que fartote! Tanto drama, tanta comédia, apesar do formidável zero-zero. Digo-vos. Esquecei a televisão por cabo, que nos custa os olhos da cara e só nos dá entretimentos deprimentes. O futebol, para ser bom, para valer a pena, deve ser visto na rádio Antena 1. 

Sou pela Antena 1 desde que nasci, no tempo em que a rádio era a preto e branco e a Antena 1 chamava-se Emissora Nacional e aos domingos dava os resultados da 3.ª divisão e dos distritais já pela noite dentro e era uma comoção tremenda ouvir dizer Fafe, Associação Desportiva de Fafe, no Philips da mesinha de cabeceira dos meus pais, ainda o pai era vivo e fazia-nos rir. Ficávamos ali todos à espera, a família, prezados ouvintes, como se estivéssemos a rezar o terço mas de boca calada, angustiados e alerta, porque aquilo era dito uma só vez, como no "Alô, Alô", e com a rapidez do "não dispensa a consulta do prospecto". Vamos supor: o jogo do Fafe tinha sido em Arcos de Valdevez, que naquela altura era muito longe e não havia telemóveis (eu sei que é difícil de acreditar), não fora o rádio e só saberíamos o resultado a altas horas da madrugada, se tivéssemos vagar para isso, quando a camioneta da excursão regressasse ao Largo, cheia de sono e de vinho, "bom dia, boa tarde ou boa noite, conforme a hora e o local em que nos escuta".
Sou, portanto, antigo, e faço gosto. Prefiro os dicionários encadernados à Wikipédia e os livros de uma forma geral às séries "de culto". Prefiro o éter à água oxigenada, a rádio à televisão. O melhor que a televisão tem, para mim, é que agora também dá relato. Quer-se dizer: é outra vez a velha rádio, lá com caras tipo passe, mas escusamos de olhar para ela.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Os melros já nascem ensinados

Cobras e lagartos
Ele dizia cobras e lagartos. E dizia sanguessugas e borboletas e gaivotas e cangurus e macacos e sardinhas assadas com salada de pimentos vermelhos, nomeadamente. Enfim, ele dizia o que lhe desse na cabeça...

A minha rua adoptiva, em Matosinhos-sur-Mer, é sítio de vadiagem animal, território de gatos e gaivotas. De umas pombas, vá lá, de uns pardejos lingrinhas, de um ou dois episódicos pintassilvos-comuns ou de uns cães abundantemente cagões e felizmente sem asas. Mas sobretudo, e historicamente, a minha rua é território de gatos e gaivotas, que vêm ao cheiro da comida que a minha vizinha lhes manda da varanda, besuntando de espinhas, patas de frango, gorduras várias e nojo extremo a estrada e o passeio mesmo por baixo do meu nariz. A minha vizinha foi quem primeiro chamou as gaivotas, mas entretanto enxota-as a baldes de água fria, porque, não sei se mudou de religião, agora só quer conversa com os gatos.
Ora bem: há mais de trinta anos que aqui moro e foram precisos mais de trinta anos para que me aparecesse à porta um melro. Sim, um melro efectivamente, e apresentava-se todas as manhãs. Melro cantor que dava gosto, e lambão benza-o Deus, também ia à marmita dos gatos da vizinha, até que um dia.

Na minha rua adoptiva passa a procissão do Senhor de Matosinhos e naquela altura, isto é, no tempo do melro, estava aqui estabelecido, mesmo no número ao lado, o Núcleo do Sporting, assiduamente visitado pelo então presidente Bruno de Carvalho, que também é um senhor, não desfazendo, e teve igualmente a sua cruz, ninguém pode dizer o contrário. Exigia-se portanto outro asseio.
Não sei se era para meter raiva aos sportinguistas locais ou se derivado a outro insondável motivo, a verdade é que o melro da minha rua, o meu melro, cantava sem parar o hino do FC Porto. E juro que não fui eu a ensiná-lo, eu seja ceguinho. Os melros, é o que têm, já nascem ensinados.

E eu, perante isto? Eu, que vim de Fafe habituado a melros com fartura, aos gatos em casa e à rede dos caça-cães que vinha do Matadouro e varria o terreiro do Santo Velho de uma ponta à outra, eu, dizia, gostei muito que o estupor do melro tivesse dado com a minha rua e com a frente da minha casa. Grande melro! Foi porreiro, porque assim já éramos dois. Mas quê? De repente o melro foi-se embora e Bruno de Carvalho também. Ao Bruno ainda o vejo de vez em quando a fazer figuras na televisão e leio-lhe os amores e os humores na imprensa cor-de-rosa, que é hoje em dia toda a comunicação social portuguesa. Ao outro melro é que nunca mais. Hoje em dia sou só eu. Eu e as pegas. As pegas, que vêm decerto do Parque da Cidade, onde o negócio já deu o que tinha a dar, e são mais do que as mães. Não sei se é do aquecimento global, mas não me largam a porta, o raio das pegas, sempre no conversê, e só me fazem passar vergonhas. A minha rua, quer-se dizer, parece agora um lunapário...

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Nem lhe teni, senhor árbitro!

Amor à camisola
Marcou golo. Golaço! Deslizou de joelhos pela relva, arrancou a bandeirola de canto, fez um coração com as mãos para a câmara de televisão mais próxima, bateu no peito como tarzan, apontou insistentemente para o emblema magnífico, abraçou-se à camisola suada, beijou-a com exagerada paixão, puxou-a mais para si, mais para cima, e... assoou-se-lhe copiosamente.
 
João Costeado, lembro-me tão bem dele. Bom moço, rapaz quase da minha idade. O grande Costeado, que jogou no meu Fafe na passagem da década de 1970 para a década de 1980 e que brilhou naquela extraordinária equipa de Nelo Barros que fez frente ao Sporting nas meias-finais da Taça de Portugal e que era assim, tal como a anunciei aos altifalantes do estádio cheio como um ovo: Zé Maria, Costeado, Cândido, Castro e Manuel Fernandes; Albano, Sousa Pinto e Valença, Valdemar, Daniel I e Nogueira. Que luxo! Que máquina! Quem no-la dera naquele ano administrativo em que fomos cheirar a primeira divisão, com alguma trafulhice à mistura! Nem teríamos descido, digo eu...
Mas a tal meia-final da Taça, e já era a segunda em apenas três anos. Nós na segunda divisão, que era o nosso sítio, que ainda hoje devia ser o nosso lugar, e o Sporting que era o Sporting, e que se apresentou, pelo sim e pelo não, com bisarmas do calibre de Botelho, Inácio, Laranjeira, Baltasar, Manuel Fernandes ou Rui Jordão. Foi na época de 1978/79, no nosso campo, nós, futuristas e ingénuos, vestidos de "Espaço 1999", e roubaram-nos a glória da final no Jamor, ou pelo menos a hipótese de um segundo jogo em Alvalade, roubaram-nos, dizia, com um penálti produzido pelo árbitro e convertido por Jordão aos 94 minutos, isto é, já no prolongamento. A peregrina falta que deu origem ao castigo que teve tanto de máximo como de injusto foi assinalada, imaginai, ao nosso Costeado.
O João era uma riqueza de moço. E o Costeado, que depois até jogou quatro vezes pela Selecção, à pala do forrobodó de Saltillo, era um defesa direito velocista porém tecnicamente equilibrado, raçudo e amiúde sarrafeiro. Aliás, bastante sarrafeiro. Mas estava inocente naquele dia, diga-se em abono da verdade. A Bola, o insuspeito jornal do Benfica, fazia até notar que o árbitro "julgou mal o famigerado lance de Costeado, conferindo-lhe, primeiro, uma natureza e uma intencionalidade, depois, que a nosso ver não teve", e parece que estou a ouvir o Joaquim Rita, com vírgulas e tudo, e o texto era realmente dele.
Ora bem. Acontece que naquele tempo não havia VAR. O VAR daquele tempo eram o Carlos Manuel ou o André a andarem sempre à volta do árbitro a dizerem o que devia ou não devia ser marcado, e nunca falhava. À falta do Carlos Manuel e do André (e, já agora, do Bruno Fernandes, que é actualmente VAR em Inglaterra), o próprio Costeado deu conta do recado, colando-se ao juiz da partida, Santos Luís, agarrando-o respeitosamente pelo avental, pedindo-lhe, rogando-lhe, rezando-lhe, implorando-lhe, jurando-lhe, repetindo-lhe quase em lágrimas, estou em dizer que mesmo em lágrimas - Eu nem lhe teni, senhor árbitro! Nem lhe teni, senhor árbitro! Nem lhe teni!...

O árbitro, o senhor árbitro, não reverteu a decisão. O Sporting era o Sporting. Chamaram-lhe "o roubo do século". Conta A Bola que "Santos Luís saiu fardado de polícia". E Costeado, após a ladainha chorosa, rebaptizado logo ali pelo Valença, passou a chamar-se "Teni", sem apelo nem agravo. Sim, o João Costeado é o "Teni"!