Sou muito forte mentalmente e jogo muito bem sem bola
Sou muito forte mentalmente, tenho uma grande cultura táctica e razoável visão periférica. Jogo muito bem sem bola. Mas sobretudo sou muito forte mentalmente, que é o que faz a diferença em campo. Não me levam ao Mundial, e eu não percebo. Tenho um centro de gravidade que tomaram muitos. É certo que me falta alguma margem de progressão e realmente nunca fui aquilo a que se possa chamar "jogador de futebol", embora jogue muito bem com os dois pés, mas com ambos ao mesmo tempo. Em todo o caso, sou - creio que me repito - muito forte mentalmente e jogo muito bem sem bola.
O adepto. O adepto anda quatro anos a poupar para acompanhar a selecção no Mundial. Ou então assalta um banco. Acompanhar a selecção no Mundial implica, às vezes, atravessar meio mundo e morar fora durante um mês - coisa para custar um dinheirão. O pão e água para toda a família, que fica em casa, justifica-se portanto como regime de emergência, e o assalto a bancos também. É o amor, é o país, é a selecção. Está certo.
Depois a selecção não joga nada, está a levar três secos a dois minutos do fim e já tem guia de marcha para o regresso a casa. E o adepto entra numa depressão desgraçada, mãos esgadanhando a cabeça incrédula, lágrimas esborratando as pinturas de guerra, dei cabo da minha vida por esta merda, ai os meus ricos filhinhos, mais me valia morrer, uma tristeza que só vista. Exactamente. A televisão vê a tristeza do adepto - profunda, incrédula, esgadanhada e esborratada - e passa-a no ecrã gigante do estádio. Em câmara lenta, HD e 4K. As lágrimas do adepto, momento televisivo de rara beleza. O adepto vê que está a ser visto na televisão, e salta, e ri, e manda beijinhos, e faz caretas, e tira macacos do nariz, e fica tão feliz, tão feliz, tão feliz da vida, que se lixe o desespero, que se lixe a selecção, que se lixem os filhos, valeu bem a pena a fome que passaram durante quatro anos. Ou o assalto ao banco. Que está certo e também dá na televisão.
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