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sábado, 20 de dezembro de 2025

Senhor, estou pronto para o Natal!

Crime perfeito
Arranjou uma amante, contratou um mordomo, atrasou o relógio, matou a mulher e chamou a polícia. Por esta ordem.

Estou preparadíssimo para o Natal: "Quo Vadis", "As Sandálias do Pescador", "A Bíblia", "Barrabás", "Ben-Hur", "Os Dez Mandamentos", "A Túnica", "A Última Tentação de Cristo", "Jesus de Nazaré", "Jesus Cristo Superstar", "A Paixão de Cristo", "Spartacus", "Demétrio, o Gladiador", "Sansão e Dalila", "O Sinal da Cruz", "O Evangelho Segundo São Mateus" - venham, que eu estou à espera. "Sozinho em Casa" um, dois, três, quatro, cinco, "Grinch" um, dois, três, "O Amor Acontece", "O Amor Não Tira Férias", "Regresso ao Futuro" um, dois, três, quatro, cinco, "Tubarão" um, dois, três, quatro, cinco e seis cabeças, "Parque Jurássico" um, dois, três, "Momento da Verdade", de um a cento e trinta e dois, "Die Hard",  "O Último Tango em Paris", "Garganta Funda" ou "O Diabo na Carne de Miss Jones", eu aguento.
E, se quiserem, mandem também "Sete Noivas para Sete Irmãos", "A Máscara do Ranger", "E Tudo o Vento Levou", "Um Violino no Telhado", "Música no Coração", "O Feiticeiro de Oz", "Citizen Kane", "O Prisioneiro de Alcatraz", "Cinema Paraíso", "As Pontes de Madison County", "A Ponte do Rio Kwai", "O Expresso de Von Ryan", "Mamma Mia!", "Os Canhões de Navarone", "Rambo" um, dois, três, quatro, cinco, "Doze Indomáveis Patifes", "O Bom, o Mau e o Vilão" ou até "A Vida de Brian". Nosso Senhor é como o Sol, quando nasce é para todos, e mais vale ficar solteiro que casar sem ter dinheiro.

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

O Céu pode esperar

Para falar com Deus
Tomou horas, foi para a fila, tirou senha, esperou vez, chamaram-lhe o número, acostou finalmente ao balcão das informações e perguntou: - Para falar com Deus, falo com quem?...

Manhã cinzenta de Outono a ameaçar chuva. No chão de cimento do pequeno cemitério, bem varrido, jaz, abandonada e fria, uma senha de vez. Aos meus pés, o famigerado ticket, ou tiquê, como nos dá muito mais jeito dizer, e dá-nos sempre muito mais jeito dizer mal. Vergo-me e apanho. "Sua vez", avisa a senha número E29, como se soubesse alguma coisa da minha vida que eu não sei. Da minha vida ou da minha morte. E manda, "Puxe". Puxei, quero dizer, pensei: poderia dar-se o caso de ser esta a solução desenterrada por espertos sepultadores para organizar as dezenas ou centenas de defuntos que diariamente se acotovelam aos portões dos cemitérios sobrelotados, à espera de vez, à espera de vaga. (Os mortos portugueses têm geralmente medo de serem queimados vivos e, como resultado, num país com uns económicos 92 mil quilómetros quadrados, os nossos campos-santos rebentam pelas costuras, as campas não chegam para as encomendas.) Mas não: a coisa não é assim tão terrena, pensei melhor, isto vem, upa, upa, lá de cima. É assunto de almas e não de corpos. É. O Céu está equipado com pelo menos um dispensador de senhas de vez, tive a certeza e tinha a prova na palma da mão. Percebi tudo. Queres a salvação eterna? Tira o número e vai para a fila, essa é que é essa! "Mas que bizarra epifania, mas que desgosto tão grande, lá se me foram os fundamentos" - lamuriei-me, rangendo os dentes. - "Até Tu, meu Deus?! Que tristeza! Onde o negócio e a burocracia já chegaram"...
O meu número é o E29, calhou-me, não sei em que número vai, mas, palavra de honra, estou sem pressa. Dou a vez.

segunda-feira, 21 de julho de 2025

Lourenço da Arrábida

Cu de Judas
Mandaram-no para o cu de Judas, e ele foi. Era escuro.

O problema do Lourenço da Arrábida era o equívoco. Ou o gozo. O inocente equívoco ou o gozo premeditado, ele ainda não chegara à verdadeira conclusão. O Lourenço tinha um tasco na Cantareira, paredes-meias com a ponte, e vai daí ficou-lhe o nome, que se propagou compreensivelmente ao estabelecimento - "Lourenço da Arrábida vinhos & petiscos", lá estava na tabuleta, como manda a sapatilha. Servia às quintas-feiras uma dobrada de razoável gabarito e preço em conta, segundo se constava. O certo é que as pessoas estavam sempre a perguntar-lhe pelo Omar Sharif, pelo Anthony Quinn, pelo Alec Guinness, ou se, de facto, ele viu Judas a cagar no deserto, como se dizia em Fafe no meu tempo do Cinema. Chamavam-no à televisão para comentar a situação no Médio Oriente, a mortandade em Gaza, as ameaças do Irão, o fundamentalismo no Afeganistão, os campeonatos da Arábia Saudita e do Catar, mas depois admiravam-se por ele estar vivo e, consequentemente, aparecer em pessoa, uma vez que, para todos os efeitos, morrera num acidente de mota. Perguntavam-lhe também, se, por falar nisso, a Guinness deve ser bebida ligeiramente fresca ou à temperatura ambiente, como há quem defenda, sem perceber nada do assunto. Outros, ainda, queriam saber se ele pintava o cabelo de louro, o que não fazia qualquer sentido, porque o Lourenço era completamente careca. Enfim, já se sabe como são as pessoas...
O bom do Lourenço, primeiro, ia aos arames, afinava, escamava-se, ficava piurso. Cego pelos nervos, num repente rapava da cimitarra e desatava a gritar "mouros!" e a matar a torto e a direito felizmente só da boca para fora. Quantas tragédias foram assim prometidas e adiadas, para enorme desconsolo da CMTV e assinalável prejuízo da indústria funerária da região. Mas com o tempo o nosso herói assentou, ganhou calo no cu, como se diz psicologicamente falando. Agora se o azucrinam com as tretas do costume, ó Lourenço isto, ó Lourenço aquilo, ele encolhe os ombros largos de desdém, pigarreia uma e outra vez, sacode duas valentes chibatadas no camelo de estimação e desaparece dali a galope, ondulando o manto branco por entre hordas descontroladas de turistas japoneses e outros infiéis que descem e sobem aos encontrões as ruas completamente escangalhadas da Baixa portuense.